11/02/13

"O universo não é produto das trevas e da ausência de razão."

 
(Nota- os temas da Razão, da Fé, da Criação e das Ciências Naturais no pensamento de Joseph Ratzinger).
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                            1. O carácter racional da fé na criação
 
   Esta compreensão tem de ser aprofundada ao longo de duas linhas de pensamento. A primeira coisa que temos de considerar é o "isso" da criação. Esse "isso" exige uma razão; ela aponta para o poder que estava lá no início e que pôde dizer: "Faça-se...". No século XIX isto era visto de outra maneira. As ciências naturais estavam profundamente influenciadas por duas grandes teorias: a da conservação da matéria e a da conservação da energia. Por conseguinte, o universo parecia ser um cosmos eterno, governado pelas imutáveis leis da natureza, dependente apenas de si mesmo e não necessitando de nada que lhe fosse exterior. Estava ali como um todo e por isso Laplace pôde dizer: "Já não preciso da hipótese de Deus". Entretanto, foram feitas novas descobertas. A teoria da entropia postula que a energia que é utilizada numa determinada área já não poderá ser recuperada. Isto significa que o universo está sujeito tanto à mudança como à destruição. O carácter temporal está inscrito nele. Depois disto, veio a descoberta de que a matéria se pode converter em energia, o que alterou substancialmente as duas teorias da conservação. Seguiu-se a teoria da relatividade, entre diversas outras que mostraram que o universo está de facto marcado pela temporalidade, uma temporalidade que nos fala de um início e de um termo, e da passagem de um princípio para um fim. Mesmo que fosse realmente impossível medir o tempo, poder-se-ia ainda assim compreender, através da obscuridade de biliões de anos, pela consciência da temporalidade, o que a Bíblia designa por princípio - o princípio que aponta para Aquele que teve o poder de dar origem ao ser e de dizer "Faça-se...", e assim aconteceu.
   Uma segunda consideração vai além do mero "isso" do ser. Ela tem a ver com o desígnio do universo, o modelo que foi usado na sua criação. Daquele "faça-se" não resultou a criação de uma qualquer amálgama casual. Quanto mais sabemos acerca do universo, mais profundamente nos sentimos impressionados por uma Razão cujos métodos só podemos contemplar com assombro. Ao aprofundá-los, podemos entender de uma maneira nova a Inteligência criadora à qual devemos a nossa própria razão. Albert Einstein afirmou que nas leis da natureza se revela uma Razão supeior" tal que tudo o que de significativo emergiu da razão e da concepção humanas é, em comparação com ela, o mais pobre reflexo". No infinitamente grande, no mundo dos corpos celestes, vemos revelada uma poderosa Razão que sustenta o universo. E estamos a penetrar cada vez mais no infinitamente pequeno, na célula e nas unidades primordiais da vida. Aí também descobrimos a Razão que nos surpreende, de tal modo que devemos dizer com São Boaventura: "Quem não vê aqui é cego. Quem não ouve aqui é surdo. E quem aqui não começa a adorar e a louvar a inteligência criadora é mudo." Jacques Monod, que rejeita toda a fé em Deus por ser não-científica e pensa que o mundo teve a sua origem numa interacção entre o acaso e a necessidade, afirma, na mesma obra em que procura apresentar e justificar sumariamente a sua perspectiva acerca do mundo que, depois de ouvir as suas conferências que foram posteriormente publicadas em livro, François Mauriac terá afirmado: "Aquilo de que este professor nos quer convencer é muito mais inacreditável do que aquilo em que se esperava que nós, simples critãos, alguma vez acreditássemos". Monod não nega isto. De acordo com a sua tese, todo o conjunto da natureza resultou de erros e dissonâncias. E não pode fazer mais do que dizer a si mesmo que uma tal concepção é absurda. No entanto, segundo ele, o método científico não permite que seja formulada qualquer questão para a qual Deus seja a resposta. A única coisa que podemos dizer é que um tal método é patético. É o próprio Deus que resplandece através da racionalidade da sua criação. A física, a biologia e as ciências naturais em geral deram-nos uma nova e inaudita explicação da criação, com novas imagens grandiosas que nos permitem reconhecer o rosto do Criador, e que nos permitem precisamente reconhecer, mais uma vez, que no princípio e no fundamento de todo o ser há uma Inteligência criadora. O universo não é o produto das trevas e da ausência de razão. Ele emerge da inteligência, da liberdade e da beleza que se identifica com o amor. Compreender isto dá-nos coragem para continuar a viver, confere-nos autonomia e faz-nos sentir confortados para assumirmos, nós próprios, a aventura da vida.
 
 
   Ratzinger, Joseph. No Princípio Deus Criou o Céu e a Terra. Cascais: Princípia Editora, 2009, pp 32 - 34.
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10/02/13

Relato...

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                                           “ Eneias e o Anjinho”

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Monsieur entrou ofegante: mochila logo à porta da sala, o blusão atirado para cima dum  sofá.
Vai sair os verbos e as funções sintácticas!, disse. O.K!, puxa então a tua mesa para ao pé da minha! Veio a mesa, veio a mochila vomitando compêndios, folhas A4, um estojo… Dá cá o livro para eu escolher um texto. Ele deu. Eu escolhi. Começámos ambos à cata de verbos que ele ia cantando nos mais diversos tempos, modos e pessoas. Quando dei por encerrada aquela parte da aula, eis que ouço: não me perguntaste o mais que perfeito do conjuntivo! E zás, varreu-se-me tudo: nem perfeito, nem conjuntivo, nem nada… E quanto eu mais procurava, mais se adensava a branca. Eh, não sabes o mais que perfeito do conjuntivo!, exclama o anjinho. Tá calado, rapaz, não vez que estou cansado! Não sabes, não sabes: é aquele que tem o “tivesse”, que vimos no outro dia. Há um a zero, pensei eu! Acabou!, pus eu aquela cara agressiva que, às vezes, lá consegue ir convencendo. Agora vamos às orações!, decreta Monsieur. Eu arrumo as gramáticas, as notas, as brancas… Ai queres orações?, então começa já a dizer o Pai-Nosso!, finjo-me eu zangado. Eh, é orações, mas não é dessas… E lá fomos em busca das orações perdidas. Era um texto que falava de pescadores, de tubarões e de todo o tipo de actividades marítimas. De repente surge-me algo do estilo: “(…) e tinham-nos trazido estendidos sobre tábuas estreias”. Sujeito?, pergunto. Não tem! Não tem?! Espera, espera… Torce-se na cadeira, sua, debruça-se sobre a página: tem, tem… Tem?! Sim, está subentendido! Em que é que ficamos é inexistente ou está subentendido? Eh, pá, já te disse: tá subentendido! Depois, nova luta por causa do “nos”… Enorme discussão para o convencer que o “nos” não se referia a “nós” mas aos tubarões, logo não podia ser complemento directo… Finalmente acabou o primeiro round com um a zero.
No dia seguinte Monsieur delimita logo as tarefas: temos de ver Os Lusíadas, porque também vai sair. Lusíadas às 17h depois de um dia inteiro de volta do Realismo francês era tarefa de leão, mesmo assim aceitei. Sabias, pergunta-me ele com ar erudito, que o Camões não começa a contar logo do princípio, ele começa a meio, na ilha de Moçambique, sabias? Respondo: não, não sabia, por isso é que tu estás aqui pra me explicar! Não o deixo ir para a ilha de Moçambique sem primeiro atacarmos a Proposição, a Invocação e a Dedicatória. Ele começa a ler… Pára aí! Olha-me: que foi? É que eu quero saber se estás a ler Os Lusíadas ou a fazer um relato de futebol. Ri. Retoma a leitura. Pára aí! Olha-me de novo: que foi agora?Agora?!, agora não estás a fazer um relato de futebol, mas deves estar a ler um mail… isso não tem ritmo, entoação, pontuação? Eh, pá, és um chato! E lá atacamos as estrofes que eu pretendia. O anjinho sabia tudo: o Trajano, as Tágides, o engenho, as rimas, todos os tipos de estrofes dos dísticos às oitavas, mas… eis que cavei a minha perda: “cessem do sábio Grego e do Troiano”, falei-lhe de Homero, fui à estante buscar a Ilíada e a Odisseia e fiz-lhe – passe a redundância!- duas breve sínteses, mas quando cheguei ao Troiano veio de novo a branca… Branca-branca que só me conseguia lembrar do Príamo, do Paris, do Heitor, mas não era nenhum desses. Então oiço: eh, não sabes quem é o Troiano! Eu penso: “prontus”, dois a zero! O anjinho ergue a cabeça para me explicar: o Camões está a falar de Eneias, é que ele foi influenciado por Virgílio, pela Eneida… Eh, não sabias! De um jacto levanto-me, vou à estante e tiro o “Obras de Virgílio”, na tradução do Agostinho da Silva, e mostro-lhe a Eneida toda sublinhada. Não me interessa, insiste o anjinho, não foste tu que sublinhaste… não sabias quem era Eneias. E ria, ria… Eu também ria, mas para dentro, a fingir-me zangado…
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06/02/13

   Fernando Namora, saído jovem da universidade de Coimbra, inicia um périplo voluntário que o enraíza na alma do povo rural pobre, fundindo as suas preocupações estéticas com as necessidades de sobrevivência do povo que ia retratando. Como médico, vive longos anos em Condeixa, sua terra natal, Tinalhas e Monsanto, cerca de Castelo Branco, e Pavia, no Alentejo. João Semana espontâneo, Namora, confrontado com o estado geral de pobreza dos camponeses, escreve o magnífico Retalhos da Vida de Um Médico, I Série, 1949, Casa da Malta, sobre ganhões migrantes, 1945, Minas de S. Francisco, em 1946, A Noite e a Madrugada, em 1950, e, finalmente, a sua obra-prima da arte da narração, um dos mais belos e mais bem escritos romances do século XX e peça de altar do neorrealismo português pela densidade das personagens e coesão harmónica da ação: O Trigo e o Joio, 1954. Em todos estes romances, Fernando Namora, em imagens estéticas vivas e intensas, retrata a avassaladora miséria económica do quotidiano português da primeira metade do século XX.
   Nesta fase rural de Namora, a sua escrita confunde-se com o ideário neorrealista, embora sem se identificar de um modo pleno com este movimento do ponto de vista filosófico, como Urbano Tavares Rodrigues, em 1980, muito lucidamente sublinhou em "O Rosto e a Máscara na Obra de Fernando Namora", e como o próprio Namora, em 1961, ressalva no seu opúsculo Esboço Histórico do Neo-Realismo, considerando o neorrealismo esgotado como projecto literário subsidiário de uma repetição monótona de "temas, ambientes e processos estilísticos". Porém, criativamente, O Trigo e o Joio passará à história como o mais alto monumento estético do nosso neorrealismo possível, isto é, um neorrealismo cujos "temas" se centram na exploração económica do campesinato e não do operariado, cujos "ambientes" se circunscrevem maioritariamente ao ruralismo e cujos "processos estilísticos" nunca superam o documentarismo realista - teses de Namora.
   Entre 1956 e 1965, Fernando Namora instala-se em Lisboa, trabalhando no Instituto Português de Oncologia. Lisboa inspira em Namora uma nova alma, correspondente a uma nova fase da sua obra. Os três livros seguintes, O Homem Disfarçado, de 1957, Cidade Solitária, de 1959, e Domingo à Tarde, de 1961, são expressão deste segundo Namora, que,  sem ferir os seus princípios de cidadão interiorano, soube acolher o pulsar da capital. Lisboa vive então o frenesim criado pelo choque surdo entre diversas correntes literárias, e Namora, mente montesina, experimenta o sabor de uma pulsão estética nascida em Portugal na década de 50, o existencialismo de origem francesa, que acabara de evidenciar a sua cristalização consagrante em Aparição, Vergílio Ferreira, publicado em 1959. Namora confronta-se com esta mentalidade urbana pós-Segunda Guerra Mundial e, acompanhando a História, acolhe-a nos três últimos livros citados, promovendo uma bem conseguida ponte estética entre realismo e existencialismo. Se O Trigo e o Joio se constitui como a sua obra exemplar do período neorrealista, a exploração das nuances da psicologia humana em Domingo à Tarde torna este livro o seu equivalente para esta segunda fase da sua obra.
   Em 1966, publica Diálogo em Setembro, "romance-ensaio" no dizer de Mário Sacramento (Fernando Namora, Lisboa, Arcádia, s/data, p. 81), ou crónicas romanceadas, no dizer do próprio Namora, romance que aproxima a obra do autor do esteticismo presente na narrativa portuguesa da década de 60.
 
  Real, Miguel. O Romance Português Contemporâneo: 1950 - 2010. Alfragide: editorial Caminho, 2012, pp 75 - 77.
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05/02/13

"Os dias começam-me de forma imprevista. Isto poderia ser uma boa definição da juventude. E, curiosamente, acontece-me."


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   tenho andado com a impressão de que há uma nova vida à frente. Não sei se é bom, se é mau. Sei que é engenhoso, sem ser contudo inquietante. A inquietude é algo que se vai perdendo com a experiência. A sua escala vai diminuindo e a qualidade de vida aumentando, pese o preço que se vai pagando por isso: as derrotas, as decepções, as perdas que lhes estão associadas, todas na medida maior, caso contrário não produzem efeito na escala insidiosa do que já foi inquietante.
   Quando se toca o fundo de uma série de histórias, acompanha-nos a respectiva dor e, ao mesmo tempo, um magnífico horizonte de recomeço. É precisamente dessa fórmula, desse encontro entre a dor e o recomeço que se pode diminuir a inquietude.
   Ficarei por Paris até ao Natal. Tenho estado hospedado na suite da Patrícia, uma herança que ela agora usa para hospedar amigos. Esta independência tem servido para me confrontar com algum desconhecido. Chega-se a este ponto da vida com a impressão de que só se desconhece ciência e cultura. Ou seja, aquilo que as diferentes cátedras são capazes de nos injectar durante uns parcos tempos nos bancos rotineiros das universidades. Mas o espanto está no resto. Tem-me espantado o grau de desconhecimento sobre a humanidade dos humanos. Quero dizer, o que ainda  não sei sobre o sorriso de milhões, sobre as lágrimas de outros tantos, sobre a insinuação do mundo, sobre o anseio que paira na tal humana humanidade que possui o universo. E isso tem-me dado um inumerável aumento de horizontes que é um pouco estranho à nossa idade.
   Quando penso que já vivi a maior parte da vida, sinto uma certa avareza por perceber que o tempo é muito pouco para chegar satisfatoriamente a essas emoções e pensamentos que têm os outros e que nos mudam.
   Há dias ouvi uma conversa entre uma rapariga e uma vendedora de flores em Saint-Michel que me povoou a manhã. A vendedora de flores tinha uma genuína apropriação emocional da sua profissão. Ela sabia sempre, pelo olhar que os clientes lançavam às flores, a quem se destinavam. Sabia o significado que lhes davam no momento da escolha: as esperanças, os refúgios, as perdas, a dedicação, sabia os códigos das flores no coração alheio. E isso é a tal humana humanidade de que te falava e para a qual já há pouco tempo para apreciar, para saber, mas que é um autêntico atlas.
   Quando já se andou por quase todos os continentes, como é o meu caso, parece que já quase nada nos pode espantar. Mas não. Há um lugar muito maior do que o mundo para descobrir e para fruir. A poética que encerra a viagem até ao outro é também ela um desafio de navegação com aspecto tão de infinito quanto a vista que se tem dos promontórios em direcção à linha do horizonte.
   Os dias começam-me de forma imprevista. Isto poderia ser uma boa definição da juventude. E, curiosamente, acontece-me.(...)
 
  Martins, Pompeu Miguel. Ficar. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 65 - 66.
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04/02/13

"Eu sempre gostei mais das pessoas estranhas (...) falam de assuntos de que nunca nos lembramos..."


   A Margarida tem umas mãos muito bonitas e quando joga ao berlinde connosco eu gosto de ficar a olhá-las e então lembro-me da vez em que me tocou o ombro, fazendo desaparecer por momentos a minha tristeza. Aquele único toque mudou a minha vida. Mas, a verdade é que continuarei só a olhá-la e a achar que é a mais bela rapariga, porque do outro lado tenho o Lininho, esse sim o melhor amigo e o melhor irmão do mundo. Acho que somos felizes os dois. Acho que nos bastamos. Pelo menos, até agora tem chegado, até porque o Lininho nunca me disse que era infeliz e, em segredo, eu pensei muitas vezes que, se eu fosse ele, seria certamente infeliz.
   Os meus amigos falam da Margarida como se falassem de uma pessoa muito estranha. Talvez por ela ser diferente e jogar connosco. Eu sempre gostei mais das pessoas estranhas. Surpreendem-nos, mostam-nos coisas diferentes, falam de assuntos de que nunca nos lembramos, reparam no que mais ninguém repara e dão valor ao que pouca gente dá. As pessoas estranhas são as que mais sabem sobre o que eu sinto. É pena que não haja uma pessoa estranha que perceba mesmo tudo. Se a Margarida percebesse tudo, eu pedia-a em namoro, assim só gosto dela e sou feliz, em segredo, com a sua estranheza.
 
   Martins, Pompeu Miguel. Ficar. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 29.
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03/02/13


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A poesia de José Carlos Ary dos Santos.
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01/02/13

"Os rapazes da tua idade nunca podem fazê-lo, a não ser muito excepcionalmente"

 
 
" E tu?" Falara com uma certa ansiedade, porque, de repente, a ideia de a filha gostar de um homem lhe pareceu quase monstruosa. "E tu?", repetiu.
Lisa, porém, sossegou-a. Riu um pouco, encolheu os ombros. "Não, está descansada. Gosto que ele goste de mim, é tudo. Ainda me sinto muito nova para criar problemas. Quero divertir-me." Ficou um momento pensativa e depois declarou: "Sabes, mãe, creio que nós, a gente nova de agora, temos uma coisa que vos faltou. Sabemos que é preciso aproveitar o tempo. Vocês..."
Dora perguntou-lhe: "Mas o que sabes tu de nós? "
"Calculo. Nós sabemos que a juventude é curta e tem de ser aproveitada porque aos trinta anos tudo acabou. E aproveitada da melhor maneira. Pensando no futuro, talvez. É importante, o futuro."
"Pensarás de maneira diferente quando os tiveres, disse Dora, que não ouvira as últimas palavras de Lisa. "Hás-de adiar o fim para os quarenta, depois para os cinquenta. E assim nunca te sentirás velha."
"Pensas assim, tu?"
"Oh, eu..."
"Mas a juventude, onde está?", prosseguiu Lisa. "Perdeu-se, de qualquer maneira. Então... Tu, por exemplo... Rejuveneceste, muito bem. Mas o que aproveitaste da vida? Até agora, quero dizer..."
Era uma pergunta difícil para aquele dia. Dora Rosário, porém, dominou-se, conseguiu responder aquilo que teria respondido antes da conversa nocturna com a sogra: "Fui feliz com o teu pai."
Lisa duvidou gentilmente: "Sim, talvez. Mas achas que basta para a vida de uma pessoa oito ou dez anos de felicidade, se assim lhe queres chamar? E o que veio depois? As dificuldades, tudo isso? A vida tem de ser toda aproveitada, é o que nós sabemos. Só me quero apaixonar por quem eu quiser. Por alguém que me garanta segurança, compreendes?"
Dora Rosário disse: "Os rapazes da tua idade nunca podem fazê-lo, a não ser muito excepcionalmente", e Lisa assegurou com ar sonhador e um tanto sibilino: "Por isso mesmo."
As raras conversas a sério que tivera com Lisa haviam-lhe deixdo sempre, como aquela, um travo na boca. A filha parecia conhecer a vida antes de a ter vivido, parecia liberta de todos os espantos antes de se ter espantado.
 
 
    Carvalho, Maria Judite de. Os Armários Vazios. Mem Martins: Pub. Europa-América, 1993, pp 52 - 54.
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30/01/13



                    " (Parte final da) Carta 4 De Hipérion para Belarmino  "


   Depois o antigo deus do Sol ergueu-se na sua eterna juventude, satisfeito e sem esforço como sempre, e o imortal Titã voou para o alto com as suas próprias inúmeras alegrias e sorria para baixo, para a sua terra deserta, para os seus templos, as suas colunas, que o destino tinha derrubado diante dos seus olhos, como as folhas secas de roseira, que uma criança ao passar irreflectidamente arrancou e espalhou pela terra.
   Sê como este! Disse-me Ádamas, agarrou-me na mão e apontou-ma na direcção do deus, e para mim era como se os ventos matinais nos levassem para longe, fazendo-nos chegar até ao séquito desse ser sagrado, que agora subia aos cumes do Céu, amável e grandioso, e nos enchia maravilhosamente, a nós e ao mundo, com a sua força e o seu espírito.
   O meu ser mais íntimo ainda se alegra e se entristece, com cada palavra que Ádamas então me dirigiu, e não entendo a minha indigência, quando tantas vezes me sinto como ele nessa altura era forçado a sentir-se. O que significa a perda, quando o homem assim se encontra no seu próprio mundo? Em nós está tudo. Que importa ao homem então que um cabelo caia da cabeça? Porque procura ele a servidão, quando poderia ser um deus? Sentirás a solidão, meu amado! também me dizia então Ádamas, serás como o grou, que os seus irmãos deixam para trás na estação rigorosa, enquanto procuram a Primavera em terras longínquas.
   E é isto, meu caro! É isto que nos torna pobres no meio das riquezas: por não podermos estar sós, por o amor não morrer em nós enquanto vivermos. Dá-me de novo o meu Ádamas e vem com todos os que me pertencem, para que o antigo mundo belo entre nós se renove, para que nos reunamos e unamos nos braços da nossa divindade, da Natureza, e, olha! assim não sei o que é a indigência.
   Mas não diga ninguém que o destino nos separa! Somos nós, nós! Nós é que nos comprazemos em lançarmo-nos na noite do desconhecido, na fria estranheza de um qualquer outro mundo e, se possível fosse, deixaríamos a região do Sol para ultrapassar as fronteiras do planeta. Ai! para o peito indómito do homem não é possível ter uma pátria; e tal como o raio de sol, que faz crescer as plantas da terra, de novo as cresta, assim o homem mata as doces flores  nascidas no seu peito, as alegrias da afinidade e do amor.
   Parece que fiquei enfurecido por o meu Ádamas me ter deixado, mas não lhe guardo rancor. Oh, ele até queria voltar!
   Dizem que nas profundezas da Ásia existe, oculto, um povo de rara perfeição. Nessa direcção o impeliu a sua esperança.
   Acompanhei-o até Ios. Foram dias amargos. Aprendi a suportar a dor, mas para tal separação não existiam em mim as forças necessárias.
   A cada momento que nos aproximava da hora derradeira, tornava-se cada vez mais evidente quanto este homem estava no tecido do meu ser. Tal como um moribundo retém a respiração que se escapa, assim eu o retinha.
   Junto ao túmulo de Homero passámos ainda alguns dias, e Ios passou a ser para mim a mais sagrada de entre as ilhas.
   Por fim, apartámo-nos. O meu coração estava cansado de lutar. No momento derradeiro já estava calmo. Estava diante dele de joelhos, abracei-o com estes braços pela última vez. Dá-me a tua benção, ó meu pai! disse baixinho, erguendo para ele o olhar e nele se rasgou um sorriso e a sua fronte distindeu-se perante as estrelas matinais e o seu olhar penetrou os espaços celestes. - Guardai-mo, exclamou ele, ó espíritos de um tempo melhor! e elevai-o até à vossa imortalidade e que vós, todas as forças amáveis do Céu e da Terra, sejais com ele!
   Há um deus em nós, acrescentou ele com mais serenidade, que dirige como as águas correntes, o destino, e todas as coisas são o seu elemento. Que seja ele, mais do que tudo, a estar contigo!
   Assim nos separámos. Adeus, meu Belarmino!
 
 
     Holderlin, Friedrich. Hipérion ou o Eremita da Grécia. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, pp 31 - 33.
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29/01/13

 
            #  539.  Holderlin
  
 
    Uma das mais significativas personalidades do romantismo literário é o poeta Friedrich Holderlin (1770-1843), que foi amigo de Schelling e de Hegel e admirador de Fichte. O seu romance Hiperion no qual exprime os seus ideais e as suas convicções filosóficas, é a história de um Grego moderno, que vive o sonho da infinita beleza e perfeição da Grécia Antiga. Encontra essa beleza encarnada na pessoa de uma jovem de quem se enamora, Diotima; e abandona Diotima para traduzir na realidade o seu ideal de perfeição espiritual e decide-se a combater para reconduzir a sua pátria a esse mesmo ideal. Mas só encontra imperfeições e desilusão; renuncia então à sua amada, retira-se para a solidão, alimenta-se do seu sonho e acaba por gozar e exaltar a sua própria dor. No seu enredo, o Hiperion contém todos os traços da concepção romântica. Mas a obra está disseminada de considerações filosóficas que revelam claramente a influência de Fichte e Schelling. O ideal helenizante de Hiperion é na verdade o ideal romântico. "Ser uno com o todo, esta é a vida dos deuses, e o céu do homem! Ser um com tudo o que vive, voltar através de um sagrado esquecimento de si próprio, ao todo da natureza, tal é o vértice dos pensamentos e das alegrias, tal é o cume sagrado da Montanha, a sede da eterna quietude".  Este todo, que é uno, é o infinito que vive e se revela no homem. Mas o homem não pode alcançá-lo apenas com o pensamento e a razão. "O homem é um Deus quando sonha, um mendigo quando pensa", diz Holderlin. Só a beleza lhe revela o infinito; e a primeira filha da beleza é a arte, a segunda filha é a religião, que é o amor da beleza. A filosofia nasce da poesia porque só através da beleza está em relação com o Uno infinito. "A poesia é o princípio e o fim da filosofia. Assim como Minerva surge da cabeça de Júpiter, também a filosofia surge da poesia de um ser infinito, divino". "Do simples intelecto não nasce nenhuma filosofia porque a filosofia é mais do que o não limitado conhecimento do contingente. Da simples razão não nasce nenhuma filosofia, porque a filosofia é mais do que a exigência cega de um infinito progresso na síntese ou na análise de uma dada matéria." Nestas palavras o princípio do infinito de Fichte encontra já a sua crítica e a sua correcção romântica. E em Holderlin se encontra também a outra característica do espírito romântico: a exaltação da dor. "Não deve tudo sofrer? Quanto mais elevado é o ser maior o sofrimento. Não sofre a sagrada natureza?... A vontade que não sofre é sono, e sem morte não há vida". Hiperion acaba por exaltar a sua própria dor: "Ó alma, beleza do mundo, indestrutível, enfeitiçante! Com a tua eterna juventude existes; mas o que é a morte e toda a dor do homem? Muitas palavras vãs fizeram os homens estranhos. Tudo nasce portanto da alegria e tudo termina na paz". Esta conciliação do mundo que Hegel consegue através da dialéctica da ideia, consegue-a Holderlin com o sentimento da beleza infinita.
 
 
 Abbagnano, Nicola. História da Filosofia, Volume VIII. Lisboa: Editorial Presença, 1970, pp 247 - 248 (Tradução de António Ramos Rosa e António Borges Coelho).
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27/01/13

" Um fogo interno lança/ A luz na nossa mente. "

 
 
                       " Hino 5 ( Final) "
 
 
 
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Aquele que ama e crê
Não chora num sepulcro,
Do amor os doces bens
Ninguém rouba nenhum.
A noite que inebria
Abranda-lhe a saudade -
Do céu os melhores filhos
O coração lhe guardam.
 
A vida descansa
Na Vida eternamente;
Um fogo interno lança
A luz na nossa mente.
Jorram as estrelas
Vinho da vida d'oiro,
E nós vamos bebê-lo
E ser um astro loiro.
 
Pródigo dom, o Amor
Cessa a separação,
Da vida o infindo mar
Em plena ondulação.
Noite d'êxtase só -
Um poema infinito -
O sol de todos nós
É o rosto divino.
 
 
     Novalis. Os Hinos à Noite. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p 53 (Prefácio e Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).
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25/01/13

Apresentação de livro...

 
 
(Apresentação do romance "Ficar" de Pompeu Miguel Martins na "Livª Pó dos Livros" no dia 25/1 )
 
 
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            Classicismo e Modernidade na Obra de Pompeu Miguel Martins

      O novo livro de Pompeu Miguel Martins, Ficar, apresenta-se-nos sob a forma de uma narrativa que se vai desenvolvendo ao longo de 36 capítulos, contudo, estes capítulos não se nos dão através de uma qualquer linearidade narrativa, mas antes por um encadeamento tecido de acordo com a idade do narrador, este – autodiegético e omnisciente -, vai, assim, expondo os vários episódios da intriga de acordo com três categorias cronológicas distintas: a infância, a juventude e o fim da idade adulta início da velhice. A esta cisão da voz do narrador acrescentar-se-ão outras características ao nível das categorias da narrativa, que afastarão definitivamente o romance da Pompeu Miguel Martins das concepções romanescas que permaneceram sobretudo até à década de 50, isto é, da clássica concepção de romance que vigorou de Eça e Camilo até Carlos de Oliveira (os primeiros romances) e Ferreira de Castro: uma concepção linear da narrativa onde o tempo cronológico correspondia ao tempo do discurso, ao tempo por que se apresentavam os vários acontecimentos. Será, por conseguinte, a partir dos anos 50 que, sobretudo Agustina Bessa-Luís (Sibila, 1954) e Vergílio Ferreira (Aparição, 1959) - mas também Fernanda Botelho e Augusto Abelaira com os seus primeiros romances -, “incendeiam o romance português de perspectivismos narrativos, espaciais e temporais.” ( In Miguel Real, “O Romance Português Contemporâneo: 1950 – 2010”, p 84). Vemos, pois, que esta obra de Pompeu Miguel Martins, e neste aspecto, se integra antes nesta segunda opção estilística e não na primeira mais própria dos romances ligados ao neo-realismo e ao presencismo. Outros elementos de Ficar podem ainda ser acrescentados: um, se o narratário da estória é predominantemente extradiegético, não deixa de ser interessante, que, por vezes, o narrador mude o rumo do seu dizer e se vire para um destinatário que faz parte integrante da narrativa:

“ Como é belo, Magda, um coração que palpita na ignorância do tempo. Quanto tempo bateu o teu coração assim? Quantas vezes foste o que não soubeste? Quantas vezes foste apenas o que sentiste? E era assim Portugal, o nosso tão íntimo Portugal, meu amor (…) um país que mais ninguém soube senão nós. Lembras-te, Magda?” ( In “Ficar”, p 84);

dois, a modernidade desta obra, e no que diz respeito à fragmentação do próprio texto, é ainda corroborada pelo facto do narrador chamar a si o género e o subgénero literário que melhor se adapta ao momento da enunciação, assim, vemo-lo saltar de um registo onde sobressai o ingénuo e o infantil ( cf. capítulos ligados à infância):

“ Há meses que o Lininho deixou de falar da mãe. Há meses que deixei de lhe falar da nossa mãe para que ele não fique triste. Se ele voltar a falar, eu falo. Caso contrário, não tocarei tão cedo nesse assunto. Tenho medo de o ver chorar. (In “Ficar”, p 96)

 para outro mais emotivo e engajado (cf. capítulos da juventude) ou ainda para um registo vernacular e erudito (cf. capítulos do envelhecimento):

“ As leituras têm inúmeras cadências. Todas elas vocacionadas para que mudemos o nosso mundo. As leituras de fuga, carregadas de fúria, onde soubemos erguer a juventude e as suas contradições (…) As leituras de infância, tão lentas, tão longas, ainda que de histórias brevíssimas, a explicar-nos tão claramente (…) que a única coisa objectiva é a subjectividade que cada coisa encerra em si mesma, que cada fantasia tem sempre uma feroz correspondência ao mais imanente objecto, à mais tangível e terrena situação. “ (In “Ficar”, p 77)

vemos igualmente o narrador passar, por vezes, e de acordo com as exigências da narração, do romance-ensaio – a fazer-nos lembrar, em certos momentos, algumas das obras de Vergílio Ferreira, aliás, e a título de curiosidade, seria interessante inventariar no livro de Pompeu Miguel Martins a expressão “para sempre” (pp 33, 67, 73, 90 etc.), no que nos pareceu ser uma homenagem àquele existencialista – para uma escrita assumidamente realista e lírica. Mas em Ficar podemos ainda encontrar o epistolar (pp 65-66 e p 67), assim como o poético ( exº: o último parágrafo da página 42 é nitidamente poesia escrita em prosa!). Paralelamente a tudo o que temos vindo a dizer, e que integra o romance de Pompeu Miguel Martins no seio de uma escrita contemporânea, ocorre um assumidamente clássico manipular do léxico e da gramática, facto – aliás – que pode ser encontrado em alguns dos nossos grandes prosadores atuais: escutemos  Miguel Real falando de Gonçalo M. Tavares: “ Se, perturbando o leitor, a apresentação estilística das ideias, nos livros de prosa Gonçalo M. Tavares, é nova e a sua manipulação fundamentada na evidenciação de uma lógica paradoxal, a gramática, essa, é a mais clássica – frase curta, componentes sintáticos no seu lugar, a tentativa bem-sucedida de fazer corresponder com clareza uma ideia a um parágrafo. Porém, como as ideias se torturam labirinticamente entre si, as frases ondeiam arrastando o leitor para uma contínua abertura ao espanto…” (In “ O Romance Português Contemporâneo: 1950-2010”, p 164).

Este classicismo de Pompeu Miguel Martins no que diz respeito à ordenação do sentido e do código acaba mesmo por ser ilustrado por uma cena em que o narrador se encontra em “St Germain a beber café com leite. A reler pela milésima vez a Marguerite “ ( cf. p 42), ora, se atendermos à data do episódio e ao facto de estarmos ante releituras, só se pode estar a falar da Yourcenar ou, quando muito, da Duras da primeira fase. Neste aspecto, portanto, Ficar demarca-se dos romances de carácter desconstrucionista, que nas décadas de 60 e 70 ganharam foros de cidadania: Maria Gabriela Llansol ( Os pregos na erva, 1962), Maria Velho da Costa (Maina Mendes, 1969), José Cardoso Pires (O Delfim, 1969), Nuno Bragança (A noite e o riso, 1969), Rui Nunes (Sauromaquia, 1974) e de novo Carlos de Oliveira (Finisterra, 1978) e Fernanda Botelho (Lourenço é nome de jogral, 1971). Se a Pompeu Miguel Martins, à imagem de muitos destes romances de 60/70, interessa mostrar a “desconstrução” das instituições políticas e sociais dominantes, os meios utilizados, no entanto, aproximam-no antes desse realismo que  vem dos anos 80 até aos nossos dias e que, por exemplo, o colocam junto de João de Melo (Gente feliz com lágrimas, 1988), João Aguiar (Navegador solitário, 1996) e Lídia Jorge (O vento assobiando nas gruas 2003 e Combateremos a sombra, 2007). Seria mesmo interessante uma análise intertextual de Ficar com os romances desconstrutivistas, bem como com estes dois de Lídia Jorge, veríamos que, ao contrario dos primeiros, a Pompeu Miguel Martins não interessa a autonomização absoluta da categoria do tempo em relação ao espaço e que, como em Lídia Jorge, as descrições, as reflexões e as especulações jamais perdem de vista a realidade concreta. Em Pompeu Miguel Martins as experiências com a linguagem apenas importam para uma intensificação da poeticidade de um excerto ou para a clarificação racional de uma qualquer especulação de cariz filosófico, jamais lhe interessa que o seu romance adquira uma autonomia semântica e sintática relativamente à realidade concreta que o narrador rememora ou vivencia. E é neste sentido que se enfatiza a já citada modernidade desta obra na qual se incrustam, de modo não determinante, os aspectos clássicos também aqui referidos. Ao falarmos de especulação e de clarificação racional ocorre-nos a veemente salvaguarda do primado do estético, enquanto território de universalidade, levada a cabo por Harold Bloom contra diversas correntes teóricas como o novo historicismo, o neomarxismo, o multiculturalismo, etc.: Bloom, ao fundamentar a centralidade de Shakespeare no cânone ocidental, e enquanto enumera variáveis e justificações de tal posição, refere que o dramaturgo inglês “ dá origem à descrição de mudança individual dos seres na base da escuta de si mesmos” (In “ O cânone ocidental “, p 60), e continua: “ A partir de Falstaff, Shakespeare acrescenta à função da escrita imaginativa, que era instrução do modo como se deve falar aos outros, aquela que é hoje a lição dominante (se bem que mais melancólica) da poesia: como se deve falar com nós mesmos. “ ( Idem, p 61). Ora, é exactamente tudo isto que gostaríamos de unificar: o romance Ficar de Pompeu Miguel Martins, apesar de incluir, não só toda a caracterização já referida, mas também os mais diversos monólogos de cariz político, ético, antropológico e metafísico, não se apresenta como um desarticulado teórico-narrativo, mas antes como uma unidade coerente e dotada de sentido a valorar, não numa perspectiva ideológica e/ou historicista – apesar das inúmeras descrições sócio-políticas -, mas exclusivamente através de uma grelha literária e estética e, nesse sentido – como Bloom diz de Shakepeare –, é uma belíssima lição sobre a escuta e o estar-aqui dada por um eu falando consigo mesmo:

“ Talvez um dia eu consiga olhar para as ruas da Vila e não me lembrar do que magoa. Só me magoa o que me falta. O que já tive e não tenho. Quando vou de casa para a escola, olho para o chão e vejo o que está diferente de um dia para o outro. As marcas, a sujidade, as folhas que caem das árvores, um pedaço de papel, uma corisca de tabaco. E, olhando as diferenças, penso nelas e nas histórias que lhes podem estar associadas (…). A vida diferente que cada um leva complica tudo. É como estar a jogar um jogo em que se tem de aprender novas regras a cada instante. O encontro das pessoas é um interminável e difícil jogo.” (In Ficar, p 86).

Apesar desta obra referir à saciedade o Tempo (significando-o inclusivamente com maiúscula), não nos pareceu ver nela, como objectivo primordial, um deambular em torno dessa entidade: aqui aborda-se fundamentalmente a partilha daquilo que no ser humano é íntimo. O tempo, enquanto categoria da narrativa, aparece fragmentado: o tempo histórico (Estado Novo e pós-25 de Abril); o tempo cronológico (infância, juventude, envelhecimento); o tempo do discurso (os acontecimentos não se apresentam de forma linear, mas segundo o esquema: A,B,C; A,B,C, etc.); o tempo psicológico jamais é experienciado pelo narrador de modo contínuo e raramente coincide com a acção, pelo que várias vezes ele recorre a: analepses, prolepses, resumos e elipses e, finalmente, o Tempo enquanto categoria ontológica não é mais do que o palco em que a partilha do “si-próprio” ocorre:

Tinha a certeza de que nos encontraríamos para sempre nesse lanche, ao longo de uma tarde de que jamais nos haveríamos de esquecer.” ( In Ficar, p 26)

Começarei por guardar a minha intimidade, sabendo que há-de ser a espécie mais ameaçada (…). Começarei pela intimidade porque aí guardo o maior segredo da minha existência: o de nunca abdicar do lado íntimo da cada coisa, por mais pequena que seja. Não acredito em coisas insignificantes. Tudo tem um significado…” ( Idem, p 27)

… a caminho e Monmartre dava azo à minha felicidade e garantia-lhes o quanto se gravam nos sítios as emoções que nos tornam únicos quando somos íntimos. “ (Idem, p 50)

Logo a partir das primeiras páginas deste livro Pompeu Miguel Martins estabelece uma distinção da qual nunca se afasta ao longo da obra: o que permanece, o que fica para sempre e, por outro lado, aquilo que passa, o efémero. E o que fica é essa partilha do mais íntimo de cada ser (daí ele dirigir-se frequentemente a Magda apesar da morte desta, dito de outro modo: o relacional permanece apesar da ausência física de um dos elementos da relação):

Era mesmo isto o que eu tinha para te dizer, Magda. O que eu tinha para nos dizer, neste tão difícil regresso a casa e às nossas coisas. O primeiro verbo que o Tempo pronuncia não é o verbo ser, é o verbo ficar. Nunca te esqueças, tudo o que vive, vive para ficar. E logo a seguir o Amor, Magda, logo a seguir.” (In Ficar, p 102)

Repare-se na imediata substituição do “te” pelo “nos” logo no início do excerto: a partilha amorosa (“Logo a seguir o Amor…”) deriva necessariamente dessa fusão do íntimo (te/nos), que, no entanto e paradoxalmente, nunca anula a individualidade – quando se comunga com o Outro, no Tempo, aquilo que é da ordem do essencial, tudo o que é diminuto e insignificante desaparece, e o que se alcança é da ordem do Eterno, nada já pode ameaçar a sua Presença, o seu FICAR.

 

                                                              VICTOR   OLIVEIRA   MATEUS

 


24/01/13

"(...) todo o lugar se elevou no ar mansamente ... "

 
 
                                    "   Hino  3  "
 
   Outrora, quando vertia amargas lágrimas, quando, diluída na dor, a minha esperança se desfez e eu me encontrava sozinho sobre o estéril montículo que encerra em negro e estreito espaço a imagem da minha vida - só, como jamais alguém esteve, impelido por um medo indizível - inerme, tão somente com um único pensamento ainda, o da carência. - Quando olhava em meu redor em busca de auxílio, sem que pudesse avançar nem recuar, preso por uma saudade infinita a essa vida extinta e fugidia: - eis que da distância azulada - dos altos cumes da minha antiga bem-aventurança, veio um frémito de crepúsculo - e de súbito romperam-se os vínculos do nascimento - a cadeia da Luz. Para longe de mim se voltou o curso do esplendor terreno e com ele, o meu luto - e também a melancolia fluiu para um novo mundo, infundamentado - e tu, exaltação nocturna, torpor do Céu, vieste sobre mim - todo o lugar se elevou no ar mansamente; e sobre o lugar pairou o meu espírito, desvinculado, de novo nascituro. Em nuvem de poeira se converteu o montículo de terra - e através das nuvens vi a fisionomia gloriosa da Amada. Nos seus olhos repousava a Eternidade - prendi-lhe as mãos, e as lágrimas eram um laço cintilante, irrompível. Milénios perpassaram a caminho dos longes como intempéries. Suspenso do seu colo, chorei lágrimas de deleite pela nova vida. - Foi ese o primeiro e único sonho - e somente desde então tenho uma fé eterna e imutável, no Céu da Noite, na sua luz, a Amada.
 
 
   Novalis. Os Hinos à Noite. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, pp 25 - 27 ( Prefácio e Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).
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23/01/13

 
    " Qual o Voo Do  Poeta? "
 
 
Aqui chegados a esta catedral aberta
logo nos disseram que nós, poetas,
espécie zoológica de antenas cegas,
nada tinhamos que ver
com uma missa de defuntos.
 
Houve um pescador afogado. Fraca coisa
para poetas alheios a trivialidades
e a fait-divers. Alguém nos alertou:
"É ver como o afogado se vai erguer
do seu catafalco de bambus
e voar nas asas
do seu ventre inchado de balão".
 
E mais: "Todos os que andaram
com ele neste mar de tufões,
mas ainda vivos, hão-de um dia voar do mesmo modo,
o trajecto em V das aves
que para onde uma vai todas vão."
 
Vimo-las já sobre a praia de Cheoc Van,
praia nem sempre de esperanças.
 
Eu e tu entrelaçamos os dedos.
Pertencíamos, poetas, também a um mundo de asas,
mas as nossas não eram para a força daquele voo.
 
 
  Torres, Alexandre Pinheiro. Trocar de Século. Macau: Fundação Oriente, 1995, p 79.
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22/01/13



  " As Vidas Todas Numa Só "


Abaixei-me para apertar os cordões dos sapatos
e então desabou toda a cidade em cima de mim:
arranha-céus muito mais precários
que a filigrana de São Paulo,
a ponte da Taipa,
e até a Universidade do Saber Nenhum.

Pessoas desconhecidas cujas vidas só adivinhando,
nenhuma sem nada a ter de ver comigo,
arrancaram-me dos escombros.

Sorriram, olhos quase fechados (uma pequena janela?)

E, de súbito, soube das suas vidas:
a filigrana de São Paulo na estrada de Damasco.

Foi este o incêncio sem palavras.

Por isso tais vidas só de olhá-las tão alheias
não me deixam em paz.
Persigo-as desde o Beco das Três Noras
até ao dos Fogões ou das Latrinas
ou à seca Fonte da Inveja.

Tais vidas vivo-as:
são também minhas.
Estão-me junto aos olhos como óculos.


  Torres, Alexandre Pinheiro. Trocar de Século. Macau: Fundação Oriente, 1995, p 21.
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21/01/13

" le lit du temps coule/ au milieu de la bouche "

 
 
  ( Excerto de "séquence 2" do Ciclo "L'ombre du Double")
 
 
 
toi qui es dans mon tu
 
mon présent est une pierre
tu la jettes dans mes yeux
 
la page de verre monte
le visage éclate dedans
 
je tète le blanc
le linge du regard volé
 
le lit du temps coule
au milieu de la bouche
 
 
    Noel, Bernard. Extraits du Corps. Paris: Poésie/ Gallimard, 2006, p 234.
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" et vide aussi ma voix "



( Excerto do Ciclo "À Vif Enfin La Nuit")

et ta pensée est avec moi
dans mon désir de me sur-
vivre. J'ai voulu te dire cela
parce que tu y trouveras la
certitude que le temps ne
changera jamais rien de ce
que tu as trouvé en moi.
 
 
mais voici l'ombre
et les souliers de pierre
 
qui parle si la nuit est vide
et vide la lisière
et vide aussi ma voix
 
on tend sa main
et c'est un arbre sec sur le couchant
 
terrfiante
terrible la mer où le soleil se noie
et ma montagne est noire
et la lune poignarde ma maison
 
 
     Noel, Bernard. Extraists du Corps. Paris: Poésie Gallimard, 2006, pp 70 - 71.
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16/01/13

" Les/ fourmis du désert ont dévoré les tissus de l'amour. "



La langue à demi renversée dans la gorge lèche un reste
de fraîcheur.
                                                                         L'intérieur
n'abrite plus que la trame fibreuse des organes.
Elle tamise une sciure opaque et sèche.

                                                                                    Les
fourmis du désert ont dévoré les tissus de l'amour.


  Noel, Bernard. Extraits du corps. Paris: Poésie/ Gallimard, 2006, p 55.
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15/01/13

"deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas/ que como nuvens voarão os céus do mundo..."

 
 
 
   " Coração Em África "
 
 
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
 
ao atravessar estes campos do trigo sem bocas
das ruas sem alegria com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros
...     ...     ...     ...     ...
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos de homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-se prenhar as espigas de Trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.
 
 
   Tenreiro, Francisco José. Poesia Africana de Língua Portuguesa: Antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004, pp 263-267 (Organização: Livia Apa, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandre Báskalos)
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13/01/13

" E o feitiço falhou. "

 
 
 
             "  Namoro  "
 
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
 
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas . laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não
 
Mandei-lhe um cartão
que o tipo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
 
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
 
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
 
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
 
Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"- Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamin?"
E perdido me deram no morro da Samba.
 
Para me distrair
levaram-me ao baile do só Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário
 
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voámos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí, Benjamin!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
 
 
  Cruz, Viriato da. Poesia Africana de Língua Portuguesa: Antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004, pp 57 - 59 (Organização: Livia Apa, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandre Dáskalos).
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12/01/13

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   " Testamento "
 
 
À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...
 
E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...
 
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
 
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.
 
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...
 
Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
 
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...
 
 
   Lara, Alda. Poesia Africana de Língua Portuguesa: Antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004, pp 67 - 68 (Organizdores: Livia Apa, Arlindo Barbeitos, Maria Alexandre Dáskalos).
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09/01/13

 
 
Sete anos me aguardam de incertezas. O gato gordo,
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu
 
sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos
 
para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu    eu fico.
 
 
  Pedreira, Maria do Rosário. poesia reunida. Lisboa: Quetzal, 2012, 59.
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07/01/13


Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

  Pedreira, Maria do Rosário. poesia reunida. Lisboa: Quetzal Editores, 2012, p 37.
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06/01/13

"(...) e afasta do chão a grosa/ de uma sementeira tardia "

 
 
 
   "  o  dissolver  "
 
Ultimou insaciável a encomenda:
o meu futuro é a morte.
 
em girândola fosca piscou argonauta e saltarico
 
na engrenagem em válvula submeteu-se ao futuro
prescrito na gôndola da memória descascou a língua
muito calmamente como quem aguça a farpa do infindável
 
mostrando a omoplata a descoberto da noite
entoa uma gargalhada onde peristilo alberga
a grande metáfora da purificação
 
benze a raça e afasta do chão a grosa
de uma sementeira tardia
 
são agentes que não querem ser cabras!
 
o deserto é sempre mais além!
 
 
   Costa, Aurelino. Amado Amato: Antologia Poética. Edição da Câmara Municipal de Castelo Branco (Organização de Pedro Miguel Salvado), 2012, p 34.
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01/01/13


                                 ( Poema II de " Mares ")

Enfrente, la mano tendida hacia donde vos ya no me veías pero yo te recupero, estaba el monasterio de jeronimos.
 
- Adiós, adiós -, querrá decir para siempre, lugar donde me parieron, estuario mío donde crecí los anhelos más violentos y las más dulces torpezas?
 
Puerto, puerto de los Buenos Aires que me desandaste, mi mano crece en el abrazo de largas corrientes cálidas y nutricias, y te tengo dentro y es lo bueno (...).
 
Y vino el mar de Efeso, con cabras, pastores, estatuillas, Heráclito y vos, cada vez más lejos mi río, de mis ocasos, tormentas y miserias.
 
Y la iluminación del Tiberíades, las piedras de la sed, las capricornianas piedras de los cristos y la demencia, pero ya el cáliz estaba roto y los anillos sumergidos en las proas dormidas donde anidan los minotauros y atlantes del silencio que jamás devolverán la sortija que nunca nos pusimos pero que seguí buscando por las fabulosas playas de los tirrenos y los jonios y también en la estela de gaviotas que persigue a las almas de los marineros que no pagaron las putas en el Cabo de Buena Esperanza donde el mar se estremecía hasta la entraña para que yo viera desde el fondo que no se juega con fuego.
 
Ahora, en tanto divago por los mares de los piratas, los hexagramas mutantes en el lomo de las tortugas (...); o por este mar de Japón negro, rocoso, turbio, sólo testimonio de la soledad en que evoco los mares de mi tránsito, la mañana del nueve de agosto de mil novecientos setenta y nueve en la que mi cachorro Tango y yo, a mis cuarenta años y en el uso cual tengo de mis facultades hasta hoy, saludamos las aguas, conmovidos.
 
   Futoransky, Luisa. Partir, digo. Madrid: Libros del Aire, 2010, pp 61 - 62.
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