04/04/13

Cristina Carvalho escreve sobre Poesia.

Sessão de apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” na Livraria Pó dos Livros, em 21 de Março 2013
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                     A literatura e a poesia, esses milagres!
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Muito boa tarde a todos os presentes.
E começo por agradecer a Victor Oliveira Mateus este convite para apresentar o livro – Cintilações da Sombra – conjuntamente com a Maria João Cantinho de quem sou amiga e a quem reconheço um importantíssimo e um superior valor poético.
Todo o começo se prende com alguma coisa e, sendo assim, inicio a minha apresentação com uma citação de François Mauriac,
Diz-me o que lês e eu dir-te-ei quem és. Mas conhecer-te-ia melhor se me dissesses o que relês.
Todos os poetas habitantes deste volume são, a meu ver, de grande e inquestionável qualidade. Faltam aqui alguns nomes importantíssimos e disto mesmo já dei conta a Victor Oliveira Mateus. De todo o modo, Victor Oliveira Mateus, ele próprio um dos poetas que integram esta antologia e que foi também o organizador-coordenador deste conjunto poético, teve o maior cuidado e rigor na seleção que agora se mostra.
Li todos os poemas aqui presentes. Naturalmente que aprecio uns mais que outros, mas isso é natural. Estranho seria que os apreciasse a todos do mesmo modo e com a mesma intensidade. Aqui estão reunidos poetas que eu não conhecia e também aqui estão presentes nomes consagradíssimos da poesia portuguesa contemporânea. Há também nomes não consagrados nem consagradíssimos, mas que eu espero, realmente, que venham a ser do conhecimento de todos. Poesia que conheço bem de pessoas que mal conheço mas que reconheço com toda a minha admiração.
É pois uma escolha total, esta, a de Victor Oliveira Mateus. Uma escolha de primeira grandeza e que em nada, mas mesmo nada, nada, nada se pode comparar, nem de perto nem de longe, a tanta, mas tanta antologia “poética” que, quase todos os dias é publicada. Mal publicada. Sem critério, sem rigor, sem qualidade. Apenas para vender todos os livros, de preferência todos de uma vez logo na sessão de apresentação aos familiares, aos vizinhos, aos amigos, aos amigos dos amigos. Negócio, portanto. Pequenas satisfações. Pequenos serviços, quanto a mim de muito mau gosto e de péssima conduta que resultam num empobrecimento cada vez maior do gosto de cada um, num país com um diminuto grau de conhecimento. Já não digo cultural. Digo, de conhecimento e de interesses.
Voltando a este livro, naturalmente que não vou mencionar nomes. São todos valorosos. Muito valorosos. E a diferença está à vista. Nem vale a pena discutir. Alguém poderá afirmar: o que é bom para ti pode não ser bom para mim e vice versa.
Não! Isso é sofisma! Desconhecimento! A definição de “bom”, muito para além da sensibilidade intrínseca, além da imagética e da idiossincrasia de cada um, o “bom” tem uma definição mais não seja estética! Há bom e há mau. Na poesia, na literatura, na pintura, na escultura, na culinária, no cabeleireiro, na rádio, nas televisões, nos jornais, em todo o lado. E a fraca qualidade literária é uma realidade também.
Temos, pois aqui, um livro muito bom. Com grandes poetas. De grande e absoluto sentimento. Não são segréis, nem jograis nem trovadores. São poetas por inteiro todos os nomes aqui apresentados. É poesia o que aqui se mostra.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quantos pensamentos gloriosos já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo?
Tanta interrogação…
A poesia é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida –
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Cito John Keats, – “Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.”
Mas não é, infelizmente, o que vemos. Eu diria até que a poesia que se deixa ver através de um vidro fosco, se não fosse tudo aquilo que sabemos que é, essa dita “poesia” estaria a definhar, tal é a indigência apresentada com todo o despudor, com toda a desvergonha, numa ânsia incompreensível de notoriedade, numa sede, numa fome, quase num desespero que em nada contribui para o conhecimento real do que, na verdade, é a poesia. Nem documento social é – e isso sim, teria muito interesse histórico!
Não que não seja legítimo toda a gente escrever e dar a conhecer as suas sensações. Claro que sim! Mas sempre a mesma coisa? Não há mais nada para desenhar que não sejam amorosos e delambidos poemas de amor? O mundo resume-se a si próprio? É tudo poesia? Frases colocadas em fila, umas por debaixo das outras, sem nexo nem melodia? É tudo poesia?
Também Hélia Correia diz em entrevista a Ana Marques Gastão em o “Falar dos Poetas”, edições Afrontamento – “É uma aberração chamar poesia à expressão de sentimentos em versinhos. A deriva semântica deu nisso e eu não posso deixar de indignar-me.”
E eu digo: sim senhor! Tudo é legítimo. Todas as vozes são para se ouvir, umas expressando-se melhor, outras pior, mas todas as vozes devem ser ouvidas. Não chamem é poesia a tudo o que se cozinha, a tudo o que se come, engole e regorgita. Haverá outras definições, certamente.
Quanto a mim, o papel da literatura e da poesia não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. A poesia é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, – um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser uma dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que precisamos. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Não me atribuo, pois, o direito de ter sequer a pretensão de me pôr a analisar este livro ou seja o que for. Quando digo – analisar – estou a referir-me a uma situação teórica ou académica ou então, daquelas conversas que não são entendíveis por um ser humano normal, de atitude simples. O que eu quero dizer é que quando emito uma opinião, falo com o que o meu coração e os meus sentimentos e os meus poucos conhecimentos, ditam. Nada de intrincado e obscuro, portanto. A clareza e simplicidade acima de tudo.
Ao ler-se este livro fica o sentimento, o pensamento, reflexão sobre a vida, sobre a humanidade, sobre a sua verdade, principalmente sobre a sua verdade, tudo traduzido em poesia. Este é um livro de sentimentos. Procura incessante duma certa alegria, talvez.
E, finalmente, do meu entendimento da poesia, amiga com quem convivo desde que me conheço, desde que comecei a ler, posso dizer
Que não é estado de espírito; que não é necessidade; nem intempérie de amor, nem rumor ou piedade, nem doença nem saudade.
Não é, certamente, um acumular de palavras num esforço patético de dar voz aos amores e dar voz a coisa nenhuma. A poesia é para ser lida e observada meticulosamente, é para ser sorvida com todo o cuidado, é para ser apreciada palavra por palavra, frase por frase, conceito por conceito porque toda ela é densa, sofisticada, significante.
A poesia, o texto poético nasce da vida e acompanha a vida numa união imperceptível que se adensa na progressão infinita, que se espraia e se entende e purifica e anima e constrói. É uma arte. E como toda a arte tem uma linguagem que permite tudo, sempre! As obras e os actos do homem ou se condenam ou se purificam e a poesia ou os eleva ou os atinge.
Um livro de poemas não é algo que se devore instantaneamente. O leitor recebe a poesia preparado para a receber. Não porque um poeta seja uma pessoa diferente das outras. A poesia é que é uma arte distinta, é uma arte de palavras e nada tão difícil de saborear como uma palavra nascida e escrita e alinhada que pretende dizer sobre a alma, sobre a vida, sobre os Homens. A poesia pode dizer tudo o que quiser. Pode ser lamacenta ou transparente, vertigem ou luz do luar.
Termino. Desde 1999 que se celebra o dia 21 de Março como o Dia Mundial da Poesia sendo um dos seus propósitos divulgar, ensinar e promover a poesia em todo o mundo.
Foi, pois, e em boa hora, apresentado e divulgado ao público português, resplandecente na sua cintilação poética e sem sombra de dúvida, a antologia “Cintilações da Sombra”. Desejo-lhe um futuro caleidoscópico e radiante.
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CRISTINA CARVALHO
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( texto protegido por direitos de autor)
21 de Março de 2013 em livraria Pó dos Livros na apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” – Labirinto Editora.
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NOTA - Este texto, postado aqui com o conhecimento da autora, encontra-se, no entanto, protegido pela legislação relativa aos Direitos de Autor.
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    30/03/13



    VIAGEM: -


    Sigo os teus passos, caminheiro perdido em cidades som-
    brias. Não sei manejar as estacas com que te inclinas no
    abrigo dos alpendres. Mas todos os caminhos me desafiam
    para o desvario de um lugar, de uma palavra, de um rosto.
    Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.


     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 30.
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    PAI: -


    Hoje pensei na solidão dos pássaros quando as searas se
    incendeiam. E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo como
    se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras. O que
    sei eu das uvas entre os teus dentes no tempo das vindimas?
    Que pássaro de cinza, diz, te sobrevoou o verde do olhar?
    Se prolongasse o poema  dir-te-ia como os meus olhos
    te lembram. Mas não posso. Vou devolver ao mar as conchas
    negras da minha colecção.

     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 22.
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    DECISÃO: -



    Não traço planos. Amanhã cada minuto será transitório.
    Todos os pormenores que me são próprios terão a precisão
    das cordas do alaúde em dedos sensíveis. Serei nómada e
    levarei comigo a máscara do veneno junto à boca.

     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 11.
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    CONTRATEMPO : -



    Ser cega e ver nos olhos dele a sombra oblíqua do barco
    que usará para fugir.


     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 10.
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    27/03/13

    Apresentação...


    CADERNO DE SIGNIFICADOS o novo livro de GRAÇA PIRES.
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    O lançamento desta obra ocorrerá no próximo dia 30, pelas 16h00, na GUILHERME COSSOUL
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    DE CAMPOLIDE, Rua Professor Sousa da Câmara, 156 - Lisboa.
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    A apresentação ´do livro estará a cargo de MARIA JOÃO CANTINHO e a leitura
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    de poemas será feita por GISELA RAMOS ROSA.
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    24/03/13

    Um quasipoema...



    Não sei se vem a propósito: quando iniciei o Ciclo Preparatório, a professora de Canto Coral ouviu os meninos um a um e depois sentou-os em lugares bem definidos: 1ª voz, 2ª voz, etc. Quando chegou a minha vez, teve de me ouvir três vezes e depois, peremptória, disse: o menino senta-se na fila da esquerda, junto aos desafinados... A partir desse dia descobri que a vida iria valer a pena!
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    (Nota - não é meu hábito trazer os meus comentários do Face para o Blogue, mas desta vez creio que faz algum sentido...)
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    23/03/13

      

     "  o  poeta  "


    tinha um poema em vez de coração.
    diziam que lhe chilreavam pássaros na garganta
    e que das mãos se abriam quintilhas com que
    transformava todas as coisas em ouro


    o mundo pingava-lhe da boca em sopros de grafema
    mas apenas alguns olhos escutavam
    o coração que trazia em vez do poema


         Vaz, Carlos. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 24 (Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
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    Apresentaçao da antologia "Cintilações da Sombra"





    22/03/13

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    Maria João Cantinho, Cristina Carvalho e Victor Oliveira Mateus na apresentação da obra "Cintilações da Sombra" na Livraria Pó dos Livros, 21 de Março de 2013.
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       UMA JOVEM SENTADA NO MEU DEGRAU

                                                     para Marta López Vilar


    De negro como outrora as atenienses
    junto às muralhas do Pireu. De negro
    os escombros de Palmira, os sagrados
    cadáveres de Tebas, os tiranos assumidos
    tão iguais a estes com seus velhos desdentados,
    suas imolações pelo fogo, suas mulheres
    atirando-se pelas janelas, quais Medeias
    já sem filhos nem vontade de vingança.


    De negro a magia persistente de Ritsos,
    de Kavafys, de Seferis, tão avessos
    ao quotidiano esquartejado que propagais.
    E de negro tu também: sentada
    no meu degrau, com o vestido
    a barrar-me a entrada ( coisa de presságios
    tão confusos para mim àquela hora!),
    com o teu sorriso luminoso; um olhar


    a adensar-me a culpa. Um sorriso
    sereno e eu a não te poder mudar
    a vida. De negro o ficarmos ali _
    um frente ao outro... Era um negro
    tão negro, que nele se ouvia já o estrépito
    do branco a despontar: nos gritos,
    nas palavras recuperadas que um dia
    - inevitavelmente -  hão-de voltar.

      Mateus, Victor Oliveira. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 69 ( Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
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    21/03/13

    Nota de imprensa...

    Cintilações da Sombra’ no Dia Mundial da Poesia

    Braga

    autor

    Rui Serapicos

    contactar num. de artigos 444

    ‘Cintilações da Sombra’, uma antologia poética com palavras de vários minhotos entre alguns dos melhores autores da actualidade, é apresentada amanhã em Braga, Coimbra e Lisboa, em celebração do Dia Mundial da Poesia. Em Braga, a apresentação está prevista para as 18.30 horas, na Livraria 100.ª Página, sita na Avenida Central, a cargo de José Cândido de Oliveira Martins, professor da Universidade Católica Portuguesa.

    Está prevista, pela actriz Cristina Cunha, a leitura de alguns poemas. Artur Coimbra, Cláudio Lima, Maria do Sameiro Barroso, Pompeu Martins, e Vergílio Alberto Vieira são poetas do Minho com textos inseridos nesta edição, de 500 exemplares, dada à estampa pela editora Labirinto — Núcleo de Artes e Letras de Fafe.

    Entre outros consagrados das letras nacionais, este volume, com pouco mais do que setenta páginas, conta ainda com poemas de António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Furtado, Maria Teresa Horta e Victor Oliveira Mateus, qu e teve a responsabilidade de coordenação.
    Àqueles vultos da poesia acrescentam-se promessas que já se vão cumprindo, em fase de afirmação, como João Ricardo Lopes ou Inês Fonseca Santos.

    Um grito, um hino, um tributo aos poetas e à poesia

    Num comentário para o ‘Correio do Minho’ acerca desta iniciativa editorial, o editor da Labirinto, João Artur Pinto, considera ‘Cintilações da Sombra’ como “um grito, um hino, um tributo simultâneo aos poetas e à poesia”. A antologia encontra-se disponível nalgumas livrarias do país, podendo igualmente ser pedida através do correio electrónico da Editora Labirinto.

    Em Coimbra, na Casa da Escrita, a apresentação está a cargo do de José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra.
    Em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, a apresentação será da responsabilidade de Cristina Carvalho (escritora), Maria João Cantinho (poeta e ensaísta) e Victor Oliveira Mateus (coordenador da antologia).

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    15/03/13

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    . EM LISBOA !!!
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    . Nesta Antologia poderão ler a poesia de: ALBANO MARTINS, ALICE FERGO,
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    ALICE MACEDO CAMPOS, AMADEU BAPTISTA, AMÉLIA VIEIRA, ANA LUÍSA AMARAL,
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    ANA MARIA PUGA, ANTÓNIO JOSÉ BORGES, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ,
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    ANTÓNIO RAMOS ROSA, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR COIMBRA, CARLOS AFONSO,
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    CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, DANIEL GONÇALVES,
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    FERNANDO PINTO DO AMARAL, FILIPA LEAL, GISELA RAMOS ROSA,
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    HENRIQUE LEVY, HUGO MILHANAS MACHADO, INÊS FONSECA SANTOS,
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    INÊS LOURENÇO, ISABEL MENDES FERREIRA, JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES,
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    JOÃO RASTEIRO, JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOEL HENRIQUES,
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    JORGE FRAGOSO, JOSÉ ACÁCIO ALMEIDA, JOSÉ EMÍLIO-NELSON,
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    JOSÉ RUI ROCHA, JULIANA MIRANDA, MANUEL SILVA-TERRA,
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    MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA JOÃO CANTINHO, MARIA QUINTANS,
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    MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, NUNO BRITO,
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    NUNO DEMPSTER, PAULO JOSÉ MIRANDA, RICARDO GIL SOEIRO, RUI ALMEIDA,
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    RUY VENTURA, TERESA RITA LOPES, TIAGO NENÉ, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
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    e VICTOR OLIVEIRA MATEUS.
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     EM COIMBRA !!!
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    EM BRAGA !!!
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    Nos 20 anos da partida de Natália Correia!

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    14/03/13


       A irmã mais nova de Lázaro, no mesmo dia em que conheceu a luz que banhava a Terra inteira, conheceu também uma escuridão maior do que aquela em que sempre vivera mergulhada.
    (...) Veio um homem do meio da noite perguntar-lhe o que tinha com uma voz clara e mansa, e a irmã mais nova de Lázaro respondeu-lhe que tinha fome, e frio, e ninguém que a abraçasse; que precisava de ir para Betânia, na Judeia, onde talvez lhe sobrassem um irmão e uma irmã, mas não sabia o caminho; e que procurava um homem que também não conhecia para lhe entregar o seu amor, que era grande e puro, pois a mais ninguém o entregara antes dele. E esse homem que viera do meio da noite, ajoelhando-se junto dela, prometeu que lhe daria abrigo, e ceia, e um abraço diferente de todos os que até ali havia experimentado (...). E, olhando depois o seu rosto suave e inocente, acrescentou que esse homem que ela procurava, esse homem a quem ela queria entregar o seu amor, não era senão ele. E a irmã mais nova de Lázaro (...) ouvindo a sua voz deliciosa, acreditou.
       Veio um homem do meio da noite todas as noites que a essa se seguiram, mas nenhum deles era o homem que a filha de Aura, deitada no chão da sua casa de Migdal, ouvira uma tarde pregar à sua porta e lhe enchera o peito de tumulto. Todos lhe dirigiam a palavra numa voz clara e mansa e todos lhe prometiam tudo o que ela dizia que faltava, pelo que, ao ouvi-los às escuras nas suas longas túnicas que lhes cobriam os pés, ela acreditava sempre cegamente no que diziam.(...) porque todos esses homens que dividiam com ela a cama e a ceia e lhe davam um abraço que ela preferia nunca ter experimentado queriam poder voltar a dar-lho noutra noite (...)
       Entre os seios da irmã mais nova de Lázaro, depois de uma noite que, entre todas, foi a mais dura e longa de toda a sua vida - pois foi nela que voltaram todos os homens que antes a haviam tido uma só noite -, o coração apertou-se, pela primeira vez na sua vida, num novelo de dúvidas e maus pressentimentos quando, na enxerga em que adormecera de exaustão, a acordaram aos gritos as vozes ácidas de um grupo de mulheres que traziam as mãos e os regaços cheios de pedras. Foi só quando a primeira palavra a atingiu no peito, e quando a primeira pedra a atingiu no peito com o som dessa palavra, que a filha mais nova de Aura conseguiu encontrar a resposta à pergunta que a mãe lhe pedira que nunca formulasse. E, levantando-se com as poucas forças que lhe restavam para se salvar do seu destino (---) correu para fora da cabana com as lágrimas (...) por ter descoberto que o corpo que tinha para oferecer a esse homem que amava já não era o corpo que ele, na sua infinita bondade, merecia.
    (...) E, por entre as vozes iradas de todos aqueles que só pensavam em castigar a irmã mais nova de Lázaro pelo pecado da carne, (...) Jesus perguntou o nome à mulher que, ajoelhada aos seus pés, os enxugava agora com os longos e sedosos cabelos das lágrimas que sobre eles derramara. E ela, sem o olhar ainda por vergonha, respondeu-lhe que se chamava Maria e era de Migdal, mas para Betânia, na Judeia, era o seu caminho, pois aí talvez lhe sobrassem um irmão que se chamava Lázaro e uma irmã que se chamava Marta, os únicos que poderiam ainda recebê-la sem pedras na mão. E Jesus, erguendo o olhar para uma nuvem que pairava sobre a sua cabeça (...), disse-lhe na sua voz clara e mansa:
    - Vês alguma pedra nas minhas mãos? Pois então vem comigo, ia justamente para Betânia salvar um homem do seu destino, e uma viagem faz-se sempre melhor em boa companhia.
     
      Pedreira, Maria do Rosário. Aos Seus Pés in "Putas: novo conto português e brasileiro". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, pp  89 - 93.
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    12/03/13

    Em breve...


    A  Editora Labirinto irá comemorar o DIA MUNDIAL DA POESIA com o lançamento, em
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    três cidades (Braga, Coimbra e Lisboa), de uma Antologia de Poesia que tive o prazer de organizar.
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    Na apresentação da obra em Lisboa terei a honra de estar acompanhado por duas grandes escritoras
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    deste país: CRISTINA CARVALHO e MARIA JOÃO CANTINHO .
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    (Em breve mais pormenores sobre estes eventos.)
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    05/03/13

     
        Como melhor exemplo da sua arte poética, como obra mais significativa de toda a produção de Mallarmé, podemos assinalar A Tarde de Um Fauno ( L'Après-midi d'un faune, 1876), um complexo e ambicioso poema sugerido após a leitura de uma pequena composição de Banville ( Diana no Bosque ) que referia ao de leve a personagem. O tema do desejo de duas ninfas por parte do fauno quando este despertou da sesta, serve ao poeta como pano de fundo para uma ampla reflexão sobre a realidade e o sonho, sobre os limites da vigília e o universo contemplado através dela. A Tarde de Um Fauno constitui, deste modo, um excelente resumo prático dos ideais poéticos de Mallarmé, que gostava de se considerar pensador antes de poeta. O artista, pensava, está encarregue de decifrar o mundo, cuja aparência exterior constitui um símbolo da Ideia que esconde (e observem-se aqui as dívidas para com a filosofia hegeliana). A explicação do mundo, no entanto, exige ser realizada por meios distintos dos convencionais, uma vez que a realidade impõe uma falsa lógica com a qual não pode ser verdadeiramente decifrada a Ideia. A missão da arte, da poesia neste caso, é a de desvendar, por meio de uma lógica artística de natureza simbólica, o verdadeiro ser do mundo. Apesar do ilusório da realidade, não se deve renunciar nesse desvendamento à estrita materialidade pela qual o homem se põe em contacto com a Ideia. Essa é a razão pela qual Mallarmé presta tanta atenção à execução do poema, especialmente à sua estrutura melódica. Em A Tarde de Um Fauno, o autor aprende as lições de outros contemporâneos sobre a musicalidade do verso - recordemos, por exemplo, Verlaine - e atribui à lírica uma transcendência melódica ( não foi em vão que a obra depressa passou para o mundo da dança), que não podemos deixar de reconhecer como uma certa forma de misticismo musical, muito presente entre os artistas europeus da época, e cujo ponto mais alto foi atingido por Wagner nas suas óperas.
        Compreenderemos melhor, depois desta rápida exposição das suas ideias poéticas através de A Tarde de Um Fauno, as razões pelas quais Mallarmé foi um autor pouco prolífico. Por um lado, era muito arriscado apostar numa obra tão ambiciosa e complexa como a sua, sobretudo se a tentava tratar com seriedade e rigor; por outro lado, à dificuldade da composição acrescentava-se a da recepção pelo público, que Mallarmé nem sempre conseguiu fazer participar nesse desvendamento do mundo a que parecia convidar a sua poesia; juntamente com A Tarde de Um Fauno, O Túmulo de Edgar Poe e alguns poemas isolados constituem o melhor da sua produção. Por fim, a sua honestidade intelectual deve-se ao rigor, e não à escassez, da sua inspiração, à qual nunca lhe faltaram horas de dedicação e trabalho. As implicações pseudo-religiosas da sua crença artística, de filiação claramente romântica na sua veia idealista, levaram-no ao extremo de negar qualquer dívida para com a realidade, a qual tentou superar através do símbolo, verdadeiro ser do mundo. Mas essa tentativa de libertação da arte levava irremediavelmente a esse beco sem saída que a sua geração compreendeu e experimentou até à perfeição com o "silêncio poético" de Rimbaud. Este caminho morto, esta impossibilidade de chegar mais longe, devia-se à recusa do artista a ceder à materialidade para decifrar um mundo que se obstinava em não ser desvendado e daí a presença contínua na sua obra dos temas da esterilidade, do nada, do vazio... Há, por isso, na obra de Mallarmé grandes doses de negação da substancialidade comunicativa da arte, momentos nos quais a poesia sacrifica, inclusivamente, a matéria da poesia, a palavra, para tentar desta forma fazer participar o leitor do indizível. A verdadeira poesia, parece concluir Mallarmé, pode ser, quanto muito, sugerida (e só esta convicção lhe permiitiu continuar a compor), mas nunca poderá ser escrita, pois profana-se assim a sua mais íntima essência. Rimbaud já o tinha compreendido e por isso se manteve fiel a esse "silêncio" que nenhum outro autor chegou a praticar.
     
     
      Iáñez, E. História da Literatura, Vol. 7: O Século XIX, Realismo e Pós-Romantismo. Lisboa: Planeta Editora, 1992, pp 256 - 257.
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    04/03/13


          " Victor Oliveira Mateus "

    De ti nascem os esboços do que escrevo agora
    nestas linhas pautadas pelo vazio do branco
    onde rasuro ideias que custam perícia e tempo
    na incerteza da morfologia destas palavras
    que respiram e regurgitam num só movimento.

    Também são tuas estas frases órfãs de saber
    inspiradas num instante de alucinação pagã
    mas livres dos preconceitos irracionais da razão
    que as dilacera e corrompe a cada sílaba
    numa dança válsica que foge à compreensão.

    Não negues a paternidade destas estrofes
    cujas rimas furtivas se eclipsaram à nascença
    deixando um simples discurso incoerente
    de alguém que necessita escrever algures
    todos os poemas que o papel recusa albergar.

    São teus os versos que aqui vêm descansar
    depois de correrem as estradas da criação
    numa alucinante viagem sem destino prévio
    mas com indomável vontade de se juntarem
    e no fim gritar as dores de terem sido paridas.

     Lomelino, Emanuel. Poetas Que Sou. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013, p 85.
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     "  Paula  Tavares  "


    Voltaram a ouvir-se os cânticos
    lamentosos das mães chorosas.
    Os tambores anunciam prantos
    e os rostos ganham serenidade.
    O uivo da noite ilumina os sentidos
    e a morte já tem as mãos cheias.
    O cheiro a óleo de palma permanece
    e as palavras são pérolas raras.
    Prepara com carinho esse funje
    porque no sábado temos visitas.

     Lomelino, Emanuel. Poetas Que sou. Póvoa de Santa Iria: Lus de Marfim, 2013, p 52.
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    02/03/13

    "Se somente chamasses,/(...) viria alguém,/ do mais alto das ilhas, do fundo rubro do mar, "



           "   Barcarola   "


    Se tocasses apenas o meu coração,
    se pusesses apenas a tua boca no meu coração,
    a tua fina boca, os teus dentes,
    se pusesses a tua língua como flecha rubra,
    ali, onde o meu coração poeirento lateja,
    se soprasses no meu coração, à beira-mar, chorando,
    soaria com um rumor sombrio, um rumor de rodas de comboio sonolento,
    como águas vacilantes,
    como o Outono nas folhas,
    como sangue,
    com um rumor de chamas húmidas a queimar o céu,
    soando como sonhos, ou ramagens ou chuvas,
    ou sereias de um porto triste,
    se soprasses no meu coração, à beira-mar,
    como um fantasma branco,
    na orla da espuma,
    na metade do vento,
    como um fantasma à solta, à beira-mar, chorando.

    Como uma longa ausência, como um súbito sino,
    o mar reparte o rumor do coração,
    chovendo, entardecendo numa praia deserta:
    a noite cai sem dúvida,
    e o seu lúgubre azul de estandarte em naufrágio
    povoa-se de planetas de prata enrouquecida.

    E o coração ressoa como um caracol amargo,
    chama, oh mar, oh lamento, oh derretido susto
    derramado em desgraças e ondas desatadas:
    com o rumor, o mar acusa
    suas sombras reclinadas, suas papoulas verdes.
    Se existisses de súbito, numa praia tristíssima,
    rodeada pelo dia morto,
    frente a uma nova noite,
    cheia de ondas,
    e soprasses em meu coração de medo frio,
    soprasses no sangue solitário do meu coração,
    soprasses no seu movimento de pomba flamejante,
    soariam suas negras sílabas de sangue,
    cresceriam suas incessantes águas rubras,
    e soaria, soaria a sombras,
    soaria como a morte,
    chamaria como um tubo cheio de vento ou pranto,
    ou uma garrafa jorrando pavor aos borbotões.

    Assim é, e os relâmpagos cobririam tuas tranças
    e a chuva entraria por teus olhos abertos
    a preparar o pranto que surdamente encerras,
    e as asas negras do mar girariam em volta
    de ti, com grandes garras, e grasnidos e voos.

    Queres ser o fantasma que sopre, o solitário,
    à beira-mar, o seu estéril, o seu triste instrumento?
    Se somente chamasses,
    seu prolongado som, seu maléfico silvo,
    sua ordem de ondas feridas,
    viria alguém talvez,
    viria alguém,
    do mais alto das ilhas, do fundo rubro do mar,
    alguém viria, alguém viria.

    Alguém viria: sopra furiosamente,
    que soe como a sereia de um barco destroçado,
    como um lamento,
    como um relincho entre a espuma e o sangue,
    como uma água feroz mordendo-se e soando.
    Na estação marinha
    seu caracol de sombra circula como um grito,
    os pássaros do mar desprezam-no e fogem,
    suas riscas de som, seus lúgubres barrotes
    erguem-se à beira do oceano deserto.

       Neruda, Pablo. Antologia. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1998, pp 93 - 97 (Selecção e Tradução de José Bento).
    .

    " sobre la nueva casa construida: "

      "  Aquí me quedo  "

    Yo no quiero la Patria dividida

    ni por siete cuchillos desangrada:
    quiero la luz de Chile enarbolada
    sobre la nueva casa construida:

    cabemos todos en la tierra mía.

    Y que los que se creen prisioneros
    se vayan lejos con su melodía:

    siempre los ricos fueron extranjeros.
    Que se vayan a Miami con sus tías!

    Yo me quedo a cantar con los obreros
    en esta nueva historia y geografia.

     Neruda, Pablo. Incitación al Nixonicidio y Alabanza de la Revolución Chilena. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1974, p 35.
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    28/02/13


       "  Poema  "


    Em todas as ruas te encontro
    em todas as ruas te perco
    conheço tão bem o teu corpo
    sonhei tanto a tua figura
    que é de olhos fechados que eu ando
    a limitar a tua altura
    e bebo a água e sorvo o ar
    que te atravessou a cintura
    tanto    tão perto    tão real
    que o meu corpo se transfigura
    e toca o seu próprio elemento
    num corpo que já não é seu
    num rio que desapareceu
    onde um braço teu me procura

    Em todas as ruas te perco
    em todas as ruas te encontro


      Andrade, Eugénio de. Variações Sobre um Corpo. Porto: Editorial Inova, 1973, p 39.
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    27/02/13

    "(...) o seu principal mérito encontra-se na frescura que o autor proporciona..."



       Embora o Realismo encontre o seu modo de expressão adequado no género narrativo, o impulso lírico que Antero de Quental deu à nova consciência artística (...) tornou possível que os poetas pudessem optar por uma expressão realista não necessariamente em confronto com o lirismo. É preciso referir, no entanto, que a maior parte destes autores não foram capazes de proporcionar qualquer plasticidade às suas produções caracterizadas pela rigidez e pelo prosaísmo.
       Entre estes poetas realistas, João de Deus talvez seja o mais reconhecido em Portugal, mais pela sua aproximação ao estilo e temáticas populares do que propriamente pelos sucessos literários. Na realidade, estamos perante uma espécie de autor vagabundo cujo estilo deixa transparecer todos os defeitos e virtudes inerentes à língua popular. As suas composições ingénuas, repassadas de tradicionalismo católico, tratam sobretudo do tema amoroso e satírico e o seu principal mérito encontra-se na frescura que o autor proporciona ao panorama de fria retórica pós-romântica.
     
     
      Iáñez, E. História da Literatura Vol. 7: o século XIX Realismo e Pós-Romantismo. Lisboa: Planeta Editora, 1997, p 328.
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    25/02/13

    " Ainda se os desfizesse... "



       " Dia de Anos "

    Com que então caiu na asneira
    De fazer na quinta-feira
    Vinte e seis anos! Que tolo!
    Ainda se os desfizesse...
    Mas fazê-los não parece
    De quem tem muito miolo!

    Não sei quem foi que me disse
    Que fez a mesma tolice
    Aqui o ano passado...
    Agora o que vem, aposto,
    Como lhe tomou o gosto,
    Que faz o mesmo? Coitado!

    Não faça tal; porque os anos
    Que nos trazem? Desenganos
    Que fazem a gente velho:
    Faça outra coisa; que em suma
    Não fazer coisa nenhuma,
    Também lhe não aconselho.

    Mas anos, não caia nessa!
    Olhe que a gente começa
    Às vezes por brincadeira,
    Mas depois se se habitua,
    Já não tem vontade sua,
    E fá-los queira ou não queira!

    Deus, João de. Campo de Flores, Tomo II. S/c: Promoclube, s/d.,  pp 21 - 22.
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    23/02/13

    Ontem...

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    No recital de ontem, em Valência, foram ditos textos de Seferis, Montale, Ritsos, Quasimodo, Yeats, Daniel Faria e a excelente tradução - feita por José Ángel Garcia Caballero - da minha "Antígona". Segundo me relatam foi bastante bom o acolhimento deste texto... Partilho o êxito com o tradutor: só um grande escritor consegue fazer uma tradução destas! Obrigado a todos!!!
    .

    ...

    ANTÍGONA

    Tal vez prefirieses gritos, súplicas
    o -¿quién sabe?- que rasgase
    las vestiduras y me deshiciese. Aunque, temible
    Creonte, yo poseo la experiencia
    de quien no cede, de quien recorre
    las sendas de los márgenes y apenas oye
    el antiguo saber de la tierra, el único al que vivos
    y muertos pertenecen
    y nos hierve en las venas sin que sepamos
    cómo ni por qué. Puedes, ¡oh, hábil!,
    combinar las palabras, confundir
    las frases en discursos y experimentos
    de gloria... Pero tu gloria no pasará
    de un mero nombre, e incluso ese con tantas dudas
    debatiéndose;
    tu gloria –esa pequeña barca
    de pergamino pudriéndose en las playas
    jónicas. No eres nada, ¡oh ridículo mensajero
    de lo nuevo!, y ninguna máscara aumentará
    esa inmensidad de nada, que jamás
    conseguirás disimular. Podrás perseguir,
    difamar, convencer a otros de que también
    lo hagan, pero nunca eludirás el imperturbable
    movimiento del gran ciclo, ese
    donde los dioses cobran todos los gestos
    según el orden del tiempo; lugar
    en donde nos movemos: breves,
    banales… y tal vez, dispensables.

    Victor Oliveira Mateus (Em "Meditações sobre o fim"; Ed. Hariemuj 2012) (Trad. José A. García Caballero)
    .

    21/02/13

    "(...) se cree que se lo dió con la condición de que gobernara según las exigencias del bien común, no tiránicamente. "


                          " La sedición es intrinsecamente mala? "

    1. Se llama sedición toda lucha colectiva que se da dentro de un mismo Estado. Puede entablarse entre dos partidos o entre el soberano y su pueblo.
    Primera conclusión: La sedición entre dos partidos de un Estado siempre es ilícita en el bando que inicia la agresión, pero es justa en el que se defiende.
    La segunda parte de la conclusión es evidente por sí misma. Se demuestra la primera. En este caso no existe ninguna autoridad legitima que pueda declarar la guerra, pues ésta reside en el soberano, como hemos visto en el capítulo segundo.
    Se objetará: El soberano puede a veces delegar esa autoridad si urge una grave necesidad del bien público. Mas entonces diremos que ya no se cree que inicia la agresión una parte del Estado, sino el mismo soberano. Así que no existe la sedición de que hablamos. Pero qué diremos si esa parte del Estado ha sido verdaderamente ofendida por la otra y no puese obtener su derecho por medio del príncipe? Es mi respuesta que no puede más que lo que un simple particular puede hacer, como se colige fácilmente por lo que tenemos dicho.
    2. Segunda conclusión: La guerra del pueblo contra su soberano no es intrinsecamente mala, aunque ella sea agresiva; deben cumplirse, sin embargo, las otras condiciones de una guerra justa para que ésta sea honesta. Solamente tiene lugar esta conclusión en el caso de que el príncipe sea un tirano; puede ocurrir de estas dos maneras, como anota el cardenal Cayetano ( Secunda Secundae, quaest. 64, art. 3, ad. 3.): primera, si el príncipe es tirano en cuanto a su dominio y poder; segunda, si solamente es tirano en cuanto a la manera de gobernar. Cuando sucede la tiranía de la primera clase, el Estado, en cuanto tal, y aun cualquiera de sus miembros, tiene derecho a levantarse contra el tirano; cualquier ciudadano podrá vengar al Estadi de esta tiranía (...). Porque el príncipe es agresor e inicuamente tiene declarada la guerra a la República y a cada uno de sus miembros. Todos los ciudadanos tendrán derecho a defenderse. Es la opinion del cardenal Cayetano ( Ibídem, art.3.) y puede deducirse de la doctrina de Santo Tomás (Ibídem, dist. 44, quaest. 2. art. 2).
    Juan Hus enseño esta misma doctrina con relación a la segunda clase de tiranía; más aún, la aplicó a todo superior que es injusto. Tesis que fué condenada en el Concilio de Constanza. Por tanto, la doctrina es que ningún particular, ni poder imperfecto que no sea soberano, puede justamente empreender una guerra de agresión contra ese tirano; esta guerra sería una auténtica sedición. La razón es obvia. Aquel príncipe es verdadero soberano, como se supone, y los súbditos no tienn derecho a declararle la guerra, sino únicamente a defenderse; situación que no tiene lugar en esta clase de tiranos, ya que éste obrando así no siempre hace injusticia a sus miembros; además de que si éstos fueran objeto de agresión, únicamente podrían hacer lo que fuera necesario a su propria defensa.
    Sin  embargo, el Estado, como tal, podría rebelar-se contra este tirano. En este caso no se levantará en auténtica sedición, supuesto que este nombre se acostumbra a tomar en mal sentido. Porque en estas circunstancias el Estado es superior al rey, pues habiéndole entregado él su poder, se cree que se lo dió con la condición de que gobernara según las exigencias del bien común, no tiránicamente. Si no lo hiciera así, el mismo Estado podría quitarle el poder de soberanía. Pero hay que suponer que él, real y manifestamente, gobierna en tirania y que concurren las otras condiciones que se han establecido para la licitud de la guerra. Léase a Santo Tomás (De Regimine Principum, lib. 1, cap. 6.)
    3. Tercera conclusión: La guerra de un Estado contra su rey, que no es tirano de ninguna de estas dos formas, con toda propriedad se llama sedición y es intrinsecamente mala.
    La conclusón es evidente y consta por el hecho de que en este caso no concurren autoridad legítima ni causa justa. Desde el punto de vista contrario, se deduce de esto que la guerra de un príncipe contra el Estado que le está sujeto puede ser justa por razón del poder que es legítimo si se cumplen también las otras condiciones de guerra; pero si éstas faltan, la guerra será totalmente injusta.
     
      Suárez, Francisco. Guerra, Intervención,Paz Internacional ( Capº Octavo). Madrid: Ed. Espasa-Calpe, 1956, pp 125 - 127.

    20/02/13

    Contributo para uma polémica...

    Como andam por aí uns senhores dizendo que os alunos do ISCTE abalroaram a Democracia, eis o meu singelo contributo:
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    "Toda a gente concorda que a função daquele que detém o poder é conhecer sempre a situação do Estado, com a condição de cuidar do bem comum e de fazer o que é útil à maior parte dos súbditos."

     ESPINOSA. Tratado Político ( Capítulo VII, parágrafo 3). Lisboa: Editorial Estampa, 1977, p 69.
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    19/02/13

     
     
      ( Poema XIII do Ciclo A Arrábida )
     
     
    Ó cidade, cidade, que trasbordas
    De vícios, de paixões e de amarguras!
    Tu lá estás, na tua pompa envolta,
    Soberta prostituta, alardeando
    Os teatros, e os paços, e o ruído
    Das carroças dos nobres recamadas
    De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
    Tempestuosa, e o tropear contínuo
    Dos férvidos ginetes, que alevantam
    O pó e o lodo cortesão das praças;
    E as gerações corruptas de teus filhos
    Lá se revolvem, qual montão de vermes
    Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
    Branqueado sepulcro, que misturas
    A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
    Honra e infâmia, pudor e impudicícia,
    Céu e Inferno, que és tu? Escárnio ou glória
    Da humanidade? O que o souber que o diga!
     
    ...   ...   ...   ...   ...   ...
     
    Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
    Em joelhos nos átrios dos tiranos,
    Onde, entre o lampejar de armas de servos,
    O servo popular adora um tigre?
    Esse tigre é o ídolo do povo!
    Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
    O férreo ceptro: ide folgar em roda
    De cadafalsos, povoados sempre
    De vítimas ilustres, cujo arranco
    Seja como harmonia, que adormente
    Em seus terrores e senhor das turbas.
    Passai depois. Se a mão da Providência
    Esmigalhou a fronte à tirania;
    Se o déspota caiu, e está deitado
    No lodaçal da sua infâmia, a turba
    Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
    E diz: "É meu"; e assenta-se na praça,
    E envolta em roto manto, e julga, e reina.
    Se um ímpio, então, na afogueada boca
    De vulcão popular sacode um facho,
    Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
    E referve, e trasborda, e se derrama
    Pelas ruas além: clamor retumba
    De anarquia impudente, e o brilho de armas
    Pelo escuro transluz, como um presságio
    De assolação, e se amontoam vagas
    Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
    Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
    Cava fundo da Pátria a sepultura,
    Onde, abraçando a glória do passado
    E do futuro a última esperança,
    As esmaga consigo, e ri morrendo.
     
    Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
    Outros louvem teus paços sumptuosos,
    Teu ouro, teu poder: sentina impura
    De corrupções, teus não serão meus hinos!
     
      Herculano, Alexandre. A Harpa do Crente. Mem Martins: Pub. Europa-América, 2ª Edição, pp 64 - 66.
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    18/02/13


    ("Poema XXIV" do Ciclo A Semana Santa )


    Minha pátria onde existe?
                         É lá somente!

    Oh, lembrança da Pátria acabrunhada
    Um suspiro também tu me hás pedido;
    Um suspiro arrancado aos seios d'alma
    Pelo ofuscada glória, e pelos crimes
    Dos homens que ora são, e pelo opróbrio
    Da mais ilustre das nações da Terra!

    A minha triste pátria era tão bela,
    E forte, e virtuosa!, e ora o guerreiro
    E o sábio e o homem bom acolá dormem,
    Acolá, nos sepulcros esquecidos,
    Que a seus netos infames contam
    Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
    O escravo português agrilhoado
    Carcomir-se lhes deixa junto às lousas
    Os decepados troncos desse arbusto,
    Por mãos deles plantado à liberdade,
    E por tiranos derribado em breve.
    Quando pátrias virtudes se acabaram,
    Como um sonho da infância!...
                      O vil escravo,
    Imerso em vícios, em bruteza e infâmia,
    Não erguerá os macerados olhos
    Para esses troncos, que destroem vermes
    Sobre as cinzas de heróis, 3, aceso em pejo,
    Não surgirá jamais? Não há na Terra
    Coração português que mande um brado
    De maldição atroz, que vá cravar-se
    Na vigília e no sono dos tiranos,
    E envenenar-lhes o prazer por noites
    De vil prostituição, e em seus banquetes
    De embriaguez lançar fel e amarguras?

    Não! Bem como um cadáver já corrupto,
    A Nação se dissolve: e em seu letargo
    O povo, envolto na miséria, dorme.

      Herculano, Alexandre. A Harpa do Crente. Mem Martins: Pub. Europa-América, 2ª Edição, p 42.
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    14/02/13

                                                            Auta de Souza ( 1876 - 1901 )

                     " Melancolia "


    Sinto no peito o coração bater
    Com tanta força que me causa medo...
    Será a Morte, meu Deus? Mas é tão cedo!
    Deixai-me inda viver.

    Tudo sorri por este campo em flor
    O Amor e a Luz vão pelo Céu boiando...
    Só eu vagueio a suspirar, chorando
    Sem Luz e sem Amor.

    Lutando sempre com uma dor cruel
    Cheia de tédio e desespero, às vezes;
    Minh'alma já tragou até as fezes
    O cálice de fel.

    E o coração no seio a palpitar,
    Como se acaso não tivesse crença,
    Pulsa com a força indefinida, imensa
    Dos vagalhões do Mar.

      Souza, Auta de. La Poésie du Brésil, Anthologie du XVIe au XXe siècle. Paris: Éditions Chandeigne, 2012, p 482 ( Choix, présentation & traduction de Max de Carvalho. Parnassiens et Symbolistes).
    .
                                                           Júlia da Costa ( 1844 - 1911)


                     " Amélia "


    Quando no centro dos bosques
    A rolinha pipilar,
    Uma saudade me manda
    Nas ondas do alto-mar.

    Nas ondas do alto-mar
    Quando a noite for formosa,
    Me manda de teu piano
    Uma nota harmoniosa.

    Uma nota harmoniosa
    Que defina o teu sentir;
    Que me traga uma saudade,
    Que me mostre o teu sorrir.

     Costa, Júlia da. La Poésie du Brésil, Anthologie du XVIe au XX siècle. Paris: Éditions Chandeigne, 2012, pp 340 - 342 (choix, présentation & traduction de Max de Carvalho, chapitre "Romantiques").
    .

    13/02/13

    " ... os seus lindos cabelos louros presos na fronte por uma grinalda... "


     
    (Nota - parece haver uma obsessão de rotulagem relativamente aos poetas que se debruçam, ou que não ignoram, o mundo interior, levam imediatamente com o estigma de românticos, pós-românticos ou ultra-românticos. Não estarão alguns deles mais próximo da psicanálise da Kristeva, do cognitivismo de Christophe André do que de Fichte, Holderlin e tantos outros? Fica a pergunta no ar. No entanto, irei postar alguns autores brasileiros: românticos (Casimiro de Abreu e Júlia da Costa) e simbolista (Auta de Souza)... Para se verem as diferenças!)
    .
    .
         " A Virgem Loura ( Páginas do Coração ) "


    IV
       Mas o que me acontecia quando eu era pequeno, aquilo que vos quero contar, é uma coisa que de certo tem acontecido a todas as crianças e em que bem poucas terão feito reparo.
       Era uma mulher de uma beleza extrema e de uma graça encantadora que, sempre coroada de rosas e sorrindo-se ternamente, vinha todos os dias associar-se a nossos folguedos e partilhar nossas alegrias e pesares. Era uma virgem; dizia-o a pureza de seus belos olhos e a suavidade da fala.
       Apesar de tantos anos, vou tentar pintá-la como a vi na infância. Se o retrato sair imperfeito e as cores esmorecidas, desculpem-me; a minha palheta não é variada, e ao tocar nessas páginas do coração, a mão treme e o pincel nodoa a tela.
    V
    (...)
    -Era bela, - já vos disse,- e não acho com que a possa comparar.
    - Uma vestal?
    - Seria; mas seu rosto divinamente belo, nem sempre tinha essa suavidade angélica das vestais antigas (...)
       Naquele tempo eu vi-a sempre bondosa, terna e ingênua.
       Quando ela sacudia aquela cabeça digna da estatuária antiga, os seus cabelos, os seus lindos cabelos louros presos na fronte por uma grinalda, fugiam e flutuavam livres em graciosos anéis.
       Trajava roupas talares, tão alvas e tão alvas, que todos nós temíamos manchá-las quando as tocávamos.
       Era muito linda; mas o que eu sobretudo admirava, na minha ingenuidade infantil, era a pureza e o brilho de seus olhos azuis que refletiam a cor do céu. Como eram belos! Nas horas de oração, de joelhos a nosso lado, ela erguia esses olhos para Deus e conservava-os assim longo tempo num êxtase; então eu via que, suspensa de suas pálpebras tremia e brilhava uma lágrima como o cristal no lampadário do templo. E chorávamos também, e uníamos as nossas vozes frescas à sua voz melodiosa que entoava o cântico da infância sublime de simplicidade.
       A minha virgem vivia sempre cantando; mas fazia-o com tal suavidade, com tal sentimento, que nós, suspensos e imóveis, ficávamos presos a esse doce gorjeio que nos despertava sensações desconhecidas.
    ...
    X
       Mas depois...a - Virgem Loura - volúvel e caprichosa como todas as mulheres, abandonou-me.
    (...) Fatal dia! Negra hora!
       Desde então fugiu-me a - Virgem Loura - e debalde a tenho procurado no clarão da lua, na luz das estrelas, nas ondas do mar, nas flores do prado, em tudo; nunca mais a vi!
    (...)
    - Mas quem era - a Virgem Loura?
    - A de olhos azuis?
    - Sim.
    - Aquela que eu amava?
    - Sim.
    - Pois não adivinharam?!... Era a poesia.

      Abreu, Casimiro de. Narrativas. Lisboa: CLEPUL da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012, pp 65 - 71 ( Edição, apresentação e notas de Maria Eunice Moreira).
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    11/02/13

    "O universo não é produto das trevas e da ausência de razão."

     
    (Nota- os temas da Razão, da Fé, da Criação e das Ciências Naturais no pensamento de Joseph Ratzinger).
    .
    .
                                1. O carácter racional da fé na criação
     
       Esta compreensão tem de ser aprofundada ao longo de duas linhas de pensamento. A primeira coisa que temos de considerar é o "isso" da criação. Esse "isso" exige uma razão; ela aponta para o poder que estava lá no início e que pôde dizer: "Faça-se...". No século XIX isto era visto de outra maneira. As ciências naturais estavam profundamente influenciadas por duas grandes teorias: a da conservação da matéria e a da conservação da energia. Por conseguinte, o universo parecia ser um cosmos eterno, governado pelas imutáveis leis da natureza, dependente apenas de si mesmo e não necessitando de nada que lhe fosse exterior. Estava ali como um todo e por isso Laplace pôde dizer: "Já não preciso da hipótese de Deus". Entretanto, foram feitas novas descobertas. A teoria da entropia postula que a energia que é utilizada numa determinada área já não poderá ser recuperada. Isto significa que o universo está sujeito tanto à mudança como à destruição. O carácter temporal está inscrito nele. Depois disto, veio a descoberta de que a matéria se pode converter em energia, o que alterou substancialmente as duas teorias da conservação. Seguiu-se a teoria da relatividade, entre diversas outras que mostraram que o universo está de facto marcado pela temporalidade, uma temporalidade que nos fala de um início e de um termo, e da passagem de um princípio para um fim. Mesmo que fosse realmente impossível medir o tempo, poder-se-ia ainda assim compreender, através da obscuridade de biliões de anos, pela consciência da temporalidade, o que a Bíblia designa por princípio - o princípio que aponta para Aquele que teve o poder de dar origem ao ser e de dizer "Faça-se...", e assim aconteceu.
       Uma segunda consideração vai além do mero "isso" do ser. Ela tem a ver com o desígnio do universo, o modelo que foi usado na sua criação. Daquele "faça-se" não resultou a criação de uma qualquer amálgama casual. Quanto mais sabemos acerca do universo, mais profundamente nos sentimos impressionados por uma Razão cujos métodos só podemos contemplar com assombro. Ao aprofundá-los, podemos entender de uma maneira nova a Inteligência criadora à qual devemos a nossa própria razão. Albert Einstein afirmou que nas leis da natureza se revela uma Razão supeior" tal que tudo o que de significativo emergiu da razão e da concepção humanas é, em comparação com ela, o mais pobre reflexo". No infinitamente grande, no mundo dos corpos celestes, vemos revelada uma poderosa Razão que sustenta o universo. E estamos a penetrar cada vez mais no infinitamente pequeno, na célula e nas unidades primordiais da vida. Aí também descobrimos a Razão que nos surpreende, de tal modo que devemos dizer com São Boaventura: "Quem não vê aqui é cego. Quem não ouve aqui é surdo. E quem aqui não começa a adorar e a louvar a inteligência criadora é mudo." Jacques Monod, que rejeita toda a fé em Deus por ser não-científica e pensa que o mundo teve a sua origem numa interacção entre o acaso e a necessidade, afirma, na mesma obra em que procura apresentar e justificar sumariamente a sua perspectiva acerca do mundo que, depois de ouvir as suas conferências que foram posteriormente publicadas em livro, François Mauriac terá afirmado: "Aquilo de que este professor nos quer convencer é muito mais inacreditável do que aquilo em que se esperava que nós, simples critãos, alguma vez acreditássemos". Monod não nega isto. De acordo com a sua tese, todo o conjunto da natureza resultou de erros e dissonâncias. E não pode fazer mais do que dizer a si mesmo que uma tal concepção é absurda. No entanto, segundo ele, o método científico não permite que seja formulada qualquer questão para a qual Deus seja a resposta. A única coisa que podemos dizer é que um tal método é patético. É o próprio Deus que resplandece através da racionalidade da sua criação. A física, a biologia e as ciências naturais em geral deram-nos uma nova e inaudita explicação da criação, com novas imagens grandiosas que nos permitem reconhecer o rosto do Criador, e que nos permitem precisamente reconhecer, mais uma vez, que no princípio e no fundamento de todo o ser há uma Inteligência criadora. O universo não é o produto das trevas e da ausência de razão. Ele emerge da inteligência, da liberdade e da beleza que se identifica com o amor. Compreender isto dá-nos coragem para continuar a viver, confere-nos autonomia e faz-nos sentir confortados para assumirmos, nós próprios, a aventura da vida.
     
     
       Ratzinger, Joseph. No Princípio Deus Criou o Céu e a Terra. Cascais: Princípia Editora, 2009, pp 32 - 34.
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    10/02/13

    Relato...

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                                               “ Eneias e o Anjinho”

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    Monsieur entrou ofegante: mochila logo à porta da sala, o blusão atirado para cima dum  sofá.
    Vai sair os verbos e as funções sintácticas!, disse. O.K!, puxa então a tua mesa para ao pé da minha! Veio a mesa, veio a mochila vomitando compêndios, folhas A4, um estojo… Dá cá o livro para eu escolher um texto. Ele deu. Eu escolhi. Começámos ambos à cata de verbos que ele ia cantando nos mais diversos tempos, modos e pessoas. Quando dei por encerrada aquela parte da aula, eis que ouço: não me perguntaste o mais que perfeito do conjuntivo! E zás, varreu-se-me tudo: nem perfeito, nem conjuntivo, nem nada… E quanto eu mais procurava, mais se adensava a branca. Eh, não sabes o mais que perfeito do conjuntivo!, exclama o anjinho. Tá calado, rapaz, não vez que estou cansado! Não sabes, não sabes: é aquele que tem o “tivesse”, que vimos no outro dia. Há um a zero, pensei eu! Acabou!, pus eu aquela cara agressiva que, às vezes, lá consegue ir convencendo. Agora vamos às orações!, decreta Monsieur. Eu arrumo as gramáticas, as notas, as brancas… Ai queres orações?, então começa já a dizer o Pai-Nosso!, finjo-me eu zangado. Eh, é orações, mas não é dessas… E lá fomos em busca das orações perdidas. Era um texto que falava de pescadores, de tubarões e de todo o tipo de actividades marítimas. De repente surge-me algo do estilo: “(…) e tinham-nos trazido estendidos sobre tábuas estreias”. Sujeito?, pergunto. Não tem! Não tem?! Espera, espera… Torce-se na cadeira, sua, debruça-se sobre a página: tem, tem… Tem?! Sim, está subentendido! Em que é que ficamos é inexistente ou está subentendido? Eh, pá, já te disse: tá subentendido! Depois, nova luta por causa do “nos”… Enorme discussão para o convencer que o “nos” não se referia a “nós” mas aos tubarões, logo não podia ser complemento directo… Finalmente acabou o primeiro round com um a zero.
    No dia seguinte Monsieur delimita logo as tarefas: temos de ver Os Lusíadas, porque também vai sair. Lusíadas às 17h depois de um dia inteiro de volta do Realismo francês era tarefa de leão, mesmo assim aceitei. Sabias, pergunta-me ele com ar erudito, que o Camões não começa a contar logo do princípio, ele começa a meio, na ilha de Moçambique, sabias? Respondo: não, não sabia, por isso é que tu estás aqui pra me explicar! Não o deixo ir para a ilha de Moçambique sem primeiro atacarmos a Proposição, a Invocação e a Dedicatória. Ele começa a ler… Pára aí! Olha-me: que foi? É que eu quero saber se estás a ler Os Lusíadas ou a fazer um relato de futebol. Ri. Retoma a leitura. Pára aí! Olha-me de novo: que foi agora?Agora?!, agora não estás a fazer um relato de futebol, mas deves estar a ler um mail… isso não tem ritmo, entoação, pontuação? Eh, pá, és um chato! E lá atacamos as estrofes que eu pretendia. O anjinho sabia tudo: o Trajano, as Tágides, o engenho, as rimas, todos os tipos de estrofes dos dísticos às oitavas, mas… eis que cavei a minha perda: “cessem do sábio Grego e do Troiano”, falei-lhe de Homero, fui à estante buscar a Ilíada e a Odisseia e fiz-lhe – passe a redundância!- duas breve sínteses, mas quando cheguei ao Troiano veio de novo a branca… Branca-branca que só me conseguia lembrar do Príamo, do Paris, do Heitor, mas não era nenhum desses. Então oiço: eh, não sabes quem é o Troiano! Eu penso: “prontus”, dois a zero! O anjinho ergue a cabeça para me explicar: o Camões está a falar de Eneias, é que ele foi influenciado por Virgílio, pela Eneida… Eh, não sabias! De um jacto levanto-me, vou à estante e tiro o “Obras de Virgílio”, na tradução do Agostinho da Silva, e mostro-lhe a Eneida toda sublinhada. Não me interessa, insiste o anjinho, não foste tu que sublinhaste… não sabias quem era Eneias. E ria, ria… Eu também ria, mas para dentro, a fingir-me zangado…
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    06/02/13

       Fernando Namora, saído jovem da universidade de Coimbra, inicia um périplo voluntário que o enraíza na alma do povo rural pobre, fundindo as suas preocupações estéticas com as necessidades de sobrevivência do povo que ia retratando. Como médico, vive longos anos em Condeixa, sua terra natal, Tinalhas e Monsanto, cerca de Castelo Branco, e Pavia, no Alentejo. João Semana espontâneo, Namora, confrontado com o estado geral de pobreza dos camponeses, escreve o magnífico Retalhos da Vida de Um Médico, I Série, 1949, Casa da Malta, sobre ganhões migrantes, 1945, Minas de S. Francisco, em 1946, A Noite e a Madrugada, em 1950, e, finalmente, a sua obra-prima da arte da narração, um dos mais belos e mais bem escritos romances do século XX e peça de altar do neorrealismo português pela densidade das personagens e coesão harmónica da ação: O Trigo e o Joio, 1954. Em todos estes romances, Fernando Namora, em imagens estéticas vivas e intensas, retrata a avassaladora miséria económica do quotidiano português da primeira metade do século XX.
       Nesta fase rural de Namora, a sua escrita confunde-se com o ideário neorrealista, embora sem se identificar de um modo pleno com este movimento do ponto de vista filosófico, como Urbano Tavares Rodrigues, em 1980, muito lucidamente sublinhou em "O Rosto e a Máscara na Obra de Fernando Namora", e como o próprio Namora, em 1961, ressalva no seu opúsculo Esboço Histórico do Neo-Realismo, considerando o neorrealismo esgotado como projecto literário subsidiário de uma repetição monótona de "temas, ambientes e processos estilísticos". Porém, criativamente, O Trigo e o Joio passará à história como o mais alto monumento estético do nosso neorrealismo possível, isto é, um neorrealismo cujos "temas" se centram na exploração económica do campesinato e não do operariado, cujos "ambientes" se circunscrevem maioritariamente ao ruralismo e cujos "processos estilísticos" nunca superam o documentarismo realista - teses de Namora.
       Entre 1956 e 1965, Fernando Namora instala-se em Lisboa, trabalhando no Instituto Português de Oncologia. Lisboa inspira em Namora uma nova alma, correspondente a uma nova fase da sua obra. Os três livros seguintes, O Homem Disfarçado, de 1957, Cidade Solitária, de 1959, e Domingo à Tarde, de 1961, são expressão deste segundo Namora, que,  sem ferir os seus princípios de cidadão interiorano, soube acolher o pulsar da capital. Lisboa vive então o frenesim criado pelo choque surdo entre diversas correntes literárias, e Namora, mente montesina, experimenta o sabor de uma pulsão estética nascida em Portugal na década de 50, o existencialismo de origem francesa, que acabara de evidenciar a sua cristalização consagrante em Aparição, Vergílio Ferreira, publicado em 1959. Namora confronta-se com esta mentalidade urbana pós-Segunda Guerra Mundial e, acompanhando a História, acolhe-a nos três últimos livros citados, promovendo uma bem conseguida ponte estética entre realismo e existencialismo. Se O Trigo e o Joio se constitui como a sua obra exemplar do período neorrealista, a exploração das nuances da psicologia humana em Domingo à Tarde torna este livro o seu equivalente para esta segunda fase da sua obra.
       Em 1966, publica Diálogo em Setembro, "romance-ensaio" no dizer de Mário Sacramento (Fernando Namora, Lisboa, Arcádia, s/data, p. 81), ou crónicas romanceadas, no dizer do próprio Namora, romance que aproxima a obra do autor do esteticismo presente na narrativa portuguesa da década de 60.
     
      Real, Miguel. O Romance Português Contemporâneo: 1950 - 2010. Alfragide: editorial Caminho, 2012, pp 75 - 77.
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    05/02/13

    "Os dias começam-me de forma imprevista. Isto poderia ser uma boa definição da juventude. E, curiosamente, acontece-me."


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       tenho andado com a impressão de que há uma nova vida à frente. Não sei se é bom, se é mau. Sei que é engenhoso, sem ser contudo inquietante. A inquietude é algo que se vai perdendo com a experiência. A sua escala vai diminuindo e a qualidade de vida aumentando, pese o preço que se vai pagando por isso: as derrotas, as decepções, as perdas que lhes estão associadas, todas na medida maior, caso contrário não produzem efeito na escala insidiosa do que já foi inquietante.
       Quando se toca o fundo de uma série de histórias, acompanha-nos a respectiva dor e, ao mesmo tempo, um magnífico horizonte de recomeço. É precisamente dessa fórmula, desse encontro entre a dor e o recomeço que se pode diminuir a inquietude.
       Ficarei por Paris até ao Natal. Tenho estado hospedado na suite da Patrícia, uma herança que ela agora usa para hospedar amigos. Esta independência tem servido para me confrontar com algum desconhecido. Chega-se a este ponto da vida com a impressão de que só se desconhece ciência e cultura. Ou seja, aquilo que as diferentes cátedras são capazes de nos injectar durante uns parcos tempos nos bancos rotineiros das universidades. Mas o espanto está no resto. Tem-me espantado o grau de desconhecimento sobre a humanidade dos humanos. Quero dizer, o que ainda  não sei sobre o sorriso de milhões, sobre as lágrimas de outros tantos, sobre a insinuação do mundo, sobre o anseio que paira na tal humana humanidade que possui o universo. E isso tem-me dado um inumerável aumento de horizontes que é um pouco estranho à nossa idade.
       Quando penso que já vivi a maior parte da vida, sinto uma certa avareza por perceber que o tempo é muito pouco para chegar satisfatoriamente a essas emoções e pensamentos que têm os outros e que nos mudam.
       Há dias ouvi uma conversa entre uma rapariga e uma vendedora de flores em Saint-Michel que me povoou a manhã. A vendedora de flores tinha uma genuína apropriação emocional da sua profissão. Ela sabia sempre, pelo olhar que os clientes lançavam às flores, a quem se destinavam. Sabia o significado que lhes davam no momento da escolha: as esperanças, os refúgios, as perdas, a dedicação, sabia os códigos das flores no coração alheio. E isso é a tal humana humanidade de que te falava e para a qual já há pouco tempo para apreciar, para saber, mas que é um autêntico atlas.
       Quando já se andou por quase todos os continentes, como é o meu caso, parece que já quase nada nos pode espantar. Mas não. Há um lugar muito maior do que o mundo para descobrir e para fruir. A poética que encerra a viagem até ao outro é também ela um desafio de navegação com aspecto tão de infinito quanto a vista que se tem dos promontórios em direcção à linha do horizonte.
       Os dias começam-me de forma imprevista. Isto poderia ser uma boa definição da juventude. E, curiosamente, acontece-me.(...)
     
      Martins, Pompeu Miguel. Ficar. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 65 - 66.
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    04/02/13

    "Eu sempre gostei mais das pessoas estranhas (...) falam de assuntos de que nunca nos lembramos..."


       A Margarida tem umas mãos muito bonitas e quando joga ao berlinde connosco eu gosto de ficar a olhá-las e então lembro-me da vez em que me tocou o ombro, fazendo desaparecer por momentos a minha tristeza. Aquele único toque mudou a minha vida. Mas, a verdade é que continuarei só a olhá-la e a achar que é a mais bela rapariga, porque do outro lado tenho o Lininho, esse sim o melhor amigo e o melhor irmão do mundo. Acho que somos felizes os dois. Acho que nos bastamos. Pelo menos, até agora tem chegado, até porque o Lininho nunca me disse que era infeliz e, em segredo, eu pensei muitas vezes que, se eu fosse ele, seria certamente infeliz.
       Os meus amigos falam da Margarida como se falassem de uma pessoa muito estranha. Talvez por ela ser diferente e jogar connosco. Eu sempre gostei mais das pessoas estranhas. Surpreendem-nos, mostam-nos coisas diferentes, falam de assuntos de que nunca nos lembramos, reparam no que mais ninguém repara e dão valor ao que pouca gente dá. As pessoas estranhas são as que mais sabem sobre o que eu sinto. É pena que não haja uma pessoa estranha que perceba mesmo tudo. Se a Margarida percebesse tudo, eu pedia-a em namoro, assim só gosto dela e sou feliz, em segredo, com a sua estranheza.
     
       Martins, Pompeu Miguel. Ficar. Fafe: Editora Labirinto, 2012, p 29.
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    03/02/13


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    A poesia de José Carlos Ary dos Santos.
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    01/02/13

    "Os rapazes da tua idade nunca podem fazê-lo, a não ser muito excepcionalmente"

     
     
    " E tu?" Falara com uma certa ansiedade, porque, de repente, a ideia de a filha gostar de um homem lhe pareceu quase monstruosa. "E tu?", repetiu.
    Lisa, porém, sossegou-a. Riu um pouco, encolheu os ombros. "Não, está descansada. Gosto que ele goste de mim, é tudo. Ainda me sinto muito nova para criar problemas. Quero divertir-me." Ficou um momento pensativa e depois declarou: "Sabes, mãe, creio que nós, a gente nova de agora, temos uma coisa que vos faltou. Sabemos que é preciso aproveitar o tempo. Vocês..."
    Dora perguntou-lhe: "Mas o que sabes tu de nós? "
    "Calculo. Nós sabemos que a juventude é curta e tem de ser aproveitada porque aos trinta anos tudo acabou. E aproveitada da melhor maneira. Pensando no futuro, talvez. É importante, o futuro."
    "Pensarás de maneira diferente quando os tiveres, disse Dora, que não ouvira as últimas palavras de Lisa. "Hás-de adiar o fim para os quarenta, depois para os cinquenta. E assim nunca te sentirás velha."
    "Pensas assim, tu?"
    "Oh, eu..."
    "Mas a juventude, onde está?", prosseguiu Lisa. "Perdeu-se, de qualquer maneira. Então... Tu, por exemplo... Rejuveneceste, muito bem. Mas o que aproveitaste da vida? Até agora, quero dizer..."
    Era uma pergunta difícil para aquele dia. Dora Rosário, porém, dominou-se, conseguiu responder aquilo que teria respondido antes da conversa nocturna com a sogra: "Fui feliz com o teu pai."
    Lisa duvidou gentilmente: "Sim, talvez. Mas achas que basta para a vida de uma pessoa oito ou dez anos de felicidade, se assim lhe queres chamar? E o que veio depois? As dificuldades, tudo isso? A vida tem de ser toda aproveitada, é o que nós sabemos. Só me quero apaixonar por quem eu quiser. Por alguém que me garanta segurança, compreendes?"
    Dora Rosário disse: "Os rapazes da tua idade nunca podem fazê-lo, a não ser muito excepcionalmente", e Lisa assegurou com ar sonhador e um tanto sibilino: "Por isso mesmo."
    As raras conversas a sério que tivera com Lisa haviam-lhe deixdo sempre, como aquela, um travo na boca. A filha parecia conhecer a vida antes de a ter vivido, parecia liberta de todos os espantos antes de se ter espantado.
     
     
        Carvalho, Maria Judite de. Os Armários Vazios. Mem Martins: Pub. Europa-América, 1993, pp 52 - 54.
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