17/04/13



  " Versos Para Ningún Salterio "


No quisiera ser Dios en estos tiempos
y reinar resguardado tras las nubes
omnisciente de bombas y cañones
que escupen a mis hijos roja muerte.

Qué penoso escuchar un coro de ángeles
si por la tierra suenan los llantos de los niños.
Diosabe que por nada me cambiaba
con el Querido Dios allá en el cielo.

Pienso que semejante maquinaria
de oscuridad y pirotecnia obliga.
Ha realizado acaso algún milagro
como hiciera en sus tiempos en Egipto?

Alabad al Señor que calla! En tales tiempos
- y perdona, Pastor - es el silencio un crimen.
Sin embargo parece que Su gloria es no hablar
ni siquiera a favor del Cordero más manso.

El Señor Sabaoth pasea por el bosque de las nubes.
Lo que yo opine a Él le importa un rayo.
No quisiera ser Dios en estos tiempos.
Y cómo se lo explico yo a mi hijo?


  Kaléko, Mascha. Tres Maneras de Estar Sola. S/c.: Editorial Renacimiento, 2012, pp 27 - 29 ( Tradución de Inmaculada Moreno).
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15/04/13

 
 
Mas um velho, de aspeto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
 
" Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!
 
Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana.
 
A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão fàcilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
 
Mas, ó tu, gèração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não sòmente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado, mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:
 
Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome "esforço e valentia",
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá:
 
    Camões, Luís de. Os Lusíadas (IV 94 - 99). Lisboa: Empresa Litª Fluminense, 7ª Edição, pp 170 - 171.
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O regresso de Tornatore.


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" A Mellhor Oferta" de Giuseppe Tornatore com Geoffrey Rush (Virgil Oldman), Donald Sutherland e Jim Sturgess.
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Os sentimentos humanos são como a obra de arte: nunca se consegue distinguir o que neles é verdadeiro das falsificações bem conseguidas. Conseguir-se-á separar na amizade e no amor aquilo que neles é autêntico e verdadeiro do que aí não passa de mentira e mero logro? Não, não se consegue e Virgil Oldman, um leiloeiro bem sucedido que ousa amar uma jovem desconhecida e confiar num amigo, aprenderá essa lição à sua custa e com um alto preço. Nenhum homem maduro deve mostrar o seu tesouro à primeira jovem que insiste em amar, aliás, o Fedro de Platão já começava exactamente com este dilema, mas à tese do filósofo, o cineasta contrapõe os riscos que corre quem não sabe separar as águas, isto é, não há qualquer garantia para quem demonstre o que tem de mais valioso e se, mesmo assim, insiste nessa demonstração está por sua conta e risco: esta parece ser a lição que o realizador pretende fazer passar. Expor uma obra de arte, ou um sentimento, é sempre um convite ao roubo, à traição: roubar uma parede cheia de quadros ou atraiçoar um mundo interior não faz, para quem rouba, qualquer diferença. Um filme a não perder, uma lição a manter intacta. Excelentes interpretações com Geoffrey Rush no seu melhor. Não descurar também a grande música de Morricone.
André Téchiné, em Les Voleurs, e Woody Allen, em Match Point, já tinham andado à volta deste tema: Téchiné de um modo bem mais labiríntico, enquanto que Woody Allen e Tornatore com um rigor na caracterização psicológica das personagens, que eu considero perfeito. 
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12/04/13



      "  Animais Que  Brilham  "


Amar é perder a cara para ganhar a do outro
a de todos os outros, múltiplo: o espasmo
Na linha das zebras que se espalha até à loucura
Perde-se, entra nos teus olhos, procura um fio condutor
Feito só de energia quente, até à elegia última
Ao mais perfeito abraço, ao beijo mais puro,

Procurar é ter sede, gastar todas as línguas, entrelacá-las
Até à loucura, ganhar uma nova e única, em tudo fluorescente
sobe pela medula a febre dos girassóis, o seu caule
Cheio de leite quente e gordo de baleia, cheio de espera condensada
e marítima;
Só o amor permite ver mais longe:
cão guia cego que procura uma vontade nova
Os olhos são o espelho da alma e os amigos são o espelho de deus

  Brito, Nuno. Duplo Poço. S/c.: Hariemuj Editora, 2012, p 50.
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09/04/13



( Excerto de Sunset Boulevard
Ode Gente )


...     ...     ...     ...    ...    ...
Acende um Farol em cada praia. Não esperes os navios. Entra em todos os seus porões sem aviso - Recheia os capitães de Susto - Enche os porões de riso e espasmo... Penteia-os com gel de golfinho. Sempre estive perto da loucura, se não fui ela própria, sempre quis ter bigodes púrpura e ser só a chuva lá fora -


Nunca quis ser um poeta, só quis ser um navio em chamas: Um navio violado pelo seu tio, todas as manhãs e todas as tardes, um navio que à noite lê Bataille - Um Navio que se afasta dos outros navios se não tiver cuidado, um navio que só quer ser ponte,
limite e União.
Um navio que com os seus óculos de Sol, escreve na sua rota: - Não existe o que se escreve nas rotas -
Um navio que mesmo assim escreve e insiste em escrever, seja no osso de uma namorada morta, seja no computador, seja em rolo de papiro, em pergaminho, em papel, em folha de gelatina, em mármore, em porta de casa de banho, em quadro (pode ser com unhas ou com dentes) em areia molhada, no braço ou nas costas em tatuagem num deserto mexicano, num campo relvado, a chantilly num bolo de chocolate, no lodo, na lama, no gelo com patins, na cerâmica, na argila, no fogo, desenhando um rasto de gasolina, com urina num ladrilho seco - Não interessa o suporte, mais ou menos perene, ele só prova a nossa inocência, a nossa necessidade de partilhar -
A literatura só pode ser União... Um navio que escreve rápido no ar e em fumo de cigarro

( são precisos bons reflexos e ante-braço forte) - A LITERATURA TEM DE SER, É UNIÃO.

Nunca quis ser um poeta, sempre quis ser um espelho colocado no centro da Austrália, sempre quis ser a "fome de gente" que os espelhos têm - Pequenos fios dourados, Guardar uma coisa qualquer, um hipermercado, um segredo, proteger essa coisa dos lobos; Ser vários cangurus espalhados pelo deserto reflectidos na minha cara fosca, de um e do outro lado, uma cara fosca que é só deserto espelhado carregado de nuvens vermelhas no vidro e na sede de ter Muitas Línguas - Deserto Compositor a Criar um Requiem em Braille para que os cegos cantem uma Osana Perfeita  -
(...)
Não interessa a escolha do caminho, mas a intensidade com que se o percorre, seja ele um ou em tudo múltiplo e comprido. Deserto a abraçar deserto, deserto a espalhar-se, vermelho na perda por deserto e deserto, deserto com sede de pessoas.
...    ...     ...     ...     ...     ...     ...
 
  Brito, Nuno. Duplo Poço.  S/c:  Hariemuj Editora, 2012, pp 32 - 33.
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07/04/13



      "  A  Sombra  "


Ó sombra da respiração
Minha mãe
Que abandonaste teu filho às margens de uma estrada grande
Parco de tudo o que existe menos de ignorância
Altiva como o nada que nos assola pela manhã
Assola à tarde e nos assola de novo na aurora

Minha mãe
Sombra da respiração de onde vim
Desenha uma porta neste caracol vazio que é a nossa vida
Deixa-me sair de mim e de ti
Que nada aconteceu entre nós que não se possa apagar
Como a luz que acontece às vezes no campo nas noites escuras

Ó minha sombra de respiração
De quem sou filho e filho também do que nada sei
És a responsável
Pelo desequilíbrio com que se começa a vida
Por tudo o que cai e se desfigura
Muitos ou apenas poucos dias depois

Meu coração é do tamanho do escuro
É à porta de mim que se faz luz
Não tenho dores em lugar algum para mostrar
Há em mim uma parte de todos
Que se espalha entre nós como sémen
Um humano desperdício vingativo

Tenho a cabeça derramada na laje fria
E não é a primeira nem será a última
Escrever da dificuldade de respirar
Da dificuldade de ver que vim de onde vim
É crer na noite e no fim de tudo
Crer é um enorme ponto final

  Miranda, Paulo José. Cintilações da Sombra, antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 59 - 60 (Organização de Victor Oliveira Mateus).
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06/04/13

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       "  Poema  18.  "


Atirei-te com um poema
não pela porta, nem pelo tubo de escape: deixei-to preso
no limpa-vidros               Atirei-te com um poema, mas tu
não estavas       durante mais de três dias não vieste
a casa         e o meu pobre poema ali ficou: perdido
imerso no ruído dos outros carros, no passar fétido
de todas as errâncias, que não a minha
sempre a ler sonhos na frieza das ruas


Atirei-te com um poema
escrito por outro que não eu: deixei-to preso
no limpa-vidros, para que te limpasse o dia
                           para que te abrisse o horizonte
nas riscas brancas de um qualquer navio
ou nas malhas acesas da madrugada
quando me perco na sedução vaga do teu olhar


Sei que irás suspeitar de mim
pensarás que ando agora pelas ruas
                                                 atirando poemas
como pássaros       a todo o rosto entrevisto
no clamor sórdido dos dias
Irás supeitar deste mistério que é o meu para ti
enquanto eu, artilhando a minha-espingarda-dos poemas,
te preparo este, para ser mais certeiro, mais eficaz
Este poema que te desperte,
que te traga de volta, que


   Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 47 (Prefácio de Ana Paula Dias).
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04/04/13

Cristina Carvalho escreve sobre Poesia.

Sessão de apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” na Livraria Pó dos Livros, em 21 de Março 2013
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                     A literatura e a poesia, esses milagres!
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Muito boa tarde a todos os presentes.
E começo por agradecer a Victor Oliveira Mateus este convite para apresentar o livro – Cintilações da Sombra – conjuntamente com a Maria João Cantinho de quem sou amiga e a quem reconheço um importantíssimo e um superior valor poético.
Todo o começo se prende com alguma coisa e, sendo assim, inicio a minha apresentação com uma citação de François Mauriac,
Diz-me o que lês e eu dir-te-ei quem és. Mas conhecer-te-ia melhor se me dissesses o que relês.
Todos os poetas habitantes deste volume são, a meu ver, de grande e inquestionável qualidade. Faltam aqui alguns nomes importantíssimos e disto mesmo já dei conta a Victor Oliveira Mateus. De todo o modo, Victor Oliveira Mateus, ele próprio um dos poetas que integram esta antologia e que foi também o organizador-coordenador deste conjunto poético, teve o maior cuidado e rigor na seleção que agora se mostra.
Li todos os poemas aqui presentes. Naturalmente que aprecio uns mais que outros, mas isso é natural. Estranho seria que os apreciasse a todos do mesmo modo e com a mesma intensidade. Aqui estão reunidos poetas que eu não conhecia e também aqui estão presentes nomes consagradíssimos da poesia portuguesa contemporânea. Há também nomes não consagrados nem consagradíssimos, mas que eu espero, realmente, que venham a ser do conhecimento de todos. Poesia que conheço bem de pessoas que mal conheço mas que reconheço com toda a minha admiração.
É pois uma escolha total, esta, a de Victor Oliveira Mateus. Uma escolha de primeira grandeza e que em nada, mas mesmo nada, nada, nada se pode comparar, nem de perto nem de longe, a tanta, mas tanta antologia “poética” que, quase todos os dias é publicada. Mal publicada. Sem critério, sem rigor, sem qualidade. Apenas para vender todos os livros, de preferência todos de uma vez logo na sessão de apresentação aos familiares, aos vizinhos, aos amigos, aos amigos dos amigos. Negócio, portanto. Pequenas satisfações. Pequenos serviços, quanto a mim de muito mau gosto e de péssima conduta que resultam num empobrecimento cada vez maior do gosto de cada um, num país com um diminuto grau de conhecimento. Já não digo cultural. Digo, de conhecimento e de interesses.
Voltando a este livro, naturalmente que não vou mencionar nomes. São todos valorosos. Muito valorosos. E a diferença está à vista. Nem vale a pena discutir. Alguém poderá afirmar: o que é bom para ti pode não ser bom para mim e vice versa.
Não! Isso é sofisma! Desconhecimento! A definição de “bom”, muito para além da sensibilidade intrínseca, além da imagética e da idiossincrasia de cada um, o “bom” tem uma definição mais não seja estética! Há bom e há mau. Na poesia, na literatura, na pintura, na escultura, na culinária, no cabeleireiro, na rádio, nas televisões, nos jornais, em todo o lado. E a fraca qualidade literária é uma realidade também.
Temos, pois aqui, um livro muito bom. Com grandes poetas. De grande e absoluto sentimento. Não são segréis, nem jograis nem trovadores. São poetas por inteiro todos os nomes aqui apresentados. É poesia o que aqui se mostra.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quantos pensamentos gloriosos já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo?
Tanta interrogação…
A poesia é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida –
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Cito John Keats, – “Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.”
Mas não é, infelizmente, o que vemos. Eu diria até que a poesia que se deixa ver através de um vidro fosco, se não fosse tudo aquilo que sabemos que é, essa dita “poesia” estaria a definhar, tal é a indigência apresentada com todo o despudor, com toda a desvergonha, numa ânsia incompreensível de notoriedade, numa sede, numa fome, quase num desespero que em nada contribui para o conhecimento real do que, na verdade, é a poesia. Nem documento social é – e isso sim, teria muito interesse histórico!
Não que não seja legítimo toda a gente escrever e dar a conhecer as suas sensações. Claro que sim! Mas sempre a mesma coisa? Não há mais nada para desenhar que não sejam amorosos e delambidos poemas de amor? O mundo resume-se a si próprio? É tudo poesia? Frases colocadas em fila, umas por debaixo das outras, sem nexo nem melodia? É tudo poesia?
Também Hélia Correia diz em entrevista a Ana Marques Gastão em o “Falar dos Poetas”, edições Afrontamento – “É uma aberração chamar poesia à expressão de sentimentos em versinhos. A deriva semântica deu nisso e eu não posso deixar de indignar-me.”
E eu digo: sim senhor! Tudo é legítimo. Todas as vozes são para se ouvir, umas expressando-se melhor, outras pior, mas todas as vozes devem ser ouvidas. Não chamem é poesia a tudo o que se cozinha, a tudo o que se come, engole e regorgita. Haverá outras definições, certamente.
Quanto a mim, o papel da literatura e da poesia não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. A poesia é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, – um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser uma dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que precisamos. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Não me atribuo, pois, o direito de ter sequer a pretensão de me pôr a analisar este livro ou seja o que for. Quando digo – analisar – estou a referir-me a uma situação teórica ou académica ou então, daquelas conversas que não são entendíveis por um ser humano normal, de atitude simples. O que eu quero dizer é que quando emito uma opinião, falo com o que o meu coração e os meus sentimentos e os meus poucos conhecimentos, ditam. Nada de intrincado e obscuro, portanto. A clareza e simplicidade acima de tudo.
Ao ler-se este livro fica o sentimento, o pensamento, reflexão sobre a vida, sobre a humanidade, sobre a sua verdade, principalmente sobre a sua verdade, tudo traduzido em poesia. Este é um livro de sentimentos. Procura incessante duma certa alegria, talvez.
E, finalmente, do meu entendimento da poesia, amiga com quem convivo desde que me conheço, desde que comecei a ler, posso dizer
Que não é estado de espírito; que não é necessidade; nem intempérie de amor, nem rumor ou piedade, nem doença nem saudade.
Não é, certamente, um acumular de palavras num esforço patético de dar voz aos amores e dar voz a coisa nenhuma. A poesia é para ser lida e observada meticulosamente, é para ser sorvida com todo o cuidado, é para ser apreciada palavra por palavra, frase por frase, conceito por conceito porque toda ela é densa, sofisticada, significante.
A poesia, o texto poético nasce da vida e acompanha a vida numa união imperceptível que se adensa na progressão infinita, que se espraia e se entende e purifica e anima e constrói. É uma arte. E como toda a arte tem uma linguagem que permite tudo, sempre! As obras e os actos do homem ou se condenam ou se purificam e a poesia ou os eleva ou os atinge.
Um livro de poemas não é algo que se devore instantaneamente. O leitor recebe a poesia preparado para a receber. Não porque um poeta seja uma pessoa diferente das outras. A poesia é que é uma arte distinta, é uma arte de palavras e nada tão difícil de saborear como uma palavra nascida e escrita e alinhada que pretende dizer sobre a alma, sobre a vida, sobre os Homens. A poesia pode dizer tudo o que quiser. Pode ser lamacenta ou transparente, vertigem ou luz do luar.
Termino. Desde 1999 que se celebra o dia 21 de Março como o Dia Mundial da Poesia sendo um dos seus propósitos divulgar, ensinar e promover a poesia em todo o mundo.
Foi, pois, e em boa hora, apresentado e divulgado ao público português, resplandecente na sua cintilação poética e sem sombra de dúvida, a antologia “Cintilações da Sombra”. Desejo-lhe um futuro caleidoscópico e radiante.
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CRISTINA CARVALHO
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( texto protegido por direitos de autor)
21 de Março de 2013 em livraria Pó dos Livros na apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” – Labirinto Editora.
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NOTA - Este texto, postado aqui com o conhecimento da autora, encontra-se, no entanto, protegido pela legislação relativa aos Direitos de Autor.
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    30/03/13



    VIAGEM: -


    Sigo os teus passos, caminheiro perdido em cidades som-
    brias. Não sei manejar as estacas com que te inclinas no
    abrigo dos alpendres. Mas todos os caminhos me desafiam
    para o desvario de um lugar, de uma palavra, de um rosto.
    Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.


     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 30.
    .

    PAI: -


    Hoje pensei na solidão dos pássaros quando as searas se
    incendeiam. E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo como
    se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras. O que
    sei eu das uvas entre os teus dentes no tempo das vindimas?
    Que pássaro de cinza, diz, te sobrevoou o verde do olhar?
    Se prolongasse o poema  dir-te-ia como os meus olhos
    te lembram. Mas não posso. Vou devolver ao mar as conchas
    negras da minha colecção.

     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 22.
    .


    DECISÃO: -



    Não traço planos. Amanhã cada minuto será transitório.
    Todos os pormenores que me são próprios terão a precisão
    das cordas do alaúde em dedos sensíveis. Serei nómada e
    levarei comigo a máscara do veneno junto à boca.

     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 11.
    .

    CONTRATEMPO : -



    Ser cega e ver nos olhos dele a sombra oblíqua do barco
    que usará para fugir.


     Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 10.
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    27/03/13

    Apresentação...


    CADERNO DE SIGNIFICADOS o novo livro de GRAÇA PIRES.
    .
    O lançamento desta obra ocorrerá no próximo dia 30, pelas 16h00, na GUILHERME COSSOUL
    .
    DE CAMPOLIDE, Rua Professor Sousa da Câmara, 156 - Lisboa.
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    A apresentação ´do livro estará a cargo de MARIA JOÃO CANTINHO e a leitura
    .
    de poemas será feita por GISELA RAMOS ROSA.
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    24/03/13

    Um quasipoema...



    Não sei se vem a propósito: quando iniciei o Ciclo Preparatório, a professora de Canto Coral ouviu os meninos um a um e depois sentou-os em lugares bem definidos: 1ª voz, 2ª voz, etc. Quando chegou a minha vez, teve de me ouvir três vezes e depois, peremptória, disse: o menino senta-se na fila da esquerda, junto aos desafinados... A partir desse dia descobri que a vida iria valer a pena!
    .
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    (Nota - não é meu hábito trazer os meus comentários do Face para o Blogue, mas desta vez creio que faz algum sentido...)
    .
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    23/03/13

      

     "  o  poeta  "


    tinha um poema em vez de coração.
    diziam que lhe chilreavam pássaros na garganta
    e que das mãos se abriam quintilhas com que
    transformava todas as coisas em ouro


    o mundo pingava-lhe da boca em sopros de grafema
    mas apenas alguns olhos escutavam
    o coração que trazia em vez do poema


         Vaz, Carlos. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 24 (Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
    .

    Apresentaçao da antologia "Cintilações da Sombra"





    22/03/13

    ...

    Maria João Cantinho, Cristina Carvalho e Victor Oliveira Mateus na apresentação da obra "Cintilações da Sombra" na Livraria Pó dos Livros, 21 de Março de 2013.
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       UMA JOVEM SENTADA NO MEU DEGRAU

                                                     para Marta López Vilar


    De negro como outrora as atenienses
    junto às muralhas do Pireu. De negro
    os escombros de Palmira, os sagrados
    cadáveres de Tebas, os tiranos assumidos
    tão iguais a estes com seus velhos desdentados,
    suas imolações pelo fogo, suas mulheres
    atirando-se pelas janelas, quais Medeias
    já sem filhos nem vontade de vingança.


    De negro a magia persistente de Ritsos,
    de Kavafys, de Seferis, tão avessos
    ao quotidiano esquartejado que propagais.
    E de negro tu também: sentada
    no meu degrau, com o vestido
    a barrar-me a entrada ( coisa de presságios
    tão confusos para mim àquela hora!),
    com o teu sorriso luminoso; um olhar


    a adensar-me a culpa. Um sorriso
    sereno e eu a não te poder mudar
    a vida. De negro o ficarmos ali _
    um frente ao outro... Era um negro
    tão negro, que nele se ouvia já o estrépito
    do branco a despontar: nos gritos,
    nas palavras recuperadas que um dia
    - inevitavelmente -  hão-de voltar.

      Mateus, Victor Oliveira. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 69 ( Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
    .

    21/03/13

    Nota de imprensa...

    Cintilações da Sombra’ no Dia Mundial da Poesia

    Braga

    autor

    Rui Serapicos

    contactar num. de artigos 444

    ‘Cintilações da Sombra’, uma antologia poética com palavras de vários minhotos entre alguns dos melhores autores da actualidade, é apresentada amanhã em Braga, Coimbra e Lisboa, em celebração do Dia Mundial da Poesia. Em Braga, a apresentação está prevista para as 18.30 horas, na Livraria 100.ª Página, sita na Avenida Central, a cargo de José Cândido de Oliveira Martins, professor da Universidade Católica Portuguesa.

    Está prevista, pela actriz Cristina Cunha, a leitura de alguns poemas. Artur Coimbra, Cláudio Lima, Maria do Sameiro Barroso, Pompeu Martins, e Vergílio Alberto Vieira são poetas do Minho com textos inseridos nesta edição, de 500 exemplares, dada à estampa pela editora Labirinto — Núcleo de Artes e Letras de Fafe.

    Entre outros consagrados das letras nacionais, este volume, com pouco mais do que setenta páginas, conta ainda com poemas de António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Furtado, Maria Teresa Horta e Victor Oliveira Mateus, qu e teve a responsabilidade de coordenação.
    Àqueles vultos da poesia acrescentam-se promessas que já se vão cumprindo, em fase de afirmação, como João Ricardo Lopes ou Inês Fonseca Santos.

    Um grito, um hino, um tributo aos poetas e à poesia

    Num comentário para o ‘Correio do Minho’ acerca desta iniciativa editorial, o editor da Labirinto, João Artur Pinto, considera ‘Cintilações da Sombra’ como “um grito, um hino, um tributo simultâneo aos poetas e à poesia”. A antologia encontra-se disponível nalgumas livrarias do país, podendo igualmente ser pedida através do correio electrónico da Editora Labirinto.

    Em Coimbra, na Casa da Escrita, a apresentação está a cargo do de José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra.
    Em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, a apresentação será da responsabilidade de Cristina Carvalho (escritora), Maria João Cantinho (poeta e ensaísta) e Victor Oliveira Mateus (coordenador da antologia).

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    15/03/13

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    . EM LISBOA !!!
    .
    .
    . Nesta Antologia poderão ler a poesia de: ALBANO MARTINS, ALICE FERGO,
    .
    ALICE MACEDO CAMPOS, AMADEU BAPTISTA, AMÉLIA VIEIRA, ANA LUÍSA AMARAL,
    .
    ANA MARIA PUGA, ANTÓNIO JOSÉ BORGES, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ,
    .
    ANTÓNIO RAMOS ROSA, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR COIMBRA, CARLOS AFONSO,
    .
    CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, DANIEL GONÇALVES,
    .
    FERNANDO PINTO DO AMARAL, FILIPA LEAL, GISELA RAMOS ROSA,
    .
    HENRIQUE LEVY, HUGO MILHANAS MACHADO, INÊS FONSECA SANTOS,
    .
    INÊS LOURENÇO, ISABEL MENDES FERREIRA, JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES,
    .
    JOÃO RASTEIRO, JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOEL HENRIQUES,
    .
    JORGE FRAGOSO, JOSÉ ACÁCIO ALMEIDA, JOSÉ EMÍLIO-NELSON,
    .
    JOSÉ RUI ROCHA, JULIANA MIRANDA, MANUEL SILVA-TERRA,
    .
    MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA JOÃO CANTINHO, MARIA QUINTANS,
    .
    MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, NUNO BRITO,
    .
    NUNO DEMPSTER, PAULO JOSÉ MIRANDA, RICARDO GIL SOEIRO, RUI ALMEIDA,
    .
    RUY VENTURA, TERESA RITA LOPES, TIAGO NENÉ, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
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    e VICTOR OLIVEIRA MATEUS.
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     EM COIMBRA !!!
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    EM BRAGA !!!
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    Nos 20 anos da partida de Natália Correia!

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    14/03/13


       A irmã mais nova de Lázaro, no mesmo dia em que conheceu a luz que banhava a Terra inteira, conheceu também uma escuridão maior do que aquela em que sempre vivera mergulhada.
    (...) Veio um homem do meio da noite perguntar-lhe o que tinha com uma voz clara e mansa, e a irmã mais nova de Lázaro respondeu-lhe que tinha fome, e frio, e ninguém que a abraçasse; que precisava de ir para Betânia, na Judeia, onde talvez lhe sobrassem um irmão e uma irmã, mas não sabia o caminho; e que procurava um homem que também não conhecia para lhe entregar o seu amor, que era grande e puro, pois a mais ninguém o entregara antes dele. E esse homem que viera do meio da noite, ajoelhando-se junto dela, prometeu que lhe daria abrigo, e ceia, e um abraço diferente de todos os que até ali havia experimentado (...). E, olhando depois o seu rosto suave e inocente, acrescentou que esse homem que ela procurava, esse homem a quem ela queria entregar o seu amor, não era senão ele. E a irmã mais nova de Lázaro (...) ouvindo a sua voz deliciosa, acreditou.
       Veio um homem do meio da noite todas as noites que a essa se seguiram, mas nenhum deles era o homem que a filha de Aura, deitada no chão da sua casa de Migdal, ouvira uma tarde pregar à sua porta e lhe enchera o peito de tumulto. Todos lhe dirigiam a palavra numa voz clara e mansa e todos lhe prometiam tudo o que ela dizia que faltava, pelo que, ao ouvi-los às escuras nas suas longas túnicas que lhes cobriam os pés, ela acreditava sempre cegamente no que diziam.(...) porque todos esses homens que dividiam com ela a cama e a ceia e lhe davam um abraço que ela preferia nunca ter experimentado queriam poder voltar a dar-lho noutra noite (...)
       Entre os seios da irmã mais nova de Lázaro, depois de uma noite que, entre todas, foi a mais dura e longa de toda a sua vida - pois foi nela que voltaram todos os homens que antes a haviam tido uma só noite -, o coração apertou-se, pela primeira vez na sua vida, num novelo de dúvidas e maus pressentimentos quando, na enxerga em que adormecera de exaustão, a acordaram aos gritos as vozes ácidas de um grupo de mulheres que traziam as mãos e os regaços cheios de pedras. Foi só quando a primeira palavra a atingiu no peito, e quando a primeira pedra a atingiu no peito com o som dessa palavra, que a filha mais nova de Aura conseguiu encontrar a resposta à pergunta que a mãe lhe pedira que nunca formulasse. E, levantando-se com as poucas forças que lhe restavam para se salvar do seu destino (---) correu para fora da cabana com as lágrimas (...) por ter descoberto que o corpo que tinha para oferecer a esse homem que amava já não era o corpo que ele, na sua infinita bondade, merecia.
    (...) E, por entre as vozes iradas de todos aqueles que só pensavam em castigar a irmã mais nova de Lázaro pelo pecado da carne, (...) Jesus perguntou o nome à mulher que, ajoelhada aos seus pés, os enxugava agora com os longos e sedosos cabelos das lágrimas que sobre eles derramara. E ela, sem o olhar ainda por vergonha, respondeu-lhe que se chamava Maria e era de Migdal, mas para Betânia, na Judeia, era o seu caminho, pois aí talvez lhe sobrassem um irmão que se chamava Lázaro e uma irmã que se chamava Marta, os únicos que poderiam ainda recebê-la sem pedras na mão. E Jesus, erguendo o olhar para uma nuvem que pairava sobre a sua cabeça (...), disse-lhe na sua voz clara e mansa:
    - Vês alguma pedra nas minhas mãos? Pois então vem comigo, ia justamente para Betânia salvar um homem do seu destino, e uma viagem faz-se sempre melhor em boa companhia.
     
      Pedreira, Maria do Rosário. Aos Seus Pés in "Putas: novo conto português e brasileiro". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, pp  89 - 93.
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    12/03/13

    Em breve...


    A  Editora Labirinto irá comemorar o DIA MUNDIAL DA POESIA com o lançamento, em
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    três cidades (Braga, Coimbra e Lisboa), de uma Antologia de Poesia que tive o prazer de organizar.
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    Na apresentação da obra em Lisboa terei a honra de estar acompanhado por duas grandes escritoras
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    deste país: CRISTINA CARVALHO e MARIA JOÃO CANTINHO .
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    (Em breve mais pormenores sobre estes eventos.)
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    05/03/13

     
        Como melhor exemplo da sua arte poética, como obra mais significativa de toda a produção de Mallarmé, podemos assinalar A Tarde de Um Fauno ( L'Après-midi d'un faune, 1876), um complexo e ambicioso poema sugerido após a leitura de uma pequena composição de Banville ( Diana no Bosque ) que referia ao de leve a personagem. O tema do desejo de duas ninfas por parte do fauno quando este despertou da sesta, serve ao poeta como pano de fundo para uma ampla reflexão sobre a realidade e o sonho, sobre os limites da vigília e o universo contemplado através dela. A Tarde de Um Fauno constitui, deste modo, um excelente resumo prático dos ideais poéticos de Mallarmé, que gostava de se considerar pensador antes de poeta. O artista, pensava, está encarregue de decifrar o mundo, cuja aparência exterior constitui um símbolo da Ideia que esconde (e observem-se aqui as dívidas para com a filosofia hegeliana). A explicação do mundo, no entanto, exige ser realizada por meios distintos dos convencionais, uma vez que a realidade impõe uma falsa lógica com a qual não pode ser verdadeiramente decifrada a Ideia. A missão da arte, da poesia neste caso, é a de desvendar, por meio de uma lógica artística de natureza simbólica, o verdadeiro ser do mundo. Apesar do ilusório da realidade, não se deve renunciar nesse desvendamento à estrita materialidade pela qual o homem se põe em contacto com a Ideia. Essa é a razão pela qual Mallarmé presta tanta atenção à execução do poema, especialmente à sua estrutura melódica. Em A Tarde de Um Fauno, o autor aprende as lições de outros contemporâneos sobre a musicalidade do verso - recordemos, por exemplo, Verlaine - e atribui à lírica uma transcendência melódica ( não foi em vão que a obra depressa passou para o mundo da dança), que não podemos deixar de reconhecer como uma certa forma de misticismo musical, muito presente entre os artistas europeus da época, e cujo ponto mais alto foi atingido por Wagner nas suas óperas.
        Compreenderemos melhor, depois desta rápida exposição das suas ideias poéticas através de A Tarde de Um Fauno, as razões pelas quais Mallarmé foi um autor pouco prolífico. Por um lado, era muito arriscado apostar numa obra tão ambiciosa e complexa como a sua, sobretudo se a tentava tratar com seriedade e rigor; por outro lado, à dificuldade da composição acrescentava-se a da recepção pelo público, que Mallarmé nem sempre conseguiu fazer participar nesse desvendamento do mundo a que parecia convidar a sua poesia; juntamente com A Tarde de Um Fauno, O Túmulo de Edgar Poe e alguns poemas isolados constituem o melhor da sua produção. Por fim, a sua honestidade intelectual deve-se ao rigor, e não à escassez, da sua inspiração, à qual nunca lhe faltaram horas de dedicação e trabalho. As implicações pseudo-religiosas da sua crença artística, de filiação claramente romântica na sua veia idealista, levaram-no ao extremo de negar qualquer dívida para com a realidade, a qual tentou superar através do símbolo, verdadeiro ser do mundo. Mas essa tentativa de libertação da arte levava irremediavelmente a esse beco sem saída que a sua geração compreendeu e experimentou até à perfeição com o "silêncio poético" de Rimbaud. Este caminho morto, esta impossibilidade de chegar mais longe, devia-se à recusa do artista a ceder à materialidade para decifrar um mundo que se obstinava em não ser desvendado e daí a presença contínua na sua obra dos temas da esterilidade, do nada, do vazio... Há, por isso, na obra de Mallarmé grandes doses de negação da substancialidade comunicativa da arte, momentos nos quais a poesia sacrifica, inclusivamente, a matéria da poesia, a palavra, para tentar desta forma fazer participar o leitor do indizível. A verdadeira poesia, parece concluir Mallarmé, pode ser, quanto muito, sugerida (e só esta convicção lhe permiitiu continuar a compor), mas nunca poderá ser escrita, pois profana-se assim a sua mais íntima essência. Rimbaud já o tinha compreendido e por isso se manteve fiel a esse "silêncio" que nenhum outro autor chegou a praticar.
     
     
      Iáñez, E. História da Literatura, Vol. 7: O Século XIX, Realismo e Pós-Romantismo. Lisboa: Planeta Editora, 1992, pp 256 - 257.
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    04/03/13


          " Victor Oliveira Mateus "

    De ti nascem os esboços do que escrevo agora
    nestas linhas pautadas pelo vazio do branco
    onde rasuro ideias que custam perícia e tempo
    na incerteza da morfologia destas palavras
    que respiram e regurgitam num só movimento.

    Também são tuas estas frases órfãs de saber
    inspiradas num instante de alucinação pagã
    mas livres dos preconceitos irracionais da razão
    que as dilacera e corrompe a cada sílaba
    numa dança válsica que foge à compreensão.

    Não negues a paternidade destas estrofes
    cujas rimas furtivas se eclipsaram à nascença
    deixando um simples discurso incoerente
    de alguém que necessita escrever algures
    todos os poemas que o papel recusa albergar.

    São teus os versos que aqui vêm descansar
    depois de correrem as estradas da criação
    numa alucinante viagem sem destino prévio
    mas com indomável vontade de se juntarem
    e no fim gritar as dores de terem sido paridas.

     Lomelino, Emanuel. Poetas Que Sou. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013, p 85.
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     "  Paula  Tavares  "


    Voltaram a ouvir-se os cânticos
    lamentosos das mães chorosas.
    Os tambores anunciam prantos
    e os rostos ganham serenidade.
    O uivo da noite ilumina os sentidos
    e a morte já tem as mãos cheias.
    O cheiro a óleo de palma permanece
    e as palavras são pérolas raras.
    Prepara com carinho esse funje
    porque no sábado temos visitas.

     Lomelino, Emanuel. Poetas Que sou. Póvoa de Santa Iria: Lus de Marfim, 2013, p 52.
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    02/03/13

    "Se somente chamasses,/(...) viria alguém,/ do mais alto das ilhas, do fundo rubro do mar, "



           "   Barcarola   "


    Se tocasses apenas o meu coração,
    se pusesses apenas a tua boca no meu coração,
    a tua fina boca, os teus dentes,
    se pusesses a tua língua como flecha rubra,
    ali, onde o meu coração poeirento lateja,
    se soprasses no meu coração, à beira-mar, chorando,
    soaria com um rumor sombrio, um rumor de rodas de comboio sonolento,
    como águas vacilantes,
    como o Outono nas folhas,
    como sangue,
    com um rumor de chamas húmidas a queimar o céu,
    soando como sonhos, ou ramagens ou chuvas,
    ou sereias de um porto triste,
    se soprasses no meu coração, à beira-mar,
    como um fantasma branco,
    na orla da espuma,
    na metade do vento,
    como um fantasma à solta, à beira-mar, chorando.

    Como uma longa ausência, como um súbito sino,
    o mar reparte o rumor do coração,
    chovendo, entardecendo numa praia deserta:
    a noite cai sem dúvida,
    e o seu lúgubre azul de estandarte em naufrágio
    povoa-se de planetas de prata enrouquecida.

    E o coração ressoa como um caracol amargo,
    chama, oh mar, oh lamento, oh derretido susto
    derramado em desgraças e ondas desatadas:
    com o rumor, o mar acusa
    suas sombras reclinadas, suas papoulas verdes.
    Se existisses de súbito, numa praia tristíssima,
    rodeada pelo dia morto,
    frente a uma nova noite,
    cheia de ondas,
    e soprasses em meu coração de medo frio,
    soprasses no sangue solitário do meu coração,
    soprasses no seu movimento de pomba flamejante,
    soariam suas negras sílabas de sangue,
    cresceriam suas incessantes águas rubras,
    e soaria, soaria a sombras,
    soaria como a morte,
    chamaria como um tubo cheio de vento ou pranto,
    ou uma garrafa jorrando pavor aos borbotões.

    Assim é, e os relâmpagos cobririam tuas tranças
    e a chuva entraria por teus olhos abertos
    a preparar o pranto que surdamente encerras,
    e as asas negras do mar girariam em volta
    de ti, com grandes garras, e grasnidos e voos.

    Queres ser o fantasma que sopre, o solitário,
    à beira-mar, o seu estéril, o seu triste instrumento?
    Se somente chamasses,
    seu prolongado som, seu maléfico silvo,
    sua ordem de ondas feridas,
    viria alguém talvez,
    viria alguém,
    do mais alto das ilhas, do fundo rubro do mar,
    alguém viria, alguém viria.

    Alguém viria: sopra furiosamente,
    que soe como a sereia de um barco destroçado,
    como um lamento,
    como um relincho entre a espuma e o sangue,
    como uma água feroz mordendo-se e soando.
    Na estação marinha
    seu caracol de sombra circula como um grito,
    os pássaros do mar desprezam-no e fogem,
    suas riscas de som, seus lúgubres barrotes
    erguem-se à beira do oceano deserto.

       Neruda, Pablo. Antologia. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1998, pp 93 - 97 (Selecção e Tradução de José Bento).
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    " sobre la nueva casa construida: "

      "  Aquí me quedo  "

    Yo no quiero la Patria dividida

    ni por siete cuchillos desangrada:
    quiero la luz de Chile enarbolada
    sobre la nueva casa construida:

    cabemos todos en la tierra mía.

    Y que los que se creen prisioneros
    se vayan lejos con su melodía:

    siempre los ricos fueron extranjeros.
    Que se vayan a Miami con sus tías!

    Yo me quedo a cantar con los obreros
    en esta nueva historia y geografia.

     Neruda, Pablo. Incitación al Nixonicidio y Alabanza de la Revolución Chilena. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1974, p 35.
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    28/02/13


       "  Poema  "


    Em todas as ruas te encontro
    em todas as ruas te perco
    conheço tão bem o teu corpo
    sonhei tanto a tua figura
    que é de olhos fechados que eu ando
    a limitar a tua altura
    e bebo a água e sorvo o ar
    que te atravessou a cintura
    tanto    tão perto    tão real
    que o meu corpo se transfigura
    e toca o seu próprio elemento
    num corpo que já não é seu
    num rio que desapareceu
    onde um braço teu me procura

    Em todas as ruas te perco
    em todas as ruas te encontro


      Andrade, Eugénio de. Variações Sobre um Corpo. Porto: Editorial Inova, 1973, p 39.
    .

    27/02/13

    "(...) o seu principal mérito encontra-se na frescura que o autor proporciona..."



       Embora o Realismo encontre o seu modo de expressão adequado no género narrativo, o impulso lírico que Antero de Quental deu à nova consciência artística (...) tornou possível que os poetas pudessem optar por uma expressão realista não necessariamente em confronto com o lirismo. É preciso referir, no entanto, que a maior parte destes autores não foram capazes de proporcionar qualquer plasticidade às suas produções caracterizadas pela rigidez e pelo prosaísmo.
       Entre estes poetas realistas, João de Deus talvez seja o mais reconhecido em Portugal, mais pela sua aproximação ao estilo e temáticas populares do que propriamente pelos sucessos literários. Na realidade, estamos perante uma espécie de autor vagabundo cujo estilo deixa transparecer todos os defeitos e virtudes inerentes à língua popular. As suas composições ingénuas, repassadas de tradicionalismo católico, tratam sobretudo do tema amoroso e satírico e o seu principal mérito encontra-se na frescura que o autor proporciona ao panorama de fria retórica pós-romântica.
     
     
      Iáñez, E. História da Literatura Vol. 7: o século XIX Realismo e Pós-Romantismo. Lisboa: Planeta Editora, 1997, p 328.
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    25/02/13

    " Ainda se os desfizesse... "



       " Dia de Anos "

    Com que então caiu na asneira
    De fazer na quinta-feira
    Vinte e seis anos! Que tolo!
    Ainda se os desfizesse...
    Mas fazê-los não parece
    De quem tem muito miolo!

    Não sei quem foi que me disse
    Que fez a mesma tolice
    Aqui o ano passado...
    Agora o que vem, aposto,
    Como lhe tomou o gosto,
    Que faz o mesmo? Coitado!

    Não faça tal; porque os anos
    Que nos trazem? Desenganos
    Que fazem a gente velho:
    Faça outra coisa; que em suma
    Não fazer coisa nenhuma,
    Também lhe não aconselho.

    Mas anos, não caia nessa!
    Olhe que a gente começa
    Às vezes por brincadeira,
    Mas depois se se habitua,
    Já não tem vontade sua,
    E fá-los queira ou não queira!

    Deus, João de. Campo de Flores, Tomo II. S/c: Promoclube, s/d.,  pp 21 - 22.
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    23/02/13

    Ontem...

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    No recital de ontem, em Valência, foram ditos textos de Seferis, Montale, Ritsos, Quasimodo, Yeats, Daniel Faria e a excelente tradução - feita por José Ángel Garcia Caballero - da minha "Antígona". Segundo me relatam foi bastante bom o acolhimento deste texto... Partilho o êxito com o tradutor: só um grande escritor consegue fazer uma tradução destas! Obrigado a todos!!!
    .

    ...

    ANTÍGONA

    Tal vez prefirieses gritos, súplicas
    o -¿quién sabe?- que rasgase
    las vestiduras y me deshiciese. Aunque, temible
    Creonte, yo poseo la experiencia
    de quien no cede, de quien recorre
    las sendas de los márgenes y apenas oye
    el antiguo saber de la tierra, el único al que vivos
    y muertos pertenecen
    y nos hierve en las venas sin que sepamos
    cómo ni por qué. Puedes, ¡oh, hábil!,
    combinar las palabras, confundir
    las frases en discursos y experimentos
    de gloria... Pero tu gloria no pasará
    de un mero nombre, e incluso ese con tantas dudas
    debatiéndose;
    tu gloria –esa pequeña barca
    de pergamino pudriéndose en las playas
    jónicas. No eres nada, ¡oh ridículo mensajero
    de lo nuevo!, y ninguna máscara aumentará
    esa inmensidad de nada, que jamás
    conseguirás disimular. Podrás perseguir,
    difamar, convencer a otros de que también
    lo hagan, pero nunca eludirás el imperturbable
    movimiento del gran ciclo, ese
    donde los dioses cobran todos los gestos
    según el orden del tiempo; lugar
    en donde nos movemos: breves,
    banales… y tal vez, dispensables.

    Victor Oliveira Mateus (Em "Meditações sobre o fim"; Ed. Hariemuj 2012) (Trad. José A. García Caballero)
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    21/02/13

    "(...) se cree que se lo dió con la condición de que gobernara según las exigencias del bien común, no tiránicamente. "


                          " La sedición es intrinsecamente mala? "

    1. Se llama sedición toda lucha colectiva que se da dentro de un mismo Estado. Puede entablarse entre dos partidos o entre el soberano y su pueblo.
    Primera conclusión: La sedición entre dos partidos de un Estado siempre es ilícita en el bando que inicia la agresión, pero es justa en el que se defiende.
    La segunda parte de la conclusión es evidente por sí misma. Se demuestra la primera. En este caso no existe ninguna autoridad legitima que pueda declarar la guerra, pues ésta reside en el soberano, como hemos visto en el capítulo segundo.
    Se objetará: El soberano puede a veces delegar esa autoridad si urge una grave necesidad del bien público. Mas entonces diremos que ya no se cree que inicia la agresión una parte del Estado, sino el mismo soberano. Así que no existe la sedición de que hablamos. Pero qué diremos si esa parte del Estado ha sido verdaderamente ofendida por la otra y no puese obtener su derecho por medio del príncipe? Es mi respuesta que no puede más que lo que un simple particular puede hacer, como se colige fácilmente por lo que tenemos dicho.
    2. Segunda conclusión: La guerra del pueblo contra su soberano no es intrinsecamente mala, aunque ella sea agresiva; deben cumplirse, sin embargo, las otras condiciones de una guerra justa para que ésta sea honesta. Solamente tiene lugar esta conclusión en el caso de que el príncipe sea un tirano; puede ocurrir de estas dos maneras, como anota el cardenal Cayetano ( Secunda Secundae, quaest. 64, art. 3, ad. 3.): primera, si el príncipe es tirano en cuanto a su dominio y poder; segunda, si solamente es tirano en cuanto a la manera de gobernar. Cuando sucede la tiranía de la primera clase, el Estado, en cuanto tal, y aun cualquiera de sus miembros, tiene derecho a levantarse contra el tirano; cualquier ciudadano podrá vengar al Estadi de esta tiranía (...). Porque el príncipe es agresor e inicuamente tiene declarada la guerra a la República y a cada uno de sus miembros. Todos los ciudadanos tendrán derecho a defenderse. Es la opinion del cardenal Cayetano ( Ibídem, art.3.) y puede deducirse de la doctrina de Santo Tomás (Ibídem, dist. 44, quaest. 2. art. 2).
    Juan Hus enseño esta misma doctrina con relación a la segunda clase de tiranía; más aún, la aplicó a todo superior que es injusto. Tesis que fué condenada en el Concilio de Constanza. Por tanto, la doctrina es que ningún particular, ni poder imperfecto que no sea soberano, puede justamente empreender una guerra de agresión contra ese tirano; esta guerra sería una auténtica sedición. La razón es obvia. Aquel príncipe es verdadero soberano, como se supone, y los súbditos no tienn derecho a declararle la guerra, sino únicamente a defenderse; situación que no tiene lugar en esta clase de tiranos, ya que éste obrando así no siempre hace injusticia a sus miembros; además de que si éstos fueran objeto de agresión, únicamente podrían hacer lo que fuera necesario a su propria defensa.
    Sin  embargo, el Estado, como tal, podría rebelar-se contra este tirano. En este caso no se levantará en auténtica sedición, supuesto que este nombre se acostumbra a tomar en mal sentido. Porque en estas circunstancias el Estado es superior al rey, pues habiéndole entregado él su poder, se cree que se lo dió con la condición de que gobernara según las exigencias del bien común, no tiránicamente. Si no lo hiciera así, el mismo Estado podría quitarle el poder de soberanía. Pero hay que suponer que él, real y manifestamente, gobierna en tirania y que concurren las otras condiciones que se han establecido para la licitud de la guerra. Léase a Santo Tomás (De Regimine Principum, lib. 1, cap. 6.)
    3. Tercera conclusión: La guerra de un Estado contra su rey, que no es tirano de ninguna de estas dos formas, con toda propriedad se llama sedición y es intrinsecamente mala.
    La conclusón es evidente y consta por el hecho de que en este caso no concurren autoridad legítima ni causa justa. Desde el punto de vista contrario, se deduce de esto que la guerra de un príncipe contra el Estado que le está sujeto puede ser justa por razón del poder que es legítimo si se cumplen también las otras condiciones de guerra; pero si éstas faltan, la guerra será totalmente injusta.
     
      Suárez, Francisco. Guerra, Intervención,Paz Internacional ( Capº Octavo). Madrid: Ed. Espasa-Calpe, 1956, pp 125 - 127.

    20/02/13

    Contributo para uma polémica...

    Como andam por aí uns senhores dizendo que os alunos do ISCTE abalroaram a Democracia, eis o meu singelo contributo:
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    .
    "Toda a gente concorda que a função daquele que detém o poder é conhecer sempre a situação do Estado, com a condição de cuidar do bem comum e de fazer o que é útil à maior parte dos súbditos."

     ESPINOSA. Tratado Político ( Capítulo VII, parágrafo 3). Lisboa: Editorial Estampa, 1977, p 69.
    .

    19/02/13

     
     
      ( Poema XIII do Ciclo A Arrábida )
     
     
    Ó cidade, cidade, que trasbordas
    De vícios, de paixões e de amarguras!
    Tu lá estás, na tua pompa envolta,
    Soberta prostituta, alardeando
    Os teatros, e os paços, e o ruído
    Das carroças dos nobres recamadas
    De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
    Tempestuosa, e o tropear contínuo
    Dos férvidos ginetes, que alevantam
    O pó e o lodo cortesão das praças;
    E as gerações corruptas de teus filhos
    Lá se revolvem, qual montão de vermes
    Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
    Branqueado sepulcro, que misturas
    A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
    Honra e infâmia, pudor e impudicícia,
    Céu e Inferno, que és tu? Escárnio ou glória
    Da humanidade? O que o souber que o diga!
     
    ...   ...   ...   ...   ...   ...
     
    Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
    Em joelhos nos átrios dos tiranos,
    Onde, entre o lampejar de armas de servos,
    O servo popular adora um tigre?
    Esse tigre é o ídolo do povo!
    Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
    O férreo ceptro: ide folgar em roda
    De cadafalsos, povoados sempre
    De vítimas ilustres, cujo arranco
    Seja como harmonia, que adormente
    Em seus terrores e senhor das turbas.
    Passai depois. Se a mão da Providência
    Esmigalhou a fronte à tirania;
    Se o déspota caiu, e está deitado
    No lodaçal da sua infâmia, a turba
    Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
    E diz: "É meu"; e assenta-se na praça,
    E envolta em roto manto, e julga, e reina.
    Se um ímpio, então, na afogueada boca
    De vulcão popular sacode um facho,
    Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
    E referve, e trasborda, e se derrama
    Pelas ruas além: clamor retumba
    De anarquia impudente, e o brilho de armas
    Pelo escuro transluz, como um presságio
    De assolação, e se amontoam vagas
    Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
    Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
    Cava fundo da Pátria a sepultura,
    Onde, abraçando a glória do passado
    E do futuro a última esperança,
    As esmaga consigo, e ri morrendo.
     
    Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
    Outros louvem teus paços sumptuosos,
    Teu ouro, teu poder: sentina impura
    De corrupções, teus não serão meus hinos!
     
      Herculano, Alexandre. A Harpa do Crente. Mem Martins: Pub. Europa-América, 2ª Edição, pp 64 - 66.
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    18/02/13


    ("Poema XXIV" do Ciclo A Semana Santa )


    Minha pátria onde existe?
                         É lá somente!

    Oh, lembrança da Pátria acabrunhada
    Um suspiro também tu me hás pedido;
    Um suspiro arrancado aos seios d'alma
    Pelo ofuscada glória, e pelos crimes
    Dos homens que ora são, e pelo opróbrio
    Da mais ilustre das nações da Terra!

    A minha triste pátria era tão bela,
    E forte, e virtuosa!, e ora o guerreiro
    E o sábio e o homem bom acolá dormem,
    Acolá, nos sepulcros esquecidos,
    Que a seus netos infames contam
    Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
    O escravo português agrilhoado
    Carcomir-se lhes deixa junto às lousas
    Os decepados troncos desse arbusto,
    Por mãos deles plantado à liberdade,
    E por tiranos derribado em breve.
    Quando pátrias virtudes se acabaram,
    Como um sonho da infância!...
                      O vil escravo,
    Imerso em vícios, em bruteza e infâmia,
    Não erguerá os macerados olhos
    Para esses troncos, que destroem vermes
    Sobre as cinzas de heróis, 3, aceso em pejo,
    Não surgirá jamais? Não há na Terra
    Coração português que mande um brado
    De maldição atroz, que vá cravar-se
    Na vigília e no sono dos tiranos,
    E envenenar-lhes o prazer por noites
    De vil prostituição, e em seus banquetes
    De embriaguez lançar fel e amarguras?

    Não! Bem como um cadáver já corrupto,
    A Nação se dissolve: e em seu letargo
    O povo, envolto na miséria, dorme.

      Herculano, Alexandre. A Harpa do Crente. Mem Martins: Pub. Europa-América, 2ª Edição, p 42.
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    14/02/13

                                                            Auta de Souza ( 1876 - 1901 )

                     " Melancolia "


    Sinto no peito o coração bater
    Com tanta força que me causa medo...
    Será a Morte, meu Deus? Mas é tão cedo!
    Deixai-me inda viver.

    Tudo sorri por este campo em flor
    O Amor e a Luz vão pelo Céu boiando...
    Só eu vagueio a suspirar, chorando
    Sem Luz e sem Amor.

    Lutando sempre com uma dor cruel
    Cheia de tédio e desespero, às vezes;
    Minh'alma já tragou até as fezes
    O cálice de fel.

    E o coração no seio a palpitar,
    Como se acaso não tivesse crença,
    Pulsa com a força indefinida, imensa
    Dos vagalhões do Mar.

      Souza, Auta de. La Poésie du Brésil, Anthologie du XVIe au XXe siècle. Paris: Éditions Chandeigne, 2012, p 482 ( Choix, présentation & traduction de Max de Carvalho. Parnassiens et Symbolistes).
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                                                           Júlia da Costa ( 1844 - 1911)


                     " Amélia "


    Quando no centro dos bosques
    A rolinha pipilar,
    Uma saudade me manda
    Nas ondas do alto-mar.

    Nas ondas do alto-mar
    Quando a noite for formosa,
    Me manda de teu piano
    Uma nota harmoniosa.

    Uma nota harmoniosa
    Que defina o teu sentir;
    Que me traga uma saudade,
    Que me mostre o teu sorrir.

     Costa, Júlia da. La Poésie du Brésil, Anthologie du XVIe au XX siècle. Paris: Éditions Chandeigne, 2012, pp 340 - 342 (choix, présentation & traduction de Max de Carvalho, chapitre "Romantiques").
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    13/02/13

    " ... os seus lindos cabelos louros presos na fronte por uma grinalda... "


     
    (Nota - parece haver uma obsessão de rotulagem relativamente aos poetas que se debruçam, ou que não ignoram, o mundo interior, levam imediatamente com o estigma de românticos, pós-românticos ou ultra-românticos. Não estarão alguns deles mais próximo da psicanálise da Kristeva, do cognitivismo de Christophe André do que de Fichte, Holderlin e tantos outros? Fica a pergunta no ar. No entanto, irei postar alguns autores brasileiros: românticos (Casimiro de Abreu e Júlia da Costa) e simbolista (Auta de Souza)... Para se verem as diferenças!)
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         " A Virgem Loura ( Páginas do Coração ) "


    IV
       Mas o que me acontecia quando eu era pequeno, aquilo que vos quero contar, é uma coisa que de certo tem acontecido a todas as crianças e em que bem poucas terão feito reparo.
       Era uma mulher de uma beleza extrema e de uma graça encantadora que, sempre coroada de rosas e sorrindo-se ternamente, vinha todos os dias associar-se a nossos folguedos e partilhar nossas alegrias e pesares. Era uma virgem; dizia-o a pureza de seus belos olhos e a suavidade da fala.
       Apesar de tantos anos, vou tentar pintá-la como a vi na infância. Se o retrato sair imperfeito e as cores esmorecidas, desculpem-me; a minha palheta não é variada, e ao tocar nessas páginas do coração, a mão treme e o pincel nodoa a tela.
    V
    (...)
    -Era bela, - já vos disse,- e não acho com que a possa comparar.
    - Uma vestal?
    - Seria; mas seu rosto divinamente belo, nem sempre tinha essa suavidade angélica das vestais antigas (...)
       Naquele tempo eu vi-a sempre bondosa, terna e ingênua.
       Quando ela sacudia aquela cabeça digna da estatuária antiga, os seus cabelos, os seus lindos cabelos louros presos na fronte por uma grinalda, fugiam e flutuavam livres em graciosos anéis.
       Trajava roupas talares, tão alvas e tão alvas, que todos nós temíamos manchá-las quando as tocávamos.
       Era muito linda; mas o que eu sobretudo admirava, na minha ingenuidade infantil, era a pureza e o brilho de seus olhos azuis que refletiam a cor do céu. Como eram belos! Nas horas de oração, de joelhos a nosso lado, ela erguia esses olhos para Deus e conservava-os assim longo tempo num êxtase; então eu via que, suspensa de suas pálpebras tremia e brilhava uma lágrima como o cristal no lampadário do templo. E chorávamos também, e uníamos as nossas vozes frescas à sua voz melodiosa que entoava o cântico da infância sublime de simplicidade.
       A minha virgem vivia sempre cantando; mas fazia-o com tal suavidade, com tal sentimento, que nós, suspensos e imóveis, ficávamos presos a esse doce gorjeio que nos despertava sensações desconhecidas.
    ...
    X
       Mas depois...a - Virgem Loura - volúvel e caprichosa como todas as mulheres, abandonou-me.
    (...) Fatal dia! Negra hora!
       Desde então fugiu-me a - Virgem Loura - e debalde a tenho procurado no clarão da lua, na luz das estrelas, nas ondas do mar, nas flores do prado, em tudo; nunca mais a vi!
    (...)
    - Mas quem era - a Virgem Loura?
    - A de olhos azuis?
    - Sim.
    - Aquela que eu amava?
    - Sim.
    - Pois não adivinharam?!... Era a poesia.

      Abreu, Casimiro de. Narrativas. Lisboa: CLEPUL da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012, pp 65 - 71 ( Edição, apresentação e notas de Maria Eunice Moreira).
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