Gisela Ramos Rosa, Ana Cristina Silva, Maria João Cantinho, Victor Oliveira Mateus
" Poema 3" do Ciclo Elementos
Ao terceiro dia ninguém separou a luz
das trevas. Nenhuma deusa, nenhum demiurgo,
nenhum deus, maior ou menor, decidiu
perfilhar-nos; decidiu recriar as águas,
as aves, as plantas (agora transgénicas),
as cidades (cada vez mais cóio de corruptos),
o sexo (apressada ejaculação por hábito,
por aprendizagem ou no minúsculo extra
que se cria em qualquer intervalo conjugal,
quando o trabalho se distrai ou finge,
mas a engrenagem insiste, por agora
e sempre). Ao terceiro dia nenhum de nós
esboçou o mais pequeno traço
entre um intento etéreo e o fogo do lugar.
O lume, voraz, ecoava nas grelhas, no estralejar
do carvão, e, alheio, emoldurava igualmente o vozear
ácido dos bêbedos, o entrechocar dos copos
à mistura com os meus pensamentos.
Na gordura do balcão os cotovelos do rapaz
do retábulo desenhavam circunferências
concêntricas, assim como tu ali bem perto
e o meu duplo a distanciar-se cada vez mais
através da noite, enfim, tanta gente (ou ninguém)
para me descentrar da porta, de mim próprio,
de uma lealdade indefinível, uma estranha
lealdade que sempre me acrescenta
no vasto rol das cedências feitas e onde eu sabia
(por antecipação) que tu jamais poderias caber.
Ao terceiro dia levei-te ao lugar da minha infância
Uma mulher, reconhecendo-me,
abriu-nos a sua porta, mostrou-se-nos por dentro
com bens e infortúnios. Era uma mulher simples,
como simples eram os dedos que te percorriam
o antebraço, como simples ( e derrotados)
eram os meus olhos: cúmplices de um tempo
que eu ia escondendo na voragem cega
que haveria de chegar... Depois vieram os painéis
de azulejos, também eles sobreviventes
de terramotos; o esboroado chafariz
onde os muares se dessedentaram
e os carroceiros mataram suas frustrações
de uma república que não tinha valido a pena;
a mina, de água salobra, já seca e sem qualquer
uso; as hortas - ainda resistentes -
que nos pusemos a inventariar neste tempo
de aparências e artifício. Ao terceiro dia
misturei memória e imaginação,
percepçãp presente e antiga, concreto
e expectativa e como o meu duplo
relativamente a escritas antigas,
assim forjei palavras e versos
onde se escondessem todos os abismos
que eu não pedira. Mais tarde, muito
mais tarde, acusar-me-ias de inaptidão,
de incapacidades várias e envenenamentos
de uma narrativa há muito condenada;
mais tarde, tu, meu outro no desdobramento
de mim, quando te pedi a não dureza das palavras,
só então percebeste do silêncio a sua fala
mais estreita, essa uterina busca de águas
e grutas inexpugnáveis, essa clareira
onde um colo de raízes se desenha, e, ao cair
da noite, de novo volta para me cobrir
com seu manto de angústia e perdas várias.
- Tu não és daqui!, dizia-me o rapaz
do retábulo, enquanto Erato ajeitava a saia
e olhava de soslaio a porta, dividida agora
entre o crepitar do fogo e um ecrã cego
a derramar sons no olhar vítreo dos bêbedos
que, ausentes, me reconheciam igual e sem futuro.
Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 22 - 24 ( Prefº de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel Garcia Caballero).
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05/05/13
02/05/13
" Poema 60 "
Nascer aqui é falhar ainda
O silêncio das árvores em crescimento,
Nascer aqui é sempre demasiado tarde
Para ir beber à fundura de um poço,
Nascer aqui dói às pedras
Que excederam a altura da casa,
Nascer aqui impede os cães de conduzir
A cegueira dos espelhos desde o olhar até à visão,
Nascer aqui afugenta o invisível para longe da vida,
Nascer aqui é um ruído de fundo
Para dissuadir a hospitalidade do tempo à nossa mesa,
Nascer aqui é demasiado tarde para sermos
perpendiculares
À oferenda mútua dos corpos,
Nascer aqui desfaz a aritmética dos passos sem
caminhante,
Nascer aqui muda-nos a todo o instante de origem e
destino,
Nascer aqui atenta contra o trabalho escultórico
De uma minuciosa nudez dos pensamentos para pôr a
salvo
O vazio de nascer agora e por fim em nenhum lugar.
Carita, Fernando Eduardo. Le Salut Par le Vide/ A Salvação Pelo Vazio (Édition bilingue). Châtelineau: Editions Le Taillis Pré, 2005, p 132.
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" Poema 48 "
Nem o centro está no centro
Nem deus está em deus,
Fatais os equívocos, vãs as buscas;
De nada adianta querer agora perseguir
O rasto das aves no inverno
Nem tão-pouco o das palavras no tacto das coisas;
Somos meros supranumerários
De uma abstinência provisória do nada
De que deus afinal é o mais fiel dos substitutos.
Carita, Fernando Eduardo. Le Salut Par le Vide/ A Salvação Pelo Vazio (Édition bilingue). Châtelineau: Editions Le Taillis Pré, 2005, p 108.
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01/05/13
30/04/13
Eu gosto de Dom Miguel
- O de São Martinho de Anta-,
Que escrevia com pincel;
E, às vezes, pintava a manta.
Deixou-nos grande legado
Em prosa e em poesia.
Era um homem apagado
E as coisas que ele sabia.
Barata, Manuel. Quadras Populares: umas sim, outras quase. Lisboa: Fólio Exemplar, 2012, p 50.
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(Nota: a quadra de raiz popular, e alicerçada na oralidade, é vulgarmente menorizada por certos autores e estudiosos com tudo o que isso implica de ocultação de aspectos ligados ao social, ao histórico-político e até ao linguístico. A tudo isso acrescenta-se a importância de escritores do género que, pelo seu valor - como é o caso de António Aleixo - , têm funcionado igualmente como elemento intimidatório ao cultivo deste tipo de poesia. No caso do poeta aqui presente - licenciado em Estudos Portugueses, variante Português/ Francês -, apesar de nunca perder de vista raízes estéticas alicerçadas no popular, podemos encontrar dele também outros textos para além da quadra, veja-se - por exemplo - um livro ainda não postado aqui: "Fragmentária Mente", de 2009.
As duas quadras deste poste inspiram-se no célebre soneto de Camões "Sete anos de pastor Jacob servia", as duas do poste seguinte referem-se, como é óbvio, a Miguel Torga.)
Eu serviria sete anos
Pra de ti ouvir um sim.
E outros sete serviria
Pra te ter ao pé de mim.
Tenho tanto pra te dar,
Se quiseres receber.
Umas asas pra voar
Umas pernas pra correr.
Barata, Manuel. Quadras Populares: umas sim, outras quase. Lisboa: Fólio Exemplar, 2012, p 16.
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29/04/13
" O Anjo "
Pousa o Anjo em meu ombro
E permanece com os pés
Cheios de sons que não escuto
Só adivinho o Anjo no meu
Ombro tem um jeito discreto
De falácia e uma cor
Que não se exprime por
Pincéis mas é real
A cor de suas vestes que não
Vejo a cor além da
Cor uma verdade acima da
Verdade como só o
Anjo pode ser
Aquela que não encontro e seus
Braços longos têm uma
Curvatura infatigável
A inocência de um quadro
De Chagall que não vi e
Seu rosto seu rosto
Lembra um pássaro que não existe
Um pássaro voando
Belo como a beleza
Intocável da liberdade
Goulart, Helvécio. Poemas Reunidos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p 112.
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28/04/13
" Pássaros "
Ela ficara simplesmente olhando
O vestido verde preso de um lado só do corpo
Uma jovem olhando o mundo que começava a afundar
O coração dos homens batia devagar
O relógio batia devagar dentro do coração dos homens
Ela ficara simplesmente parada
A hera subia pelas paredes do Verão
Tiritavam de medo os loucos os devotos os bandidos
Dormiam criaturas inocentes dentro de casas remotas
Feitas dos dias que tinham chegado e partido
No olho das vidraças embaçadas
No rosto sem nenhuma esperança
Na colheita do fogo noturno
Na grande distância cinzenta dos sorrisos
No latido dos cachorros conduzindo os tiranos
Nos gritos nas torturas por afogamento
No massacre dos campanários
Nos pés descalços e frios das cidades
Ela ficara parada com o braço para o alto
Uma estátua com uvas coroando-lhe a cabeça
Com pássaros cantando dentro de seus olhos
No pântano das lágrimas
Na longínqua floresta da alegria
Goulart, Helvécio. Poemas Reunidos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p 98.
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Da vida, da poesia e de todas as coisas...
Uma alegoria ao correr da pena…
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Quando eu era menino, acedíamos à
quinta de duas formas: por uma porta que um tio-avô mandara fazer nas traseiras
de sua casa ou por um portão que a caseira, morando no outro extremo das
habitações, tinha no seu quintal. Geralmente, eu e os meus primos escolhíamos a
primeira alternativa. Certo dia, contudo, a minha avó, por uma questão de
colheitas e de dinheiros, incompatibilizou-se com o irmão: mandou fechar o
extenso corredor que ligava as duas casas, deitou abaixo uma das paredes
traseiras e, uma vez com acesso directo à quinta, ordenou que se fechasse o
poço a cadeado. Os meus pais ainda a tentaram persuadir com o célebre argumento
de que água não se nega a ninguém, ao que ela respondia, célere e inflexível: Nem a honra, nem a dignidade! Minha avó
nunca mais falou ao irmão, considerando sempre que aquilo que os distinguia
jamais poderia ser colmatado por quaisquer tipos de elos ou afinidades. Eu e os
meus primos passámos a ter dificuldades acrescidas nos nossos jogos e
brincadeiras, já que o meu tio-avó, por vezes, vingava-se em mim e nos netos: Eles hoje não saem; Eles hoje têm de
estudar, etc. No entanto, quando nos encontrávamos todos era uma festa: os
mais velhos subiam às árvores à cata de ninhos, as raparigas preferiam as
cavalariças e o picadeiro, um ou outro corria atrás dos gansos (imagem que mais
tarde me daria um certo jeito para um poema da Antologia da Hariemuj!) de
vergasta em punho, quanto a mim – e excluindo o descarregar dos porcos, com os
seus guinchos aflitivos, de que nunca gostei – ia para um lado qualquer dos que
eles escolhessem. Mas – e para confessar – aquilo que mais me seduzia era ficar
a observar o enorme galinheiro: era um enorme edifico que os meus bisavós
tinham mandado fazer entre três pilares que haviam pertencido a um moinho de
vento… eu ficava fascinado a observar a ordem que naquilo tudo havia: as
diversas capoeiras estavam unidas entre si por estreitas passagens, todavia, as
galinhas jamais trocavam de divisória e quando Adelaide (a única mulher que até
hoje vi de pera e bigode e a única empregada de que eu fugia sempre sete a
pés!) vinha com as sêmeas, o milho ou as hortaliças, a aproximação ao comedouro
era uma autêntica cerimónia de poder e de submissão: elos de vassalagem, medos,
rituais de sedução levados a cabo por alguma ave infortunada visando conseguir
algo -- Deuses, como a minha observação infantil do galinheiro me viria a ser
útil vida afora, quantas e quantas vezes a reencontrei sob disfarces múltiplos
e camuflagens torpes! Mas – e deixem-me confessar – daquilo que eu gostava
mesmo, nessa altura e durante essas observações, era das minúsculas galinhas da
India: indiferentes às regras das grandes, saltavam de divisória em divisória,
comiam e dormiam onde lhes apetecia e ao pé de quem lhes apetecia, era como se
fossem aves de outro mundo, de um mundo paralelo que escapava à normalização
vigente do galinheiro uniformizado em função de regras e submissões… As
galinhas da India, naquela sociedade perfeitamente hierarquizada, poedeiras de
ovos desprezíveis, com a sua figura e cantar frágeis, não serviam naquela
quinta para absolutamente nada… para nada é como quem diz: a mim serviram-me
para apurar o ver, para me ensinar a afastar de aparências e fraudes, para
evitar os caminhos demasiado tortuosos e investir, apenas, naquilo que a mim se
possa dar -- em autenticidade e com rasgos de absoluto. V.O.M. (Lx, 24/4/2013,
22h09)
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27/04/13
26/04/13
" Partilha "
Entrego-te a casa e as árvores
que vivem com a casa
o riacho que passa embaixo
dos gravatás e anêmonas
Entrego-te a rua que flutua
em teu olhar como a asa
de um canário amarelo que ainda canta
no pessegueiro em flor
Entrego-te a esquina que te encanta
do outro lado da casa o odor
dos pinheiros retilíneos e sensuais
os ígneos raios da manhã
resplandecente os silêncios abissais
a envolver a palavra doce e vã
que me disseste e eu disse
Entrego-te o começo e ingloriamente o fim
a seriedade a alegria a tolice
e assim tudo o que foi e o que restou de mim
Goulart, Helvécio. Poemas Reunidos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p 28.
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24/04/13
( Segundo poema do Ciclo Sonya's Fairytale )
... right in front of the approaching train
a woman and a man fuck in the snow.
Consider, my soul, this texture of stubbornness and quiet:
as she falls and rises above him in the air,
he wants her and he does not want her, he wants
her with the promise of that fullness.
Consider this approaching train in which the conductor whistles,
rings the bell and shouts
as if refusing to believe they are deaf.
Consider, my soul, the deafness
and the man, its earthly vehicle.
The train stops, the conductor whispers
May you win the lottery and spend it all on doctors!
The woman straightens her coat, and laughs ---
" One of us had to stop first, sir. I couldn't. "
Kaminsky, Ilyá. Bailando en Odesa ( Edição Bilingue). Madrid: Libros del Aire, 2012, p 116.
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20/04/13
" American Tourist "
In a city made of seaweed we danced on a rofftop, my hands
under her breasts. Subtracting
day from day, I add this woman's ankles
to my days of atonement, her lower lip, the formal bones of her face.
We were making love all evening ---
I told her stories, their rituals of rain: hapiness
is money, yes, but only the smallest coins.
She asked me to pray, to how
towards Jerusalem. We bowed to the left, I saw
two bakeries, a shoe store; the smell of hay,
smell of horses and hay. When Moses
broke the sacred tablets on Sinai, the rich
picked the pieces carved with:
"adultery" and "kill" and "theft,"
the poor got only "No" "No" No."
I kissed the back of her neck, an elbow,
this woman whose forgetting is a plot against forgetting,
naked in her galoshes she waltzed
and even her cat waltzed.
She said: "All that is musical in us is memory" ---
but I did not Know English, I danced
sitting down, she straightened
and bent and straightened, a tremble of music
a tremble in her hand.
Kamínsky, Ilyá, Bailando en Odesa (Edición bilingue). Madrid: Libros del Aire, 2012, pp 32 - 34.
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19/04/13
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
Camões, Luís de. Os Lusíadas ( Canto III, 120 - 122 ). Lisboa: Empresa Lit. Fluminense, 7ª Edição, p 141.
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18/04/13
" Solo Para Voz Femenina "
Si te marchas, amor, lloverá;
llama la soledad que viene a visitarme
y yo maldeciré mi destino;
bendeciré en cambio tus dias.
Igual que un vendaval diste en mi vida
y cayeron mis muros igual que bastidores.
Has destrozado el techo de mi casa
y no me has dado un nuevo amparo.
Me moría mil veces. Y aquí apareciste.
Quise la dicha, estar cerca sin ser molesta.
Cómo ibas a oír tú mi silencio
si ni una sola vez me has escuchado.
Kaléko, Mascha. Tres Maneras de Estar Sola. S/c.: Editorial Renacimiento, 2012, p 125 (Tradución de Inmaculada Moreno).
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17/04/13
Prémio Literário Glória de Sant' Anna.
O Júri do PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT' ANNA 2013, constituído por:
FERNANDA ANGIUS
TERESA ROZA D' OLIVEIRA
EUGÉNIO LISBOA
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
e AMÉRICO MATOS,
elegeu como finalistas do referido Prémio as seguintes obras:
"O Poeta Diarista e os Ascetas Desiluminados " de EDUARDO WHITE
"Estrada sem Asfalto " de CUSTÓDIO DUMA
" Livro Mulher " de ADELINO TIMÓTEO.
O vencedor do presente Prémio Literário será revelado publicamente no dia 15 de Maio de 2013.
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" Versos Para Ningún Salterio "
No quisiera ser Dios en estos tiempos
y reinar resguardado tras las nubes
omnisciente de bombas y cañones
que escupen a mis hijos roja muerte.
Qué penoso escuchar un coro de ángeles
si por la tierra suenan los llantos de los niños.
Diosabe que por nada me cambiaba
con el Querido Dios allá en el cielo.
Pienso que semejante maquinaria
de oscuridad y pirotecnia obliga.
Ha realizado acaso algún milagro
como hiciera en sus tiempos en Egipto?
Alabad al Señor que calla! En tales tiempos
- y perdona, Pastor - es el silencio un crimen.
Sin embargo parece que Su gloria es no hablar
ni siquiera a favor del Cordero más manso.
El Señor Sabaoth pasea por el bosque de las nubes.
Lo que yo opine a Él le importa un rayo.
No quisiera ser Dios en estos tiempos.
Y cómo se lo explico yo a mi hijo?
Kaléko, Mascha. Tres Maneras de Estar Sola. S/c.: Editorial Renacimiento, 2012, pp 27 - 29 ( Tradución de Inmaculada Moreno).
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15/04/13
Mas um velho, de aspeto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
" Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!
Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana.
A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão fàcilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
Mas, ó tu, gèração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não sòmente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado, mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:
Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome "esforço e valentia",
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá:
Camões, Luís de. Os Lusíadas (IV 94 - 99). Lisboa: Empresa Litª Fluminense, 7ª Edição, pp 170 - 171.
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O regresso de Tornatore.
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" A Mellhor Oferta" de Giuseppe Tornatore com Geoffrey Rush (Virgil Oldman), Donald Sutherland e Jim Sturgess.
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Os sentimentos humanos são como a obra de arte: nunca se consegue distinguir o que neles é verdadeiro das falsificações bem conseguidas. Conseguir-se-á separar na amizade e no amor aquilo que neles é autêntico e verdadeiro do que aí não passa de mentira e mero logro? Não, não se consegue e Virgil Oldman, um leiloeiro bem sucedido que ousa amar uma jovem desconhecida e confiar num amigo, aprenderá essa lição à sua custa e com um alto preço. Nenhum homem maduro deve mostrar o seu tesouro à primeira jovem que insiste em amar, aliás, o Fedro de Platão já começava exactamente com este dilema, mas à tese do filósofo, o cineasta contrapõe os riscos que corre quem não sabe separar as águas, isto é, não há qualquer garantia para quem demonstre o que tem de mais valioso e se, mesmo assim, insiste nessa demonstração está por sua conta e risco: esta parece ser a lição que o realizador pretende fazer passar. Expor uma obra de arte, ou um sentimento, é sempre um convite ao roubo, à traição: roubar uma parede cheia de quadros ou atraiçoar um mundo interior não faz, para quem rouba, qualquer diferença. Um filme a não perder, uma lição a manter intacta. Excelentes interpretações com Geoffrey Rush no seu melhor. Não descurar também a grande música de Morricone.
André Téchiné, em Les Voleurs, e Woody Allen, em Match Point, já tinham andado à volta deste tema: Téchiné de um modo bem mais labiríntico, enquanto que Woody Allen e Tornatore com um rigor na caracterização psicológica das personagens, que eu considero perfeito.
André Téchiné, em Les Voleurs, e Woody Allen, em Match Point, já tinham andado à volta deste tema: Téchiné de um modo bem mais labiríntico, enquanto que Woody Allen e Tornatore com um rigor na caracterização psicológica das personagens, que eu considero perfeito.
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12/04/13
" Animais Que Brilham "
Amar é perder a cara para ganhar a do outro
a de todos os outros, múltiplo: o espasmo
Na linha das zebras que se espalha até à loucura
Perde-se, entra nos teus olhos, procura um fio condutor
Feito só de energia quente, até à elegia última
Ao mais perfeito abraço, ao beijo mais puro,
Procurar é ter sede, gastar todas as línguas, entrelacá-las
Até à loucura, ganhar uma nova e única, em tudo fluorescente
sobe pela medula a febre dos girassóis, o seu caule
Cheio de leite quente e gordo de baleia, cheio de espera condensada
e marítima;
Só o amor permite ver mais longe:
cão guia cego que procura uma vontade nova
Os olhos são o espelho da alma e os amigos são o espelho de deus
Brito, Nuno. Duplo Poço. S/c.: Hariemuj Editora, 2012, p 50.
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09/04/13
( Excerto de Sunset Boulevard
Ode Gente )
... ... ... ... ... ...
Acende um Farol em cada praia. Não esperes os navios. Entra em todos os seus porões sem aviso - Recheia os capitães de Susto - Enche os porões de riso e espasmo... Penteia-os com gel de golfinho. Sempre estive perto da loucura, se não fui ela própria, sempre quis ter bigodes púrpura e ser só a chuva lá fora -
Nunca quis ser um poeta, só quis ser um navio em chamas: Um navio violado pelo seu tio, todas as manhãs e todas as tardes, um navio que à noite lê Bataille - Um Navio que se afasta dos outros navios se não tiver cuidado, um navio que só quer ser ponte,
limite e União.Um navio que com os seus óculos de Sol, escreve na sua rota: - Não existe o que se escreve nas rotas -
Um navio que mesmo assim escreve e insiste em escrever, seja no osso de uma namorada morta, seja no computador, seja em rolo de papiro, em pergaminho, em papel, em folha de gelatina, em mármore, em porta de casa de banho, em quadro (pode ser com unhas ou com dentes) em areia molhada, no braço ou nas costas em tatuagem num deserto mexicano, num campo relvado, a chantilly num bolo de chocolate, no lodo, na lama, no gelo com patins, na cerâmica, na argila, no fogo, desenhando um rasto de gasolina, com urina num ladrilho seco - Não interessa o suporte, mais ou menos perene, ele só prova a nossa inocência, a nossa necessidade de partilhar -
A literatura só pode ser União... Um navio que escreve rápido no ar e em fumo de cigarro
( são precisos bons reflexos e ante-braço forte) - A LITERATURA TEM DE SER, É UNIÃO.
Nunca quis ser um poeta, sempre quis ser um espelho colocado no centro da Austrália, sempre quis ser a "fome de gente" que os espelhos têm - Pequenos fios dourados, Guardar uma coisa qualquer, um hipermercado, um segredo, proteger essa coisa dos lobos; Ser vários cangurus espalhados pelo deserto reflectidos na minha cara fosca, de um e do outro lado, uma cara fosca que é só deserto espelhado carregado de nuvens vermelhas no vidro e na sede de ter Muitas Línguas - Deserto Compositor a Criar um Requiem em Braille para que os cegos cantem uma Osana Perfeita -
(...)
Não interessa a escolha do caminho, mas a intensidade com que se o percorre, seja ele um ou em tudo múltiplo e comprido. Deserto a abraçar deserto, deserto a espalhar-se, vermelho na perda por deserto e deserto, deserto com sede de pessoas.
... ... ... ... ... ... ...
Brito, Nuno. Duplo Poço. S/c: Hariemuj Editora, 2012, pp 32 - 33.
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07/04/13
" A Sombra "
Ó sombra da respiração
Minha mãe
Que abandonaste teu filho às margens de uma estrada grande
Parco de tudo o que existe menos de ignorância
Altiva como o nada que nos assola pela manhã
Assola à tarde e nos assola de novo na aurora
Minha mãe
Sombra da respiração de onde vim
Desenha uma porta neste caracol vazio que é a nossa vida
Deixa-me sair de mim e de ti
Que nada aconteceu entre nós que não se possa apagar
Como a luz que acontece às vezes no campo nas noites escuras
Ó minha sombra de respiração
De quem sou filho e filho também do que nada sei
És a responsável
Pelo desequilíbrio com que se começa a vida
Por tudo o que cai e se desfigura
Muitos ou apenas poucos dias depois
Meu coração é do tamanho do escuro
É à porta de mim que se faz luz
Não tenho dores em lugar algum para mostrar
Há em mim uma parte de todos
Que se espalha entre nós como sémen
Um humano desperdício vingativo
Tenho a cabeça derramada na laje fria
E não é a primeira nem será a última
Escrever da dificuldade de respirar
Da dificuldade de ver que vim de onde vim
É crer na noite e no fim de tudo
Crer é um enorme ponto final
Miranda, Paulo José. Cintilações da Sombra, antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 59 - 60 (Organização de Victor Oliveira Mateus).
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06/04/13
...
" Poema 18. "
Atirei-te com um poema
não pela porta, nem pelo tubo de escape: deixei-to preso
no limpa-vidros Atirei-te com um poema, mas tu
não estavas durante mais de três dias não vieste
a casa e o meu pobre poema ali ficou: perdido
imerso no ruído dos outros carros, no passar fétido
de todas as errâncias, que não a minha
sempre a ler sonhos na frieza das ruas
Atirei-te com um poema
escrito por outro que não eu: deixei-to preso
no limpa-vidros, para que te limpasse o dia
para que te abrisse o horizonte
nas riscas brancas de um qualquer navio
ou nas malhas acesas da madrugada
quando me perco na sedução vaga do teu olhar
Sei que irás suspeitar de mim
pensarás que ando agora pelas ruas
atirando poemas
como pássaros a todo o rosto entrevisto
no clamor sórdido dos dias
Irás supeitar deste mistério que é o meu para ti
enquanto eu, artilhando a minha-espingarda-dos poemas,
te preparo este, para ser mais certeiro, mais eficaz
Este poema que te desperte,
que te traga de volta, que
Mateus, Victor Oliveira. A Noite e a Voz. Lisboa: Universitária Editora, 2001, p 47 (Prefácio de Ana Paula Dias).
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04/04/13
Cristina Carvalho escreve sobre Poesia.
Sessão de apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” na Livraria Pó dos Livros, em 21 de Março 2013
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A literatura e a poesia, esses milagres!
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Muito boa tarde a todos os presentes.
Não é, certamente, um acumular de palavras num esforço patético de dar voz aos amores e dar voz a coisa nenhuma. A poesia é para ser lida e observada meticulosamente, é para ser sorvida com todo o cuidado, é para ser apreciada palavra por palavra, frase por frase, conceito por conceito porque toda ela é densa, sofisticada, significante.
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( texto protegido por direitos de autor)
21 de Março de 2013 em livraria Pó dos Livros na apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” – Labirinto Editora.
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NOTA - Este texto, postado aqui com o conhecimento da autora, encontra-se, no entanto, protegido pela legislação relativa aos Direitos de Autor.
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A literatura e a poesia, esses milagres!
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Muito boa tarde a todos os presentes.
E começo por agradecer a Victor Oliveira Mateus este convite para apresentar o livro – Cintilações da Sombra – conjuntamente com a Maria João Cantinho de quem sou amiga e a quem reconheço um importantíssimo e um superior valor poético.
Todo o começo se prende com alguma coisa e, sendo assim, inicio a minha apresentação com uma citação de François Mauriac,
Diz-me o que lês e eu dir-te-ei quem és. Mas conhecer-te-ia melhor se me dissesses o que relês.
Todos os poetas habitantes deste volume são, a meu ver, de grande e inquestionável qualidade. Faltam aqui alguns nomes importantíssimos e disto mesmo já dei conta a Victor Oliveira Mateus. De todo o modo, Victor Oliveira Mateus, ele próprio um dos poetas que integram esta antologia e que foi também o organizador-coordenador deste conjunto poético, teve o maior cuidado e rigor na seleção que agora se mostra.
Li todos os poemas aqui presentes. Naturalmente que aprecio uns mais que outros, mas isso é natural. Estranho seria que os apreciasse a todos do mesmo modo e com a mesma intensidade. Aqui estão reunidos poetas que eu não conhecia e também aqui estão presentes nomes consagradíssimos da poesia portuguesa contemporânea. Há também nomes não consagrados nem consagradíssimos, mas que eu espero, realmente, que venham a ser do conhecimento de todos. Poesia que conheço bem de pessoas que mal conheço mas que reconheço com toda a minha admiração.
É pois uma escolha total, esta, a de Victor Oliveira Mateus. Uma escolha de primeira grandeza e que em nada, mas mesmo nada, nada, nada se pode comparar, nem de perto nem de longe, a tanta, mas tanta antologia “poética” que, quase todos os dias é publicada. Mal publicada. Sem critério, sem rigor, sem qualidade. Apenas para vender todos os livros, de preferência todos de uma vez logo na sessão de apresentação aos familiares, aos vizinhos, aos amigos, aos amigos dos amigos. Negócio, portanto. Pequenas satisfações. Pequenos serviços, quanto a mim de muito mau gosto e de péssima conduta que resultam num empobrecimento cada vez maior do gosto de cada um, num país com um diminuto grau de conhecimento. Já não digo cultural. Digo, de conhecimento e de interesses.
Voltando a este livro, naturalmente que não vou mencionar nomes. São todos valorosos. Muito valorosos. E a diferença está à vista. Nem vale a pena discutir. Alguém poderá afirmar: o que é bom para ti pode não ser bom para mim e vice versa.
Não! Isso é sofisma! Desconhecimento! A definição de “bom”, muito para além da sensibilidade intrínseca, além da imagética e da idiossincrasia de cada um, o “bom” tem uma definição mais não seja estética! Há bom e há mau. Na poesia, na literatura, na pintura, na escultura, na culinária, no cabeleireiro, na rádio, nas televisões, nos jornais, em todo o lado. E a fraca qualidade literária é uma realidade também.
Temos, pois aqui, um livro muito bom. Com grandes poetas. De grande e absoluto sentimento. Não são segréis, nem jograis nem trovadores. São poetas por inteiro todos os nomes aqui apresentados. É poesia o que aqui se mostra.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quantos pensamentos gloriosos já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo?
Tanta interrogação…
A poesia é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida –
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Cito John Keats, – “Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.”
Mas não é, infelizmente, o que vemos. Eu diria até que a poesia que se deixa ver através de um vidro fosco, se não fosse tudo aquilo que sabemos que é, essa dita “poesia” estaria a definhar, tal é a indigência apresentada com todo o despudor, com toda a desvergonha, numa ânsia incompreensível de notoriedade, numa sede, numa fome, quase num desespero que em nada contribui para o conhecimento real do que, na verdade, é a poesia. Nem documento social é – e isso sim, teria muito interesse histórico!
Não que não seja legítimo toda a gente escrever e dar a conhecer as suas sensações. Claro que sim! Mas sempre a mesma coisa? Não há mais nada para desenhar que não sejam amorosos e delambidos poemas de amor? O mundo resume-se a si próprio? É tudo poesia? Frases colocadas em fila, umas por debaixo das outras, sem nexo nem melodia? É tudo poesia?
Também Hélia Correia diz em entrevista a Ana Marques Gastão em o “Falar dos Poetas”, edições Afrontamento – “É uma aberração chamar poesia à expressão de sentimentos em versinhos. A deriva semântica deu nisso e eu não posso deixar de indignar-me.”
E eu digo: sim senhor! Tudo é legítimo. Todas as vozes são para se ouvir, umas expressando-se melhor, outras pior, mas todas as vozes devem ser ouvidas. Não chamem é poesia a tudo o que se cozinha, a tudo o que se come, engole e regorgita. Haverá outras definições, certamente.
Quanto a mim, o papel da literatura e da poesia não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. A poesia é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, – um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser uma dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que precisamos. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Não me atribuo, pois, o direito de ter sequer a pretensão de me pôr a analisar este livro ou seja o que for. Quando digo – analisar – estou a referir-me a uma situação teórica ou académica ou então, daquelas conversas que não são entendíveis por um ser humano normal, de atitude simples. O que eu quero dizer é que quando emito uma opinião, falo com o que o meu coração e os meus sentimentos e os meus poucos conhecimentos, ditam. Nada de intrincado e obscuro, portanto. A clareza e simplicidade acima de tudo.
Ao ler-se este livro fica o sentimento, o pensamento, reflexão sobre a vida, sobre a humanidade, sobre a sua verdade, principalmente sobre a sua verdade, tudo traduzido em poesia. Este é um livro de sentimentos. Procura incessante duma certa alegria, talvez.
E, finalmente, do meu entendimento da poesia, amiga com quem convivo desde que me conheço, desde que comecei a ler, posso dizer
Que não é estado de espírito; que não é necessidade; nem intempérie de amor, nem rumor ou piedade, nem doença nem saudade.Não é, certamente, um acumular de palavras num esforço patético de dar voz aos amores e dar voz a coisa nenhuma. A poesia é para ser lida e observada meticulosamente, é para ser sorvida com todo o cuidado, é para ser apreciada palavra por palavra, frase por frase, conceito por conceito porque toda ela é densa, sofisticada, significante.
A poesia, o texto poético nasce da vida e acompanha a vida numa união imperceptível que se adensa na progressão infinita, que se espraia e se entende e purifica e anima e constrói. É uma arte. E como toda a arte tem uma linguagem que permite tudo, sempre! As obras e os actos do homem ou se condenam ou se purificam e a poesia ou os eleva ou os atinge.
Um livro de poemas não é algo que se devore instantaneamente. O leitor recebe a poesia preparado para a receber. Não porque um poeta seja uma pessoa diferente das outras. A poesia é que é uma arte distinta, é uma arte de palavras e nada tão difícil de saborear como uma palavra nascida e escrita e alinhada que pretende dizer sobre a alma, sobre a vida, sobre os Homens. A poesia pode dizer tudo o que quiser. Pode ser lamacenta ou transparente, vertigem ou luz do luar.
Termino. Desde 1999 que se celebra o dia 21 de Março como o Dia Mundial da Poesia sendo um dos seus propósitos divulgar, ensinar e promover a poesia em todo o mundo.
Foi, pois, e em boa hora, apresentado e divulgado ao público português, resplandecente na sua cintilação poética e sem sombra de dúvida, a antologia “Cintilações da Sombra”. Desejo-lhe um futuro caleidoscópico e radiante.
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CRISTINA CARVALHO .
( texto protegido por direitos de autor)
21 de Março de 2013 em livraria Pó dos Livros na apresentação do livro de poesia “Cintilações da Sombra” – Labirinto Editora.
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NOTA - Este texto, postado aqui com o conhecimento da autora, encontra-se, no entanto, protegido pela legislação relativa aos Direitos de Autor.
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30/03/13
VIAGEM: -
Sigo os teus passos, caminheiro perdido em cidades som-
brias. Não sei manejar as estacas com que te inclinas no
abrigo dos alpendres. Mas todos os caminhos me desafiam
para o desvario de um lugar, de uma palavra, de um rosto.
Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.
Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 30.
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PAI: -
Hoje pensei na solidão dos pássaros quando as searas se
incendeiam. E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo como
se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras. O que
sei eu das uvas entre os teus dentes no tempo das vindimas?
Que pássaro de cinza, diz, te sobrevoou o verde do olhar?
Se prolongasse o poema dir-te-ia como os meus olhos
te lembram. Mas não posso. Vou devolver ao mar as conchas
negras da minha colecção.
Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 22.
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DECISÃO: -
Não traço planos. Amanhã cada minuto será transitório.
Todos os pormenores que me são próprios terão a precisão
das cordas do alaúde em dedos sensíveis. Serei nómada e
levarei comigo a máscara do veneno junto à boca.
Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 11.
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27/03/13
Apresentação...
CADERNO DE SIGNIFICADOS o novo livro de GRAÇA PIRES.
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O lançamento desta obra ocorrerá no próximo dia 30, pelas 16h00, na GUILHERME COSSOUL
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DE CAMPOLIDE, Rua Professor Sousa da Câmara, 156 - Lisboa.
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A apresentação ´do livro estará a cargo de MARIA JOÃO CANTINHO e a leitura
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de poemas será feita por GISELA RAMOS ROSA.
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24/03/13
Um quasipoema...
Não sei se vem a propósito: quando iniciei o Ciclo Preparatório, a professora de Canto Coral ouviu os meninos um a um e depois sentou-os em lugares bem definidos: 1ª voz, 2ª voz, etc. Quando chegou a minha vez, teve de me ouvir três vezes e depois, peremptória, disse: o menino senta-se na fila da esquerda, junto aos desafinados... A partir desse dia descobri que a vida iria valer a pena!
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(Nota - não é meu hábito trazer os meus comentários do Face para o Blogue, mas desta vez creio que faz algum sentido...)
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23/03/13
" o poeta "
tinha um poema em vez de coração.
diziam que lhe chilreavam pássaros na garganta
e que das mãos se abriam quintilhas com que
transformava todas as coisas em ouro
o mundo pingava-lhe da boca em sopros de grafema
mas apenas alguns olhos escutavam
o coração que trazia em vez do poema
Vaz, Carlos. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 24 (Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
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22/03/13
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Maria João Cantinho, Cristina Carvalho e Victor Oliveira Mateus na apresentação da obra "Cintilações da Sombra" na Livraria Pó dos Livros, 21 de Março de 2013.
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UMA JOVEM SENTADA NO MEU DEGRAU
para Marta López Vilar
De negro como outrora as atenienses
junto às muralhas do Pireu. De negro
os escombros de Palmira, os sagrados
cadáveres de Tebas, os tiranos assumidos
tão iguais a estes com seus velhos desdentados,
suas imolações pelo fogo, suas mulheres
atirando-se pelas janelas, quais Medeias
já sem filhos nem vontade de vingança.
De negro a magia persistente de Ritsos,
de Kavafys, de Seferis, tão avessos
ao quotidiano esquartejado que propagais.
E de negro tu também: sentada
no meu degrau, com o vestido
a barrar-me a entrada ( coisa de presságios
tão confusos para mim àquela hora!),
com o teu sorriso luminoso; um olhar
a adensar-me a culpa. Um sorriso
sereno e eu a não te poder mudar
a vida. De negro o ficarmos ali _
um frente ao outro... Era um negro
tão negro, que nele se ouvia já o estrépito
do branco a despontar: nos gritos,
nas palavras recuperadas que um dia
- inevitavelmente - hão-de voltar.
Mateus, Victor Oliveira. Cintilações da Sombra, Antologia poética. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 69 ( Coordenação de Victor Oliveira Mateus).
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21/03/13
Nota de imprensa...
Cintilações da Sombra’ no Dia Mundial da Poesia
Braga
‘Cintilações da Sombra’, uma antologia poética com palavras de vários minhotos entre alguns dos melhores autores da actualidade, é apresentada amanhã em Braga, Coimbra e Lisboa, em celebração do Dia Mundial da Poesia. Em Braga, a apresentação está prevista para as 18.30 horas, na Livraria 100.ª Página, sita na Avenida Central, a cargo de José Cândido de Oliveira Martins, professor da Universidade Católica Portuguesa.
Está prevista, pela actriz Cristina Cunha, a leitura de alguns poemas. Artur Coimbra, Cláudio Lima, Maria do Sameiro Barroso, Pompeu Martins, e Vergílio Alberto Vieira são poetas do Minho com textos inseridos nesta edição, de 500 exemplares, dada à estampa pela editora Labirinto — Núcleo de Artes e Letras de Fafe.
Entre outros consagrados das letras nacionais, este volume, com pouco mais do que setenta páginas, conta ainda com poemas de António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Furtado, Maria Teresa Horta e Victor Oliveira Mateus, qu e teve a responsabilidade de coordenação.
Àqueles vultos da poesia acrescentam-se promessas que já se vão cumprindo, em fase de afirmação, como João Ricardo Lopes ou Inês Fonseca Santos.
Um grito, um hino, um tributo aos poetas e à poesia
Num comentário para o ‘Correio do Minho’ acerca desta iniciativa editorial, o editor da Labirinto, João Artur Pinto, considera ‘Cintilações da Sombra’ como “um grito, um hino, um tributo simultâneo aos poetas e à poesia”. A antologia encontra-se disponível nalgumas livrarias do país, podendo igualmente ser pedida através do correio electrónico da Editora Labirinto.
Em Coimbra, na Casa da Escrita, a apresentação está a cargo do de José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra.
Em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, a apresentação será da responsabilidade de Cristina Carvalho (escritora), Maria João Cantinho (poeta e ensaísta) e Victor Oliveira Mateus (coordenador da antologia).
- 2013-03-20
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‘Cintilações da Sombra’, uma antologia poética com palavras de vários minhotos entre alguns dos melhores autores da actualidade, é apresentada amanhã em Braga, Coimbra e Lisboa, em celebração do Dia Mundial da Poesia. Em Braga, a apresentação está prevista para as 18.30 horas, na Livraria 100.ª Página, sita na Avenida Central, a cargo de José Cândido de Oliveira Martins, professor da Universidade Católica Portuguesa.
Está prevista, pela actriz Cristina Cunha, a leitura de alguns poemas. Artur Coimbra, Cláudio Lima, Maria do Sameiro Barroso, Pompeu Martins, e Vergílio Alberto Vieira são poetas do Minho com textos inseridos nesta edição, de 500 exemplares, dada à estampa pela editora Labirinto — Núcleo de Artes e Letras de Fafe.
Entre outros consagrados das letras nacionais, este volume, com pouco mais do que setenta páginas, conta ainda com poemas de António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Maria Teresa Furtado, Maria Teresa Horta e Victor Oliveira Mateus, qu e teve a responsabilidade de coordenação.
Àqueles vultos da poesia acrescentam-se promessas que já se vão cumprindo, em fase de afirmação, como João Ricardo Lopes ou Inês Fonseca Santos.
Um grito, um hino, um tributo aos poetas e à poesia
Num comentário para o ‘Correio do Minho’ acerca desta iniciativa editorial, o editor da Labirinto, João Artur Pinto, considera ‘Cintilações da Sombra’ como “um grito, um hino, um tributo simultâneo aos poetas e à poesia”. A antologia encontra-se disponível nalgumas livrarias do país, podendo igualmente ser pedida através do correio electrónico da Editora Labirinto.
Em Coimbra, na Casa da Escrita, a apresentação está a cargo do de José Carlos Seabra Pereira, da Universidade de Coimbra.
Em Lisboa, na Livraria Pó dos Livros, a apresentação será da responsabilidade de Cristina Carvalho (escritora), Maria João Cantinho (poeta e ensaísta) e Victor Oliveira Mateus (coordenador da antologia).
15/03/13
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. EM LISBOA !!!
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. Nesta Antologia poderão ler a poesia de: ALBANO MARTINS, ALICE FERGO,
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ALICE MACEDO CAMPOS, AMADEU BAPTISTA, AMÉLIA VIEIRA, ANA LUÍSA AMARAL,
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ANA MARIA PUGA, ANTÓNIO JOSÉ BORGES, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ,
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ANTÓNIO RAMOS ROSA, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR COIMBRA, CARLOS AFONSO,
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CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, DANIEL GONÇALVES,
.
FERNANDO PINTO DO AMARAL, FILIPA LEAL, GISELA RAMOS ROSA,
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HENRIQUE LEVY, HUGO MILHANAS MACHADO, INÊS FONSECA SANTOS,
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INÊS LOURENÇO, ISABEL MENDES FERREIRA, JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES,
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JOÃO RASTEIRO, JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOEL HENRIQUES,
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JORGE FRAGOSO, JOSÉ ACÁCIO ALMEIDA, JOSÉ EMÍLIO-NELSON,
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JOSÉ RUI ROCHA, JULIANA MIRANDA, MANUEL SILVA-TERRA,
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MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA JOÃO CANTINHO, MARIA QUINTANS,
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MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, NUNO BRITO,
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NUNO DEMPSTER, PAULO JOSÉ MIRANDA, RICARDO GIL SOEIRO, RUI ALMEIDA,
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RUY VENTURA, TERESA RITA LOPES, TIAGO NENÉ, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
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e VICTOR OLIVEIRA MATEUS.
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. Nesta Antologia poderão ler a poesia de: ALBANO MARTINS, ALICE FERGO,
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ALICE MACEDO CAMPOS, AMADEU BAPTISTA, AMÉLIA VIEIRA, ANA LUÍSA AMARAL,
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ANA MARIA PUGA, ANTÓNIO JOSÉ BORGES, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ,
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ANTÓNIO RAMOS ROSA, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR COIMBRA, CARLOS AFONSO,
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CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, DANIEL GONÇALVES,
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FERNANDO PINTO DO AMARAL, FILIPA LEAL, GISELA RAMOS ROSA,
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HENRIQUE LEVY, HUGO MILHANAS MACHADO, INÊS FONSECA SANTOS,
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INÊS LOURENÇO, ISABEL MENDES FERREIRA, JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES,
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JOÃO RASTEIRO, JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOEL HENRIQUES,
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JORGE FRAGOSO, JOSÉ ACÁCIO ALMEIDA, JOSÉ EMÍLIO-NELSON,
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JOSÉ RUI ROCHA, JULIANA MIRANDA, MANUEL SILVA-TERRA,
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MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA JOÃO CANTINHO, MARIA QUINTANS,
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MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, NUNO BRITO,
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NUNO DEMPSTER, PAULO JOSÉ MIRANDA, RICARDO GIL SOEIRO, RUI ALMEIDA,
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RUY VENTURA, TERESA RITA LOPES, TIAGO NENÉ, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
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e VICTOR OLIVEIRA MATEUS.
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14/03/13
A irmã mais nova de Lázaro, no mesmo dia em que conheceu a luz que banhava a Terra inteira, conheceu também uma escuridão maior do que aquela em que sempre vivera mergulhada.
(...) Veio um homem do meio da noite perguntar-lhe o que tinha com uma voz clara e mansa, e a irmã mais nova de Lázaro respondeu-lhe que tinha fome, e frio, e ninguém que a abraçasse; que precisava de ir para Betânia, na Judeia, onde talvez lhe sobrassem um irmão e uma irmã, mas não sabia o caminho; e que procurava um homem que também não conhecia para lhe entregar o seu amor, que era grande e puro, pois a mais ninguém o entregara antes dele. E esse homem que viera do meio da noite, ajoelhando-se junto dela, prometeu que lhe daria abrigo, e ceia, e um abraço diferente de todos os que até ali havia experimentado (...). E, olhando depois o seu rosto suave e inocente, acrescentou que esse homem que ela procurava, esse homem a quem ela queria entregar o seu amor, não era senão ele. E a irmã mais nova de Lázaro (...) ouvindo a sua voz deliciosa, acreditou.
Veio um homem do meio da noite todas as noites que a essa se seguiram, mas nenhum deles era o homem que a filha de Aura, deitada no chão da sua casa de Migdal, ouvira uma tarde pregar à sua porta e lhe enchera o peito de tumulto. Todos lhe dirigiam a palavra numa voz clara e mansa e todos lhe prometiam tudo o que ela dizia que faltava, pelo que, ao ouvi-los às escuras nas suas longas túnicas que lhes cobriam os pés, ela acreditava sempre cegamente no que diziam.(...) porque todos esses homens que dividiam com ela a cama e a ceia e lhe davam um abraço que ela preferia nunca ter experimentado queriam poder voltar a dar-lho noutra noite (...)
Entre os seios da irmã mais nova de Lázaro, depois de uma noite que, entre todas, foi a mais dura e longa de toda a sua vida - pois foi nela que voltaram todos os homens que antes a haviam tido uma só noite -, o coração apertou-se, pela primeira vez na sua vida, num novelo de dúvidas e maus pressentimentos quando, na enxerga em que adormecera de exaustão, a acordaram aos gritos as vozes ácidas de um grupo de mulheres que traziam as mãos e os regaços cheios de pedras. Foi só quando a primeira palavra a atingiu no peito, e quando a primeira pedra a atingiu no peito com o som dessa palavra, que a filha mais nova de Aura conseguiu encontrar a resposta à pergunta que a mãe lhe pedira que nunca formulasse. E, levantando-se com as poucas forças que lhe restavam para se salvar do seu destino (---) correu para fora da cabana com as lágrimas (...) por ter descoberto que o corpo que tinha para oferecer a esse homem que amava já não era o corpo que ele, na sua infinita bondade, merecia.
(...) E, por entre as vozes iradas de todos aqueles que só pensavam em castigar a irmã mais nova de Lázaro pelo pecado da carne, (...) Jesus perguntou o nome à mulher que, ajoelhada aos seus pés, os enxugava agora com os longos e sedosos cabelos das lágrimas que sobre eles derramara. E ela, sem o olhar ainda por vergonha, respondeu-lhe que se chamava Maria e era de Migdal, mas para Betânia, na Judeia, era o seu caminho, pois aí talvez lhe sobrassem um irmão que se chamava Lázaro e uma irmã que se chamava Marta, os únicos que poderiam ainda recebê-la sem pedras na mão. E Jesus, erguendo o olhar para uma nuvem que pairava sobre a sua cabeça (...), disse-lhe na sua voz clara e mansa:
- Vês alguma pedra nas minhas mãos? Pois então vem comigo, ia justamente para Betânia salvar um homem do seu destino, e uma viagem faz-se sempre melhor em boa companhia.
Pedreira, Maria do Rosário. Aos Seus Pés in "Putas: novo conto português e brasileiro". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, pp 89 - 93.
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12/03/13
Em breve...
A Editora Labirinto irá comemorar o DIA MUNDIAL DA POESIA com o lançamento, em
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três cidades (Braga, Coimbra e Lisboa), de uma Antologia de Poesia que tive o prazer de organizar.
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Na apresentação da obra em Lisboa terei a honra de estar acompanhado por duas grandes escritoras
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deste país: CRISTINA CARVALHO e MARIA JOÃO CANTINHO .
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(Em breve mais pormenores sobre estes eventos.)
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05/03/13
Como melhor exemplo da sua arte poética, como obra mais significativa de toda a produção de Mallarmé, podemos assinalar A Tarde de Um Fauno ( L'Après-midi d'un faune, 1876), um complexo e ambicioso poema sugerido após a leitura de uma pequena composição de Banville ( Diana no Bosque ) que referia ao de leve a personagem. O tema do desejo de duas ninfas por parte do fauno quando este despertou da sesta, serve ao poeta como pano de fundo para uma ampla reflexão sobre a realidade e o sonho, sobre os limites da vigília e o universo contemplado através dela. A Tarde de Um Fauno constitui, deste modo, um excelente resumo prático dos ideais poéticos de Mallarmé, que gostava de se considerar pensador antes de poeta. O artista, pensava, está encarregue de decifrar o mundo, cuja aparência exterior constitui um símbolo da Ideia que esconde (e observem-se aqui as dívidas para com a filosofia hegeliana). A explicação do mundo, no entanto, exige ser realizada por meios distintos dos convencionais, uma vez que a realidade impõe uma falsa lógica com a qual não pode ser verdadeiramente decifrada a Ideia. A missão da arte, da poesia neste caso, é a de desvendar, por meio de uma lógica artística de natureza simbólica, o verdadeiro ser do mundo. Apesar do ilusório da realidade, não se deve renunciar nesse desvendamento à estrita materialidade pela qual o homem se põe em contacto com a Ideia. Essa é a razão pela qual Mallarmé presta tanta atenção à execução do poema, especialmente à sua estrutura melódica. Em A Tarde de Um Fauno, o autor aprende as lições de outros contemporâneos sobre a musicalidade do verso - recordemos, por exemplo, Verlaine - e atribui à lírica uma transcendência melódica ( não foi em vão que a obra depressa passou para o mundo da dança), que não podemos deixar de reconhecer como uma certa forma de misticismo musical, muito presente entre os artistas europeus da época, e cujo ponto mais alto foi atingido por Wagner nas suas óperas.
Compreenderemos melhor, depois desta rápida exposição das suas ideias poéticas através de A Tarde de Um Fauno, as razões pelas quais Mallarmé foi um autor pouco prolífico. Por um lado, era muito arriscado apostar numa obra tão ambiciosa e complexa como a sua, sobretudo se a tentava tratar com seriedade e rigor; por outro lado, à dificuldade da composição acrescentava-se a da recepção pelo público, que Mallarmé nem sempre conseguiu fazer participar nesse desvendamento do mundo a que parecia convidar a sua poesia; juntamente com A Tarde de Um Fauno, só O Túmulo de Edgar Poe e alguns poemas isolados constituem o melhor da sua produção. Por fim, a sua honestidade intelectual deve-se ao rigor, e não à escassez, da sua inspiração, à qual nunca lhe faltaram horas de dedicação e trabalho. As implicações pseudo-religiosas da sua crença artística, de filiação claramente romântica na sua veia idealista, levaram-no ao extremo de negar qualquer dívida para com a realidade, a qual tentou superar através do símbolo, verdadeiro ser do mundo. Mas essa tentativa de libertação da arte levava irremediavelmente a esse beco sem saída que a sua geração compreendeu e experimentou até à perfeição com o "silêncio poético" de Rimbaud. Este caminho morto, esta impossibilidade de chegar mais longe, devia-se à recusa do artista a ceder à materialidade para decifrar um mundo que se obstinava em não ser desvendado e daí a presença contínua na sua obra dos temas da esterilidade, do nada, do vazio... Há, por isso, na obra de Mallarmé grandes doses de negação da substancialidade comunicativa da arte, momentos nos quais a poesia sacrifica, inclusivamente, a matéria da poesia, a palavra, para tentar desta forma fazer participar o leitor do indizível. A verdadeira poesia, parece concluir Mallarmé, pode ser, quanto muito, sugerida (e só esta convicção lhe permiitiu continuar a compor), mas nunca poderá ser escrita, pois profana-se assim a sua mais íntima essência. Rimbaud já o tinha compreendido e por isso se manteve fiel a esse "silêncio" que nenhum outro autor chegou a praticar.
Iáñez, E. História da Literatura, Vol. 7: O Século XIX, Realismo e Pós-Romantismo. Lisboa: Planeta Editora, 1992, pp 256 - 257.
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04/03/13
" Victor Oliveira Mateus "
De ti nascem os esboços do que escrevo agora
nestas linhas pautadas pelo vazio do branco
onde rasuro ideias que custam perícia e tempo
na incerteza da morfologia destas palavras
que respiram e regurgitam num só movimento.
Também são tuas estas frases órfãs de saber
inspiradas num instante de alucinação pagã
mas livres dos preconceitos irracionais da razão
que as dilacera e corrompe a cada sílaba
numa dança válsica que foge à compreensão.
Não negues a paternidade destas estrofes
cujas rimas furtivas se eclipsaram à nascença
deixando um simples discurso incoerente
de alguém que necessita escrever algures
todos os poemas que o papel recusa albergar.
São teus os versos que aqui vêm descansar
depois de correrem as estradas da criação
numa alucinante viagem sem destino prévio
mas com indomável vontade de se juntarem
e no fim gritar as dores de terem sido paridas.
Lomelino, Emanuel. Poetas Que Sou. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013, p 85.
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" Paula Tavares "
Voltaram a ouvir-se os cânticos
lamentosos das mães chorosas.
Os tambores anunciam prantos
e os rostos ganham serenidade.
O uivo da noite ilumina os sentidos
e a morte já tem as mãos cheias.
O cheiro a óleo de palma permanece
e as palavras são pérolas raras.
Prepara com carinho esse funje
porque no sábado temos visitas.
Lomelino, Emanuel. Poetas Que sou. Póvoa de Santa Iria: Lus de Marfim, 2013, p 52.
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