26/06/13

 
 
                               
 
 
   Se eu fechar a escotilha ficas todo lá fora, sozinho contigo, sem deuses que te aturem, és demasiado grande para chegares a mim, não tens dedos que me agarrem nem olhos de ver ao perto. As tuas ondas poderiam ser rugas se eu quisesse, sabes que o posso fazer? És um bruto desajeitado que esmaga os brinquedos e faz birras a fingir ódio. Entretanto nós passamos, baixamos os olhos e rezamos baixinho para que tu vejas e tenhas pena, mas eu rio por entre as rezas e tu não me vês.
   Gosto de te ter perto, assim como estás agora, ao alcance de te querer. Se eu quisesse juntava-me a ti e seria mar também. Mas não quero, ainda não. Tenho os meus deuses para inventar e acredito ainda em cores que não são tuas. Um dia, um dia é o tempo de tudo o que haveríamos de ter sido, e eu ainda tenho dias para mundos maiores do que tu. Se eu quisesse, tu eras um segundo pequeno de uma vida por fazer, sabes que o posso querer?
   Agora durmo, agora és noite e tens a cor de tudo o resto ( o mar não dorme, pois não?). Não sonhas, mas és sonhado e não há nada que possas fazer.
 
 
  Camarneiro, Nuno. No Meu Peito Não Cabem Pássaros. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2011, p 18.
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20/06/13

 
 
         "  Báltica  "
 
 
uma dureza uma noção fria de império, eu
de miragem vestida atravessando o mundo
para brincar aos camelos contigo
 
( o meu fato diamante a minha espera de pedra
musa sanguínea de sentinela que passa
comigo - )
 
hei-de escarrar-te uma página perfeita de literatura
vens para este livro, vais ser crucificado aqui
 
há-de esmolar-se mesmo a vontade romeira
a mão justa na outra, a violência privando-me
o juízo, este poema de amor até
 
mas não abrandarei os frios nem este pleito sem domo
há-de amarelecer
 
e este diminutivo susto vai sendo uma festa que acabará
eventualmente com beijos de sono nos olhos
 
e como havemos de nos ligar nupcialmente num sismo
num dia ambulado com o tempo próprio,
com uma sílaba, tu
 
chegas para te sentares à cabeceira da minha infância, eu
levanto-me com a forma de ter cabido nesse abismo -
 
não saberás quimicamente de um corpo levantado
aos ombros porque o teu ofício de pai dita que és
cardiologista, médico
 
tratas dos corações dos outros, portanto, sabes-lhes o peso
e saber isso é uma coisa próxima de morrer
e nenhuma figura de estilo
 
 
  Guerra, Raquel Nobre. Groto Sato. Lisboa: Mariposa Azual, 2012, pp 56 - 57.
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JUCUNDI  CANTUUS  NUTRICII


de mim faz uma só pelo amor que desconheço
a mínima interna das coisas a sua granítica
e outras aromáticas, eu com Lázaro à meia
porta dos exilados neste faro pelo mesmo
na noite formando selvagem, onde só posso
silêncios, eu que não cruzo o belo onde toco e sou
rasa de palavras para ser álccol à carne da tua
propagação, eu outros hábitos outras formas
de aproximação a um lugar de sermos a final hora
entre estados, eu que subirei nessa maneira bicho de chegar
e beber do mesmo charco


 Guerra, Raquel Nobre. Groto Sato. Lisboa: Mariposa Azual, 2012, p 20.
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17/06/13

 
 
 
     "  Lázaro  "


De minha aldeia fui para o deserto,
onde morei, não sei, dias ou meses,
fugi de meu nome e também de quantos
que por ouvi-lo à minha porta vieram.

Porém, onde só há silêncio e pedra,
nenhum sono me trouxe o sonho espesso
que não lembro, nem a Voz fendeu-lhe o ventre
nem me ergui de novo à luz crescente.

E a esta cidade que disseram vim
em demanda daquele cuja voz espero
diga-me a que do sonho despertei.

Mas soube aqui ele também morto e desperto.
De novo parto o mesmo, mas diverso,
que agora em busca desse outro igual a mim.


  Neves, Cláudio. Isto a que falta um nome. São Paulo: Realizações Editora, 2011, p 47.
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Decerto isto a que amor chamamos
será o intervalo de outras coisas,
um nome novo para o mesmo nada
que tanto nos habita e tanto cala.

Amor, o amor, se existe, é tão somente
a falta súbita de outra palavra,
esse frescor de um mundo inonimado,
dele o terror que nos ficou gravado.

O amor, amor, nem busca nem encontro:
nossa impotência, aquele mundo afásico
em que tudo nos era novidade.

Amor, o amor, o primeiro crepúsculo,
primeira noite (que nem noite se chamava)
de um mundo que não tinha ainda despertado.


   Neves, Cláudio. Isto a que falta um nome. São Paulo: Realizações Editora, 2011, p 25.
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16/06/13

 
 
      " Tramar "
 
 
Entre muros,
tramo a fuga.
Há muito,
calculo detalhes:
preparo a mochila,
dou força aos músculos,
visto-me de coragem.
Dia após dia,
marco a data
do grande momento.
No instante final,
apego-me à textura das paredes
- útero a proteger-me das ranhuras
que estão do outro lado do cimento.
E fico.
 
 
  Bucioli, Cleri Aparecida Biotto. Rume. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 77.
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Dentro da gaveta guardados criam raízes,
incorporam-se às fibras da madeira.
Os segredos envelhecem
entre a clausura das tábuas
e o perfume do tempo em decomposição.

Enquanto as lembranças dormem
o tempo engendra histórias.
Algumas - dramas doídos,
farpas a cravar a carne.
Outras - comédias triviais.

Se abrir a gaveta
destramo os enredos.
Deixo às traças
o inebriante prazer
de decompor
os poemas tecidos.


  Bucioli, Cleri Aparecida Biotto. Rume. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 45.
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15/06/13




Hay un rumor en esta distancia,
un ardid con el que tiño las palabras
con trampas que vibran
y no protegen. Hay un puerto,
húmedo y desierto, como todos los puertos
cuando no estás, y hay también un mapa,
un antiquísimo mapa sin costas
ni orillas, donde rehago
esta insoportable sed de ti
conmigo dibujando islas al otro lado
del tiempo. Hay aún -o parece
haber- un puente...un paso
amenazado: y todo esto, todo, porque
hay un rumor en esta distancia.

Victor Oliveira Mateus, Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013 (trad. Marta López Vilar).


Lo que duele no son las rupturas, el alejamiento,
la incapacidad minando como un cáncer
oculto y certero. Lo que duele no es
la poca solidez con que se dijo
esta o aquella palabra, esta o aquella frase;
con que se insistió, a pesar de recelos varios,
en la grotesca escenificación de lo que se preveía
muy próximo a cualquier futuro. Lo que duele
no es la viscosidad de las emociones inscribiéndose
en algún mapa anticipadamente condenado,
ni tampoco la insistencia de un indisoluble
recuerdo escapando. Lo que duele verdaderamente
es despertar un día y descubrir
que nada de eso tuvo importancia alguna.



Victor Oliveira Mateus. Gente dois reinos. Fafe: Ed. Labirinto. 2013 (Trad. José Ángel García
Caballero)
 

13/06/13



    A chave do sucesso inesperado de The Crying Game ( "o jogo das lágrimas"), filme de Neil Jordan, talvez se deva à variação que propõe sobre o motivo do amor cortês. Lembremos as grandes linhas da acção: Fergus, militante do IRA que tem à sua guarda um soldado britânico negro feito prisioneiro, liga-se de amizade com este; o soldado, no momento em que se prepara para morrer, pede a Fergus que vá visitar a sua noiva, Dil, cabeleireira nos subúrbios de Londres e lhe entregue as suas últimas lembranças. Depois da morte do soldado, Fergus abandona o IRA, instala-se em Londres, arranja um trabalho de pedreiro e vai visitar a amada do soldado, uma bela mulher negra. Apaixona-se por ela, mas Dil mantém uma espécie de distância irónica e soberana. Por fim, Dil acaba por ceder perante os seus avanços, mas antes de se deitarem os dois na cama, sai do quarto por um instante e, ao voltar, traz vestida uma túnica transparente; no mesmo instante em que relanceia avidamente o seu corpo, Fergus detecta nele um pénis: "ela" é um travesti. Frustrado, repele-a com brutalidade. Comovida e em lágrimas, Dil explica-lhe que pensara que ele conhecia desde o início a realidade das coisas (na sua obsessão por Dil, o protagonista - à semelhança do público - não leva em conta numerosos detalhes eloquentes (...). Esta cena de encontro sexual falhado estrutura-se como a inversão rigorosa da cena descrita por Freud como trauma primitivo do fetichismo: o olhar da criança, ao deslizar pelo corpo feminino até ao lugar do órgão sexual, surpreeende-se ao nada encontrar onde esperava ver alguma coisa (um pénis). No caso de The Cring Game, o choque produz-se quando o olho encontra alguma coisa quando nada esperava encontrar.
    Na esteira desta revelação dolorosa, a relação entre os dois inverte-se: descobrimos que Dil está apaixonadamente enamorada de Fergus, embora saiba que o seu amor é impossível. De Dama caprichosa e soberana, transforma-se na figura patética de um rapaz delicado e sensível que experimenta um amor desesperado. É neste ponto que emerge o verdadeiro amor, amor como metáfora no sentido preciso que lhe dá Lacan; somos testemunhas do momento sublime em que erómenos (o amado) se transforma em erastés (o amante), estreitando a mão de quem o ama e "retribuindo o seu amor". Este momento designa o "milagre" do amor, o momento da "resposta do real"; nessa medida, talvez nos permita compreender o que pensa Lacan ao insistir em que o próprio sujeito tem o estatuto de uma "resposta do real". Ou seja, até ao momento da inversão, o amado tem o estatuto de um objecto: é amado por qualquer coisa que está "nele mais do que ele próprio" e da qual ele não tem consciência; nunca me é possível responder à pergunta: "Que sou eu enquanto objecto para o outro? Que vê o outro em mim que causa o seu amor?". Confrontamo-nos, portanto, com uma assimetria: não só uma assimetria entre sujeito e objecto, mas uma assimetria que significa mais radicalmente o desacordo entre o que o amante vê no amado e o que o amado sabe de si.
    Deparamos aqui com o inevitável beco sem saída que define a posição do amado: o outro vê alguma coisa em mim e quer alguma coisa de mim, mas eu não posso dar-lhe o que não possuo, ou, como afirma Lacan, não há relação entre o que o amado possui e o que falta ao amante. A única maneira que o amado tem de escapar a este impasse é estender a sua mão ao amante e "retribuir o amor" - ou seja, trocar, num gesto metafórico, o seu estatuto como amado pelo estatuto de amante. Esta inversão designa o ponto de subjectivação: o objecto do amor torna-se sujeito no momento em que reponde ao chamamento do amor. E é só por meio desta inversão que o amor autêntico emerge: estou realmente enamorado, não quando estou simplesmente fascinado pelo ágalma do outro, mas quando experimento o outro, o objecto de amor, como frágil e perdido, como sentindo que "isso" lhe falta, e o meu amor sobrevive, todavia, a essa perda.
    Devemos pôr especial atenção em não descuidar a importância desta inversão: ainda que tenhamos agora dois sujeitos amantes em vez da dualidade inicial do amante e do amado, a assimetria mantém-se, uma vez que foi o próprio objecto a confessar a sua falta por intermédio da sua subjectivação.
    (...) E talvez no próprio amor cortês, o longamente esperado momento da realização mais alta, o momento da concessão pela Dama da Gnade, da mercê ao seu servidor, não seja a rendição da Dama, o seu consentimento no acto sexual ou qualquer misterioso rito de iniciação, mas simplesmente um sinal de amor da sua parte, esse "milagre" do Objecto que responde, estendendo ao suplicante a sua mão.
    E assim, para voltarmos a The Crying Game, que Dil se encontra doravante disposta a fazer seja o que for por Fergus, enquanto este se sente cada vez mais comovido e fascinado pelo carácter absoluto e incondicional do amor dela, de tal maneira que supera a sua aversão e continua a reconfortá-la...
 
 
   Zizek, Slavoj. As Metástases do Gozo, Seis Ensaios Sobre a Mulher e a Causalidade. Lisboa: Relógio D'Água, 2006, pp 34 - 36.
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11/06/13


    Nesta fase, o nível ontológico da amizade em Aristóteles pode dar-se por estabelecido. A amizade pertence à prote philosophia, porque aquilo que nela está em questão diz respeito à experiência mesma, à "sensação" mesma de ser. Compreendemos, então, porque razão "amigo" não pode ser um predicado real que se junta a um conceito para o inscrever numa certa classe. Em termos modernos, poder-se-ia dizer que "amigo" é um existencial e não um categorial. Mas este existencial - que não pode ser conceptualizado como tal - é perpassado por uma intensidade que o dota de uma intensidade semelhante a um poder político. Esta intensidade é o syn, o "con" que partilha, dissemina e torna partilhável - desse modo, sempre já partilhado - a sensação mesma, a própria doçura de existir.
    Que esta partilha tenha, para Aristóteles, um significado político está implícito na passagem que mal analisámos e sobre a qual é oportuno voltar: (...) e a expressão aristotélica poderia significar simplesmente "ter parte no mesmo". (...) a amizade como con-sentimento do puro facto de ser. Os amigos não partilham qualquer coisa (um nascimento, uma lei, um lugar, um gosto): eles são sempre já partilhados a partir da experiência da amizade. A amizade é a partilha que precede todas as outras partilhas, porque aquilo que existe para partilhar é o facto mesmo de existir, a própria vida. E é esta repartição sem objecto, este con-sentir original que constitui a política.
    Como esta sinestesia política originária se tornou, com o tempo, no consenso ao qual as democracias confiam o seu destino, na fase extrema e extenuada da sua evolução, isso, como se costuma dizer, é uma outra história, que deixo à vossa reflexão.
 
      Agamben, Giorgio. L'amico. Roma: Edizioni Nottetempo, 2007, pp

10/06/13



    Colocada sob suspeição em todos os campos, secundada, e muitas vezes substituida por signos de outras linguagens - especialmente no universo pragmático da comunicação urgente e persuasiva - a palavra tem sido também atingida em seu próprio reduto. Não só as estruturas maiores do discurso foram tocadas: também os núcleos menores, o vocábulo, mesmo como tal, o foi. E a poesia acaba, muitas vezes, por ser feita com farrapos, com franjas de palavras mutiladas, desmontadas, remontadas, transformadas em outra coisa, sempre na busca ansiosa de uma dicção mais eficaz. Alguns dos movimentos mais recentes da vanguarda literária vivem do curioso paradoxo de tentar anular a palavra, no propósito final de pôr a nu um valor absoluto, inteiro, insistindo na exploração de suas possibilidades mais recônditas, para, em última instância, obrigá-la a dizer.
   Poetas como Renata, porém, não mutilam suas "amadas palavras". Trabalham-nas, empenham-se em fazer delas um instrumento preciso de medição da temperatura da vida. Incorporam-se à sua maturação e à maturação do mundo. Sabem com lucidez que sua forma peculiar de conjurar a angustiante complexidade do real é reduzi-lo à essencialidade da palavra.
 
 Vincenzo, Elza Cunha de. O Exercício da Poesia in, "Um Calafrio Diário" de Renata Pallottini. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, pp 169 - 170.
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07/06/13



 UM  POEMA  DE  GENTE DOIS REINOS  NO " LOGROS CONSENTIDOS "


VER  AQUI:   www.logrosconsentidos.blogspot.com
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                 " Poema 4 "

Caminho rasgando as lacerações
E a máscara máquina!

Caem as tardes
Se as houvesse e a potência
Descansasse

Então um só nome
O que da pluralidade se erguesse
Até à ressonância dos vitrais
E se precipitasse

Alado cavalo meu com as ancas
Súbito músculo
dádiva

Elas
As que da pedra
Percorrem os séculos e pastam
Inclinadas

Abertas sobre o leite da erva

Alta noite
Eu vi a sombra pairando
E o vento do escuro
Era seu canto

Oh, a precipitação
A púbis
E o Anjo clamando a suma triangulação
Dos caminhos da Floresta


  Patraquim, Luís Carlos. o escuro anterior. Lajes do Pico: Companhia das ilhas, 2013, pp 24 - 25.
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06/06/13




                  ( Geocaching )

Espero ainda o brilho
o centro do teu sorriso
espécie de peixe-galáxia-abrasão
por nomear
por achar
( que não sei se há ).


    Moura, Ricardo Tiago. Um Gato Para Dois. S/c.: Hariemuj, 2013, p 88.
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  ( Inauguração )


Se eu me casasse
- deixaste escapar num fio de frase
e nessa manhã entendi e não quis entender
sozinho sem árvores só eu
que eras longe e muito teu
muito e bem casado com a vida
sem espaço para vendavais
pelos teus vasos fora
marquise adentro.


  Moura, Ricardo Tiago. Um Gato Para Dois. S/c.: Hariemuj, 2013, p 80.
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01/06/13


 " Poemas Não São Para Serem Publicados "



Poemas não são para serem publicados
poemas são drag queens rolando piteiras em puteiros
ou somos nós, poetas velhos de caras borradas
poetas de cinco centavos

poemas não são para serem publicados

poemas são para serem escritos
às vezes rasgados
às vezes guardados
podem ser confessionais, imorais
de vanguarda
podem ser apenas voz humílima do guarda
podem ser uma criança

mas em geral
são sem esperança
de serem publicados

poemas custam caro
e não fazem o mesmo efeito de um chope
não fazem o efeito de um baseado
poemas não servem pra trepar nem nada

nem sequer tente publicar seus poemas
faça-os voltar calados às gavetas
com eles ninguém se meta

dormirão como dormem os drogados:
tristes, gelados, pesados
mas serão sempre únicos
sempre ineditamente
mediúnicos

sempre salvos das graças das prebendas
sempre coisas pudendas (ainda que sujos)

poemas, sempre úmidos
nocivos, fim de feira
maus de venda e de vida.

Não são nem mesmo um incentivo
à leitura, pois quem vai ler linhas quebradas
oriundas de almas idem?


  Pallottini, Renata. Um Calafrio Diário. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, pp 114 - 115.
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30/05/13

 
 
 
     ( Poema 6 do Ciclo Elementos )
 
 
 
 
O que dói não são as roturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.
 
 
 
   Mateus. Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 27 ( Prefácio de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
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  " Tão triste como um terno azul-marinho... "
 
 
 
Tão triste como um terno azul-marinho
como coçar as costas numa árvore
razante de urubu
cio dos gatos
besouro virado de costas
 
planta que não pegou
piruá
rompimento
 
aquela tristeza de namoro na Internet
ir ao aeroporto
e não partir
 
triste como uma tarde de domingo
depois do jogo
ressaca de vinho-do-porto
porto
 
tão triste como ter amado
e agora perceber
que não era preciso
que foi inoportuno
que ninguém se importou
 
tão triste como um touro
na arena
lembrando o pasto
uma galinha humilde coberta pelo galo
 
triste como gaiola
triste como ser tolo
 
 
  Pallottini, Renata. Um Calafrio Diário. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, pp 94 - 95.
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  "  Algo  "


Mora dentro de mim
É a parte mais escura do meu sangue
Costela flutuante

É um pouco da medula que me dói
Esse ar que me falta
Nas horas de insônia
Tosse de madrugada
Sobressalto

E não se vai
Eu já lhe disse adeus e não se vai

Gosta de mim
Mas não me amou jamais.


   Pallottini, Renata. Um Calafrio Diário. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002, p 64.
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29/05/13

 
 
 
                           "  Lírica  "
 
 
Chegasse antes da hora
Eu te veria
No ato que sempre só imaginei -
Tua forma estólida, absorta,
Possuída
De um saber que livro algum
Jamais te deu.
 
Sem tocar teu corpo cântaro
Provaria
O sangue da tua meditação,
E aquele rancor sequer perdoado
A um morto
Num amor rebentaria,
Alheio ao teu juízo,
Como quem canta à noite
À boca de um poço
E pela voz de um outro
É correspondido.
 
Assim eu revelaria
O teu amor aos assassinos
Precipitando-se
Num rosto compassivo
Que me recebe na hora certa
E permite
Que o meu pensamento
Penetre o teu sem relutância
E faça contigo
Irremediavelmente
O que só um poeta faz
Com as palavras.
 
 
    Ianelli, Mariana. O Amor e Depois. São Paulo: Editora Iluminuras, 2012, pp 41 - 42.
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28/05/13



   "  Poeta do Campo  "


Cada coisa que tocava era tocada com minúcia,
Toda a sua alma a escuta de uma carícia

Era agora um cego lendo o livro da sua vida -
Para trás ficava a roseira-brava com seus espinhos,
Já muito longe iam os atalhos, os artifícios -

Era agora onde o vento desimpedido vibra
E vibrava por dentro o arco do seu destino.


   Ianelli, Mariana. O Amor e Depois. São Paulo: Editora Iluminuras, 2012, p 79.
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27/05/13



    " Ao Shopping Center "


Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.

Do elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.

Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus

nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.


   Paes, José Paulo. Prosas seguidas de Odes Mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p 73.
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26/05/13


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"A Essência do Amor" (To The Wonder) é a mais recente película de Terrence Malick. Realizador americano conhecido por produzir pouco (a sua média estava num filme de sete em sete anos!), Malick tem, contudo, nos últimos tempos, dado ao seu público filmes com uma maior regularidade: "A Árvore da Vida" é de 2011 e está já, neste momento, a trabalhar numa outra obra. O presente filme aborda o encontro de Neil (Ben Affleck), na Europa, com Marina (Olga Kurylenko) que vive em Paris com uma filha de dez anos. Convencida a ir para o Estados Unidos com o companheiro, o casal irá experienciar aí todo um conjunto de situações, emoções e sentimentos, que justificam e fundamentam o título do filme. Após o fracasso desta estória amorosa, e do regresso de Marina a Paris, Neil envolve-se com uma antiga namorada (Rachel McAdams), mas súbito toma conhecimento do regresso de Marina aos Estados Unidos para se encontrar com outro alguém e o filme acaba exactamente aqui: um final aberto que nos deixa entrever que a estória de Marina e Neil, como todas as estórias de amor pleno (veja-se o título em português variante brasileira!), não está afinal definitivamente escrita... Fundamentalmente dicotómico o amor humano apresenta-se como um caminho de felicidade/sofrimento, alegria/dor, certezas/ dúvidas, arrebatamentos/ hesitações, etc, etc. A Essência do Amor não nos é dada a priori, o ser humano terá de a apreender e de a trabalhar em si através de um caminho muitas vezes agreste! Mas a estória deste amor humano entrecruza-se com uma outra relacionada com o amor divino, já que o padre da localidade deste casal (Javier Bardem) atravessa exactamente as mesma hesitações e a mesma dor em relação à matéria da sua crença - Deus.
 O tema central deste filme é, por conseguinte, uma reflexão cuidada e pormenorizada em torno do Amor, em torno de Deus e em torno dos momentos em que estas duas instâncias se interpenetram: "Deus não nos dá o que queremos mas aquilo de que, em dado momento, precisamos", diz uma das personagens. É igualmente uma reflexão que se processa através de uma narração fragmentada em que que a estória está constantemente a sofrer avanços e recuos; um filme também repleto de longos silêncios e de uma beleza e de uma poeticidade raras no cinema dos último anos. O quadro apresentado é de tal modo portentoso que nada é deixado ao acaso: a belíssima música de Hanan Townshend, a fotografia, os diálogos e/ou monólogos em quatro línguas (inglês, francês, espanhol e italiano), a beleza e autenticidade das expressões, sobretudo as faciais, a fazerem-me lembrar o melhor de Bergman, de Duras e até o "Paixão" de Godard ou o "As Asas do Desejo" de Wim Wenders - a alma destas personagens está-lhes constantemente inscrita no rosto, nos passos, nos olhos. Uma obra-prima!!!
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25/05/13



         " Mundo  Novo "



Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.

E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que
a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de
espinheiro.

Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora
vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel
a terra mal enxuta do Dilúvio.

Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.


  Paes, José Paulo. Prosas seguidas de Odes Mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p 47.
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     " Balada do Belas-Artes "



Sobre o mármore das mesas
do Café Belas-Artes
os problemas se resolviam
como em passe de mágica.

Não que as leis do real
se abolissem de todo
mas ali dentro Curitiba
era quase Paris:

O verso vinha fácil
o conto tinha graça
a música se compunha
o quadro se pintava.

Doía muito menos
a dor-de-cotovelo,
nem chegava a incomodar
a falta de dinheiro.

Para o sedento havia
um copo de água fresca,
média pão e manteiga
consolavam o faminto.

Não se desfazia nunca
a roda de amigos;
o tempo congelara-se
no seu melhor minuto.

Um dia foi fechado
o Café Belas-Artes
e os amigos não acharam
outro lugar de encontro.

Talvez porque já não tivessem
(adeus Paris adeus)
mais razões de encontrar-se
mais nada a se dizer.


   Paes, José Paulo. Prosas seguidas de Odes Mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, pp 45 - 46.
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23/05/13



        " desperta-nos "


desperta-nos, Deus,
deste exílio imóvel, acomodatício
desperta-nos da obscuridade
em que se pressente o afecto da luz
para o claro dia
em que o teu Nome enlace
a terra e o céu

desperte-nos o anjo do dia
em tempo de paralisia das palavras
e de pobreza extrema diante do invisível
e dá à nossa vida a graça do tempo
para perceber a fugacidade, o voo dos pássaros
o ruído do que nasce e irrompe
agregue-nos a luz do presépio
e que os labirintos dos nossos afectos
se iluminem à voz da tua Palavra

  Mourão, José Augusto. O Nome e a Forma: poesia reunida. Lisboa: Pedra Angular, 2009, p 271.
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 " arte das passagens "



Deus que amas o anjo e a pedra,
a ortiga e o narciso
porque o diferente é melhor
que a monotonia do número igual

tu que dispões os nossos afectos
para a arte das passagens,
a anaforização do sopro
que a cada idade diz o seu ritmo,
o seu compasso, a sua pausa

dá a esta hora
a memória de todas as horas
e o alvoroço dos acontecimentos partilháveis
e em todo o tempo a nossa boca
anseie pelo teu Nome e a tua graça

  Mourão, José Augusto. O Nome e a Forma: poesia reunida. Lisboa: Pedra Angular, 2009, p 181.
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18/05/13



  " alegria das navegações "



desarma-nos, Deus,
do gelo de violência
que tanto exibimos
como dissimulamos

defende o espaço das nossas relações,
sem nos tornarmos ostensórios,
carpideiras barrocas,
sobre a curva da onda que vem
e nos descreve a rota das metamorfoses

defende-nos das classificações exangues
e da paixão da regra
que nos sepultam vivos, exilados, cínicos

tenham os nossos actos
o ritmo e a cadência do possível,

Deus que esperamos na alegria
das nossas navegações
e que nos convocas para esta hora de luz
e de passagem


   Mourão, José Augusto. O Nome e a Forma: poesia reunida. Lisboa: Pedra Angular, 2009, p 139.
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17/05/13



   " Regras para evitar qualquer crise de nervos "



É preciso lutar contra a folha de cálculo que elimina, que despede
é preciso trabalhar contra aquilo que nos põe sem trabalho
é preciso saudar a poesia, tirá-la da torre e cantá-la
é preciso abandonar o que nos aprisiona futilmente
é preciso montar a tenda sobre as possibilidades
é preciso libertar a liberdade com que se nasceu
é preciso lutar contra o medo, com ou sem ele
é preciso vigiar de perto o que se conquista
é preciso conquistar o lugar que nos cabe
é preciso rejeitar frases postas na boca
é preciso deixar de ser um número
é preciso fugir de rajada à rajada
é preciso mentir só à mentira

é preciso questionar
é preciso dizer não
é preciso duvidar

e amar - verdadeiramente.


  Marques, Ricardo. Doce Inimiga (antologia). Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 38 (Coordenação de Maria do Sameiro Barroso).
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15/05/13

          ( "Dédalo e Ícaro" quadro de Frederick Leighton, cerca de 1869 )


                                            " Ícaro "



Alisa as penas no canto do parapeito,
onde o peito - já sem canto - lhe atiça
penas de outros tempos, quando a espera
de coisa nova era haste na fúria dos ventos.

Alinha-as segundo a cor, o tamanho,
a doçura, e com elas desafia o sol, os tiranos,
tudo o que sem vontade pura recusa asas
em aceitação de danos, vasas ou tortura.

Alisa as penas no canto do parapeito,
avesso às ameaças de Minos, aos labirintos
de Cnossos e seu despeito, ao roncar dos carros
rua abaixo: misto de falsidade e destroços.

Afaga as asas já concluídas e, encostado ao vidro
fosco da varanda, entristece a futura queda, cera
e ousadia derretidas, para que assim surjam ilhas,
terras verdejantes e todas as coisas prometidas.

  Mateus, Victor Oliveira. Doce Inimiga ( antologia). Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 40 ( Coordenação de Maria do Sameiro Barroso).

 
Nota - a presente obra, que integra textos de vários autores, acompanhou uma leitura poética organizada pelo World Poetry Movement e visa promover o diálogo, a libertação, a solidariedade e o empenho contra a opressão, a apatia e o isolamento; visa também chamar a atenção sobre os mais frágeis e combater o poder insensato dos predadores que controlam o mundo e impõem sobre todos a garra pesada do seu domínio cego. (Esta nota é quase uma transcrição literal da Abertura redigida pela coordenadora da Antologia).
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O Júri do PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT'ANNA 2013, constituido por

FERNANDA ANGIUS, TERESA ROZA D'OLIVEIRA, EUGÉNIO LISBOA,

VICTOR OLIVEIRA MATEUS e AMÉRICO MATOS atribuiu, por unanimidade,

o referido Prémio ao escritor EDUARDO WHITE pelo seu livro " O Poeta Diarista

e os Ascetas Desiluminados".
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13/05/13



 
Tarde no El Corte Inglês com um pequeno grupo: almoço, conversa, livraria, cinema... Com tanta coisa que tenho para ler, há muito que deixei de me debruçar sobre certas críticas: a de cinema é uma delas. Por vezes vou mesmo ao ponto de testar esta posição: quando os amigos me diziam que a crítica deitava abaixo dado filme da Liliana Cavani, eu já sabia que era obra a ver; quando hoje me anunciam que o filme X de David Lynch é unanimente louvado, percebo logo que é algo a evitar. Não me tenho dado nada mal com este meu método! Tudo isto para dizer que acabámos por ir ver o último do Costa-Gravas: "O Capital". À noite, e para me contradizer, resolvi ir ler as críticas que andam pela net. Deuses, uma indigência que arrepia! Para muitas das oraculares vozes analíticas o cinema de Gravas resume-se a...  ... um imediatismo que retrata o aqui e agora´, muitas vezes, através da parábola e da denúncia. E pronto, têm dito!!! Claro que fico sem saber como entram nesta caracterização dados diálogos; o do duche de Marc Tourneil (Gad Elmaleh) quando a mulher sente repulsa por ter de usar um vestido que acabara de custar 20.000E, aliás, as figuras femininas são neste filme - à excepção da "tonta" Claude!- personagens muito interessantes, são figuras da inconformidade e do conflito ético-moral que nada têm a ver com uma exposição crua do imediato. Outro momento também que escapa ao retratismo presentificado é o diálogo de Marc com o tio durante o almoço em casa dos pais, logo seguido da observação fugaz das crianças brincando com tudo o que é tecnológico - estamos, aqui, em pleno campo da análise simbólica ou até mesmo de cunho psicologizante, sobretudo se observarmos bem o filho de Marc. O próprio fim do filme nada tem de imediatista: é uma hipérbole onde se ridiculariza o sistema financeiro e, entrando mesmo pelo profético adentro, afirma explicitamente que a bolha acabará por rebentar, já que é da própria essência da todas as bolhas a sua implosão. No final do filme, e como corolário, Costa-Gravas não fala do imediato, fala-nos do futuro: o facto de ter optado por um monólogo para a camara (mais um!) e pelo fecho abrupto da acção parece indiciar um certo temor ante o inevitável que parece avizinhar-se. Este filme não é apenas uma denúncia, é também uma premonição com laivos de uma pedagogia derradeira e desesperada.
Excelentes desempenhos de Gad Elmaleh, Llya Kabele e dos veteranos Gabriel Byrne e Hippolyte Girardot..
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12/05/13

 
 
 
Critério de diagnóstico de Perturbação da Personalidade Narcísica
 
  Padrão de grandeza global ( em fantasia ou comportamento), ausência de empatia e hipersensiblidade perante a avaliação dos outros, com início no princípio da idade adulta e presente numa variedade de contextos, como indicado por pelo menos cinco dos seguintes:
 
1. Reage às críticas com sentimentos de raiva, vergonha ou humilhação ( mesmo que não expressos);
2. É explorador nas relações interpessoais: tira vantagens dos outros para atingir os seus fins;
3. Tem um sentimento grandioso de auto-importância: por exemplo, exagera os seus êxitos e talentos, espera ser notado como "especial" sem nada fazer que o justifique:
4. Acredita que os seus problemas são únicos e só podem ser compreendidos por outros indivíduos "especiais";
5. Está preocupado com fantasias de êxito ilimitado, poder, brilhantismo, beleza ou amor ideal;
6. Tem um sentido de que tudo lhe é devido: esperanças irracionais de tratamento favorável especial; por exemplo, entende que não precisa de esperar numa fila como os outros indivíduos;
7. Exige constantemente admiração e atenção; por exemplo, procura ser elogiado;
8. Ausência de empatia: incapacidade para reconhecer e experienciar os sentimentos dos outros; por exemplo, ressentimento e surpresa quando um amigo que está gravemente doente cancela um encontro;
9. Preocupa-se com sentimentos de inveja.
 
  Rodrigues, Vítor Amorim (e Luísa Gonçalves). Patologia da Personalidade: Teoria, Clínica e Terapêutica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p 149.
 
 
(Nota: existe neste blogue uma vasta biografia relacionada com as perturbações da personalidade. Procurar na lista de autores.)
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11/05/13


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Alberto Eiguer, um dos grandes especialistas da perversão narcísica, fala aqui
do seu último livro sobre o tema.
(Nota - apesar de ser patologia da qual não sofro, interessa-me, contudo, bastante
o seu estudo já que conheci muita gente que navegava nestas águas!)
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09/05/13

Dia 11 de Maio, pelas 18h30, na Livraria 100ª Página, em Braga, decorrerá uma Leitura Poética

promovida pelo WORLD POETRY MOVEMENT ( Organização Internacional que promove a

literatura, a paz e a liberdade de expressão), sendo, nesse momento, apresentada a Antologia

Poética Doce Inimiga organizada por Maria do Sameiro Barroso e publicada pela Editora

Labirinto. Os autores que integram essa obra são: ALBANO MARTINS, ALICE MACEDO

CAMPOS, AMOSSE MUCAVELE, ANA PINTO, ANTÓNIO SALVADO, ARTUR COIMBRA,

CARLOS VAZ, CLÁUDIO LIMA, DANIEL GONÇALVES, DELMAR MAIA GONÇALVES,

GISELA RAMOS ROSA, ISABEL MENDES FERREIRA, JOSÉ JORGE LETRIA, JOÃO

RASTEIRO, JORGE VELHOTE, JULIANA MIRANDA, MARIA AZENHA, MARIA AUGUSTA

SILVA, MARIA DO SAMEIRO BARROSO,  MARIA TERESA DIAS FURTADO, RICARDO

GIL SOEIRO, RICARDO MARQUES, PEDRO SABORINO, POMPEU MIGUEL MARTINS,

TERESA RITA LOPES, VICTOR OLIVEIRA MATEUS.
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08/05/13



         "  da coragem  "



Deus, ensina à nossa vida que não há coragem inútil,
que os lugares do impossível se deslocam
quando a confiança toca o chão das coisas
e não é crença ornamental, alegoria

liberta a nossa vida do discurso da resignação
que é o fatalismo,
do derrotismo, que é a filosofia espontânea dos proletários

livra-nos, Senhor, do niilismo passivo, da crença desfeita --
as grandes portas abertas ao fascínio do terror,
livra-nos de tolerar o mundo,
a perversão à escala industrial, a conivência da morte

dá ao nosso corpo a graça das viagens sem bagagens,
sem outro futuro que a coragem,
sem outro combate que a justiça e o direito à diferença

arma os nossos olhos da paciência ardente
e os nossos braços da ternura real,
para acolhermos a aurora do teu Dia
no cruzamento do que em nós se repete e se interrompe,
se desloca e se excede,
e descubramos o esplendor da tua face
de mãos dadas com quantos,
de todos os horizontes te procuram
e te proclamam

santo, justo e imortal


    Mourão, José Augusto. O Nome e a Forma: poesia reunida. Lisboa: Pedra Angular, 2009, pp 27 - 28.
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07/05/13

 
 
Quem poderia reconhecer
depois de tão longa espera
a esteira viva de uma estrela
que se apagou num frémito obscuro
que ritmou as palavras esparsas?
 
Ei-la aqui viva e já morta
a estrela de um gesto de amor
que seria eu sem ti viva ou morta?
 
Eu quero guardá-la na minha boca
como a serpente guarda o veneno
para o gérmen que anuncia o mundo
 
 
  Rosa, António Ramos. Numa folha, leve e livre. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 25.
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O meu corpo espera
banhar-se
numa água transparente
a que germina aqui

Avanço com o meu nome
até ao muro
poderei libertar-me
das imagens?

Se escrevo
é para entrar no claro círculo do dia
e ser uma pedra que respira
um núcleo branco


    Rosa, António Ramos. Numa folha, leve e livre. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 22.
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06/05/13


Organizada pelo poeta moçambicano Amosse Mucavele a Antologia Poética "A Arqueologia

da Palavra e a Anatomia da Língua", com Prefácio do Prof. Paulo Sebeu de Azevedo

(Universidade Federal do Rio Grande do Sul), inclui diversos autores dos vários países que

têm como língua oficial o português e dos quais mencionamos apenas alguns:

Micheliny Verunschk, Eduardo White, Alberto Estima de Oliveira, Ana Mafalda Leite,

Victor Oliveira Mateus, Donizete Galvão, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto,

Maria do Sameiro Barroso, Maria ângela Carrascalão, Jorge Melícias, Dina Salústio,

Cláudio Daniel, João Melo, Conceição Lima, Amosse Mucavele, Maria Teresa Horta,

Affonso Romano de Sant'Anna, Adelino Timóteo, José Inácio Vieira de Melo, Lau Siqueira,

Gisela Ramos Rosa, Aurelino Costa, Ronaldo Cagiano, Vera Duarte, João Maimona,

João Rasteiro, Dinis Muhai...   ...


NOTA: clicando sobre a imagem terá uma lista mais completa dos autores do espaço lusófono
que integram este volume.
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Capa da autoria do pintor cabo-verdiano Mito Elias.
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Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
 
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
 
Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
 
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
 
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
 
Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
 
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
 
 
     Andresen, Sophia de Mello Breyner (poema datado de 1977).
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05/05/13

 

                                                                        Sou no que pode o eco, não o lamento.
                                                                        escrita, a ti me entrego, e me possuis
                                                                        no vão das horas, nas máscaras do tempo.

                                                                                  Antonio Carlos Secchin, in Terra


    " Poema 10" do Ciclo Elementos


Nenhuma viagem é mais terrível
do que aquela que é feita ao mais fundo de nós,
a esse impalpável reino onde se acumulam,
e ardem, pedaços do que nunca seremos.
Nenhuma viagem é mais tormentosa,
mais negra, mais cheia de enganos e monstros
do que aquela com que enfeitamos a ruína
do último dia. Perante o irremediável -
as mãos abertas, uma canção estilhaçada
numa boca anónima, o desespero
a refulgir no terraço onde eu há muito
deixei de procurar. É assim toda a viagem:
nem errada nem certa; paisagem a insistir,
fixa, iluminada, de onde minha imagem deserta.


 Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 32 (Prefº de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
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Gisela Ramos Rosa, Ana Cristina Silva, Maria João Cantinho, Victor Oliveira Mateus
   


     " Poema 3" do Ciclo Elementos


Ao terceiro dia ninguém separou a luz
das trevas. Nenhuma deusa, nenhum demiurgo,
nenhum deus, maior ou menor, decidiu
perfilhar-nos; decidiu recriar as águas,
as aves, as plantas (agora transgénicas),
as cidades (cada vez mais cóio de corruptos),
o sexo (apressada ejaculação por hábito,
por aprendizagem ou no minúsculo extra
que se cria em qualquer intervalo conjugal,
quando o trabalho se distrai ou finge,
mas a engrenagem insiste, por agora
e sempre). Ao terceiro dia nenhum de nós
esboçou o mais pequeno traço
entre um intento etéreo e o fogo do lugar.

O lume, voraz, ecoava nas grelhas, no estralejar
do carvão, e, alheio, emoldurava igualmente o vozear
ácido dos bêbedos, o entrechocar dos copos
à mistura com os meus pensamentos.
Na gordura do balcão os cotovelos do rapaz
do retábulo desenhavam circunferências
concêntricas, assim como tu ali bem perto
e o meu duplo a distanciar-se cada vez mais
através da noite, enfim, tanta gente (ou ninguém)
para me descentrar da porta, de mim próprio,
de uma lealdade indefinível, uma estranha
lealdade que sempre me acrescenta
no vasto rol das cedências feitas e onde eu sabia
(por antecipação) que tu jamais poderias caber.

Ao terceiro dia levei-te ao lugar da minha infância
Uma mulher, reconhecendo-me,
abriu-nos a sua porta, mostrou-se-nos por dentro
com bens e infortúnios. Era uma mulher simples,
como simples eram os dedos que te percorriam
o antebraço, como simples ( e derrotados)
eram os meus olhos: cúmplices de um tempo
que eu ia escondendo na voragem cega
que haveria de chegar... Depois vieram os painéis
de azulejos, também eles sobreviventes
de terramotos; o esboroado chafariz
onde os muares se dessedentaram
e os carroceiros mataram suas frustrações
de uma república que não tinha valido a pena;

a mina, de água salobra, já seca e sem qualquer
uso; as hortas - ainda resistentes -
que nos pusemos a inventariar neste tempo
de aparências e artifício. Ao terceiro dia
misturei memória e imaginação,
percepçãp presente e antiga, concreto
e expectativa e como o meu duplo
relativamente a escritas antigas,
assim forjei palavras e versos
onde se escondessem todos os abismos
que eu não pedira. Mais tarde, muito
mais tarde, acusar-me-ias de inaptidão,
de incapacidades várias e envenenamentos
de uma narrativa há muito condenada;

mais tarde, tu, meu outro no desdobramento
de mim, quando te pedi a não dureza das palavras,
só então percebeste do silêncio a sua fala
mais estreita, essa uterina busca de águas
e grutas inexpugnáveis, essa clareira
onde um colo de raízes se desenha, e, ao cair
da noite, de novo volta para me cobrir
com seu manto de angústia e perdas várias.
- Tu não és daqui!, dizia-me o rapaz
do retábulo, enquanto Erato ajeitava a saia
e olhava de soslaio a porta, dividida agora
entre o crepitar do fogo e um ecrã cego
a derramar sons no olhar vítreo dos bêbedos
que, ausentes, me reconheciam igual e sem futuro.


   Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 22 - 24 ( Prefº de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel Garcia Caballero).
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02/05/13

Lançamento...

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      "  Poema  60  "


Nascer aqui é falhar ainda
O silêncio das árvores em crescimento,
Nascer aqui é sempre demasiado tarde
Para ir beber à fundura de um poço,
Nascer aqui dói às pedras
Que excederam a altura da casa,
Nascer aqui impede os cães de conduzir
A cegueira dos espelhos desde o olhar até à visão,
Nascer aqui afugenta o invisível para longe da vida,
Nascer aqui é um ruído de fundo
Para dissuadir a hospitalidade do tempo à nossa mesa,
Nascer aqui é demasiado tarde para sermos
perpendiculares
À oferenda mútua dos corpos,
Nascer aqui desfaz a aritmética dos passos sem
caminhante,
Nascer aqui muda-nos a todo o instante de origem e
destino,
Nascer aqui atenta contra o trabalho escultórico
De uma minuciosa nudez dos pensamentos para pôr a
salvo
O vazio de nascer agora e por fim em nenhum lugar.

  Carita, Fernando Eduardo. Le Salut Par le Vide/ A Salvação Pelo Vazio (Édition bilingue). Châtelineau: Editions Le Taillis Pré, 2005, p 132.
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  " Poema  48  "


Nem o centro está no centro
Nem deus está em deus,
Fatais os equívocos, vãs as buscas;
De nada adianta querer agora perseguir
O rasto das aves no inverno
Nem tão-pouco o das palavras no tacto das coisas;
Somos meros supranumerários
De uma abstinência provisória do nada
De que deus afinal é o mais fiel dos substitutos.


  Carita, Fernando Eduardo. Le Salut Par le Vide/ A Salvação Pelo Vazio (Édition bilingue). Châtelineau: Editions Le Taillis Pré, 2005, p 108.
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01/05/13



   " Poema  7  "


Antes de libertar uma ave
Deverás primeiro certificar-te
De que o seu voo te não fica preso
Às mãos.


  Carita, Fernando Eduardo. Le Salut par le Vide/ A Salvação pelo Vazio (Édition bilingue). Châtelineau: Editions Le Taillis Pré, 2005, p 26.
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30/04/13

 
 
Eu gosto de Dom Miguel
- O de São Martinho de Anta-,
Que escrevia com pincel;
E, às vezes, pintava a manta.
 
 
Deixou-nos grande legado
Em prosa e em poesia.
Era um homem apagado
E as coisas que ele sabia.
 
 
   Barata, Manuel. Quadras Populares: umas sim, outras quase. Lisboa: Fólio Exemplar, 2012, p 50.
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(Nota: a quadra de raiz popular, e alicerçada na oralidade, é vulgarmente menorizada por certos autores e estudiosos com tudo o que isso implica de ocultação de aspectos ligados ao social, ao histórico-político e até ao linguístico. A tudo isso acrescenta-se a importância de escritores do género que, pelo seu valor - como é o caso de António Aleixo - , têm funcionado igualmente como elemento intimidatório ao cultivo deste tipo de poesia. No caso do poeta aqui presente - licenciado em Estudos Portugueses, variante Português/ Francês -, apesar de nunca perder de vista raízes estéticas alicerçadas no popular, podemos encontrar dele também outros textos para além da quadra, veja-se - por exemplo - um livro ainda não postado aqui: "Fragmentária Mente", de 2009.
 As duas quadras deste poste inspiram-se no célebre soneto de Camões "Sete anos de pastor Jacob servia", as duas do poste seguinte referem-se, como é óbvio, a Miguel Torga.)
 
 
Eu serviria sete anos
Pra de ti ouvir um sim.
E outros sete serviria
Pra te ter ao pé de mim.
 
Tenho tanto pra te dar,
Se quiseres receber.
Umas asas pra voar
Umas pernas pra correr.
 
  Barata, Manuel. Quadras Populares: umas sim, outras quase. Lisboa: Fólio Exemplar, 2012, p 16.
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