05/08/13

 
 
  Na realidade, necessitava de uma obra poética para corrigir o destino e mostrar-me diferente daquele ser que um dia figuraria nas biografias oficiais. No íntimo sabia que nada do que escrevia mudaria coisa alguma, mas, por meio de poemas, o meu sofrimento organizava-se, fazendo sobressair as minhas paixões e os meus remorsos. Exprimindo-me por metáforas, limando a última estrofe, a dor decantava-se, mas pouco do que passava a escrito me alcançaria com verdade. Aqueles cantos não deixavam de me desgostar, sabendo eu que sempre se perde o essencial no momento de os escrever. Por entre as matizes da exaltação gloriosa ou da agonia, o meu genuíno pesar era o que não aparecia em verso.
  Cada vez que escrevia uma linha poética corrompia a integridade das minhas mágoas. Era fácil reconstruir as derrotas como a história de um rei letrado que desejava ser perdoado. Era fácil e não passava de uma manobra ignóbil. Havia muitas outras coisas que poderia ter feito de forma a não acabar os meus dias a escrever poemas aos corvos de Aghmât.
  Pouco a pouco habituara-me à ideia de vir a perecer entre as quatro paredes daquela cela. Pensava frequentemente no suicídio como uma libertação, mas não desejava deixar aos meus filhos a recordação desagradável de um rei cobarde, incapaz de suportar mais um martírio. (...) Respirava ainda, mas a única prova de que estava vivo era aquela infinidade quase indestrinçável de pensamentos, sensações e gestos que se bastavam a si mesmos, sucedendo-se uns a seguir aos outros no apertado espaço do cárcere.
 
 
     Silva, Ana Cristina. Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid. Barcarena: Ed. Presença, 2010, p 164.
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04/08/13


 
   Não tardou que os boatos acerca da natureza da minha relação com Ibn Ammar se multiplicassem, tendo chegado aos ouvidos de meu pai. Esses rumores quase provocaram a minha desgraça. As intrigas diversificavam-se, parte do falatório, tendo fundamento, era empolado até níveis absurdos. Acusavam-me de blasfemar contra o Alcorão, de me embriagar com o meu amigo e de me envolver em peripécias amorosas de teor duvidoso. Por meias-palavras faziam-me a injúria de divulgar que me submeteria a todos os caprichos de Ibn Ammar. Nesse ponto as dúvidas aprofundavam-se, tendo sido posta a circular a suspeita de que partilharia com ele repugnantes intimidades. O meu amigo deixava de ser um obscuro comparsa de deboche, onde participariam mulheres de má fama e escravas cristãs, para se transformar no protagonista de uma pérfida influência.
   O emissário do meu pai chegou a Silves quando eu estava prestes a fazer dezoito anos. Eu podia ser o príncipe herdeiro, mas ele recebera ordens directamente do emir e escusou-se a escutar os meus argumentos. As suas ordens eram muito claras: deveria regressar imediatamente com ele à corte de Sevilha. Era aguardado no espaço de uma semana. Apenas consegui que Maha, grávida do meu primeiro filho, me acompanhasse nessa sentença de exílio.
   A minha entrega a Ibn Ammar tinha a sua inocência; era quase tão frágil como qualquer paixão. Sofri muito por não saber se os afectos resistiriam à separação. Ele riu-se do meu jeito infantil de fazer beicinho naquela madrugada fria em que nos despedimos. Aquela amizade - era nesses termos que nomeava os meus sentimentos - começada de forma tão invulgar, enriquecera-me como nenhuma outra. Foram estas as palavras que usei para lhe explicar como dava valor à nossa relação. Abraçámo-nos uma última vez antes de montar o meu cavalo. Revejo a sua cabeça inclinada como que numa vénia trocista, olhos que me observavam sob um véu de ternura, exibindo, no entanto, uma espécie de alívio por me ver partir. Já me afastava quando me lembrei de que Ibn Ammar deixaria de ter quem provesse ao seu sustento. Voltei atrás e, evocando já não sei que pretexto, dei-lhe à socapa todas as moedas de ouro que trazia comigo. Aproveitando a oportunidade, ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou: "A nossa história não acaba aqui, mesmo que por agora nos separem e cada um siga o seu caminho." A afirmação continha qualquer coisa de profético, uma espécie de entendimento secreto, cujo alcance ultrapassava a própria vontade de cada um.
 
 
  Silva, Ana Cristina. Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid. Barcarena: Ed. Presença, 2010, pp 57 - 58.
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03/08/13

 
 
   Naquele Natal, depois da conversa com Nuno, a angústia foi mais forte, o peito doeu mais, tinha perdido uma oportunidade de dar uma volta à minha vida, de ter mais um amigo e, por via disso, encontrar alguém com quem pudesse ser feliz, expressão esta que se usa aqui por falta de melhor, o que é ser-se feliz, é-se feliz ou têm-se momentos felizes, na altura não sabia, tinha vivido muito pouco ainda, hoje sei que se têm momentos felizes, a felicidade como estado de espírito permanente é uma mentira, uma impossibilidade, não se pode ser feliz cada segundo de um dia, há um copo que se parte e espalha água por todo o lado, há um telefonema de alguém que não se cala, há uma dor de cabeça, há um momento de ansiedade, há um gesto infeliz, portanto a felicidade é uma fantasia boa para as novelas e os anúncios de televisão, veio isto a propósito do meu desejo de encontrar alguém com quem pudesse partilhar momentos felizes, quem não o deseja, afinal, mas a cobardia da minha atitude para com Nuno adiou essa possibilidade.
 
 
   Lima, Joaquim Almeida. Ensaio sobre a Angústia. Lisboa: Gradiva, 2012, pp 76 - 77.
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02/08/13


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"Paixões Proibidas" (Two Mothers, 2013) é o novo filme da luxemburguesa Anne Fontaine baseado num conto da escritora britânica Doris Lessing (Prémio Nobel, 2007). Filme arrojado sobre o amor, a amizade e o poder, Two Mothers é um poderoso testemunho sobre o que une os seres humanos ou sobre aquilo que os poderá também desunir, esta obra é igualmente um corajoso afrontar de vários dos padrões da conformidade veiculados pela moral burguesa, que dogmaticamente se firmam como modelos normativos da ação ético-moral. Nesta película, duas amigas de infância - Lil (Naomi Watts) e Roz (Robin wright) - acabam por, anos depois, se apaixonar pelos filhos uma da outra - Ian (Xavier Samuel) e Tom (James Frecheville) -, este relacionamento, claustrofóbico e obsessivo, começa a desmoronar-se quando Tom se envolve com uma jovem da sua idade. As duas mulheres decidem, num rasgo de lucidez perante um envelhecimento que se avizinha, cortarem cerce a situação. Os dois jovens casam, têm filhas e lá vemos, então, as duas famílias "felizes" a caminho da praia com as duas "jovens-avós" mimando as netas. Tudo estaria "normal", tudo estaria equilibrado e bem arrumado nas prateleiras do socio-moral, tudo seria o melhor dos mundos não fora apenas uma coisa... uma coisa pequeniníssima, ínfima mesmo: é que nisto da atração entre os seres a vontade e a razão, por mais cenários que montem, contam muito pouco: Tom volta a reatar a sua relação com Lil, o filho desta, por sua vez, assedia Roz... e um dia as jovens esposas acabam por descobrir tudo e abandonam os maridos levando as filhas, o que, aliás, parece aliviá-los, sobretudo a Ian... Naquele círculo fechado, confirma-se: não cabe mais nada a não ser essa qualquer coisa de que os quatro não conseguem, nem querem, libertar-se, e que os puxa para um universo solar, uterino (a presença do mar e do sol é recorrente!) e onde apenas o presente conta (Ian chega mesmo a prometer a Roz, ante os pedidos dela, que jamais a deixará envelhecer!)... Doris Lessing é, decididamente, uma das minhas romancistas, e o filme é um arrebatado momento poético. A não perder!
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23/07/13


  Hoje acordei muito angustiado, o peito a doer com a dor surda que dificulta a respiração, a ferida da alma a sangrar, hoje é Domingo.
  Já se sabe que o Domingo é o pior dia, muitas vezes o sofrimento mental começa logo no Sábado à noite, antecipando o dia infernal que lá vem, Pedro sabe que é o dia em que preciso mais da atenção dele, dos carinhos, da voz, preciso muito da voz dele, das mãos, do sorriso, nunca fazemos amor ao Domingo de manhã porque ambos sabemos que o meu pensamento está imerso em angústia e dor.
  Acordo sempre muito cedo e levanto-me de imediato porque se fico na cama a angústia vai aumentando rapidamente, não acordo Pedro porque preciso de viver sozinho a angústia por algum tempo, tomo a medicação de rotina (...) um pensamento desvairado, sem travões, vem à cabeça um pouco de tudo, porquê este sofrimento, porquê eu, porquê ainda, passados quarenta anos, porquê ainda, tendo o colo de Pedro há vinte anos, porquê ainda, quando já nada escondo a ninguém, sinto um enorme cansaço mental para o qual não encontro descanso, e hoje não me apetece sair de casa, não consigo ler (...). Estava a pensar que a memória é o nosso pior inimigo, Pedro, era tudo tão mais fácil se não nos lembrássemos de nada, passou, passou, mas ela insiste em nos lembrar dos piores momentos, e, o que dói ainda mais, dos melhores momentos, quando se está angustiado como eu estou, a recordação das coisas boas aumenta a angústia, que bom que foram aqueles tempos, aquele dia, aquela noite, e vem então o medo, o terrível medo de que não haja mais bons momentos, de que o futuro não exista, que só haja algo muito negro e sem qualquer sentido, que nos aponta, sorrindo, o caminho da loucura.
  Pedro ouviu-me com uma expressão aflita, ouve-me sempre assim como se fosse a primeira vez, ele sabe melhor que ninguém o que eu sofro, mas também sabe que tudo seria muito pior sem ele...
 
  Lima, Joaquim Almeida. Ensaio sobre a Angústia. Lisboa: Gradiva, 2012, pp 64 - 65.
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22/07/13

 
 
  Os cabeças rapadas.
  Tinham jantado na Outra Banda. Em casa do Gaspar, que ia assentar praça em Tancos.
  Ao café, lembraram-se dos Dogue Dócil. A vocalista e o namorado eram amigos de alguns deles. Xonas, Ferra, João Cigarra.
  - Vão tocar às Palmeiras.
  - E o estupor deixa a chavala ir lá?!...
  - Um coio de blacks!
  - Monhés...
  - ... de maricões a enrabarem-se uns aos outros!
  Mais! Propaganda vermelha e antimilitar. O Ferra tinha um dos mangas debaixo de olho.
  - Mais do que um!
  O gajo que aparecia nas esquadras e no SEF, logo que lhe cheirava a brancos malhando nos pretos. E outro.
  Um cota que, há quinze anos andava nisso dos SUVs! Tem uma miúda portuguesa, mas anda sempre de mistura com cabo-verdianas...
  Tudo o que fosse galdéria de cor.
  - Bora lá, Ferra!
  - Bora!
  Passou a faca ao João Cigarra. E a recomendação: ter presente o que se treinara, nessa tarde.
 
  O Alex avistou-os, pelas janelas do salão. O João Paulo pelas do primeiro andar.
  - Dois gajos à porrada com a nossa malta... já quase cá dentro!
  E a rirem-se dos bocados de mangueira que o Zé tinha na mão.
  - Atirei-lhes lá de cima com uma cadeira...
  Despedaçara-se no chão, sem atingir ninguém.
  E o João Paulo metera pelas escadas. Sem saber como, trespassara a confusão que ia no patamar.
  - Chego cá fora, e o Zé...
 
 O Zé da MESSA tombado rente à parede.
(...)
  O Ferra com um bocado da cadeira na mão, a querer acertar-lhe na cara. E ao mesmo tempo, a dar ordens: "Pisguem-se! Todos!... Uns para o Terreiro do Paço, outros para Belém!..."
  Gorros enfiados à pressa. "Lembrem-se: ninguém tinha estado aqui antes!... Nem conhecia o gajo que levou a naifada!"
  As Dr. Martens batendo a calçada em todos os sentidos.
(...)
  Ah! Mas o que nunca se esquece.
  A ambulância a caminho do hospital. São José era já ali, virando, subindo.
  "O Zé ao meu lado..."
(...)
  Mas ainda gritou: "bute daí!"
 
  "Bute lá, Zé!"
 
 
     Beja, Filomena Marona. Bute daí, Zé! Lisboa: Sextante Editora, 2010, pp 245 - 248.
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  O sobressalto pelo telefone. Havia carros de combate, hesitando nas ruas que desciam para o Terreiro do Paço. Que subiam para o Carmo.
  Quem costumava ligar a rádio dera pelas canções, Paulo de Carvalho, José Afonso.
  E pelo repetir de um comunicado: "Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas..."
  O anúncio de que alvorecia. O aviso de que toda a população se deveria manter em casa.
  Mesmo assim, saíra-se a comprar pão. Favas, que já se estava no tempo delas. E pouco mais, porque o mês ia no fim.
  Quanto às obrigações do costume, quase ninguém se metera a caminho.
  "Não abri a loja", "Não fui pegar às oito, na oficina". Nem os garotos tinham ido à escola.
  Expressões de orgulho. Das que, mais tarde, preencheriam o recordar dessa manhã.
 
  E os momentos de que já ninguém fala?
 
  Resta, apesar de tudo, o direito à memória. Sim. Mercê de não se terem acatado certos avisos.
  Principalmente, ter-se sido rápido a decidir. Tal o fotógrafo que, pelo meio da madrugada, foi ao encontro de Salgueiro Maia.
  Fernando Salgueira Maia, Capitão de Cavalaria.
  O fotógrafo: Alfredo Cunha, d' O Século.
  Um ia em trinta anos. O outro, nos vinte.
 
  Ribeira das Naus.
  A fragata Gago Coutinho rumando ao Cais das Colunas. E os blindados de Ferrand d' Almeida frente aos de Salgueiro Maia.
  De trás de um chaimite, veio o rapaz-fotógrafo. Disparou. Registou o capitão persuadindo um tenente-coronel a render-se.
  Logo a seguir, outra fotografia: o capitão dando ordens à Polícia. As primeiras.
  Depois, a série que descreve Salgueiro Maia a chegar com os seus duzentos e quarenta homens ao Terreiro do Paço. E a encontrar desertos os gabinetes dos Ministros.
  Lembramo-nos, pelas fotografias de Alfredo Cunha.
  Também pelas de outros. Claro.
 
  A Cidade, porém, não ficara vazia.
  Muita gente chegava à janela. Vinha para a rua. Perguntava se aquilo se estava mesmo a dar. Se era verdade.
  - E eles?...
  O tempo de salpicos não ajudava. Chove? Não chove? Mas também não dissuadia fosse quem fosse de se pôr a caminho da Baixa.
  A Polícia já não conseguia que, do Cais do Sodré à Doca da Marinha, as praças e as ruas se mantivessem isoladas.
 
  Beja, Filomena Marona. Bute daí, Zé! Lisboa: Sextante Editora, 2010, pp 94 - 96.
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20/07/13

 
 
"Dentro de Casa" (Dans la maison, 2012) é o penúltimo filme de François Ozon, que em 2013 apresenta já em Cannes o seu "Jeune et Jolie" onde lança a jovem Marine Vacth. A obra de Ozon conta com alguns filmes de culto como "8 femmes" e "Le temps qui reste", onde importantes nomes do ecrã são chamados a ótimos desempenhos. Em "Dentro da casa", grandes actores como Fabrice Luchini (Germain, o professor de literatura), Kristin Scott Thomas (a mulher de Germain) e Emmanuelle Seigner (a mãe de Rapha, um amigo de Claude) têm excelentes interpretações. A grande revelação é, sem sombra de dúvida, a de Ernst Umhauer no papel de Claude. Este filme, baseado na peça "El chico de la última fila" do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, situa-se no entrecruzar de vários géneros: o suspense, o melodrama e mesmo a sátira social, pois não nos podemos esquecer do olhar mordaz e cínico que Claude imprime aos seus relatos (as suas redações) quando descreve a família Rapha, cuja figura feminina é frequentemente referida de forma pejorativa como "a mulher da classe média". Tem a crítica assinalado duas influências importantes nesta película: "A janela indiscreta" de Hitchcock e "Teorema" de Pasolini, contudo, a minha leitura é ligeiramente diferente: a influência de Pasolini é mais formal do que de conteúdo, isto é, o herói do realizador italiano é um angustiado, um ser colocado no aberto da existência que nada pretende nem goza, e, se atendermos às concepções religiosas de Pasolini, quase se poderia dizer que estamos ante um anjo que anuncia, ora, Claude é exactamente o oposto. Claude é um manipulador, um perverso que colhe prazer no jogo e no domínio, esta personagem de Ozon, ao contrário da de Pasolini, nunca chega a partir (ver final do filme!), ela fica com a sua vítima porque precisa dela, deixar partir a vítima seria condenar-se a si próprio ao nada que suspeita ser. A construção da personagem de Ozon nada tem a ver, portanto, com a de Pasolini, também magistralmente interpretada, mas por Terence Stamp.
Por tudo isto, para mim, "Dentro de casa" não é apenas um filme sobre o voyeurismo, mas é, sobretudo, uma obra sobre a manipulação do outro e o domínio: Claude, um jovem de dezasseis anos
("loiro e tímido" como o descreve a empregada da secretaria da Escola!), introduz-se em casa de um colega de turma (Rapha), selecionado de forma gratuita, e a partir da observação directa dessa família vai tecendo uma teia de relatos que vão prendendo, cada vez mais, a atenção e o interesse do seu professor de literatura. Claude, para atingir os seus objectivos, cilindra tudo o que se lhe atravessa no caminho: ridiculariza Rapha, mantém um caso com a mãe deste, destrói a carreira profissional do professor, destrói igualmente o seu casamento já que chega ao ponto de ir para a cama com a mulher do professor... e, por fim, os seus objectivos (a certa altura do filme ele diz mesmo para Germain: eu sou como a Sherezzade que vai contando histórias para prender a atenção do sultão!) são conseguidos: o professor (em estado de depressão)! internado, desprotegido e ao seu dispor é completamente contaminado pelo seu voyeurismo. Claude tem, finalmente, à sua disposição, alguém com quem pode dialogar acerca de tudo, mas, principalmente, acerca das ficções que constrói a partir do que vai observando através das janelas. "Dentro de casa" de François Ozon é um filme brilhante!
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15/07/13



Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de

repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.


   Pedreira, Maria do Rosário. Poesia Reunida. Lisboa: Quetzal Editores, 2012, p 172.
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14/07/13

 
 
 
Ari tem cabelos aloirados e encaracolados e pés pequenos. Usa botas demasiado grandes para os seus pés para que ninguém repare que tem pés de cabra, pés demasiado pequenos, demasiado minúsculos. O cão nota a aproximação de Rosa, levanta-se e ladra. O pastor ergue-se e encosta-se a um sobreiro. Tira um cigarro e acende-o. Rosa aproxima-se. Traz um saco com arroz e um sorriso. Parece feliz, e o pastor sorri para dentro. Não o faz para fora para não perder o charme. Encosta um dos pés à árvore e dá três passas de seguida no cigarro, semicerrando os olhos enquanto olha para Rosa. Com o indicador dá um piparote no cigarro deitando-o fora. Rosa chega ao pé dele ofegante e bem-disposta, pousa o saco e atira-se para os seus braços. Ele estremece, mas faz-se viril e nem sorri, apenas se penteia. (...) Ele limpa a boca à manga da camisa aos quadrados e agarra-a pela cintura, derruba-a, cai em cima dela como um pôr-do-sol, levanta-lhe a saia e tenta tirar-lhe as cuecas. Não é fácil e acaba por sentir algum embaraço com a sua falta de jeito, especialmente porque Rosa se queixa de que ele a magoa, de que é demasiado bruto.(...)
  O pastor não percebe aquela antipatia. Gosta da natureza e da selvajaria que o cerca. Não se incomoda com os cheiros, com a sujidade, porque é isso que é a natureza, um lugar sem higiene nenhuma, cheia de bichos e de terra e de coisas desorganizadas. É o oposto dos jardins e das cidades e das hortas e do cimento. A natureza é o maior inimigo do homem civilizado. Mas o amor pode muitas coisas e, desde que se deita com Rosa, Ari passou a tomar banho quase todos os dias, ou pelo menos uma vez por semana.
- A minha avó está muito doente.
- Está velha. Não há nada de mal nisso.
- Tenho medo de ficar sozinha.
- Eu estou aqui.
- Não é a mesma coisa.
- Eu não morro.
- Não morres?
- Não morro. Que é para não te deixar sozinha.
- Toda a gente morre, Ari.
- Eu não.
 
 
     Cruz, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Carnaxide: Santillana Editores, 2012, pp 104 - 105.
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- Olha, trouxe bolinhos de canela - diz Rosa.
  Ari está com os olhos cheios de montanhas e flores da Primavera e não ouve nada, pois os olhos repletos de coisas dão cabo do que se ouve.
- Trouxe bolinhos...
  Ari levanta-se e sorri, pega em três ou quatro de uma vez e empurra-os para dentro da boca.
- Não sabem a canela.
- Estes não sabem.
- Não há bolos de canela que não sabem a canela.
- Claro que há. Tal como há pessoas velhas que morrem novas e há horas que passam em segundos e há sonhos que acontecem quando estamos acordados, há bolos de canela que não sabem a canela.
(...)
- Queres acasalar? - perguntou Ari.
  Rosa acha que "acasalar" é uma palavra esquisita.
- Isso é por trás?
- Como é que preferes?
Rosa não sabe responder e diz:
- Gosto quando está sol.
 
 
  Cruz, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Carnaxide: Santillana Editores, 2012, 153 - 154.
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13/07/13

 
 
(...) só pensavam em dinheiro, nada sabiam de amor, comentava Rhema, eu desculpava-os, era o meu povo, a vida não os ensinara a seguir o amor, só o dinheiro, desejavam reencarnar numa casta superior, aquela que eu desprezara, não contemporizavam com frangues exóticos, olhavam para mim com o olhar de piedade dos ricos, o mesmo que inúmeras vezes vira soltar dos olhos do meu pai, eles, mais pobres do que eu, carecidos de um grande amor, o que nos sustentava era o arroz e o caju, tínhamos clientes certos no mercado de Pangim, abastecidos pelos furgões, o Augusto não vendia o arroz e os cajus a mais ninguém, orgulhava-se dos seus clientes de Pangim e não lhes dava troco quando lhe perguntavam o que fazia ali naquele sertão numa comunidade sem nome, isolado, no meio de gente rude, o Augusto levantava a mão, sorria com um sorriso bonito, nada dizia, eles percebiam, os portuguses tinham sido expulsos em 1961, o Augusto quisera ficar, isolara-se, longe das cidades, apiedavam-se dele, passavam-lhe a mão pelo cabelo, cumprimentavam-no à europeia (...) o Augusto abria as mãos, dizia, é aqui que me sinto bem, ao pé da minha mulher, e apontava para mim, acocorada à entrada do nosso casinhoto de taipa, descascando feijão, quando a Sumitha tinha dois anos um goês de Ribandar ofereceu uma grossa quantia pela menina, o Augusto expulsou-o a murro do nosso terreno (...) no final delirava, chamava-me Rosa, Rhema presumiu ser o nome da mãe dele, esclareci-lhe, não, era o nome da mulher que Augusto deixara em Lisboa, Rhema percebera quando Xavier a procurara recentemente, dizendo-lhe ter chegado a Goa um filho do Augusto, Rhema nunca desconfiara, nunca o marido lhe dera um indício de ter sido casado, amou-me muito, disse Rhema, tudo trocou por mim, conforto, dinheiro, cidade, crença, mas não imaginei que também tivesse trocado a mulher legítima pelo meu amor...
 
 
   Real, Miguel. O Feitiço da Índia. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2012, pp 320 - 322.
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12/07/13

 
 
  Os empregados do Churchill Palace Hotel desculpavam-se, Bombaim era um estaleiro, modernizava-se, os novos arruamentos ganhavam passeios, candeeiros de luz eléctrica, portarias que garantiam o asseio, polícias de farda creme, bombas de água para incêndios, caixotes de lixo municipais, mas eu assemelhava Bombaim a uma cidade sobrevivente de um terramoto ou de uma guerra civil, Hassan mostrara-me os subúrbios, vislumbrava tendas cinzentas, filas de tendas, como um acampamento militar, pressupunha que cada tenda albergaria uma família (...) as faces resignadas dos eternamente pobres, os filhos passivos presos entre os panos das pernas, seres condenados ao opróbrio e à miséria, Hassan parava, eu olhava demoradamente, contemplando aquele bando de maltrapilhos que, no campo ou na cidade, há três mil anos assim vivia, manipulado por rajás, marajás, brâmanes, samorins, reinetes, republicanos, socialistas, capitalistas ou comunistas, há três mil anos nasciam pobres, viviam miseravelmente e morriam desgraçados, amaldiçoados pelo destino. Insone, saía à noite do hotel, buscava lugares frequentados por europeus, a mole imensa neogótica de pedra e mármore da Estação Central, os imóveis da universidade, o vão da Porta da Índia, onde chusmas emporcalhadas de indianos adormeciam todas as noites, cobertos por cartões de supermercados europeus (...) arrumavam-se uns contra os outros, buscando no corpo alheio o calor interior que em cada um fenecia, trocando sémen e suor, recalcando no sono a vida malbaratada, bandos de crianças andrajosas invadiam as ruas pela manhã, pés nus, trapos rotos, narizes ranhosos, olheiras de adulto, mãos negras de fuligem e carvão, ofereciam-se aos brancos e indianos proprietários de vendas e lojas, faziam tudo, recados, arrumações, carregos, cosiam peles ensanguentando as mãos, transportavam tijolos, carvão, pranchas de teca do triplo do tamanho do seu corpo, batiam punhetas e faziam broches, levavam e iam ao cu em troca de um pão com goiabada, um púcaro de café, um prato de arroz com caril, uma coxa de frango tandoori, assaltavam casas e lojas, massacravam cães de rua, se preciso matavam, regressavam às famílias à noite, mortos de cansaço, arrastavam dez rupias na mão fechada com que a mãe compraria peixe e arroz para a família de sete filhos e pai defunto; crescidos estendiam uma esteira ou um pano velho de sari na rua, levantavam uma venda, vendiam pincéis de barba roubados durante a noite, giletes usadas, esferográficas de tinta seca, borrachas desgastadas, manuais escolares sublinhados, furtados aos armazéns do Estado (...) um motorista zanga-se comigo, eu zango-me com ele, viro-lhe as costas, zango-me com Bombaim, cidade extremada...
 
 
   Real, Miguel. O Feitiço da Índia. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2012, pp 114 - 116.
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  O Pacaça pôs mais café ao lume, a primeira vez que fui ao munhungu do Bairro Operário era o velho Jacques que tomava conta daquilo, foi na véspera de fazer doze anos, o meu pai escolheu uma preta e disse-lhe, dou-te o dobro do que vales para me transformares este rapaz num homem. Eu já sabia ao que ia e nos últimos dias não tinha pensado noutra coisa mas quando me vi no quarto com a preta fiquei tão assustado que não sabia onde me meter. Passado um quarto de hora o meu pai bateu à porta, isso vai ou não vai. Tive medo que a preta contasse ao meu pai que eu nicles pataticles, mas a preta respondeu como se estivesse afogueada, é mais homem do que muitos de barba feita, tem a quem sair, disse o meu pai satisfeito do outro lado da porta (...). Ficámos no quarto, eu deitado na cama a olhar para uma gaiola de papagaios que estava pendurada no alpendre e a preta a pintar as unhas e a contar-me histórias do quimbo onde vivia antes de o velho Jacques a ter descoberto e trazido para a cidade.
(...) Acordei com o meu pai a bater à porta. Nem vendo a minha cara ensonada desconfiou, um homem também se cansa, disse. No caminho para casa deu-me os conselhos que um pai tem de dar a um filho, os mesmos conselhos que mais tarde dei ao meu filho...
(...) Depois de me ter dado estes conselhos o meu pai nunca mais tocou no assunto e se se cruzava comigo no munhungu fingia que não me via. Era um homem bom, um homem respeitador, disse o Pacaça comovendo-se, um homem que me ensinou a respeitar toda a gente, brancos ou pretos tanto fazia. Era um homem dos que já não se fazem.
 
 
  Cardoso, Dulce Maria. O Retorno. Lisboa: Edições tinta-da-china, 2012, pp 202 - 204.
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11/07/13


 
  Sundu ia maié, sundu ia maié, puta que a pariu. Vou dar pontapés em todas as portas até chegar ao pátio do recreio, a puta da professora mandou-me para a rua com uma falta a vermelho mas eu vingo-me, quero lá saber que as contínuas refilem, ó menino isto aqui não é a selva, não é como lá de onde vens, aqui há regras, sundu ia maié, estamos a avisar-te menino, abro o peito e dou um pontapé noutra porta, conhecem-me de algum lado, olho as velhas bem de frente para lhes mostrar que não tenho medo (...) passo pela cantina e dou um murro no carro dos tabuleiros, só me falta bater com a mão no peito para verem que acompanhava mais com os macacos do que com leões, as velhas até saltam com o estrondo que o carro dos tabuleiros fez, se querem dizer mal dos retornados vou dar-lhes razões.
  A puta da professora, um dos retornados que responda, como se não tivéssemos nome, como se já não bastasse ter-nos arrumado numa fila só para retornados. A puta a justificar-se, os retornados estão mais atrasados, sim, sim, devemos estar, devemos ter ficado estúpidos como os pretos, e os de cá devem ter aprendido muito depois da merda da revolução, se for como em tudo o resto devem ter tido umas lindas aulas.(...) um frio do caralho cá fora, fecho o blusão, acendo um cigarro, meto-me no meu canto, se as contínuas não querem maca nem se atrevam a passar por aqui.
  Se não há pão dêem-nos brioches, o Sr. Acácio maldoso com os olhos nas mamas da D. Juvita. Dizem que o Sr. Acácio e a D. Juvita têm um caso e que se encontram na casa das máquinas ao lado da piscina (...). Também dizem que a D. Ester encomendou um trabalho à preta Zuzu para que o Sr. Acácio deixe de olhar para as mulheres. A preta Zuzu tem fama de fazer uangas e de lançar xicululos tão fortes que há gente que faz figas quando passa por ela. (...) a preta Zuzu não é grande feiticeira, o Sr. Acácio continua a andar atrás das mulheres...
   A puta de matemática pôs os retornados na fila mais afastada das janelas (...). Um dos retornados que responda, a puta nunca diz os nossos nomes, um dos retornados que responda, era o que faltava, nunca abro a boca, o retornado da carteira do fundo que responda, insistiu a gaja, estava mesmo a querer farra. Custa assim tanto decorar o meu nome, se me chamasse Kijibanganga ainda tinha desculpa mas Rui, porra, é um nome fácil (...). Mas não, o retornado aí do fundo que responda, é que nem que me tivesse arrancado as unhas e os dentes falava...
 
 
Cardoso, Dulce Maria. O Retorno. Lisboa: Edições tinta-da-china, 2012, pp 139 - 141.
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10/07/13

 
 
 
Continuavas sem roupa, atrás de mim. "Senta-te", pediste, "senta-te que eu sento-me também."
  E então sentaste-te e cruzaste a perna esquerda sobre a perna direita escondendo tudo o resto. Agora eu podia observar um corpo branquíssimo, tão branco que se percebia o delta de veias arroxeadas na barriga, nos braços, pelas pernas abaixo. Os raros pêlos dos braços e das axilas e das pernas eram avermelhados. Ficaste para ali, acendendo e chupando cigarro após cigarro, sem falar, o olhar vagamento atento, pousado que estava na janela em frente, de vez em quando olhavas para mim, também vagamente, até que disseste "gosto de estar à vontade quando estou em casa e o meu estar à vontade é estar sem roupa, sem sapatos, sem nada. Gosto de trabalhar assim, sem roupa. Não te importas de me ver assim, pois não?" e eu "mas por que é que me abriste a porta? Não era preciso. Eu acabava por ir-me embora..." (...) Os teus olhos azuis, aguados, cintilavam como cintila a folha de água ao receber algum raio de Lua, eram frios e penetrantes os teus olhos, desse olhar que tanto podia agasalhar como esfriar todo e qualquer sentimento.
  Oiço agora o barulho produzido por uma torneira com água a correr, oiço um fechar de gaveta e oiço outra porta a abrir "Está mais alguém cá em casa, não está?", perguntei e queria que a minha pergunta parecesse muito desinteressada e prática! Uma pergunta de ordem prática. Tão prática que não merecesse resposta. Mas tu, olhando para mim por entre o fumo azulado do cigarro e desenhando uma espécie de sorriso entre lábios, deixaste escapar qualquer som que percebi com muita dificuldade "sim, é verdade, está mais alguém cá em casa...".
  Olhámos neste exacto momento na direcção da porta da divisão onde nos encontrávamos (...) e tu "anda cá, João, quero apresentar-te esta minha amiga de sempre, já temos falado nela, não é? Hoje veio visitar-me!".
  Um homem ainda muito novo avançou sem sobressalto. Trazia uma caneca na mão direita e a mão esquerda segurava um pão entreaberto (...). Olhou para mim "olá, sou o João, vivo aqui há já bastante tempo".
  E eu "ah, sim?".
  E ele "quer um café aguado?".
  Tu continuavas sem roupa, precisamente na mesma posição (...) E eu levantei-me sem olhar. Olhei para o teu olhar azul que depressa se desviou do meu intenso olhar.
  "Desta vez, percebi!", disse-te, "vou embora. Não esperarei mais pelas tuas chegadas nem pelas tuas partidas."
  Inquietaste-te "mas, que se passa?".
  E eu "nada! nada!".
 
 
    Carvalho, Cristina. Marginal. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2013, pp 107 - 109.
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  Um dia segui-o. Pobre Bé! Fiz com que ele julgasse que eu tinha ido trabalhar. Era já muito tarde, umas onze, meia-noite, nem sequer me interessava as horas que eram, eu tinha gasto a noite naquilo, eu queria espiá-lo, queria saborear essa espécie de arrepio de conhecer o seu lado de homem em desespero, de homem sem mulher mas com mulher. Era Junho. Muitas pessoas passeavam no paredão, uns para cá, outros para lá, namoradas e namorados, casais muito compostos que aspiravam o ar do mar e se sentiam benzidos e abençoados por morarem em tão distinto local, por serem tão sérios, tão casados, tão singelos e unidos. Jamais lhes passaria pela cabeça que havia outros homens e que havia outras mulheres e que havia muito mais coisas para se fazer nesta vida que não fosse sempre esta mesma vida, esses arremedos de responsabilidades incolores, insípidas e inodoras. Muitos tinham um cão que os acompanhava. Muitos donos acompanhavam os seus cães. Para a frente, para trás, para a frente, para trás. Desconsoladamente. (...) dia e noite, dia e noite, dia após dia, noite após noite, até que um dia todos morreriam e todos dali desapareceriam.
(...) Pela esplanada passou uma ronda de polícias que a todos olhou de esguelha. Ainda pensei que o meu sogro os tivesse ali mandado à minha procura, mas depressa desviei o pensamento porque ideia mais idiota não podia ser. Como é que ele iria saber? Como é que ele iria desconfiar que eu estava ali a tomar fôlego e a fazer tempo para poder espiar, o mais à vontade possível, as traições do seu filho? A esta hora da noite estaria ele, o meu sogro, a lavar os dentes na casa de banho do seu quarto, com os pés enfiados nuns chinelos e já vestido de pijama. A minha sogra estaria na cama toda besuntada de cremes, limando as unhas ou fazendo deslizar o olhar por todas as esquinas do tecto (...)
  Do sítio onde eu estava via perfeitamente o átrio principal do salão de entrada com muita gente a conversar e também vi Bé encostado a uma das colunas centrais. Lá estava ele a fumar um cigarrito, a olhar para todos os lados (...). Eram altas, louras e lindas e ainda hoje me lembro do cheiro do seu perfume que marcou indelevelmente e para sempre as fronhas das almofadas...
(...) Portanto, tudo o que eu pudesse imaginar podia não estar a acontecer, podia não ser verdade. Imaginei-o, sim, vezes sem conta na nossa cama com elas e isso até me consolava, no fundo eu até gostava dessa ideia. Por várias razões e a principal razão era a razão dele.
  Pois é isso que eu digo: eu até lhe desculpo as putas, coitado! E percebo-o! Percebo!
 
 
  Carvalho, Cristina. Marginal. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2013, pp 66 - 69.
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- Ouve, Kate. Pára de procurar. Alguns de nós têm a necessidade de ir embora. É essa a nossa natureza.
- " and I followed the smell of the panther" - disse ela baixinho.
- Há coisas que não deixamos para trás, o nosso cão, alguns livros. Mas deixamos tudo o resto.
- Mesmo aquilo que amamos?
- Em especial aquilo que amamos.
- Eras capaz de me deixar?
- Sim.
Ela fechou os olhos. Estava nela também, embora não gostasse de pensar nisso. Era a sua natureza.
- Não se eu te deixar primeiro.


  Pereira, Ana Teresa. A Pantera. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2011, p 79.
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09/07/13



- É verdade que vais deixar o teatro?
- Sim.
- É difícil de acreditar.
- Quero uma vida tranquila.
Não, não é isso, pensou Kate. Não pode ser assim tão simples.
- O inferno é o que está escondido.
Ele ficou pensativo por momentos.
- Tem algo a ver com os demónios.
- Os teus demónios.
- Sim.
- E os das personagens.
- Chegamos a um ponto em que já não é possível separá-los.
- Estás com medo?
- Estou cansado.
- Estás com medo?
- Algumas vezes fico aterrorizado.
Era uma sensação que ela conhecia bem. Nos últimos anos, quando tentava escrever. Quando percebia que aquilo em que estava a trabalhar há meses não era um livro. Então o terror chegava. E separava-se lentamente de si mesma, e ficava a ver-se enlouquecer.
- Eu sei alguma coisa de demónios.
- Que idade tens?
- Fiz trinta e quatro o mês passado.
Ele ia começar a dizer qualquer coisa mas mudou de ideias.
- Pareces muito mais nova.
- Eu sei.
Mas não o sentira no dia do aniversário. Passara a tarde deitada na cama, a ver filmes antigos, filmes a preto e branco. E à noite fora a um pub do outro lado do rio, sozinha, e bebera quase até à inconsciência.
 
  Pereira, Ana Teresa. A Pantera. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2011, pp 17 - 18.
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03/07/13

Acerca de... ( XVII )


               " Forte o reencontro dos dois reinos... "
 
 
   Este pequeno livro começa com um jogo singular: o pólo dos afectos, celebrado nas dedicatórias, e o dos desafectos que os primeiros versos anunciam. Com efeito, as dedicatórias, talvez pelo facto de a autora destas linhas conhecer os afectos do autor, funcionam como marcações que nos informam sobre a intencionalidade textual: a representaçao de um mundo interior e intimista.
   Porém, este não é um sujeito lírico "tradicional", que expressa a sua angústia e se deleita nessa expressão: este é mais um sujeito enunciador que "informa sobre" o mundo à volta, em monologante diálogo com um interlocutor, pressentido, convocado, mas não manifestante. Estranhamente, porém, aproximando-se essa enunciação da de uma voz narrante:
 
Tinha pensado em fechar a porta.
Em trancar-me por dentro. A mim e à casa.
Ou talvez à vida - quem sabe, afinal,
deste jogo as indistinções mais frias?
Tinha pensado tanta coisa: que não
gosto de gente que fala alto,
daquela que corre de olhar vazio,
da que tece o lucro de suas ações
em torno de ações sem lucro, enfim,
tudo isso tinha eu pensado... (...)
 
   Desde um título que causa estranhamento - Gente Dois Reinos (junção de palavras que não produz expressão significante)-, logo de início se pressente essa dificuldade de equilíbrio entre o querer arrumar as ruínas do passado, qual "anjo da história" (1), encaixotando-o, e a circunstância de esse passado se impor na sua consciência e a entrar "porta adentro"; entre o voo da imaginação e o jogo da realidade que a existência impõe; entre o vivido e a sua memória que, para funcionar tem de ir "à busca de um tempo perdido" temperada por uma imaginação esquizofrénica, no sentido de Gilles Deleuze e Fálix Guattari (2), que encena a cisão do eu, multiplicando-o temporalmente, e  espacialmente, ao mesmo tempo que intenta a aproximação do "mil planaltos" da consciência humana. Tanto a imagem da porta quanto a do retábulo acentuam, na primeira parte, "Elementos", a circunvalação de um eu cindido: a imagem da porta - inicial, insidiosa e obsidiante - dispersa-se por todos os trechos do percurso de reconhecimento interior em que o sujeito assume a partilha ora entre um eu criança e o seu "duplo", ora entre "eu de hoje" e o "eu de ontem" (I/7) que entram em interlocução com o eu analista, afinal o sujeito enunciador, embora saibamos que "forte o reencontro daquilo que permanece" (II). Em todo o caso, a porta é ainda elemento que sinalizando defesa e protecção, sugere também abertura a outros cenários (inclusive o genesíaco, tão intenso no poema I/3) que constituem o modelo de um devir que é narrado, desde uma "busca uterina", para a qual, no entanto, o enunciador sugere a sua inaptidão (sempre por aquele outro interlocutor não manifesto, mas claramente o outro eu):
 
(...)  Mais tarde, muito
mais tarde, acusar-me-ias de inaptidão,
de incapacidades várias e envenenamentos
de uma narrativa há muito condenada;
 
   A memória dinamiza esse percurso rememorativo, tanto a do vivenciado quanto a do imaginário cultural, particularmente literário (com Proust disseminado pelo texto, também por via de Philippe Besson, mas ainda Frei Jerónimo Baía, Miguel Torga, Antonio Machado, Antonio Carlos Secchin), e a do imaginário histórico em que a figura de Dom Pedro II parece surgir como exemplo de desconcerto da moral e da ética na exposição das feridas históricas, seja pela sua existência política (a destituição e desterro do irmão, D. Afonso VI, a primeira usurpação) seja pela relação pessoal, familiar, afectiva (o casamento com a cunhada, Dona Maria Francisca de Sabóia, considerada a segunda usurpação), a gerar a intermitência da dissolução dos mapas morais e éticos:
 
 
(...)     Pedro com os cabelos revoltos, a mochila
a descair, as palavras umas atrás das outras; Francisca atenta
 
na sua dúplice paixão, as sílabas mitigadas, um agradecido
gesto ante a lealdade que continuamente vou tecendo, para lá
de tanta intermitência. Sonho a prontidão de um sonho imenso,
um território onde o verde irrompa e se dissolva numa qualquer
extensão de mim, indissolúvel luz a fincar presença na pavorosa
dissolução dos mapas.
 
 
   Longo poema em duas partes, a representarem os dois reinos elementares da consciência - o vivido e o imaginado, o privado e o público, o sensível e o histórico - que constroem a epopeia de um diálogo monologante entre um eu e o seu "duplo", este Gente Dois Reinos desafia a imaginação do leitor também na leitura da associação a estabelecer entre as partes: enquanto "Elementos" se compõe de dez partes (poemas?) que, em síntese, visam o complexo para nele buscar o veio da harmonia apenas para depois tentar o simples (I/5), nos quatro segmentos poemáticos de "Reinos" a lingagem ultrapassa a densidade existencial para ganhar em dimensão que convoca a vigília histórica. Por ela modalizando os meandros da existência.
 
 
(1) Cf. Walter Benjamin. "Sobre o conceito da História" (1940). Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
(2) Gilles Deleuze e Félix Guatari. Mil Planaltos: Capitalismo e Esquizofrenia - Vol 2. Lisboa: Assírio e Alvim, 2008.
 
 
  Inocência Mata in Gente Dois Reinos de Victor Oliveira Mateus. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 7 - 9.
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Acerca de... ( XVI )


(Nota - o excerto que se segue, postado aqui com autorização do seu autor, é parte integrante de um mail. Esse mail, com a escrita cuidada - como aliás é hábito - de um poeta que tão bem conhece todos os pormenores relacionados com os poemas longos, leva a cabo uma análise clara e atenta dos aspectos formais de Gente Dois Reinos. É evidente que outros mails recebi relativos ao livro em questão, mas apenas este desenvolve, rigorosamente, um tema que a crítica oficial raramente refere. )
 
 
 
 
" (...) Entre o mais, surpreendeu-me a arrumação dos textos no poema maior e ainda mais as partes na sua ligação, a segunda parte surge com violência na arrumação do poema porque, tratando de outro assunto, o continua. Jogou na maior dificuldade e resultou: a união dos opostos - a que o título assintáctico não é estranho - no discurso, no tema, mas não no que de si emana dele. Conheço os problemas dos poemas grandes, dos que tenho escrito e publicado e dos que tenho deitado fora ao longo dos anos por falta de qualidade ( tantos como os editados, três). E esses problemas, a unidade entre as estâncias, digamos assim, à falta de melhor definição, o desenvolvimento do poema sem arrastamentos de texto, a coesão do poema com o feito final que, à primeira vista, poderia parecer vir em contra-mão mas que lhe dá o fim que um poema longo exige, o atrevimento saborosíssimo de inovação da parte II, Reinos, esses problemas que conheço, dizia, cumpre-os o Victor com mão segura, além da substância do poema e da sua linguagem... "
 
 
                                                                       Nuno Dempster   ( inédito )
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01/07/13

Acerca de... (XV)



            "  Por uma estética do exílio  "

   A Irresistível Voz de Ionatos, de Victor Oliveira Mateus, é um livro que se lê de uma assentada, tanto pelo galope seguro com que o texto nos conduz, quanto pela estrutura com que foi concebido.
   São vinte e sete poemas, ou vinte e sete seções de um só poema, que têm como cenário uma ilha ( ou ilhas ) da Grécia, e, por motivo central, uma evocação amorosa ( ou a evocação sucessiva de uma falta ) em que se vão tecendo imagens e considerações sobre a natureza do desejo, do tempo, da morte e da própria poesia. Como nas óperas de Wagner, certos temas aparecem e reaparecem sutilmente associados a diferentes imagens, deixando-nos a intuição de que seu significado mais profundo, embora se intensifique, nos escapa. 
 
 
(...) Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente
 
fragrância a si própria acrescentada de sêmen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.
 
 
   Assim começa o livro, insinuando uma subjacente narrativa que se irá construindo e consumindo conforme nos familiarizamos com suas idas e vindas. E a ilha, com suas luzes e destroços, com seus bares atarefados e seus pescadores, com seu relevo e o branco compacto de suas casas, se vai amalgamando à sensação de perda, ao perdedor e ao perdido:
 
(...) Tenho saudades
do ritual dos peixes, do rumor
inconsolado da brisa a soar
mansa no abandono dos búzios,
do emaranhado das algas
a envolver-nos a prontidão
dos passos. Tenho saudades
de mim nesses tempos,
quando não tinha saudades.
 
   Aqui e ali, surgem composições menos reflexivas e de maior carga confessional, como em:
 
 
Nunca soube lançar o pião
como os rapazes no terreiro,
entre os contentores: aprendizes
de ladrões, de proxenetas,
 
arrumadores. Nunca soube
lançar o pião. Nem puxar-lhe
o cordel entre os dedos
ou içá-lo, rodopiante, na palma
 
da mão, acima do solo,
conspurcado e mudo. Lancei
a minha vida, os meus
anseios. E foi tudo.
 
   Ressaltemos que Victor, como Nerval ou Rimbaud, não parece conceber distinção de fato entre a poesia e a prosa. Ou melhor, não concebe diferenças de gênese entre uma e outra forma de expressão literária do " princípio poético " - para usar aqui o conhecido nome que deu Edgar Poe a essa súbita elevação, essa comoção de que somos tomados diante da obra de arte.
   Seus poemas de nada se desincubem, recuperando atribuições quase esquecidas pela poesia contemporânea. Seus versos descrevem, narram, comentam. E o fazem afastando-se tanto do minimalismo e da sintaxe nominal, tão caros aos nossos dias, quanto da mera poesia didático-discursiva. Assim também que, não raro, o poeta intercale interjeições, interrompa-se, reformule idéias e imagens, quebre frases em dois versos ( ou mesmo em duas estrofes ) sem incorrer no virtuosismo vazio ou na hesitação de estilo.
   Por vezes, o efeito de sua escrita jaz na simplicidade do recorte:
 
Azul que em azul te desdobras.
Cerco de baías. Moldura de espuma.
 
Noutras, é obtido pela inserção explícita de expressões comparativas ou de vaguidão em suas analogias:
 
A mulher da loja em frente traz consigo
algo das antigas deusas. Das possuídas
sibilas. (...)
 
   Dito melhor: Victor escreve no limite entre a poesia e a prosa, e nos faz crer que o faz sem perigo - quando, nesse perigoso limite, muitos poetas de diversos calibres se têm perdido. Produzindo muitas vezes prosa poética, que apenas da forma usual da poesia se apropria, assume certo sabor clássico, como em:
 
                                              ( ...) enquanto a impreterível
presença das pontes vinca este doce gorjeio que, sempre
em nós acrescentado, impedir não tentamos nem podemos.
 
   Porém, à revelia das inversões sintáticas e do vocabulário, o resultado soa natural. Como se o poeta pensasse alto e no ritmo que as palavras já trazem consigo.
   Borges, que também ignorava distinções genéticas entre a prosa e a poesia, já dizia que o tempo lhe ensinara que as melhores metáforas são as mais familiares - a morte e o sono, o crepúsculo e a velhice... Se concordamos com ele, concordaremos também com Victor Oliveira Mateus na eleição de sua ilha como imagem atemporal da distância, da perda, do exílio. Distância voluntária, e talvez segura, na qual pode ele retomar temas da tradição sobre os quais, contudo, sempre há o que ainda ser dito. Exílio em que pode exercitar seu estilo fluido e sincrético, a despeito das precárias e provisórias noções do que seja atual ou antigo.
 
 
     Cláudio Neves, in A Irresistível Voz de Ionatos de Victor Oliveira Mateus. Fafe: Editora Labirinto, 2009, pp 41 - 43.
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29/06/13

 
 
  As ruas à noite são mais compridas, sabe-se que são. À falta de gente, as ruas esticam-se em espreguiçares de alcatrão. Os homens acalorados sabem destas e de outras coisas, mas calam-se num conluio de silêncio. Um homem acalorado caminha por uma rua e depois por outra e vai por onde vai sem saber. As ruas guiam os homens, mais do que eles se guiam a si próprios.
  Uma aragem, uma luz que promete o que nunca deu e vêem-se os homens vogando as suas barcas pesadas. Peixes cegos de fomes secretas, homens que seguem ruas com vontades de comer. Perdidos por sem. Sem saber, sem ter, sem querer, sem nada a perder.
  Um homem perde-se e crê encontrar-se, são assim os homens. À noite as coisas pequenas fazem grandes achados porque os olhos estão mirrados e há fome por todo o lado. Aqui me perco, aqui te encontro, queres olhar-me nos olhos? Diz-me o que vês e depois mente-me com quantos tens tu na cara. Ficamos quites, eu vejo o que não existe e tu que dizes o que não pensas, ninguém perde e todos ganham. Todos que somos eu e tu, é noite, somos tão parecidos... Somos? Somos, estamos aqui.
 
 
  Camarneiro, Nuno. No Meu Peito Não Cabem Pássaros. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2011, p 118.
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28/06/13

apresentação


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Apresentação do livro Gente Dois Reinos: Maria João Cantinho, Ana Cristina Silva
e Gisela Ramos Rosa.
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26/06/13

 
 
                               
 
 
   Se eu fechar a escotilha ficas todo lá fora, sozinho contigo, sem deuses que te aturem, és demasiado grande para chegares a mim, não tens dedos que me agarrem nem olhos de ver ao perto. As tuas ondas poderiam ser rugas se eu quisesse, sabes que o posso fazer? És um bruto desajeitado que esmaga os brinquedos e faz birras a fingir ódio. Entretanto nós passamos, baixamos os olhos e rezamos baixinho para que tu vejas e tenhas pena, mas eu rio por entre as rezas e tu não me vês.
   Gosto de te ter perto, assim como estás agora, ao alcance de te querer. Se eu quisesse juntava-me a ti e seria mar também. Mas não quero, ainda não. Tenho os meus deuses para inventar e acredito ainda em cores que não são tuas. Um dia, um dia é o tempo de tudo o que haveríamos de ter sido, e eu ainda tenho dias para mundos maiores do que tu. Se eu quisesse, tu eras um segundo pequeno de uma vida por fazer, sabes que o posso querer?
   Agora durmo, agora és noite e tens a cor de tudo o resto ( o mar não dorme, pois não?). Não sonhas, mas és sonhado e não há nada que possas fazer.
 
 
  Camarneiro, Nuno. No Meu Peito Não Cabem Pássaros. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2011, p 18.
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20/06/13

 
 
         "  Báltica  "
 
 
uma dureza uma noção fria de império, eu
de miragem vestida atravessando o mundo
para brincar aos camelos contigo
 
( o meu fato diamante a minha espera de pedra
musa sanguínea de sentinela que passa
comigo - )
 
hei-de escarrar-te uma página perfeita de literatura
vens para este livro, vais ser crucificado aqui
 
há-de esmolar-se mesmo a vontade romeira
a mão justa na outra, a violência privando-me
o juízo, este poema de amor até
 
mas não abrandarei os frios nem este pleito sem domo
há-de amarelecer
 
e este diminutivo susto vai sendo uma festa que acabará
eventualmente com beijos de sono nos olhos
 
e como havemos de nos ligar nupcialmente num sismo
num dia ambulado com o tempo próprio,
com uma sílaba, tu
 
chegas para te sentares à cabeceira da minha infância, eu
levanto-me com a forma de ter cabido nesse abismo -
 
não saberás quimicamente de um corpo levantado
aos ombros porque o teu ofício de pai dita que és
cardiologista, médico
 
tratas dos corações dos outros, portanto, sabes-lhes o peso
e saber isso é uma coisa próxima de morrer
e nenhuma figura de estilo
 
 
  Guerra, Raquel Nobre. Groto Sato. Lisboa: Mariposa Azual, 2012, pp 56 - 57.
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JUCUNDI  CANTUUS  NUTRICII


de mim faz uma só pelo amor que desconheço
a mínima interna das coisas a sua granítica
e outras aromáticas, eu com Lázaro à meia
porta dos exilados neste faro pelo mesmo
na noite formando selvagem, onde só posso
silêncios, eu que não cruzo o belo onde toco e sou
rasa de palavras para ser álccol à carne da tua
propagação, eu outros hábitos outras formas
de aproximação a um lugar de sermos a final hora
entre estados, eu que subirei nessa maneira bicho de chegar
e beber do mesmo charco


 Guerra, Raquel Nobre. Groto Sato. Lisboa: Mariposa Azual, 2012, p 20.
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17/06/13

 
 
 
     "  Lázaro  "


De minha aldeia fui para o deserto,
onde morei, não sei, dias ou meses,
fugi de meu nome e também de quantos
que por ouvi-lo à minha porta vieram.

Porém, onde só há silêncio e pedra,
nenhum sono me trouxe o sonho espesso
que não lembro, nem a Voz fendeu-lhe o ventre
nem me ergui de novo à luz crescente.

E a esta cidade que disseram vim
em demanda daquele cuja voz espero
diga-me a que do sonho despertei.

Mas soube aqui ele também morto e desperto.
De novo parto o mesmo, mas diverso,
que agora em busca desse outro igual a mim.


  Neves, Cláudio. Isto a que falta um nome. São Paulo: Realizações Editora, 2011, p 47.
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Decerto isto a que amor chamamos
será o intervalo de outras coisas,
um nome novo para o mesmo nada
que tanto nos habita e tanto cala.

Amor, o amor, se existe, é tão somente
a falta súbita de outra palavra,
esse frescor de um mundo inonimado,
dele o terror que nos ficou gravado.

O amor, amor, nem busca nem encontro:
nossa impotência, aquele mundo afásico
em que tudo nos era novidade.

Amor, o amor, o primeiro crepúsculo,
primeira noite (que nem noite se chamava)
de um mundo que não tinha ainda despertado.


   Neves, Cláudio. Isto a que falta um nome. São Paulo: Realizações Editora, 2011, p 25.
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16/06/13

 
 
      " Tramar "
 
 
Entre muros,
tramo a fuga.
Há muito,
calculo detalhes:
preparo a mochila,
dou força aos músculos,
visto-me de coragem.
Dia após dia,
marco a data
do grande momento.
No instante final,
apego-me à textura das paredes
- útero a proteger-me das ranhuras
que estão do outro lado do cimento.
E fico.
 
 
  Bucioli, Cleri Aparecida Biotto. Rume. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 77.
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Dentro da gaveta guardados criam raízes,
incorporam-se às fibras da madeira.
Os segredos envelhecem
entre a clausura das tábuas
e o perfume do tempo em decomposição.

Enquanto as lembranças dormem
o tempo engendra histórias.
Algumas - dramas doídos,
farpas a cravar a carne.
Outras - comédias triviais.

Se abrir a gaveta
destramo os enredos.
Deixo às traças
o inebriante prazer
de decompor
os poemas tecidos.


  Bucioli, Cleri Aparecida Biotto. Rume. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 45.
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15/06/13




Hay un rumor en esta distancia,
un ardid con el que tiño las palabras
con trampas que vibran
y no protegen. Hay un puerto,
húmedo y desierto, como todos los puertos
cuando no estás, y hay también un mapa,
un antiquísimo mapa sin costas
ni orillas, donde rehago
esta insoportable sed de ti
conmigo dibujando islas al otro lado
del tiempo. Hay aún -o parece
haber- un puente...un paso
amenazado: y todo esto, todo, porque
hay un rumor en esta distancia.

Victor Oliveira Mateus, Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013 (trad. Marta López Vilar).


Lo que duele no son las rupturas, el alejamiento,
la incapacidad minando como un cáncer
oculto y certero. Lo que duele no es
la poca solidez con que se dijo
esta o aquella palabra, esta o aquella frase;
con que se insistió, a pesar de recelos varios,
en la grotesca escenificación de lo que se preveía
muy próximo a cualquier futuro. Lo que duele
no es la viscosidad de las emociones inscribiéndose
en algún mapa anticipadamente condenado,
ni tampoco la insistencia de un indisoluble
recuerdo escapando. Lo que duele verdaderamente
es despertar un día y descubrir
que nada de eso tuvo importancia alguna.



Victor Oliveira Mateus. Gente dois reinos. Fafe: Ed. Labirinto. 2013 (Trad. José Ángel García
Caballero)
 

13/06/13



    A chave do sucesso inesperado de The Crying Game ( "o jogo das lágrimas"), filme de Neil Jordan, talvez se deva à variação que propõe sobre o motivo do amor cortês. Lembremos as grandes linhas da acção: Fergus, militante do IRA que tem à sua guarda um soldado britânico negro feito prisioneiro, liga-se de amizade com este; o soldado, no momento em que se prepara para morrer, pede a Fergus que vá visitar a sua noiva, Dil, cabeleireira nos subúrbios de Londres e lhe entregue as suas últimas lembranças. Depois da morte do soldado, Fergus abandona o IRA, instala-se em Londres, arranja um trabalho de pedreiro e vai visitar a amada do soldado, uma bela mulher negra. Apaixona-se por ela, mas Dil mantém uma espécie de distância irónica e soberana. Por fim, Dil acaba por ceder perante os seus avanços, mas antes de se deitarem os dois na cama, sai do quarto por um instante e, ao voltar, traz vestida uma túnica transparente; no mesmo instante em que relanceia avidamente o seu corpo, Fergus detecta nele um pénis: "ela" é um travesti. Frustrado, repele-a com brutalidade. Comovida e em lágrimas, Dil explica-lhe que pensara que ele conhecia desde o início a realidade das coisas (na sua obsessão por Dil, o protagonista - à semelhança do público - não leva em conta numerosos detalhes eloquentes (...). Esta cena de encontro sexual falhado estrutura-se como a inversão rigorosa da cena descrita por Freud como trauma primitivo do fetichismo: o olhar da criança, ao deslizar pelo corpo feminino até ao lugar do órgão sexual, surpreeende-se ao nada encontrar onde esperava ver alguma coisa (um pénis). No caso de The Cring Game, o choque produz-se quando o olho encontra alguma coisa quando nada esperava encontrar.
    Na esteira desta revelação dolorosa, a relação entre os dois inverte-se: descobrimos que Dil está apaixonadamente enamorada de Fergus, embora saiba que o seu amor é impossível. De Dama caprichosa e soberana, transforma-se na figura patética de um rapaz delicado e sensível que experimenta um amor desesperado. É neste ponto que emerge o verdadeiro amor, amor como metáfora no sentido preciso que lhe dá Lacan; somos testemunhas do momento sublime em que erómenos (o amado) se transforma em erastés (o amante), estreitando a mão de quem o ama e "retribuindo o seu amor". Este momento designa o "milagre" do amor, o momento da "resposta do real"; nessa medida, talvez nos permita compreender o que pensa Lacan ao insistir em que o próprio sujeito tem o estatuto de uma "resposta do real". Ou seja, até ao momento da inversão, o amado tem o estatuto de um objecto: é amado por qualquer coisa que está "nele mais do que ele próprio" e da qual ele não tem consciência; nunca me é possível responder à pergunta: "Que sou eu enquanto objecto para o outro? Que vê o outro em mim que causa o seu amor?". Confrontamo-nos, portanto, com uma assimetria: não só uma assimetria entre sujeito e objecto, mas uma assimetria que significa mais radicalmente o desacordo entre o que o amante vê no amado e o que o amado sabe de si.
    Deparamos aqui com o inevitável beco sem saída que define a posição do amado: o outro vê alguma coisa em mim e quer alguma coisa de mim, mas eu não posso dar-lhe o que não possuo, ou, como afirma Lacan, não há relação entre o que o amado possui e o que falta ao amante. A única maneira que o amado tem de escapar a este impasse é estender a sua mão ao amante e "retribuir o amor" - ou seja, trocar, num gesto metafórico, o seu estatuto como amado pelo estatuto de amante. Esta inversão designa o ponto de subjectivação: o objecto do amor torna-se sujeito no momento em que reponde ao chamamento do amor. E é só por meio desta inversão que o amor autêntico emerge: estou realmente enamorado, não quando estou simplesmente fascinado pelo ágalma do outro, mas quando experimento o outro, o objecto de amor, como frágil e perdido, como sentindo que "isso" lhe falta, e o meu amor sobrevive, todavia, a essa perda.
    Devemos pôr especial atenção em não descuidar a importância desta inversão: ainda que tenhamos agora dois sujeitos amantes em vez da dualidade inicial do amante e do amado, a assimetria mantém-se, uma vez que foi o próprio objecto a confessar a sua falta por intermédio da sua subjectivação.
    (...) E talvez no próprio amor cortês, o longamente esperado momento da realização mais alta, o momento da concessão pela Dama da Gnade, da mercê ao seu servidor, não seja a rendição da Dama, o seu consentimento no acto sexual ou qualquer misterioso rito de iniciação, mas simplesmente um sinal de amor da sua parte, esse "milagre" do Objecto que responde, estendendo ao suplicante a sua mão.
    E assim, para voltarmos a The Crying Game, que Dil se encontra doravante disposta a fazer seja o que for por Fergus, enquanto este se sente cada vez mais comovido e fascinado pelo carácter absoluto e incondicional do amor dela, de tal maneira que supera a sua aversão e continua a reconfortá-la...
 
 
   Zizek, Slavoj. As Metástases do Gozo, Seis Ensaios Sobre a Mulher e a Causalidade. Lisboa: Relógio D'Água, 2006, pp 34 - 36.
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11/06/13


    Nesta fase, o nível ontológico da amizade em Aristóteles pode dar-se por estabelecido. A amizade pertence à prote philosophia, porque aquilo que nela está em questão diz respeito à experiência mesma, à "sensação" mesma de ser. Compreendemos, então, porque razão "amigo" não pode ser um predicado real que se junta a um conceito para o inscrever numa certa classe. Em termos modernos, poder-se-ia dizer que "amigo" é um existencial e não um categorial. Mas este existencial - que não pode ser conceptualizado como tal - é perpassado por uma intensidade que o dota de uma intensidade semelhante a um poder político. Esta intensidade é o syn, o "con" que partilha, dissemina e torna partilhável - desse modo, sempre já partilhado - a sensação mesma, a própria doçura de existir.
    Que esta partilha tenha, para Aristóteles, um significado político está implícito na passagem que mal analisámos e sobre a qual é oportuno voltar: (...) e a expressão aristotélica poderia significar simplesmente "ter parte no mesmo". (...) a amizade como con-sentimento do puro facto de ser. Os amigos não partilham qualquer coisa (um nascimento, uma lei, um lugar, um gosto): eles são sempre já partilhados a partir da experiência da amizade. A amizade é a partilha que precede todas as outras partilhas, porque aquilo que existe para partilhar é o facto mesmo de existir, a própria vida. E é esta repartição sem objecto, este con-sentir original que constitui a política.
    Como esta sinestesia política originária se tornou, com o tempo, no consenso ao qual as democracias confiam o seu destino, na fase extrema e extenuada da sua evolução, isso, como se costuma dizer, é uma outra história, que deixo à vossa reflexão.
 
      Agamben, Giorgio. L'amico. Roma: Edizioni Nottetempo, 2007, pp