18/09/13
" Até quando? "
Até quando no túnel sem saída,
no bosque feito de espinhos, no poço?
Até quando instalada na esperança
dos que nada esperam?
Até quando perdida em labirintos,
em cidades sem luz, em pesadelos
que não terminam quando acaba o sonho?
Até quando engolindo
névoas espessas, desconcerto, vertigem?
Até quando sem ti?
Até quando com outros?
Bautista, Amalia. Estou Ausente. Lisboa: Averno, 2013, p 101.
" Os Meus Melhores Desejos "
Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto com tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.
Bautista, Amalia. Estou Ausente. Lisboa: Averno, 2013, p 21.
.
16/09/13
.
Patrick Phillips lê o seu fabuloso poema "Nathaniel", poema este que integra o seu último livro - "boy".
.
Nathaniel
Patrick Phillips
Whatever it was
that made the Reverend
Barker stoop that way,
it meant no matter
how much he screamed
at my friend Nathaniel
for being late, for not
raking the leaves,
or for raking the goddamned
leaves the wrong Goddamned way
(his huge, gin-blossomed jowls
quivering with rage,
his great whale-eyes
lost in the gray
depths of his brow),
he could only ever scowl
at the tops of his wingtip shoes
or at the cuffs of the black wool suit
he always seemed to be wearing
when he’d thunder into the yard,
or down the stairs,
or through the little speaker
of some payphone
we huddled around, God
damnit Nathaniel, I told you,
I told you, Nathaniel, Goddamnit!
his fury repeating itself
so precisely it became a joke
we hollered through the halls,
changing my friend’s name
to Goddamnit Nathaniel, as in
Where the hell’s Goddamnit Nathaniel?
I told you, Goddamnit, to get me a Coke!
which was stupid but funny at fourteen,
and still just as stupidly funny at nineteen,
when we’d yell across a bonfire,
Don’t bogart that joint, Goddamnit
Nathaniel. Haven’t I told you
to pass the fucking bong when you’re through?
which is still funny to me even now—
even though I look back and see,
as I could not have seen then,
that the Reverend Barker
only stooped that way
because he was dying,
because cancer was eating his liver,
and because with each day it became
both more urgent and more unlikely
that he would ever manage to say
whatever it was he meant
when he’d sit at the kitchen table,
or grip the black phone,
or stand in the darkened driveway
after we’d all gone home,
staring at the ground and saying nothing
to his sweet, beloved boy
but Goddamnit
Nathaniel, listen to me.
Listen Goddamnit.
Goddamnit Nathaniel, now listen.
.
.
(...)
Desde muito pequena tive uma consciência aguda
da precariedade da minha condição social.
Foi sempre muito claro para mim que apenas
uma circunstância, aleatória ou não, mas muito frágil,
fizera com que eu nascesse daqueles pais,
e que não me tivessem trocado na maternidade,
e que eles não tivessem morrido cedo ou ficado
sem emprego,
(...)
Bastava que tivesse havido um incêndio,
uma inundação, um tremor de terra, uma epidemia,
(...)
uma condenação, um ataque de loucura,
uma vingança, uma maldição,
um divórcio, uma paixão, uma promessa não cumprida,
uma assombração, um despedimento, uma desilusão,
(...)
e eu já não seria... a ilusão que pareço ser.
Seria... outra ilusão que pareceria ser.
Pedro, Risoleta Pinto. O homem da minha vida. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2009, pp 7 - 11.
.
15/09/13
pensam: é melhor ter o inferno a não ter coisa nenhuma
- como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem,
dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subrilezas desde o xadrez à física quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
e a metáfora da água?
a ideia de paraíso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão
trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa
do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o
económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantam, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!
Helder, Herberto. Servidões. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013, pp 97 - 100.
.
13/09/13
Natália, a grande... a enorme!
Natália Correia partiu demasiado cedo, se fosse viva faria hoje noventa anos. O seu "Credo" :
.
.
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro.Amen.
.
Otto Sander ( 30/6/1941 - 12/9/2013 )
.Otto Sander interpretando o papel do Anjo Cassiel em AS ASAS DO DESEJO de Wim Wenders.
.
UMA SUGESTÃO: depois deste filme convém ver também TÃO LONGE, TÃO PERTO igualmente de Wim Wenders. O poema 24 (p 37) do meu Pelo Deserto as Minhas Mãos baseia-se nestes dois filmes (e em nada mais), aliás, a epígrafe refere mesmo uma cena belíssima com a Nastassja Kinski.
.
11/09/13
Tout ce que j'ai écrit sur nous est mensonge
ce n'est pas ce qui a été entre nous mais ce que j'aurais
voulu qui soit
C'étaient mes nostalgies posées sur des branches inac-
cessibles
C'était ma soif tirée du puits de mes rêves
C'étaient des images que je traçais sur la clarté
Tout ce que j'ai écrit sur nous est vrai
ta beauté
c'est-à-dire une corbeille de fruits ou un festin sur
une table champêtre
mon manque de toi
c'est-à-dire moi dernier lampion du dernier coin de
la ville
ma jalousie
c'est-à-dire ma course les yeux bandés la nuit parmi
les trains
mon bonheur
c'est-à-dire le fleuve ensoleillé rompant ses digues
tout ce que j'ai écrit sur nous est mensonge
tout est vrai de ce que j'ai écrit sur nous.
Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 191 - 192.
.
10/09/13
" La petite fille "
C'est moi qui frappe aux portes,
aux portes, l'une après l'autre.
Je suis invisible à vos yeux.
Les morts sont invisibles.
Morte à Hiroshima
il y a plus de dix ans,
je suis une petite fille de sept ans.
Les enfants morts ne grandissent pas.
Mes cheveux tout d'abord ont pris feu,
mes yeux ont brûlé, se sont calcinés.
Soudain je fus réduite en une poignée de cendres,
mes cendres se sont éparpillées au vent.
Pour ce qui est de moi,
je ne vous demande rien:
il ne saurait manger, même des bonbons,
l'enfant qui comme du papier a brûlé.
Je frappe à votre porte, oncle, tante:
une signature. Que l'on ne tue pas les enfants
et qu'ils puissent aussi manger des bonbons.
Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 115 - 116.
.
09/09/13
" Le vingtième siècle "
- " Dormir maintenant
Et se réveiller dans cent ans, mon bien-aimé..."
- " Non,
Mon siècle ne me fait pas peur,
Je ne suis pas un déserteur.
Mon siècle misérable,
scandaleux
mon siècle courageux,
grand
et héroique.
Je n'ai jamais regretté d'être venu trop tôt au monde,
Je suis du vingtième siècle:
Et j'en suis fier.
Il me suffit
d'être au vingtième siècle,
là où je suis,
d'être de notre camp,
Et de me battre pour un monde nouveau..."
- " Dans cent ans, mon bien-aimé..."
- " Non, plus tôt et malgré tout,
Mon vingtième siècle mourante et renaisssant,
Et dont les derniers jours seront si beaux,
Ma nuit terrible qui se termine dans des clameurs
d'aurore,
Comme tes yeux, mas bien-aimée,
Mon siècle sera plein de soleil...
Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 92 - 93.
.
23/08/13
Texto de apresentação do livro " Nuances" de Vladimir Queiroz:
No soneto Burburinho, p 15, o poeta enfatiza duas
das principais linhas de força desta obra: primeiro, o amor está submetido a
uma dialéctica de ocultação/desocultação (O amor, a que persegues
tanto,/esconde-se a te negar carinho;/mas, um dia, em meio ao burburinho/de
vozes e sorrisos, ei-lo por encanto.); segundo, o amor está também submetido a
uma outra dualidade antinómica: permanência/evanescência (O amor é como a água
do mar:/chega junto à praia, penetra profundo/molhando a areia, que se deixa
envolver.//Enigmático, brincalhão, vagabundo,/serena as águas como quem vai
permanecer,/mas, de súbito, foge, para de novo voltar.). Depreende-se, por
conseguinte, que deverá ser atribuição do poeta procurar entender, e viver,
este mesmo amor em si lábil e multifacetado. Perante um cenário deste tipo
percebe-se o quão difícil é para o ser humano movimentar-se, e construir-se,
neste território, já que nele ora se perde, ora se encontra, ora ainda se
voltará a perder. Uma vez chegados aqui dois outros aspectos fundamentais da
poesia de Vladimir Queiroz se nos deparam: a figuração do feminino, estruturalmente
dual, apresenta-se-nos não só como um polo de desejo (“estava ávido para
conduzir/o desejo por entre as frestas/inexploradas em segredo.”, poema Ávido p 39 ; “Oh! Sorriso de neve/provocas em mim enxurrada/de prazer/no
degelo da tua boca.” poema By Night, p
49), mas também esse feminino pode igualmente associar-se a toda uma imagética
relacionada com o acolhimento e/ou com um regaço de acalmação (“O sereno que me
acompanha/rodeia a face;/amado: adormeço, e sonho à toa.” poema Garoa, p 47; “Chego bem perto/entreabro
os lábios/e recebo o fluxo de amor/que inunda a tua boca./(…) nos arrepia, nos
aproxima,/uma quentura nos invade.” poema Regaço,
p 37); o outro aspecto remete-nos
para o facto de toda a movimentação afectivo-amorosa estar subsumida a um
ininterrupto ciclo espiralado, onde a dimensão espiritual e a do corpo se vão
procurando, afastando e reencontrando (Cf. poemas Íris, Espúria, Calmaria e
o primeiro verso da segunda estrofe de Vere
–Dictum, p 57).
Uma outra vertente
desta obra, que convém evidenciar, prende-se com a quantidade e os aspectos
formais dos sonetos inseridos na primeira parte deste livro: a predominância de
referentes que nos remetem para a antiguidade greco-latina, bem como, a
formulação estilística, poderiam levar-nos a pensar estarmos perante um livro
de estilo clássico com sonetos vincadamente parnasianos, no entanto, uma
leitura mais atenta demonstra que, sobretudo nos sonetos, o poeta jamais sacrifica
o sentido a quaisquer espartilhos de tipo formalista, assim, sobretudo nas
quadras desses mesmos sonetos, opta por rimas interpoladas mas vezes há em que
as combina com o verso livre (vejam-se os sonetos: Drink, Espúria), também a
métrica não se apresenta regular, sendo o verso decassilábico muitas vezes
sacrificado caso as exigências do sentido a isso o forcem. Um pormenor que nos
afasta também de um classicismo insólito e serôdio deve-se ao facto de o autor
recorrer, por vezes, ao linguajar rústico e à gíria, que acabam irrompendo no
seio das formulações eruditas (“ seja sina, um sinal/ e coisa e tal; não faz
mal.” poema Pétala, p 43; “Sem cor,
passo… e se passo sem cor/ tenho a cor do burro quando foge.” poema Cores , p 53; “Comeu o pão que o diabo
amassou,/ a carne, as vísceras, o fígado todos os dias…”, poema Canibal, p 71). A inserção deste novo livro de Vladimir
Queiroz dentro dos diversos Romantismos do século XXI, e não no seio de uma
poesia estritamente clássica, é passível de ser apreendida também através de
certas subtilezas temáticas e estilísticas, veja-se, por exemplo, o que diz
respeito à representação da Amada: se no soneto Íris (p 21) a mulher amada nos surge com a sua tez branca e os lábios róseos, o que nos remete
imediatamente para a lírica do século XVI, o que é um facto é que não muito
distante deste soneto aparecem-nos poemas de outro tipo, alguns de cunho
vincadamente experimental, onde a Amada tem olhar
crioulo (poema Nagô, p 27), pés pequenos (poema Calmaria, p 29), avalanche de
melenas (poema By Night, p 49) e,
perto do final do livro, nalguns poemas onde o cunho sócio-cultural se faz mais
sentir, surge-nos mesmo a “joana pluma blonde/ explode em sangue, verve/dos
sentidos.// A alma louca/ rouca na cruz santa/ luz no firmamento/ um juramento/
um lamento aos homens.” (poema Joana,
p 79), ou seja, esta Joana é a célebre mulher de vida dita fácil, ícone de
tanto poetas, românticos e não só. Perguntamos: se do Amor o poeta apenas obtém
nuances, que dizer agora da figura
feminina também ela tão diversa e plural? Não estará este livro demonstrando
isso que é simultaneamente um elo e um hiato entre a Mulher (arquetípica e
idealizada) e a mulher concreta, que no sensível dialoga com o poeta e com ele
vai tecendo todos os caminhos do aqui? Aliás, as distinções lógicas e
existenciais: universal/ particular, arquétipo/ sensível, etc. são-nos logo
anunciadas no soneto introdutório do livro, pois não é por acaso que no
primeiro verso da primeira quadra o Homem (ser humano) aparece significado com
maiúscula e à medida que o poema se vai desenrolando o homem já nos surge
referido com minúscula, como no caso do primeiro verso do primeiro terceto. E
são estes aspectos que nos conduzem à confirmação de estarmos ante uma poesia
assumidamente romântica, mas de um tipo de romantismo actual onde o corpo, a
sexualidade e a sensualidade são salutarmente integradas sem os pruridos de
qualquer juízo moral desajustado deste tempo que é o nosso (“ Rondas a minha
carne…” poema Deusa, p 19; “possam
arder minhas entranhas/ no calor que da tua pele emana” poema Íris, p 21; “E o frio desnuda o teu ser
e enrijece os teus seios: / somos dois, somos unos,/ únicos num amor pleno e
eterno.” poema Calmaria, p 29). A
relação com a Amada aparece nesta obra de Vladimir Queiroz alicerçada num
procedimento, não linear, mas baseado nesse movimento cíclico já anteriormente
referido onde alma e corpo, espírito e matéria, entre si dialogam e se
complementam: só purificando a alma, nem que seja banhando-se no Ganges (poema Avesso, p 33) aquele que ama pode
entregar, como oferenda, o corpo, e só
vivenciando em pureza e eternidade o que é corpóreo no amor se pode engrandecer
a alma – eis, enfim, o ciclo em forma de espiral que tinha já avançado neste
texto, e é este também o objectivo último do amor e do amar (Cf.
último verso de By night, p 49) nesta
obra de Vladimir Queiroz, no entanto, porque ingente e complexo tal objectivo,
e porque demasiado imperfeito o humano, de todo este vivenciar apenas
conseguimos ir adquirindo Nuances.
15/08/13
Só decifro
O que não vejo,
Tua funda cicatriz.
Gilvaz na pedra
E no tempo,
Sinal aberto
Aos segredos
Que adivinho
(E tenho medo).
Só desvendo
O que se esconde,
Marca de dente, vampiro
Desfeito nos teus calores.
Penetro
No que ignoro,
Teus dispersos
Labirintos.
E sinto que
O que espreito
É a sombra de mim mesmo.
Fraga, Myriam. Poesia Reunida. Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2008, p 150.
.
Poema XI do Ciclo " A ilha "
Retiremos o fel,
Como abelhas malditas,
Desta suja corola,
Desta flor de antracite.
Há um mistério a cumprir
Nesta suja existência
De conchas e corais
Que se dissolvem em lama.
Viver é semear-se
(Boca olhos sexo),
É cortar a si mesmo.
Viver é um naufrágio
Sempre repetido.
As volutas de um búzio
Capturaram o infinito,
E o horizonte é um círculo
Que rápido se fecha.
Fraga, Myriam. Poesia reunida. Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2008, p 43.
.
13/08/13
" Soneto patético "
Acordo para um mundo novo no jornal.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
Refaço o mundo no exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
No trabalho, o refúgio. Da paz desce o véu.
As horas vão... A tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
Tranco-me em casa. O mundo sangra na TV.
O sangue do meu sangue esvai-se, durmo enfim.
E não sei quem te viu. E não sei quem me vê.
Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 127.
.
" O amor de minha vida "
Eu, com certeza, gosto é de foder.
Até digo que sei o quanto amar
seja lá o que for tem seu lugar,
mas foder por foder é mais prazer.
Amo a só superfície que há na pele,
a visão de uma boca subjugada,
apascentar um cu, gozar em cada
posição que a libido me revele.
O pau, que é sempre alerta, um dia cansa;
e o que fervia o sangue na cabeça
esfria o cavernoso da lembrança.
Resta-me, então, foder aqui e agora.
Portanto, perdição, goze e me esqueça.
Eu sou o amor que pica e vai embora.
Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 79.
.
" Teu "
Quando te alcanço o olhar e te vejo medusa,
lanças-me cobras e lagartos; colho sapos.
Que me importa? És a musa! E sou um teu capacho,
tão-só um troço a mais no caldeirão da bruxa.
Petrificado, atiro-me a teus pés de pedra.
Tua lava ferina corta as cicatrizes
da minha lama. Derretido nas raízes,
restam-me cinzas de te amar tua alma cega.
Que Cupido canhestro errou flechar meu peito
fraco tão forte! O coice lesa-me de vez
o calcanhar de Aquiles. Dói-me o cotovelo.
Mas a alvura do gelo desce em tua tez
de esfinge e de montanha e me acalma de um jeito...
Se é terrível te amar? Tanto faz (que já fez).
Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 51.
.
" Licença poética "
Sou livre pra buscar a rosa azul,
sou livre pra tocar fogo no lar,
livre pra qualquer droga, pra tomar
na veia, livre pra tomar no cu.
À minha volta o mundo é meu ensaio,
um palco, um tiro-ao-alvo, um lenço branco
em que beijo o sorriso ou cuspo o pranto,
ao bel-prazer do arbítrio, e me distraio.
Por onde começar? Mirando o céu?
Atirando no breu? Tirando o véu?
Condenado a ser livre! Como um biltre,
faço um soneto vil, sem peripécia,
que termina do jeito que começa.
Sou livre. Irremediavelmente livre.
Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 45.
.
Em 2009 Ildásio Tavares deslocou-se a Portugal para assisitir ao lançamento do seu livro "As Flores do Caos" publicado pela Editora Labirinto.
" Soneto do Desejo "
Amor só nasce e vive do Desejo.
Nenhum Amor a outro Amor obriga:
não há o que se faça ou que se diga
que contrarie a força do Desejo.
Desejo logo existo. E assim emerjo.
Mas se outro coração ao meu não liga,
a coisa amada torna-se inimiga -
Amor é sempre fruto do Desejo.
Planta carnívora é Amor. Querer
imóvel que confunde o coração
e desdenha o querer de outro querer.
Insensato gatilho da paixão:
lucidez que comanda o enlouquecer
Desejo és o tirano da razão.
Tavares, Ildásio. As Flores do Caos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 45.
.
" Soneto do Desejo "
Amor só nasce e vive do Desejo.
Nenhum Amor a outro Amor obriga:
não há o que se faça ou que se diga
que contrarie a força do Desejo.
Desejo logo existo. E assim emerjo.
Mas se outro coração ao meu não liga,
a coisa amada torna-se inimiga -
Amor é sempre fruto do Desejo.
Planta carnívora é Amor. Querer
imóvel que confunde o coração
e desdenha o querer de outro querer.
Insensato gatilho da paixão:
lucidez que comanda o enlouquecer
Desejo és o tirano da razão.
Tavares, Ildásio. As Flores do Caos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 45.
.
12/08/13
Em 2008 Ruy Espinheira Filho desloca-se a Portugal para presidir ao Júri do Prémio Camões, o mais importante prémio no âmbito das literaturas de expressão portuguesa (Lisboa, Miradouro de Santa Luzia. Foto: Miúcha ).
" A Musa "
Talvez a amasse muito,
talvez não a amase nada,
talvez amasse somente
seu doce perfil na tarde,
ou só seu vestido branco,
ou só as tranças compridas,
ou apenas o passo leve,
ou somente o jeito esguio,
ou o olhar dissimulado,
ou as suaves sobrancelhas,
ou os seios imaturos,
ou a concha das orelhas,
ou só as mãos delicadas,
ou só os pés pequeninos,
ou as panturrilhas, ou
sua cintura tão fina,
ou... Mas eis que tudo amava,
sobretudo o que não via
do que a cabeça sonhava,
do que a roupa lhe escondia.
Tudo amava, de alma inteira,
até ficar quase morto.
E doido - de cometer
um primeiro verso torto.
Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 177 - 178.
.
" A Musa "
Talvez a amasse muito,
talvez não a amase nada,
talvez amasse somente
seu doce perfil na tarde,
ou só seu vestido branco,
ou só as tranças compridas,
ou apenas o passo leve,
ou somente o jeito esguio,
ou o olhar dissimulado,
ou as suaves sobrancelhas,
ou os seios imaturos,
ou a concha das orelhas,
ou só as mãos delicadas,
ou só os pés pequeninos,
ou as panturrilhas, ou
sua cintura tão fina,
ou... Mas eis que tudo amava,
sobretudo o que não via
do que a cabeça sonhava,
do que a roupa lhe escondia.
Tudo amava, de alma inteira,
até ficar quase morto.
E doido - de cometer
um primeiro verso torto.
Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 177 - 178.
.
11/08/13
Poema 3 do Ciclo " Adeuses "
As vozes da sabedoria
são águas pesadas que despertam
sujeiras e chagas onde tocam.
Pois nos lembram
o que somos,
o que não queremos
ser,
o que não suportamos
ser,
o que nos desespera
de ser,
como o que foi dito há pouco
e mais verdades reveladoras
de que, por exemplo, somos apenas
sombras
e o mais que conseguimos
são mão cheias de trabalho e vento
que passa.
São vozes que ensinam
ninguém se poder saciar
jamais.
Vozes
que se querem consoladoras,
mas o que nos dizem é que não há
consolo. Como
saber que somos efêmeros
nos consolará? Que somos breves e nunca
fartos,
por mais densa que seja a felicidade
de hoje,
ainda maior
que a de Salomão em toda a sua
glória,
porque esta felicidade já vivemos e necessitamos
da felicidade de amanhã, do depois
impossível,
pois a vida
já se vai,
se vai.
Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 130 - 131.
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)









