15/08/13



 Poema XI do Ciclo " A ilha "


Retiremos o fel,
Como abelhas malditas,
Desta suja corola,
Desta flor de antracite.

Há um mistério a cumprir
Nesta suja existência
De conchas e corais
Que se dissolvem em lama.

Viver é semear-se
(Boca olhos sexo),
É cortar a si mesmo.

Viver é um naufrágio
Sempre repetido.

As volutas de um búzio
Capturaram o infinito,
E o horizonte é um círculo
Que rápido se fecha.


  Fraga, Myriam. Poesia reunida. Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2008, p 43.
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13/08/13

 
 
       "  Soneto patético  "
 
 
Acordo para um mundo novo no jornal.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
 
Refaço o mundo no exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
No trabalho, o refúgio. Da paz desce o véu.
 
As horas vão... A tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
 
Tranco-me em casa. O mundo sangra na TV.
O sangue do meu sangue esvai-se, durmo enfim.
E não sei quem te viu. E não sei quem me vê.
 
 
  Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 127.
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  "  O amor de minha vida  "

Eu, com certeza, gosto é de foder.
Até digo que sei o quanto amar
seja lá o que for tem seu lugar,
mas foder por foder é mais prazer.

Amo a só superfície que há na pele,
a visão de uma boca subjugada,
apascentar um cu, gozar em cada
posição que a libido me revele.

O pau, que é sempre alerta, um dia cansa;
e o que fervia o sangue na cabeça
esfria o cavernoso da lembrança.

Resta-me, então, foder aqui e agora.
Portanto, perdição, goze e me esqueça.
Eu sou o amor que pica e vai embora.


  Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 79.
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    " Teu "

Quando te alcanço o olhar e te vejo medusa,
lanças-me cobras e lagartos; colho sapos.
Que me importa? És a musa! E sou um teu capacho,
tão-só um troço a mais no caldeirão da bruxa.

Petrificado, atiro-me a teus pés de pedra.
Tua lava ferina corta as cicatrizes
da minha lama. Derretido nas raízes,
restam-me cinzas de te amar tua alma cega.

Que Cupido canhestro errou flechar meu peito
fraco tão forte! O coice lesa-me de vez
o calcanhar de Aquiles. Dói-me o cotovelo.

Mas a alvura do gelo desce em tua tez
de esfinge e de montanha e me acalma de um jeito...
Se é terrível te amar? Tanto faz (que já fez).


   Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 51.
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    " Licença poética "


Sou livre pra buscar a rosa azul,
sou livre pra tocar fogo no lar,
livre pra qualquer droga, pra tomar
na veia, livre pra tomar no cu.

À minha volta o mundo é meu ensaio,
um palco, um tiro-ao-alvo, um lenço branco
em que beijo o sorriso ou cuspo o pranto,
ao bel-prazer do arbítrio, e me distraio.

Por onde começar? Mirando o céu?
Atirando no breu? Tirando o véu?
Condenado a ser livre! Como um biltre,

faço um soneto vil, sem peripécia,
que termina do jeito que começa.
Sou livre. Irremediavelmente livre.


   Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 45.
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Em 2009 Ildásio Tavares deslocou-se a Portugal para assisitir ao lançamento do seu livro "As Flores do Caos" publicado pela Editora Labirinto.


       " Soneto do Desejo "


Amor só nasce e vive do Desejo.
   Nenhum Amor a outro Amor obriga:
   não há o que se faça ou que se diga
   que contrarie a força do Desejo.
Desejo logo existo. E assim emerjo.
   Mas se outro coração ao meu não liga,
   a coisa amada torna-se inimiga -
   Amor é sempre fruto do Desejo.
Planta carnívora é Amor. Querer
   imóvel que confunde o coração
   e desdenha o querer de outro querer.
Insensato gatilho da paixão:
   lucidez que comanda o enlouquecer
   Desejo és o tirano da razão.


  Tavares, Ildásio. As Flores do Caos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 45.
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12/08/13

Em 2008 Ruy Espinheira Filho desloca-se a Portugal para presidir ao Júri do Prémio Camões, o mais importante prémio no âmbito das literaturas de expressão portuguesa  (Lisboa, Miradouro de Santa Luzia. Foto:  Miúcha ).



                " A Musa "

Talvez a amasse muito,
talvez não a amase nada,
talvez amasse somente
seu doce perfil na tarde,

ou só seu vestido branco,
ou só as tranças compridas,
ou apenas o passo leve,
ou somente o jeito esguio,

ou o olhar dissimulado,
ou as suaves sobrancelhas,
ou os seios imaturos,
ou a concha das orelhas,

ou só as mãos delicadas,
ou só os pés pequeninos,
ou as panturrilhas, ou
sua cintura tão fina,

ou... Mas eis que tudo amava,
sobretudo o que não via
do que a cabeça sonhava,
do que a roupa lhe escondia.

Tudo amava, de alma inteira,
até ficar quase morto.
E doido - de cometer
um primeiro verso torto.


  Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 177 - 178.
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11/08/13



   Poema 3 do Ciclo " Adeuses "


As vozes da sabedoria
são águas pesadas que despertam
sujeiras e chagas onde tocam.
       Pois nos lembram
o que somos,
o que não queremos
ser,
o que não suportamos
ser,
o que nos desespera
de ser,
como o que foi dito há pouco
e mais verdades reveladoras
de que, por exemplo, somos apenas
sombras
e o mais que conseguimos
são mão cheias de trabalho e vento
que passa.

São vozes que ensinam
ninguém se poder saciar
jamais.
       Vozes
que se querem consoladoras,
mas o que nos dizem é que não há
consolo. Como
saber que somos efêmeros
nos consolará? Que somos breves e nunca
fartos,
por mais densa que seja a felicidade
de hoje,
       ainda maior
que a de Salomão em toda a sua
glória,
porque esta felicidade já vivemos e necessitamos
da felicidade de amanhã, do depois
impossível,
pois a vida
já se vai,
se vai.


   Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 130 - 131.
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   " Outro Dia "


Que tudo se vá
e não volte mais.


Nem como distante
névoa de lembrança.


Que tudo se finde
e só reste cinza.


Da autêntica - sem
trapaça de fênix.


  Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, p 98.
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09/08/13

Urbano Tavares Rodrigues ( 6/12/1923 - 8/8/2013 )

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   Vários têm sido os escritores que me têm marcado, uns pelas características da sua obra, outros pela sua forma de olhar o mundo, outros ainda pela grande lição de vida que todos os dias nos mostravam.
   A primeira vez que me encontrei com Urbano Tavares Rodrigues (aliás, eu dirigia-me sempre a ele por "Professor": a minha geração é ainda daquelas que sempre respeitou as gerações anteriores!) foi numa noite em que a Isabel Aguiar e o marido decidiram comprar bilhetes para irmos todos ver o "Saraband" de Bergman. Foi uma noite muito agradável: durante o intervalo, o ilustre professor deu-me logo uma lição acerca da relação entre Bergman e as cisões amorosas no romance francês do século XVIII. De regresso a casa, sentado no banco de trás do meu carro, o grande senhor explicáva-nos, com minúcia, o seu estado de saúde.
  Outros encontros se seguiram: conservo ainda as dedicatórias generosas que ele me escreveu no seu livro de poesia publicado pela Asa, no seu "Eterno Efémero", etc. Mas conservo sobretudo na memória a última vez em que conversámos: eu estava a organizar "O Prisma das Muitas Cores", quando lhe liguei, ao fim de algum tempo, ouço: " Já pensava que o Victor se tivesse esquecido de mim!" Esta foi uma das maiores lições de grandeza que este senhor me deu!  Esta simples frase! Fui então a sua casa buscar a sua colaboração para a Antologia, ele, com uma alegria sóbria, fez questão de me ler primeiramente o seu "Barranco de violetas"... Eu, naquele momento, senti-me minúsculo! Acabámos depois falando de amigos comuns que ambos admirávamos, sobretudo da Ana Sampaio e da Graça Pires. Depois, com a maior das simplicidades, disse-me que estava cansado e se eu não levava a mal que ele não me acompanhasse, pelo seu extenso corredor, até à porta. Era assim Urbano Tavares Rodrigues: ilustre académico, grande escritor, espírito atento e de uma extrema lucidez, mas também um homem a quem a fama nunca afectou e que foi para a minha geração uma lição de vida e de coerência. Num tempo de artifícios, de celebridades plastificadas, de vulgarização da mediocridade, acabou de partir um grande senhor, um autêntico aristocrata, no sentido socrático do termo.
  Até sempre, Professor!!!
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                                         " O expresso das dez e trinta e dois "
 
 
  O homem tinha adormecido. O despertador do telemóvel não tocara, ou tinha tocado e fora ele que não ouvira. Andava cansado, sim, talvez fosse isso! E já não ia ter tempo para tomar um duche... puxou apenas uns calções que andavam por ali, uma t-shirt, escovou os dentes à pressa e lá saiu ele de roldão. Desceu as escadas a dois e dois com os braços ajoujados de livros, jornais, revistas... Estava atrasado! Mal pôs os pés na rua foi logo de encontro a um jovem, que, com ar nervoso, se amparava à frontaria do prédio. Era um rapaz de pouco mais de vinte anos, t-shirt branca em V e calças verdes acastanhasdas, enfim, um não sei quê de negligência trabalhada. Procura alguma coisa?, perguntou-lhe o homem. Vinha tirar fotografias, estou à procura de um Estúdio, de um Laboratório de Imagem, respondeu o rapaz. Ah, meu caro, a única coisa com boa imagem aqui no prédio sou eu!, respondeu o homem, agressivo. O rapaz olhou-o: barba de três dias, pele gordurosa, ténis desapertados, calções a berrarem à t-shirt, papelada a espreitar por tudo quanto era lado... E lá ficou o rapaz ainda mais confuso: talvez o homem fosse um louco em fase de reabilitação?, deve ter pensado.  Olhe, tenho de tomar já já uma bica, disse o homem enquanto entrava no café. O rapaz segui-o: é que o meu GPS diz que o Estúdio é aqui. A mulher do café apanhou ainda a parte final da conversa e decidiu avançar: ah, ainda bem que encontrou o sotôr, ele ajuda-o já! O rapaz estava cada vez mais baralhado, começou a ver as lombadas dos livros, mexeu nas revistas e decidiu ser preciso: deu o nome da rua, o número... Ah, meu caro - disse o homem - deite o GPS fora, isso é quase no outro extremo da cidade, por acaso até vou para lá. Olhe, está a ver - disse a mulher - o sotôr até lhe pode dar uma boleia! O rapaz ficou nervoso, assustado mesmo. O homem, indiferente, começou a tomar o seu cafézito expresso das dez e pouco. O dono do café, não satisfeito com a confusão, atirou outra acha para a fogueira: aceite a boleia do sotôr, aceite, olhe o último que aceitou uma boleia dele nunca mais apareceu! O homem, que estava a beber o café, não se conteve: deu uma gargalhada de tal modo que o café até lhe saiu pelo nariz. E foi mais ou menos aqui que o rapaz percebeu que tudo era um jogo, que estava em pleno centro de uma peça de teatro. Ó senhor Pedro, disse o homem, não diga isso... aqui o jovem já me deve ter por antipático e arrogante e depois do que está a dizer... O rapaz interrompeu abruptamente o homem: por acaso até aceito a boleia, eu até estou atrasado! Olhe, depois não diga que não o avisei, insistiu o dono do café a rir. Rimo-nos todos. Não repare no carro, disse eu enquanto caminhavamos, não é lavado há três milénios. Quando atirei a livralhada e os papéis para o banco de trás, o rapaz atirou-me ele também mas com a pergunta sacramental: o que é que faz? Eis-me apanhado!: escrevo umas coisitas... aí para uns jornais. É jornalista? Insistiu ele. Sim, menti. O telemóvel dele tocou e eu ouço-o: sim, já sei onde é, um senhor ensinou-me, dentro de vinte minutos estou aí... O rapaz entrou no carro. Quando me chamam senhor sinto sempre que tenho trezentos anos, esclareço-o. Era a minha mãe, que queria você que eu lhe dissesse? Ok, ok, tudo bem!, rematei. A propósito: qual é o seu nome? Insistiu ele. Estou feito!, pensei. Dei-lhe o meu primeiro nome, mas ele não se deu por vencido! Olhe eu vou tirar fotos, chamo-me X. e estou na Companhia de Dança Y, vá, agora é a sua vez. Tentei ainda iludir a resposta: falei-lhe do tempo em que tinha pachorra para assisitir a tudo o que era estreia: Teatro Camões, Teatro Nacional, S. Carlos, etc. O Victor foi amigo da A.? Perguntou-me ele com os olhos esbugalhados. Fui não, sou!, mas ela aposentou-se... aquilo era uma miséria, nem dinheiro havia para as sapatilhas. E calei-me. Hum, você está a mentir-me!, rosnou ele, qual é o resto do seu nome... vá, diga! E sabe porque é que eu sei que está a mentir, é que eu já li coisas suas...Você mentiu-me e eu não menti! Pronto, fui apanhado - encenei um sorriso - qual é a pena? A pena é... é... - e fingiu indecisão - já sei, a pena é ir assistir à minha estreia. Se tiver tempo, tento fugir eu. Se não tiver, vai ter de arranjar, não se esqueça que eu agora sou amigo dos donos do café. Mas... temos pressão? Sim, temos... ah, e não me deixe à porta do Estúdio, não quero que me vejam! Adoro histórias de espiões! remato, cínico. Estaciono ao fundo da rua. Um silêncio enorme. Já não me está a apetecer ir para a sessão de fotografias... e se eu não fosse? Vá, vá-se lá embora, vá-se embora que eu também estou atrasado. Já cá fora, e pela janela do carro, o rapaz estendeu qualquer coisa ao homem... eu não consegui ver bem o que era, mas ainda o ouvi dizer: a propósito, quando estava a arrumar os livros no banco lá atrás deixou cair isto. E o rapaz estendeu qualquer coisa ao homem. Empertiguei-me para ver o que seria, mas, confesso, não percebi bem, suspeito que era um papel com um número de  telemóvel. Suspeito não, tenho a certeza! Essas coisas percebem-se pela forma como os carros recomeçam a andar.
 
V.O.M.
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07/08/13

 
 
Não pronuncies a palavra esperança
ela está fora de ti é vã quando não sabemos
dos círculos que traçamos com o corpo
 
inventa um animal e dança com os passos
suspensos de todas as formas exactas, respira
se necessário cai, cai sem medo
o erguer recomeça sereno
 
anela os afectos sempre que tocares
uma árvore uma flor a água
envolve-te neles profundamente
como se Deus fosse a urgência do Amor
 
tudo o que sabes é um anel que cresce
sem que possas antecipar a ave
que vai migrando nos teus olhos
haverá um momento iminente em que estarás
por detrás do olhar sabendo
que o corpo é uma encruzilhada do tempo
nele os sinais modelam um mapa legado
em cada acto presente
 
colhe o futuro nesse momento
 
 
   Rosa, Gisela Ramos. Tradução das manhãs. Póvoa de Santa Íria: Lua de Marfim Editª, 2013, p 23.
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05/08/13

 
 
  Na realidade, necessitava de uma obra poética para corrigir o destino e mostrar-me diferente daquele ser que um dia figuraria nas biografias oficiais. No íntimo sabia que nada do que escrevia mudaria coisa alguma, mas, por meio de poemas, o meu sofrimento organizava-se, fazendo sobressair as minhas paixões e os meus remorsos. Exprimindo-me por metáforas, limando a última estrofe, a dor decantava-se, mas pouco do que passava a escrito me alcançaria com verdade. Aqueles cantos não deixavam de me desgostar, sabendo eu que sempre se perde o essencial no momento de os escrever. Por entre as matizes da exaltação gloriosa ou da agonia, o meu genuíno pesar era o que não aparecia em verso.
  Cada vez que escrevia uma linha poética corrompia a integridade das minhas mágoas. Era fácil reconstruir as derrotas como a história de um rei letrado que desejava ser perdoado. Era fácil e não passava de uma manobra ignóbil. Havia muitas outras coisas que poderia ter feito de forma a não acabar os meus dias a escrever poemas aos corvos de Aghmât.
  Pouco a pouco habituara-me à ideia de vir a perecer entre as quatro paredes daquela cela. Pensava frequentemente no suicídio como uma libertação, mas não desejava deixar aos meus filhos a recordação desagradável de um rei cobarde, incapaz de suportar mais um martírio. (...) Respirava ainda, mas a única prova de que estava vivo era aquela infinidade quase indestrinçável de pensamentos, sensações e gestos que se bastavam a si mesmos, sucedendo-se uns a seguir aos outros no apertado espaço do cárcere.
 
 
     Silva, Ana Cristina. Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid. Barcarena: Ed. Presença, 2010, p 164.
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04/08/13


 
   Não tardou que os boatos acerca da natureza da minha relação com Ibn Ammar se multiplicassem, tendo chegado aos ouvidos de meu pai. Esses rumores quase provocaram a minha desgraça. As intrigas diversificavam-se, parte do falatório, tendo fundamento, era empolado até níveis absurdos. Acusavam-me de blasfemar contra o Alcorão, de me embriagar com o meu amigo e de me envolver em peripécias amorosas de teor duvidoso. Por meias-palavras faziam-me a injúria de divulgar que me submeteria a todos os caprichos de Ibn Ammar. Nesse ponto as dúvidas aprofundavam-se, tendo sido posta a circular a suspeita de que partilharia com ele repugnantes intimidades. O meu amigo deixava de ser um obscuro comparsa de deboche, onde participariam mulheres de má fama e escravas cristãs, para se transformar no protagonista de uma pérfida influência.
   O emissário do meu pai chegou a Silves quando eu estava prestes a fazer dezoito anos. Eu podia ser o príncipe herdeiro, mas ele recebera ordens directamente do emir e escusou-se a escutar os meus argumentos. As suas ordens eram muito claras: deveria regressar imediatamente com ele à corte de Sevilha. Era aguardado no espaço de uma semana. Apenas consegui que Maha, grávida do meu primeiro filho, me acompanhasse nessa sentença de exílio.
   A minha entrega a Ibn Ammar tinha a sua inocência; era quase tão frágil como qualquer paixão. Sofri muito por não saber se os afectos resistiriam à separação. Ele riu-se do meu jeito infantil de fazer beicinho naquela madrugada fria em que nos despedimos. Aquela amizade - era nesses termos que nomeava os meus sentimentos - começada de forma tão invulgar, enriquecera-me como nenhuma outra. Foram estas as palavras que usei para lhe explicar como dava valor à nossa relação. Abraçámo-nos uma última vez antes de montar o meu cavalo. Revejo a sua cabeça inclinada como que numa vénia trocista, olhos que me observavam sob um véu de ternura, exibindo, no entanto, uma espécie de alívio por me ver partir. Já me afastava quando me lembrei de que Ibn Ammar deixaria de ter quem provesse ao seu sustento. Voltei atrás e, evocando já não sei que pretexto, dei-lhe à socapa todas as moedas de ouro que trazia comigo. Aproveitando a oportunidade, ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou: "A nossa história não acaba aqui, mesmo que por agora nos separem e cada um siga o seu caminho." A afirmação continha qualquer coisa de profético, uma espécie de entendimento secreto, cujo alcance ultrapassava a própria vontade de cada um.
 
 
  Silva, Ana Cristina. Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid. Barcarena: Ed. Presença, 2010, pp 57 - 58.
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03/08/13

 
 
   Naquele Natal, depois da conversa com Nuno, a angústia foi mais forte, o peito doeu mais, tinha perdido uma oportunidade de dar uma volta à minha vida, de ter mais um amigo e, por via disso, encontrar alguém com quem pudesse ser feliz, expressão esta que se usa aqui por falta de melhor, o que é ser-se feliz, é-se feliz ou têm-se momentos felizes, na altura não sabia, tinha vivido muito pouco ainda, hoje sei que se têm momentos felizes, a felicidade como estado de espírito permanente é uma mentira, uma impossibilidade, não se pode ser feliz cada segundo de um dia, há um copo que se parte e espalha água por todo o lado, há um telefonema de alguém que não se cala, há uma dor de cabeça, há um momento de ansiedade, há um gesto infeliz, portanto a felicidade é uma fantasia boa para as novelas e os anúncios de televisão, veio isto a propósito do meu desejo de encontrar alguém com quem pudesse partilhar momentos felizes, quem não o deseja, afinal, mas a cobardia da minha atitude para com Nuno adiou essa possibilidade.
 
 
   Lima, Joaquim Almeida. Ensaio sobre a Angústia. Lisboa: Gradiva, 2012, pp 76 - 77.
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02/08/13


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"Paixões Proibidas" (Two Mothers, 2013) é o novo filme da luxemburguesa Anne Fontaine baseado num conto da escritora britânica Doris Lessing (Prémio Nobel, 2007). Filme arrojado sobre o amor, a amizade e o poder, Two Mothers é um poderoso testemunho sobre o que une os seres humanos ou sobre aquilo que os poderá também desunir, esta obra é igualmente um corajoso afrontar de vários dos padrões da conformidade veiculados pela moral burguesa, que dogmaticamente se firmam como modelos normativos da ação ético-moral. Nesta película, duas amigas de infância - Lil (Naomi Watts) e Roz (Robin wright) - acabam por, anos depois, se apaixonar pelos filhos uma da outra - Ian (Xavier Samuel) e Tom (James Frecheville) -, este relacionamento, claustrofóbico e obsessivo, começa a desmoronar-se quando Tom se envolve com uma jovem da sua idade. As duas mulheres decidem, num rasgo de lucidez perante um envelhecimento que se avizinha, cortarem cerce a situação. Os dois jovens casam, têm filhas e lá vemos, então, as duas famílias "felizes" a caminho da praia com as duas "jovens-avós" mimando as netas. Tudo estaria "normal", tudo estaria equilibrado e bem arrumado nas prateleiras do socio-moral, tudo seria o melhor dos mundos não fora apenas uma coisa... uma coisa pequeniníssima, ínfima mesmo: é que nisto da atração entre os seres a vontade e a razão, por mais cenários que montem, contam muito pouco: Tom volta a reatar a sua relação com Lil, o filho desta, por sua vez, assedia Roz... e um dia as jovens esposas acabam por descobrir tudo e abandonam os maridos levando as filhas, o que, aliás, parece aliviá-los, sobretudo a Ian... Naquele círculo fechado, confirma-se: não cabe mais nada a não ser essa qualquer coisa de que os quatro não conseguem, nem querem, libertar-se, e que os puxa para um universo solar, uterino (a presença do mar e do sol é recorrente!) e onde apenas o presente conta (Ian chega mesmo a prometer a Roz, ante os pedidos dela, que jamais a deixará envelhecer!)... Doris Lessing é, decididamente, uma das minhas romancistas, e o filme é um arrebatado momento poético. A não perder!
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23/07/13


  Hoje acordei muito angustiado, o peito a doer com a dor surda que dificulta a respiração, a ferida da alma a sangrar, hoje é Domingo.
  Já se sabe que o Domingo é o pior dia, muitas vezes o sofrimento mental começa logo no Sábado à noite, antecipando o dia infernal que lá vem, Pedro sabe que é o dia em que preciso mais da atenção dele, dos carinhos, da voz, preciso muito da voz dele, das mãos, do sorriso, nunca fazemos amor ao Domingo de manhã porque ambos sabemos que o meu pensamento está imerso em angústia e dor.
  Acordo sempre muito cedo e levanto-me de imediato porque se fico na cama a angústia vai aumentando rapidamente, não acordo Pedro porque preciso de viver sozinho a angústia por algum tempo, tomo a medicação de rotina (...) um pensamento desvairado, sem travões, vem à cabeça um pouco de tudo, porquê este sofrimento, porquê eu, porquê ainda, passados quarenta anos, porquê ainda, tendo o colo de Pedro há vinte anos, porquê ainda, quando já nada escondo a ninguém, sinto um enorme cansaço mental para o qual não encontro descanso, e hoje não me apetece sair de casa, não consigo ler (...). Estava a pensar que a memória é o nosso pior inimigo, Pedro, era tudo tão mais fácil se não nos lembrássemos de nada, passou, passou, mas ela insiste em nos lembrar dos piores momentos, e, o que dói ainda mais, dos melhores momentos, quando se está angustiado como eu estou, a recordação das coisas boas aumenta a angústia, que bom que foram aqueles tempos, aquele dia, aquela noite, e vem então o medo, o terrível medo de que não haja mais bons momentos, de que o futuro não exista, que só haja algo muito negro e sem qualquer sentido, que nos aponta, sorrindo, o caminho da loucura.
  Pedro ouviu-me com uma expressão aflita, ouve-me sempre assim como se fosse a primeira vez, ele sabe melhor que ninguém o que eu sofro, mas também sabe que tudo seria muito pior sem ele...
 
  Lima, Joaquim Almeida. Ensaio sobre a Angústia. Lisboa: Gradiva, 2012, pp 64 - 65.
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22/07/13

 
 
  Os cabeças rapadas.
  Tinham jantado na Outra Banda. Em casa do Gaspar, que ia assentar praça em Tancos.
  Ao café, lembraram-se dos Dogue Dócil. A vocalista e o namorado eram amigos de alguns deles. Xonas, Ferra, João Cigarra.
  - Vão tocar às Palmeiras.
  - E o estupor deixa a chavala ir lá?!...
  - Um coio de blacks!
  - Monhés...
  - ... de maricões a enrabarem-se uns aos outros!
  Mais! Propaganda vermelha e antimilitar. O Ferra tinha um dos mangas debaixo de olho.
  - Mais do que um!
  O gajo que aparecia nas esquadras e no SEF, logo que lhe cheirava a brancos malhando nos pretos. E outro.
  Um cota que, há quinze anos andava nisso dos SUVs! Tem uma miúda portuguesa, mas anda sempre de mistura com cabo-verdianas...
  Tudo o que fosse galdéria de cor.
  - Bora lá, Ferra!
  - Bora!
  Passou a faca ao João Cigarra. E a recomendação: ter presente o que se treinara, nessa tarde.
 
  O Alex avistou-os, pelas janelas do salão. O João Paulo pelas do primeiro andar.
  - Dois gajos à porrada com a nossa malta... já quase cá dentro!
  E a rirem-se dos bocados de mangueira que o Zé tinha na mão.
  - Atirei-lhes lá de cima com uma cadeira...
  Despedaçara-se no chão, sem atingir ninguém.
  E o João Paulo metera pelas escadas. Sem saber como, trespassara a confusão que ia no patamar.
  - Chego cá fora, e o Zé...
 
 O Zé da MESSA tombado rente à parede.
(...)
  O Ferra com um bocado da cadeira na mão, a querer acertar-lhe na cara. E ao mesmo tempo, a dar ordens: "Pisguem-se! Todos!... Uns para o Terreiro do Paço, outros para Belém!..."
  Gorros enfiados à pressa. "Lembrem-se: ninguém tinha estado aqui antes!... Nem conhecia o gajo que levou a naifada!"
  As Dr. Martens batendo a calçada em todos os sentidos.
(...)
  Ah! Mas o que nunca se esquece.
  A ambulância a caminho do hospital. São José era já ali, virando, subindo.
  "O Zé ao meu lado..."
(...)
  Mas ainda gritou: "bute daí!"
 
  "Bute lá, Zé!"
 
 
     Beja, Filomena Marona. Bute daí, Zé! Lisboa: Sextante Editora, 2010, pp 245 - 248.
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  O sobressalto pelo telefone. Havia carros de combate, hesitando nas ruas que desciam para o Terreiro do Paço. Que subiam para o Carmo.
  Quem costumava ligar a rádio dera pelas canções, Paulo de Carvalho, José Afonso.
  E pelo repetir de um comunicado: "Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas..."
  O anúncio de que alvorecia. O aviso de que toda a população se deveria manter em casa.
  Mesmo assim, saíra-se a comprar pão. Favas, que já se estava no tempo delas. E pouco mais, porque o mês ia no fim.
  Quanto às obrigações do costume, quase ninguém se metera a caminho.
  "Não abri a loja", "Não fui pegar às oito, na oficina". Nem os garotos tinham ido à escola.
  Expressões de orgulho. Das que, mais tarde, preencheriam o recordar dessa manhã.
 
  E os momentos de que já ninguém fala?
 
  Resta, apesar de tudo, o direito à memória. Sim. Mercê de não se terem acatado certos avisos.
  Principalmente, ter-se sido rápido a decidir. Tal o fotógrafo que, pelo meio da madrugada, foi ao encontro de Salgueiro Maia.
  Fernando Salgueira Maia, Capitão de Cavalaria.
  O fotógrafo: Alfredo Cunha, d' O Século.
  Um ia em trinta anos. O outro, nos vinte.
 
  Ribeira das Naus.
  A fragata Gago Coutinho rumando ao Cais das Colunas. E os blindados de Ferrand d' Almeida frente aos de Salgueiro Maia.
  De trás de um chaimite, veio o rapaz-fotógrafo. Disparou. Registou o capitão persuadindo um tenente-coronel a render-se.
  Logo a seguir, outra fotografia: o capitão dando ordens à Polícia. As primeiras.
  Depois, a série que descreve Salgueiro Maia a chegar com os seus duzentos e quarenta homens ao Terreiro do Paço. E a encontrar desertos os gabinetes dos Ministros.
  Lembramo-nos, pelas fotografias de Alfredo Cunha.
  Também pelas de outros. Claro.
 
  A Cidade, porém, não ficara vazia.
  Muita gente chegava à janela. Vinha para a rua. Perguntava se aquilo se estava mesmo a dar. Se era verdade.
  - E eles?...
  O tempo de salpicos não ajudava. Chove? Não chove? Mas também não dissuadia fosse quem fosse de se pôr a caminho da Baixa.
  A Polícia já não conseguia que, do Cais do Sodré à Doca da Marinha, as praças e as ruas se mantivessem isoladas.
 
  Beja, Filomena Marona. Bute daí, Zé! Lisboa: Sextante Editora, 2010, pp 94 - 96.
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20/07/13

 
 
"Dentro de Casa" (Dans la maison, 2012) é o penúltimo filme de François Ozon, que em 2013 apresenta já em Cannes o seu "Jeune et Jolie" onde lança a jovem Marine Vacth. A obra de Ozon conta com alguns filmes de culto como "8 femmes" e "Le temps qui reste", onde importantes nomes do ecrã são chamados a ótimos desempenhos. Em "Dentro da casa", grandes actores como Fabrice Luchini (Germain, o professor de literatura), Kristin Scott Thomas (a mulher de Germain) e Emmanuelle Seigner (a mãe de Rapha, um amigo de Claude) têm excelentes interpretações. A grande revelação é, sem sombra de dúvida, a de Ernst Umhauer no papel de Claude. Este filme, baseado na peça "El chico de la última fila" do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, situa-se no entrecruzar de vários géneros: o suspense, o melodrama e mesmo a sátira social, pois não nos podemos esquecer do olhar mordaz e cínico que Claude imprime aos seus relatos (as suas redações) quando descreve a família Rapha, cuja figura feminina é frequentemente referida de forma pejorativa como "a mulher da classe média". Tem a crítica assinalado duas influências importantes nesta película: "A janela indiscreta" de Hitchcock e "Teorema" de Pasolini, contudo, a minha leitura é ligeiramente diferente: a influência de Pasolini é mais formal do que de conteúdo, isto é, o herói do realizador italiano é um angustiado, um ser colocado no aberto da existência que nada pretende nem goza, e, se atendermos às concepções religiosas de Pasolini, quase se poderia dizer que estamos ante um anjo que anuncia, ora, Claude é exactamente o oposto. Claude é um manipulador, um perverso que colhe prazer no jogo e no domínio, esta personagem de Ozon, ao contrário da de Pasolini, nunca chega a partir (ver final do filme!), ela fica com a sua vítima porque precisa dela, deixar partir a vítima seria condenar-se a si próprio ao nada que suspeita ser. A construção da personagem de Ozon nada tem a ver, portanto, com a de Pasolini, também magistralmente interpretada, mas por Terence Stamp.
Por tudo isto, para mim, "Dentro de casa" não é apenas um filme sobre o voyeurismo, mas é, sobretudo, uma obra sobre a manipulação do outro e o domínio: Claude, um jovem de dezasseis anos
("loiro e tímido" como o descreve a empregada da secretaria da Escola!), introduz-se em casa de um colega de turma (Rapha), selecionado de forma gratuita, e a partir da observação directa dessa família vai tecendo uma teia de relatos que vão prendendo, cada vez mais, a atenção e o interesse do seu professor de literatura. Claude, para atingir os seus objectivos, cilindra tudo o que se lhe atravessa no caminho: ridiculariza Rapha, mantém um caso com a mãe deste, destrói a carreira profissional do professor, destrói igualmente o seu casamento já que chega ao ponto de ir para a cama com a mulher do professor... e, por fim, os seus objectivos (a certa altura do filme ele diz mesmo para Germain: eu sou como a Sherezzade que vai contando histórias para prender a atenção do sultão!) são conseguidos: o professor (em estado de depressão)! internado, desprotegido e ao seu dispor é completamente contaminado pelo seu voyeurismo. Claude tem, finalmente, à sua disposição, alguém com quem pode dialogar acerca de tudo, mas, principalmente, acerca das ficções que constrói a partir do que vai observando através das janelas. "Dentro de casa" de François Ozon é um filme brilhante!
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15/07/13



Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de

repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.


   Pedreira, Maria do Rosário. Poesia Reunida. Lisboa: Quetzal Editores, 2012, p 172.
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14/07/13

 
 
 
Ari tem cabelos aloirados e encaracolados e pés pequenos. Usa botas demasiado grandes para os seus pés para que ninguém repare que tem pés de cabra, pés demasiado pequenos, demasiado minúsculos. O cão nota a aproximação de Rosa, levanta-se e ladra. O pastor ergue-se e encosta-se a um sobreiro. Tira um cigarro e acende-o. Rosa aproxima-se. Traz um saco com arroz e um sorriso. Parece feliz, e o pastor sorri para dentro. Não o faz para fora para não perder o charme. Encosta um dos pés à árvore e dá três passas de seguida no cigarro, semicerrando os olhos enquanto olha para Rosa. Com o indicador dá um piparote no cigarro deitando-o fora. Rosa chega ao pé dele ofegante e bem-disposta, pousa o saco e atira-se para os seus braços. Ele estremece, mas faz-se viril e nem sorri, apenas se penteia. (...) Ele limpa a boca à manga da camisa aos quadrados e agarra-a pela cintura, derruba-a, cai em cima dela como um pôr-do-sol, levanta-lhe a saia e tenta tirar-lhe as cuecas. Não é fácil e acaba por sentir algum embaraço com a sua falta de jeito, especialmente porque Rosa se queixa de que ele a magoa, de que é demasiado bruto.(...)
  O pastor não percebe aquela antipatia. Gosta da natureza e da selvajaria que o cerca. Não se incomoda com os cheiros, com a sujidade, porque é isso que é a natureza, um lugar sem higiene nenhuma, cheia de bichos e de terra e de coisas desorganizadas. É o oposto dos jardins e das cidades e das hortas e do cimento. A natureza é o maior inimigo do homem civilizado. Mas o amor pode muitas coisas e, desde que se deita com Rosa, Ari passou a tomar banho quase todos os dias, ou pelo menos uma vez por semana.
- A minha avó está muito doente.
- Está velha. Não há nada de mal nisso.
- Tenho medo de ficar sozinha.
- Eu estou aqui.
- Não é a mesma coisa.
- Eu não morro.
- Não morres?
- Não morro. Que é para não te deixar sozinha.
- Toda a gente morre, Ari.
- Eu não.
 
 
     Cruz, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Carnaxide: Santillana Editores, 2012, pp 104 - 105.
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- Olha, trouxe bolinhos de canela - diz Rosa.
  Ari está com os olhos cheios de montanhas e flores da Primavera e não ouve nada, pois os olhos repletos de coisas dão cabo do que se ouve.
- Trouxe bolinhos...
  Ari levanta-se e sorri, pega em três ou quatro de uma vez e empurra-os para dentro da boca.
- Não sabem a canela.
- Estes não sabem.
- Não há bolos de canela que não sabem a canela.
- Claro que há. Tal como há pessoas velhas que morrem novas e há horas que passam em segundos e há sonhos que acontecem quando estamos acordados, há bolos de canela que não sabem a canela.
(...)
- Queres acasalar? - perguntou Ari.
  Rosa acha que "acasalar" é uma palavra esquisita.
- Isso é por trás?
- Como é que preferes?
Rosa não sabe responder e diz:
- Gosto quando está sol.
 
 
  Cruz, Afonso. Jesus Cristo bebia cerveja. Carnaxide: Santillana Editores, 2012, 153 - 154.
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13/07/13

 
 
(...) só pensavam em dinheiro, nada sabiam de amor, comentava Rhema, eu desculpava-os, era o meu povo, a vida não os ensinara a seguir o amor, só o dinheiro, desejavam reencarnar numa casta superior, aquela que eu desprezara, não contemporizavam com frangues exóticos, olhavam para mim com o olhar de piedade dos ricos, o mesmo que inúmeras vezes vira soltar dos olhos do meu pai, eles, mais pobres do que eu, carecidos de um grande amor, o que nos sustentava era o arroz e o caju, tínhamos clientes certos no mercado de Pangim, abastecidos pelos furgões, o Augusto não vendia o arroz e os cajus a mais ninguém, orgulhava-se dos seus clientes de Pangim e não lhes dava troco quando lhe perguntavam o que fazia ali naquele sertão numa comunidade sem nome, isolado, no meio de gente rude, o Augusto levantava a mão, sorria com um sorriso bonito, nada dizia, eles percebiam, os portuguses tinham sido expulsos em 1961, o Augusto quisera ficar, isolara-se, longe das cidades, apiedavam-se dele, passavam-lhe a mão pelo cabelo, cumprimentavam-no à europeia (...) o Augusto abria as mãos, dizia, é aqui que me sinto bem, ao pé da minha mulher, e apontava para mim, acocorada à entrada do nosso casinhoto de taipa, descascando feijão, quando a Sumitha tinha dois anos um goês de Ribandar ofereceu uma grossa quantia pela menina, o Augusto expulsou-o a murro do nosso terreno (...) no final delirava, chamava-me Rosa, Rhema presumiu ser o nome da mãe dele, esclareci-lhe, não, era o nome da mulher que Augusto deixara em Lisboa, Rhema percebera quando Xavier a procurara recentemente, dizendo-lhe ter chegado a Goa um filho do Augusto, Rhema nunca desconfiara, nunca o marido lhe dera um indício de ter sido casado, amou-me muito, disse Rhema, tudo trocou por mim, conforto, dinheiro, cidade, crença, mas não imaginei que também tivesse trocado a mulher legítima pelo meu amor...
 
 
   Real, Miguel. O Feitiço da Índia. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2012, pp 320 - 322.
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12/07/13

 
 
  Os empregados do Churchill Palace Hotel desculpavam-se, Bombaim era um estaleiro, modernizava-se, os novos arruamentos ganhavam passeios, candeeiros de luz eléctrica, portarias que garantiam o asseio, polícias de farda creme, bombas de água para incêndios, caixotes de lixo municipais, mas eu assemelhava Bombaim a uma cidade sobrevivente de um terramoto ou de uma guerra civil, Hassan mostrara-me os subúrbios, vislumbrava tendas cinzentas, filas de tendas, como um acampamento militar, pressupunha que cada tenda albergaria uma família (...) as faces resignadas dos eternamente pobres, os filhos passivos presos entre os panos das pernas, seres condenados ao opróbrio e à miséria, Hassan parava, eu olhava demoradamente, contemplando aquele bando de maltrapilhos que, no campo ou na cidade, há três mil anos assim vivia, manipulado por rajás, marajás, brâmanes, samorins, reinetes, republicanos, socialistas, capitalistas ou comunistas, há três mil anos nasciam pobres, viviam miseravelmente e morriam desgraçados, amaldiçoados pelo destino. Insone, saía à noite do hotel, buscava lugares frequentados por europeus, a mole imensa neogótica de pedra e mármore da Estação Central, os imóveis da universidade, o vão da Porta da Índia, onde chusmas emporcalhadas de indianos adormeciam todas as noites, cobertos por cartões de supermercados europeus (...) arrumavam-se uns contra os outros, buscando no corpo alheio o calor interior que em cada um fenecia, trocando sémen e suor, recalcando no sono a vida malbaratada, bandos de crianças andrajosas invadiam as ruas pela manhã, pés nus, trapos rotos, narizes ranhosos, olheiras de adulto, mãos negras de fuligem e carvão, ofereciam-se aos brancos e indianos proprietários de vendas e lojas, faziam tudo, recados, arrumações, carregos, cosiam peles ensanguentando as mãos, transportavam tijolos, carvão, pranchas de teca do triplo do tamanho do seu corpo, batiam punhetas e faziam broches, levavam e iam ao cu em troca de um pão com goiabada, um púcaro de café, um prato de arroz com caril, uma coxa de frango tandoori, assaltavam casas e lojas, massacravam cães de rua, se preciso matavam, regressavam às famílias à noite, mortos de cansaço, arrastavam dez rupias na mão fechada com que a mãe compraria peixe e arroz para a família de sete filhos e pai defunto; crescidos estendiam uma esteira ou um pano velho de sari na rua, levantavam uma venda, vendiam pincéis de barba roubados durante a noite, giletes usadas, esferográficas de tinta seca, borrachas desgastadas, manuais escolares sublinhados, furtados aos armazéns do Estado (...) um motorista zanga-se comigo, eu zango-me com ele, viro-lhe as costas, zango-me com Bombaim, cidade extremada...
 
 
   Real, Miguel. O Feitiço da Índia. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2012, pp 114 - 116.
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  O Pacaça pôs mais café ao lume, a primeira vez que fui ao munhungu do Bairro Operário era o velho Jacques que tomava conta daquilo, foi na véspera de fazer doze anos, o meu pai escolheu uma preta e disse-lhe, dou-te o dobro do que vales para me transformares este rapaz num homem. Eu já sabia ao que ia e nos últimos dias não tinha pensado noutra coisa mas quando me vi no quarto com a preta fiquei tão assustado que não sabia onde me meter. Passado um quarto de hora o meu pai bateu à porta, isso vai ou não vai. Tive medo que a preta contasse ao meu pai que eu nicles pataticles, mas a preta respondeu como se estivesse afogueada, é mais homem do que muitos de barba feita, tem a quem sair, disse o meu pai satisfeito do outro lado da porta (...). Ficámos no quarto, eu deitado na cama a olhar para uma gaiola de papagaios que estava pendurada no alpendre e a preta a pintar as unhas e a contar-me histórias do quimbo onde vivia antes de o velho Jacques a ter descoberto e trazido para a cidade.
(...) Acordei com o meu pai a bater à porta. Nem vendo a minha cara ensonada desconfiou, um homem também se cansa, disse. No caminho para casa deu-me os conselhos que um pai tem de dar a um filho, os mesmos conselhos que mais tarde dei ao meu filho...
(...) Depois de me ter dado estes conselhos o meu pai nunca mais tocou no assunto e se se cruzava comigo no munhungu fingia que não me via. Era um homem bom, um homem respeitador, disse o Pacaça comovendo-se, um homem que me ensinou a respeitar toda a gente, brancos ou pretos tanto fazia. Era um homem dos que já não se fazem.
 
 
  Cardoso, Dulce Maria. O Retorno. Lisboa: Edições tinta-da-china, 2012, pp 202 - 204.
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11/07/13


 
  Sundu ia maié, sundu ia maié, puta que a pariu. Vou dar pontapés em todas as portas até chegar ao pátio do recreio, a puta da professora mandou-me para a rua com uma falta a vermelho mas eu vingo-me, quero lá saber que as contínuas refilem, ó menino isto aqui não é a selva, não é como lá de onde vens, aqui há regras, sundu ia maié, estamos a avisar-te menino, abro o peito e dou um pontapé noutra porta, conhecem-me de algum lado, olho as velhas bem de frente para lhes mostrar que não tenho medo (...) passo pela cantina e dou um murro no carro dos tabuleiros, só me falta bater com a mão no peito para verem que acompanhava mais com os macacos do que com leões, as velhas até saltam com o estrondo que o carro dos tabuleiros fez, se querem dizer mal dos retornados vou dar-lhes razões.
  A puta da professora, um dos retornados que responda, como se não tivéssemos nome, como se já não bastasse ter-nos arrumado numa fila só para retornados. A puta a justificar-se, os retornados estão mais atrasados, sim, sim, devemos estar, devemos ter ficado estúpidos como os pretos, e os de cá devem ter aprendido muito depois da merda da revolução, se for como em tudo o resto devem ter tido umas lindas aulas.(...) um frio do caralho cá fora, fecho o blusão, acendo um cigarro, meto-me no meu canto, se as contínuas não querem maca nem se atrevam a passar por aqui.
  Se não há pão dêem-nos brioches, o Sr. Acácio maldoso com os olhos nas mamas da D. Juvita. Dizem que o Sr. Acácio e a D. Juvita têm um caso e que se encontram na casa das máquinas ao lado da piscina (...). Também dizem que a D. Ester encomendou um trabalho à preta Zuzu para que o Sr. Acácio deixe de olhar para as mulheres. A preta Zuzu tem fama de fazer uangas e de lançar xicululos tão fortes que há gente que faz figas quando passa por ela. (...) a preta Zuzu não é grande feiticeira, o Sr. Acácio continua a andar atrás das mulheres...
   A puta de matemática pôs os retornados na fila mais afastada das janelas (...). Um dos retornados que responda, a puta nunca diz os nossos nomes, um dos retornados que responda, era o que faltava, nunca abro a boca, o retornado da carteira do fundo que responda, insistiu a gaja, estava mesmo a querer farra. Custa assim tanto decorar o meu nome, se me chamasse Kijibanganga ainda tinha desculpa mas Rui, porra, é um nome fácil (...). Mas não, o retornado aí do fundo que responda, é que nem que me tivesse arrancado as unhas e os dentes falava...
 
 
Cardoso, Dulce Maria. O Retorno. Lisboa: Edições tinta-da-china, 2012, pp 139 - 141.
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10/07/13

 
 
 
Continuavas sem roupa, atrás de mim. "Senta-te", pediste, "senta-te que eu sento-me também."
  E então sentaste-te e cruzaste a perna esquerda sobre a perna direita escondendo tudo o resto. Agora eu podia observar um corpo branquíssimo, tão branco que se percebia o delta de veias arroxeadas na barriga, nos braços, pelas pernas abaixo. Os raros pêlos dos braços e das axilas e das pernas eram avermelhados. Ficaste para ali, acendendo e chupando cigarro após cigarro, sem falar, o olhar vagamento atento, pousado que estava na janela em frente, de vez em quando olhavas para mim, também vagamente, até que disseste "gosto de estar à vontade quando estou em casa e o meu estar à vontade é estar sem roupa, sem sapatos, sem nada. Gosto de trabalhar assim, sem roupa. Não te importas de me ver assim, pois não?" e eu "mas por que é que me abriste a porta? Não era preciso. Eu acabava por ir-me embora..." (...) Os teus olhos azuis, aguados, cintilavam como cintila a folha de água ao receber algum raio de Lua, eram frios e penetrantes os teus olhos, desse olhar que tanto podia agasalhar como esfriar todo e qualquer sentimento.
  Oiço agora o barulho produzido por uma torneira com água a correr, oiço um fechar de gaveta e oiço outra porta a abrir "Está mais alguém cá em casa, não está?", perguntei e queria que a minha pergunta parecesse muito desinteressada e prática! Uma pergunta de ordem prática. Tão prática que não merecesse resposta. Mas tu, olhando para mim por entre o fumo azulado do cigarro e desenhando uma espécie de sorriso entre lábios, deixaste escapar qualquer som que percebi com muita dificuldade "sim, é verdade, está mais alguém cá em casa...".
  Olhámos neste exacto momento na direcção da porta da divisão onde nos encontrávamos (...) e tu "anda cá, João, quero apresentar-te esta minha amiga de sempre, já temos falado nela, não é? Hoje veio visitar-me!".
  Um homem ainda muito novo avançou sem sobressalto. Trazia uma caneca na mão direita e a mão esquerda segurava um pão entreaberto (...). Olhou para mim "olá, sou o João, vivo aqui há já bastante tempo".
  E eu "ah, sim?".
  E ele "quer um café aguado?".
  Tu continuavas sem roupa, precisamente na mesma posição (...) E eu levantei-me sem olhar. Olhei para o teu olhar azul que depressa se desviou do meu intenso olhar.
  "Desta vez, percebi!", disse-te, "vou embora. Não esperarei mais pelas tuas chegadas nem pelas tuas partidas."
  Inquietaste-te "mas, que se passa?".
  E eu "nada! nada!".
 
 
    Carvalho, Cristina. Marginal. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2013, pp 107 - 109.
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  Um dia segui-o. Pobre Bé! Fiz com que ele julgasse que eu tinha ido trabalhar. Era já muito tarde, umas onze, meia-noite, nem sequer me interessava as horas que eram, eu tinha gasto a noite naquilo, eu queria espiá-lo, queria saborear essa espécie de arrepio de conhecer o seu lado de homem em desespero, de homem sem mulher mas com mulher. Era Junho. Muitas pessoas passeavam no paredão, uns para cá, outros para lá, namoradas e namorados, casais muito compostos que aspiravam o ar do mar e se sentiam benzidos e abençoados por morarem em tão distinto local, por serem tão sérios, tão casados, tão singelos e unidos. Jamais lhes passaria pela cabeça que havia outros homens e que havia outras mulheres e que havia muito mais coisas para se fazer nesta vida que não fosse sempre esta mesma vida, esses arremedos de responsabilidades incolores, insípidas e inodoras. Muitos tinham um cão que os acompanhava. Muitos donos acompanhavam os seus cães. Para a frente, para trás, para a frente, para trás. Desconsoladamente. (...) dia e noite, dia e noite, dia após dia, noite após noite, até que um dia todos morreriam e todos dali desapareceriam.
(...) Pela esplanada passou uma ronda de polícias que a todos olhou de esguelha. Ainda pensei que o meu sogro os tivesse ali mandado à minha procura, mas depressa desviei o pensamento porque ideia mais idiota não podia ser. Como é que ele iria saber? Como é que ele iria desconfiar que eu estava ali a tomar fôlego e a fazer tempo para poder espiar, o mais à vontade possível, as traições do seu filho? A esta hora da noite estaria ele, o meu sogro, a lavar os dentes na casa de banho do seu quarto, com os pés enfiados nuns chinelos e já vestido de pijama. A minha sogra estaria na cama toda besuntada de cremes, limando as unhas ou fazendo deslizar o olhar por todas as esquinas do tecto (...)
  Do sítio onde eu estava via perfeitamente o átrio principal do salão de entrada com muita gente a conversar e também vi Bé encostado a uma das colunas centrais. Lá estava ele a fumar um cigarrito, a olhar para todos os lados (...). Eram altas, louras e lindas e ainda hoje me lembro do cheiro do seu perfume que marcou indelevelmente e para sempre as fronhas das almofadas...
(...) Portanto, tudo o que eu pudesse imaginar podia não estar a acontecer, podia não ser verdade. Imaginei-o, sim, vezes sem conta na nossa cama com elas e isso até me consolava, no fundo eu até gostava dessa ideia. Por várias razões e a principal razão era a razão dele.
  Pois é isso que eu digo: eu até lhe desculpo as putas, coitado! E percebo-o! Percebo!
 
 
  Carvalho, Cristina. Marginal. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2013, pp 66 - 69.
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- Ouve, Kate. Pára de procurar. Alguns de nós têm a necessidade de ir embora. É essa a nossa natureza.
- " and I followed the smell of the panther" - disse ela baixinho.
- Há coisas que não deixamos para trás, o nosso cão, alguns livros. Mas deixamos tudo o resto.
- Mesmo aquilo que amamos?
- Em especial aquilo que amamos.
- Eras capaz de me deixar?
- Sim.
Ela fechou os olhos. Estava nela também, embora não gostasse de pensar nisso. Era a sua natureza.
- Não se eu te deixar primeiro.


  Pereira, Ana Teresa. A Pantera. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2011, p 79.
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09/07/13



- É verdade que vais deixar o teatro?
- Sim.
- É difícil de acreditar.
- Quero uma vida tranquila.
Não, não é isso, pensou Kate. Não pode ser assim tão simples.
- O inferno é o que está escondido.
Ele ficou pensativo por momentos.
- Tem algo a ver com os demónios.
- Os teus demónios.
- Sim.
- E os das personagens.
- Chegamos a um ponto em que já não é possível separá-los.
- Estás com medo?
- Estou cansado.
- Estás com medo?
- Algumas vezes fico aterrorizado.
Era uma sensação que ela conhecia bem. Nos últimos anos, quando tentava escrever. Quando percebia que aquilo em que estava a trabalhar há meses não era um livro. Então o terror chegava. E separava-se lentamente de si mesma, e ficava a ver-se enlouquecer.
- Eu sei alguma coisa de demónios.
- Que idade tens?
- Fiz trinta e quatro o mês passado.
Ele ia começar a dizer qualquer coisa mas mudou de ideias.
- Pareces muito mais nova.
- Eu sei.
Mas não o sentira no dia do aniversário. Passara a tarde deitada na cama, a ver filmes antigos, filmes a preto e branco. E à noite fora a um pub do outro lado do rio, sozinha, e bebera quase até à inconsciência.
 
  Pereira, Ana Teresa. A Pantera. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2011, pp 17 - 18.
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03/07/13

Acerca de... ( XVII )


               " Forte o reencontro dos dois reinos... "
 
 
   Este pequeno livro começa com um jogo singular: o pólo dos afectos, celebrado nas dedicatórias, e o dos desafectos que os primeiros versos anunciam. Com efeito, as dedicatórias, talvez pelo facto de a autora destas linhas conhecer os afectos do autor, funcionam como marcações que nos informam sobre a intencionalidade textual: a representaçao de um mundo interior e intimista.
   Porém, este não é um sujeito lírico "tradicional", que expressa a sua angústia e se deleita nessa expressão: este é mais um sujeito enunciador que "informa sobre" o mundo à volta, em monologante diálogo com um interlocutor, pressentido, convocado, mas não manifestante. Estranhamente, porém, aproximando-se essa enunciação da de uma voz narrante:
 
Tinha pensado em fechar a porta.
Em trancar-me por dentro. A mim e à casa.
Ou talvez à vida - quem sabe, afinal,
deste jogo as indistinções mais frias?
Tinha pensado tanta coisa: que não
gosto de gente que fala alto,
daquela que corre de olhar vazio,
da que tece o lucro de suas ações
em torno de ações sem lucro, enfim,
tudo isso tinha eu pensado... (...)
 
   Desde um título que causa estranhamento - Gente Dois Reinos (junção de palavras que não produz expressão significante)-, logo de início se pressente essa dificuldade de equilíbrio entre o querer arrumar as ruínas do passado, qual "anjo da história" (1), encaixotando-o, e a circunstância de esse passado se impor na sua consciência e a entrar "porta adentro"; entre o voo da imaginação e o jogo da realidade que a existência impõe; entre o vivido e a sua memória que, para funcionar tem de ir "à busca de um tempo perdido" temperada por uma imaginação esquizofrénica, no sentido de Gilles Deleuze e Fálix Guattari (2), que encena a cisão do eu, multiplicando-o temporalmente, e  espacialmente, ao mesmo tempo que intenta a aproximação do "mil planaltos" da consciência humana. Tanto a imagem da porta quanto a do retábulo acentuam, na primeira parte, "Elementos", a circunvalação de um eu cindido: a imagem da porta - inicial, insidiosa e obsidiante - dispersa-se por todos os trechos do percurso de reconhecimento interior em que o sujeito assume a partilha ora entre um eu criança e o seu "duplo", ora entre "eu de hoje" e o "eu de ontem" (I/7) que entram em interlocução com o eu analista, afinal o sujeito enunciador, embora saibamos que "forte o reencontro daquilo que permanece" (II). Em todo o caso, a porta é ainda elemento que sinalizando defesa e protecção, sugere também abertura a outros cenários (inclusive o genesíaco, tão intenso no poema I/3) que constituem o modelo de um devir que é narrado, desde uma "busca uterina", para a qual, no entanto, o enunciador sugere a sua inaptidão (sempre por aquele outro interlocutor não manifesto, mas claramente o outro eu):
 
(...)  Mais tarde, muito
mais tarde, acusar-me-ias de inaptidão,
de incapacidades várias e envenenamentos
de uma narrativa há muito condenada;
 
   A memória dinamiza esse percurso rememorativo, tanto a do vivenciado quanto a do imaginário cultural, particularmente literário (com Proust disseminado pelo texto, também por via de Philippe Besson, mas ainda Frei Jerónimo Baía, Miguel Torga, Antonio Machado, Antonio Carlos Secchin), e a do imaginário histórico em que a figura de Dom Pedro II parece surgir como exemplo de desconcerto da moral e da ética na exposição das feridas históricas, seja pela sua existência política (a destituição e desterro do irmão, D. Afonso VI, a primeira usurpação) seja pela relação pessoal, familiar, afectiva (o casamento com a cunhada, Dona Maria Francisca de Sabóia, considerada a segunda usurpação), a gerar a intermitência da dissolução dos mapas morais e éticos:
 
 
(...)     Pedro com os cabelos revoltos, a mochila
a descair, as palavras umas atrás das outras; Francisca atenta
 
na sua dúplice paixão, as sílabas mitigadas, um agradecido
gesto ante a lealdade que continuamente vou tecendo, para lá
de tanta intermitência. Sonho a prontidão de um sonho imenso,
um território onde o verde irrompa e se dissolva numa qualquer
extensão de mim, indissolúvel luz a fincar presença na pavorosa
dissolução dos mapas.
 
 
   Longo poema em duas partes, a representarem os dois reinos elementares da consciência - o vivido e o imaginado, o privado e o público, o sensível e o histórico - que constroem a epopeia de um diálogo monologante entre um eu e o seu "duplo", este Gente Dois Reinos desafia a imaginação do leitor também na leitura da associação a estabelecer entre as partes: enquanto "Elementos" se compõe de dez partes (poemas?) que, em síntese, visam o complexo para nele buscar o veio da harmonia apenas para depois tentar o simples (I/5), nos quatro segmentos poemáticos de "Reinos" a lingagem ultrapassa a densidade existencial para ganhar em dimensão que convoca a vigília histórica. Por ela modalizando os meandros da existência.
 
 
(1) Cf. Walter Benjamin. "Sobre o conceito da História" (1940). Magia e Técnica, Arte e Política. Obras Escolhidas. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
(2) Gilles Deleuze e Félix Guatari. Mil Planaltos: Capitalismo e Esquizofrenia - Vol 2. Lisboa: Assírio e Alvim, 2008.
 
 
  Inocência Mata in Gente Dois Reinos de Victor Oliveira Mateus. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 7 - 9.
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Acerca de... ( XVI )


(Nota - o excerto que se segue, postado aqui com autorização do seu autor, é parte integrante de um mail. Esse mail, com a escrita cuidada - como aliás é hábito - de um poeta que tão bem conhece todos os pormenores relacionados com os poemas longos, leva a cabo uma análise clara e atenta dos aspectos formais de Gente Dois Reinos. É evidente que outros mails recebi relativos ao livro em questão, mas apenas este desenvolve, rigorosamente, um tema que a crítica oficial raramente refere. )
 
 
 
 
" (...) Entre o mais, surpreendeu-me a arrumação dos textos no poema maior e ainda mais as partes na sua ligação, a segunda parte surge com violência na arrumação do poema porque, tratando de outro assunto, o continua. Jogou na maior dificuldade e resultou: a união dos opostos - a que o título assintáctico não é estranho - no discurso, no tema, mas não no que de si emana dele. Conheço os problemas dos poemas grandes, dos que tenho escrito e publicado e dos que tenho deitado fora ao longo dos anos por falta de qualidade ( tantos como os editados, três). E esses problemas, a unidade entre as estâncias, digamos assim, à falta de melhor definição, o desenvolvimento do poema sem arrastamentos de texto, a coesão do poema com o feito final que, à primeira vista, poderia parecer vir em contra-mão mas que lhe dá o fim que um poema longo exige, o atrevimento saborosíssimo de inovação da parte II, Reinos, esses problemas que conheço, dizia, cumpre-os o Victor com mão segura, além da substância do poema e da sua linguagem... "
 
 
                                                                       Nuno Dempster   ( inédito )
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01/07/13

Acerca de... (XV)



            "  Por uma estética do exílio  "

   A Irresistível Voz de Ionatos, de Victor Oliveira Mateus, é um livro que se lê de uma assentada, tanto pelo galope seguro com que o texto nos conduz, quanto pela estrutura com que foi concebido.
   São vinte e sete poemas, ou vinte e sete seções de um só poema, que têm como cenário uma ilha ( ou ilhas ) da Grécia, e, por motivo central, uma evocação amorosa ( ou a evocação sucessiva de uma falta ) em que se vão tecendo imagens e considerações sobre a natureza do desejo, do tempo, da morte e da própria poesia. Como nas óperas de Wagner, certos temas aparecem e reaparecem sutilmente associados a diferentes imagens, deixando-nos a intuição de que seu significado mais profundo, embora se intensifique, nos escapa. 
 
 
(...) Ilha para lá do vazio, da felicidade imitada,
dos escombros: terra finalmente alcançada com o teu
braço sobre os meus ombros. Nenhum mal a poderia
já extinguir como marco nunca havido, nem a persistente
 
fragrância a si própria acrescentada de sêmen e saliva
- de nós húmidos rastros - no abandono dos cômoros, nem
tão-pouco as terríveis perdas, que nas cidades fervilham
em correria inóspita e vã, parecer por nós recusado
quando à ilha havíamos chegado naquela extrema manhã.
 
 
   Assim começa o livro, insinuando uma subjacente narrativa que se irá construindo e consumindo conforme nos familiarizamos com suas idas e vindas. E a ilha, com suas luzes e destroços, com seus bares atarefados e seus pescadores, com seu relevo e o branco compacto de suas casas, se vai amalgamando à sensação de perda, ao perdedor e ao perdido:
 
(...) Tenho saudades
do ritual dos peixes, do rumor
inconsolado da brisa a soar
mansa no abandono dos búzios,
do emaranhado das algas
a envolver-nos a prontidão
dos passos. Tenho saudades
de mim nesses tempos,
quando não tinha saudades.
 
   Aqui e ali, surgem composições menos reflexivas e de maior carga confessional, como em:
 
 
Nunca soube lançar o pião
como os rapazes no terreiro,
entre os contentores: aprendizes
de ladrões, de proxenetas,
 
arrumadores. Nunca soube
lançar o pião. Nem puxar-lhe
o cordel entre os dedos
ou içá-lo, rodopiante, na palma
 
da mão, acima do solo,
conspurcado e mudo. Lancei
a minha vida, os meus
anseios. E foi tudo.
 
   Ressaltemos que Victor, como Nerval ou Rimbaud, não parece conceber distinção de fato entre a poesia e a prosa. Ou melhor, não concebe diferenças de gênese entre uma e outra forma de expressão literária do " princípio poético " - para usar aqui o conhecido nome que deu Edgar Poe a essa súbita elevação, essa comoção de que somos tomados diante da obra de arte.
   Seus poemas de nada se desincubem, recuperando atribuições quase esquecidas pela poesia contemporânea. Seus versos descrevem, narram, comentam. E o fazem afastando-se tanto do minimalismo e da sintaxe nominal, tão caros aos nossos dias, quanto da mera poesia didático-discursiva. Assim também que, não raro, o poeta intercale interjeições, interrompa-se, reformule idéias e imagens, quebre frases em dois versos ( ou mesmo em duas estrofes ) sem incorrer no virtuosismo vazio ou na hesitação de estilo.
   Por vezes, o efeito de sua escrita jaz na simplicidade do recorte:
 
Azul que em azul te desdobras.
Cerco de baías. Moldura de espuma.
 
Noutras, é obtido pela inserção explícita de expressões comparativas ou de vaguidão em suas analogias:
 
A mulher da loja em frente traz consigo
algo das antigas deusas. Das possuídas
sibilas. (...)
 
   Dito melhor: Victor escreve no limite entre a poesia e a prosa, e nos faz crer que o faz sem perigo - quando, nesse perigoso limite, muitos poetas de diversos calibres se têm perdido. Produzindo muitas vezes prosa poética, que apenas da forma usual da poesia se apropria, assume certo sabor clássico, como em:
 
                                              ( ...) enquanto a impreterível
presença das pontes vinca este doce gorjeio que, sempre
em nós acrescentado, impedir não tentamos nem podemos.
 
   Porém, à revelia das inversões sintáticas e do vocabulário, o resultado soa natural. Como se o poeta pensasse alto e no ritmo que as palavras já trazem consigo.
   Borges, que também ignorava distinções genéticas entre a prosa e a poesia, já dizia que o tempo lhe ensinara que as melhores metáforas são as mais familiares - a morte e o sono, o crepúsculo e a velhice... Se concordamos com ele, concordaremos também com Victor Oliveira Mateus na eleição de sua ilha como imagem atemporal da distância, da perda, do exílio. Distância voluntária, e talvez segura, na qual pode ele retomar temas da tradição sobre os quais, contudo, sempre há o que ainda ser dito. Exílio em que pode exercitar seu estilo fluido e sincrético, a despeito das precárias e provisórias noções do que seja atual ou antigo.
 
 
     Cláudio Neves, in A Irresistível Voz de Ionatos de Victor Oliveira Mateus. Fafe: Editora Labirinto, 2009, pp 41 - 43.
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29/06/13

 
 
  As ruas à noite são mais compridas, sabe-se que são. À falta de gente, as ruas esticam-se em espreguiçares de alcatrão. Os homens acalorados sabem destas e de outras coisas, mas calam-se num conluio de silêncio. Um homem acalorado caminha por uma rua e depois por outra e vai por onde vai sem saber. As ruas guiam os homens, mais do que eles se guiam a si próprios.
  Uma aragem, uma luz que promete o que nunca deu e vêem-se os homens vogando as suas barcas pesadas. Peixes cegos de fomes secretas, homens que seguem ruas com vontades de comer. Perdidos por sem. Sem saber, sem ter, sem querer, sem nada a perder.
  Um homem perde-se e crê encontrar-se, são assim os homens. À noite as coisas pequenas fazem grandes achados porque os olhos estão mirrados e há fome por todo o lado. Aqui me perco, aqui te encontro, queres olhar-me nos olhos? Diz-me o que vês e depois mente-me com quantos tens tu na cara. Ficamos quites, eu vejo o que não existe e tu que dizes o que não pensas, ninguém perde e todos ganham. Todos que somos eu e tu, é noite, somos tão parecidos... Somos? Somos, estamos aqui.
 
 
  Camarneiro, Nuno. No Meu Peito Não Cabem Pássaros. Alfragide: Pub. Dom Quixote, 2011, p 118.
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