Vladimir Queiroz, Maria João Coutinho e Victor Oliveira Mateus no "Café Saudade", em Sintra, no dia 22 de Agosto de 2013,
Texto de apresentação do livro " Nuances" de Vladimir Queiroz:
O novo livro de
Vladimir Queiroz, Nuances, numa
primeira abordagem pode ser entendido como uma incursão nos territórios da
afectividade humana, mais especificamente do amor. Logo no soneto preambular,
cujo título dá nome ao livro, o autor não só esboça uma caracterização aproximativa
do sentimento referido (é vasto, tem íngremes vertentes, está submetido a um
fluxo contínuo e é fonte desejante do olhar), como também estabelece a relação existente entre o amor e o desejo
(que ele não seja hostil à moral nem cúmplice de uma culpa ignorante), na sequência
disto o homem passará a ser entendido como vivenciando um manancial de
experiências e de pensamentos diversos, e por vezes antagónicos, portanto,
deduz-se já que do amor não é possível alcançar-se uma definição rigorosa e de
carácter fixista, nem tão-pouco vivenciá-lo através de uma experiência unívoca
– do amor só se tem, e só se vive, não uma qualquer essencialidade estabelecida
para todo o sempre, mas as nuances
que dele conseguimos atingir.
No soneto Burburinho, p 15, o poeta enfatiza duas
das principais linhas de força desta obra: primeiro, o amor está submetido a
uma dialéctica de ocultação/desocultação (O amor, a que persegues
tanto,/esconde-se a te negar carinho;/mas, um dia, em meio ao burburinho/de
vozes e sorrisos, ei-lo por encanto.); segundo, o amor está também submetido a
uma outra dualidade antinómica: permanência/evanescência (O amor é como a água
do mar:/chega junto à praia, penetra profundo/molhando a areia, que se deixa
envolver.//Enigmático, brincalhão, vagabundo,/serena as águas como quem vai
permanecer,/mas, de súbito, foge, para de novo voltar.). Depreende-se, por
conseguinte, que deverá ser atribuição do poeta procurar entender, e viver,
este mesmo amor em si lábil e multifacetado. Perante um cenário deste tipo
percebe-se o quão difícil é para o ser humano movimentar-se, e construir-se,
neste território, já que nele ora se perde, ora se encontra, ora ainda se
voltará a perder. Uma vez chegados aqui dois outros aspectos fundamentais da
poesia de Vladimir Queiroz se nos deparam: a figuração do feminino, estruturalmente
dual, apresenta-se-nos não só como um polo de desejo (“estava ávido para
conduzir/o desejo por entre as frestas/inexploradas em segredo.”, poema Ávido p 39 ; “Oh! Sorriso de neve/provocas em mim enxurrada/de prazer/no
degelo da tua boca.” poema By Night, p
49), mas também esse feminino pode igualmente associar-se a toda uma imagética
relacionada com o acolhimento e/ou com um regaço de acalmação (“O sereno que me
acompanha/rodeia a face;/amado: adormeço, e sonho à toa.” poema Garoa, p 47; “Chego bem perto/entreabro
os lábios/e recebo o fluxo de amor/que inunda a tua boca./(…) nos arrepia, nos
aproxima,/uma quentura nos invade.” poema Regaço,
p 37); o outro aspecto remete-nos
para o facto de toda a movimentação afectivo-amorosa estar subsumida a um
ininterrupto ciclo espiralado, onde a dimensão espiritual e a do corpo se vão
procurando, afastando e reencontrando (Cf. poemas Íris, Espúria, Calmaria e
o primeiro verso da segunda estrofe de Vere
–Dictum, p 57).
Uma outra vertente
desta obra, que convém evidenciar, prende-se com a quantidade e os aspectos
formais dos sonetos inseridos na primeira parte deste livro: a predominância de
referentes que nos remetem para a antiguidade greco-latina, bem como, a
formulação estilística, poderiam levar-nos a pensar estarmos perante um livro
de estilo clássico com sonetos vincadamente parnasianos, no entanto, uma
leitura mais atenta demonstra que, sobretudo nos sonetos, o poeta jamais sacrifica
o sentido a quaisquer espartilhos de tipo formalista, assim, sobretudo nas
quadras desses mesmos sonetos, opta por rimas interpoladas mas vezes há em que
as combina com o verso livre (vejam-se os sonetos: Drink, Espúria), também a
métrica não se apresenta regular, sendo o verso decassilábico muitas vezes
sacrificado caso as exigências do sentido a isso o forcem. Um pormenor que nos
afasta também de um classicismo insólito e serôdio deve-se ao facto de o autor
recorrer, por vezes, ao linguajar rústico e à gíria, que acabam irrompendo no
seio das formulações eruditas (“ seja sina, um sinal/ e coisa e tal; não faz
mal.” poema Pétala, p 43; “Sem cor,
passo… e se passo sem cor/ tenho a cor do burro quando foge.” poema Cores , p 53; “Comeu o pão que o diabo
amassou,/ a carne, as vísceras, o fígado todos os dias…”, poema Canibal, p 71). A inserção deste novo livro de Vladimir
Queiroz dentro dos diversos Romantismos do século XXI, e não no seio de uma
poesia estritamente clássica, é passível de ser apreendida também através de
certas subtilezas temáticas e estilísticas, veja-se, por exemplo, o que diz
respeito à representação da Amada: se no soneto Íris (p 21) a mulher amada nos surge com a sua tez branca e os lábios róseos, o que nos remete
imediatamente para a lírica do século XVI, o que é um facto é que não muito
distante deste soneto aparecem-nos poemas de outro tipo, alguns de cunho
vincadamente experimental, onde a Amada tem olhar
crioulo (poema Nagô, p 27), pés pequenos (poema Calmaria, p 29), avalanche de
melenas (poema By Night, p 49) e,
perto do final do livro, nalguns poemas onde o cunho sócio-cultural se faz mais
sentir, surge-nos mesmo a “joana pluma blonde/ explode em sangue, verve/dos
sentidos.// A alma louca/ rouca na cruz santa/ luz no firmamento/ um juramento/
um lamento aos homens.” (poema Joana,
p 79), ou seja, esta Joana é a célebre mulher de vida dita fácil, ícone de
tanto poetas, românticos e não só. Perguntamos: se do Amor o poeta apenas obtém
nuances, que dizer agora da figura
feminina também ela tão diversa e plural? Não estará este livro demonstrando
isso que é simultaneamente um elo e um hiato entre a Mulher (arquetípica e
idealizada) e a mulher concreta, que no sensível dialoga com o poeta e com ele
vai tecendo todos os caminhos do aqui? Aliás, as distinções lógicas e
existenciais: universal/ particular, arquétipo/ sensível, etc. são-nos logo
anunciadas no soneto introdutório do livro, pois não é por acaso que no
primeiro verso da primeira quadra o Homem (ser humano) aparece significado com
maiúscula e à medida que o poema se vai desenrolando o homem já nos surge
referido com minúscula, como no caso do primeiro verso do primeiro terceto. E
são estes aspectos que nos conduzem à confirmação de estarmos ante uma poesia
assumidamente romântica, mas de um tipo de romantismo actual onde o corpo, a
sexualidade e a sensualidade são salutarmente integradas sem os pruridos de
qualquer juízo moral desajustado deste tempo que é o nosso (“ Rondas a minha
carne…” poema Deusa, p 19; “possam
arder minhas entranhas/ no calor que da tua pele emana” poema Íris, p 21; “E o frio desnuda o teu ser
e enrijece os teus seios: / somos dois, somos unos,/ únicos num amor pleno e
eterno.” poema Calmaria, p 29). A
relação com a Amada aparece nesta obra de Vladimir Queiroz alicerçada num
procedimento, não linear, mas baseado nesse movimento cíclico já anteriormente
referido onde alma e corpo, espírito e matéria, entre si dialogam e se
complementam: só purificando a alma, nem que seja banhando-se no Ganges (poema Avesso, p 33) aquele que ama pode
entregar, como oferenda, o corpo, e só
vivenciando em pureza e eternidade o que é corpóreo no amor se pode engrandecer
a alma – eis, enfim, o ciclo em forma de espiral que tinha já avançado neste
texto, e é este também o objectivo último do amor e do amar (Cf.
último verso de By night, p 49) nesta
obra de Vladimir Queiroz, no entanto, porque ingente e complexo tal objectivo,
e porque demasiado imperfeito o humano, de todo este vivenciar apenas
conseguimos ir adquirindo Nuances.
Victor Oliveira Mateus ( Café
Saudade, em Sintra, no dia 22 de Agosto de 2013).