03/10/13

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             Ana Maria Puga: a delicada irreverência da escrita
 
 
    O novo livro de Ana Maria Puga, Área de Serviço, apresenta-nos uma escrita de cunho vincadamente urbano e realista, onde uma função irónica e deliberadamente ambígua da linguagem, assim como o engajamento social, surgem como principais linhas de força. Por entre os vários aspectos que aparecem subjacentes a esta escrita podemos encontrar, embora de forma ténue, as marcas de autores como Fernando Assis Pacheco (cf. “Elegia por Manuel Bogalho” in A Musa Irregular pág. 149; “A Bela do Bairro”, idem pp. 151-152) e Jorge Fazenda Lourenço (cf. “Cutucando a Musa”); também a veemência do sentido, bem como alguns procedimentos rimáticos, nos fazem lembrar a assertividade de poéticas como as de Miguel Torga e de José Gomes Ferreira (é difícil lermos o verso “Feitos de lágrimas enxutas”, p. 48, sem nos recordarmos de José Gomes Ferreira!); no entanto, quer ao nível da organicidade do poema quer da estruturação do poemário parecem surgir de modo mais acentuado as influências de poetas como Alexandre O’Neill (cf. “O poema pouco original do medo” in Poesias Completas 1951/1986, pp. 143-144; “Saber viver é vender a alma ao diabo”,  idem pp. 177-179) e Mário Cesariny (cf. “poema podendo servir de posfácio” in Manual de Prestidigitação, pp. 100-102; “autografia” e “ortofrenia” in pena capital, pp. 37-39 e p. 152 respectivamente), no entanto – diga-se - a poesia de Adília Lopes não nos surge ( também) como algo de alheio a esta escrita (cf. Dobra, Poesia Reunida pp. 330-348), nem tão-pouco a mordacidade e o desvelamento cáustico bem ao gosto dos textos de Mário-Henrique Leiria.
      Área de Serviço, remete-nos, logo no início, para a ambiguidade da linguagem acima referida, já que nos chama a atenção para uma duplicidade do que se entende por esse servir tantas vezes enunciado, assim, numa primeira leitura servir será “(…) colorir/ Cada fresta/ No tabuleiro das pontes”( p. 7) ou “A estrada (…) /O azul/ Na pintura de horizontes” ( p. 8), dito de outro modo: servir será aqui colocarmo-nos ao serviço do outro e desse contexto que é o nosso, mas servir poderá também ser entendido como servilismo: “(…) as galeras/ na mordaça da corrente/ e só quer um beija-pés/ dos que partilham o remo/ na sua madeira urgente/ por negrume das marés” p. 10.
      Nesta obra de Ana Maria Puga é notória a força incutida ao sentido enquanto fonte de inquirição, contestação e recusa de um social que se apresenta à poeta de modo injusto, castrador e claustrofóbico. Assim, esse mesmo contexto e/ou quotidiano é olhado nas suas múltiplas vertentes: a histórica (“No poleiro ocidental/ Do comércio/ Das viagens/ Jaz tão velha a catedral/ De um tempo de oiro/ E voragens/ Na senda de acontecer”, in poema Porto-Galo, p. 28); ao nível dos costumes e hábitos (“Ai matriz!/ Canta-se o fado/ E o xaile entorpece mais/ Os braços/ De um povo a lavar sem rio/(…)/ Trinando/ Nas artes do cativeiro”, in poema Portugal de Xaile, p. 31; “O tempo que nós perdemos/ Na oferta de um sofá/ Mesmo esventrado e sem molas/ (Por vício de civilização/ Que nos impede de parar)/ Castiga toda a memória” in poema Pluralidade, p. 59); no campo ético-moral (“Os índios/ Os aborígenes/ Selvajaria sem alma/ Vergonhas a descoberto/ (…)/ E nós outros/ De cabeça sem recheio/ Desavergonhadamente/ Tapámos as partes/ Nesses brocados de anseio” in poema Casinô, p. 55); no terreno do económico-político, onde se visa, por exemplo, o consumismo e os off-shores: ( “As grandes superfícies brilham/ Na quantidade/ Em estoques de perfumar/ Os olhos que tudo procuram/ Na compra de abraçar a solidão “ p. 36; “ O Produto Interno Bruto – rosmaninho e cheiro/ Desaparecendo pela mão de um autoclismo/ Boiando nas águas turvas do seu catecismo/ De alargar as ilhas onde se fala estrangeiro “, p. 47). Neste olhar simultaneamente atento e acutilante de Ana Maria Puga, assoma, por vezes – poucas! – um certo desalento, uma certa mágoa: (“Quando me deito e de olhar me vou cansando/ Guardo na noite as lentes de ver ao pé/ E as ideias por casar no pensamento/ Aceitam no desconforto/ Convívios de rodapé “ in poema Insónia, p. 57; “Lamento/ Esta falta de vontade/ Esta inércia/ De ordenar significâncias/ Sobre a dor/ Que habita a alma” in poema Pluralidade, p 58), no entanto, os laivos de fuga, ou de desalentada entrega a quaisquer derrotismos que eventualmente possam surgir nesta poesia, são puramente acidentais ante um intento mais forte e claramente assumido: o de cismar (poeticamente) sobre esse acontecer, algo circense ( cf. pp. 48 – 50), que à poeta coube em sorte. Assim, e nesta linha de leitura, é impossível afastar a poesia de Ana Maria Puga de toda uma plêiade de poetas que o cânone tem tido o cuidado de manter sob vigilância, veja-se- por exemplo – o “Canto e Lamentação na Cidade Ocupada” de Daniel Filipe, sobretudo o poema 2.: “ Canto porque estou vivo e amarrado/ à condição de ser fiel e agreste./ Porque em vão nos destroem a memória/ com máquinas, rodísios, honorários “ (in A invenção do amor e outros poemas, pp. 52 – 53); o poema” Canção combatente” de Armindo Rodrigues: “ Por prémio chega-nos/ nunca termos prémio,/ senão na nossa própria consciência, em nós moldada/ por activa opção “( in O horizonte e a ave- Canto Fausto – Dialéctica do vento, p. 78) ou o poema “Esta é a cidade” de António Gedeão: “Esta é a Cidade, e é bela./ Pela ocular da janela/ foco o sémen da rua./ Um formigueiro se agita,/ se esgueira, freme, crepita, ziguezagueia e flutua.” ( in Poesia Completas, 1956 – 1967, p. 86), refiro aqui apenas poetas já desaparecidos, no entanto, este lúcido e crítico olhar para a cidade, ou melhor: este olhar pela cidade, tem-se mantido actual porejando em poéticas quer de autores já consagrados quer de outros que vêm pertencendo às gerações mais recentes. Assim, se ao nível formal o Área de Serviço se mantém enraizado nas escritas referidas no primeiro parágrafo, já no que diz respeito à inquietação fundamental, e fundante, de toda a criação que lhe subjaz, este livro acaba por se integrar num continuum onde poéticas de indefectível qualidade se inscrevem.
     Finalmente, convém enfatizar que Ana Maria Puga, apesar de privilegiar o território do sentido, consegue escapar, contudo, a um prosaísmo estritamente linear e denotativo – e isto apesar de um momento (sete estrofes, pp 11 -13) assumidamente de carácter dialógico – e fá-lo através de três procedimentos estilísticos: jamais se afasta do verso curto; recorre com frequência à rima: (“ Menos uma folha de plátano/ De boca calada no chão/ No alargamento da avenida/ Que apressa o concurso da vida/ Emoldurando a distracção”, poema Desobrigada, p. 26) e dota a palavra de um tom lúdico e assumidamente ambíguo de modo a interpelar o leitor, a provocá-lo e a integrá-lo como momento último da obra. Esta última vertente aparece-nos como o carácter mais representativo da poesia de Ana Maria Puga: o lúdico pode, neste livro, irromper através de momentos de intertextualidade (cf. o título “ Os touros sempre se debatem “, p. 32, que nos remete para a película “ Os cavalos também se abatem”; o verso “De um povo a lavar sem rio “, p. 31, a enviar-nos não só para um fado, mas também para um poema de Pedro Homem de Melo; o verso “Nos doze magníficos” que acena ao filme “Os sete magníficos” e ainda o verso “Haja desconcertos sem Imperador”, p. 48, numa aproximação clara à “Valsa do Imperador” de Johann Strauss...), irrompe igualmente através de jogos de palavras que muitas vezes rondam a paronímia (canteiros/carteiros, p. 30; inferno/inverno, p 59…), procedimentos de aglutinação de vocábulos ou de desmembramento dos mesmos com irónicas modulações  (Vejam-se os títulos “A cara à vela das descobertas”, p. 46 - desmembramento de caravela - e “ Porto-Galo “, p. 28, que encima um texto sobre a realidade lusa  ) ou de uma ironia irreverente e, por vezes, denunciatória ( “ Todos os passos roxos/ Que murcham de aperto/ Em cada pescoço a soldo/ Numa vontade sem braços”  in poema Portugal, p. 44).
       Convém ainda assinalar a inflexão que ocorre nesta obra entre as páginas 68 e 69: na primeira estamos ainda num território Sem partilha entre sensações inúteis, enquanto que na segunda se inicia um clima esperançoso, se edifica o “Albergue da recriação” (p. 82), até porque “Mesmo tarde é sempre cedo” ( in poema Eros p. 88) desde que ”Haja som no poder de regular a vaga” (in  poema Eros p. 88). A poesia de Ana Maria Puga, por conseguinte, jamais entronca nas posições de cariz essencialista do Discurso Poético, onde – regra geral – o em-si e o para quê do dito discurso coincidem, nem sequer aqui importam os dizeres de cariz visionário… à poeta apenas interessa o real concreto onde os homens se pensam e se constroem, isto é, apenas lhe interessa esse cismar “Nesta teia enferrujada a que chamamos cidade “ (p. 82) “Regando cada canteiro da vida” (p. 84) – Nada mais! O último poema de Área de Serviço é, aliás, emblemático deste posicionamento: “ E o homem que ama – bebe a brisa/ Vai e afunda os pés no sol da terra/(…)/ De mão entranhada na vida das cores/ Avança nas suas pinturas de guerra/ Contra as portas fechadas sem concílio/ E nunca desiste…  “ ( p. 90).
 
 
                                                                                       VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS
 
                                                           (Livraria " Pó dos Livros " em Lisboa, 3 de Outubro de 2013. )
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02/10/13

 
 
    " O silêncio e eu "
 
 
Sempre
me tratou
por Tu
o Silêncio.
Tamanha
era a nossa
intimidade.
Meus gritos
de revolta
eram mudos
mas ecoavam
pelo mundo.
 
 
 
  Gonçalves, Delmar Maia. Doce Inimiga, Antologia. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 16 ( Coordenação: Maria do Sameiro Barroso).
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              " Silêncio "
 
 
Poço íntimo que cavo
com a boca fechada
à procura de um Deus oco
nas profundezas
da raiva
que a palavra semeia
 
 
 
   Mucavele, Amosse. Doce Inimiga, Antologia. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p. 9 ( Coordenação: Maria do Sameiro Barroso).
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01/10/13

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DIA 12 DE OUTUBRO, 17H00, NA GUILHERME COSSOUL DE CAMPOLIDE,
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APRESENTAÇÃO DO NOVO LIVRO DE RUI ALMEIDA, PUBLICADO PELA
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EDITORA MEDULA.

30/09/13



         " Vazio "


vazio
construção imaginada e transparente
que ocupa espaço e sufoca
matéria etérea que vagueia entre
os dedos da saudade
e o corpo do desejo.
coisa nenhuma que enche a alma
devora o sorriso e
passeia-se pelo espaço onde ontem
tu estavas.
vazio
o corpo que habitualmente se enche pela manhã
o som dos teus passos pela casa
o cheiro do lençol onde adormeces...
vazio
é o nome do monstro que me mata


   Guimarães, Nuno. rio que corre indiferente. Coimbra: Temas Originais, 2009, p 41.
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29/09/13



  " Flor re-inventada "


à espera de um sinal
de uma estrela cadente
de um anúncio de jornal
de um toque diferente
de um sussurrar ao ouvido
de um beijo escondido
com sabor doce a jasmim
que me fez sentir perdido
por senti-lo só p'ra mim

à espera de um sinal
de um poema perdido
de um livro ancestral
do meu doce preferido
de uma escolha acertada
de uma história encantada
que um dia escrevi
sobre uma flor inventada
hoje colhida p'ra ti...   


   Guimarães, Nuno. rio que corre indiferente. Coimbra: Temas Originais, 2009, p 18.
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27/09/13


 
 
 
                   "  Poema 7. "
 
 
 
Com tuas mãos falantes é que me anunciavas
o piar das andorinhas e dizias o desenho
do relógio de sol. Como se eu entendesse
as tuas viagens nos passos em redor da sala.
Foi preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a sombra da haste no declínio do dia.
Nessa hora os teus passos fecharam a viagem.
As tuas mãos perfeitas se fizeram arco
e eu pude divisar a rua que viveste
com cuidados maternos a afagar as ervas.
Para lá do arco, disseram os teus olhos,
eu havia de ter a minha luz e as pedras
brilhariam a iluminar esquinas e veredas
e a amplidão dos mares e a solidão dos versos
e sempre e sempre as andorinhas haviam de voltar
porque é nas tuas mãos que começam as aves.
 
 
   Quitério, Licínia. Os Sítios. S/c.: Ed. Autor, 2012, p 14.
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26/09/13



           "  Poema 22. "


Tudo é possível no balcão dos sonhos.
Podes vir de mansinho, com outro rosto,
e eu, sem nada me pesar, dizer - Há muito
espero por ti, Dirk - e a bandeja na mão,
a bandeja do Rick que passou a ser tua,
e o piano vermelho a flutuar naquela rua
de Veneza. Não, não era um canal, era
uma rua, ou talvez não fosse Veneza
e o teu sorriso dorido de café e gin
igualzinho ao do Dirk porque, eu sei,
também o teu estava a sofrer. Há um
tempo assim de tudo doer, e digo mesmo
tudo, a bandeja, o piano, a rua, a cidade
inteira. É uma dor informe. Talvez a vida
seja isso, um tempo de doer e fugir para
o balcão dos sonhos a preto e branco.
Há quem diga que são a cores os sonhos
das pessoas tristes. Há quem fale de uma luz
que faz vermelhos os pianos que flutuam.
Quanto a mim, fico à tua espera, Dirk.
Podes estar em Lisboa ou em Casablanca,
podes até não vir. Sei o sonho de cor.


   Quitério, Licínia. Os Sítios. S/c. : Ed. Autor, 2012, pp 33 - 34.
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Espumante gelado foi a causa da morte de uma aluna
Na Holanda, devido a paragem cardíaca.
A loura tímida, gozada vezes sem conta pela
 
Barriga gorda das pernas, participou num concurso
Sob pressão da turma. Num clube nocturno de Amesterdão,
Duas dúzias de raparigas incendiadas pelo aplauso competiam
Pelo mais belo par de mamas perante o olhar dum júri.
 
Sob as luzes da ribalta, muito despida numa T-Shirt molhada,
Ganharia o teste-das-tetas a que se mostrasse mais sensual,
Banhada em espuma de champanhe e de mamas arrebitadas
 
A atiçar o animal que há no homem. Qual o choque porém,
Quando desta vez a aclamada não mais se levantou.
Antes que a ambulância chegasse, já Miss Sweet-sweet-Tits estava morta.
 
O julgamento de Páris foi macabro, desta vez. O troféu dourado,
Um cálice meio falo e meio tulipa, mais o prémio em dinheiro,
Foram fraca consolação para os familiares da rapariga.
 
 
  
  Grünbein, Durs. Aos queridos mortos. Coimbra: Angelus Novus, 2003, p 37 ( Tradução de Fernando Matos Oliveira).
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25/09/13



Num ataque súbito de ciúmes, aliviada da vontade de viver,
Na manhã de Ano Novo uma mulher em Chicago
Atirou-se para a rua pela janela do duplex,

De quase cinquenta andares de altura.

Porque o namorado, preso por acaso no elevador
A sós com a melhor amiga, devido a avaria,
Na agitação de uma noite de Ano Novo, quem sabe, bêbedo

A poderia... ter... eventualmente... enganado,- desistiu

No fim de tão longo condicional. Os psicólogos
Tinham-na entre as vítimas de raptus. Uma amiga
Via nisto uma mistura de boato e tragédia. Ao namorado

A coisa parecia mais o efeito de uma gramática mortal. O cadáver

Encontrava-se exactamente antes de um cruzamento, na faixa esquerda,
Onde do alto de podia ler, como pedaços soltos de uma tela de salvação,
A inscrição ONLY.


Grünbein, Durs. Aos queridos mortos. Coimbra: Angelus Novus, 2003, p 27 (Tradução de Fernando Matos Oliveira).
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                       "Yeti"

 

 
Comme tout ce qui marche ici... eh bien, toi aussi, tu
passeras vite comme si tu n'avais jamais été.
Une fois compris en route, que toi aussi tu t'arrêtes,
ce parcours de la réflexion n'aura pas de suite.
À peine passée l'arrivée, un saut, déjà l'aveuglement
te guette derrière les lignes oú dans la neige tu t'égares.
De la neige des mots il ne reste qu'un espace entre ces traces
qui seront effacées tôt par prudence. Un essaim de rumeurs
te colle aux tempes, tenace, aveugle, une tache.
Des pensées, ces affections terribles, tu n'en as cure.
Seul un O.K...
pour chaque faux pas, faute et échec.
Ce qui perce par des mots arides à travers l'oubli
s'oubliera lui-même à la fin. Perdue en chemin, persiste
la mémoire, vide. Inscrite dans l'étroite bande des fréquences,
ta mort émet des signes au programme de nuit,
quand, en sommeil, sur le qui-vive, ton corps se cabre.
Tibet. Un homme des neiges. La trace de sa fuite. Blanc sur blanc.

 

Grünbein, Durs. Après l'est et l' ouest. Paris: Éditions Textuel,
 2001, p 173 ( traduit par Silke Schauder).

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  " Monte Baixo "


En días de hospital,
noites
tronzadas,
ríos,
sabugueiros sen folla
festas do leite,
bichos tan azuis,
como se fai
un bosque?
As miñas mans son
rápidas.
Non dan.
Ódiovos,
montes suaves.
A lúa sempre
mingua.
O contrario do amor
é o desprezo.
O odio,
con outras
mans.
Pero os dous
edifican
monte baixo
e quedan
formalmente
expulsados
de aquí.
E para que
así conste, asino
este contrato
nos teus labios
pero despois
rompémolo:
este é un amor
sen casa,
non se pode
gardar.
O vento sopra
louco, di algo
que non vemos
fai voar os papeis,
fainos saber
dun golpe
que nós
non precisamos
testemuños.


  Cebreiro, María do. Non son de aquí. Vigo: Edicións Xerais de Galicia, 2008, pp 55 - 56.
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24/09/13



 " Poema 2 do Ciclo Amarante "


En cada contracción
hai un fondo
de espera
e un fondo de catástrofe.
Cada pequena
cousa pasional
vai retornando
á lama:
non hai formas:
hai vida,
un atentado
contra a noción
vixente
de familia.
Tamén os cereais
son reemprazados.
A rapaza do millo
sucederá á rapaza
do metal,
o bosco,
á Selva Negra.
Ao vento, que non para,
han querer
darlle un nome
de lugar:
por bonito que sexa,
unha traizón.
E no bico dos pés
o amor por esa moza
que chegou
a xuntar os teus vinte
cos meus trinta,
e nos dez que corrían
polo medio
o espazo suficiente
para poder dicir
foi bonito e durou
o xusto, até escoitar
que sempre
haberá alguén
para nos aprender
o sentido do tempo.
Todas as relacións
son a distancia,
pero eu non son
de aquí,
non teño
descendencia,
non quero máis orixe
que esta ponte
até que nos sosteña
e cando caia
teñamos a nobreza
de marchar
sobre os restos,
saibamos despedirnos,
que sexa tan fermoso
como nunca.

  
   Cebreiro, María do. Non son de aquí. Vigo: Edicións Xerais de Galicia, 2008, pp 15 - 17.
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23/09/13

António Ramos Rosa ( 17/10/1924 - 23/9/2013)

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Partiu um dos últimos representantes da Geração de Ouro da poesia portuguesa. Este blogue tem um texto sobre Ramos Rosa que publiquei, há tempos, na Revista da Biblioteca Nacional do Brasil. Anexo a esse pequeno estudo encontrarão também duas conversas havidas entre mim e Ramos Rosa. Agora... o silêncio!!! e um forte abraço à família enlutada: à esposa (a poeta Agripina Costa Marques), à filha (a Maria Filipe) e à sobrinha (a Gisela Ramos Rosa). Não sei dizer mais nada!!!
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No EXPRESSO online:
 
O poeta e ensaista António Ramos Rosa, de 88 anos, morreu cerca das 14h de hoje, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, onde estava internado desde quinta-feira com uma pneumonia, disse ao Expresso uma sobrinha do escritor.
Gizela Ramos Rosa disse ainda que o tio já tinha sido internado recentemente, mas recuperara, regressando à residência Faria Mantero, um lar para artistas onde residia há vários anos.
Ramos Rosa tem uma "obra multifacetada, embora predomine a poesia. Foi um exímio tradutor e ensaista", disse ao Expresso o poeta Victor Oliveira Mateus.
Do seu círculo de amigos mais próximo - e da geração mais próxima da dele - fizeram parte os escritores "Vergílio Ferreira, Casimiro de Brito, João Rui de Sousa e Maria Teresa Horta", acrescenta Victor Oliveira Mateus.
Ramos Rosa, também "apoiou alguns nomes das gerações seguintes com quem manteve relações de proximidade. Foi o caso de António Carlos Cortez, Maria Teresa Dias Furtado e eu próprio", acrescenta Victor Oliveira Mateus.
Contactado pelo Expresso, António Carlos Cortez, recorda que em 2003, teve "oportunidade de organizar e prefaciar o livro "Os animais do sol e da sombra. Quando terminei tive a percepção clara de que Ramos Rosa era um poeta da metalinguagem". "Mas isso não lhe retirou nenhuma leveza nem nenhuma naturalidade", acrescenta.
Na perspetiva de António Carlos Cortez "morreu, talvez, o último representante de uma geração de ouro da poesia portuguesa. Homens nascidos nos anos 10 e 20 do século XX, como é o caso de David Mourão-Ferreira, Carlos Oliveira e Mário Cesariny" [entre outros].
António Ramos Rosa nasceu em Faro em 17 de Outubro de 1924. Foi Prémio Pessoa em 1988. No dia em que comemorou 74 anos, em 2003, a Universidade da sua terra natal, atribuiu-lhe o grau de Doutor Honoris Causa.
O poeta era casado com Agripina Costa Marques, autora de vários de livros, e pai de Maria Filipe Ramos Rosa. Ramos Rosa convidou a escritora e grande amiga Maria Alberta Menéres para madrinha da sua única filha.


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A poesia de Kofi Awoonor, traduzida para castelhano, no célebre Festival Internacional de Poesia de Medellin ( 2007).
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Kofi Awoonor, principal poeta do Gana - mas também crítico literário e diplomata -, encontrava-se em Nairobi para participar num Festival Literário, quando as tropas do Quénia fizeram uma incursão que visava atingir radicais islâmicos que se tinham entrincheirado, e feito reféns, num Centro Comercial. Este autor, assim como vários ocidentais, foi atingido durante a referida incursão. Kofi Awoonor acabou por não resistir aos ferimentos...
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22/09/13



          " Entre ave e réptil "


interessa-me
entre ave e réptil
a condição
ambígua

confesso meu
fascínio por
essa corda estendida
entre uma e outra
palavra
e sua falsa noção
de equilíbrio

trago na raiz
do gesto o alvoroço
do circo

nervo reteso
lanço-me no ar
risco a
superfície do inútil - e vôo!

por vezes
uma palavra mais ágil
me subtrai
do precipício

mas quase sempre
me esborracho
no chão
em meu vôo solo
sem tambor nem
auxílio

reconfirmado
sísifo
- amador de seu ofício -
alço-me outra vez
ao risco dos trapézios


  Machado. Carlos. Pássaro de vidro. São Paulo: editora hedra, 2006, pp 95 - 96.
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20/09/13



  " Pássaro de vidro (4) "


os matemáticos
- bruxos -
costumam brincar
com geometrias
esdrúxulas

e criam objetos
fantásticos
n-dimensionais
nos quais
não se sabe

o que é o fora
o que é o dentro
onde a periferia
onde o centro

*

assim esse pássaro
de vidro
menos inventado
que um (de)lírio
matemático

não é uma
fita de Mobius
nem uma
garrafa de Klein

é uma ave
estranha
em estado
grave de segredo

um pássaro
que resguarda tudo
que revela

embora exponha
sua entranha
sem temor
sem tumulto

enigma com asas
ele pousa
transparente
sem fora sem dentro

pousa como coisa
sem segredos


  Machado, Carlos. Pássaro de vidro. São Paulo: editora hedra, 2006, pp 50 - 51.
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18/09/13



         " Até quando? "


Até quando no túnel sem saída,
no bosque feito de espinhos, no poço?
Até quando instalada na esperança
dos que nada esperam?
Até quando perdida em labirintos,
em cidades sem luz, em pesadelos
que não terminam quando acaba o sonho?
Até quando engolindo
névoas espessas, desconcerto, vertigem?
Até quando sem ti?
Até quando com outros?


    Bautista, Amalia. Estou Ausente. Lisboa: Averno, 2013, p 101.



   " Os Meus Melhores Desejos "


Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto com tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.


   Bautista, Amalia. Estou Ausente. Lisboa: Averno, 2013, p 21.
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16/09/13


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Patrick Phillips lê o seu fabuloso poema "Nathaniel", poema este que integra o seu último livro - "boy".
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Nathaniel

Patrick Phillips


Whatever it was
that made the Reverend
Barker stoop that way,

it meant no matter
how much he screamed
at my friend Nathaniel

for being late, for not
raking the leaves,
or for raking the goddamned

leaves the wrong Goddamned way
(his huge, gin-blossomed jowls
quivering with rage,

his great whale-eyes
lost in the gray
depths of his brow),

he could only ever scowl
at the tops of his wingtip shoes
or at the cuffs of the black wool suit

he always seemed to be wearing
when he’d thunder into the yard,
or down the stairs,

or through the little speaker
of some payphone
we huddled around, God

damnit Nathaniel, I told you,
I told you, Nathaniel, Goddamnit!

his fury repeating itself

so precisely it became a joke
we hollered through the halls,
changing my friend’s name

to Goddamnit Nathaniel, as in
Where the hell’s Goddamnit Nathaniel?
I told you, Goddamnit, to get me a Coke!


which was stupid but funny at fourteen,
and still just as stupidly funny at nineteen,
when we’d yell across a bonfire,

Don’t bogart that joint, Goddamnit
Nathaniel. Haven’t I told you
to pass the fucking bong when you’re through?


which is still funny to me even now—
even though I look back and see,
as I could not have seen then,

that the Reverend Barker
only stooped that way
because he was dying,

because cancer was eating his liver,
and because with each day it became
both more urgent and more unlikely

that he would ever manage to say
whatever it was he meant
when he’d sit at the kitchen table,

or grip the black phone,
or stand in the darkened driveway
after we’d all gone home,

staring at the ground and saying nothing
to his sweet, beloved boy
but Goddamnit

Nathaniel, listen to me.
Listen Goddamnit.
Goddamnit Nathaniel, now listen.

.
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(...)
   Desde muito pequena tive uma consciência aguda
da precariedade da minha condição social.
Foi sempre muito claro para mim que apenas
uma circunstância, aleatória ou não, mas muito frágil,
fizera com que eu nascesse daqueles pais,
e que não me tivessem trocado na maternidade,
e que eles não tivessem morrido cedo ou ficado
sem emprego,
(...)
Bastava que tivesse havido um incêndio,
uma inundação, um tremor de terra, uma epidemia,
(...)
uma condenação, um ataque de loucura,
uma vingança, uma maldição,
um divórcio, uma paixão, uma promessa não cumprida,
uma assombração, um despedimento, uma desilusão,
(...)
e eu já não seria... a ilusão que pareço ser.
Seria... outra ilusão que pareceria ser.


   Pedro, Risoleta Pinto. O homem da minha vida. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2009, pp 7 - 11.
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15/09/13



pensam: é melhor ter o inferno a não ter coisa nenhuma
- como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem,
                                                                    dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subrilezas desde o xadrez à física quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
e a metáfora da água?
a ideia de paraíso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão
                                                             trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa
                                                                                 do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o
                                   económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantam, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!


   Helder, Herberto. Servidões. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013, pp 97 - 100.
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13/09/13

Natália, a grande... a enorme!


Natália Correia partiu demasiado cedo, se fosse viva faria hoje noventa anos. O seu "Credo" :
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Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro.Amen.
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Otto Sander ( 30/6/1941 - 12/9/2013 )


.Otto Sander interpretando o papel do Anjo Cassiel em AS ASAS DO DESEJO de Wim Wenders.
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UMA SUGESTÃO: depois deste filme convém ver também TÃO LONGE, TÃO PERTO igualmente de Wim Wenders. O poema 24 (p 37) do meu Pelo Deserto as Minhas Mãos baseia-se nestes dois filmes (e em nada mais), aliás, a epígrafe refere mesmo uma cena belíssima com a Nastassja Kinski.
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11/09/13

 
 
Tout ce que j'ai écrit sur nous est mensonge
ce n'est pas ce qui a été entre nous mais ce que j'aurais
   voulu qui soit
C'étaient mes nostalgies posées sur des branches inac-
   cessibles
C'était ma soif tirée du puits de mes rêves
C'étaient des images que je traçais sur la clarté
 
Tout ce que j'ai écrit sur nous est vrai
ta beauté
   c'est-à-dire une corbeille de fruits ou un festin sur
   une table champêtre
mon manque de toi
   c'est-à-dire moi dernier lampion du dernier coin de
   la ville
ma jalousie
   c'est-à-dire ma course les yeux bandés la nuit parmi
   les trains
mon bonheur
   c'est-à-dire le fleuve ensoleillé rompant ses digues
tout ce que j'ai écrit sur nous est mensonge
tout est vrai de ce que j'ai écrit sur nous.
 
 
  Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 191 - 192.
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10/09/13


   " La petite fille "


C'est moi qui frappe aux portes,
aux portes, l'une après l'autre.
Je suis invisible à vos yeux.
Les morts sont invisibles.

Morte à Hiroshima
il y a plus de dix ans,
je suis une petite fille de    sept ans.
Les enfants morts ne grandissent pas.

Mes cheveux tout d'abord ont pris feu,
mes yeux ont brûlé, se sont calcinés.
Soudain je fus réduite en une poignée de cendres,
mes cendres     se sont éparpillées au vent.

Pour ce qui est    de moi,
je ne vous demande rien:
il ne saurait manger, même des bonbons,
l'enfant qui comme du papier a brûlé.

Je frappe à votre porte, oncle, tante:
une signature. Que l'on ne tue pas les enfants
et    qu'ils puissent    aussi manger des bonbons.


  Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 115 - 116.
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09/09/13



  " Le vingtième siècle "


- " Dormir maintenant
Et se réveiller dans cent ans, mon bien-aimé..."
- " Non,
Mon siècle ne me fait pas peur,
Je ne suis pas un déserteur.
Mon siècle misérable,
          scandaleux
                   mon siècle courageux,
                                            grand
                                                     et héroique.
Je n'ai jamais regretté    d'être venu trop tôt au monde,
Je suis du vingtième siècle:
Et j'en suis fier.
Il me suffit
d'être au vingtième siècle,
                                       là où je suis,
d'être de notre camp,
Et de me battre pour un monde nouveau..."
- " Dans cent ans, mon bien-aimé..."
- " Non, plus tôt et malgré tout,
Mon vingtième siècle mourante et renaisssant,
Et dont les derniers jours seront si beaux,
Ma nuit terrible qui se termine dans des clameurs
    d'aurore,
Comme tes yeux, mas bien-aimée,
Mon     siècle sera plein de soleil...


   Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 92 - 93.
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23/08/13

 
 
Vladimir Queiroz, Maria João Coutinho e Victor Oliveira Mateus no "Café Saudade", em Sintra, no dia 22 de Agosto de 2013,
 



Texto de apresentação do livro " Nuances" de Vladimir Queiroz:
 

    O novo livro de Vladimir Queiroz, Nuances, numa primeira abordagem pode ser entendido como uma incursão nos territórios da afectividade humana, mais especificamente do amor. Logo no soneto preambular, cujo título dá nome ao livro, o autor não só esboça uma caracterização aproximativa do sentimento referido (é vasto, tem íngremes vertentes, está submetido a um fluxo contínuo e é fonte desejante do olhar), como também estabelece  a relação existente entre o amor e o desejo (que ele não seja hostil à moral nem cúmplice de uma culpa ignorante), na sequência disto o homem passará a ser entendido como vivenciando um manancial de experiências e de pensamentos diversos, e por vezes antagónicos, portanto, deduz-se já que do amor não é possível alcançar-se uma definição rigorosa e de carácter fixista, nem tão-pouco vivenciá-lo através de uma experiência unívoca – do amor só se tem, e só se vive, não uma qualquer essencialidade estabelecida para todo o sempre, mas as nuances que dele conseguimos atingir.
    No soneto Burburinho, p 15, o poeta enfatiza duas das principais linhas de força desta obra: primeiro, o amor está submetido a uma dialéctica de ocultação/desocultação (O amor, a que persegues tanto,/esconde-se a te negar carinho;/mas, um dia, em meio ao burburinho/de vozes e sorrisos, ei-lo por encanto.); segundo, o amor está também submetido a uma outra dualidade antinómica: permanência/evanescência (O amor é como a água do mar:/chega junto à praia, penetra profundo/molhando a areia, que se deixa envolver.//Enigmático, brincalhão, vagabundo,/serena as águas como quem vai permanecer,/mas, de súbito, foge, para de novo voltar.). Depreende-se, por conseguinte, que deverá ser atribuição do poeta procurar entender, e viver, este mesmo amor em si lábil e multifacetado. Perante um cenário deste tipo percebe-se o quão difícil é para o ser humano movimentar-se, e construir-se, neste território, já que nele ora se perde, ora se encontra, ora ainda se voltará a perder. Uma vez chegados aqui dois outros aspectos fundamentais da poesia de Vladimir Queiroz se nos deparam: a figuração do feminino, estruturalmente dual, apresenta-se-nos não só como um polo de desejo (“estava ávido para conduzir/o desejo por entre as frestas/inexploradas em segredo.”, poema Ávido p 39 ; “Oh! Sorriso de neve/provocas em mim enxurrada/de prazer/no degelo da tua boca.” poema By Night, p 49), mas também esse feminino pode igualmente associar-se a toda uma imagética relacionada com o acolhimento e/ou com um regaço de acalmação (“O sereno que me acompanha/rodeia a face;/amado: adormeço, e sonho à toa.” poema Garoa, p 47; “Chego bem perto/entreabro os lábios/e recebo o fluxo de amor/que inunda a tua boca./(…) nos arrepia, nos aproxima,/uma quentura nos invade.” poema Regaço, p 37); o outro aspecto remete-nos para o facto de toda a movimentação afectivo-amorosa estar subsumida a um ininterrupto ciclo espiralado, onde a dimensão espiritual e a do corpo se vão procurando, afastando e reencontrando (Cf. poemas Íris, Espúria, Calmaria e o primeiro verso da segunda estrofe de Vere –Dictum, p 57).

   Uma outra vertente desta obra, que convém evidenciar, prende-se com a quantidade e os aspectos formais dos sonetos inseridos na primeira parte deste livro: a predominância de referentes que nos remetem para a antiguidade greco-latina, bem como, a formulação estilística, poderiam levar-nos a pensar estarmos perante um livro de estilo clássico com sonetos vincadamente parnasianos, no entanto, uma leitura mais atenta demonstra que, sobretudo nos sonetos, o poeta jamais sacrifica o sentido a quaisquer espartilhos de tipo formalista, assim, sobretudo nas quadras desses mesmos sonetos, opta por rimas interpoladas mas vezes há em que as combina com o verso livre (vejam-se os sonetos: Drink, Espúria), também a métrica não se apresenta regular, sendo o verso decassilábico muitas vezes sacrificado caso as exigências do sentido a isso o forcem. Um pormenor que nos afasta também de um classicismo insólito e serôdio deve-se ao facto de o autor recorrer, por vezes, ao linguajar rústico e à gíria, que acabam irrompendo no seio das formulações eruditas (“ seja sina, um sinal/ e coisa e tal; não faz mal.” poema Pétala, p 43; “Sem cor, passo… e se passo sem cor/ tenho a cor do burro quando foge.” poema Cores , p 53; “Comeu o pão que o diabo amassou,/ a carne, as vísceras, o fígado todos os dias…”, poema Canibal,  p 71). A inserção deste novo livro de Vladimir Queiroz dentro dos diversos Romantismos do século XXI, e não no seio de uma poesia estritamente clássica, é passível de ser apreendida também através de certas subtilezas temáticas e estilísticas, veja-se, por exemplo, o que diz respeito à representação da Amada: se no soneto Íris (p 21) a mulher amada nos surge com a sua tez branca  e os lábios róseos, o que nos remete imediatamente para a lírica do século XVI, o que é um facto é que não muito distante deste soneto aparecem-nos poemas de outro tipo, alguns de cunho vincadamente experimental, onde a Amada tem olhar crioulo (poema Nagô, p 27), pés pequenos (poema Calmaria, p 29), avalanche de melenas (poema By Night, p 49) e, perto do final do livro, nalguns poemas onde o cunho sócio-cultural se faz mais sentir, surge-nos mesmo a “joana pluma blonde/ explode em sangue, verve/dos sentidos.// A alma louca/ rouca na cruz santa/ luz no firmamento/ um juramento/ um lamento aos homens.” (poema Joana, p 79), ou seja, esta Joana é a célebre mulher de vida dita fácil, ícone de tanto poetas, românticos e não só. Perguntamos: se do Amor o poeta apenas obtém nuances, que dizer agora da figura feminina também ela tão diversa e plural? Não estará este livro demonstrando isso que é simultaneamente um elo e um hiato entre a Mulher (arquetípica e idealizada) e a mulher concreta, que no sensível dialoga com o poeta e com ele vai tecendo todos os caminhos do aqui? Aliás, as distinções lógicas e existenciais: universal/ particular, arquétipo/ sensível, etc. são-nos logo anunciadas no soneto introdutório do livro, pois não é por acaso que no primeiro verso da primeira quadra o Homem (ser humano) aparece significado com maiúscula e à medida que o poema se vai desenrolando o homem já nos surge referido com minúscula, como no caso do primeiro verso do primeiro terceto. E são estes aspectos que nos conduzem à confirmação de estarmos ante uma poesia assumidamente romântica, mas de um tipo de romantismo actual onde o corpo, a sexualidade e a sensualidade são salutarmente integradas sem os pruridos de qualquer juízo moral desajustado deste tempo que é o nosso (“ Rondas a minha carne…” poema Deusa, p 19; “possam arder minhas entranhas/ no calor que da tua pele emana” poema Íris, p 21; “E o frio desnuda o teu ser e enrijece os teus seios: / somos dois, somos unos,/ únicos num amor pleno e eterno.” poema Calmaria, p 29). A relação com a Amada aparece nesta obra de Vladimir Queiroz alicerçada num procedimento, não linear, mas baseado nesse movimento cíclico já anteriormente referido onde alma e corpo, espírito e matéria, entre si dialogam e se complementam: só purificando a alma, nem que seja banhando-se no Ganges (poema Avesso, p 33) aquele que ama pode entregar,  como oferenda, o corpo, e só vivenciando em pureza e eternidade o que é corpóreo no amor se pode engrandecer a alma – eis, enfim, o ciclo em forma de espiral que tinha já avançado neste texto, e é este também o objectivo último do amor e do amar (Cf. último verso de By night, p 49) nesta obra de Vladimir Queiroz, no entanto, porque ingente e complexo tal objectivo, e porque demasiado imperfeito o humano, de todo este vivenciar apenas conseguimos ir adquirindo Nuances.

 
            Victor Oliveira Mateus  ( Café Saudade, em Sintra, no dia 22 de Agosto de 2013).

                        
 

 

 


15/08/13



Só decifro
O que não vejo,
Tua funda cicatriz.

Gilvaz na pedra
E no tempo,
Sinal aberto
Aos segredos
Que adivinho
(E tenho medo).

Só desvendo
O que se esconde,
Marca de dente, vampiro
Desfeito nos teus calores.

Penetro
No que ignoro,
Teus dispersos
Labirintos.

E sinto que
O que espreito
É a sombra de mim mesmo.


   Fraga, Myriam. Poesia Reunida. Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2008, p 150.
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 Poema XI do Ciclo " A ilha "


Retiremos o fel,
Como abelhas malditas,
Desta suja corola,
Desta flor de antracite.

Há um mistério a cumprir
Nesta suja existência
De conchas e corais
Que se dissolvem em lama.

Viver é semear-se
(Boca olhos sexo),
É cortar a si mesmo.

Viver é um naufrágio
Sempre repetido.

As volutas de um búzio
Capturaram o infinito,
E o horizonte é um círculo
Que rápido se fecha.


  Fraga, Myriam. Poesia reunida. Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2008, p 43.
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13/08/13

 
 
       "  Soneto patético  "
 
 
Acordo para um mundo novo no jornal.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
 
Refaço o mundo no exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
No trabalho, o refúgio. Da paz desce o véu.
 
As horas vão... A tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
 
Tranco-me em casa. O mundo sangra na TV.
O sangue do meu sangue esvai-se, durmo enfim.
E não sei quem te viu. E não sei quem me vê.
 
 
  Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 127.
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  "  O amor de minha vida  "

Eu, com certeza, gosto é de foder.
Até digo que sei o quanto amar
seja lá o que for tem seu lugar,
mas foder por foder é mais prazer.

Amo a só superfície que há na pele,
a visão de uma boca subjugada,
apascentar um cu, gozar em cada
posição que a libido me revele.

O pau, que é sempre alerta, um dia cansa;
e o que fervia o sangue na cabeça
esfria o cavernoso da lembrança.

Resta-me, então, foder aqui e agora.
Portanto, perdição, goze e me esqueça.
Eu sou o amor que pica e vai embora.


  Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 79.
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    " Teu "

Quando te alcanço o olhar e te vejo medusa,
lanças-me cobras e lagartos; colho sapos.
Que me importa? És a musa! E sou um teu capacho,
tão-só um troço a mais no caldeirão da bruxa.

Petrificado, atiro-me a teus pés de pedra.
Tua lava ferina corta as cicatrizes
da minha lama. Derretido nas raízes,
restam-me cinzas de te amar tua alma cega.

Que Cupido canhestro errou flechar meu peito
fraco tão forte! O coice lesa-me de vez
o calcanhar de Aquiles. Dói-me o cotovelo.

Mas a alvura do gelo desce em tua tez
de esfinge e de montanha e me acalma de um jeito...
Se é terrível te amar? Tanto faz (que já fez).


   Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 51.
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    " Licença poética "


Sou livre pra buscar a rosa azul,
sou livre pra tocar fogo no lar,
livre pra qualquer droga, pra tomar
na veia, livre pra tomar no cu.

À minha volta o mundo é meu ensaio,
um palco, um tiro-ao-alvo, um lenço branco
em que beijo o sorriso ou cuspo o pranto,
ao bel-prazer do arbítrio, e me distraio.

Por onde começar? Mirando o céu?
Atirando no breu? Tirando o véu?
Condenado a ser livre! Como um biltre,

faço um soneto vil, sem peripécia,
que termina do jeito que começa.
Sou livre. Irremediavelmente livre.


   Ramos, Luís Antonio Cajazeira. Mais que sempre. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p 45.
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Em 2009 Ildásio Tavares deslocou-se a Portugal para assisitir ao lançamento do seu livro "As Flores do Caos" publicado pela Editora Labirinto.


       " Soneto do Desejo "


Amor só nasce e vive do Desejo.
   Nenhum Amor a outro Amor obriga:
   não há o que se faça ou que se diga
   que contrarie a força do Desejo.
Desejo logo existo. E assim emerjo.
   Mas se outro coração ao meu não liga,
   a coisa amada torna-se inimiga -
   Amor é sempre fruto do Desejo.
Planta carnívora é Amor. Querer
   imóvel que confunde o coração
   e desdenha o querer de outro querer.
Insensato gatilho da paixão:
   lucidez que comanda o enlouquecer
   Desejo és o tirano da razão.


  Tavares, Ildásio. As Flores do Caos. Fafe: Editora Labirinto, 2009, p 45.
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12/08/13

Em 2008 Ruy Espinheira Filho desloca-se a Portugal para presidir ao Júri do Prémio Camões, o mais importante prémio no âmbito das literaturas de expressão portuguesa  (Lisboa, Miradouro de Santa Luzia. Foto:  Miúcha ).



                " A Musa "

Talvez a amasse muito,
talvez não a amase nada,
talvez amasse somente
seu doce perfil na tarde,

ou só seu vestido branco,
ou só as tranças compridas,
ou apenas o passo leve,
ou somente o jeito esguio,

ou o olhar dissimulado,
ou as suaves sobrancelhas,
ou os seios imaturos,
ou a concha das orelhas,

ou só as mãos delicadas,
ou só os pés pequeninos,
ou as panturrilhas, ou
sua cintura tão fina,

ou... Mas eis que tudo amava,
sobretudo o que não via
do que a cabeça sonhava,
do que a roupa lhe escondia.

Tudo amava, de alma inteira,
até ficar quase morto.
E doido - de cometer
um primeiro verso torto.


  Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 177 - 178.
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11/08/13



   Poema 3 do Ciclo " Adeuses "


As vozes da sabedoria
são águas pesadas que despertam
sujeiras e chagas onde tocam.
       Pois nos lembram
o que somos,
o que não queremos
ser,
o que não suportamos
ser,
o que nos desespera
de ser,
como o que foi dito há pouco
e mais verdades reveladoras
de que, por exemplo, somos apenas
sombras
e o mais que conseguimos
são mão cheias de trabalho e vento
que passa.

São vozes que ensinam
ninguém se poder saciar
jamais.
       Vozes
que se querem consoladoras,
mas o que nos dizem é que não há
consolo. Como
saber que somos efêmeros
nos consolará? Que somos breves e nunca
fartos,
por mais densa que seja a felicidade
de hoje,
       ainda maior
que a de Salomão em toda a sua
glória,
porque esta felicidade já vivemos e necessitamos
da felicidade de amanhã, do depois
impossível,
pois a vida
já se vai,
se vai.


   Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, pp 130 - 131.
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   " Outro Dia "


Que tudo se vá
e não volte mais.


Nem como distante
névoa de lembrança.


Que tudo se finde
e só reste cinza.


Da autêntica - sem
trapaça de fênix.


  Filho, Ruy Espinheira. Elegia de Agosto e outros poemas. Rio de Janeiro: Editª Bertrand Brasil, 2005, p 98.
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09/08/13

Urbano Tavares Rodrigues ( 6/12/1923 - 8/8/2013 )

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   Vários têm sido os escritores que me têm marcado, uns pelas características da sua obra, outros pela sua forma de olhar o mundo, outros ainda pela grande lição de vida que todos os dias nos mostravam.
   A primeira vez que me encontrei com Urbano Tavares Rodrigues (aliás, eu dirigia-me sempre a ele por "Professor": a minha geração é ainda daquelas que sempre respeitou as gerações anteriores!) foi numa noite em que a Isabel Aguiar e o marido decidiram comprar bilhetes para irmos todos ver o "Saraband" de Bergman. Foi uma noite muito agradável: durante o intervalo, o ilustre professor deu-me logo uma lição acerca da relação entre Bergman e as cisões amorosas no romance francês do século XVIII. De regresso a casa, sentado no banco de trás do meu carro, o grande senhor explicáva-nos, com minúcia, o seu estado de saúde.
  Outros encontros se seguiram: conservo ainda as dedicatórias generosas que ele me escreveu no seu livro de poesia publicado pela Asa, no seu "Eterno Efémero", etc. Mas conservo sobretudo na memória a última vez em que conversámos: eu estava a organizar "O Prisma das Muitas Cores", quando lhe liguei, ao fim de algum tempo, ouço: " Já pensava que o Victor se tivesse esquecido de mim!" Esta foi uma das maiores lições de grandeza que este senhor me deu!  Esta simples frase! Fui então a sua casa buscar a sua colaboração para a Antologia, ele, com uma alegria sóbria, fez questão de me ler primeiramente o seu "Barranco de violetas"... Eu, naquele momento, senti-me minúsculo! Acabámos depois falando de amigos comuns que ambos admirávamos, sobretudo da Ana Sampaio e da Graça Pires. Depois, com a maior das simplicidades, disse-me que estava cansado e se eu não levava a mal que ele não me acompanhasse, pelo seu extenso corredor, até à porta. Era assim Urbano Tavares Rodrigues: ilustre académico, grande escritor, espírito atento e de uma extrema lucidez, mas também um homem a quem a fama nunca afectou e que foi para a minha geração uma lição de vida e de coerência. Num tempo de artifícios, de celebridades plastificadas, de vulgarização da mediocridade, acabou de partir um grande senhor, um autêntico aristocrata, no sentido socrático do termo.
  Até sempre, Professor!!!
.
 

 
 
                                         " O expresso das dez e trinta e dois "
 
 
  O homem tinha adormecido. O despertador do telemóvel não tocara, ou tinha tocado e fora ele que não ouvira. Andava cansado, sim, talvez fosse isso! E já não ia ter tempo para tomar um duche... puxou apenas uns calções que andavam por ali, uma t-shirt, escovou os dentes à pressa e lá saiu ele de roldão. Desceu as escadas a dois e dois com os braços ajoujados de livros, jornais, revistas... Estava atrasado! Mal pôs os pés na rua foi logo de encontro a um jovem, que, com ar nervoso, se amparava à frontaria do prédio. Era um rapaz de pouco mais de vinte anos, t-shirt branca em V e calças verdes acastanhasdas, enfim, um não sei quê de negligência trabalhada. Procura alguma coisa?, perguntou-lhe o homem. Vinha tirar fotografias, estou à procura de um Estúdio, de um Laboratório de Imagem, respondeu o rapaz. Ah, meu caro, a única coisa com boa imagem aqui no prédio sou eu!, respondeu o homem, agressivo. O rapaz olhou-o: barba de três dias, pele gordurosa, ténis desapertados, calções a berrarem à t-shirt, papelada a espreitar por tudo quanto era lado... E lá ficou o rapaz ainda mais confuso: talvez o homem fosse um louco em fase de reabilitação?, deve ter pensado.  Olhe, tenho de tomar já já uma bica, disse o homem enquanto entrava no café. O rapaz segui-o: é que o meu GPS diz que o Estúdio é aqui. A mulher do café apanhou ainda a parte final da conversa e decidiu avançar: ah, ainda bem que encontrou o sotôr, ele ajuda-o já! O rapaz estava cada vez mais baralhado, começou a ver as lombadas dos livros, mexeu nas revistas e decidiu ser preciso: deu o nome da rua, o número... Ah, meu caro - disse o homem - deite o GPS fora, isso é quase no outro extremo da cidade, por acaso até vou para lá. Olhe, está a ver - disse a mulher - o sotôr até lhe pode dar uma boleia! O rapaz ficou nervoso, assustado mesmo. O homem, indiferente, começou a tomar o seu cafézito expresso das dez e pouco. O dono do café, não satisfeito com a confusão, atirou outra acha para a fogueira: aceite a boleia do sotôr, aceite, olhe o último que aceitou uma boleia dele nunca mais apareceu! O homem, que estava a beber o café, não se conteve: deu uma gargalhada de tal modo que o café até lhe saiu pelo nariz. E foi mais ou menos aqui que o rapaz percebeu que tudo era um jogo, que estava em pleno centro de uma peça de teatro. Ó senhor Pedro, disse o homem, não diga isso... aqui o jovem já me deve ter por antipático e arrogante e depois do que está a dizer... O rapaz interrompeu abruptamente o homem: por acaso até aceito a boleia, eu até estou atrasado! Olhe, depois não diga que não o avisei, insistiu o dono do café a rir. Rimo-nos todos. Não repare no carro, disse eu enquanto caminhavamos, não é lavado há três milénios. Quando atirei a livralhada e os papéis para o banco de trás, o rapaz atirou-me ele também mas com a pergunta sacramental: o que é que faz? Eis-me apanhado!: escrevo umas coisitas... aí para uns jornais. É jornalista? Insistiu ele. Sim, menti. O telemóvel dele tocou e eu ouço-o: sim, já sei onde é, um senhor ensinou-me, dentro de vinte minutos estou aí... O rapaz entrou no carro. Quando me chamam senhor sinto sempre que tenho trezentos anos, esclareço-o. Era a minha mãe, que queria você que eu lhe dissesse? Ok, ok, tudo bem!, rematei. A propósito: qual é o seu nome? Insistiu ele. Estou feito!, pensei. Dei-lhe o meu primeiro nome, mas ele não se deu por vencido! Olhe eu vou tirar fotos, chamo-me X. e estou na Companhia de Dança Y, vá, agora é a sua vez. Tentei ainda iludir a resposta: falei-lhe do tempo em que tinha pachorra para assisitir a tudo o que era estreia: Teatro Camões, Teatro Nacional, S. Carlos, etc. O Victor foi amigo da A.? Perguntou-me ele com os olhos esbugalhados. Fui não, sou!, mas ela aposentou-se... aquilo era uma miséria, nem dinheiro havia para as sapatilhas. E calei-me. Hum, você está a mentir-me!, rosnou ele, qual é o resto do seu nome... vá, diga! E sabe porque é que eu sei que está a mentir, é que eu já li coisas suas...Você mentiu-me e eu não menti! Pronto, fui apanhado - encenei um sorriso - qual é a pena? A pena é... é... - e fingiu indecisão - já sei, a pena é ir assistir à minha estreia. Se tiver tempo, tento fugir eu. Se não tiver, vai ter de arranjar, não se esqueça que eu agora sou amigo dos donos do café. Mas... temos pressão? Sim, temos... ah, e não me deixe à porta do Estúdio, não quero que me vejam! Adoro histórias de espiões! remato, cínico. Estaciono ao fundo da rua. Um silêncio enorme. Já não me está a apetecer ir para a sessão de fotografias... e se eu não fosse? Vá, vá-se lá embora, vá-se embora que eu também estou atrasado. Já cá fora, e pela janela do carro, o rapaz estendeu qualquer coisa ao homem... eu não consegui ver bem o que era, mas ainda o ouvi dizer: a propósito, quando estava a arrumar os livros no banco lá atrás deixou cair isto. E o rapaz estendeu qualquer coisa ao homem. Empertiguei-me para ver o que seria, mas, confesso, não percebi bem, suspeito que era um papel com um número de  telemóvel. Suspeito não, tenho a certeza! Essas coisas percebem-se pela forma como os carros recomeçam a andar.
 
V.O.M.
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07/08/13

 
 
Não pronuncies a palavra esperança
ela está fora de ti é vã quando não sabemos
dos círculos que traçamos com o corpo
 
inventa um animal e dança com os passos
suspensos de todas as formas exactas, respira
se necessário cai, cai sem medo
o erguer recomeça sereno
 
anela os afectos sempre que tocares
uma árvore uma flor a água
envolve-te neles profundamente
como se Deus fosse a urgência do Amor
 
tudo o que sabes é um anel que cresce
sem que possas antecipar a ave
que vai migrando nos teus olhos
haverá um momento iminente em que estarás
por detrás do olhar sabendo
que o corpo é uma encruzilhada do tempo
nele os sinais modelam um mapa legado
em cada acto presente
 
colhe o futuro nesse momento
 
 
   Rosa, Gisela Ramos. Tradução das manhãs. Póvoa de Santa Íria: Lua de Marfim Editª, 2013, p 23.
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05/08/13

 
 
  Na realidade, necessitava de uma obra poética para corrigir o destino e mostrar-me diferente daquele ser que um dia figuraria nas biografias oficiais. No íntimo sabia que nada do que escrevia mudaria coisa alguma, mas, por meio de poemas, o meu sofrimento organizava-se, fazendo sobressair as minhas paixões e os meus remorsos. Exprimindo-me por metáforas, limando a última estrofe, a dor decantava-se, mas pouco do que passava a escrito me alcançaria com verdade. Aqueles cantos não deixavam de me desgostar, sabendo eu que sempre se perde o essencial no momento de os escrever. Por entre as matizes da exaltação gloriosa ou da agonia, o meu genuíno pesar era o que não aparecia em verso.
  Cada vez que escrevia uma linha poética corrompia a integridade das minhas mágoas. Era fácil reconstruir as derrotas como a história de um rei letrado que desejava ser perdoado. Era fácil e não passava de uma manobra ignóbil. Havia muitas outras coisas que poderia ter feito de forma a não acabar os meus dias a escrever poemas aos corvos de Aghmât.
  Pouco a pouco habituara-me à ideia de vir a perecer entre as quatro paredes daquela cela. Pensava frequentemente no suicídio como uma libertação, mas não desejava deixar aos meus filhos a recordação desagradável de um rei cobarde, incapaz de suportar mais um martírio. (...) Respirava ainda, mas a única prova de que estava vivo era aquela infinidade quase indestrinçável de pensamentos, sensações e gestos que se bastavam a si mesmos, sucedendo-se uns a seguir aos outros no apertado espaço do cárcere.
 
 
     Silva, Ana Cristina. Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid. Barcarena: Ed. Presença, 2010, p 164.
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04/08/13


 
   Não tardou que os boatos acerca da natureza da minha relação com Ibn Ammar se multiplicassem, tendo chegado aos ouvidos de meu pai. Esses rumores quase provocaram a minha desgraça. As intrigas diversificavam-se, parte do falatório, tendo fundamento, era empolado até níveis absurdos. Acusavam-me de blasfemar contra o Alcorão, de me embriagar com o meu amigo e de me envolver em peripécias amorosas de teor duvidoso. Por meias-palavras faziam-me a injúria de divulgar que me submeteria a todos os caprichos de Ibn Ammar. Nesse ponto as dúvidas aprofundavam-se, tendo sido posta a circular a suspeita de que partilharia com ele repugnantes intimidades. O meu amigo deixava de ser um obscuro comparsa de deboche, onde participariam mulheres de má fama e escravas cristãs, para se transformar no protagonista de uma pérfida influência.
   O emissário do meu pai chegou a Silves quando eu estava prestes a fazer dezoito anos. Eu podia ser o príncipe herdeiro, mas ele recebera ordens directamente do emir e escusou-se a escutar os meus argumentos. As suas ordens eram muito claras: deveria regressar imediatamente com ele à corte de Sevilha. Era aguardado no espaço de uma semana. Apenas consegui que Maha, grávida do meu primeiro filho, me acompanhasse nessa sentença de exílio.
   A minha entrega a Ibn Ammar tinha a sua inocência; era quase tão frágil como qualquer paixão. Sofri muito por não saber se os afectos resistiriam à separação. Ele riu-se do meu jeito infantil de fazer beicinho naquela madrugada fria em que nos despedimos. Aquela amizade - era nesses termos que nomeava os meus sentimentos - começada de forma tão invulgar, enriquecera-me como nenhuma outra. Foram estas as palavras que usei para lhe explicar como dava valor à nossa relação. Abraçámo-nos uma última vez antes de montar o meu cavalo. Revejo a sua cabeça inclinada como que numa vénia trocista, olhos que me observavam sob um véu de ternura, exibindo, no entanto, uma espécie de alívio por me ver partir. Já me afastava quando me lembrei de que Ibn Ammar deixaria de ter quem provesse ao seu sustento. Voltei atrás e, evocando já não sei que pretexto, dei-lhe à socapa todas as moedas de ouro que trazia comigo. Aproveitando a oportunidade, ele aproximou-se do meu ouvido e sussurrou: "A nossa história não acaba aqui, mesmo que por agora nos separem e cada um siga o seu caminho." A afirmação continha qualquer coisa de profético, uma espécie de entendimento secreto, cujo alcance ultrapassava a própria vontade de cada um.
 
 
  Silva, Ana Cristina. Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid. Barcarena: Ed. Presença, 2010, pp 57 - 58.
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03/08/13

 
 
   Naquele Natal, depois da conversa com Nuno, a angústia foi mais forte, o peito doeu mais, tinha perdido uma oportunidade de dar uma volta à minha vida, de ter mais um amigo e, por via disso, encontrar alguém com quem pudesse ser feliz, expressão esta que se usa aqui por falta de melhor, o que é ser-se feliz, é-se feliz ou têm-se momentos felizes, na altura não sabia, tinha vivido muito pouco ainda, hoje sei que se têm momentos felizes, a felicidade como estado de espírito permanente é uma mentira, uma impossibilidade, não se pode ser feliz cada segundo de um dia, há um copo que se parte e espalha água por todo o lado, há um telefonema de alguém que não se cala, há uma dor de cabeça, há um momento de ansiedade, há um gesto infeliz, portanto a felicidade é uma fantasia boa para as novelas e os anúncios de televisão, veio isto a propósito do meu desejo de encontrar alguém com quem pudesse partilhar momentos felizes, quem não o deseja, afinal, mas a cobardia da minha atitude para com Nuno adiou essa possibilidade.
 
 
   Lima, Joaquim Almeida. Ensaio sobre a Angústia. Lisboa: Gradiva, 2012, pp 76 - 77.
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02/08/13


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"Paixões Proibidas" (Two Mothers, 2013) é o novo filme da luxemburguesa Anne Fontaine baseado num conto da escritora britânica Doris Lessing (Prémio Nobel, 2007). Filme arrojado sobre o amor, a amizade e o poder, Two Mothers é um poderoso testemunho sobre o que une os seres humanos ou sobre aquilo que os poderá também desunir, esta obra é igualmente um corajoso afrontar de vários dos padrões da conformidade veiculados pela moral burguesa, que dogmaticamente se firmam como modelos normativos da ação ético-moral. Nesta película, duas amigas de infância - Lil (Naomi Watts) e Roz (Robin wright) - acabam por, anos depois, se apaixonar pelos filhos uma da outra - Ian (Xavier Samuel) e Tom (James Frecheville) -, este relacionamento, claustrofóbico e obsessivo, começa a desmoronar-se quando Tom se envolve com uma jovem da sua idade. As duas mulheres decidem, num rasgo de lucidez perante um envelhecimento que se avizinha, cortarem cerce a situação. Os dois jovens casam, têm filhas e lá vemos, então, as duas famílias "felizes" a caminho da praia com as duas "jovens-avós" mimando as netas. Tudo estaria "normal", tudo estaria equilibrado e bem arrumado nas prateleiras do socio-moral, tudo seria o melhor dos mundos não fora apenas uma coisa... uma coisa pequeniníssima, ínfima mesmo: é que nisto da atração entre os seres a vontade e a razão, por mais cenários que montem, contam muito pouco: Tom volta a reatar a sua relação com Lil, o filho desta, por sua vez, assedia Roz... e um dia as jovens esposas acabam por descobrir tudo e abandonam os maridos levando as filhas, o que, aliás, parece aliviá-los, sobretudo a Ian... Naquele círculo fechado, confirma-se: não cabe mais nada a não ser essa qualquer coisa de que os quatro não conseguem, nem querem, libertar-se, e que os puxa para um universo solar, uterino (a presença do mar e do sol é recorrente!) e onde apenas o presente conta (Ian chega mesmo a prometer a Roz, ante os pedidos dela, que jamais a deixará envelhecer!)... Doris Lessing é, decididamente, uma das minhas romancistas, e o filme é um arrebatado momento poético. A não perder!
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23/07/13


  Hoje acordei muito angustiado, o peito a doer com a dor surda que dificulta a respiração, a ferida da alma a sangrar, hoje é Domingo.
  Já se sabe que o Domingo é o pior dia, muitas vezes o sofrimento mental começa logo no Sábado à noite, antecipando o dia infernal que lá vem, Pedro sabe que é o dia em que preciso mais da atenção dele, dos carinhos, da voz, preciso muito da voz dele, das mãos, do sorriso, nunca fazemos amor ao Domingo de manhã porque ambos sabemos que o meu pensamento está imerso em angústia e dor.
  Acordo sempre muito cedo e levanto-me de imediato porque se fico na cama a angústia vai aumentando rapidamente, não acordo Pedro porque preciso de viver sozinho a angústia por algum tempo, tomo a medicação de rotina (...) um pensamento desvairado, sem travões, vem à cabeça um pouco de tudo, porquê este sofrimento, porquê eu, porquê ainda, passados quarenta anos, porquê ainda, tendo o colo de Pedro há vinte anos, porquê ainda, quando já nada escondo a ninguém, sinto um enorme cansaço mental para o qual não encontro descanso, e hoje não me apetece sair de casa, não consigo ler (...). Estava a pensar que a memória é o nosso pior inimigo, Pedro, era tudo tão mais fácil se não nos lembrássemos de nada, passou, passou, mas ela insiste em nos lembrar dos piores momentos, e, o que dói ainda mais, dos melhores momentos, quando se está angustiado como eu estou, a recordação das coisas boas aumenta a angústia, que bom que foram aqueles tempos, aquele dia, aquela noite, e vem então o medo, o terrível medo de que não haja mais bons momentos, de que o futuro não exista, que só haja algo muito negro e sem qualquer sentido, que nos aponta, sorrindo, o caminho da loucura.
  Pedro ouviu-me com uma expressão aflita, ouve-me sempre assim como se fosse a primeira vez, ele sabe melhor que ninguém o que eu sofro, mas também sabe que tudo seria muito pior sem ele...
 
  Lima, Joaquim Almeida. Ensaio sobre a Angústia. Lisboa: Gradiva, 2012, pp 64 - 65.
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