11/10/13

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“ Helena em Tróia, os últimos momentos “

 

 Lembro as noites de sufoco com os pássaros
encalhados no topo das torres, com a luz
a torcer-se nos meus olhos e o calor,
já prenúncio de desastre, descendo em ameaça
a rigidez do Parnón para ali se misturar
com a passividade das ovelhas, com o desalinho
ofensivo das cabras, com o relincho selvagem
dos cavalos a saciarem-se, alheios a tudo,
nas águas frescas do Eurotas. Lembro
a minha perda ainda mal desenhada na erva
tenra das margens, enquanto os deuses,
em conluios de quem tudo pode, me preparavam
armadilhas fortes e sem possível escapatória.

 
 
 Lembro as lautas refeições noite adentro
onde o riso dos homens se enredava na vileza
partilhada e a gordura lhes escorria pelas barbas,
enquanto  o cheiro da urina se misturava
com o do porco bravo a voltear sobre um fogo
intermitente. Lembro os movimentos
voluptuosos das dançarinas, mulheres encenando
o que não sentiam, para o simultaneamente
boçal e frouxo apetite dos homens. Lembro
as guturais entoações dos poetas, espécie
sempre indecisa entre a inveja e a concupiscência
da alma, arvorando entoações de ouro
nos míseros recipientes onde recebiam as esmolas.
 
 
 
Lembro também os músicos, tão desacompanhados
de tudo, os guerreiros – impotentes como todos
os guerreiros -, os estrategas, os generais, os nobres…
E lembro sobretudo a presença de Hermíone,
com os seus nove verões recém concluídos,
a acenar-me por entre a rudeza dos convivas
e do abandono a que, em breve, a votaria –
eu, qual funesta mãe a quem o ventre deveria
ter sido mirrado à nascença, para jamais trocar
filha por salvação própria em braços de homem
raro, homem que me perdoaria um passado
só de corpo, de fealdade da mente, de prazeres
grosseiros, como grosseiro fora tudo antes dele.

 
 
Lembro esse mesmo homem a atravessar
a cidadela, a entrar no pavilhão entre a falsa
ousadia varonil e o engaste de um desnorte
verdadeiro a esconder-se por detrás de tudo
o que em Heitor era missão e primazia. Vi-o
e soube de imediato a que perda estava destinada,
a que fim me conduziriam todos os caminhos
que se emaranhavam agora do meu promíscuo
passado a esse barco que no porto me sabia esperar.
E, quando ele finalmente reparou em mim,
percebemos ambos que nenhuma saída era já possível;
que Apolo, senhor do sol e de todas as luzes,
de nós se apropriara como exemplar fulgor do eterno.

 
 
Páris Alexandre, sussurravam as criadas o seu nome,
gritavam-no os homens entre si, ressoavam-no
os antigos oráculos, que de mim tanto escondera
por temor e cobardia. Nove dias após o primeiro
olhar! Nove dias onde as noites floresciam
com tanta coisa sufocada e aguardando a mão
certeira. Noites a medirem-se por um fascínio
em desalinho:  faixas decoradas, colares de contas
de âmbar, braceletes de folha de ouro, tecidos rasgados,
suor, saliva, pingos de sémen e a nossa perda
também, mas essa não nos interessava,
porque cheirava a ganho e a instantes eternizados,
coisa que só a poucos é concedida.

 
 
Não, não me julguem pelos relatos futuros, por essas
inverosímeis epopeias ou pelos preconceitos dos que não ousam!
Tróia teria sido igualmente destruída: as terras de Dardano
eram apetecíveis, mas pela geografia e pelos celeiros de trigo.
Eu fui apenas o pretexto! Os políticos, casta de facínoras
com máscara de sorrisos, há muito tinham decidido
a nossa perda; na sua ganância não cabe a honra
nem estórias como a minha e nos seus melífluos argumentos
apenas a abastança se descobre pelo fedor insuportável
dos seus ventres sórdidos. Fugi, pois, dos poetas, dos políticos
e das estelas à beira dos caminhos! Só a justeza da paixão,
a sua lealdade, é verdadeira, só ela poderá um dia
dar sentido à pequena e miserável  História dos homens.

 

                              VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS (Inédito)



Nota - Os meus textos inéditos ( e apenas esses!) estão protegidos por legislação específica.
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10/10/13



O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA DE 2013 foi hoje atribuído pela Academia Sueca
 à canadiana Alice Munro.
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09/10/13

 
 
          " Je vivais. Mon regard, comme un peuple... "
 
 
Je vivais. Mon regard, comme un peuple d'abeilles,
Amenait à mon coeur le miel de l'univers.
Anxieuse, la nuit, quand toute âme sommeille,
    Je dormais, l'esprit entr'ouvert!
 
 
La joie et le tourment, l'effort et l'agonie,
De leur même tumulte étourdissaient mes jours.
J'abordais sans vertige aux choses infinies,
    Franchissant la mort par l'amour!
 
 
Vivante, et toujours plus vivante au sein des larmes,
Faisant de tous mes maux un exaltant emploi,
J'étais comme un guerrier transpercé par des armes,
    Qui s'enivre du sang qu'il voit!
 
 
La justice, la paix, les moissons, les batailles,
Toute l'activité fougueuse des humains,
Contractait avec moi d'augustes fiançailles,
    Et mettait son feu dans ma main.
 
 
Comme le prêtre en proie à de sublimes transes,
J'apercevais le monde à travers des flambeaux;
Je possédais l'ardente et féconde ignorance,
    Parfois, je parlais des tombeaux.
 
 
Je parlais des tombeaux, et ma voix abusée
Chantait le sol fécond, l'arbuste renaissant,
La nature immortelle, et sa force puisée
    Au fond des gouffres languissants!
 
 
J'ignorais, je niais les robustes attaques
Que livrent aux humains le destin et le temps;
Et quand le ciel du soir a la douceur opaque
    Et triste des étangs,
 
 
Je cherchais à poursuivre à travers les espaces
Ces routes de l'esprit que prennent les regards,
Et, dans cet infini, mon âme, jamais lasse,
    Traçait son sillon comme un char.
 
 
Tout m'était turbulence ou tristesse attentive;
La mort faisait partie heureuse des vivants,
Dans ces sphères du rêve où mon âme inventive
    S'enivrait d'azur et de vent!
 
 
Ainsi, sans rien connaître, ainsi, sans rien comprendre,
Maintenant l'univers comme sur un brasier,
Je contemplais la flamme et j'ignorais les cendres,
    Ô nature! que vous faisiez.
 
 
Je vivais, je disais les choses éphémères;
Les siècles renaissaient dans mon verbe assuré,
Et, vaillante, en dépit d'un coeur désespéré,
Je marchais, en dansant, au bord des aux amères.
 
 
À présent, sans détour, s'est présentée à moi
La vérité certaine, achevée, immobile;
J'ai vu tes yeux fermés et tes lèvres stériles.
Ce jour est arrivé, je n'ai rien dit, je vois.
 
 
Je m'emplis d'une vaste et rude connaissance,
Que j'acquiers d'heure en heure, ainsi qu'un noir trésor
Qui me dispense une âpre et totale science:
    Je sais que tu es mort...
 
 
   Noailles, Anna de. L' Offrande. Paris: Orphée/ La Différence, 2012, pp 99 - 101.
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08/10/13



                                             " Prière "


   Si un jour, aux derniers instants de ma vie, je dois expier les péchés de la magnifique jeunesse, son outrecuidance radieuse, ses rires ouverts, son ingénue malveillance, sa démarche de despote, ses décisions sans scrupule, ses obstinations et ses dédains, - et que ces puissants méfaits de l'irréflexion viennent plaider contre moi, veuillez, ô Destin, opposer à ces images d'un crime ravissant toutes les détresses de votre créature! Évoquez sa patience suffocante, sa constatation du malheur lente et sûre comme l'envahissement d'un insidieux venin, les tempêtes de l'esprit et du corps, comprimées par de faibles mains appuyées sur un coeur bondissant. Considérez dans son martyre spirituel cet être qui gît les yeux clos, disloqué comme la victime d'un accident brutal qui ne nécessite plus ni attention ni secours. Dénombrez les coups de couteau de la hideuse déception dans l'imagination humaine acharnée au plaisir, qui, comme vous, est divin, robuste et créateur. Auscultez ce désert songeur où alternent le râle et le silence. Apitoyez-vous sur la douleur qui appelle non seulement la mort, mais une mort disgraciée, et recevez, ô Monde, ce poids de rêve piétiné dans le paradis sans conscience de votre vaine éternité!
 
 
    Noailles, Anna de. L'Offrande. Paris: Orphée/ La Différence, 2012, p 90.
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07/10/13


                   " Le conseil "


Myro, sois déférente envers celui qui t'aime,
Ne crois pas ton doux corps par les dieux achevé,
Sans l'amant ébloui que ton oeil fait rêver
Ton être vaniteux ne serait pas soi-même.

Loin du flot qui lui voue un murmurant amour
La rive d'or n'est plus qu'un sable désertique;
Honore le désir fidèle et nostalgique
Qui fait à ta beauté un infini contour,

Lorsque tes pieds sont joints et tes mains refermées
À l'heure où le sommeil vient encercler ton lit,
Regarde, avant d'entrer dans l'éphémère oubli,
La morte que tu es quand tu n'es pas aimée...


  Noailles, Anna de. L'Offrande. Paris: Orphée/ La Différence, 2012, p 62.
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   Decididamente este fim de semana foi momento de cinema. Havia muita coisa para ver e, quando se juntam sete pessoas, há sempre que fazer concessões. Isto para dizer que, por vontade minha, não teria visto o "Por detrás do candelabro" (Behind the candelabra, 2013) e não o teria visto porque não gosto da música de Liberace e o seu tipo de vedetismo sempre me irritou.
   Steven Soderbergh não faz parte dos meus realizadores preferidos, apesar de ter realizado dois dos meus filmes de cabeceira: "Sexo, mentiras e vídeo " (1989) e "Kafka" (1991), a partir daqui pouco do seu trabalho me tem motivado, contudo - devo confessar - estava desejoso de ver o desempenho de alguns actores em "Candelabro" e, nesse aspecto, valeu a pena!
   Soderbergh retrata no seu filme os últimos anos da grande vedeta que foi Liberace (16/5/1919 - 4/2/1987), papel desempenhado magistralmente por Michael Douglas, sobretudo dando ênfase à relação que o cantor manteve com um dos seus últimos amantes, Scott Thorson, interpretação a cargo de Matt Damon. Relação secreta, tumultuosa, com uma enorme diferença de idades e onde os dois eram de proveniência social bem distinta, mas que, apesar de tantos contras, durou ano após ano. E foi exactamente isto que fez com que me convencessem a ver o filme: como pegariam nos respectivos papéis um Michael Douglas e um Matt Damon que toda a vida vimos em heterossexualíssimos desempenhos? Fiquei estarrecido! Creio mesmo que é assim que se vêem os grandes actores. As recriações feitas por estes dois senhores são do melhor que tenho visto! Outro pormenor: Soderbergh vai buscar a retirada Debbie Reynolds para desempenhar o papel da desmemoriada mas astuta mãe de Liberace. O resto do elenco também é de luxo: Rob Lowe, Dan Aykroyd, Scott Bakula... Conclusão: se não tivesse visto o filme não teria perdido nada de especial, mas se não tivesse visto aqui as fabulosas interpretações de Douglas, Damon e Reynolds teria perdido MUITO. Como é que se consegue uma coisa sem a outra? Não se consegue!
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06/10/13


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Margarethe von Trotta, juntamente com Schlondorff e Fassbinder, é uma das impulsionadoras do novo cinema alemão. De entre a sua conceituada obra contam-se filmes como: "Anos de Chumbo" (1981), sobre os grupos de guerrilha que atuaram nos países ricos da Europa ainda não há muito tempo, e "Rosa Luxemburgo " (1986), a ativista e filósofa marxista assassinada pela direita nazi na Alemanha. Não deixa de ser significativo que, nos dias de hoje, Madame von Trotta vá exactamente fazer um filme sobre uma filósofa a quem o problema do Mal tanto obcecou - Hanna Arendt.
 O filme "Hanna Arendt" (2012), cujo papel principal é magistralmente representado por Barbara Sukowa, narra a posição da filósofa alemã, não só relativamente à questão do Mal, mas sobretudo demonstra como ela chega às suas conclusões (PENSANDO e... VENDO!) através do julgamento de Eichmann em Jerusalém. O filme, em cenas secundárias, mostra-nos ainda aquilo que foi a consumada paixão de Hanna Arendt pelo seu velho mestre, Martin Heidegger, e como ela dele se desiludiu e afastou após ter descobrido as ligações deste ao Partido Nazi, vê-se ainda a sua amizade com o casal Jonas em várias ocasiões, contudo, o filósofo Hans Jonas viria a romper com Hanna Arendt após a publicação que esta fez do seu texto sobre Eichmann.
Adolf Eichmann (19/3/1906 - 31/5/1962), oficial das SS, foi um dos maiores organizadores do holocausto: pelas mãos dele foram encaminhadas para morte milhões e milhões e milhões de pessoas. Após a derrota nazi na 2ª Grande Guerra, Eichmann consegue um passaporte falso da Cruz Vermelha e esconde-se na Argentina, onde passa a viver clandestinamente. Em 1960 a Mossad localiza-o e rapta-o para logo o colocar em Israel, mais propriamente diante de um tribunal em Jerusalem, ante o qual Eichmann terá de responder por crimes de guerra e por crimes contra a humanidade. Considerado culpado, Eichmann é executado em 1962.
Ora sucede que Hanna Arendt é encarregada, pelo jornal para o qual trabalha, de ir VER/ASSISTIR ao julgamento de Eichmann. A primeira coisa que a surpreende é que aquilo que vê dentro de uma jaula de vidro não é propriamente o monstro que esperava ir ver, mas antes um zé-ninguém engripado. Aquele indivíduo nunca ligou uma válvula ou uma torneira para gasear pessoas, ele nunca empurrou ninguém para dentro de camionetas que gaseavam, ele, conforme afirmava no tribunal, limitava-se a ser fiel a um juramente e a uma dada noção de dever. Este foi o primeiro grande choque de Hanna Arendt, ela não conseguia estabelecer nenhum elo de causalidade direta entre qualquer ação de Eichmann e as mortes concretas que os seus comportamentos jamais se esforçaram por impedir. ONDE PROCURAR ENTÃO A CAUSA DO MAL? E a resposta de Hanna Arendt foi depois bem clara: primeiro, é possível existirem momentos na História e nas Sociedades em que, apesar de dotados de CONSCIÊNCIA, os indivíduos não exercem o PENSAMENTO (veja-se com atenção todos os diálogos do filme que abordam a questão da consciência, do pensamento e da culpa!) acabando assim por levar ao sofrimento e à morte muitos seres humanos; segundo, esses indivíduos, ESSES ZÉS-NINGUÉM são o que mais existe nesses momentos nas referidas sociedades edificando assim, e fortificando, A BANALIDADE DO MAL. A filósofa diz mesmo, em certo momento do filme: "o Mal nunca é radical, radical só o Bem, mas o Mal pode ser extremo e profundo" quando propagado pelos incapazes de pensar. O filme levanta depois outras questões, como por exemplo o papel dos Conselhos Judaicos nos países ocupados, questão a que a autora não consegue responder a 100%, embora assumindo que eles também participaram em mortes e que...  "entre a consumação da ação odienta e o leque de possibilidades devem existir muitas posições", mas aqui Hanna Arendt não conclui o raciocínio.
As posições da filósofa levantariam depois um coro de ódios, ameaças e acusações, nomeadamente a de estar a defender Eichmann e é a essas acusações que ela responde aqui nesta aula dada num anfiteatro.
Acabo apenas dizendo que não creio ser por acaso que um nome prestigiado como Margarethe von Trotta, decide fazer um filme sobre "a banalidade do mal", sobre a "culpa dos zés-ninguém que se recusam a pensar", sobre "facilidade com que indivíduos que dizem que se limitam a cumprir ordens "(como Eichmann o faz no tribunal!) acabam conduzindo ao sofrimento, e até à morte, tantos seres humanos; não creio - repito - que na atual, e desumana, crise do capitalismo financeiro a feitura deste filme tenha sido trabalho gratuito e de mero passatempo.
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(Mera sugestão- "Eichmann em Jerusalem - Uma reportagem sobre a banalidade do mal" de Hanna Arendt, Edições Tenacitas, Coimbra, 2003; "As origens do totalitarismo" de Hanna Arendt, Dom Quixote, Lisboa, 2006).
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04/10/13


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DIA 26 DE OUTUBRO, PELAS 17H00, ESTAREI NA CASA DA CULTURA JAIME LOBO E
 
SILVA, NA ERICEIRA, PARA CONVERSARMOS SOBRE LITERATURA EM GERAL E
 
MAIS ESPECIFICAMENTE SOBRE POESIA. ENTRADA LIVRE!
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03/10/13

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             Ana Maria Puga: a delicada irreverência da escrita
 
 
    O novo livro de Ana Maria Puga, Área de Serviço, apresenta-nos uma escrita de cunho vincadamente urbano e realista, onde uma função irónica e deliberadamente ambígua da linguagem, assim como o engajamento social, surgem como principais linhas de força. Por entre os vários aspectos que aparecem subjacentes a esta escrita podemos encontrar, embora de forma ténue, as marcas de autores como Fernando Assis Pacheco (cf. “Elegia por Manuel Bogalho” in A Musa Irregular pág. 149; “A Bela do Bairro”, idem pp. 151-152) e Jorge Fazenda Lourenço (cf. “Cutucando a Musa”); também a veemência do sentido, bem como alguns procedimentos rimáticos, nos fazem lembrar a assertividade de poéticas como as de Miguel Torga e de José Gomes Ferreira (é difícil lermos o verso “Feitos de lágrimas enxutas”, p. 48, sem nos recordarmos de José Gomes Ferreira!); no entanto, quer ao nível da organicidade do poema quer da estruturação do poemário parecem surgir de modo mais acentuado as influências de poetas como Alexandre O’Neill (cf. “O poema pouco original do medo” in Poesias Completas 1951/1986, pp. 143-144; “Saber viver é vender a alma ao diabo”,  idem pp. 177-179) e Mário Cesariny (cf. “poema podendo servir de posfácio” in Manual de Prestidigitação, pp. 100-102; “autografia” e “ortofrenia” in pena capital, pp. 37-39 e p. 152 respectivamente), no entanto – diga-se - a poesia de Adília Lopes não nos surge ( também) como algo de alheio a esta escrita (cf. Dobra, Poesia Reunida pp. 330-348), nem tão-pouco a mordacidade e o desvelamento cáustico bem ao gosto dos textos de Mário-Henrique Leiria.
      Área de Serviço, remete-nos, logo no início, para a ambiguidade da linguagem acima referida, já que nos chama a atenção para uma duplicidade do que se entende por esse servir tantas vezes enunciado, assim, numa primeira leitura servir será “(…) colorir/ Cada fresta/ No tabuleiro das pontes”( p. 7) ou “A estrada (…) /O azul/ Na pintura de horizontes” ( p. 8), dito de outro modo: servir será aqui colocarmo-nos ao serviço do outro e desse contexto que é o nosso, mas servir poderá também ser entendido como servilismo: “(…) as galeras/ na mordaça da corrente/ e só quer um beija-pés/ dos que partilham o remo/ na sua madeira urgente/ por negrume das marés” p. 10.
      Nesta obra de Ana Maria Puga é notória a força incutida ao sentido enquanto fonte de inquirição, contestação e recusa de um social que se apresenta à poeta de modo injusto, castrador e claustrofóbico. Assim, esse mesmo contexto e/ou quotidiano é olhado nas suas múltiplas vertentes: a histórica (“No poleiro ocidental/ Do comércio/ Das viagens/ Jaz tão velha a catedral/ De um tempo de oiro/ E voragens/ Na senda de acontecer”, in poema Porto-Galo, p. 28); ao nível dos costumes e hábitos (“Ai matriz!/ Canta-se o fado/ E o xaile entorpece mais/ Os braços/ De um povo a lavar sem rio/(…)/ Trinando/ Nas artes do cativeiro”, in poema Portugal de Xaile, p. 31; “O tempo que nós perdemos/ Na oferta de um sofá/ Mesmo esventrado e sem molas/ (Por vício de civilização/ Que nos impede de parar)/ Castiga toda a memória” in poema Pluralidade, p. 59); no campo ético-moral (“Os índios/ Os aborígenes/ Selvajaria sem alma/ Vergonhas a descoberto/ (…)/ E nós outros/ De cabeça sem recheio/ Desavergonhadamente/ Tapámos as partes/ Nesses brocados de anseio” in poema Casinô, p. 55); no terreno do económico-político, onde se visa, por exemplo, o consumismo e os off-shores: ( “As grandes superfícies brilham/ Na quantidade/ Em estoques de perfumar/ Os olhos que tudo procuram/ Na compra de abraçar a solidão “ p. 36; “ O Produto Interno Bruto – rosmaninho e cheiro/ Desaparecendo pela mão de um autoclismo/ Boiando nas águas turvas do seu catecismo/ De alargar as ilhas onde se fala estrangeiro “, p. 47). Neste olhar simultaneamente atento e acutilante de Ana Maria Puga, assoma, por vezes – poucas! – um certo desalento, uma certa mágoa: (“Quando me deito e de olhar me vou cansando/ Guardo na noite as lentes de ver ao pé/ E as ideias por casar no pensamento/ Aceitam no desconforto/ Convívios de rodapé “ in poema Insónia, p. 57; “Lamento/ Esta falta de vontade/ Esta inércia/ De ordenar significâncias/ Sobre a dor/ Que habita a alma” in poema Pluralidade, p 58), no entanto, os laivos de fuga, ou de desalentada entrega a quaisquer derrotismos que eventualmente possam surgir nesta poesia, são puramente acidentais ante um intento mais forte e claramente assumido: o de cismar (poeticamente) sobre esse acontecer, algo circense ( cf. pp. 48 – 50), que à poeta coube em sorte. Assim, e nesta linha de leitura, é impossível afastar a poesia de Ana Maria Puga de toda uma plêiade de poetas que o cânone tem tido o cuidado de manter sob vigilância, veja-se- por exemplo – o “Canto e Lamentação na Cidade Ocupada” de Daniel Filipe, sobretudo o poema 2.: “ Canto porque estou vivo e amarrado/ à condição de ser fiel e agreste./ Porque em vão nos destroem a memória/ com máquinas, rodísios, honorários “ (in A invenção do amor e outros poemas, pp. 52 – 53); o poema” Canção combatente” de Armindo Rodrigues: “ Por prémio chega-nos/ nunca termos prémio,/ senão na nossa própria consciência, em nós moldada/ por activa opção “( in O horizonte e a ave- Canto Fausto – Dialéctica do vento, p. 78) ou o poema “Esta é a cidade” de António Gedeão: “Esta é a Cidade, e é bela./ Pela ocular da janela/ foco o sémen da rua./ Um formigueiro se agita,/ se esgueira, freme, crepita, ziguezagueia e flutua.” ( in Poesia Completas, 1956 – 1967, p. 86), refiro aqui apenas poetas já desaparecidos, no entanto, este lúcido e crítico olhar para a cidade, ou melhor: este olhar pela cidade, tem-se mantido actual porejando em poéticas quer de autores já consagrados quer de outros que vêm pertencendo às gerações mais recentes. Assim, se ao nível formal o Área de Serviço se mantém enraizado nas escritas referidas no primeiro parágrafo, já no que diz respeito à inquietação fundamental, e fundante, de toda a criação que lhe subjaz, este livro acaba por se integrar num continuum onde poéticas de indefectível qualidade se inscrevem.
     Finalmente, convém enfatizar que Ana Maria Puga, apesar de privilegiar o território do sentido, consegue escapar, contudo, a um prosaísmo estritamente linear e denotativo – e isto apesar de um momento (sete estrofes, pp 11 -13) assumidamente de carácter dialógico – e fá-lo através de três procedimentos estilísticos: jamais se afasta do verso curto; recorre com frequência à rima: (“ Menos uma folha de plátano/ De boca calada no chão/ No alargamento da avenida/ Que apressa o concurso da vida/ Emoldurando a distracção”, poema Desobrigada, p. 26) e dota a palavra de um tom lúdico e assumidamente ambíguo de modo a interpelar o leitor, a provocá-lo e a integrá-lo como momento último da obra. Esta última vertente aparece-nos como o carácter mais representativo da poesia de Ana Maria Puga: o lúdico pode, neste livro, irromper através de momentos de intertextualidade (cf. o título “ Os touros sempre se debatem “, p. 32, que nos remete para a película “ Os cavalos também se abatem”; o verso “De um povo a lavar sem rio “, p. 31, a enviar-nos não só para um fado, mas também para um poema de Pedro Homem de Melo; o verso “Nos doze magníficos” que acena ao filme “Os sete magníficos” e ainda o verso “Haja desconcertos sem Imperador”, p. 48, numa aproximação clara à “Valsa do Imperador” de Johann Strauss...), irrompe igualmente através de jogos de palavras que muitas vezes rondam a paronímia (canteiros/carteiros, p. 30; inferno/inverno, p 59…), procedimentos de aglutinação de vocábulos ou de desmembramento dos mesmos com irónicas modulações  (Vejam-se os títulos “A cara à vela das descobertas”, p. 46 - desmembramento de caravela - e “ Porto-Galo “, p. 28, que encima um texto sobre a realidade lusa  ) ou de uma ironia irreverente e, por vezes, denunciatória ( “ Todos os passos roxos/ Que murcham de aperto/ Em cada pescoço a soldo/ Numa vontade sem braços”  in poema Portugal, p. 44).
       Convém ainda assinalar a inflexão que ocorre nesta obra entre as páginas 68 e 69: na primeira estamos ainda num território Sem partilha entre sensações inúteis, enquanto que na segunda se inicia um clima esperançoso, se edifica o “Albergue da recriação” (p. 82), até porque “Mesmo tarde é sempre cedo” ( in poema Eros p. 88) desde que ”Haja som no poder de regular a vaga” (in  poema Eros p. 88). A poesia de Ana Maria Puga, por conseguinte, jamais entronca nas posições de cariz essencialista do Discurso Poético, onde – regra geral – o em-si e o para quê do dito discurso coincidem, nem sequer aqui importam os dizeres de cariz visionário… à poeta apenas interessa o real concreto onde os homens se pensam e se constroem, isto é, apenas lhe interessa esse cismar “Nesta teia enferrujada a que chamamos cidade “ (p. 82) “Regando cada canteiro da vida” (p. 84) – Nada mais! O último poema de Área de Serviço é, aliás, emblemático deste posicionamento: “ E o homem que ama – bebe a brisa/ Vai e afunda os pés no sol da terra/(…)/ De mão entranhada na vida das cores/ Avança nas suas pinturas de guerra/ Contra as portas fechadas sem concílio/ E nunca desiste…  “ ( p. 90).
 
 
                                                                                       VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS
 
                                                           (Livraria " Pó dos Livros " em Lisboa, 3 de Outubro de 2013. )
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02/10/13

 
 
    " O silêncio e eu "
 
 
Sempre
me tratou
por Tu
o Silêncio.
Tamanha
era a nossa
intimidade.
Meus gritos
de revolta
eram mudos
mas ecoavam
pelo mundo.
 
 
 
  Gonçalves, Delmar Maia. Doce Inimiga, Antologia. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p 16 ( Coordenação: Maria do Sameiro Barroso).
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              " Silêncio "
 
 
Poço íntimo que cavo
com a boca fechada
à procura de um Deus oco
nas profundezas
da raiva
que a palavra semeia
 
 
 
   Mucavele, Amosse. Doce Inimiga, Antologia. Fafe: Editora Labirinto, 2013, p. 9 ( Coordenação: Maria do Sameiro Barroso).
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01/10/13

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DIA 12 DE OUTUBRO, 17H00, NA GUILHERME COSSOUL DE CAMPOLIDE,
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APRESENTAÇÃO DO NOVO LIVRO DE RUI ALMEIDA, PUBLICADO PELA
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EDITORA MEDULA.

30/09/13



         " Vazio "


vazio
construção imaginada e transparente
que ocupa espaço e sufoca
matéria etérea que vagueia entre
os dedos da saudade
e o corpo do desejo.
coisa nenhuma que enche a alma
devora o sorriso e
passeia-se pelo espaço onde ontem
tu estavas.
vazio
o corpo que habitualmente se enche pela manhã
o som dos teus passos pela casa
o cheiro do lençol onde adormeces...
vazio
é o nome do monstro que me mata


   Guimarães, Nuno. rio que corre indiferente. Coimbra: Temas Originais, 2009, p 41.
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29/09/13



  " Flor re-inventada "


à espera de um sinal
de uma estrela cadente
de um anúncio de jornal
de um toque diferente
de um sussurrar ao ouvido
de um beijo escondido
com sabor doce a jasmim
que me fez sentir perdido
por senti-lo só p'ra mim

à espera de um sinal
de um poema perdido
de um livro ancestral
do meu doce preferido
de uma escolha acertada
de uma história encantada
que um dia escrevi
sobre uma flor inventada
hoje colhida p'ra ti...   


   Guimarães, Nuno. rio que corre indiferente. Coimbra: Temas Originais, 2009, p 18.
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27/09/13


 
 
 
                   "  Poema 7. "
 
 
 
Com tuas mãos falantes é que me anunciavas
o piar das andorinhas e dizias o desenho
do relógio de sol. Como se eu entendesse
as tuas viagens nos passos em redor da sala.
Foi preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a sombra da haste no declínio do dia.
Nessa hora os teus passos fecharam a viagem.
As tuas mãos perfeitas se fizeram arco
e eu pude divisar a rua que viveste
com cuidados maternos a afagar as ervas.
Para lá do arco, disseram os teus olhos,
eu havia de ter a minha luz e as pedras
brilhariam a iluminar esquinas e veredas
e a amplidão dos mares e a solidão dos versos
e sempre e sempre as andorinhas haviam de voltar
porque é nas tuas mãos que começam as aves.
 
 
   Quitério, Licínia. Os Sítios. S/c.: Ed. Autor, 2012, p 14.
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26/09/13



           "  Poema 22. "


Tudo é possível no balcão dos sonhos.
Podes vir de mansinho, com outro rosto,
e eu, sem nada me pesar, dizer - Há muito
espero por ti, Dirk - e a bandeja na mão,
a bandeja do Rick que passou a ser tua,
e o piano vermelho a flutuar naquela rua
de Veneza. Não, não era um canal, era
uma rua, ou talvez não fosse Veneza
e o teu sorriso dorido de café e gin
igualzinho ao do Dirk porque, eu sei,
também o teu estava a sofrer. Há um
tempo assim de tudo doer, e digo mesmo
tudo, a bandeja, o piano, a rua, a cidade
inteira. É uma dor informe. Talvez a vida
seja isso, um tempo de doer e fugir para
o balcão dos sonhos a preto e branco.
Há quem diga que são a cores os sonhos
das pessoas tristes. Há quem fale de uma luz
que faz vermelhos os pianos que flutuam.
Quanto a mim, fico à tua espera, Dirk.
Podes estar em Lisboa ou em Casablanca,
podes até não vir. Sei o sonho de cor.


   Quitério, Licínia. Os Sítios. S/c. : Ed. Autor, 2012, pp 33 - 34.
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Espumante gelado foi a causa da morte de uma aluna
Na Holanda, devido a paragem cardíaca.
A loura tímida, gozada vezes sem conta pela
 
Barriga gorda das pernas, participou num concurso
Sob pressão da turma. Num clube nocturno de Amesterdão,
Duas dúzias de raparigas incendiadas pelo aplauso competiam
Pelo mais belo par de mamas perante o olhar dum júri.
 
Sob as luzes da ribalta, muito despida numa T-Shirt molhada,
Ganharia o teste-das-tetas a que se mostrasse mais sensual,
Banhada em espuma de champanhe e de mamas arrebitadas
 
A atiçar o animal que há no homem. Qual o choque porém,
Quando desta vez a aclamada não mais se levantou.
Antes que a ambulância chegasse, já Miss Sweet-sweet-Tits estava morta.
 
O julgamento de Páris foi macabro, desta vez. O troféu dourado,
Um cálice meio falo e meio tulipa, mais o prémio em dinheiro,
Foram fraca consolação para os familiares da rapariga.
 
 
  
  Grünbein, Durs. Aos queridos mortos. Coimbra: Angelus Novus, 2003, p 37 ( Tradução de Fernando Matos Oliveira).
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25/09/13



Num ataque súbito de ciúmes, aliviada da vontade de viver,
Na manhã de Ano Novo uma mulher em Chicago
Atirou-se para a rua pela janela do duplex,

De quase cinquenta andares de altura.

Porque o namorado, preso por acaso no elevador
A sós com a melhor amiga, devido a avaria,
Na agitação de uma noite de Ano Novo, quem sabe, bêbedo

A poderia... ter... eventualmente... enganado,- desistiu

No fim de tão longo condicional. Os psicólogos
Tinham-na entre as vítimas de raptus. Uma amiga
Via nisto uma mistura de boato e tragédia. Ao namorado

A coisa parecia mais o efeito de uma gramática mortal. O cadáver

Encontrava-se exactamente antes de um cruzamento, na faixa esquerda,
Onde do alto de podia ler, como pedaços soltos de uma tela de salvação,
A inscrição ONLY.


Grünbein, Durs. Aos queridos mortos. Coimbra: Angelus Novus, 2003, p 27 (Tradução de Fernando Matos Oliveira).
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                       "Yeti"

 

 
Comme tout ce qui marche ici... eh bien, toi aussi, tu
passeras vite comme si tu n'avais jamais été.
Une fois compris en route, que toi aussi tu t'arrêtes,
ce parcours de la réflexion n'aura pas de suite.
À peine passée l'arrivée, un saut, déjà l'aveuglement
te guette derrière les lignes oú dans la neige tu t'égares.
De la neige des mots il ne reste qu'un espace entre ces traces
qui seront effacées tôt par prudence. Un essaim de rumeurs
te colle aux tempes, tenace, aveugle, une tache.
Des pensées, ces affections terribles, tu n'en as cure.
Seul un O.K...
pour chaque faux pas, faute et échec.
Ce qui perce par des mots arides à travers l'oubli
s'oubliera lui-même à la fin. Perdue en chemin, persiste
la mémoire, vide. Inscrite dans l'étroite bande des fréquences,
ta mort émet des signes au programme de nuit,
quand, en sommeil, sur le qui-vive, ton corps se cabre.
Tibet. Un homme des neiges. La trace de sa fuite. Blanc sur blanc.

 

Grünbein, Durs. Après l'est et l' ouest. Paris: Éditions Textuel,
 2001, p 173 ( traduit par Silke Schauder).

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  " Monte Baixo "


En días de hospital,
noites
tronzadas,
ríos,
sabugueiros sen folla
festas do leite,
bichos tan azuis,
como se fai
un bosque?
As miñas mans son
rápidas.
Non dan.
Ódiovos,
montes suaves.
A lúa sempre
mingua.
O contrario do amor
é o desprezo.
O odio,
con outras
mans.
Pero os dous
edifican
monte baixo
e quedan
formalmente
expulsados
de aquí.
E para que
así conste, asino
este contrato
nos teus labios
pero despois
rompémolo:
este é un amor
sen casa,
non se pode
gardar.
O vento sopra
louco, di algo
que non vemos
fai voar os papeis,
fainos saber
dun golpe
que nós
non precisamos
testemuños.


  Cebreiro, María do. Non son de aquí. Vigo: Edicións Xerais de Galicia, 2008, pp 55 - 56.
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24/09/13



 " Poema 2 do Ciclo Amarante "


En cada contracción
hai un fondo
de espera
e un fondo de catástrofe.
Cada pequena
cousa pasional
vai retornando
á lama:
non hai formas:
hai vida,
un atentado
contra a noción
vixente
de familia.
Tamén os cereais
son reemprazados.
A rapaza do millo
sucederá á rapaza
do metal,
o bosco,
á Selva Negra.
Ao vento, que non para,
han querer
darlle un nome
de lugar:
por bonito que sexa,
unha traizón.
E no bico dos pés
o amor por esa moza
que chegou
a xuntar os teus vinte
cos meus trinta,
e nos dez que corrían
polo medio
o espazo suficiente
para poder dicir
foi bonito e durou
o xusto, até escoitar
que sempre
haberá alguén
para nos aprender
o sentido do tempo.
Todas as relacións
son a distancia,
pero eu non son
de aquí,
non teño
descendencia,
non quero máis orixe
que esta ponte
até que nos sosteña
e cando caia
teñamos a nobreza
de marchar
sobre os restos,
saibamos despedirnos,
que sexa tan fermoso
como nunca.

  
   Cebreiro, María do. Non son de aquí. Vigo: Edicións Xerais de Galicia, 2008, pp 15 - 17.
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23/09/13

António Ramos Rosa ( 17/10/1924 - 23/9/2013)

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Partiu um dos últimos representantes da Geração de Ouro da poesia portuguesa. Este blogue tem um texto sobre Ramos Rosa que publiquei, há tempos, na Revista da Biblioteca Nacional do Brasil. Anexo a esse pequeno estudo encontrarão também duas conversas havidas entre mim e Ramos Rosa. Agora... o silêncio!!! e um forte abraço à família enlutada: à esposa (a poeta Agripina Costa Marques), à filha (a Maria Filipe) e à sobrinha (a Gisela Ramos Rosa). Não sei dizer mais nada!!!
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No EXPRESSO online:
 
O poeta e ensaista António Ramos Rosa, de 88 anos, morreu cerca das 14h de hoje, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, onde estava internado desde quinta-feira com uma pneumonia, disse ao Expresso uma sobrinha do escritor.
Gizela Ramos Rosa disse ainda que o tio já tinha sido internado recentemente, mas recuperara, regressando à residência Faria Mantero, um lar para artistas onde residia há vários anos.
Ramos Rosa tem uma "obra multifacetada, embora predomine a poesia. Foi um exímio tradutor e ensaista", disse ao Expresso o poeta Victor Oliveira Mateus.
Do seu círculo de amigos mais próximo - e da geração mais próxima da dele - fizeram parte os escritores "Vergílio Ferreira, Casimiro de Brito, João Rui de Sousa e Maria Teresa Horta", acrescenta Victor Oliveira Mateus.
Ramos Rosa, também "apoiou alguns nomes das gerações seguintes com quem manteve relações de proximidade. Foi o caso de António Carlos Cortez, Maria Teresa Dias Furtado e eu próprio", acrescenta Victor Oliveira Mateus.
Contactado pelo Expresso, António Carlos Cortez, recorda que em 2003, teve "oportunidade de organizar e prefaciar o livro "Os animais do sol e da sombra. Quando terminei tive a percepção clara de que Ramos Rosa era um poeta da metalinguagem". "Mas isso não lhe retirou nenhuma leveza nem nenhuma naturalidade", acrescenta.
Na perspetiva de António Carlos Cortez "morreu, talvez, o último representante de uma geração de ouro da poesia portuguesa. Homens nascidos nos anos 10 e 20 do século XX, como é o caso de David Mourão-Ferreira, Carlos Oliveira e Mário Cesariny" [entre outros].
António Ramos Rosa nasceu em Faro em 17 de Outubro de 1924. Foi Prémio Pessoa em 1988. No dia em que comemorou 74 anos, em 2003, a Universidade da sua terra natal, atribuiu-lhe o grau de Doutor Honoris Causa.
O poeta era casado com Agripina Costa Marques, autora de vários de livros, e pai de Maria Filipe Ramos Rosa. Ramos Rosa convidou a escritora e grande amiga Maria Alberta Menéres para madrinha da sua única filha.


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A poesia de Kofi Awoonor, traduzida para castelhano, no célebre Festival Internacional de Poesia de Medellin ( 2007).
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Kofi Awoonor, principal poeta do Gana - mas também crítico literário e diplomata -, encontrava-se em Nairobi para participar num Festival Literário, quando as tropas do Quénia fizeram uma incursão que visava atingir radicais islâmicos que se tinham entrincheirado, e feito reféns, num Centro Comercial. Este autor, assim como vários ocidentais, foi atingido durante a referida incursão. Kofi Awoonor acabou por não resistir aos ferimentos...
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22/09/13



          " Entre ave e réptil "


interessa-me
entre ave e réptil
a condição
ambígua

confesso meu
fascínio por
essa corda estendida
entre uma e outra
palavra
e sua falsa noção
de equilíbrio

trago na raiz
do gesto o alvoroço
do circo

nervo reteso
lanço-me no ar
risco a
superfície do inútil - e vôo!

por vezes
uma palavra mais ágil
me subtrai
do precipício

mas quase sempre
me esborracho
no chão
em meu vôo solo
sem tambor nem
auxílio

reconfirmado
sísifo
- amador de seu ofício -
alço-me outra vez
ao risco dos trapézios


  Machado. Carlos. Pássaro de vidro. São Paulo: editora hedra, 2006, pp 95 - 96.
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20/09/13



  " Pássaro de vidro (4) "


os matemáticos
- bruxos -
costumam brincar
com geometrias
esdrúxulas

e criam objetos
fantásticos
n-dimensionais
nos quais
não se sabe

o que é o fora
o que é o dentro
onde a periferia
onde o centro

*

assim esse pássaro
de vidro
menos inventado
que um (de)lírio
matemático

não é uma
fita de Mobius
nem uma
garrafa de Klein

é uma ave
estranha
em estado
grave de segredo

um pássaro
que resguarda tudo
que revela

embora exponha
sua entranha
sem temor
sem tumulto

enigma com asas
ele pousa
transparente
sem fora sem dentro

pousa como coisa
sem segredos


  Machado, Carlos. Pássaro de vidro. São Paulo: editora hedra, 2006, pp 50 - 51.
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18/09/13



         " Até quando? "


Até quando no túnel sem saída,
no bosque feito de espinhos, no poço?
Até quando instalada na esperança
dos que nada esperam?
Até quando perdida em labirintos,
em cidades sem luz, em pesadelos
que não terminam quando acaba o sonho?
Até quando engolindo
névoas espessas, desconcerto, vertigem?
Até quando sem ti?
Até quando com outros?


    Bautista, Amalia. Estou Ausente. Lisboa: Averno, 2013, p 101.



   " Os Meus Melhores Desejos "


Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto com tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.


   Bautista, Amalia. Estou Ausente. Lisboa: Averno, 2013, p 21.
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16/09/13


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Patrick Phillips lê o seu fabuloso poema "Nathaniel", poema este que integra o seu último livro - "boy".
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Nathaniel

Patrick Phillips


Whatever it was
that made the Reverend
Barker stoop that way,

it meant no matter
how much he screamed
at my friend Nathaniel

for being late, for not
raking the leaves,
or for raking the goddamned

leaves the wrong Goddamned way
(his huge, gin-blossomed jowls
quivering with rage,

his great whale-eyes
lost in the gray
depths of his brow),

he could only ever scowl
at the tops of his wingtip shoes
or at the cuffs of the black wool suit

he always seemed to be wearing
when he’d thunder into the yard,
or down the stairs,

or through the little speaker
of some payphone
we huddled around, God

damnit Nathaniel, I told you,
I told you, Nathaniel, Goddamnit!

his fury repeating itself

so precisely it became a joke
we hollered through the halls,
changing my friend’s name

to Goddamnit Nathaniel, as in
Where the hell’s Goddamnit Nathaniel?
I told you, Goddamnit, to get me a Coke!


which was stupid but funny at fourteen,
and still just as stupidly funny at nineteen,
when we’d yell across a bonfire,

Don’t bogart that joint, Goddamnit
Nathaniel. Haven’t I told you
to pass the fucking bong when you’re through?


which is still funny to me even now—
even though I look back and see,
as I could not have seen then,

that the Reverend Barker
only stooped that way
because he was dying,

because cancer was eating his liver,
and because with each day it became
both more urgent and more unlikely

that he would ever manage to say
whatever it was he meant
when he’d sit at the kitchen table,

or grip the black phone,
or stand in the darkened driveway
after we’d all gone home,

staring at the ground and saying nothing
to his sweet, beloved boy
but Goddamnit

Nathaniel, listen to me.
Listen Goddamnit.
Goddamnit Nathaniel, now listen.

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.

 



(...)
   Desde muito pequena tive uma consciência aguda
da precariedade da minha condição social.
Foi sempre muito claro para mim que apenas
uma circunstância, aleatória ou não, mas muito frágil,
fizera com que eu nascesse daqueles pais,
e que não me tivessem trocado na maternidade,
e que eles não tivessem morrido cedo ou ficado
sem emprego,
(...)
Bastava que tivesse havido um incêndio,
uma inundação, um tremor de terra, uma epidemia,
(...)
uma condenação, um ataque de loucura,
uma vingança, uma maldição,
um divórcio, uma paixão, uma promessa não cumprida,
uma assombração, um despedimento, uma desilusão,
(...)
e eu já não seria... a ilusão que pareço ser.
Seria... outra ilusão que pareceria ser.


   Pedro, Risoleta Pinto. O homem da minha vida. Lisboa: Padrões Culturais Editora, 2009, pp 7 - 11.
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15/09/13



pensam: é melhor ter o inferno a não ter coisa nenhuma
- como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem,
                                                                    dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subrilezas desde o xadrez à física quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
e a metáfora da água?
a ideia de paraíso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão
                                                             trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa
                                                                                 do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o
                                   económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantam, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!


   Helder, Herberto. Servidões. Lisboa: Assírio & Alvim, 2013, pp 97 - 100.
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13/09/13

Natália, a grande... a enorme!


Natália Correia partiu demasiado cedo, se fosse viva faria hoje noventa anos. O seu "Credo" :
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Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro.Amen.
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Otto Sander ( 30/6/1941 - 12/9/2013 )


.Otto Sander interpretando o papel do Anjo Cassiel em AS ASAS DO DESEJO de Wim Wenders.
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UMA SUGESTÃO: depois deste filme convém ver também TÃO LONGE, TÃO PERTO igualmente de Wim Wenders. O poema 24 (p 37) do meu Pelo Deserto as Minhas Mãos baseia-se nestes dois filmes (e em nada mais), aliás, a epígrafe refere mesmo uma cena belíssima com a Nastassja Kinski.
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11/09/13

 
 
Tout ce que j'ai écrit sur nous est mensonge
ce n'est pas ce qui a été entre nous mais ce que j'aurais
   voulu qui soit
C'étaient mes nostalgies posées sur des branches inac-
   cessibles
C'était ma soif tirée du puits de mes rêves
C'étaient des images que je traçais sur la clarté
 
Tout ce que j'ai écrit sur nous est vrai
ta beauté
   c'est-à-dire une corbeille de fruits ou un festin sur
   une table champêtre
mon manque de toi
   c'est-à-dire moi dernier lampion du dernier coin de
   la ville
ma jalousie
   c'est-à-dire ma course les yeux bandés la nuit parmi
   les trains
mon bonheur
   c'est-à-dire le fleuve ensoleillé rompant ses digues
tout ce que j'ai écrit sur nous est mensonge
tout est vrai de ce que j'ai écrit sur nous.
 
 
  Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 191 - 192.
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10/09/13


   " La petite fille "


C'est moi qui frappe aux portes,
aux portes, l'une après l'autre.
Je suis invisible à vos yeux.
Les morts sont invisibles.

Morte à Hiroshima
il y a plus de dix ans,
je suis une petite fille de    sept ans.
Les enfants morts ne grandissent pas.

Mes cheveux tout d'abord ont pris feu,
mes yeux ont brûlé, se sont calcinés.
Soudain je fus réduite en une poignée de cendres,
mes cendres     se sont éparpillées au vent.

Pour ce qui est    de moi,
je ne vous demande rien:
il ne saurait manger, même des bonbons,
l'enfant qui comme du papier a brûlé.

Je frappe à votre porte, oncle, tante:
une signature. Que l'on ne tue pas les enfants
et    qu'ils puissent    aussi manger des bonbons.


  Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 115 - 116.
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09/09/13



  " Le vingtième siècle "


- " Dormir maintenant
Et se réveiller dans cent ans, mon bien-aimé..."
- " Non,
Mon siècle ne me fait pas peur,
Je ne suis pas un déserteur.
Mon siècle misérable,
          scandaleux
                   mon siècle courageux,
                                            grand
                                                     et héroique.
Je n'ai jamais regretté    d'être venu trop tôt au monde,
Je suis du vingtième siècle:
Et j'en suis fier.
Il me suffit
d'être au vingtième siècle,
                                       là où je suis,
d'être de notre camp,
Et de me battre pour un monde nouveau..."
- " Dans cent ans, mon bien-aimé..."
- " Non, plus tôt et malgré tout,
Mon vingtième siècle mourante et renaisssant,
Et dont les derniers jours seront si beaux,
Ma nuit terrible qui se termine dans des clameurs
    d'aurore,
Comme tes yeux, mas bien-aimée,
Mon     siècle sera plein de soleil...


   Hikmet, Nâzim. Il neige dans la nuit et autres poèmes. Paris: Éditions Gallimard, 1999, pp 92 - 93.
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