28/10/13
" novos demais para a poesia "
depois de certa idade
há no amor
a mesma urgência em ficar
que um cadáver tem
dentro da morte
depois de certa idade
como frutos apodrecidos nas árvores
teimamos em não partir
quando de nós há muito se apartou
o amor
depois de certa idade
ficamos novos demais
para a poesia
Pedro, Mbate. A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua, Antologia Poética. Maputo: Revista Literatas, 2013, p 231.
.
27/10/13
.
.
Vicious
you hit me with a flower
You do it every hour
oh, baby, you're so vicious
Vicious
you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
huh, baby, you're so vicious
When I watch you come
baby, I just want to run far away
You're not the kind of person around I
want to stay
When I see you walking down the street
I step on your hands and I mangle your feet
You're not the kind of person that I want to meet
Oh, baby, you're so vicious
you're just so vicious
Vicious
hey, you hit me with a flower
You do it every hour
oh, baby you're so vicious
Vicious
hey, why don't you swallow razor blades
You must think that I'm some kind of gay blade
but baby, you're so vicious
When I see you coming
I just have to run
You're not good and you certainly aren't
very much fun
When I see you walking down the street
I step on your hand and I mangle your feet
You're not the kind of person that I'd even want to meet
'Cause you're so vicious
baby, you're so vicious
Vicious, vicious
vicious, vicious
Vicious, vicious
vicious, vicious
...
you hit me with a flower
You do it every hour
oh, baby, you're so vicious
Vicious
you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
huh, baby, you're so vicious
When I watch you come
baby, I just want to run far away
You're not the kind of person around I
want to stay
When I see you walking down the street
I step on your hands and I mangle your feet
You're not the kind of person that I want to meet
Oh, baby, you're so vicious
you're just so vicious
Vicious
hey, you hit me with a flower
You do it every hour
oh, baby you're so vicious
Vicious
hey, why don't you swallow razor blades
You must think that I'm some kind of gay blade
but baby, you're so vicious
When I see you coming
I just have to run
You're not good and you certainly aren't
very much fun
When I see you walking down the street
I step on your hand and I mangle your feet
You're not the kind of person that I'd even want to meet
'Cause you're so vicious
baby, you're so vicious
Vicious, vicious
vicious, vicious
Vicious, vicious
vicious, vicious
...
.
24/10/13
Uma conversa tida esta semana com a jornalista e poeta Maria Augusta Silva, In Site "Casal das Letras":
.
.
.
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
«Continua a insistir-se numa conceção
de escola burocratizada
e que tresanda a Idade Média»
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
«Continua a insistir-se numa conceção
de escola burocratizada
e que tresanda a Idade Média»
.
Autor que tem a mestria de casar o clássico com a modernidade, da sua poesia disseram entre outros: Olga Savary: «Como um espia ou um detetive de afetos, abandonando-se num tufo de metáforas, eis a periculosidade do poeta, especialmente do poeta português Victor Oliveira Mateus. Nas asas da poesia, Victor solta os pássaros e canta — e voa. (…)». Cláudio Neves: «Victor escreve no limite entre a poesia e a prosa, e nos faz crer que o faz sem perigo — quando, nesse perigoso limite, muitos poetas de diversos calibres se têm perdido.» Alexandre Bonafim: «(…)Em sua escrita, o deserto torna-se região das especulações filosóficas, dos encontros e desencontros com o outro. Aliás, o deserto de Victor possui uma ambiguidade importante. É nesse espaço que o eu lírico vivenciará tanto a solidão quanto o total da entrega ao outro-amado. Para Victor, somente o mergulho no exílio do mundo e do outro poderia gestar o arrebatamento dos encontros profundos(…)». Maria Augusta Silva: «(…) Uma escrita na qual as palavras são a mágica tranquilidade (sábia viagem) com que o poeta tem vindo a trabalhar a consciência do texto.» Ana Paula Dias: «A forte aptidão metafórica da poesia de Victor Oliveira Mateus, pelo inesperado de certas associações lexicais e pelo fulgor de imagens extremamente certeiras e originais, consubstancia-se numa fala subtil que se move em torno do movimento em direção ao Outro e da noção de Ausência; nela joga-se a inquietação do sujeito num mundo polarizado entre o Absurdo e a Graça, o Efémero e a Luz (…).» Henrique Levy: «(…) A poesia de Victor Oliveira Mateus ensina-nos o poema como semente aquecida no coração da memória, resgatada pela alma, oferecida e alimentada pelo corpo. Comovem-me as palavras, as letras, a ética do poema (…)».
Ter a sua obra poética distinguida com o Prémio Eugénio de Andrade da União Brasileira de Escritores representa o quê ao fim de muitos anos de escrita?
Autor que tem a mestria de casar o clássico com a modernidade, da sua poesia disseram entre outros: Olga Savary: «Como um espia ou um detetive de afetos, abandonando-se num tufo de metáforas, eis a periculosidade do poeta, especialmente do poeta português Victor Oliveira Mateus. Nas asas da poesia, Victor solta os pássaros e canta — e voa. (…)». Cláudio Neves: «Victor escreve no limite entre a poesia e a prosa, e nos faz crer que o faz sem perigo — quando, nesse perigoso limite, muitos poetas de diversos calibres se têm perdido.» Alexandre Bonafim: «(…)Em sua escrita, o deserto torna-se região das especulações filosóficas, dos encontros e desencontros com o outro. Aliás, o deserto de Victor possui uma ambiguidade importante. É nesse espaço que o eu lírico vivenciará tanto a solidão quanto o total da entrega ao outro-amado. Para Victor, somente o mergulho no exílio do mundo e do outro poderia gestar o arrebatamento dos encontros profundos(…)». Maria Augusta Silva: «(…) Uma escrita na qual as palavras são a mágica tranquilidade (sábia viagem) com que o poeta tem vindo a trabalhar a consciência do texto.» Ana Paula Dias: «A forte aptidão metafórica da poesia de Victor Oliveira Mateus, pelo inesperado de certas associações lexicais e pelo fulgor de imagens extremamente certeiras e originais, consubstancia-se numa fala subtil que se move em torno do movimento em direção ao Outro e da noção de Ausência; nela joga-se a inquietação do sujeito num mundo polarizado entre o Absurdo e a Graça, o Efémero e a Luz (…).» Henrique Levy: «(…) A poesia de Victor Oliveira Mateus ensina-nos o poema como semente aquecida no coração da memória, resgatada pela alma, oferecida e alimentada pelo corpo. Comovem-me as palavras, as letras, a ética do poema (…)».
Ter a sua obra poética distinguida com o Prémio Eugénio de Andrade da União Brasileira de Escritores representa o quê ao fim de muitos anos de escrita?
.
Há sempre uma determinada alegria quando sentimos que o nosso trabalho ecoa noutras mentes, noutras regiões, contudo penso que é importante aceitarmos, com muita prudência, tudo aquilo que nos é dado, pois o excesso de confiança pode condicionar a violência da queda. Foi grande a minha satisfação, foi grande a minha gratidão para com aqueles que de mim se lembraram. Mas no essencial sigo sendo o mesmo.
Há sempre uma determinada alegria quando sentimos que o nosso trabalho ecoa noutras mentes, noutras regiões, contudo penso que é importante aceitarmos, com muita prudência, tudo aquilo que nos é dado, pois o excesso de confiança pode condicionar a violência da queda. Foi grande a minha satisfação, foi grande a minha gratidão para com aqueles que de mim se lembraram. Mas no essencial sigo sendo o mesmo.
.
Um dos versos de Eugénio de Andrade era, e mantem-se, profundamente perturbador: «Quando se morre?». O Victor achou alguma vez resposta para esta interrogação?
Um dos versos de Eugénio de Andrade era, e mantem-se, profundamente perturbador: «Quando se morre?». O Victor achou alguma vez resposta para esta interrogação?
.
Jaspers fala do confronto com a morte como uma dessas situações-limite, que, pela sua inexplicabilidade, nos estimula a ousadia do procurar respostas.
Jaspers fala do confronto com a morte como uma dessas situações-limite, que, pela sua inexplicabilidade, nos estimula a ousadia do procurar respostas.
.
Já se confrontou com a morte?
Já se confrontou com a morte?
.
Por volta dos trinta anos. Dois anos dialoguei com ela todos os dias. Não parti… não parti e nunca mais pensei nela! A questão da morte não me atormenta, aliás, numa das suas entrevistas Clarice Lispector diz que o escritor morre muitas vezes. Somos ínfimos e estamos de passagem, urge não esquecer isso. A questão que me atormenta é outra: «Que coisa é esta a que chamamos vida?»
Por volta dos trinta anos. Dois anos dialoguei com ela todos os dias. Não parti… não parti e nunca mais pensei nela! A questão da morte não me atormenta, aliás, numa das suas entrevistas Clarice Lispector diz que o escritor morre muitas vezes. Somos ínfimos e estamos de passagem, urge não esquecer isso. A questão que me atormenta é outra: «Que coisa é esta a que chamamos vida?»
.
Se ainda pudesse falar com Eugénio de Andrade, que gostaria de contar-lhe?
Se ainda pudesse falar com Eugénio de Andrade, que gostaria de contar-lhe?
.
Não conheci pessoalmente Eugénio, privei (e privo) com poetas igualmente grandes dessa geração; por esta minha experiência, não me parece que aquilo que, eventualmente, tivesse a dizer-lhe lhe pudesse interessar, assim como, talvez por egoísmo, preferisse escutá-lo a falar. Pertenço a uma geração de autores que, sem cair num encumear artificioso, cultivou sempre uma sentida deferência para com as gerações anteriores.
Não conheci pessoalmente Eugénio, privei (e privo) com poetas igualmente grandes dessa geração; por esta minha experiência, não me parece que aquilo que, eventualmente, tivesse a dizer-lhe lhe pudesse interessar, assim como, talvez por egoísmo, preferisse escutá-lo a falar. Pertenço a uma geração de autores que, sem cair num encumear artificioso, cultivou sempre uma sentida deferência para com as gerações anteriores.
.
Já descobriu um pôr-do-sol mais fascinante do que o da praia de Lefteris, de que nos fala no seu livro A Irresistível Voz de Ionatos?
Já descobriu um pôr-do-sol mais fascinante do que o da praia de Lefteris, de que nos fala no seu livro A Irresistível Voz de Ionatos?
.
Interessante a pergunta. A Gulbenkian chegou a proporcionar um encontro entre mim e Angélica Ionatos, aquando de um dos seus concertos em Lisboa. Eu estava com uns amigos e ela ficou surpreendida por ter inspirado um poema tão grande como aquele. Não sei se vi algum pôr-do-sol mais fascinante do que esse de que fala o meu poema… todos são simultaneamente iguais e diferentes.
Interessante a pergunta. A Gulbenkian chegou a proporcionar um encontro entre mim e Angélica Ionatos, aquando de um dos seus concertos em Lisboa. Eu estava com uns amigos e ela ficou surpreendida por ter inspirado um poema tão grande como aquele. Não sei se vi algum pôr-do-sol mais fascinante do que esse de que fala o meu poema… todos são simultaneamente iguais e diferentes.
.
E cada um de nós olhará a natureza de modo diverso…
E cada um de nós olhará a natureza de modo diverso…
.
Não tenho uma visão cartesiana da Natureza, da qual derivam muitas visões poéticas, sobretudo as que se fundamentam num certo niilismo individualista; a minha Natureza é sagrada, é a que vem de Plotino e dos Renascentistas, mas já estou a fugir à pergunta…
Não tenho uma visão cartesiana da Natureza, da qual derivam muitas visões poéticas, sobretudo as que se fundamentam num certo niilismo individualista; a minha Natureza é sagrada, é a que vem de Plotino e dos Renascentistas, mas já estou a fugir à pergunta…
.
Algum homem poderá ser uma ilha?
Algum homem poderá ser uma ilha?
.
Neste momento travo uma luta com François de Singly exatamente por causa desse tema. Olho com alguma desconfiança as virtudes do individualismo, ou melhor, reconheço que as ilhas podem ser belas e regeneradoras, mas temo que elas esqueçam os arquipélagos para que sempre tendem.
Neste momento travo uma luta com François de Singly exatamente por causa desse tema. Olho com alguma desconfiança as virtudes do individualismo, ou melhor, reconheço que as ilhas podem ser belas e regeneradoras, mas temo que elas esqueçam os arquipélagos para que sempre tendem.
.
Trabalha a sua poesia com uma incontestável sobriedade estilística. Requere muito ofício até chegar a esse apuro?
Trabalha a sua poesia com uma incontestável sobriedade estilística. Requere muito ofício até chegar a esse apuro?
.
Sou cauteloso, talvez seja isso. Não quero que aquilo que me sai das mãos resulte de um qualquer tipo de trabalho exclusivamente formalista e alheio à vida concreta dos homens. Isto não é um juízo de valor, estou só a falar de mim. Cada um tem o seu caminho e o meu passa por uma Escuta atenta daquilo que Há e pela tentativa — tantas vezes gorada! — de que esse Sentido se possa desvelar através do dizer poético.
A formação que tem em filosofia ajudou-o enquanto poeta?
Sou cauteloso, talvez seja isso. Não quero que aquilo que me sai das mãos resulte de um qualquer tipo de trabalho exclusivamente formalista e alheio à vida concreta dos homens. Isto não é um juízo de valor, estou só a falar de mim. Cada um tem o seu caminho e o meu passa por uma Escuta atenta daquilo que Há e pela tentativa — tantas vezes gorada! — de que esse Sentido se possa desvelar através do dizer poético.
A formação que tem em filosofia ajudou-o enquanto poeta?
.
Para ser franco não tenho um distanciamento de mim que me permita dizer algo sobre isso. Quando escrevo um artigo, quando faço uma recensão, é um facto que no meu fazer está sempre aquele aparelho teórico da filosofia e creio que o mesmo sucede nos poemas. Sim, acho que a filosofia em mim tem algo de condenatório: infiltra-se no interior do verso independentemente da minha vontade.
Que diz agora o poeta ao filósofo? Que diz o filósofo ao poeta?
Para ser franco não tenho um distanciamento de mim que me permita dizer algo sobre isso. Quando escrevo um artigo, quando faço uma recensão, é um facto que no meu fazer está sempre aquele aparelho teórico da filosofia e creio que o mesmo sucede nos poemas. Sim, acho que a filosofia em mim tem algo de condenatório: infiltra-se no interior do verso independentemente da minha vontade.
Que diz agora o poeta ao filósofo? Que diz o filósofo ao poeta?
.
É o poeta que deve dizer ao filósofo, penso. Os Antigos sabiam isso. A poesia liga-se a um olhar primeiro, a um olhar que visa o originário e, nesse sentido, a filosofia joeira aquilo que lhe chega através de uma sucessão de olhares; a filosofia, quanto a mim, padece de uma menoridade ontológica na sua relação com aquilo que Há.
É o poeta que deve dizer ao filósofo, penso. Os Antigos sabiam isso. A poesia liga-se a um olhar primeiro, a um olhar que visa o originário e, nesse sentido, a filosofia joeira aquilo que lhe chega através de uma sucessão de olhares; a filosofia, quanto a mim, padece de uma menoridade ontológica na sua relação com aquilo que Há.
.
Foi professor de Filosofia. Colheu muitas lições dos seus alunos?
Foi professor de Filosofia. Colheu muitas lições dos seus alunos?
.
Lamentavelmente, nos últimos anos, ensinaram-me muito pouco, ensinaram-me tão-só aquilo que não deve ser a escola. Há uma profunda hipocrisia no modo de viver hoje o ensino: por um lado fala-se de desmotivação, de abandono escolar, etc. Por outro lado, continua a insistir-se numa conceção de escola burocratizada e que tresanda a Idade Média.
Lamentavelmente, nos últimos anos, ensinaram-me muito pouco, ensinaram-me tão-só aquilo que não deve ser a escola. Há uma profunda hipocrisia no modo de viver hoje o ensino: por um lado fala-se de desmotivação, de abandono escolar, etc. Por outro lado, continua a insistir-se numa conceção de escola burocratizada e que tresanda a Idade Média.
.
Entretanto, na arte da tradução, de que autor se sentiu mais próximo ao traduzi-lo?
Entretanto, na arte da tradução, de que autor se sentiu mais próximo ao traduzi-lo?
.
Voltaire. Tenho uma profunda admiração pelo séc. XVIII francês, mais especificamente por Voltaire, autor que sempre me fascinou.
Voltaire. Tenho uma profunda admiração pelo séc. XVIII francês, mais especificamente por Voltaire, autor que sempre me fascinou.
.
Neste momento, qual a palavra que gostaria de sublinhar na sua «gramática dos afetos»?
Neste momento, qual a palavra que gostaria de sublinhar na sua «gramática dos afetos»?
.
Paixão. Os seres incapazes de se apaixonar assustam-me, muitos deles rondam as psicopatias e, quando frios e ávidos de poder, são perigosos, mas prefiro não desenvolver o tema…
Paixão. Os seres incapazes de se apaixonar assustam-me, muitos deles rondam as psicopatias e, quando frios e ávidos de poder, são perigosos, mas prefiro não desenvolver o tema…
.
Pois… E a velhice assusta-o?
Pois… E a velhice assusta-o?
.
Não. Assusta-me a decadência, que pode surgir em qualquer idade, a velhice não. Há um excelente romance de Louise Weiss sobre a velhice, Dernières Voluptés, e um outro da Vita Sackville-West, Toda a Paixão Abolida. A visão que temos hoje da velhice é aquela que a moral burguesa e a sociedade dos números tem vindo a difundir: o velho-fardo, o velho-não-produtivo, o velho-que-já-está-atrasado-par a-a-morte, etc. É dentro deste paradigma que a velhice assusta. Mas nem sempre foi assim e pode nem sempre ser assim: tive amigos de muita idade, alguns grandes escritores, com quem aprendi imenso.
Não. Assusta-me a decadência, que pode surgir em qualquer idade, a velhice não. Há um excelente romance de Louise Weiss sobre a velhice, Dernières Voluptés, e um outro da Vita Sackville-West, Toda a Paixão Abolida. A visão que temos hoje da velhice é aquela que a moral burguesa e a sociedade dos números tem vindo a difundir: o velho-fardo, o velho-não-produtivo, o velho-que-já-está-atrasado-par
.
Num só verso, como resumiria o nosso país?
Num só verso, como resumiria o nosso país?
.
Que Camões me perdoe a soberba:
"Ó glória de mandar, ó vã cobiça".
Que Camões me perdoe a soberba:
"Ó glória de mandar, ó vã cobiça".
.
.
OUTUBRO DE 2013, In Site "O Casal das Letras"
OUTUBRO DE 2013, In Site "O Casal das Letras"
23/10/13
.
A apresentação do novo romance de Ana Cristina Silva, "A segunda morte de Anna Karénina", que ocorreu ontem em Lisboa, na Livª Barata, foi um autêntico sucesso. A Ana Cristina Silva é uma grande romancista (não só escreve exemplarmente como também fala de coisas importantes!) e a Maria João Luís é, de facto, uma excelente actriz. No final da sessão, já à porta da Barata, eu, o Henrique Levy e a Maria João Luís conversámos sobre vários temas afins ao livro: a questão da máscara, o homem como actor social, etc.,etc... descobri que ela não é apenas a grande actriz que todos conhecemos, mas também uma mulher muito interessante. Parabéns a todos os organizadores deste evento!
.
22/10/13
(A UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES - R.J. acaba de publicar a lista dos autores agraciados com o PRÉMIO DA DIRETORIA, dessa lista constam os portugueses Gonçalo Salvado (Prémio Sofia de Melo Breyner), Victor Oliveira Mateus (Prémio Eugénio de Andrade) e Pedro Miguel Salvado. Dos autores brasileiros salientemos: Antonio Carlos Sechin, Olga Savary e Ronaldo Cagiano... A cerimónia de entrega dos Prémios ocorrerá no próximo dia 25, pelas 15h00, no Auditório Magalhães Junior da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Segue a lista completa dos escritores premiados:)
.
Como acontece todos os anos, a União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, através de sua Diretoria, elege os melhores livros e autores do ano de 2012, que recebem os seus honrosos prêmios na primavera carioca, com o nome de consagrados escritores das letras brasileiras. A solenidade da entrega dos prêmios neste ano será no salão nobre da Academia Brasileira de Letras, no dia 25, às 15 horas.
Um dos premiados nesta temporada é o escritor baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, que irá receber a láurea Jean Paul Mestas por seu livro “De tes instants dans le poème/De teus instantes no poema”, publicado pelas Editions du Cygne, Paris, na coleção Poesia do Mundo, com prefácio de Margarida Fahel, professora da UESC. O poeta Pedro Vianna, também receberá a mesma láurea por sua versão do livro para o francês. Com este prêmio, Cyro de Mattos alcança a marca de dez láureas concedidas pela UBE/RJ, entre livros de poesia, literatura infantojuvenil e organização de antologia.
Eis a relação dos autores premiados neste ano e seus respectivos patronos:
PRÊMIO GUILHERME DE ALMEIDA para PAULO BOMFIM PRÊMIO
GUIMARÃES ROSA para FÁBIO LUCAS
PRÊMIO FERNANDO PESSOA para ANTONIO CARLOS SECCHIN
PRÊMIO CASTRO ALVES para DIEGO MENDES SOUSA
PRÊMIO MACHADO DE ASSIS para MIGUEL JORGE
PRÊMIO HENRIQUETA LISBOA para YEDA PRATES BERNIS
PRÊMIO BENEDITO NUNES para OLGA SAVARY
PRÊMIO JOÃO CABRAL DE MELO NETO para MARCUS VINICIUS QUIROGA
PRÊMIO HERNÂNI DONATO para FERNANDO PY
PRÊMIO BARBOSA LIMA SOBRINHO para CÍCERO SANDRONI
PRÊMIO MONTEIRO LOBATO para LAURA SANDRONI
PRÊMIO CLARICE LISPECTOR para BEATRIZ ROSA DUTRA
PRÊMIO VINÍCIUS DE MORAES para ELISA FLORES
PRÊMIO ADONIAS FILHO para OLÍVIA BARRADAS
PRÊMIO PAULO RÓNAI para LÍVIA PAULINI
PRÊMIO CASSIANO RICARDO para LEILA ECHAMIÉ
PRÊMIO ZILA MAMEDE para ELIZABETH MARINHEIRO
PRÊMIO PEREGRINO JÚNIOR para NELSON PATRIOTA
PRÊMIO CLEMENTINO FRAGA para ABÍLIO KAC
PRÊMIO ADÉLIA PRADO para MARIA AMÉLIA AMARAL PALLADINO
PRÊMIO MANUEL CAVALCANTI PROENÇA para IVAN CAVALCANTI PROENÇA
PRÊMIO MARGARET MEE para EVANDRA ROCHA
PRÊMIO WALMIR AYALA para JUÇARA VALVERDE
PRÊMIO MURILO MENDES para JOSÉ SEBASTIÃO FERREIRA
PRÊMIO CHICO BUARQUE DE HOLANDA para COLBERT HELSINBORG
PRÊMIO FLORBELA ESPANCA para IDALINA P. A. GONÇALVES
PRÊMIO SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN para GONÇALO SALVADO
PRÊMIO JOSÉ SARAMAGO para MIGUEL BARBOSA
PRÊMIO EUGÉNIO DE ANDRADE para VICTOR OLIVEIRA MATEUS
PRÊMIO ANTÔNIO OLINTO para RONALDO CAGIANO
.
Como acontece todos os anos, a União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, através de sua Diretoria, elege os melhores livros e autores do ano de 2012, que recebem os seus honrosos prêmios na primavera carioca, com o nome de consagrados escritores das letras brasileiras. A solenidade da entrega dos prêmios neste ano será no salão nobre da Academia Brasileira de Letras, no dia 25, às 15 horas.
Um dos premiados nesta temporada é o escritor baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, que irá receber a láurea Jean Paul Mestas por seu livro “De tes instants dans le poème/De teus instantes no poema”, publicado pelas Editions du Cygne, Paris, na coleção Poesia do Mundo, com prefácio de Margarida Fahel, professora da UESC. O poeta Pedro Vianna, também receberá a mesma láurea por sua versão do livro para o francês. Com este prêmio, Cyro de Mattos alcança a marca de dez láureas concedidas pela UBE/RJ, entre livros de poesia, literatura infantojuvenil e organização de antologia.
Eis a relação dos autores premiados neste ano e seus respectivos patronos:
PRÊMIO GUILHERME DE ALMEIDA para PAULO BOMFIM PRÊMIO
GUIMARÃES ROSA para FÁBIO LUCAS
PRÊMIO FERNANDO PESSOA para ANTONIO CARLOS SECCHIN
PRÊMIO CASTRO ALVES para DIEGO MENDES SOUSA
PRÊMIO MACHADO DE ASSIS para MIGUEL JORGE
PRÊMIO HENRIQUETA LISBOA para YEDA PRATES BERNIS
PRÊMIO BENEDITO NUNES para OLGA SAVARY
PRÊMIO JOÃO CABRAL DE MELO NETO para MARCUS VINICIUS QUIROGA
PRÊMIO HERNÂNI DONATO para FERNANDO PY
PRÊMIO BARBOSA LIMA SOBRINHO para CÍCERO SANDRONI
PRÊMIO MONTEIRO LOBATO para LAURA SANDRONI
PRÊMIO CLARICE LISPECTOR para BEATRIZ ROSA DUTRA
PRÊMIO VINÍCIUS DE MORAES para ELISA FLORES
PRÊMIO ADONIAS FILHO para OLÍVIA BARRADAS
PRÊMIO PAULO RÓNAI para LÍVIA PAULINI
PRÊMIO CASSIANO RICARDO para LEILA ECHAMIÉ
PRÊMIO ZILA MAMEDE para ELIZABETH MARINHEIRO
PRÊMIO PEREGRINO JÚNIOR para NELSON PATRIOTA
PRÊMIO CLEMENTINO FRAGA para ABÍLIO KAC
PRÊMIO ADÉLIA PRADO para MARIA AMÉLIA AMARAL PALLADINO
PRÊMIO MANUEL CAVALCANTI PROENÇA para IVAN CAVALCANTI PROENÇA
PRÊMIO MARGARET MEE para EVANDRA ROCHA
PRÊMIO WALMIR AYALA para JUÇARA VALVERDE
PRÊMIO MURILO MENDES para JOSÉ SEBASTIÃO FERREIRA
PRÊMIO CHICO BUARQUE DE HOLANDA para COLBERT HELSINBORG
PRÊMIO FLORBELA ESPANCA para IDALINA P. A. GONÇALVES
PRÊMIO SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN para GONÇALO SALVADO
PRÊMIO JOSÉ SARAMAGO para MIGUEL BARBOSA
PRÊMIO EUGÉNIO DE ANDRADE para VICTOR OLIVEIRA MATEUS
PRÊMIO ANTÔNIO OLINTO para RONALDO CAGIANO
21/10/13
" Todas são ridículas "
Joaquina escrevia cartas de amor, quase todos os
dias, ao seu "adorado" António. Acabava com "tua para
sempre" na sua letra redonda e miúda. Dobrava
cuidadosamente a folha, de linhas azuladas e
introduzia-a no envelope, que tinha forro violeta.
Depois de escrito o endereço postal, metia a carta por
uns segundos no decote, como para lhe transmitir
algo da própria pele. Sandra recebeu um sms do Hugo.
Guardou nas mensagens recebidas para reler de novo.
Era do rapaz que tinha conhecido na véspera. Trazia
muitos sinais redondos a enviar sorrisos e muitas
abreviaturas de palavras, como por exemplo: Bjs. Já
tinha armazenado na pasta respectiva do pequeno
celular, várias mensagens daquelas, do Tiago, do
Rodrigo, do Diogo, do Afonso... Só ainda não tinham
descoberto a abreviatura da palavra "amor". Ignora-se
porque certas palavras resistem à queda das letras,
por muito tempo...
Lourenço, Inês. Ephemeras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2012, p 27.
.
" Ranho Baba Merda "
- Mas isso é um verso?
- É.
- Mas esse gajo não é um que fala de gaivotas, e
tretas de sol e gatos?
- Pois, fala de todas as tretas que há no mundo e de
outras por haver. Já estou a notar que és daqueles que
acham que a poesia ou tem asinhas ou tesão. A
metafísica e o tesão ou a sua falta, podem dispensar-
se. Há tanta outra coisa para olhar, não?
- Mas esses tipos, os tais poetas, não fazem uns
livros merdosos, fininhos, só com um bocado da
página escrita?
- Piadola pouco original, essa. Estás farto de saber
que uma frase pode dizer mais coisas do que meia
dúzia de best-sellers digestivos e imbecis.
- Mas esses é que interessam à maralha e têm capas
porreiras. Não achas que a vida é imbecil e temos de
procurar digeri-la com capas porreiras?
- É uma maneira de ver a coisa. Se calhar, há fases
assim...
- Bem, pensando melhor, "merda" e "gaivotas" têm
muito a ver, porque na minha rua os tejadilhos dos
carros fartam-se de apanhar lostras desses poéticos
bichos.
- Não ajavardes...
- Afinal, quais é que são os bons poetas?
- Não há um poetómetro, claro, apesar dos esforços
de fazedores de cânones. A boa poesia tem tudo: uma
coisa e o seu contrário.
- Como assim?
- Olha para este outro verso de mesmo gajo, dos
gatos e do sol, como dizes, mas também da baba, ranho
e merda:
Não colecciones dejectos o teu destino és tu.
Lourenço, Inês. Ephemeras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2012, pp 40 - 41.
.
20/10/13
14.
Quando o náufrago aparece
na rebentação, a fonte seca e todos
os cântaros racham com o sopro da água.
Há um grito no cimento molhado
e as ruas fecham-se como se assistissem
a um eclipse. Alguns telhados caem para
dentro das casas e as janelas explodem
com o vento.
É uma dor antiga que chega_________
que vem ocupar o lugar que lhe pertence.
É o corpo desfeito do homem que
tenta reconstruir-se na memória da vila,
que vem para se intrometer no luto,
como um vírus.
Rocha, Jaime. Mulher inclinada com cântaro. S/c.: volta d'mar, 2012, p 20.
.
19/10/13
.
.
Ícaro, de Victor Oliveira Mateus, esta vez, traducido al italiano por Marcela Filippi Plaza. Un mismo poema recorriendo tantos rincones del silencio, tantos Ícaros diferentes sobrevolando un mismo laberinto...
ÍCARO
A Miguel Veyrat
Liscia le piume nell'angolo del davanzale
dove il petto -oramai senza canto- gli ravviva
pene di un altro tempo, quando l'attesa
per qualcosa di nuovo era un' asta in mezzo alla furia dei venti.
Allineale per colore, grandezza,
dolcezza, e con esse sfida il sole, i tiranni,
tutto ciò che senza desiderio puro rifiuta ali
per ricevere il danno, il fango o la tortura.
Liscia le pene nell'angolo del davanzale,
al contrario delle minacce di Minosse, i labirinti
di Cnosso e il suo risentimento, il ruggire delle macchine
giù per la strada: mistione di felicità e disfacimento.
Accarezza le ali ormai esaurite e appoggiato sul cristallo
scuro del balcone, rattrista la futura caduta, cera
e audacia, fuse per far nascere così le isole,
terre verdeggianti e tutte le cose promesse.
Victor Oliveira Mateus, (traducción de Marcela Filippi Plaza).
ÍCARO
A Miguel Veyrat
Liscia le piume nell'angolo del davanzale
dove il petto -oramai senza canto- gli ravviva
pene di un altro tempo, quando l'attesa
per qualcosa di nuovo era un' asta in mezzo alla furia dei venti.
Allineale per colore, grandezza,
dolcezza, e con esse sfida il sole, i tiranni,
tutto ciò che senza desiderio puro rifiuta ali
per ricevere il danno, il fango o la tortura.
Liscia le pene nell'angolo del davanzale,
al contrario delle minacce di Minosse, i labirinti
di Cnosso e il suo risentimento, il ruggire delle macchine
giù per la strada: mistione di felicità e disfacimento.
Accarezza le ali ormai esaurite e appoggiato sul cristallo
scuro del balcone, rattrista la futura caduta, cera
e audacia, fuse per far nascere così le isole,
terre verdeggianti e tutte le cose promesse.
Victor Oliveira Mateus, (traducción de Marcela Filippi Plaza).
.
18/10/13
.ÍCARO
a Miguel Veyrat
Alisa las plumas en el rincón del alféizar...
donde el pecho –ya sin canto- le aviva
penas de otro tiempo, cuando la espera
de algo nuevo era mástil en la furia de los vientos.
Alinealas por color, tamaño,
la dulzura, y con ellas desafía al sol, los tiranos,
todo lo que sin deseo puro rechaza alas
para aceptar el daño, el fango o la tortura.
Alisa las penas en el rincón del alféizar,
al revés de las amenazas de Minos, los laberintos
de Cnossos y su despecho, del rugir de los coches
calle abajo: mezcla de felicidad y destrozos.
Acaricia las alas ya acabadas y, apoyado en el cristal
oscuro del balcón, entristece la futura caída, cera
y osadía derretidas, para que así nazcan las islas,
tierras verdeantes y todas las cosas prometidas.
Victor Oliveira Mateus. (traducción, Marta López Vilar) in Cintilações da Sombra. Fafe: Editora Labirinto, 2013.
Sonando: Βγάλε φτερά και πέτα ("Ponte unas alas y vuela"), de Costas Pavlidis...
.
17/10/13
" Últimas palavras de Adèle H, em Villequier "
É agora público e notório
cercada de árvores afiladas
pedras demasiado pesadas
o Sena que corre perto, negro de naufrágios
o mar enrolado em ondas, a seguir
A tua distância
fez de mim animal furtivo
e tão duvidosa a reputação
Tornou-se o mundo extenso terreiro
do jogo da cabra-cega
basta muito abrir
e muito fechar as pálpebras
edificar os planos do breu
e demasiado brilho
para os olhos aguados
São teus os lugares que perdi
no desacerto das estações
deriva de barcaças sucessivas
intermináveis estrados em suspensão
Deambulei pelos quartos vazios
ao calor tropical ou nas agudas
afiadas facas do frio
Era esse o modo como, de tão longe
me abraçavas, me colavas
os vestidos aos bicos dos seios
os enregelavas
com o bafo das sombras
Sabei agora que o tempo se faz
do que em nós é vendado
de iniciais e coisas apagadas
do esquecimento que as flores reabrem
Sabei que o meu nome é apenas paixão
que a luz se entranha do leito de mármore
e as chuvas regressam para que
dias e noites inteiros se percam
E pudesse eu dizer, para sempre
algo que fosse verdadeiras e últimas palavras
Silva, José Manuel Teixeira da. O Lugar Que Muda o Lugar. S/c.: Língua Morta, 2013, pp 22 - 23.
.
16/10/13
Nada se pode acrescentar
Ao que tenhas a pedir
Se souberes como e quando.
Há sempre um pouco mais
Naquilo que irás encontrar,
Assim deixes que o tempo passe
Mais lento do que o que está
Conforme os gestos e a agitação
De quem tudo sabe e vê. Nada
Se silencia no que vives
Perto ou longe da casa do coração,
Pois tudo cresce para ser,
Ainda que o sopro das vozes
Se faça da intranquilidade do vento.
Almeida, Rui. Leis da Separação. S/c.: Medula Editora, 2013, p 36.
.
15/10/13
(...)
Ora viva! Como tem passado?
Está bonzinho?
Estas lapelas acusam cansaço
E o pescoço
Desce em pregas sumidinho
.....
Desempregado!
Busque - busque
O ossinho há-de surgir
Para roer
....
Pois - na verdade
O contentor recheadinho
Abre a porta
A cada estômago
Que se torce apertadinho
Por não saber entender
....
Não. Não. Nunca se sinta só
Indignado? Como?
Tenha juizinho
Mantenha a calma
Há que colaborar no tempo
De calar as mãos
Por ser nobre o servicinho
....
Ai! Por favor
Não diga isso
Eles até vão sofrendo
Injustamente
Falhazinhas de calvície
Ao salvar o paísinho
....
Pois - pois
Bem sei do suplício
Milhares de toca perdida
Alternar? E a honrazinha?
Como sabe
Assim é por ser preciso
....
Oiça. Quer um conselho?
Deixe correr a vidinha
Respire na rua o consolo
Afinal
É preciso saudinha
Puga, Ana Maria. Área de Serviço. Fafe: Editora Labirinto, 2012, pp 11 - 13.
.
Existe um muro ali na frente,
que transposto
mostra o outro lado,
o rosto não visto,
o colostro por engano bebido.
Muro que protege,
inibe, esconde o monturo,
o pulo herege;
muro que resguarda a desventura.
Existe um muro ali na frente
de súbito, per si, transparente.
A mente vem aos olhos,
vejo rosas e aromas:
arremesso-me.
Vejo dragões, serpentes aladas,
medusas, coisas escusas:
prosto-me vencido.
Acordado há pouco
vejo o muro,
tão visto e acostumado
faz sossegar-me.
Mas que sossego tolo,
se existe ali na frente um muro.
Queiroz, Vladimir. Nuances. Salvador: Ed. Autor, 2012, p 59.
.
13/10/13
Rui Almeida, Manuel A. Domingos e Victor Oliveira Mateus, Sociedade Guilherme Cossoul (Campolide) em Lisboa, 12 de Outubro de 2013.
.
.
Apresentação do livro Leis da Separação de Rui Almeida
Têm
os títulos dos livros, bem como as suas epígrafes, a função de nos introduzir
no horizonte ou intriga que virão a ser desenvolvidos. Assim, no mais recente poemário
de Rui Almeida, a expressão Leis da
Separação aponta-nos para algo de fixo e invariável, que, uma vez colocadas
e respeitadas condições igualmente estáveis, produzirão necessariamente os
mesmos resultados. Podemos aqui, por conseguinte, partir de um eu-poético que
se assume a si próprio como distinto da multidão, incapaz – por recusa ou por
aspectos de personalidade – de participar nos rituais do turbilhão que o cerca:
“Pode a memória de um cheiro gerar/ O pequeno lucro do afecto/ Ou queimar o
erro da norma?” (p. 8); “Pela manhã são vistos, apressados,/ A caminho do dia,
da sequência monótona/ Para onde se esvai toda a grandeza/ De cada olhar. Nem
se notam” (p. 16); “De onde vem tanto barulho?/ Que espécie de riso se expande/
Por corredores estreitos, entre paredes,/ Para chegar ao vácuo da rua?” (p. 24).
O apreender-se a si próprio como destoante e separado do vulgo incute no eu-poético indeléveis marcas de: uma
radical solidão interior – “Próximo e para lá/ Do que cabe numa linha/ De texto
formatado,/ A possibilidade de tocar/ Uma outra existência/ Alheia à distância
e ao peso/ Da matéria” (p. 9), “Será possível tocar/ Na pele do rosto de um
semelhante/ Sem deixar de sentir/ A sua temperatura?” (p. 24); intensos
reflexos de angústia e dor – “E quando te cansas/ Dessa alma de borracha,/ Tão
maleável…// Aceleras o coração,/ Acordas surpreendido// E reparas/ Que te
faltam/ Mãos e braços” (p. 30), “(…) A noite tem textura/ De caminho difícil
até/ Ao limite do mais belo.//(…) Devagar é noite e dói/ Subir à montanha com
os olhos.” (p. 34); um vincado desalento tangenciando mesmo, por vezes, um
certo pessimismo – “A isto se chama devastação,/ Cinza erguida, totens/ De
negro carvão. Nada.” (p. 35). Estes estados, que esboçam o perfil de um sujeito
que enceta uma plurifacetada busca na compreensão de si, do Outro, daquilo que
o cerca e também daquilo que ele intui que o transcende, estes estados – dizia
– são as já referidas condições de partida desse tal olhar perscrutador.
Mas o
caminho apresenta-se, neste cismar poético, eivado de escolhos, já que o poeta
jamais designa através de um conceito unívoco esse território que lhe surge
como fundante, não só da sua busca, mas igualmente do seu estar-aqui, e isso
ocorre não por qualquer vacilação do olhar, mas porque ante o inominável serão
sempre poucas e redutoras as palavras, mas, apesar de tudo, ele insiste: “Ao
que pode e não pode rouba sempre/ A morte, assombra a quantia/ Lenta do alto. “
(p.8), esta ideia do Alto surge-nos
ainda no poema da página 14; o eterno - “Longe, a ideia de continuar/ Sempre a
sentir/ O movimento,/ Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,” (p.9); “A
paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:// É frágil em seus limites/
Irracionais.// O lugar das coisas invisíveis/ É a flor dos silêncios.” (p. 11);
o centro - “Queres e não vês/ E tomas o acesso/ Mais directo ao centro/ E há
nevoeiro e não chegas/ A tempo, mas onde?,//(…) e não sabes/ Onde chega a tua
força/ E não tens lugar/ E não ouves e não cantas/ A breve melodia.// E ainda
assim.” (p. 40). Esta consciência de uma incapacidade estrutural que é
intrínseca ao acto de nomear o que está para além de um aqui imediatista, já o
poeta a tinha sentido em livros anteriores: “Ascende ao presente a vaga/
Firmeza aplicada ao que sucede,/ Distracção do tempo/ Assumida em palavras
sobrepostas/ Para construir um nome. ( in “Caderno de Milfontes”, p. 12). Este
pudor, ou este recato, do nomear jamais é incompatível com a necessidade de
busca, e isso surge-nos logo a partir do primeiro livro de Rui Almeida: “É por
não buscarmos o que nos salva ou/ Por não sabermos beber da secura dos lábios/
Que nos transportamos para fora dos campos/ Sujeitos à pequenez e à aparência
de abundância/ Como seres que perderam a consciência do riso. “ ( in “ Lábio
Cortado”, p 7). A inquirição poética contida em Leis da separação surge-nos marcada por quatro aspectos
fundamentais: a Dúvida – o poeta, nunca chama a si posições de carácter
dogmático ou onde uma certa assertividade se apodere da sua escrita, isto é, os
momentos de angústia e de desalento acima referidos aparecem, algumas vezes,
geminados com momentos de: dúvida - “Cada passo é próximo/ Demais para chegar//
A um fim. Incerto/ Limite/ Do fluxo da vida.” (p.31), “Mais acima e mais para
dentro,/ Sustentado por ideias,/ Possibilidades de sonho// A concretizar/ Em
caminhos de areia/ Solta por entre/ Abundante vegetação.” (p.32); ironia,
muitas vezes magoada – “Iremos aparecer,/ O nosso rosto será/ Visível em
fotografias,/ Muitos anos depois,// E sairemos bem/ na contramoda que
construirmos.” (p. 12), “ Todos felizes da vida/ por serem humanos;/ Até o
maneta,// Que atrapalha o trânsito/ Com obscenidades/ Por não ter nada a
perder.// (e esse mais do que os outros)” (p. 17); de utilização, aqui e ali,
de um argumentário poético alicerçado em Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino,
nomeadamente as Teorias da” Matéria e Forma” e a da” Potência e Acto” - “Age no
poder da forma o cheiro/ Da memória, assinala/ O fim da leitura… “ (p. 8), “
Distinto da realidade/ Sustida pelo tempo,// Concretizado no acto/ de ir ao
encontro.” (p. 9), “Até às formas completas/ Que revestem o essencial.” (p. 26);
a ideia de ciclo - o itinerário do eu-lírico (como o da criação poética
expresso, subliminarmente, no poema da página 22), nesta sua errância por um
aqui que lhe surge assumidamente imperfeito e lacunar, não aparece como um
processo linear onde as etapas se somem umas às outras, na poesia de Rui
Almeida são recorrentes as hesitações, as dúvidas, a consciência da sua própria
fragilidade, onde o eu vacila para logo se reerguer e retomar o seu caminho,
aliás, não é por acaso que as referências à noite, à nevoa, à sombra, etc.,
como instâncias impeditivas ou bloqueadores da acção, são abundantes nesta
obra: “ A paz, podem dizê-lo,/ Tem curvas breves:” (p. 11), “Encerram as fontes/
Fragmentos/ Ciclos de esperança,/ Respostas incertas.” (p. 26).
A separação
que o poeta, como vimos já, sente relativamente à conformidade, ao
turbilhão, à essencialidade do Outro e ao que intui subsistir para além do Aqui,
e que ele assume com uma lucidez angustiante e com o desalento próprio de quem
teme que esse qualquer encontro redentor não venha, alguma vez, a ser possível,
afasta a poesia de Rui Almeida, pelo menos no que diz respeito a este livro,
dos intentos poéticos de outros autores: Vergílio Alberto Vieira, nas suas
últimas obras, é claro quanto à identificação da transcendência (que ele
significa sempre com maiúscula!) e a sua espera jamais aparece como dolorosa ou
atormentada: “ Nada vêem os olhos, que tudo vêem,/ com a primeira luz do dia;/
a treva que, a pouco e pouco, das minhas mãos/ se afasta é, agora, que nada me
pertence,/ pertença minha; um ramo de sombra apressa então/ a inquieta brancura
do caminho.” ( in “Amante de um só dia”, p 13); em José Tolentino Mendonça são
também bastante atenuados os momentos de desconforto e insegurança na espera: “
Os naufrágios são belos/ sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?” (in
A que distância deixaste o coração”, p 28), “Nenhuma sombra ameaça tua porção
de luz/ ainda que solte o vento/ medos antigos pelos atalhos// Uma só palavra
restitui/ a imensidão “ ( Idem, p. 41), “ Nós não os ouvimos/ mas os desertos,
os oceanos, os cimos remotos/ ensinam-te finalmente o que não entendes//
Descobres uma casa/ noutras direcções/ a igual distância/da vida que deixamos
para trás” ( in “ O viajante sem sono” pp. 35 – 36),aliás, esta ideia de manter
a sombra à distância era já visível num
livro anterior de Tolentino Mendonça: “Se fechar meus braços outro os abrirá/
no escuro da roda as orações são perpétuas” ( in “longe não sabia”, p. 13). Uma
outra plêiade de autores encontra-se ainda mais distanciada da poesia de Leis da Separação, grupo esse que pode
ser exemplificado aqui através da escrita laudatória de José Augusto Mourão: “
tu semeaste no nossa vida/ a semente do infinito e da beleza/ para que em cada
tempo brotem formas novas/ de convivialidade e graça entre aqueles/ que a dor
performa e acinzenta “ ( in “ O nome e a forma”, p. 121). O modo como Rui
Almeida estabelece, e vivencia, AS LEIS
DA SEPARAÇÃO aproximam-no antes de poetas como: Maria Carpi, Daniel Faria e
até mesmo de Paul Celan. Veja-se, por exemplo, a última estrofe do poema da
página 33: “Só com a grande coragem/ Da desilusão/ Se chega ao riso mais
branco/ Por dentro.”, compare-se agora esta estância com um terceto de Maria
Carpi: “não tenho mãos/ O meu ofício/ não é cinzelar; tão só pedra bruta/ ser,
dentro das entranhas do ver.” ( in “A força de não ter força”, p 88). A
desilusão (ou o não ter mãos) não serão, então, condição necessária ao aplanar
de todo um território a partir do qual agora, e de modo estruturalmente
diferente, se possam edificar pontes? Dito de outro modo: colocadas que foram
as variáveis necessárias da vivência poética (inconformidade, angústia, solidão
interior…), respeitadas depois as condições da errância e da inquirição (
dúvida, ironia, busca cíclica…), não se chegará, necessariamente na óptica do
poeta, a um resultado insofismável que fixará a lei, e que será, neste cismar
poético, a visão de que o todo é fragmentário e onde tudo é separado de tudo?
Sendo assim, o poema da página 39 – já prenunciado pelo da página 36 –
surgir-nos-á como corolário da magnífica e bem desenhada aventura poética
traçada por Rui Almeida em Leis da
Separação , e que é essa certeza do coração (cf. poemas das páginas 21 e
26, bem como a pouca fiabilidade concedida aos sentidos e à razão esparsa pelos
vários poemas) de que só apreendendo a separação,
poderemos (ainda) aceder a essa “Coisa mais simples e mais/ Larga, anterior
à necessidade/ De justiça.” (p.39) e nela, finalmente, encontrarmos acolhimento e aconchego.
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
.
.
11/10/13
.
.
“ Helena em Tróia, os últimos momentos “
encalhados no topo das torres, com a luz
a torcer-se nos meus olhos e o calor,
já prenúncio de desastre, descendo em ameaça
a rigidez do Parnón para ali se misturar
com a passividade das ovelhas, com o desalinho
ofensivo das cabras, com o relincho selvagem
dos cavalos a saciarem-se, alheios a tudo,
nas águas frescas do Eurotas. Lembro
a minha perda ainda mal desenhada na erva
tenra das margens, enquanto os deuses,
em conluios de quem tudo pode, me preparavam
armadilhas fortes e sem possível escapatória.
onde o riso dos homens se enredava na vileza
partilhada e a gordura lhes escorria pelas barbas,
enquanto o cheiro
da urina se misturava
com o do porco bravo a voltear sobre um fogo
intermitente. Lembro os movimentos
voluptuosos das dançarinas, mulheres encenando
o que não sentiam, para o simultaneamente
boçal e frouxo apetite dos homens. Lembro
as guturais entoações dos poetas, espécie
sempre indecisa entre a inveja e a concupiscência
da alma, arvorando entoações de ouro
nos míseros recipientes onde recebiam as esmolas.
Lembro também os músicos, tão desacompanhados
de tudo, os guerreiros – impotentes como todos
os guerreiros -, os estrategas, os generais, os nobres…
E lembro sobretudo a presença de Hermíone,
com os seus nove verões recém concluídos,
a acenar-me por entre a rudeza dos convivas
e do abandono a que, em breve, a votaria –
eu, qual funesta mãe a quem o ventre deveria
ter sido mirrado à nascença, para jamais trocar
filha por salvação própria em braços de homem
raro, homem que me perdoaria um passado
só de corpo, de fealdade da mente, de prazeres
grosseiros, como grosseiro fora tudo antes dele.
Lembro esse mesmo homem a atravessar
a cidadela, a entrar no pavilhão entre a falsa
ousadia varonil e o engaste de um desnorte
verdadeiro a esconder-se por detrás de tudo
o que em Heitor era missão e primazia. Vi-o
e soube de imediato a que perda estava destinada,
a que fim me conduziriam todos os caminhos
que se emaranhavam agora do meu promíscuo
passado a esse barco que no porto me sabia esperar.
E, quando ele finalmente reparou em mim,
percebemos ambos que nenhuma saída era já possível;
que Apolo, senhor do sol e de todas as luzes,
de nós se apropriara como exemplar fulgor do eterno.
Páris Alexandre, sussurravam as criadas o seu nome,
gritavam-no os homens entre si, ressoavam-no
os antigos oráculos, que de mim tanto escondera
por temor e cobardia. Nove dias após o primeiro
olhar! Nove dias onde as noites floresciam
com tanta coisa sufocada e aguardando a mão
certeira. Noites a medirem-se por um fascínio
em desalinho:
faixas decoradas, colares de contas
de âmbar, braceletes de folha de ouro, tecidos rasgados,
suor, saliva, pingos de sémen e a nossa perda
também, mas essa não nos interessava,
porque cheirava a
ganho e a instantes eternizados,
coisa que só a poucos é concedida.
Não, não me julguem pelos relatos futuros, por essas
inverosímeis epopeias ou pelos preconceitos dos que não
ousam!
Tróia teria sido igualmente destruída: as terras de
Dardano
eram apetecíveis, mas pela geografia e pelos celeiros de
trigo.
Eu fui apenas o pretexto! Os políticos, casta de
facínoras
com máscara de sorrisos, há muito tinham decidido
a nossa perda; na sua ganância não cabe a honra
nem estórias como a minha e nos seus melífluos argumentos
apenas a abastança se descobre pelo fedor insuportável
dos seus ventres sórdidos. Fugi, pois, dos poetas, dos
políticos
e das estelas à beira dos caminhos! Só a justeza da
paixão,
a sua lealdade, é verdadeira, só ela poderá um dia
dar sentido à pequena e miserável História dos homens.
10/10/13
09/10/13
" Je vivais. Mon regard, comme un peuple... "
Je vivais. Mon regard, comme un peuple d'abeilles,
Amenait à mon coeur le miel de l'univers.
Anxieuse, la nuit, quand toute âme sommeille,
Je dormais, l'esprit entr'ouvert!
La joie et le tourment, l'effort et l'agonie,
De leur même tumulte étourdissaient mes jours.
J'abordais sans vertige aux choses infinies,
Franchissant la mort par l'amour!
Vivante, et toujours plus vivante au sein des larmes,
Faisant de tous mes maux un exaltant emploi,
J'étais comme un guerrier transpercé par des armes,
Qui s'enivre du sang qu'il voit!
La justice, la paix, les moissons, les batailles,
Toute l'activité fougueuse des humains,
Contractait avec moi d'augustes fiançailles,
Et mettait son feu dans ma main.
Comme le prêtre en proie à de sublimes transes,
J'apercevais le monde à travers des flambeaux;
Je possédais l'ardente et féconde ignorance,
Parfois, je parlais des tombeaux.
Je parlais des tombeaux, et ma voix abusée
Chantait le sol fécond, l'arbuste renaissant,
La nature immortelle, et sa force puisée
Au fond des gouffres languissants!
J'ignorais, je niais les robustes attaques
Que livrent aux humains le destin et le temps;
Et quand le ciel du soir a la douceur opaque
Et triste des étangs,
Je cherchais à poursuivre à travers les espaces
Ces routes de l'esprit que prennent les regards,
Et, dans cet infini, mon âme, jamais lasse,
Traçait son sillon comme un char.
Tout m'était turbulence ou tristesse attentive;
La mort faisait partie heureuse des vivants,
Dans ces sphères du rêve où mon âme inventive
S'enivrait d'azur et de vent!
Ainsi, sans rien connaître, ainsi, sans rien comprendre,
Maintenant l'univers comme sur un brasier,
Je contemplais la flamme et j'ignorais les cendres,
Ô nature! que vous faisiez.
Je vivais, je disais les choses éphémères;
Les siècles renaissaient dans mon verbe assuré,
Et, vaillante, en dépit d'un coeur désespéré,
Je marchais, en dansant, au bord des aux amères.
À présent, sans détour, s'est présentée à moi
La vérité certaine, achevée, immobile;
J'ai vu tes yeux fermés et tes lèvres stériles.
Ce jour est arrivé, je n'ai rien dit, je vois.
Je m'emplis d'une vaste et rude connaissance,
Que j'acquiers d'heure en heure, ainsi qu'un noir trésor
Qui me dispense une âpre et totale science:
Je sais que tu es mort...
Noailles, Anna de. L' Offrande. Paris: Orphée/ La Différence, 2012, pp 99 - 101.
.
08/10/13
" Prière "
Si un jour, aux derniers instants de ma vie, je dois expier les péchés de la magnifique jeunesse, son outrecuidance radieuse, ses rires ouverts, son ingénue malveillance, sa démarche de despote, ses décisions sans scrupule, ses obstinations et ses dédains, - et que ces puissants méfaits de l'irréflexion viennent plaider contre moi, veuillez, ô Destin, opposer à ces images d'un crime ravissant toutes les détresses de votre créature! Évoquez sa patience suffocante, sa constatation du malheur lente et sûre comme l'envahissement d'un insidieux venin, les tempêtes de l'esprit et du corps, comprimées par de faibles mains appuyées sur un coeur bondissant. Considérez dans son martyre spirituel cet être qui gît les yeux clos, disloqué comme la victime d'un accident brutal qui ne nécessite plus ni attention ni secours. Dénombrez les coups de couteau de la hideuse déception dans l'imagination humaine acharnée au plaisir, qui, comme vous, est divin, robuste et créateur. Auscultez ce désert songeur où alternent le râle et le silence. Apitoyez-vous sur la douleur qui appelle non seulement la mort, mais une mort disgraciée, et recevez, ô Monde, ce poids de rêve piétiné dans le paradis sans conscience de votre vaine éternité!
Noailles, Anna de. L'Offrande. Paris: Orphée/ La Différence, 2012, p 90.
.
07/10/13
" Le conseil "
Myro, sois déférente envers celui qui t'aime,
Ne crois pas ton doux corps par les dieux achevé,
Sans l'amant ébloui que ton oeil fait rêver
Ton être vaniteux ne serait pas soi-même.
Loin du flot qui lui voue un murmurant amour
La rive d'or n'est plus qu'un sable désertique;
Honore le désir fidèle et nostalgique
Qui fait à ta beauté un infini contour,
Lorsque tes pieds sont joints et tes mains refermées
À l'heure où le sommeil vient encercler ton lit,
Regarde, avant d'entrer dans l'éphémère oubli,
La morte que tu es quand tu n'es pas aimée...
Noailles, Anna de. L'Offrande. Paris: Orphée/ La Différence, 2012, p 62.
.
.
Decididamente este fim de semana foi momento de cinema. Havia muita coisa para ver e, quando se juntam sete pessoas, há sempre que fazer concessões. Isto para dizer que, por vontade minha, não teria visto o "Por detrás do candelabro" (Behind the candelabra, 2013) e não o teria visto porque não gosto da música de Liberace e o seu tipo de vedetismo sempre me irritou.
Steven Soderbergh não faz parte dos meus realizadores preferidos, apesar de ter realizado dois dos meus filmes de cabeceira: "Sexo, mentiras e vídeo " (1989) e "Kafka" (1991), a partir daqui pouco do seu trabalho me tem motivado, contudo - devo confessar - estava desejoso de ver o desempenho de alguns actores em "Candelabro" e, nesse aspecto, valeu a pena!
Soderbergh retrata no seu filme os últimos anos da grande vedeta que foi Liberace (16/5/1919 - 4/2/1987), papel desempenhado magistralmente por Michael Douglas, sobretudo dando ênfase à relação que o cantor manteve com um dos seus últimos amantes, Scott Thorson, interpretação a cargo de Matt Damon. Relação secreta, tumultuosa, com uma enorme diferença de idades e onde os dois eram de proveniência social bem distinta, mas que, apesar de tantos contras, durou ano após ano. E foi exactamente isto que fez com que me convencessem a ver o filme: como pegariam nos respectivos papéis um Michael Douglas e um Matt Damon que toda a vida vimos em heterossexualíssimos desempenhos? Fiquei estarrecido! Creio mesmo que é assim que se vêem os grandes actores. As recriações feitas por estes dois senhores são do melhor que tenho visto! Outro pormenor: Soderbergh vai buscar a retirada Debbie Reynolds para desempenhar o papel da desmemoriada mas astuta mãe de Liberace. O resto do elenco também é de luxo: Rob Lowe, Dan Aykroyd, Scott Bakula... Conclusão: se não tivesse visto o filme não teria perdido nada de especial, mas se não tivesse visto aqui as fabulosas interpretações de Douglas, Damon e Reynolds teria perdido MUITO. Como é que se consegue uma coisa sem a outra? Não se consegue!
.
06/10/13
.
.
Margarethe von Trotta, juntamente com Schlondorff e Fassbinder, é uma das impulsionadoras do novo cinema alemão. De entre a sua conceituada obra contam-se filmes como: "Anos de Chumbo" (1981), sobre os grupos de guerrilha que atuaram nos países ricos da Europa ainda não há muito tempo, e "Rosa Luxemburgo " (1986), a ativista e filósofa marxista assassinada pela direita nazi na Alemanha. Não deixa de ser significativo que, nos dias de hoje, Madame von Trotta vá exactamente fazer um filme sobre uma filósofa a quem o problema do Mal tanto obcecou - Hanna Arendt.
O filme "Hanna Arendt" (2012), cujo papel principal é magistralmente representado por Barbara Sukowa, narra a posição da filósofa alemã, não só relativamente à questão do Mal, mas sobretudo demonstra como ela chega às suas conclusões (PENSANDO e... VENDO!) através do julgamento de Eichmann em Jerusalém. O filme, em cenas secundárias, mostra-nos ainda aquilo que foi a consumada paixão de Hanna Arendt pelo seu velho mestre, Martin Heidegger, e como ela dele se desiludiu e afastou após ter descobrido as ligações deste ao Partido Nazi, vê-se ainda a sua amizade com o casal Jonas em várias ocasiões, contudo, o filósofo Hans Jonas viria a romper com Hanna Arendt após a publicação que esta fez do seu texto sobre Eichmann.
Adolf Eichmann (19/3/1906 - 31/5/1962), oficial das SS, foi um dos maiores organizadores do holocausto: pelas mãos dele foram encaminhadas para morte milhões e milhões e milhões de pessoas. Após a derrota nazi na 2ª Grande Guerra, Eichmann consegue um passaporte falso da Cruz Vermelha e esconde-se na Argentina, onde passa a viver clandestinamente. Em 1960 a Mossad localiza-o e rapta-o para logo o colocar em Israel, mais propriamente diante de um tribunal em Jerusalem, ante o qual Eichmann terá de responder por crimes de guerra e por crimes contra a humanidade. Considerado culpado, Eichmann é executado em 1962.
Ora sucede que Hanna Arendt é encarregada, pelo jornal para o qual trabalha, de ir VER/ASSISTIR ao julgamento de Eichmann. A primeira coisa que a surpreende é que aquilo que vê dentro de uma jaula de vidro não é propriamente o monstro que esperava ir ver, mas antes um zé-ninguém engripado. Aquele indivíduo nunca ligou uma válvula ou uma torneira para gasear pessoas, ele nunca empurrou ninguém para dentro de camionetas que gaseavam, ele, conforme afirmava no tribunal, limitava-se a ser fiel a um juramente e a uma dada noção de dever. Este foi o primeiro grande choque de Hanna Arendt, ela não conseguia estabelecer nenhum elo de causalidade direta entre qualquer ação de Eichmann e as mortes concretas que os seus comportamentos jamais se esforçaram por impedir. ONDE PROCURAR ENTÃO A CAUSA DO MAL? E a resposta de Hanna Arendt foi depois bem clara: primeiro, é possível existirem momentos na História e nas Sociedades em que, apesar de dotados de CONSCIÊNCIA, os indivíduos não exercem o PENSAMENTO (veja-se com atenção todos os diálogos do filme que abordam a questão da consciência, do pensamento e da culpa!) acabando assim por levar ao sofrimento e à morte muitos seres humanos; segundo, esses indivíduos, ESSES ZÉS-NINGUÉM são o que mais existe nesses momentos nas referidas sociedades edificando assim, e fortificando, A BANALIDADE DO MAL. A filósofa diz mesmo, em certo momento do filme: "o Mal nunca é radical, radical só o Bem, mas o Mal pode ser extremo e profundo" quando propagado pelos incapazes de pensar. O filme levanta depois outras questões, como por exemplo o papel dos Conselhos Judaicos nos países ocupados, questão a que a autora não consegue responder a 100%, embora assumindo que eles também participaram em mortes e que... "entre a consumação da ação odienta e o leque de possibilidades devem existir muitas posições", mas aqui Hanna Arendt não conclui o raciocínio.
As posições da filósofa levantariam depois um coro de ódios, ameaças e acusações, nomeadamente a de estar a defender Eichmann e é a essas acusações que ela responde aqui nesta aula dada num anfiteatro.
Acabo apenas dizendo que não creio ser por acaso que um nome prestigiado como Margarethe von Trotta, decide fazer um filme sobre "a banalidade do mal", sobre a "culpa dos zés-ninguém que se recusam a pensar", sobre "facilidade com que indivíduos que dizem que se limitam a cumprir ordens "(como Eichmann o faz no tribunal!) acabam conduzindo ao sofrimento, e até à morte, tantos seres humanos; não creio - repito - que na atual, e desumana, crise do capitalismo financeiro a feitura deste filme tenha sido trabalho gratuito e de mero passatempo.
.
(Mera sugestão- "Eichmann em Jerusalem - Uma reportagem sobre a banalidade do mal" de Hanna Arendt, Edições Tenacitas, Coimbra, 2003; "As origens do totalitarismo" de Hanna Arendt, Dom Quixote, Lisboa, 2006).
.
.
04/10/13
03/10/13
.
.
Ana
Maria Puga: a delicada irreverência da escrita
O novo livro de Ana Maria Puga, Área de Serviço, apresenta-nos uma
escrita de cunho vincadamente urbano e realista, onde uma função irónica e
deliberadamente ambígua da linguagem, assim como o engajamento social, surgem
como principais linhas de força. Por entre os vários aspectos que aparecem
subjacentes a esta escrita podemos encontrar, embora de forma ténue, as marcas
de autores como Fernando Assis Pacheco (cf. “Elegia por Manuel Bogalho” in A Musa Irregular pág. 149; “A Bela do
Bairro”, idem pp. 151-152) e Jorge Fazenda Lourenço (cf. “Cutucando a Musa”); também a veemência do sentido, bem como alguns
procedimentos rimáticos, nos fazem lembrar a assertividade de poéticas como as
de Miguel Torga e de José Gomes Ferreira (é difícil lermos o verso “Feitos de
lágrimas enxutas”, p. 48, sem nos recordarmos de José Gomes Ferreira!); no
entanto, quer ao nível da organicidade do poema quer da estruturação do
poemário parecem surgir de modo mais acentuado as influências de poetas como
Alexandre O’Neill (cf. “O poema pouco original do medo” in Poesias Completas 1951/1986, pp. 143-144; “Saber viver é vender a
alma ao diabo”, idem pp. 177-179) e
Mário Cesariny (cf. “poema podendo servir de posfácio” in Manual de Prestidigitação, pp. 100-102; “autografia” e “ortofrenia”
in pena capital, pp. 37-39 e p. 152
respectivamente), no entanto – diga-se - a poesia de Adília Lopes não nos surge
( também) como algo de alheio a esta escrita (cf. Dobra, Poesia Reunida pp. 330-348), nem tão-pouco a mordacidade e o
desvelamento cáustico bem ao gosto dos textos de Mário-Henrique Leiria.
Nesta obra de Ana Maria
Puga é notória a força incutida ao sentido enquanto fonte de inquirição,
contestação e recusa de um social que se apresenta à poeta de modo injusto,
castrador e claustrofóbico. Assim, esse mesmo contexto e/ou quotidiano é olhado
nas suas múltiplas vertentes: a histórica (“No poleiro ocidental/ Do comércio/ Das
viagens/ Jaz tão velha a catedral/ De um tempo de oiro/ E voragens/ Na senda de
acontecer”, in poema Porto-Galo, p.
28); ao nível dos costumes e hábitos (“Ai matriz!/ Canta-se o fado/ E o xaile
entorpece mais/ Os braços/ De um povo a lavar sem rio/(…)/ Trinando/ Nas artes
do cativeiro”, in poema Portugal de
Xaile, p. 31; “O tempo que nós perdemos/ Na oferta de um sofá/ Mesmo
esventrado e sem molas/ (Por vício de civilização/ Que nos impede de parar)/ Castiga
toda a memória” in poema Pluralidade,
p. 59); no campo ético-moral (“Os índios/ Os aborígenes/ Selvajaria sem alma/
Vergonhas a descoberto/ (…)/ E nós outros/ De cabeça sem recheio/ Desavergonhadamente/
Tapámos as partes/ Nesses brocados de anseio” in poema Casinô, p. 55); no terreno do económico-político, onde se visa, por
exemplo, o consumismo e os off-shores: ( “As grandes superfícies brilham/ Na
quantidade/ Em estoques de perfumar/ Os olhos que tudo procuram/ Na compra de
abraçar a solidão “ p. 36; “ O Produto Interno Bruto – rosmaninho e cheiro/
Desaparecendo pela mão de um autoclismo/ Boiando nas águas turvas do seu catecismo/ De alargar as ilhas onde se
fala estrangeiro “, p. 47). Neste olhar simultaneamente atento e acutilante de
Ana Maria Puga, assoma, por vezes – poucas! – um certo desalento, uma certa
mágoa: (“Quando me deito e de olhar me vou cansando/ Guardo na noite as lentes
de ver ao pé/ E as ideias por casar no pensamento/ Aceitam no desconforto/
Convívios de rodapé “ in poema Insónia, p.
57; “Lamento/ Esta falta de vontade/ Esta inércia/ De ordenar significâncias/
Sobre a dor/ Que habita a alma” in poema Pluralidade,
p 58), no entanto, os laivos de fuga, ou de desalentada entrega a quaisquer
derrotismos que eventualmente possam surgir nesta poesia, são puramente
acidentais ante um intento mais forte e claramente assumido: o de cismar
(poeticamente) sobre esse acontecer, algo circense ( cf. pp. 48 – 50), que à
poeta coube em sorte. Assim, e nesta linha de leitura, é impossível afastar a
poesia de Ana Maria Puga de toda uma plêiade de poetas que o cânone tem tido o
cuidado de manter sob vigilância, veja-se- por exemplo – o “Canto e Lamentação
na Cidade Ocupada” de Daniel Filipe, sobretudo o poema 2.:
“ Canto porque estou vivo e amarrado/ à condição de ser fiel e agreste./ Porque
em vão nos destroem a memória/ com máquinas, rodísios, honorários “ (in A invenção do amor e outros poemas, pp.
52 – 53); o poema” Canção combatente” de Armindo Rodrigues: “ Por prémio
chega-nos/ nunca termos prémio,/ senão na nossa própria consciência, em nós
moldada/ por activa opção “( in O
horizonte e a ave- Canto Fausto – Dialéctica do vento, p. 78) ou o poema “Esta
é a cidade” de António Gedeão: “Esta
é a Cidade, e é bela./ Pela ocular da janela/ foco o sémen da rua./ Um
formigueiro se agita,/ se esgueira, freme, crepita, ziguezagueia e flutua.” (
in Poesia Completas, 1956 – 1967, p.
86), refiro aqui apenas poetas já desaparecidos, no entanto, este lúcido e crítico olhar para a cidade, ou
melhor: este olhar pela cidade, tem-se mantido actual porejando em poéticas quer
de autores já consagrados quer de outros que vêm pertencendo às gerações mais recentes.
Assim, se ao nível formal o Área de
Serviço se mantém enraizado nas escritas referidas no primeiro parágrafo,
já no que diz respeito à inquietação fundamental, e fundante, de toda a criação
que lhe subjaz, este livro acaba por se integrar num continuum onde poéticas de
indefectível qualidade se inscrevem.
VICTOR OLIVEIRA MATEUS
(Livraria " Pó dos Livros " em Lisboa, 3 de Outubro de 2013. )
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







