06/10/12

Realidade e efabulações...


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Nada vende melhor, em arte, do que um enredo fantasiado com alguma pitada de sexualidades heterodoxas: excita a curiosidade, sanciona processos de transferência que a nossa cobardia muitas vezes não permite a nós próprios.Assim,em "Les adieux à la reine" (Adeus, minha rainha), realizado por Benoît Jacquot, fala-se do relacionamento da rainha Maria Antonieta (Diane Kruger) com a Duquesa de Polignac (Virginie Ledoyen), relacionamento esse fortemente sexualizado e observado, com algum ciúme, pela camareira Sidonie Laborde (Léa Seydoux). Enfim, é a estafada estória que o fascínio, a admiração e a sedução entre seres do mesmo sexo tem de ter necessariamente um rótulo invulgar. Aliás, quando estava a ver o filme lembrei-me de uma passagem da "Crónica de D. João II" escrita por Garcia de Resende - obra que li há muitos anos!- e onde o próprio Garcia de Resende afirma que tinha tal intimidade com o rei que era a única pessoa que não precisava de bater à porta dos aposentos reais... pensei eu então: qualquer dia aparece aí um filme também a falar desses dois! Conclusão: esta hiperbolização do tema deixou-me já de pé atrás em relação ao filme, acresce depois que a nível técnico ele deixou-me também muito a desejar: a intriga arrasta-se, planos que se repetem desnecessariamente e, por vezes, senti mesmo a própria câmara tremer. Salva a obra as três grandes interpretações das actrizes em causa, grande parte do argumento de Gilles Taurand, e a fidelidade com que é retratada a decadência de Versalhes ante uma Revolução que desponta.
O filme passa-se entre 14 e 17 de julho de 1789 (incluindo, portanto, a célebre tomada da Bastilha!) e retrata a estupefacção e o pânico da Corte ante os acontecimentos que iam começando a alastrar de Paris a toda a França. Maria Antonieta, desprotegida perante os factos, agarra-se ainda mais à sua favorita, e tudo acontece sob o olhar embevecido, enciumado e algo desejante de Sidonie. É em torno deste triângulo que circula o filme, tendo os aspectos sócio-económicos um papel pouco relevante, apenas na cobiça e no desejo de vingança da criadagem frente ao desnorte dos nobres que abandonam a Corte uns a seguir aos outros. Pouco mais o filme me ofereceu...
É um facto que sabemos que a Duquesa de Polignac era extremamente bela, que suscitou em Versalhes o ódio da aristocracia mais antiga, que Maria Antonieta gastou fortunas para manter a sua favorita, o marido desta e os filhos, que este relacionamento foi mesmo uma das causas que mais ódio viria a trazer sobre a rainha, mas a atracção das duas mulheres não parece ter sido mais do que isso... A família Polignac conseguiria, ainda em 1789, refugiar-se na Suiça (no filme com o auxílio de Sidonie!) e viria a acabar por ter descendentes nalgumas casas reinantes da Europa... uma das avós de Rainier III do Mónaco era uma Polignac. Bem, para mim o filme foi apenas isto! Se me tivessem avisado não o teria ido ver!!!
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