30/12/09

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É verdade que Luchino Visconti não foi o primeiro nem o único a romper com a tradição psicológica herdada da literatura romanesca do século XIX, e que a influência de Jean Renoir foi por certo essencial; mas foi um dos poucos a atingir um tal domínio na elaboração da densidade humana que caracteriza os seus heróis. Já em 1942 essa concepção inspira Ossessione, que, mais do que uma adaptação do romance de James Cain, é uma verdadeira recriação onde apenas a intriga foi conservada. Porque não é a intriga, "as coisas por si", o que interessa a Visconti, mas sim "os homens vivos". No caso, aquela mulher, Giovanna (Clara Calamai), que se parece estranhamente com a Livia Serpieri de Sentimento (Allida Valli), com o Gianni, de Vaghe stelle dell'orsa (Jean Sorel), com Ludwig... mas também com Peppa, a heroína de Verga, A Amante de Gramigna que Visconti se propunha adaptar e que a censura fascista recusou. Essa mulher, Giovanna ou Peppa, esses heróis cuja existência é totalmente determinada pela situação vão afincar-se em conquistar a sua existência "entre as coisas" e sobretudo contra elas. A liberdade humana contra a ordem social. Esse o tema de Ossessione, esse o fio conductor que unifica toda a obra de Luchino Visconti. Essa, também, a originalidade da sua atitude, ao recusar separar o romanesco, "os homens", do seu ambiente circundante, "as coisas". Foi pelo enraizamento no contexto social, económico e histórico, pelo modo como este ilumina a personalidade dos heróis, que Visconti pôde romper com o psicologismo tradicional. Os seus heróis não são desprovidos de psicologia, muito pelo contrário, mas a psicologia já não é a única dimensão a "explicar" a personagem e deixou de ser intemporal e abstracta.
É pelo enraizamento no contexto que Visconti ultrapassa a aventura individual, a anedota singular, e atinge uma espécie de universal. O adultério de Ossessione é secundário. O mais importante é a revolta de uma mulher contra uma clausura de que nesse momento ganha consciência. É o encontro, difícil, doloroso mas exemplar, de dois seres libertos que se inventam e se descobrem um pelo outro, Giovanna e Gino são já Gianni e Sandra, o professor Konrad de Violência e Paixão...
A invenção da palavra "neo-realismo" a propósito de Ossessione talvez tenha abafado a verdadeira novidade do filme, que provavelmente reside mais neste pôr em situação das liberdades humanas do que na sua estética neo-realista. Nesta qualidade, poder-se-ia caracterizar a obra de Luchino Visconti como "um cinema de situação", evocando "liberdades que se escolhem em situações" (J.P. Sartre).
" O homem colhido por um momento da história"
O contexto histórico participa da mesma vontade de enraizamento que acabamos de lembrar, e Visconti deu provas da mesma preocupação de exactidão, alimentando com inúmeras anedotas e dilatando, com as reconstituições, os custos de produção, para grande prejuízo dos financiadores. Mas nele, a história não é simples pano de fundo estético ou pretexto dramático: permite situar o herói no momento da escolha, uma escolha que, num contexto adequado, será sempre individual e colectiva, pessoal e política. Colocando os seus heróis em períodos de crise em que uma ordem morre ao dar à luz, na dor, a ordem que lhe sucede, Visconti procura provocar uma certa catarse nas personagens e captar o momento em que as relações atingem o seu ponto máximo de exacerbação. As personagens dos seus filmes acabam por se encontrar frente a frente com elas próprias. A protecção que poderia vir do amor ou da família acaba por lhes faltar, os privilégios do poder ou do dinheiro não chegam para as proteger. Estão sós.
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Alain Sanzio e Paul-Louis Thirard In "Luchino Visconti", Publicações Dom Quixote,
Lisboa, 1988, pp 44 - 45.
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28/12/09

"Tudo isso farei eterno,/ se me confias teu corpo sem ruído,"

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"Poema 16"

O cão que juntos vimos numa esquina.
O peixe que agonizava à nossa frente.
A onda na direção de nossas filhas,
a quem pedimos não quebrasse sobre elas.

O cacto que te comprei na feira
e que te faz sorrir
quando o entrego
ainda hoje nos meus pensamentos.

Tudo isso farei eterno,
se me confias teu corpo sem ruído,
se sufocas teu grito para que não nos ouçam
as crianças no quarto contíguo,
para que não descubra o tempo
o cão, a onda, o cacto,
o teu corpo jugulado e inconsentido.

Cláudio Neves In "Os Acasos Persistentes", Editora 7Letras, Rio de Janeiro,
2009, p 55.
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27/12/09

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Não haverá oficina para as minhas noites.
Vejo-as deitar fumo
como o alcatrão ainda quente
dos meus olhos fundamentalmente
sem trânsito,
ouço-as trémulas ao embaterem
nos ombros da sentinela de gesso
que me guarda o sono.
Não haverá mecânica para estes metais
soldados a frio, armados
sobre a estação
sinistra
onde os anjos fazem transbordo
e seguem, sentados, para o forno
da vida eterna.

Mas eu tenho uma têmpora ferida
pela pata marcial de um leopardo
e sangro o meu instinto
na concepção de uma biologia
mais vulnerável
e perigosa,
e uso a noite para este fim
e para este apenas
- e é de lava e sombra
a substância profana
em que tão avariadamente
trabalho.

Não haverá uma oficina
e os seus elevadores, não haverá
um martelo - não me corrijam,
esta vida vai em sobre-aquecimento
dos seus interiores,
perplexa, marginal,
honesta.

E se a virem parar no meio de uma estrada,
inflamada e contorcida,
é porque aí
encontrou
o mais justo câmbio
de vento
para as suas noites.

Não a reboquem, ponham-lhe flores,
e sigam, sentados, para o forno
da vida que vos coube.

Vasco Gato In "Omertà", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2007, pp 65 - 66.
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26/12/09

"não acrediteis em quem mal vos diga. "

O POEMA QUE SE SEGUE INCLUI PALAVRÕES!!!
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A Poesia obscena que se tem escrito na Península, e concretamente em Portugal, é um filão que o preconceito força a não referir. De Afonso X a Bocage, de Martin Soárez a Junqueiro esta poesia tinha funções sociais bem definidas, que não passavam, obviamente, por quaisquer formas terapêuticas, aliás, isso pode ser visto nos quatro poetas referidos, que, exímios cultores da poesia obscena, nunca descuraram outros tipos de lírica, quer virada para o mundo interior quer para entidades de tipo metafísico, das quais são grandes referências. O Afonso X que escreve as célebres Cantigas de Santa Maria é o mesmo que diz: se molher acha que o demo ten,/assi a fode per arte e per sen... este tipo de exemplo é válido para Bocage e para Junqueiro, que tanto escreve A porra do Soriano como Os Simples. Esta poesia é, por conseguinte, um manancial para as análises de costumes, histórica, linguística, social, etc. Este blogue tem já um poema de Joan Garcia de Guilhade, e avança agora para outro trovador. Em breve, e como exemplo contemporâneo deste tipo de poesia, postaremos outros poetas.
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Martim Soárez viveu no século XIII e foi contemporâneo de D. Dinis. Nasceu no Minho e acabou por vir viver na zona de Santarém. As suas cantigas de amor, as de escárnio e as de maldizer atingiram grande qualidade poética.
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Pero Rodrigues, da vossa mulher
não acrediteis em quem mal vos diga,
Já percebi que ela muito vos quer
e quem não o disser fará intriga.
Dir-vos-ei como foi que o compreendi:
no outro dia, quando a f_di,
mostrou-se-me ela muito vossa amiga.
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Pois vos deu Deus boa mulher, leal,
não receeis nenhuma picardia
de ninguém que dela vos disser mal.
Eu mesmo lhe ouvi jurar, noutro dia,
que vos queria mais do que a ninguém
e, para verdes como ela vos quer bem,
nem de mim fez excepção, que a f_dia.
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Martin Soárez In "Cantigas obscenas, de escárnio e maldizer" de
Orlando Neves, Notícias Editorial, Lisboa, 2004, p 79.
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24/12/09

"Exaltado momento e para quê?/Deixa fluir a calma no teu rosto/e não queiras negar a lucidez." (p. 79)

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O silêncio da Voz não é total:
um sussurro se esgueira
até ao meu ouvido.
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El silencio de la Voz no es total:
un susurro se desvia
hasta mi oído.
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(Segue-se a versão japonesa)
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António Salvado e Kousei Takenaka In "Otoño/ Outono/ ???" ( Edição trilingue, Traducción de A.P. Alencart y An Oshiro), Editorial Verbum/ Madrid e Trilce Ediciones/ Salamanca, 2009, p 69.
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São corpos desgastados
que não deixam fugir
bem para longe as almas
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Son cuerpos consumidos
que a las almas
no dejan huir bien lejos.
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(segue-se a versão japonesa)
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António Salvado - Kousei Takenaka In "Otoño/Outono/ ?? " (obra trilingue, Traducción de A.P. Alencart y An Oshiro ), Editorial Verbum/ Madrid e Trilce Ediciones/Salamanca, 2009, p 45.
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22/12/09

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Entrei em barcos que eram fotografias.
Corrigi palavras que eram bocas na
sua latitude de espera e fome. Intrujei
a morte com o meu sorriso de animal
assustado. E de propósito, sim, as em-
balagens rasgadas de onde saíram os
gritos fundamentais - arredar cadei-
ras para ver entrar os próprios olhos
- de propósito, tão de propósito que
poucos entenderam que é essa a natu-
reza final dos poemas,

proclamar-se pobre,

escorrer apenas lava da boca sensível,
ligeiramente desmaiado pelo balanço
da noite, existir na rebentação como
estrela de cinco pontas, como a cidade
inadiável, como o verde de uma mão.

Vasco Gato In " Omertà", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 61.
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21/12/09

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"Uma qualquer pessoa"

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.

Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida e tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa!

E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?

Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sofregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.

António Gedeão In "Poesias Completas (1956-1967), Portugália Editora,
Lisboa, 1972, 4ª Edição, pp 189 - 191 (Prefácio de Jorge de Sena).
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17/12/09

Acerca desta época.

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" A Estrela "


Há no céu uma estrela
De estranho clarão:
A gente só pode vê-la
Usando o coração.

Tem uma luz tranquila
Inundando a noite fria;
Para segui-la
Não é preciso bússola nem guia;

Nenhum saber obscuro
Ou lente de longo alcance, nada.

Um coração puro
Consegue vê-la à vista desarmada...

Cláudio Lima (Natal/2009), poema inédito.
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14/12/09

Julia Roberts e Andy Garcia dizem o soneto LXXXI de Pablo Neruda

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"Soneto LXXXI "

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,

enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Pablo Neruda (traduzido por Carlos Nejar)
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13/12/09

"Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão"

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" 3 AM "

Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser capaz de chorar?)

Mãe
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar como uma corda num enforcamento?
- Tenho aprendido coisas bem singulares neste convívio com os deuses -
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas Aéreas Gregas
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho
antes de partir

Mãe
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito. Depois acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho para sonho
Ainda não parei de acordar. E de sonhar

Mãe
Tenho uma surpresa para ti
um caramanchão para que te possas sentar todas as tardes a catar estrelas
na minha cabeça

Mãe
Abriu um concurso para preencher uma vaga de ascensorista no Paraíso e eu concorri
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?
- tenho a boca cheia de formigas -

Mãe
um dia hei-de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris

Jorge Sousa Braga In "O Poeta Nu - poesia reunida ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2007, pp - 57 - 58.
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12/12/09

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"Disposições ( em sílaba qualquer)"

Faço rimar o sol quando quiser,
e desenho bigodes nesta fotografia de jornal,
decoro-a de cabelo
e um ar adolescente

Quando eu quiser,
o ar encher-se-á de gente imaginada
dançando para mim,
e a fotografia há-de saltar
a meio de um arabesco
ou de uma rima

Assim: gesto de Salomé,
os véus tombados,
a cabela inclinada em direcção ao rei,
que rimará com lei (a que desobedeço),
ou com as regras todas
que eu quiser

Sem lei os criarei,
motores obedientes do meu espaço

E a fotografia há-de sorrir,
o rei dirá "eu faço, porque faço",
e Salomé há-de dizer
"eu danço, em troca de"

Gostava, já agora, de te
fazer rimar aqui, quando quisesse,
agora, por exemplo,
ou numa hora. Ou já

Como não posso, rimo o sol
com tudo - a ti, sei lá
com quê -

Ana Luísa Amaral In "Se fosse um intervalo", Publicações D. Quixote, Lisboa,
2009, pp 69 - 70.
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11/12/09

Versos para derrubar muros.

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APRESENTAÇÃO DO LIVRO "VERSOS PARA DERRIBAR MUROS. ANTOLOGIA POÉTICA
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POR PALESTINA" NO DIA 13 DE DEZEMBRO, PELAS 11HOO, EM SEVILHA, NA II FEIRA
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DO LIVRO DE ALJARAFE.
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NESTA ANTOLOGIA PARTICIPAM OS POETAS PORTUGUESES (POR ORDEM ALFABÉTI-
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CA): CASIMIRO DE BRITO, MARIA DO SAMEIRO BARROSO, RUI COSTA e
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VICTOR OLIVEIRA MATEUS e O POETA BRASILEIRO FLORIANO MARTINS.
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10/12/09

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...o poema "Por todo o lado me cercas" de Victor Oliveira Mateus (incluído na Antologia "Cerejas - poemas de amor de autores portugueses contemporâneos", Editorial Tágide, Dafundo, 2004, p 64 ).
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Por todas partes me rodeas
Con tus ramas de límpida filigrana inundas el dia, los bosques, las colinas persistentes
donde el destino es una luz difusa, como árbol roto en colores, en el rumor
inconsolable de le tierra

Por todas partes te anuncias
con tus oblícuos designios verdes con precisión desvelas la vaga nitidez del horizonte,
donde los símbolos se mezclan, en la vastedad impenetrable del silencio:
la mesa de la ofrendas para el Alto inclinada
la copa repleta de cerezas
una mano inerte en el umbral
Por todas partes me rodeas, oh fabulosa imagen
y en tu fervor de naturaleza muerta
a mi cuerpo muerto la vida prometes.

Marta López Vilar
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09/12/09

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"As raízes do voo"

São as cores?
Ou declarar-me assim a esta árvore?
Num sobressalto, desassossego
lento - as colmeias de ramos e de folhas,
o corpo em curvas densas,
as raízes,
e, delicadamente, o coração

Apaixonar-me e outra vez,
agora por um tempo de nervura
acesa, o fogo - e sem palavra que chegasse
para habitar o mundo:
são as cores, dir-lhe-ia,
ou os meus olhos?

E se faltar olhar, ouvido, cheiro, mãos,
ver-te sem ver, sentir-te sem sentir:
neste musgo e por dentro
poder perder-me, fingir-me distraída
pelo puro prazer de me fingir,
sem sossego nenhum
- aprender a voar -
pelo desassossego de um dedo
preso à terra

Mas se as asas faltarem,
serão sempre as cores,
uma leve impressão de nervos, digital,
de qualquer coisa

Há-de ser isto assim:
luz para além de azul,
paz muito além do verde a respirar
- ou eu, igual ao sol,
comovendo-me em ar e
por raízes -

Ana Luísa Amaral In "Se fosse um intervalo", Publicações D. Quixote,
Lisboa, 2009, 41 - 42.
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07/12/09

A escrita e a música de Richard Wagner

Transfiguração e morte de Isolda após a morte de Tristan. Por Waltraud Meier no Scalla
(Milão) em 2007.
(Não existem em português - variante de Portugal -, neste momento, e em edição recente, os escritos filosóficos nem os longos poemas de R. Wagner...)
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Mild und leise
wie er lachelt,
wie das Auge
hold er offnet, -
seht ihr's, Freunde?
Saht ihr's nicht?
Immer lichter
wie er leuchtet,
Stern-umstrahlet
hoch sich hebt?
Seht ihr's nicht?
Wie das Herz ihm
mutig schwillt,
voll und hehr
im Busen ihm quillt?
Wie den Lippen,
wonnig mild,
susser Atem
sanft entweht: -
Freunde! Seht!
Fuhlt und seht ihr's nicht?
hore ich nur
diese Weise,
die so wunder -
voll und leise,
Wonne klagend,
alles sagend,
mild versohnend
aus ihm tonend,
in mich dringet,
auf sich schwinget,
hold erhallend
um mich klinget?
Heller schallend,
mich umwallend,
sind es Wellen
sanfter Lufte?
Sind es Wogen
wonniger Dufte?
Wie sie schwellen,
mich umrauschen,
soll ich atmen,
soll ich lauschen?
Soll ich schlurfen,
untertauchen?
Suss in Duften
mich verhauchen?
In dem wogenden Schwall,
in dem tonenden Schall,
in des Welt-Atems
wehendem All -
ertrinken,
versinken -
unbewusst -
hochste Lust!

Richard Wagner In "Tristan und Isolde" (en bilingue), Aubier Flammarion,
Paris, 1974, pp 238 - 240.
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06/12/09

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Coordenador d'O Livro Negro da Feira do Livro de Lisboa (Jornal, 1985), sobre a abstrusa proibição de venda de revistas no recinto da Feira do Livro, dos álbuns (Re)Descobrir Stuart e A Vida das Imagens (Diário de Notícias, 1989 e 1994) e Grandes Repórteres Portugueses da I República, Pedro Foyos, polivalente no campo do jornalismo, tem-se dedicado muito intensamente à fotografia, dirigindo diversas revistas da especialidade.
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1. Contextualização
No romance, publicou um muito bem fundamentado romance histórico, de qualidade superior, O Criador de Letras (Hespéria, 2009), sobre a vida quotidiana no Próximo Oriente e a invenção do alfabeto, e, na rentrée escolar deste ano, um romance marcante na literatura juvenil portuguesa, Botânica das Lágrimas, livro de leitura aconselhada a professores e, sobretudo, alunos do ensino básico (3º ciclo) e secundário.
Integrado na corrente literária designada internacionalmente por young adult fiction, o romance de Pedro Foyos prossegue a linha pioneiramente desbravada, após o 25 de Abril de 1974, por Alice Vieira, Ilse Losa, Luísa Dacosta, Maria Alberta Menéres, António Torrado, Luísa Ducla Soares, José Jorge Letria, João Aguiar, António Mota, Ana Saldanha, Álvaro Magalhães, Maria do Rosário Pedreira e Maria Teresa Maya Gonzalez, Conceição Coelho, Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães (e muitos, muitos outros) de actualização do romance juvenil em Portugal, que, indubitavelmente, pelo serviço público de leitura e pelo número de vendas, tem atravessado uma autêntica fase de ouro.
Face à literatura juvenil clássica (Swift, H.C. Anderson, Stevenson, Júlio Verne, E. Salgari, M. Twain, Enid Blyron, Ana de Castro Osório, Ricardo Alberty, Simões Mueller...), o conteúdo das histórias pertinentes à nova literatura juvenil portuguesa tem operado três substituições:
a) abandonou a componente moralista e/ou religiosa enformadora de muitos textos clássicos, não raro expressão de preconceitos sociais coevos, fortemente aculturadores da mente das crianças, substituindo-a por uma visão ecolágica, socialmente relativista e etnicamente multicultural das relações sociais, deixando entrar nos textos o novo Portugal democrático e europeu, tolerante e lusófono;
b) abandonou o tema da evidenciação ostensiva dos aleijões sociais ( o órfão, a criança enjeitada, analfabeta e miserável; os bairros de barracas...), substituindo-o pela vida diária de uma criança pequeno-burguesa dos subúrbios ou de classe média urbana (o público leitor privilegiado), tecnologicamente activa, cientificamente informada e individualmente carregada de iniciativa;
c) substitui as antigas histórias mitológicas célticas e greco-romanas, dotadas de um estendal de seres mágicos (sereias, silvos, nereidas, grifos, unicórnios, fadas, gigantes denignos, anões malignos, bruxas velhas de narigueta e verruga...), por um universo fantástico novo fundado na ciência e na tecnologia, unindo estas aos antigos processos mentais míticos e mágicos, como a saga de Harry Potter o prova abundantemente. Uma característica, no entanto, permanece idêntica entre a literatura juvenil clássica e a actual - no fim da aventura, o herói e o leitor são invariavelmente recompensados pelo regresso (mais ou menos triunfante) à ordem benigna interrompida pela irrupção do mal.
Em síntese, a literatura juvenil, clássica ou actual, alimenta-se de duas categorias - o realismo e o fantástico -, de cuja combinação nascem tanto a sua atractiva beleza quanto os seus limites. Neste sentido, literariamente falando, o século XX pode ser considerado o tempo de irrupção e independência da literatura juvenil portuguesa, para o qual muito contribuiu, sem dúvida, num outro registo, O Romance da Raposa (1929), de Aquilino Ribeiro, e as As Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo (1963), de José Gomes Ferreira, livros absolutamente admiráveis..
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2.Botânica das Lágrimas
Botânica das Lágrimas não só obedece às quatro características acima indicadas, como, de certo modo, as resume, evidenciando-se, assim, como um belíssimo romance juvenil de aventura, fundado em dois pólos, o realismo e o fantástico, de obrigatória leitura, repetimos, pelos professores de ensino básico e secundário. Debruçado sobre um tema de grande actualidade nas escolas - o bullying ("tirania juvenil de forma continuada em ambientes escolar", p.374), Botânica das Lágrimas captou em perfeição o ambiente escolar próprio da prática do bullying (a extorsão de dinheoro aos mais novos, a destruição de bens pessoais, o "corredor da morte"...), a personalidade frágil mas ostensiva da prática de Rufino Cromado, de cérebro sobredotado, mas psicologicamente abjecto, de Simão-mão-de-betão, de Jeco Marado, a personalidade igualmente frágil mas corajosa dos "capitães" dos "Guerreiros Valentes", alunos mais novos que se sentem violentados e humilhados por esta prática, revoltando-se contra ela, nomeadamente Leopoldo, o "General Leo", e o seu ajudante "Bravo Toninho".
Do mesmo modo, o autor opera uma harmoniosa ligação ao exterior da escola, seja através da evidenciação de um leque de sentimentos próprio da puberdade (orgulho, revolta, vaidade, companheirismo, amor próprio, atracção sexual...), seja através da relação terna e angustiada entre Leopoldo e a sua mãe, hospitalizada (vergonha de chorar, necessidade forçada de se tornar adulto). Porém, a chave de ouro de Botânica das Lágrimas reside, indibitavlemente, por um lado, na opção pelo Jardim Botânico, em Lisboa, como cenário maior do romance (a visita de estudo "Passeio Plantástico"), e na utilização majestosa da figura do professor Brotero como guia (homenagem ao botânico Félix Avelar Brotero, mas também ao professor Fernando Catarino, aliás, citado no romance, como Rómulo de Carvalho/ António Gedeão e Viiriato Soromenho Marques), e, por outro, pela introdução do fantástico através do encontro de Leopoldo com Camões e do diálogo daquele com as árvores, diálogo diversificado consoante a natureza (isto é, a personalidade) de cada árvore. Esta é, de facto, a ideia chave do livro, que terá forçado o autor a uma demorada investigação científica, ilustrada pelos úteis anexos do romance. O mais forte momento dramático do romance reside, assim, na ajuda que o reino vegetal do Jardim Botânico presta aos "Guerreiros Valentes# no combate contra o bando do Ruffino Cromado e a prática do bullying, repetindo, em 2009, o episódio republicano da "Grande Coça de 1914".
Uma forte chamada de atenção para a atractiva combinação de aparatos estéticos: (1) a mancha gráfica do romance, dotada de um apurado jogo de letras e de separadores, (2) a divisão dos capítulos por minutos (entre as 9h,15 e o meio-dia), (3) o entreacto "trágico" ligado á história da implantação da República e (4) a intercalação no texto de quadros que se, por um lado, vão sintetizando a história das peripécias do General Leo, anunciam, por outro, "nós" bloqueadores da intriga, que o sesenrolar da história posteriormente desbloqueará.
Belíssimo romance para ser incluído no "contrato de leitura" do programa da disciplia de Português e partilhado em sala de aula entre professores e alunos.
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"Miguel Real In "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", Ano XXIX/Nº 1022, de 2 a 15 de Dezembro de 2009, pp 22 - 23 .
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05/12/09

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Inventaram armas de sílex, pontiagudas,
para as desguarnecidas têmporas. Inventaram
os inquisitoriais fogos, as rodas supliciantes,
a guilhotina. Inventaram igualmente métodos
higienizados: injecções letais, assépticas
e completamente indolores. Desenharam,
com o mais nítido rigor, fronteiras indeléveis,

para que o bárbaro seja sempre o outro
e nunca uma qualquer, e inapreensível, parte
de si. Levaram a cabo Auschwitz, Hiroshima,
Srebrenica. Perseguiram em função do sexo,
da cor, da etnia, da orientação sexual, das crenças
religiosas e políticas. Legislaram em torno
da desregulamentação económica, enquanto olhavam

de soslaio a fome, as doenças incuráveis,
a putrefacção do ar. Construíram paradigmas
valorativos para enaltecimento dos hospícios,
dos melancólicos, dos suicidários, enquanto
se reproduziam e ritualizavam os seus quotidianos,
porque nestas coisas - e pelo sim pelo não -
quanto mais tarde melhor. Paradigmas esses
com Verdi a bater à porta, e Fellini, e Updike,

e centenas de outros, cuja genialidade,
não necessariamente mecanicista, provinha
de outras variáveis. Viveram até a amizade,
o amor e a cumplicidade a par da denegação
do outro. E, no final, apenas uma dúvida
me resta, minúscula, quase insignificante:
como conseguiram eles meter tanta e tanta
evolução num planeta tão pequeno?

Victor Oliveira Mateus in "Revista de Poesia Saudade" Nº 12, Junho, 2010, p 61.
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04/12/09

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Aqui me costumava eu sentar num tempo
de sereno abandono. Tempo em que as palavras
(quais insectos fulgurantes) germinavam sentidos
que eu nem adivinhava. Vinham e eram toda
uma paisagem com a brisa a envolver-me a tarde,
a humidade da grama, o ocre das paredes sempre

à luta com as trepadeiras. A dilatação do tempo
trazia-me, nessa altura, as roucas sirenes dos barcos,
o contraste pitoresco dos canteiros e até ( num
estranho perder de vista) os desenvoltos sorrisos
da infância. Aqui me viria eu sentar depois,
no tempo das grosseiras rotinas, dos rodopiantes

embustes com que agilmente te enfeitavas;
máscara a tingir de sombra as vidraças do jardim,
moldando de peçonha os rostos na aceleração
ininterrupta dos relógios e no frenético rodar
dos carros no asfalto. Acinzentado tempo esse
no vazio turbilhão de ti! Agora... agora regresso

ao tempo do assumido abandono. Do circular vivido
que um atento não descura nunca. Tempo ainda
com veleiros lá dentro, de novo a serpentearem o rio.
Veleiros que, sem remorso nem culpa, te lançam hoje
à praia como restos de um naufrágio; como coisa sem
préstimo, que desinteressadamente terei de arrumar
um dia no mais sombrio recanto da memória.

Victor Oliveira Mateus in "Revista Inútil" Nº2 Abril 2010, p 62.
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02/12/09

"E quando volta, e volta sempre,/ Poderosamente vem na sua luz"

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Sou crente do Sol, como qualquer,
Mas quando é noite
Dou maior atenção
Ao calor que me dispensa:
Aprecio este ir-se sem ausência.

E quando volta, e volta sempre,
Poderosamente vem na sua luz,
... fácil, uma pouco espessa pálpebra
Devolve-me a noite.

Sem glória, por capricho,
A minha,
A noite sofismada...

Maria Valupi In "Do Disperso Dia", ed. autor, s/c, 1967, p 61.
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Nota - Exceptuando os casos de poemas recebidos por mail ou por mim pedidos directamente aos autores - o que, talvez, não exceda as duas dezenas de poemas -, todos os textos postados neste blogue vêm de livros lidos por mim na íntegra e não de páginas encontradas ao acaso. A presente obra foi uma das primeiras de poesia que comprei. Depois Maria Valupi caiu no esquecimento, como tantos outros... Felizmente a "Quasi", em 2007, publicou uma Antologia desta autora, organizada e prefaciada por Ana Marques Gastão, com introdução da Carlos Nejar e posfácio de António Osório, por conseguinte fica-nos esta última, já que o livro referido acima deve ser uma raridade.
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01/12/09

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"Piano solo"


Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias ocres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas

(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)


Maria Andresen de Sousa In "Lugares", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2001, p 32.
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29/11/09


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"Adriano habla al cuerpo muerto de Antínoo"
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Ya nada persigo, nada se presenta ante mi puerta.
Ninguna juventud sentí sino la tuya,
ninguna ciudad, ningún otoño desbordó
por mis manos el cabello de la luz,
los misterios del aire.
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Duermen contigo aquella sangre derramada
en sueños, la noche sin refugio
con redes de oro, el perfume
cuajado de amapolas en tus labios
mientras yo contemplo la patria destruida de tu cuerpo,
recién abandonado.
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Contemplo al dios que me arrojó a la vida
yaciendo en la sombra inmensa
de lo que ya no tendré...
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La muerte ha llegado al mundo, mi dios,
y nada ya podrá espantar mi frío.
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Marta López Vilar In "La palabra esperada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2007, p 25.
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"Reconstrucción después del miedo"

I. LA VOZ

Dame tu voz, que este miedo
renunciará a su nombre
y borrará sus huellas y sus sombras.
Tu voz... la palabra que nos hace,
el mundo, la sílaba, tu cuerpo...

II. LAS MANOS

Estas manos, bosque de luz que te construye
a cada instante, silencio derramado sobre el miedo...
estas manos, tus manos... lenguaje de los días.

III. LOS OJOS

Soy lo que tú estés mirando:
el rompeolas azul donde empezaron los mares
a borrar la muerte,
ese cuerpo dormido a la luz abierta de tus ojos
que no teme lo que es
si eres tú quien lo construye cada día.

IV. EL CUERPO

Que mi cuerpo teja su sombra para hacerla
a la medida de tu cuerpo
y no escape jamás de esa oscuridad
que no es el miedo porque es tuya,
sino vestigio de luz, desnudo triste de la aurora
cuando no estás conmigo.

Marta López Vilar In "La palabra esperada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2007, 15 - 16.
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27/11/09

"quando se transformará a excepção em regra?"

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"méduses"

elles étaient toujours là. pourtant
ce matin-là l'eau sembla se durcir
autour du bateau. la rame était plantée dans la mer
comme dans une soupe trop épaisse, et nous les hommes
avons pris peur: le soir la plage,
la promenade étaient pleines d'inconnus.

comme de petites cloches, sauf qu'on ne les entendait
pas tinter; le matin suivant l'homme cria,
qui sur la plage avait dressé une estrade de bois
à son usage. dans un demi-sommeil encore, nous l'entendions
dans le vent de la côte faire celui qui
implore la manne. la mer visqueuse, blafarde.

trois jours, et il en vint plus toujours.
comme s'il n'y avait eu jusqu'aux aléoutiennes
que notre village, rien d'autre: hercules
et prime donne, boutiques, "magic morgan
et ses figures de cire". et des troupeaux entiers
de pochards qui d'est en ouest se répandaient

le long de la baie. ils ne partirent que la plage
couverte de gélatine, la marée
montée, et les autorités
clôturèrent le terrain. de ces gens
personne plus ne parla d'augure, du matin
du jugement dernier, de goguelins.

quand l'exception deviendra-t-elle la règle? hommes
brandissant un drapeau, servants pas rasés,
des trous dans leurs vêtements. que ce fût le matin,
que ce fût le soir - tout le monde s'en fichait.
treize coups à midi sonnés.
et des enfants qui n'étaient à personne.

d'abord on n'écouta pas le jeune homme, son histoire
semplait à peine croyable. jusqu'à ce que deux hommes
nous le confirment. bientôt tout le monde avaita entendu
quelquer chose, avait afflué: près de la plage,
comme si rien ne s'était passé, il y avait la mer,
la course des vagues. - demain, après-demain

les femmes à leur fourneaux qui, dès le matin,
font tinter leur marmites, et nous, sur la plage,
les hommes, mutiques, qui regardions la mer.

Jan Wagner In "Archives nomades" (Édition bilingue), Cheyene Editeur,
Le Chambon-sur-Lignon, 2009, pp 37 - 39 (Traduit de l'allemand par François Mathieu).
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26/11/09

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"Poema II de Três Epifanias Triviais"


As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)

Paulo Henriques Britto In "Macau", Editora Schwarcz,
São Paulo, 2006, pp 70 - 71.
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"Bagatela para a mão esquerda"


Escrever com a mão esquerda
é tarefa bem ingrata.
Não seria empreendida
se não fosse estritamente
necessária.

A mão esquerda é mais dura,
mais austera, e desconfia
desses gestos estouvados
que a mão direita, impensada,
esbornia.

À mão esquerda é vedado
o recurso falso e fácil
de dispensar partitura,
a fraqueza (dita força)
do hábito.

Daí o jeito contido
das coisas que ela produz,
o ar desesperançado
de quem até nem precisa
vir à luz.

(No entanto, ela escreve coisas
da mais esconsa eloquência:
atropelar o sentido
ao contrapelo da pauta
é sua ciência.)

Paulo Henriques Britto In "Macau", Editora Schwarcz,
São Paulo, 2006, p 19.
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25/11/09

"Pouco os deuses nos dão... "

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Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?

Fernando Pessoa In "Odes de Ricardo Reis", Edições Ática,
Lisboa, 1981, p 128.
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22/11/09

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"Antínoo"

Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra

Sophia de Mello Breyner Andresen In "Obra Poética - Vol III",
Editorial Caminho, s/c, 1999, 4ª edição, p 67.
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" O Anjo"

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entrega à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética Vol. I, Editorial Caminho,
s/c, 6ª edição, 2001, p 103.
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21/11/09

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" O canibal"

Tenho, defronte, uma vizinha loura,
Cuja carne alva, fina, e cetinosa,
Faz lembrar, quando à tarde o sol descora,
A cor humana pálida da rosa.

Não é frágil, nem débil, vaporosa,
Como as virgens mortais que a luz não doura...
Antes é forte, esbelta, a voz sonora,
- Tranquila e altivamente majestosa.

Nasceu formada assim para os amores:
E o modo com que rega as suas flores,
Na varanda, a sorrir, não tem rival...

Ao vê-la, os D. Juans baixam a fala.
- Mas quanto a mim... quisera "devorá-la"
Com a fome imbecil dum canibal.

Gomes Leal In "Claridades do Sul, Assírio & Alvim,
Lisboa, 1998, p 282.
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20/11/09

"Aquele a quem confio o coração e o trafica"

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"Sobre o Andrógino"

Aquele a quem confio o coração e o trafica
Aparece com o rosto maquilhado
Da cor que não se distingue dos ossos
Com que me castiga o dorso.
E como um sopro que toca a luz
Deita-se de joelhos na nuca,
Serve a carne num banquete.
(Tem tanto de si em mim perdido - velha crença -
Que esqueço o que sou.)

José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 49.
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"Projecto de prefácio"


Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe.
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 128.
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19/11/09

"A Musa atormenta-se no impasse, instiga..."

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"Musas ( De Boecklin)"

I

Desce, crispa-se, rasga e conspurca, escorraça, perscruta,
Enraíza o pensar
(Encapelada, balbuciante, eclesiástica),
O sussurrar, o sossego da Musa aos pés do auctor, em fria laje, a arquejar,
Deixa-o à solidão, ao Beato.
(A proclamação ao Bem
É a cura do desatino.) Expira
A suprimir o aniquilamento do que o inspira.
Em tudo o que se escreve falta "o mais além".
A Musa com fuligem, o rosto de abcessos, obsessões,
No véu que não sendo de tule é de frieza.
Musa, as Musas,
Em cada injúria acena com a morte no
Mundo, o modelo eterno da atracção que acolhe as sete lágrimas
Na piedade ou na comiseração para vaguear
Entre os arbustos empoerados do
Jardim fechado em nuvens aparadas.
A Musa Conventual devassa o Pavilhão de Caça, seria melhor dizer,
Sodomita, deslumbrada pela "impunidade de outros".
Chagas emplumadas no nicho em que o penduraram escanzelado,
Não escapa à cobiça,
Não lhe convém, o Beato evoca a Moral ritmada.

II

Nas grinaldas versificadas
Busque-se mais enfeites de gesso, florzita.

A Musa atormenta-se no impasse, instiga, deixa-o ao acaso da indolência para que desvairado, a
ciciar, se mantenha sob influência. Noutra escala, gesto inofensivo, haverá elos de Consolação (de
Boécio) e de outras afinidades morais do
Problema. As variantes desregradas do praguejador de chifres atordoado pela irresolução.
A Musa melancólica persuade. Persuade? (A Crítica reluz a submeter o poeta que não persuade.)
A Musa no crepúsculo, empunha um ceptro empenado.
(As alusões a este assunto devem explicar o nome inspirador.)
E a Crítica ofensora ( a Musa, as Musas a farejar o gomil de belos ditos).
E o auctor desagradado, cuspinhando, tossindo,
"Tão vãmente", exausto, em certo sentido envolve-se
Na folia para fabular.

José Emílio-Nelson In "Bibliotheca Scatologica", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, pp 14 - 15.
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18/11/09

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                 " Conversa fiada "


Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta...
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E - imagina! -
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava...
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores, amores,
Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos...
E - já então - o trovoar dos versos de Camões:
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo àqueles meus professoreas desiludidos que na próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor...
Prometo, prometo, sim... Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, pp 62 - 63.
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17/11/09

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Voltámos para a barca. Soprava um vento singularmente frio. Sentado junto a mim, Lúcio puxava com os dedos delgados as mantas de algodão bordado; por delicadeza, continuávamos, animadamente, a trocar impressões acerca dos negócios e escândalos de Roma. Antínoo, deitado no fundo da barca, encostara a cabeça aos meus joelhos; fingia dormir para se isolar daquela conversação que lhe não dizia respeito. A minha mão deslizou na sua nuca, sob os cabelos. Nos momentos mais vãos ou mais ternos, eu tinha assim o sentimento de ficar em contacto com os grandes objectos naturais, a densidade das florestas, o dorso musculado das panteras, a pulsação regular das fontes. Mas nenhuma carícia chega à alma. O sol brilhava quando chegámos a Serapeu; os mercadores de melancias apregoavam a sua mercadoria pelas ruas. Dormi até a hora da sessão do conselho local, a que assisti. Soube mais tarde que Antínoo aproveitara aquela ausência para persuadir Chábrias a acompanhá-lo a Canopo. E voltou a casa da feiticeita.
No primeiro dia do mês de Athyr, no segundo ano da Olimpíada duzentos e vinte e seis... É o aniversário da morte de Osiris, deus das agonias: em todas as aldeias ao longo do rio ressoavam desde há três dias agudas lamentações. Os meus hóspedes romanos, menos acostumados que eu aos mistérios do Oriente, mostravam uma certa curiosidade por aquelas cerimónias de uma raça diferente. A mim, pelo contrário, irritavam-me. Tinha mandado amarrar a minha barca a alguma distância das outras, longe de qualquer lugar habitado: todavia, nas proximidades da margem erguia-se um templo faraónico meio abandonado; tinha ainda o seu colégio de padres; não escapei inteiramente ao ruído das lamentações.
Na noite precedente Lúcio convidou-me para cear na sua barca. Dirigi-me para lá ao Sol-pôr. Antínoo recusou-se a acompanhar-me. Deixei-o sozinho na minha cabina de popa, estendido sobre a sua pele de leão, entretido a jogar aos ossinhos com Chábrias. Meia hora mais tarde, já noite fechada, ele reconsiderou e mandou buscar uma canoa. Ajudado por um só barqueiro, percorreeu, em contracorrente, a distância bastante longa que nos seprava das outras barcas. A sua entrada na tenda onde se realizava a ceia interrompeu os aplausos provocados pelas contorsões de uma dançarina. Tinha vestido um longo trajo sírio, fino como a pele de um fruto, todo semeado de flores e de Quimeras. Para remar mais à vontade despira a manga direita: o suor tremia sobre o seu peito liso. Lúcio atirou-lhe uma grinalda, que ele apanhou no ar; a sua alegria quase estridente não se desmentiu um só instante, mantida apenas por uma taça de vinho grego. Regressámos juntos na minha canoa de seis remadores, acompanhados por um alto "Boa noite!" mordaz de Lúcio. A alegria selvagem persistiu. Mas de manhã aconteceu-me tocar, por acaso, num rosto coberto de lágrimas. Perguntei-lhe com impaciência a razão daquele choro; respondeu-me humildemente desculpando-se com a fadiga. Aceitei a mentira; tornei a adormecer. A sua verdadeira agonia passou-se naquele leito, a meu lado.
O correio de Roma acabava de chegar; o dia passou-se a ler e a responder ao que lia. Como de costume, Antínoo ia e vinha, silenciosamente, na sala: não sei em que momento aquele belo lebréu saiu da minha vida. Pela décima segunda hora, Chábrias entrou, agitado. Contrariamente a todas as regras, o jovem havia saído da barca sem explicar o fim e a duração da sua ausência: tinham passado pelo menos duas horas depois da sua partida. Chábrias lembrava-se de estranhas frases pronunciadas na véspera, de uma recomendação feita naquela mesma manhã e que me dizia respeito. Comunicou-me os seus receios. Descemos apressadamente para a margem. Instintivamente, o velho pedagogo dirigiu-se para uma capela situada à beira rio, pequeno edifício isolado que fazia parte das dependências do templo e que Antínoo e ele tinham visitado juntos. Sobre uma mesa de oferendas estavam as cinzas de um sacrifício ainda mornas. Chábrias meteu os dedos e retirou, quase intacto, um anel de cabelos cortados.
Não havia nada mais a fazer senão explorar a margem. Uma série de reservatórios que deviam ter servido outrora para cerimónias sagradas comunicava com uma enseada do rio: à claridade do crepúsculo, que descia rapidamente, Chábrias avistou na borda do último tanque uma veste dobrada e sandálias. Desci os degraus escorregadios: Antínoo estava deitado no fundo, já mergulhado no lodo do rio. Com a ajuda de Chábrias, consegui levantar o corpo, que pesava, subitamente, como pedra. Chábrias chamou os barqueiros, que improvisaram uma maca de pano. Hermógenes, chamado à pressa, só pôde verificar a morte. Aquele corpo tão dócil recusava deixar-se reaquecer, reviver. Transportámo-lo para bordo. Tudo se desmoronava; tudo pareceu extinguir-se. O Zeus Olímpico, o Senhor de tudo, o Salvador do Mundo aluíram e ficou só um homem de cabelos grisalhos soluçando na ponte de uma barca.
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Marguerite Yourcenar In "Memórias de Adriano", Editora Ulisseia, Lisboa,
2000, pp 164 - 166 (Tradução de Maria Lamas).
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16/11/09

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" O pobre poema"


Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Mario Quintana In "Baú de espantos", Editora Globo, São Paulo, 2006, p 37.
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15/11/09

"Em torno da poesia de Pompeu Miguel Martins: breves considerações para uma leitura possível" por: Victor Oliveira Mateus.

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Longe de uma linearidade que a si se joga no encalço de um rigor de cariz científico, ao invés de uma positividade que se arvora em meta de certezas inquestionáveis, assumimos antes, neste nosso falar de poesia, intentos bem mais modestos, porque limpos da presunção das palavras que tudo explicam. Discorrer sobre poesia, ou, como é este o caso, sobre uma poética em concreto, é, para nós, sobretudo tomar consciência da incapacidade da Razão em iluminar plenamente um Discurso que pretendemos do essencial.
Salvaguardados os procedimentos de tipo metodológico, que chamam a atenção para a incompletude e para a revisibilidade deste nosso texto, sentimo-nos à-vontade para avançar dizendo que esta obra de Pompeu Miguel Partins nos aparece, numa primeira abordagem, como um cismar em torno da noção de enraizamento. A forma apurada como aqui se articula o quotidiano com a procura e desvelamento das raízes parece-nos perpassar ao longo de todo o livro: as raízes do eu-poético ("A secretária", p 56); do eu existencial ( "O velho prédio", p 18; "A esplanada", p 21) - convém enfatizar que a procura de autenticidade do poeta é tal que, muitas vezes, leva a que se esbata o hiato entre o eu-poético e o eu existencial - ; as raízes do Homem enquanto espécie e Universal ("Os resistentes", p 42; "A montanha", p 77); as raízes de certos conceitos pertencentes à tradição filosófica ( de Liberdade In "Voo nascente", p 34, "Os cavalos" p 74... de Temporalidade In "O Tempo", p 70, etc.)... É também uma constante na poesia de Pompeu Miguel Martins a deambulação em torno de um outro enraizamento: o da própria vida, não de uma vida abstracta produto do raciocínio e/ou da imaginação, mas de uma vida concreta, entendida sempre como viagem, com os seus barcos, os seus cais, as suas gares. Esquadrinhando este mistério que é a errância do humano, o poeta não abdica da consciência de que ela é essencialmente efemeridade, por isso vemo-lo muitas vezes desembocando na nostalgia ("Quantos abraços couberam/ nas incontidas gargalhadas/ dos que amámos?", In "A mesa de jantar", p 63) e no desalento (" Demoram-se aí as árvores que não tive/ e os barcos onde nunca parti." In "A varanda", p 58), mas, e apesar de tanta perplexidade, a poesia de Pompeu Miguel Martins não é uma poesia do fracasso, que paulatinamente conduza à desistência. Não! Integrando todas as vicissitudes o eu-poético acaba sempre por se reerguer retomando esse caminho que sabe ser o seu ("Mas traziam os dias claros/ de cada vez que regressavam,/ não do verão, mas do sofrimento." In "Os resistentes" p 42), também, e segundo a linha de leitura que aqui propomos, o poema do final do livro (" A última flor", p 79) aparece-nos como o corolário de um itinerário poético: apela-se aí a um desejo de tranquilidade, de acalmação, frente ao efémero da vida, onde o Homem vai morrendo ante "uma última flor", que mesmo podendo não existir, eventualmente, na realidade objectiva, existirá seguramente no coração dele, para que, a partir daí, a vida possa ser justificada ("de um cais para a felicidade/ interiormente contada ao cansaço do olhar,/ao seu resguardo, ao ter valido a pena." In "A casa nova", p 17). E é em consonância com tudo isto que o penúltimo poema da obra ( "Os peixes", p 78) nos virá falar de "rota", "verso" e "missão". Por conseguinte, se anteriormente o poeta, ao reerguer-se quando regressa do sofrimento, se afasta de um cepticismo radical, agora ao defender uma missão, um compromisso com a vida concreta, ele escapa também à urdidura do idealismo, que, devido à tónica sempre colocada no coração, poder-se-ia apresentar como fundamento desta poética. Vemos, pois, que deste périplo iniciado por uma desocultação de um plurifacetado enraizamento, e esboçando o que na vida é essencial, o eu-poético apela a um compromisso: mesmo quando procura de um abrigo (" As chuvas", p 75) ele não pretende aí sufocar a sua derrota, mas antes temperar forças para se recuperar e poder continuar a sua viagem, quanto mais não seja porque "No chão espelha-se o céu." ("As chuvas, p 75).
Inúmeras são as conexões desta poesia com as preocupações fundamentais de muitos pensadores do século XX: "Le déracinement est de loin la plus dangereuse maladie des sociétés humaines, car il se multiplie lui-même. Des êtres vraiment déracinés n'ont guére que deux comportements possibles: ou ils tombent dans une inertie de l'âme presque equivalent à la mort (...) ou ils se jettent dans une activité tendant toujours à déraciner (...), ceux qui ne le sont pas encore..." (1). Este excerto de Simone Weil ilustra a leitura de Pompeu Miguel Martins que temos vindo a propor, seria mesmo interessante trabalhar a noção e o estatuto dinâmico que ambos os autores atribuem à dimensão do "passado" (2). Também esta filósofa receia a inércia da alma proveniente de todo o tipo de desenraizamento, também ela apela a uma militância que vise contrariar todo o tipo de inautenticidade e alienação. Urge, para estes escritores, um não afastamento do essencial, facto que o poeta afirma até com uma certa frontalidade: "Tudo desaparece em gestos simples/ e é da simplicidade que vivemos, (In "Quintal", p 28).
Ajustam-se os processos de metaforização e de apreensão do real utilizados por Pompeu Miguel Martins ao modo como ele dispõe as suas imagens do quotidiano: as suas representações, quer sejam urbanas, quer rurais, só num primeiro momento se destinam à sensibilidade e à imaginação do leitor, já que, quanto a nós, elas visam acima de tudo uma abrangente inquirição sobre o ser de tudo aquilo que é ( cf. poemas como: "O nome", p 37; "Deus", p 43; "A secretária", p 56). Longe de nos intrometermos nos debates em torno da validade das emoções no processo cognitivo (3), diremos tão só que para o poeta compete ao coração a validação de todo o saber que se pretenda fiável e susceptível de ser comunicado ( "pela clareza das emoções" In "As ruas", p 19; "e que o teu coração/ conhece tão bem" In " O homem", p 44; "as praças que se abrem ao coração" In "O quadro", p 50) e se a esse atributo do humano estivermos desatentos corremos o risco de não sermos nós próprios, de estarmos desenraizados, de sermos outros para sempre (" sobre o coração longínquo/ dos que foram outros/ para sempre." In "O chá", p 62). De acordo com Maria Zambrano o coração " é o lugar onde se albergam os sentimentos indecifráveis, que saltam por cima dos juízos e daquilo que pode ser explicado (...) tem um fundo de onde saem as grandes resoluções, as grandes verdades que são certezas." (4). Pela senda do coração saímos desta nossa - tão falível - proposta de leitura, de uma poesia que se nos oferece simultaneamente rica e eloquente, sem que isso colida com a nítida e cristalina arte como nas páginas o poeta vai incrustando os seus versos; é exactamente por essa senda que Pompeu Miguel Martins edificou todo um projecto que fez seu e que, sem alarde, nos revela como oferenda para o olhar e para o entendimento, já que só pelas raízes daquilo que é o poeta pode, através das suas imagens do quotidiano, cumprir essa missão de nos oferecer uma última flor, flor que mais não é do que esta poesia que ousa ainda falar aos homens que não possuem um coração longínquo.
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(1) Simone Weil, L'enracinement, Éditions Gallimard, Paris, p 66.
(2) Simone Weil, op. cit., p 71.
(3) Cf. Daniel Goleman, Emotional Intelligence, Bentam Books, New York, 1995 e Martha Nussbaum, Upheavals of Thought: The Inteligence of Emotions, Cambridge University Press, New York, 2001.
(4) Maria Zambrano, A Metáfora do Coração e outros escritos, Assírio & Alvim, Lisboa, 1993, p 22.
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Victor Oliveira Mateus In "DO INTANGÍVEL/ de l'intangible" de Pompeu Miguel Martins (edição bilingue), Editora Labirinto, Fafe, 2008, pp 5 - 8 (tradução do português para francês de Victor Oliveira Mateus com revisão de Sandra Tomás e Liliana Sousa e Silva).
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14/11/09

"Não me arrependo de nada querer lembrar."

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"Cynthia e outros vôos sem mim dentro - Poema 1 "

Sinto-me do avesso. Pós ou pré agonia, não sei. Malcriado comigo mesmo, penitente ou déspota. Oco, sem profundidade, sem amarras. Elos distendidos, a sensação de sentimentos frouxos, lassos. Creio mesmo que ninguém já sente nada por mim, me olvida depressa, se distancia no espaço e no tempo e arrefece progressivamente, num esvair de afecto e de memória. Alguém, com o seu peso solene e duradouro, partiu, de comboio, de avião, de coração. Dissipou ou cerrou a minha imagem de seus olhos, de vez, sem regresso. Na sua bagagem todas as despedidas, implicitamente nos lábios um nunca mais. Assim, disponível, como quem vai ao encontro de remotos ou de novos ardores. E eu, no interior do meu avesso, em pós ou pré agonia que não sei, aqui ficado em nenhuma gare ou tórax, desmaio, nulo e indiferente, com um apagado cigarro entre os dedos e um desdém íntimo que cresce. Que importa se um cão ladra por ladrar, se a mãe solitária suspira, se a televisão transmite um telefilme piegas, se a ausência de um amigo ensurdece o telefone? Aceito a minha abulia, a minha pusilanimidade, a falta de transparência desta opacidade. Estou, não viajo, fico, não me excedo. Tudo o que me era lícito e caro, se move, transmigra, evade. Tudo livre, à solta, vário, menos eu. Pedra imutável na sombra, sempiterna e rígida, de crosta inacessível, muda e desemocionada. Eu, com todo o auto-desprezo e o desprezo dos outros. Só, alheio ao sofrimento, como um crustáceo num aquário de cervejaria. Se pudesse, desistia ainda mais, sem remorsos, sem simpatia. Confortavelmente, reunia-me, num nódulo, num novelo, fofo, e flutuava, quase imóvel, ao deus dará. Que o dia se torne noite, que apaguem a luz se houver, que chova ou venha calor, a quem interessa? Não me incomodem, nem me incomodo. A morte, de súbito? Não me façam rir. Estou-me nas tintas, não desperdiço adeuses vãos. Quem os queria? Tu, eu? Não me arrependo de nada querer lembrar. Estou abandonado, ponto final.
Alguém partiu com a alegria de me esquecer, sem olhar ou falar para trás e eu estava lá, nesse atrás. Boa viagem, ignora até o meu nome, para sempre, não existi. Sinto-me do avesso. O eu é, era quem?
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Dórdio Guimarães In "Cynthia em viagem", Editora Tertúlia, Sintra, 1992, pp 23 - 24.
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13/11/09

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XXXV


dois homens brincavam como se fossem crianças . O primeiro
fazia castelos na areia, o segundo fazia castelos no ar. O primeiro
dizia: a areia é o material do meu jogo , e sujava-se plantando
os dedos como retroescavadoras, enquanto fazia "vruum-vrrum".
O segundo olhava o ar e dizia: o silêncio é o material do meu
jogo, enquanto inspirava carregando-se da mesma brisa com
que enchia as altas torres.
Cada um era uma criança à sua maneira. Ambos foram constru-
indo incríveis castelos com princesas e dragões lá dentro.
O primeiro homem quis entrar no castelo de areia, mas não podia,
por ser muito grande e pesado, e se o fizesse, ao primeiro passo
que desse, acabaria por o esmagar, já que era , na verdade , um
enorme gigante . O segundo homem queria entrar no castelo
imaginado suspenso no ar, bem por cima das nuvens , mas como
era muito pequenino - como o polegarzinho - não conseguia chegar
sequer à fechadura do portão de entrada.
Os dois adultos decidiram, então, brincar ainda mais , e , por isso,
resolveram construir juntos um castelo , só que agora feito com
uma metade de ar e outra de areia . No fim , o castelo era do
tamanho preciso e correcto e , desta forma , puderam realmente
brincar, ao entrarem para salvar a princesa , com espadas de
fogo e unicórnios voadores, mas isso já é outra história.

Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, pp 49-50.
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"Aqui digo o teu nome, fio de água..."

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"Distante Sul"


Tão longe os dias claros de cegonhas e loendros, o horizonte
inteiro e raso onde nada - dir-se-ia - está inscrito . E entre
fomes, sementeiras e colheitas, o sol desfraldando as estações.
Aqui o vento fere , traz outonos magoados . Aqui digo o teu
nome, fio de água - remoçando a planície da memória.

João Pedro Mésseder In "Meridionais", Deriva Editores, Porto, 2007, p 64.
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11/11/09

"Desde que as nuvens caíram no chão, as pessoas deixaram de lhes procurar os rostos..."




Fotos da apresentação do livro " o
estrangulador de bonecos de neve"
da autoria de Carlos Vaz.
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XXII

um dia todas as nuvens caíram como rochas no chão . Em
vez de voar leves e silenciosas, faziam agora um ruído atroz
ao arrastarem-se pelos caminhos e roçarem nas casas,
parecendo enormes caracóis por largarem, atrás de si, uma
longa baba líquida.
Desde que as nuvens caíram no chão, as pessoas deixaram
de lhes procurar os rostos e as formas, afastando-se delas
por parecerem repugnantes, envoltas na agonia por terem
perdido a licença de voar. Assim passaram de coisas belas
e límpidas, a coisas atrozes, sujas pelo lixo do chão , envoltas
numa papa corporal, fazendo lembrar, em vez de castelos
translúcidos a pairar no ar, enormes aglomerados de lama e
rochas cinzentas.
Com o tempo , entre os humanos inventaram-se novas
profissões como, por exemplo, os pedreiros de nuvens, que
retiravam os minérios líquidos do seu interior; os limpadores
de nuvens, etc. Graças a estas e muitas outras profissões
inventadas, as nuvens foram instantaneamente consumidas,
até que desapareceram para sempre. Depois, foi a vez dos
pássaros caírem como rochas no chão.

Carlos Vaz In "o estrangulador de bonecos de neve", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 35.
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09/11/09



"Una casa pintada de blanco con el horizonte al fondo"


La casa abierta a la amplitud del blanco. La casa
donde cada noche se descierran las ventanas
con sus huellas de amargura, sus umbrales
divididos entre el resplandor del desierto y la brisa
siempre dócil del Mediterraneo. La casa
rodada de calles estrechas. De callejones. Pero también

de puertas abiertas a las retorcidas formas
de los olivos, a las flores de los almendros
en pleno estio y hasta a las manos límpidas
de los vecinos, si a ellas vienen inundados de pájaros
o de madrugadas - por fin tan posibles. Una casa
indivisa, una, con sus patios de vides,

sus tejados repletos de cielo en la circular migración
de las garzas. En fin, una casa toda de blanco pintada
mas allá de los precipícios y la tierra calcinada. Espacio
oliendo a vida, donde un nuevo lenguaje se inscriba
con caracteres de luz en el pacificado corazon de los hombres.

Victor Oliveira Mateus In "Versos para derribar muros - Antologia poética por Palestina"
(Edición y prólogo: Ana Patricia Santaella e Inmaculada Calderón), Los Libros de Umsaloua,
Sevilla, 2009, p 222 (Tradução para o castelhano de Sónia Serrano).
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Versão Portuguesa:
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"Uma casa pintada de branco com o horizonte ao fundo"

A casa aberta à vastidão do branco. A casa
onde à noite as janelas se descobrem
com suas pegadas de mágoa, suas soleiras
divididas entre o clarão do deserto e a brisa
sempre mansa do Mediterrâneo. A casa
cercada de ruas estreitas. De becos. Mas também

de portas escancaradas para as formas retorcidas
das oliveiras, para as flores das amendoeiras
em pleno estio e até para as mãos límpidas
dos vizinhos, se a elas vierem inundados de pássaros
ou de madrugadas - afinal tão possíveis. Uma casa
indivisa, una, com seus quintais de videiras,

seus telhados cheios de céu na circular migração
das garças. Enfim, uma casa toda de branco pintada
para além dos precipícios e da terra calcinada. Espaço
cheirando a vida, onde uma nova linguagem se inscreva
com caracteres de luz no pacificado coração dos homens.

Victor Oliveira Mateus (obra citada acima, pp 148 - 149)
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"Vivenda"

Na tarde, o calceteiro bate no granito.
Na noite, o mocho pia no silêncio.
E além destes ruídos, a água
escorre na bica do velho tanque.

Nos meus ouvidos, a minha vida
reparte-se entre outrora e tudo isto.
Entre um ouvido e outro, o centro
dos sons revive, porém não tenho
de reconhecer o que já vi ou vejo,
nem o que abandono. Sou livre
para a traição e o esquecimento
quando aqui estou.

Fiama Hasse Pais Brandão In "Cenas Vivas", Relógio D' Água Editores,
Lisboa, 2000, p 78.
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08/11/09

"e olha por momentos o horizonte"

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"No barco para Égina"

Sentada junto à proa
Alexandre o Grande
de Nikos Kazantzakis

Depois coloca o marcador
entre as folhas do livro
bebe um gole de água
e olha por momentos o horizonte
onde agora se não vê nenhuma ilha
e apenas um barco e outro barco
inscrevem no mar dois sulcos brancos

É então que ela abre o pequeno caderno
e hesitando entre o horizonte e a página
anota um, dois versos, nada mais -

pois não há olhos azuis que não invejem
o azul centrípeto da hora

João Pedro Mésseder In "Meridionais", Deriva Editores, Porto, 2007, p 18.
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"... a opacidade deste irmão/ de desígnios por decifrar..."

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"Irmão"

O mar de inverno destrói a percepção e comunga com as
nuvens numa gramática extrema. Um homem cuja subs-
tância humana se irreconhece persiste no seu jogo de cir-
cunstância. Quando me retiro, a opacidade deste irmão
de desígnios por decifrar (ah, a ímpia intenção em deci-
frá-los!) retira-se também, e na minha ausência - na sua
ausência - o mundo define-se , sem que eu ou ele
( ambos ausentes do filme da tarde) sejamos capazes de
definição.

Luís Quintais In "Duelo ", Edições Cotovia, Lisboa, 2004, p 72.
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07/11/09

Vinícius de Moraes por Ney Matogrosso...

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" A rosa de Hiroshima"

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hirosima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinicíus de Moraes In "Antologia Poética", Publicações Dom Quixote,
Lisboa, 2001, p 299.
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06/11/09

"sob a luz recíproca, como se pudéssemos"

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" O sonho de Santa Úrsula"
(Carpaccio)


Disse-te que não seria capaz de escrever
um poema de amor.

Como representar a luz quando essa luz
é o véu que recobre o sonho de outrém?

Assim é aquilo que a palavra amor diz,
aponta, descreve em seu secreto centro.

Íntimo lugar onde um anjo se abeira
da tua morte, da minha morte, e nos enlaça

sob a luz recíproca, como se pudéssemos
sonhar, ambos, o mesmo sonho, a mesma dor,

o mesmo movimento, lento e obscuro,
de um deus frágil e atento.

Seríamos o imaginado centro
desta sala, deste limiar, deste medo

que o anjo diz sem dizer, que o anjo
persegue sem sinal de perseguição sequer.

Algo se diz, inapelável, atrás
do umbral que não vemos.

Luís Quintais In "Duelo", Edições Cotovia, Lisboa, 2004, p 32.
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05/11/09

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         "O Momento"


Observando dois surfistas a caminho das ondas,
Flutuando as pranchas ao seu lado enquanto ao longo
Do lento declive da praia, os joelhos, depois a cintura,
Penetram naquele abraço elementar,
Suspendo a escolha na dependência deles, enquanto uma
Onda de milhentas se forma e se aproxima:
E eles estão prontos para ela, ao rodarem
Como aves que se voltam para levitar no vento:
Tudo é certeiro agora ao deslizarem lado a lado:
Pelo que invejo o jeito dos seus corpos
Para aguentar e prolongar a descida veloz
Opto pelo momento em que as suas escolhas coincidem
E, em equilíbrio, como se no ar, hesitam
Numa culminação que com o mar partilham.

Charles Tomlinson In "Poemas", Edições Cotovia, Lisboa, 1992, p 45
(Tradução de Gualter Cunha).
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04/11/09

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"Esquecimento"


Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisantemos...

E desse que era meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...


Florbela Espanca In "Sonetos", Livraria Bertrand, Amadora, 1978, p 199
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"Seguram as/ mãos/ não/ o tempo"

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"Nostalgia"


Amo
os
casais

Ombro
a
ombro

Pisando a mesma calçada

Amo os casais que
atravessam
ruas
estações

Seguram as
mãos
não
o tempo

Amo
os casais

Que permanecem

Eunice Arruda ( Transcrito de um mail da autora)

Para ler mais poesia de Eunice Arruda
consulte: www.poetaeunicearruda.blogspot.com
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(Da direita para a esquerda: o escritor Miguel Real, o Sr. Embaixador Lauro Moreira e
Victor Oliveira Mateus)

31/10/09

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      " Tramontana em Lerici"


Hoje, deixasse alguém cair um copo de vidro e
Ele desintegrar-se-ia, deflagrando com tal intensidade
Contra a ressonância do frio ( os sons
Duros, separados e distintos, distanciando-se
Em cadência decrescente) que se juraria
Tratar-se da imitação de vidro a quebrar-se.

Nas folhas acentuam-se os matizes. Estimuladas por esta claridade
As mentes dos artífices tornar-se-iam prismáticas,
Arrebatadas por rendas de arestas afiadas,
Cortantes como aço. Constituições
Esboçadas sob este frio fecundo, seriam anuladas
Pelo rigor da sua equidade, pela moderação da sua piedade.

Ao entardecer somos perturbados pela definição
De tantos tons de verde quantos tentamos vislumbrar,
Quantos ainda a própria paisagem,
Absorvida pela firme obscuridade, condensa
Desde o verde-mar até esse lento anil escuro
Onde a luz e o crepúsculo se abandonam.

E o frio aumenta. Aqui, neste ar
Impróprio para políticos e românticos,
O escuro consolida-se do azul, e apaga as janelas:
Um bloco tangível, recusará ser acessório
Do que lhe não disser respeito. Somos ignorados
Por tanto frio suspenso em tanta noite.

Charles Tomlinson In "Poemas", Edições Cotovia, Lisboa,
1992, p 5 (Tradução de Gualter Cunha).
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30/10/09

"depois da razia nos campos "

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"Carta para W. H. Auden (I) "

Com o teu rosto de palimpsesto
muito usado e esse ar de cavalheiro
do Império Britânico

para quem o resto do mundo é a Índia,
vi-te apanhar o Expresso do Oriente
em Hallesches Tor. Clio, musa da História,

decerto te dirá porque se mostra
privada de perspectivas romanas a cidade.
Mais belo do que o dia era a noite,

hiante, com o seu cadastro de rapazes
no Cosy Corner, a um minuto
dos teus aposentos em Furbringerstrasse

(Frau Gunther, landlady tolerante...)
Aqui, onde o desejo não precisava
de se imaginar real, deixaste tocar-te

pelo amor ( um exemplar dos sonetos
de Shakespeare, o breviário de bolso,
para qualquer dúvida na hora capital).

Berlim era uma colónia de férias
com pack de Nacktkultur e escola
de sexo e todos os eufemismos

que se escondem na palavra Freudschaft.
Com paciência de tutor inglês
aqui disciplinaste delinquentes juvenis,

às vezes atrevidos e insolentes,
puros, verdadeiros e leais -
assim te descobrias adepto da rudeza

alemã ( força, potência & vigor),
pois não era Gerhart Meyer
the truly strong man?

A sua qualidade elementar
dispensava-os de assunto de conversa:
eram um pedaço de rocha natural

à espera que o moldassem as tuas mãos
ambidestras na penumbra de algum
Jugendbar. Hoje não há bares

de rapazes e outra geração enche,
depois da razia nos campos,
os estabelecimentos de Nollendorf Platz.

Parecem não as vítimas mas os seus algozes,
quando descem, ganchos espetados nos mamilos
e argola bovina no nariz, às catacumbas de Motzstrasse.

Paulo Teixeira, In " O Anel do Poço", Editorial Caminho, s/c, 2009, pp 73-74.
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28/10/09

"Efemeridade e permanência na poesia de Cláudio Neves" por Victor Oliveira Mateus.

Neste novo livro de Cláudio Neves assumem particular relevância os conceitos de Amor e de Morte, que, no entanto, são submetidos aqui a uma abordagem cuidadosa e incomum na poesia ocidental. Logo nos dois versos iniciais do primeiro poema o poeta deixa-nos entrever que o amor de que irá falar se coloca em dois planos distintos, embora com zonas tangenciais e de possíveis permutas: aquele que "já foi/ antes de ter sido" (poema 1), que é livre de objectos particulares e, em última instância, livre de si mesmo, e um segundo nível onde o amor, por uma vivência concreta, se revela nos quotidianos gestos. Esta concepção remete-nos imediatamente para um solo matricial bem caro ao Ocidente, embora, e como veremos, Cláudio Neves articule, de forma exímia, todo esse legado da tradição com aspectos de uma modernidade que são intrínsecos à sua arte poética. Os primeiros nomes que nos ocorrem são o de Empédocles e o de arché, substância dinâmica bem cara aos Jónicos, já que o Amor nesta obra de Cláudio Neves é incriado e subjacente a tudo, mas que, no entanto e num segundo momento, " Dança num intervalo/ de luz..." (poema 1). O poeta insiste, em vários dos seus textos, nesta cisão originária que ocorre no seio do amor: "Apenas fora do tempo/ o amor é possível, / mas apenas/ em seu curso é que existe" (poema 6); " O amor é isso:/ o que escolhe ser,/ à revelia de quem o habita" (poema 14). Paralelamente a este nível do Amor, encontramos um outro de estatuto ontológico inferior - aquele que é vivenciado no quotidiano: " o teu amor desliga o som,/ tira-me os óculos e o livro" ( poema 5). Perante esta visão dialógica e especular do amor conseguimos perceber as razões que levaram Cláudio Neves a optar por epígrafes e imagens que nos induzem jogos de reflexos e refrações: o olhar de um cão (cf. poemas 5, 16 e 19); o espelho (cf. poemas 6 e 24). Estes dois planos através dos quais o amor se nos apresenta perpassam todo o livro, o que nos conduz a uma nova dicotomia: a ordem da permanência e a da efemeridade: " Certas manhãs parece que sempre existiram/ em outras somos nós que amanhecemos" (poemas 27); "Aquilo que prestes,/ aquilo que quase,/ os gestos inertes/ vibrarão mais rentes, / tocarão mais leves,/ sorverão mais lentos/ a verdade quieta/ de todo objeto" (poema 21 ). Vemos, por conseguinte, que são inúmeros os versos e/ou os poemas em que se desenham não só os dois níveis do amor já referidos à saciedade, como também a alternância entre os estados de permanência e de transitoriedade. Consciente de que o amor vivido é, então, uma secundarização - ou até uma falha - no meio da totalidade amorosa, o poeta experiencia-o, por vezes, com sentimentos de carácter negativo: o "cínico silêncio" ( poema 15) e o desalento (cf. poemas 9 e 23). É importante enfatizar ainda o cuidado com que toda a imagética desta poesia é trabalhada, e disso daremos aqui um só exemplo: a associação desalento/ insuficiência do amor vivido aparece por duas vezes ligada à cor violeta, que na religiosidade cristã tem uma conotação bem definida: " o pensamento/ assume um tom/ de violeta." (poema 2); "Ficou-lhe a voz,/ o aforismo/ ferindo a tarde violeta" ( poemas 12).
A morte aparece, nesta obra de Cláudio Neves, geminada com o amor, sendo assim uma presença constante ao longo de todo este trabalho: " O Amor e a Morte/ caminhavam juntos/ num jardim fechado." ( poema 20, I ). Todavia ela não tem, para o poeta, uma conotação necessariamente negativa:
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Na morte seremos
o que perdemos
o que já fomos
antes de sermos.
Apenas na morte
seremos
o que somos,
quem fomos
antes de conhecê-la"
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( poema 11)
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A Morte encontra-se, portanto, associada ao desmoronamento da efemeridade e das vivências do amor quotidiano e, consequentemente, à ascensão a esse Amor fonte de tudo. Voltamos assim a um outro item da matriz ocidental: esse morrer para o mundo tão evidenciado nas obras de Teresa de Ávila e de João da Cruz. Se a morte, neste livro, pode ocorrer a qualquer momento ( cf. poema 20, IV ), também a absolutização amorosa se pode fazer a qualquer instante, aliás, a morte no quotidiano e a eternização daquilo que verdadeiramente É, na poesia de Cláudio Neves, e aqui ao contrário da tradição ocidental, é feita a par da materialidade, do corpo, da sexualidade; se na tradição lírica os mais altos cumes têm sido conseguidos através da ausência da amada ou do amado ( a sua morte, o seu afastamento geográfico, o desnível classista, o afeto não correspondido, etc.), nesta poesia a fusão com o Amor pleno pode ser conseguida, não com uma ruptura, mas com uma assunção e transfiguração do amor quotidiano: " Tudo isso farei eterno, / se me confias teu corpo sem ruído," ( poema 16); "E há certas noites, embora vulgares, / em cujo centro onipresente pressentimos/ a combustão de Deus, a marcha dos heróis." (poema 27 ) - eis-nos chegados ao final de todo um ciclo dialéctico. Âmago de uma autêntica epifania: fusão no Amor originário; consumação de um périplo, onde Cláudio Neves retoma as imagens específicas de uma poesia de cariz metafísico: a figura do anjo ( poemas 25, II e IV ), a problemática da ressurreição ( poema 25, I, II e IV ) e, finalmente e à guisa de conclusão, essa ideia de que o deserto é susceptível de ser ultrapassado, mas apenas por esses heróis, que, " à mesa dos loucos " (poema 25, IV ), insistem, quais ressurrectos seres, numa amorosidade diária, firmando esse Amor que, primordial, tudo move.
Outro aspecto quanto a nós fundamental nesta poesia é o modo como Cláudio Neves articula todo o domínio da modernidade poética, que desde o início percebemos ter, com uma súmula de processos formais provenientes da tradição. Este escorreito alcançar de um justo-meio entre as referidas duas instâncias, faz-nos lembrar três dos maiores poetas que, no século XX, escreveram igualmente em português: Vitorino Nemésio, Ruy Belo e David Mourão-Ferreira; também estes, embora com poéticas radicalmente distintas da presente, conseguiram esse equilíbrio entre o que no antigo urge preservar e aquilo que no moderno está para além das espúrias gangas de prestidigitações grosseiras e completamente apoéticas.
Neste livro estamos frente, não a um versejar tradicional e anquilosado ao qual se acrescentou, de forma aleatória, pinceladas de atualidade, apenas para que tal conste, mas a uma poesia que, toda ela porejando modernidade, se encontra embutida de um formalismo que o poeta adotou visando duas finalidades complementares: uma maior apreensão do poema pelo seu leitor, logo, uma veemente recusa da passividade deste, e a conquista de uma harmonia e de uma musicalidade que pareciam já perdidas na poesia contemporânea; ousamos, por conseguinte, dizer que através destes procedimentos estilísticos o autor nos presenteou com uma escrita, que, vincadamente moderna, quando lida nos faz lembrar as pequenas grandes pérolas da poesia trovadoresca galaico-portuguesa e da do Cancioneiro de Garcia de Resende. Esta exemplar tríade modernidade/formalismo/harmonia consegue-a Cláudio Neves através de procedimentos como: anáforas (" alheia ao fato de ser sensata,/ alheia às folhas que ela arrebata,/ alheia às coisas", (poema 2); subversão do esquema rimático tradicional (cf. as duas primeiras quadras do soneto 1); estruturas estróficas de tipo anafórico às quais adiciona rimas cruzadas ( poema 4); versificação de carácter assonante; extensas metáforas correntes que se espraiam ao longo dos poemas ( cf. poema 19, I e II e poema 25, I, II, III e IV); jogos de palavras (por exemplo, seremos/sermos, poema 11), muitas vezes articuladas com anáforas ( poema 19, II); aspectos de continuidade poemática conseguidos através de repetições simples e/ou de anadiploses (poemas 2 e 3), etc. O excelente domínio do português bem como da tradição poética luso-brasileira chega ao ponto de levar Cláudio Neves a trazer para o campo da modernidade processos formais há muito postos de lado: o dobre (" saudade sem objecto/objectos sem ruído,/ tempo sem corrosão," (poema 14); mordobre (poema 11); mote ou tema (poema 5), Porém, e aqui mais uma originalidade desta poesia, o poeta muitas vezes não segue fielmente esses esquemas versificatórios: acena-nos com eles, aqui e ali nos mostra que os domina, mas logo os subverte, não para encenar qualquer artifício gratuito e desinspirado bem ao gosto de certas escritas que começam a vislumbrar o início da sua queda, mas para que o intento da apropriação do real se intensifique e assim se consiga uma maior autenticidade, ao mesmo tempo que, nesta sua arte heterodoxa de desvelamento/ocultação, se implique o leitor de poesia com o sentido do que é mostrado e com a harmonia de um dizer que compromete esse mesmo leitor na dinâmica do fazer poético.
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Victor Oliveira Mateus In "Os acasos persistentes" de Cláudio Neves, Editora 7Letras,
Rio de Janeiro, 2009.
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Antonio Carlos Secchin escreve sobre Cláudio Neves

As 30 peças de Os acasos persistentes compõem um dos mais consistentes e bem realizados mosaicos de nossa poesia recente. Herdeiro do rigor cabralino, mas desdobrando-o em territórios diversos dos percorridos por João Cabral, Cláudio Neves elabora um livro em que os poemas se encadeiam e se encandeiam em torno da temática amorosa, alimentados pela memória no seu intérmino embate contra a dissipação e a morte. Cláudio afirma, num dos (muitos) belos versos da obra: "dizemos ser à falta de outro nome". Como todo efectivo criador, ele sabe que a poesia é o reino de assédios e aproximações que jamais se concretizam, pois sempre hão de faltar nomes para estancar a sede do artista.
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António Carlos Secchin In "Os acasos persistentes" de Cláudio Neves, Ed. 7Letras,
Rio de Janeiro, 2009.
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