12/12/13

 
 
 
     Tinha o seu passaporte de emigrante, foi a Lisboa revalidá-lo. Voltou à aldeia triste, em que agora, com a invasão da floresta, se ouviam todas as noites uivar os lobos, esperar que lhe chegasse vez no barco negreiro. Não tardou que recebesse o aviso. Despediu-se, rosto iluminado por um clarão, que irradiava como uma aurora.
     - Aperta-me bem ao teu coração, meu filho, que não o tornas a ouvir bater! - gemeu o velho.
     - Qual, em menos de seis meses estou de volta.
     - Não te vejo mais! - e carpia-se e quase o estorcegava nos braços. Como era mais alto, regava-o ao mesmo tempo com lágrimas.
     Embarcou na camioneta da carreira, com a malinha de fibra como viera, estranho, corajoso, possuído duma serenidade fora do seu lugar e do tempo.
     - Desgraçado de quem é português! - exclamou o Jaime.
     - Mil diabos te levem! - redarguiu o avô. - A vida fazemo-la nós. Quem diz vida, diz nação. À morte os vendilhões!
     Ficaram na casinha velha, em suspenso, à espera como no cimo dum cabeço, cercado pelas cheias, de olhos arregalados para o horizonte.


   Ribeiro, Aquilino. Quando os Lobos Uivam. Amadora: Livraria Bertrand, 1974, p 393.
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10/12/13

 
                            "  PARTÍCULA 80  -  Poente no horizonte  "
 
 
____________ quando, no princípio dos inícios, Oblívio perguntou a Celso por que é que ele via o mundo assim                  tal qual como o via, Celso respondeu-lhe                  " é porque nos livros que li houve sempre uma vontade de bondade".
 
 
     Esta frase, um pouco vagarosa na apreensão do seu sentido, era aquela que ele lhe queria dizer. Era também um pouco espessa, mas tinha descontraídos os poros. Haveria vontade de bondade nos livros/ orifícios maiores da escrita? E interligações entre os seus orifícios _____________ malhas de desejo dos seus textos? O que desejavam e intuíam, na contenção dos seus conteúdos?
 
 
      Oblívio deu as mãos a Celso,
e ficaram a olhar, não um para o outro, mas para o horizonte, onde o sol vespertino, alcançando o poente, apunha o seu lacre.
 
 
 
  Llansol, Maria Gabriela. Os Cantores de Leitura. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p 202.
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08/12/13



      "  PARTÍCULA  36  -  Que não tem as antenas curtas  "


______________  estou a vê-los de perfil, estão a beijar-se  _____  Celso e Oblívio  _____  por detrás do biombo. Revelar-se-á o seu ser por serem amantes através da relação concebida em amor erótico?
Ou falta mais?
O que falta na esticada visibilidade do biombo?
Como actuam os beijos?
São artistas pintores, simplesmente pobres e intensos, actores, clínicos, ensinadores ou roturas profundas?
São cantores. Já os ouvi cantar incomparavelmente. Cada um canta sozinho, esquecido do mútuo vagamundo que lhes percorre os corpos. A semelhança connosco, que os transcende, revela-se pelo canto. Seu número inteiro, que é divisível por dois, fendido em ambo, está assim aberto, como nós, ao amor ímpar.
 
 
  Llansol, Maria Gabriela. Os Cantores de Leitura. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p 84.
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04/12/13


                                  "  CLXIV. desejo  "
 
 
_____________  há um encadeamento no voo de um pássaro sem nome.
     É uma ave de alerta, corvo-escuro, vindo de falésias costeiras. E o que encadeia são reminiscências de memórias, lidas num livro, em Parasceve.
      A legente sou eu, a tentar extrair de mim a aprendizagem do entendimento,
com quem me acasalei para toda a vida.
      Esta frase, li-a, pela primeira vez, em francês - por essa razão, não traduzo:
 
 
                       " Pour conserver une chose, il ne faut pas une cause moindre
                       que pour la créer à l'origine."
 
 
      Nos reflexos metalizados, vejo uma cotovia.
      Tais passeriformes são óptimos cantores, e ouvi esta a imitar a porciúncula - uma pequena porção do meu desejo.
 
      Uma revoada, com orlas pálidas no dorso, sobressaltou-se.
      Jorraram fluidos, impelidos por partículas de silêncio que se moviam com desigual intensidade: ____________ acautelar o silêncio____________  cumpri-lo efectivamente para que não nos rompa; verificar que ele é um Fluido, e que as imagens são ainda um simulacro das imagens do silêncio e que ___ sobre ele ___  a própria cor é inútil.
 
 
      Este silêncio ___ aqui ___, é por ainda papel que dominei com linhas de tinta e, ao relê-lo, inexprime-se porque eu choco o seu olhar quando o fluido se suspende sobre o seu fundamento.
 
 
                  " Querem conhecer mais sobre o mundo em que estais,
                  e para onde eu irei."
 
 
      e a mulher, que se há-de chamar "Umadelas", senta-se ao lado de si própria, e fica atenta às partes de ausência de vagido.
 
 
          ________  e suspendi.
 
 
 
   Llansol, Maria Gabriela. Amigo e Amiga, curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, pp 217 - 218.
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       "  CXLIV. humano Bach  "


_____________  levei uns sapatos com umas solas um pouco gastas. À entrada do mini-mercado, havia uma mancha de azeite já limpo, mas recentemente derramado. Mesmo apanhada no seu centro, comecei a oscilar sem conseguir firmeza nas solas muito limpas para transpô-la. Veio um rapaz que me deu as mãos, e eu saí da mancha. Senti-me ___  ao reflectir nesse momento ___, um flutuante. Com corpo de experiência. Dádiva de viver uma perda de equilíbrio que não se assemelha a mim
 
                                                         uma esfera oca e cintilante nas mãos,
                                                         com que enfrentava a cabeça.
 
 
  Llansol, Maria Gabriela. Amigo e Amiga, curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p 192.
 

01/12/13



        "  LXXVII. recuperação  "


      Nesse rio,
quedou perplexa: tinham chegado mais algumas palavras. O bico do pássaro não pára de bater.
 
      Ouviu então a voz      terrível,      sustentada pela nova melodia tocada pelas folhas:
      "mas a própria unidade do amor a que afectivamente aspiras não te ama porque se fragmenta." Pausa. "O que respondes ao que tu lhe pediste, e ele não deu?!"
      A pergunta foi tão certeira que a mulher sentiu-se cair, e ficou numa espécie de delírio. O urso escondeu o piano, lançando-se a comer toda a folhagem da cúpula. Decidira brincar com problemas sentimentais.
      - Mas é preciso escutar a parte séria da minha brincadeira - disse a Parasceve.
 
      Eu tinha anotado, na minha agenda, um encontro no sábado com um urso-de-colar que muito estimava, e que fora adiado para a próxima quinta-feira. Esqueci-me de recomendar-lhe que, entretanto, me mandasse uma mensagem para o exercício do som e das palavras. Postal que não vai certamente lembrar-se de mandar-me.
      - Eu sei que as regras do amor têm ritmo - imaginei que respondia Parasceve. - E não são cenas infantis - retorquiu-lhe, limpando com a língua uma lágrima que lhe deslizava pela face: - Seria um deserto se ninguém conhecesse esse ritmo.
 
      Sim, seria. Mas o amor é fraco, e logo vacila.
 
 
    Llansol, Maria Gabriela. Amigo e Amiga, curso de silêncio de 2004. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p 105.
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29/11/13

 

       "  Queixume  "


eu era o aliado do orvalho,
companheiro da generosidade,
amigo das gentes e dos espíritos.

foi minha mão direita generosa
na hora da dádiva
e letal açoite no dia do combate.
a esquerda segurava as rédeas dos corcéis
para me arrojar no meio das lanças.

hoje sou cativo,
refém da pobreza,
presa da doença,
frágil pássaro de asas rotas.
já não posso acudir aos que me gritam,
suplicando dádivas,
nem aos mendigos que me pedem pão,
conheceste-me alegre? só ficou a tristeza
das penas, desterrando a alegria.

este aspecto que ora ofende a vista
já foi deleite dos olhares argutos.


   Al-Mu'Tamid in "Al-Mu'Tamid, poeta do destino ". Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p 143.
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Nota- Poema dedicado ao filho al-Rashid e escrito aquando do desterro em Mequinez, antes de ser enviado para os calabouços de Aghmât.
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      "   'Itimad   "


Invisível a meus olhos,
     trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
     e lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
     e eu, o indomável submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre.
     oxalá se realize tal vontade!
Assegura-me que o juramento que nos une
     nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
     e que deixo escrito no poema: 'Itimad.


  Al-Mu'Tamid in "Al-Mu´Tamid, poeta do destino" de Adalberto Alves. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p 101.
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Nota - Acróstico dedicado pelo rei de Sevilha à sua esposa 'Itimad, cujo nome é, portanto, formado com a letra inicial da cada verso. De todas as esposas, amantes e concubinas 'Itimad foi aquela que o rei-poeta designou como a sua rainha e que depois viria a acompanhá-lo no desterro em Aghmât.
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28/11/13


O poeta português NUNO JÚDICE recebeu ontem, em Madrid, o PRÉMIO RAINHA SOFIA DE POESIA IBERO-AMERICANA DE 2013.
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27/11/13


  " Regresso "


foste-te, e foi contigo
o sono dos meus olhos,
regressaste, e assim mo devolveste.


quem trouxe a boa nova
pediu-me alvíssaras:
o meu coração foi o que te dei
pedindo desculpa do pouco que valia.


  Al-Mu'Tamid in  " Al-Mu'Tamid, poeta do destino" de Adalberto Alves. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p 88.
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Nota - epístola em verso dedicada pelo rei da Taifa de Sevilha ao poeta e amigo Ibn'Ammâr. Sobre este relacionamento ler: esta obra de Adalberto Alves, o romance de Ana Cristina Silva já aqui publicitado e a obra "Ibn'Ammâr, o drama de um poeta" da autoria de Adalberto Alves e Hamdane Hadjadji.
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26/11/13



                 " By disposition of angels "


Messengers much like ourselves? Explain it.
Steadfastness the darkness makes explicit?
Something heard most clearly when not near it?
        Above particularities,
these unparticularities praise cannot violate.
    One has seen, in such steadiness never deflected,
    how by darkness a star is perfected.


Star that does not ask me if I see it?
Fir that would not wish me to uproot it?
Speech that does not ask me if I hear it?
         Mysteries expound mysteries.
Steadier than steady; star dazzling me, live and elate,
    no need to say, how like some we have known; too like her,
    too like him, and a-quiver forever.


   Moore, Marianne. Poesía Reunida ( 1915 - 1951 ). Madrid: Hiperión, 1996, p 314.
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17/11/13



   " Light is speech "


One can say more of sunlight
    than of speech; but speech
    and light, each
aiding each - when French -
have not disgraced that still
unextirpated adjective.
Yes, light is speech. Free frank
impartial sunlight, moonlight,
starlight, lighthouse light,
    are language. The Creach'h
d'Ouessant light -
house on its defenseless dot of
rock, is the descendant of Voltaire

whose flaming justice reached
    a man already harmed;
    of unarmed
Montaigne whose balance,
maintained despite the bandit's
hardness, lit remorse's saving
spark; of Émile Littré,
philology's determined,
ardent eight-volume
    Hippocrates-charmed
editor: A
man of fire, a scientist of
freedoms, was firm Maximilien

Paul Émile Littré. England
    guarded by the sea,
    we, with re-enforced Bartholdi's
Liberty holding up her
torch beside the port, hear France
demand, "Tell me the truth,
especially when it is
    unpleasant. "And we
cannot but reply,
"The word France means
enfranchisemente; means one who can
'animate whoever thinks of her.' "


   Moore, Marianne. Poesía Reunida ( 1915-1951 ). Madrid: Hiperión, 1996, pp 222 - 224.
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15/11/13



             " To a prize bird "


You suit me well, for you can make me laugh
nor are you blinded by the chaff
    That every wind sends spinning from the rick.


You know to think, and what you think you speak
with much of Samson's pride and bleak
    finality, and none dare bid you stop.


Pride sits you well, so strut, colossal bird.
No barnyard makes you look absurd;
     you brazen claws are staunch against defeat.


    Moore, Marianne. Poesía Reunida ( 1915 - 1951 ). Madrid: Hiperión, 1996, p 86.
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13/11/13


(...)

confinando-se em cubos sobre cubos,
periferias cinza onde se reproduzem,
dormem e só às vezes falam.

Derretem-se de sono em lama orgânica,
olhares de cristal brilham de súbito,
apanha-os a enxurrada

à entrada do metro,

à saída do ferry,

no tráfego contínuo da avenida,
autocarros e táxis, mas não as
negras berlinas rápidas que fogem
dos novos proletários de olhar cúpido,

brilhante, nuns,
em outros conferindo
o desgaste de sonhos paranormais,
sobrolho negro que encara
rostos sem culpa,

aturdidos pelo alto muro
que ninguém saltará,
prisão de segurança máxima,

e ainda assim alguém exclama
diante do parlamento: "Olhem".
Exibe uma Kalashnikov,
triunfo oculto de África.

Apoia o queixo na boca do cano
e uma rajada leva-lhe
metade da cabeça
e o sangue de uma vida.

Junta-se cada vez mais gente,
um megafone incita-a,
a multidão ulula,
e depressa a polícia chega,
bate a esmo, destroça-a
e recolhe o cartaz em que se lê:

Não quero ser um cão selvagem
a comer das lixeiras.

Foi notícia um só dia nos jornais,
não sei se na TV a censuraram,
os vivos esqueceram-na
e não se falou mais de imolação

(...)

enquanto a piza e o hambúrger
atraem a passeios no shopping,
avenidas de luz e cor, a brisa
do ar condicionado com cheiro a maresia,

usufruto, riqueza estúpida,
o chamariz das montras proibidas,

assim este país antigo
igual a todos,
porém confuso e exausto.

Não sei de onde esta gente herdou
tamanha sujeição.


  Dempster, Nuno. Uma paisagem na web. Lisboa: &etc, 2013, pp 27 - 30.
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11/11/13



            " Achill "


Deito-me e imagino a primeira luz a raiar a baía,
Depois de mais uma noite de erosão, mais perto da tumba.
Então, levanto-me e olho pela janela, ao romper do dia,
Enquanto uma pardela rasa o ápice de uma onda prestes a rebentar,
E penso no meu filho, golfinho no Egeu,
Elfo por entre velas, brilhante como lâmina no vento sazonal,
E queria que ele aqui estivesse, onde os botes cruzam o mar,
Para apaziguar com a sua voz a solidão encarcerada dentro de mim.

Sento-me numa pedra, depois do almoço, e olho a claridade do sol
Por entre a neblina, pérola de uma lâmpada, sobriamente feroz;
Um aguaceiro escurece por momentos o xisto,
Depois afasta-se, dispersando manchas negras como abrunhos.
Croagh Patrick ergue-se, como Naxos, acima da água,
E penso na minha filha, no trabalho duro da sua arte.
Queria que ela aqui estivesse comigo, agora, entre tordo e tarambola,
Tomilho-bravo e estancadeira, para abrandar o peso do meu coração.

Os jovens sentam-se, a fumar, a rir, sobre a ponte, ao final da tarde,
Como pássaros pousados num fio de telefone, ou notas musicais numa pauta.
O silvo de uma flauta no salão. Chove de novo,
O fumo da turfa oscila, soa o vento sob a porta;
E eu deito-me, a imaginar as luzes que se ligam no porto
De Náousa, com seu casario branco, claramente definido na noite.
Queria que aqui estivesses, para me desviares do meu labor desconsolado,
Enquanto passo os olhos numas quantas páginas efémeras e apago a luz.


   Mahon, Derek. Estradas Secundárias, Doze Poetas Irlandeses. Lisboa: Artefacto, 2013, p 65 ( Selecção, Posfácio e Tradução de Hugo Pinto Santos)
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05/11/13



A poeta e jornalista Maria Augusta Silva e o romancista Pedro Foyos acabam de publicar um inédito meu no seu prestigiado site Casal das Letras . Bem-Hajam!
 
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04/11/13

 
 
 
  " Secção 2 da Parte I do Poema Gente Dois Reinos "
 
 
 
Depois foi o dia do jardim. Do templo
aberto por certeiro acaso, como dizem
todos os peritos do não destino: sábios
magnificentes do que não se sabe, nem
sequer uma única vez. Foi o dia em que
te abri o passado, para que alguém
- finalmente - o destruisse na imperiosa
urgência que um outro de mim pudesse ousar
e, destecendo finíssimo casulo, um caminho
- impoluto - me pusesse à frente sem álibis
nem veredas. Sim, era mais um dia entre o éter
e o fogo, esses dois reinos que sempre somos,
mesmo se por momentos não os vemos
ou tendenciosamente os iludimos.
 
 
Mas talvez tu não existas. Talvez tu não
sejas mais do que a projecção de mim
criança, neste mesmo templo, pela mão
de uma qualquer criada velha, assistindo,
cheio de tédio, a um rito que não entendia.
Talvez tu não estejas ali à minha frente,
a observar cuidadosamente a talha dourada,
as imagens, os retábulos. Ah, os retábulos!
Quem sabe se não és apenas uma das suas figuras
que da fixidez cromática decidiu sair para questionar
meu ser e ausência? Talvez tu não sejas tu,
e eu, de máquina em punho, e a fazer zoom
para melhor te captar, não seja mais
do que um esgar aberto sobre a vastidão do vazio.
 
 
Talvez nada de ti exista, nem tão-pouco
a tua voz agora a meio metro de mim: " sabes
que no altar-mor está o túmulo de uma filha
de D. Manuel? " Mas que poderia eu saber
quando, naquela altura, tão ao invés do corpo,
do fogo e dos sentidos? E tu a perscrutares
o templo, esse templo de que fomos
chamados a cuidar e que, em medalhados
corredores de fundo, ao fundo atiramos
sem remorso nem culpa. Tu num dos cantos
mais sombrios, entre o roxo e os espinhos,
com um Cristo a lembrar-me um poema
de Antonio Machado. E eu a fixar esse ígneo
instante, esse efémero que transbordava.
 
 
Eu a querer, mas a máquina a não obedecer:
nem filtros, nem zoons, nem luz... nada!
Apenas o negro no pequeno rectângulo
que te desolava: " Vês, perdi a aura,
não consegues a foto porque perdi a aura
e nem sequer ao pé do Cristo ela aparece "
Quis dizer-te que não, que tudo era eu:
esta inaptidão para com uma mera lente
te roubar a alma; sim, esta minha incapacidade
danificara a máquina, baralhara as perspectivas,
curtocircuitara direções... Tudo isso quis eu
dizer, mas desculpei-me com esse acaso
em que não creio. E, por fim, vi de novo
a minha infância no resplendor do templo.
 
 
Vi a pequena imagem bordada a azul
e ouro. Vi a simetria das naves, o púlpito,
os adamascados, o enorme retábulo central
para onde, aos poucos, ias recuando:
essa terrífica pintura barroca onde o excesso
de dor sempre me repugnara
no que transmitia de domesticação
e de recusa da alegria que todo o sagrado é.
Tu agora disperso na estridência das cores,
numa percepção impura, como todas;
numa relação fantasiada, como todas também.
E tudo isso para que eu atravessasse
a porta, tal como entrara: circunspecto,
perdido, só - ah, tão entranhadamente só!
 
 
   Mateus, Victor Oliveira. Gente Dois Reinos. Fafe: Editora Labirinto, 2013, pp 19 - 21.
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                  "  O  Hospital  "


Há um ano, apaixonei-me pela funcionalidade de uma ala
De hospital: uma fila de compartimentos quadrados,
Betão, lavatórios - o desespero de qualquer amante de arte -,
Para não falar do modo como o fulano na cama ao lado ressonava.
Mas nada o amor interdita,
O comum, o banal, podem o calor dela conhecer.
O corredor conduzia a uma escadaria e, por baixo,
Ficava a imensa aventura de um pátio com gravilha.


É isto que o amor faz às coisas: a Ponte de Rialto,
O portão principal que o peso de uma carrinha amolgou,
O assento nas traseiras de uma cabana que era um foco de luz.
Nomear estas coisas é o acto de amor e a sua promessa;
Já que nos cumpre registar o mistério do amor sem desconversar,
Resgatar do tempo o passional transitório.


 Kavanagh, Patrick. Estradas Secundárias, Doze Poetas Irlandeses. Lisboa: Artefacto, 2013, p 19 ( Selecção, Posfácio e Tradução de Hugo Pinto Santos).
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03/11/13



                                XV


[ O3.00h, 3 garrafas de vinho e exaustão ] 
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B.I.:) Sou de chorar: lugares-comuns em filmes
irrelevantes; actos de heroísmo vendáveis em
múltiplos; sofrimentos com rosto; inteligências ou
sensibilidades incompreendidas; solidões;
abandonos (a mesma coisa - uma solidão, mesmo
empenhada, é sempre um abandono, muitos);
memórias irrepetíveis e os seus ecos (The way we
were, still crazy after all these years, formulações
sintéticas em cançonetas); o sexo como
entrega/ abandono/ achamento/ epifania - as
melhores lágrimas, as mais confusas, inexplicáveis,
totais. Sermos livres dá vergonha por sermos
presos. Na mesma medida em que sermos presos
dá vergonha por sermos livres. As mulheres têm
vergonha de ser homens. Os homens têm vergonha
de ser mulheres. Todos temos vergonha de sermos
pessoas. Humanos. Só. Completamente. E, lá no
fundo, digamo-nos crentes ou ateus ou tudo o que
há no meio, sabemos quem pôs em nós essa
vergonha - o sacana que não conseguimos deixar
de amar mais do que a nós mesmos. Deus. Um
nome que é toda (um)a tesão. E que, para mim, tem
o teu rosto, tuas mãos, teus pés, teus joelhos, tua
nuca, teu cuspo, tua merda, o teu olhar perdido no
horizonte, uma melodia que se apoderou dos meus
ouvidos e do meu cérebro como se vinda
ininterruptamente dos teus lábios, que me
perseguem como um cão misterioso.

Foda-se - desculpem-me - mas é a isto que se
chama Amor!


   Martins, Miguel. Cãibra. Amadora: Ediresistência, 2012, pp 31 - 32.
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                                           VII


Assim: namorar-te cheira a relva acabada de cortar
( dirias: "Foleiro. Vou ali atrás cortar os pulsos", e eu
saberia que essa possibilidade não é só pirotecnia).
Assim: ando, na carteira, com uma pequena
fotografia de uma mão e o advérbio de modo
intensamente, colagem por colar que recortaste de
um pacote de açúcar, entre desassossego e
entretém. Assim, também: quero-te tanto que te
quero como és, só tua, do mundo, comigo só nas
margens do papel, e isso parece-me tanto, tudo, um
milagre que tentarei merecer. Ainda: nunca te
magoar, não deixar que te magoem, tentar evitar
que te magoes. Tenho um metro e noventa, cento e
dez quilos, quase uma parede. Frágil (basta uma
pequena sonda para se perceber). Ainda assim,
parede. Se tiveres de investir contra o mundo, não
te contenhas - embate em mim. Marca-me. Como
me marcas de ternura.


   Martins, Miguel. Cãibra. Amadora: Ediresistência Lda., 2012, p 17.
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01/11/13




Os Prémios de Poesia atribuídos este ano pelo PEN Club foram para Hélia Correia e para Manuel de Freitas. Este Prémio, ex-aequo, visa respetivamente os livros A Terceira Miséria e Cólofon. O Júri era constituído por Maria João Cantinho, Manuel Gusmão e Teresa Martins Marques. Excelente escolha esta!!!
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31/10/13

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   A Ilha é mágica e misteriosa, tu sabes, e eu gosto dela assim pura. Ilha - caminho para o oriente. Ilha - Mitologia, magia vibrátil, contagiante, em sua esteira aérea e calorosa, desces-me. Como a luz atravessas-me. Tu que és os ritos, o entreposto e a rota para a Índia, a Arábia Saudita, teu folclore encandeia-me o horizonte. Teus seios geminados eu reparo e não sei mais que fazer, a casa do meio que tu me és espanto só de ouvir-te, e que milagre, que magia nasce das tuas mãos, dos teus poros. Palavra que como o fogo aqueces-me o corpo, irreconheço-te só de navegar-te, mulher, meu pulmão, minha respiração, motor que eu quero impulsionante pelo sangue adentra-me, que é de amar, meu ofício, meu vício, que existo, pátria, Pandora, paquete, palanque meu que podes ser a ideia do moinho ao centro da mó e na esfera à cabeça do Mediterrâneo. Agora entre as mãos e a língua levo-te como uma donzela à passagem iniciática do menstruo, como a doce cantiga embrulhada na fogueira levo-te os genes carregados de bateria e frutos de afecto, ainda aquela memória solar do voo.
 
 
  Timóteo, Adelino. A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua, Antologia Poética. Maputo: Revista Literatas, 2013, p. 266.
 
 
Nota 1. - O presente texto de Adelino Timóteo foi tirado do seu livro Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique. Sugiro igualmente o seu Livro mulher, obra já de 2013.
 
Nota 2. - Este poema é o último a ser postado relativo à obra em referência. A presente Antologia teve a Coordenação do poeta moçambicano Amosse Mucavele e contou, no respetivo Conselho Editorial, com os seguintes autores: Abreu Paxe (Angola), Jorge Arrimar (Angola), Victor Oliveira Mateus (Portugal), Mbate Pedro (Moçambique), Cláudio Daniel (Brasil), Rita Dahl (Finlândia), Maria Ângela Carrascalão (Timor-Leste), Conceição Lima (São Tomé e Príncipe), Alberte Momán Noval (Galiza-Espanha), Maria do Sameiro Barroso (Portugal), Frederico Matos Cabral (Guiné-Bissau).
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   " Canto do mar "


Na ruína de espelhos
restam só os teus olhos
onde o meu reflexo é resistente e sólido.

À janela, com insónia das noites
nada a fazer senão aguardar o eco acordado nos lábios
imaginar como uma brisa traz teus seios
- pombos frescos da madrugada.
Perdida a chave vermelha
fiquei, há séculos, preso em tua cadeia
minha alegria na solidão da lua.


    Jingming, Yao. A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua, Antologia Poética. Maputo: Revista Literatas, 2013, p 128.
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30/10/13


Há semana e meia saltando de sonhos
para rabiscar umas frases, fixar
um tom, um xis no mapa, a direcção
para o ouro, e às tantas já não
não passo, fico deste lado, murchíssimo
de mãos nos joelhos, a soprar os meus
moinhos, coisas absortas e sonolentas,
livros, papéis, fortificações ridículas.
Apago e acendo a luz, continuo só.

Redijo e enceno as minhas didascálias,
e no abafo da fadiga vejo crescerem
musgos e bolores brilhando
na penumbra. Movimentos no fundo,
ausências cada vez mais familiares. A sombra
deu em doida e escangalha-me os relógios,
alimenta-se das tripas, agoniza
pelos cantos, dorme com o teu vestido.
À cabeceira, enfiado numa caixa de
fósforos, um bicho afina para mim
a melodia do mundo, dá-me corda, um
ritmo, esse nó-corredio que me desce
ao poço. Na caixa, deixo uma nesga
para que olhe comigo o tecto e onde
lhe deito as moscas que me mordem.

Desvio as cortinas, longe ouço vibrar
uma tempestade. Um cão guardando
miragens ladra, alinhando o horizonte,
e anima-me, faz-me descer para a ideia de
andar doce por aí roubando as tardes,
os bolsos cheios de nêsperas e a luz
desassossegando o reino. Mas chove,
a chuva conta cabeças, enche as flores
e deixa-as tombar largando esse perfume
de dilúvio pelos declives açucarados
que levam aos espaços de recreio,
fontes, chafarizes, estátuas segurando
a corda da roupa e da pardalada, junto
com o mobiliário abandonado
de que o jardim se apropriou. Na imensa
sala de visitas, um sofá de pulgas
e um televisor com o ecrã arrancado ao
biqueiro, enquadra um plano soberbo
deste fim de tarde.

Ando mais devagar, encho a rua
de solidão, vejo-a descer, retocando-se -
a noite. Mulata endiabrada soprando beijos
em todas as direcções. Vou atrás, sigo
os meus sonâmbulos. Vamos para os lados
do seja-o-que-deus-quiser.

Não falo, está tudo tão claro, tudo tão
insistentemente banal. Pus baixinho
o coração, frio, a noite inteira a ouvir
dolorosas invocações, uma e outra vez
as mesmas histórias, por favor a um mundo
acabado. Virando as páginas ao jornalzinho
da eternidade, saquei uns versos, o pouco
de realidade e esta sensação de permanência
que nos faz ganhar raízes, ancorar
nestes lugares infectos até ao gole radioso.

O barulho do fósforo rasgou um
suspiro à luz vesga que nos ilustra.
Colagens, cigarros, vastas pausas na moleza
de gestos sem osso, rodando o copo -
pequeno coreto onde dançam para
essas canções redondas que o peito geme,
cansados, trôpegos reflexos. Então,
metem-se-nos ao caminho umas
tipas sem rosto, adivinhando a nossa
sorte, facilitando o azar. Demorou

mas lá saí trazendo pela mão algum delírio,
oferecendo explicações à paisagem,
fundos de ruas malcheirosas, ecos sem saída,
flores aos ombros umas das outras
nesses canteiros onde o que mais bebem
é mijo. Como elas, eu também sou levado
em ombros. Os meus fantasmas todos
cantando. Como explicar o bem, a alegria
de andar pela vida fugido, e agruparmo-nos,
mijando às portas da alvorada.


    Pinto, Diogo Vaz. Bastardo. Lisboa: Averno, 2012, pp 92 - 94.
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29/10/13



“Languages symbolise identities and are used
o signal identities by those who speak them”

M. Byram, 2006

A aprendizagem de uma língua é um processo, para além de cognitivo, também cultural e intrinsecamente ligado às questões de identidade e contexto social, pelo que é interessante analisar brevemente o processo de reconstrução da identidade da RAEM e da sua população após a reintegração do território na China, o seu significado e implicações na expressão que a língua portuguesa tem atualmente no território.

Num interessantíssimo e exaustivo trabalho datado de 2009, “Sovereignty at the Edge: Macau and the Question of Chineseness”, Clayton designa aquilo que aconteceu em Macau como “sort-of sovereignty”, uma espécie de soberania partilhada, única no mundo. Segundo a autora, em meados de 1990, sabendo que em breve mais de quatro séculos de domínio português estavam a chegar a um fim negociado, a administração portuguesa montou uma grande campanha para convencer os residentes de Macau, 95 por cento dos quais chineses, de que podiam reivindicar com orgulho uma identidade que os tornava diferentes de todos os outros chineses: uma identidade resultante dos 450 anos de história não de colonialismo, mas de um tipo de soberania compartilhada, ímpar no mundo moderno. Este projeto exigia uma completa transformação da imagem de Macau como cidade retrógrada, colonial e decadente e da imagem da administração portuguesa como potência colonial corrupta e inepta que presidiu e beneficiou dessa decadência.

Entre os residentes, as reações foram diversas. Alguns consideraram a celebração precoce do estatuto cosmopolita de Macau como uma mudança positiva, diferente da visão habitual de Macau como uma Hong Kong fracassada e de segunda categoria. Outros discordaram com a visão do Estado sobre o que era a “verdadeira” identidade de Macau, mas consideraram que valia a pena questionar o que tornava Macau diferente da restante China. Muitos outros ainda rejeitaram este projeto de “identidade” como uma ficção patética de uma administração colonial moralmente falida.

Por seu turno, Kaeding, investigador da Universidade de Surrey, refere que os dados de um estudo que efetuou mostram que a maioria da população de Macau se identifica etno-culturalmente como chinesa e que a identificação cultural com a China continental é grande, embora seja comummente defendido que a identidade singular de Macau resulta da influência dos quatro séculos de domínio português. Para o autor, “the Portuguese influence on the city’s collective identity in general is largely restricted to the material culture and its architectonical heritage.”

No entanto, a tentativa de convencer os residentes de Macau de que eram diferentes de todos os outros chineses, devido à sua experiência de uma administração estrangeira não colonial, levantou questões prementes: o que era a “soberania”, tal que o passado de Macau podia ser interpretado como não colonial; o que era “chineseness”, em que é que os chineses de Macau eram diferentes, e de intersecção entre elas.

Clayton avança que a resposta a estas perguntas, promovida em museus e publicações patrocinados pelo governo português, definia soberania em termos de supremacia militar, política, económica e cultural. De acordo com esta versão, os portugueses não teriam sido colonizadores porque nunca a tinham detido. Não tinham usado a força para retirar o controlo de Macau aos Ming; a instalação portuguesa fora resultado da negociação e do compromisso. Durante 300 anos, tinham pago o aluguer do terreno às autoridades chinesas em troca da autorização para permanecer na Península de Macau; quando solicitados, forneceram valiosa ajuda militar aos governos Ming e Qing; os seus representantes tinham realizado o kowtow[1] ao imperador e aceitado títulos, um indicador de que tinham sido incorporados na burocracia imperial de Pequim. Durante 300 anos, tinham-se governado apenas a si mesmos, dentro dos muros da cidade, reconhecendo a sua dependência total perante o imperador mesmo para as necessidades mais básicas, como água e comida. De fato, em várias ocasiões, ao primeiro sinal de truculência portuguesa, as autoridades chinesas tinham ordenado a todos os seus súbditos para evacuar a cidade, obrigando os portugueses a submeterem-se pela fome.

Esta argumentação prossegue, defendendo que tal não significa que os portugueses tenham sido meros vassalos do império chinês; a coroa portuguesa agiu como governante supremo do território muitas vezes. Em 1586, por exemplo, o vice-rei de Goa, agindo na suposição de que ele, e não o imperador Ming, tinha jurisdição sobre Macau, elevou o seu estatuto administrativo de povoação a cidade. Em 1846, Lisboa mandou o governador Ferreira do Amaral declarar unilateralmente soberania formal de Portugal em todo o território, recusando-se a reconhecer a autoridade de qualquer oficial de Qing dentro das fronteiras de Macau, e reivindicando a jurisdição sobre a terra e as pessoas (tanto chinesas como portuguesas) muito além dos muros da cidade existente. Em 1887, os oficiais Qing tinham assinado o Tratado de Comércio e Amizade, que reconheceu "a perpétua ocupação e governo de Macau e suas dependências por Portugal". Mas mesmo assim, continua o argumento, quando a reivindicação formal de soberania sobre Macau foi aparentemente reconhecida pelo direito internacional, os portugueses nunca impuseram a sua língua, religião, ideologias políticas ou padrões educacionais ao povo chinês sob a sua administração. Assim, a história da presença portuguesa em Macau foi apresentada como uma soberania partilhada, uma “espécie de soberania”, em que a resposta para a pergunta "quem manda aqui?" foi inteiramente contextual e muitas vezes deliberadamente ambígua.

Tanto esta narrativa histórica como esta concepção da natureza do Estado português não permaneceram incontestadas durante a época de transição. Alguns residentes de Macau definiram colonialismo mais de acordo com o senso comum, simplesmente como qualquer ocupação estrangeira do solo chinês. Apontaram a estrutura do sistema político da cidade, que consistentemente beneficiou os portugueses e os falantes de português, para argumentar que toda a história da presença portuguesa tinha sido de natureza colonial.

Alguns estudiosos sugerem que o período “colonial” tenha começado apenas com a chegada de Ferreira do Amaral, em 1846, quando, influenciado pelo exemplo dos britânicos em Hong Kong, Portugal insistiu que a existência de uma povoação portuguesa autónoma em solo chinês era a evidência da soberania de facto sobre o território. Outros sugeriram que, independentemente da data do seu início, o período colonial terminou em 1966, quando manifestações e boicotes de inspiração maoísta forçaram a administração portuguesa a aceitar uma série de exigências que fizeram de Macau uma zona “semi-libertada”.

Mas houve um debate mais intenso sobre a questão de como o passado de Macau configurou o sentido de “chineseness” dos residentes de Macau. Na narrativa do governo, a “espécie de soberania” tinha feito dos residentes de Macau uma “espécie de chineses” – “chineses latinos”, como lhes chama Roderich Ptak. Essa transculturação evidenciou-se na arquitetura, na cozinha híbrida e no caráter mais tolerante e descontraído da cidade. Durante a época da transição, a pequena comunidade de Macau de moradores etnicamente mistos, conhecida como macaense, tornou-se o símbolo por excelência desse hibridismo: em termos fenotípicos, linguísticos, culinários, religiosos e genéticos, eles eram a expressão máxima do espírito de troca pacífica e generativa entre diversos povos que a administração portuguesa tentou reclamar como legado seu.

A Professora Wai-man Lam, da Universidade de Hong Kong, refere que em contextos pós-coloniais a identidade é uma arena de competição política onde vários discursos que encarnam reapropriação das tradições políticas e legados se cruzam. Na RAEM, a identidade do pós-handover compreende as componentes locais, nacionais e internacionais, com Macau caracterizada como um objeto colonial/cultural/histórico e económico híbrido. Para a autora, a identidade de Macau após 1999 é uma reapropriação da imagem da Macau colonial propagada pela administração portuguesa desde a década de 1980.

Com efeito, em 2011, o presidente do Instituto Cultural de Macau, Guilherme Ung Vai Meng, salientava em conferência de imprensa a propósito da promoção de um mega desfile cultural por ocasião das comemorações do 12o aniversário da RAEM que Macau era “uma cidade de cultura aberta”, “que apresenta uma mestiçagem de características ocidentais e orientais”, patentes “nas construções, gastronomia, hábitos locais, línguas e religião”[2].

A construção da identidade pós-handover alicerçou-se num processo de incorporação e não de repressão ou eliminação do “outro” – a construção de uma identidade nacional autónoma não tem sido a principal tarefa na reconstrução dessa identidade. Em vez disso, várias componentes identitárias foram deliberadamente promovidas e integradas. O sucesso do processo garantiu o relativamente suave reingresso na China e reforçou a legitimidade do novo governo da RAEM.

(a autora escreve segundo o novo acordo ortográfico)

*Investigadora da Universidade Aberta


  Dias, Ana Paula. Macau e as Fronteiras da Identidade. Macau, 2013.
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28/10/13



  " novos demais para a poesia "


depois de certa idade
há no amor
a mesma urgência em ficar
que um cadáver tem
dentro da morte

depois de certa idade
como frutos apodrecidos nas árvores
teimamos em não partir
quando de nós há muito se apartou
o amor

depois de certa idade
ficamos novos demais
para a poesia

 

  Pedro, Mbate. A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua, Antologia Poética. Maputo: Revista Literatas, 2013, p 231.
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27/10/13


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Vicious
you hit me with a flower
You do it every hour
oh, baby, you're so vicious

Vicious
you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
huh, baby, you're so vicious

When I watch you come
baby, I just want to run far away
You're not the kind of person around I
want to stay

When I see you walking down the street
I step on your hands and I mangle your feet
You're not the kind of person that I want to meet

Oh, baby, you're so vicious
you're just so vicious

Vicious
hey, you hit me with a flower
You do it every hour
oh, baby you're so vicious

Vicious
hey, why don't you swallow razor blades
You must think that I'm some kind of gay blade
but baby, you're so vicious

When I see you coming
I just have to run
You're not good and you certainly aren't
very much fun

When I see you walking down the street
I step on your hand and I mangle your feet
You're not the kind of person that I'd even want to meet

'Cause you're so vicious
baby, you're so vicious
Vicious, vicious
vicious, vicious
Vicious, vicious
vicious, vicious
...
       Lou Reed
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24/10/13

Uma conversa tida esta semana com a jornalista e poeta Maria Augusta Silva, In Site "Casal das Letras":
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                                    VICTOR OLIVEIRA MATEUS
                               «Continua a insistir-se numa conceção
                                         de escola burocratizada
                                   e que tresanda a Idade Média» 
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Autor que tem a mestria de casar o clássico com a modernidade, da sua poesia disseram entre outros: Olga Savary: «Como um espia ou um detetive de afetos, abandonando-se num tufo de metáforas, eis a periculosidade do poeta, especialmente do poeta português Victor Oliveira Mateus. Nas asas da poesia, Victor solta os pássaros e canta — e voa. (…)». Cláudio Neves: «Victor escreve no limite entre a poesia e a prosa, e nos faz crer que o faz sem perigo — quando, nesse perigoso limite, muitos poetas de diversos calibres se têm perdido.» Alexandre Bonafim: «(…)Em sua escrita, o deserto torna-se região das especulações filosóficas, dos encontros e desencontros com o outro. Aliás, o deserto de Victor possui uma ambiguidade importante. É nesse espaço que o eu lírico vivenciará tanto a solidão quanto o total da entrega ao outro-amado. Para Victor, somente o mergulho no exílio do mundo e do outro poderia gestar o arrebatamento dos encontros profundos(…)». Maria Augusta Silva: «(…) Uma escrita na qual as palavras são a mágica tranquilidade (sábia viagem) com que o poeta tem vindo a trabalhar a consciência do texto.» Ana Paula Dias: «A forte aptidão metafórica da poesia de Victor Oliveira Mateus, pelo inesperado de certas associações lexicais e pelo fulgor de imagens extremamente certeiras e originais, consubstancia-se numa fala subtil que se move em torno do movimento em direção ao Outro e da noção de Ausência; nela joga-se a inquietação do sujeito num mundo polarizado entre o Absurdo e a Graça, o Efémero e a Luz (…).» Henrique Levy: «(…) A poesia de Victor Oliveira Mateus ensina-nos o poema como semente aquecida no coração da memória, resgatada pela alma, oferecida e alimentada pelo corpo. Comovem-me as palavras, as letras, a ética do poema (…)».


Ter a sua obra poética distinguida com o Prémio Eugénio de Andrade da União Brasileira de Escritores representa o quê ao fim de muitos anos de escrita?
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  Há sempre uma determinada alegria quando sentimos que o nosso trabalho ecoa noutras mentes, noutras regiões, contudo penso que é importante aceitarmos, com muita prudência, tudo aquilo que nos é dado, pois o excesso de confiança pode condicionar a violência da queda. Foi grande a minha satisfação, foi grande a minha gratidão para com aqueles que de mim se lembraram. Mas no essencial sigo sendo o mesmo.
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Um dos versos de Eugénio de Andrade era, e mantem-se, profundamente perturbador: «Quando se morre?». O Victor achou alguma vez resposta para esta interrogação?
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  Jaspers fala do confronto com a morte como uma dessas situações-limite, que, pela sua inexplicabilidade, nos estimula a ousadia do procurar respostas.
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Já se confrontou com a morte? 
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   Por volta dos trinta anos. Dois anos dialoguei com ela todos os dias. Não parti… não parti e nunca mais pensei nela! A questão da morte não me atormenta, aliás, numa das suas entrevistas Clarice Lispector diz que o escritor morre muitas vezes. Somos ínfimos e estamos de passagem, urge não esquecer isso. A questão que me atormenta é outra: «Que coisa é esta a que chamamos vida?»
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Se ainda pudesse falar com Eugénio de Andrade, que gostaria de contar-lhe?
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   Não conheci pessoalmente Eugénio, privei (e privo) com poetas igualmente grandes dessa geração; por esta minha experiência, não me parece que aquilo que, eventualmente, tivesse a dizer-lhe lhe pudesse interessar, assim como, talvez por egoísmo, preferisse escutá-lo a falar. Pertenço a uma geração de autores que, sem cair num encumear artificioso, cultivou sempre uma sentida deferência para com as gerações anteriores.
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Já descobriu um pôr-do-sol mais fascinante do que o da praia de Lefteris, de que nos fala no seu livro A Irresistível Voz de Ionatos?
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   Interessante a pergunta. A Gulbenkian chegou a proporcionar um encontro entre mim e Angélica Ionatos, aquando de um dos seus concertos em Lisboa. Eu estava com uns amigos e ela ficou surpreendida por ter inspirado um poema tão grande como aquele. Não sei se vi algum pôr-do-sol mais fascinante do que esse de que fala o meu poema… todos são simultaneamente iguais e diferentes. 
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 E cada um de nós olhará a natureza de modo diverso…
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   Não tenho uma visão cartesiana da Natureza, da qual derivam muitas visões poéticas, sobretudo as que se fundamentam num certo niilismo individualista; a minha Natureza é sagrada, é a que vem de Plotino e dos Renascentistas, mas já estou a fugir à pergunta…
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Algum homem poderá ser uma ilha?
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   Neste momento travo uma luta com François de Singly exatamente por causa desse tema. Olho com alguma desconfiança as virtudes do individualismo, ou melhor, reconheço que as ilhas podem ser belas e regeneradoras, mas temo que elas esqueçam os arquipélagos para que sempre tendem.
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Trabalha a sua poesia com uma incontestável sobriedade estilística. Requere muito ofício até chegar a esse apuro?
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   Sou cauteloso, talvez seja isso. Não quero que aquilo que me sai das mãos resulte de um qualquer tipo de trabalho exclusivamente formalista e alheio à vida concreta dos homens. Isto não é um juízo de valor, estou só a falar de mim. Cada um tem o seu caminho e o meu passa por uma Escuta atenta daquilo que Há e pela tentativa — tantas vezes gorada! — de que esse Sentido se possa desvelar através do dizer poético.

A formação que tem em filosofia ajudou-o enquanto poeta?
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   Para ser franco não tenho um distanciamento de mim que me permita dizer algo sobre isso. Quando escrevo um artigo, quando faço uma recensão, é um facto que no meu fazer está sempre aquele aparelho teórico da filosofia e creio que o mesmo sucede nos poemas. Sim, acho que a filosofia em mim tem algo de condenatório: infiltra-se no interior do verso independentemente da minha vontade.

Que diz agora o poeta ao filósofo? Que diz o filósofo ao poeta?
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   É o poeta que deve dizer ao filósofo, penso. Os Antigos sabiam isso. A poesia liga-se a um olhar primeiro, a um olhar que visa o originário e, nesse sentido, a filosofia joeira aquilo que lhe chega através de uma sucessão de olhares; a filosofia, quanto a mim, padece de uma menoridade ontológica na sua relação com aquilo que Há.
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Foi professor de Filosofia. Colheu muitas lições dos seus alunos?
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   Lamentavelmente, nos últimos anos, ensinaram-me muito pouco, ensinaram-me tão-só aquilo que não deve ser a escola. Há uma profunda hipocrisia no modo de viver hoje o ensino: por um lado fala-se de desmotivação, de abandono escolar, etc. Por outro lado, continua a insistir-se numa conceção de escola burocratizada e que tresanda a Idade Média.
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Entretanto, na arte da tradução, de que autor se sentiu mais próximo ao traduzi-lo? 
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  Voltaire. Tenho uma profunda admiração pelo séc. XVIII francês, mais especificamente por Voltaire, autor que sempre me fascinou.
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Neste momento, qual a palavra que gostaria de sublinhar na sua «gramática dos afetos»?
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  Paixão. Os seres incapazes de se apaixonar assustam-me, muitos deles rondam as psicopatias e, quando frios e ávidos de poder, são perigosos, mas prefiro não desenvolver o tema…
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Pois… E a velhice assusta-o?
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   Não. Assusta-me a decadência, que pode surgir em qualquer idade, a velhice não. Há um excelente romance de Louise Weiss sobre a velhice, Dernières Voluptés, e um outro da Vita Sackville-West, Toda a Paixão Abolida. A visão que temos hoje da velhice é aquela que a moral burguesa e a sociedade dos números tem vindo a difundir: o velho-fardo, o velho-não-produtivo, o velho-que-já-está-atrasado-para-a-morte, etc. É dentro deste paradigma que a velhice assusta. Mas nem sempre foi assim e pode nem sempre ser assim: tive amigos de muita idade, alguns grandes escritores, com quem aprendi imenso.
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Num só verso, como resumiria o nosso país?
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  Que Camões me perdoe a soberba:
"Ó glória de mandar, ó vã cobiça". 
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 OUTUBRO DE 2013, In Site "O Casal das Letras"

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23/10/13


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A apresentação do novo romance de Ana Cristina Silva, "A segunda morte de Anna Karénina", que ocorreu ontem em Lisboa, na Livª Barata, foi um autêntico sucesso. A Ana Cristina Silva é uma grande romancista (não só escreve exemplarmente como também fala de coisas importantes!) e a Maria João Luís é, de facto, uma excelente actriz. No final da sessão, já à porta da Barata, eu, o Henrique Levy e a Maria João Luís conversámos sobre vários temas afins ao livro: a questão da máscara, o homem como actor social, etc.,etc... descobri que ela não é apenas a grande actriz que todos conhecemos, mas também uma mulher muito interessante. Parabéns a todos os organizadores deste evento!
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22/10/13

(A UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES - R.J. acaba de publicar a lista dos autores agraciados com o PRÉMIO DA DIRETORIA, dessa lista constam os portugueses Gonçalo Salvado (Prémio Sofia de Melo Breyner), Victor Oliveira Mateus (Prémio Eugénio de Andrade) e Pedro Miguel Salvado. Dos autores brasileiros salientemos: Antonio Carlos Sechin, Olga Savary e Ronaldo Cagiano... A cerimónia de entrega dos Prémios ocorrerá no próximo dia 25, pelas 15h00, no Auditório Magalhães Junior da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Segue a lista completa dos escritores premiados:)
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Como acontece todos os anos, a União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, através de sua Diretoria, elege os melhores livros e autores do ano de 2012, que recebem os seus honrosos prêmios na primavera carioca, com o nome de consagrados escritores das letras brasileiras. A solenidade da entrega dos prêmios neste ano será no salão nobre da Academia Brasileira de Letras, no dia 25, às 15 horas.
Um dos premiados nesta temporada é o escritor baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, que irá receber a láurea Jean Paul Mestas por seu livro “De tes instants dans le poème/De teus instantes no poema”, publicado pelas Editions du Cygne, Paris, na coleção Poesia do Mundo, com prefácio de Margarida Fahel, professora da UESC. O poeta Pedro Vianna, também receberá a mesma láurea por sua versão do livro para o francês. Com este prêmio, Cyro de Mattos alcança a marca de dez láureas concedidas pela UBE/RJ, entre livros de poesia, literatura infantojuvenil e organização de antologia.

Eis a relação dos autores premiados neste ano e seus respectivos patronos:

PRÊMIO GUILHERME DE ALMEIDA para PAULO BOMFIM PRÊMIO
GUIMARÃES ROSA para FÁBIO LUCAS
PRÊMIO FERNANDO PESSOA para ANTONIO CARLOS SECCHIN
PRÊMIO CASTRO ALVES para DIEGO MENDES SOUSA
PRÊMIO MACHADO DE ASSIS para MIGUEL JORGE
PRÊMIO HENRIQUETA LISBOA para YEDA PRATES BERNIS
PRÊMIO BENEDITO NUNES para OLGA SAVARY
PRÊMIO JOÃO CABRAL DE MELO NETO para MARCUS VINICIUS QUIROGA
PRÊMIO HERNÂNI DONATO para FERNANDO PY
PRÊMIO BARBOSA LIMA SOBRINHO para CÍCERO SANDRONI
PRÊMIO MONTEIRO LOBATO para LAURA SANDRONI
PRÊMIO CLARICE LISPECTOR para BEATRIZ ROSA DUTRA
PRÊMIO VINÍCIUS DE MORAES para ELISA FLORES
PRÊMIO ADONIAS FILHO para OLÍVIA BARRADAS
PRÊMIO PAULO RÓNAI para LÍVIA PAULINI
PRÊMIO CASSIANO RICARDO para LEILA ECHAMIÉ
PRÊMIO ZILA MAMEDE para ELIZABETH MARINHEIRO
PRÊMIO PEREGRINO JÚNIOR para NELSON PATRIOTA
PRÊMIO CLEMENTINO FRAGA para ABÍLIO KAC
PRÊMIO ADÉLIA PRADO para MARIA AMÉLIA AMARAL PALLADINO
PRÊMIO MANUEL CAVALCANTI PROENÇA para IVAN CAVALCANTI PROENÇA
PRÊMIO MARGARET MEE para EVANDRA ROCHA
PRÊMIO WALMIR AYALA para JUÇARA VALVERDE
PRÊMIO MURILO MENDES para JOSÉ SEBASTIÃO FERREIRA
PRÊMIO CHICO BUARQUE DE HOLANDA para COLBERT HELSINBORG
PRÊMIO FLORBELA ESPANCA para IDALINA P. A. GONÇALVES
PRÊMIO SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN para GONÇALO SALVADO
PRÊMIO JOSÉ SARAMAGO para MIGUEL BARBOSA
PRÊMIO EUGÉNIO DE ANDRADE para VICTOR OLIVEIRA MATEUS
PRÊMIO ANTÔNIO OLINTO para RONALDO CAGIANO



 

21/10/13



          " Todas são ridículas "

  Joaquina escrevia cartas de amor, quase todos os
dias, ao seu "adorado" António. Acabava com "tua para
sempre" na sua letra redonda e miúda. Dobrava
cuidadosamente a folha, de linhas azuladas e
introduzia-a no envelope, que tinha forro violeta.
Depois de escrito o endereço postal, metia a carta por
uns segundos no decote, como para lhe transmitir
algo da própria pele. Sandra recebeu um sms do Hugo.
Guardou nas mensagens recebidas para reler de novo.
Era do rapaz que tinha conhecido na véspera. Trazia
muitos sinais redondos a enviar sorrisos e muitas
abreviaturas de palavras, como por exemplo: Bjs.
tinha armazenado na pasta respectiva do pequeno
celular, várias mensagens daquelas, do Tiago, do
Rodrigo, do Diogo, do Afonso... Só ainda não tinham
descoberto a abreviatura da palavra "amor". Ignora-se
porque certas palavras resistem à queda das letras,
por muito tempo...


  Lourenço, Inês. Ephemeras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2012, p 27.
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