30/12/11

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Uma das coisas em que reparei durante aquelas semanas na UCLA foi que muita gente conhecida, quer de Nova Iorque, quer da Califórnia e de outros sítios, partilhava de um hábito mental geralmente atribuído aos que se deram muito bem na vida. Acreditavam piamente na sua própria capacidade de resolução de problemas. Acreditavam piamente no poder dos números de telefone que sabiam na ponta da língua, o médico certo, o principal doador, a pessoa que podia facilitar um favor junto do Estado ou da Justiça. A capacidade de resolução dos problemas daquela gente era de facto prodigiosa. O poder dos seus números de telefone era de facto ímpar. Eu própria, durante a maior parte da minha vida, partilhava da mesma fé enraizada na minha capacidade de controlar os acontecimentos. Se a minha mãe fosse hospitalizada inesperadamente em Tunes, eu conseguiria que o cônsul americano lhe levasse jornais em língua inglesa e a metesse num voo da Air France para ela se encontrar com o meu irmão, que estava em Paris. Se Quintana ficasse subitamente apeada no aeroporto de Nice, eu conseguiria arranjar alguém da British Airways para a meter num voo da BA para ela ir ter com o primo a Londres. No entanto, a um determinado nível, porque sou medrosa de nascença, tivera sempre a percepção de que certos acontecimentos da vida estão para além da minha capacidade de os controlar ou resolver. Certos acontecimentos limitam-se a suceder. Este era um desses acontecimentos. Sentamo-nos para jantar e a vida, tal como a conhecemos, acaba.

   Joan Didion in " O Ano do Pensamento Mágico ", Gótica, Lisboa, 2006, pp 104 - 105.
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29/12/11

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As divisões Lobisomem foram uma das ideias mais desesperadas de Himmler, forjada perante a derrota iminente. Rumores da sua existência tinham-se espalhado pela Alemanha e fora dela. Os serviços secretos aliados estavam convencidos de que pelotões especiais de insurgentes, fanáticos incapazes de aceitar a derrota, estavam de facto a ser criados para continuarem a luta depois da capitulação da Alemanha.
(...) Esta foi a marca da guerra de Bruno: oferecer-se como voluntário para ser um Lobisomem e lutar até ao fim, se não para além do fim. Parecia tudo muito adequado. O homem que tinha aderido ao movimento na primeira oportunidade, ainda adolescente, há mais de 20 anos, alistara-se no última tentativa desesperada do Terceiro Reich para sair do túmulo do colapso militar total. A sua carreira nazi ia acabar, como começara, com um compromisso ideológico inabalável, absolutamente nada perturbado com o facto de que, em termos militares, ele estava completamente fora do seu elemento. A ideia de que bandos minúsculos de guerrilheiros alemães poderiam ter algum impacto numa força aliada que ascendia a milhões, com rádios que nem sequer ele, o homem que devia ministrar o treino, sabia bem como funcionavam, era ridícula. Mas é uma imagem profundamente reveladora do tipo de homem que Bruno sempre tinha sido. Se havia algum sinal de uma luta na sua mente entre as prioridades concorrentes de manter a família em segurança e prolongar a existência do regime nazi, mesmo que apenas durante algumas semanas, foi óbvio o que pareceu levar a melhor. Mas até Bruno e os seus colegas do SD/ Gestapo devem ter sentido a onda de ódio e vingança que se aproximava.
Enquanto Bruno e os seus colegas do SD/ Gestapo maquinaram os seus planos de contrainsurgência, o resto da cidade de Praga também estava ocupada a construir valas antitanques e a pensar na melhor forma de lutar contra o que até eles sabiam que seria batalha final da guerra (...)
Em meados de Abril, Frank distribuiu planos de avacuação a todo o seu pessoal alemão essencial, parecendo dessa forma colocar a ideia do Lobisomem em espera. Foi uma mudança de estratégia que parece também ter tido um impacto em Bruno. Guardado nos arquivos de Praga, encontrámos um documento bizarro datado de 24 de abril de 1945. Era um formulário de pedido de carta de condução. Muito bem preenchido, ali estava ele, a irradiar normalidade em todos os aspectos exceto na data - pouco mais de 15 dias antes da capitulação formal do exército alemão. Quanto mais olhava para ele, mais absurdo me parecia, a prova de um mundo voltado de pernas para o ar. Como podia alguém dar-se ao trabalho de seguir os trâmites burocráticos necessários para validar uma carta de condução neste ponto final e fatal da guerra, com todo o exército vermelho a alguns quilómetros de distância? E, no entanto, tudo está presente e correto, a rubrica, os carimbos de borracha, as categorias dactilografadas de veículos que Bruno podia conduzir, até o nome da escola de condução que o tinha aprovado. (...) Penso que, nos dias seguintes, um alemão na estrada teria necessitado de carta de condução para evitar ser acusado de deserção. Nunca saberei. No entanto, quando olhei para a assinatura no verso não pude deixar de perguntar a mim mesmo em que estaria ele a pensar num momento como aquele.
(...) No dia 30 de Abril, Adolf Hitler refletiu sobre o seu encontro iminente com exército vermelho e escolheu uma rota de fuga alternativa: cerca das 15 horas, na segurança do seu abrigo subterrâneo por baixo da Chancelaria do Reich, suicidou-se com um tiro. Incrivelmente, nesta fase tardia ainda havia bastante "normalidade" em Praga, para que o acontecimento fosse assinalado nas primeiras páginas dos jornais em língua checa com faixas pretas de luto. Mas a compostura alemã estava a desmoronar rapidamente.
No dia seguinte, 1 de maio de 1945, a Primeira Frente Ucraniana do marechal Koniev que estava nos arredores de Berlim recebeu ordens para se dirigir para oeste de Dresden, seguindo o rio Vltava até Praga. No dia 2 de maio, a Segunda Frente Ucraniana do marechal Malinovski, que acabara de ocupar Brno, recebeu ordens para avançar para Praga a partir do sudeste. A ofensiva soviética começaria a 7 de maio e ocuparia a capital checa dentro de seis dias (...)
Protegidos pelos soviéticos, cujos tanques estavam agora nos arredores da cidade, os checos puderam por fim revoltar-se contra os seus opressores nazis.

  Martin Davidson in " O Perfeito Nazi ", Texto Editores, Alfragide, 2011, pp 284 - 288.
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27/12/11

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Hitler pode ter respeitado profundamente as capacidades de organização de Rohm, mas desconfiava dos seus motivos. Agora, diziam a Hitler que as SA estavam não apenas a fomentar uma "segunda revolução", mas também a conspirar ativamente com potências estrangeiras (nomeadamente a França) para o derrubar. No final da primavera de 1934, a sua paranoia estava a transformar-se em verdadeiro pânico. Nem sequer Bruno, que estava tão bem relacionado como qualquer apparatchik do partido, fazia ideia das forças que estavam a ser alinhadas contra Rohm e a liderança das SA. A verdade é que todas as SA foram apanhadas desprevenidas, o preço a pagar por não terem um sistema de informações eficaz e por se deixarem vencer em estratégia de uma forma tão inequívoca pelos seus muitos rivais.
Ignorando o problema em que estava metido, Rohm ordenou despreocupadamente que todas as SA tivessem uma licença alargada no verão, que teria início no dia 1 de julho. Himmler, Goring e os outros que conspiravam ativamente para a queda de Rohm tinham agora um calendário urgente para agir. (...) Provas forjadas de "listas de morte" das SA foram apresentadas a Hitler. Com apenas um ou dois dias antes de as SA iniciarem as férias de verão, Hitler atacou subitamente.
Rohm tinha iniciado as suas férias na cidade termal de Bad Wiesse, na Bavária, para tratar de uma série de achaques. Tinha um problema cardíaco e sofria os efeitos nefastos de ferimentos do tempo da Primeira Guerra Mundial. Ele e o seu séquito (incluindo o seu harém de consortes do sexo masculino) estavam agora hospedados num hotel, completamente alheios à armadilha que estava prestes a apanhá-los. Hitler e um pequeno grupo de oficiais superiores das SS chegaram de carro ao incício da manhã de domingo, 30 de junho. Arrombaram as portas do quarto e prenderam um grupo espantado e embasbacado de homens das SA, entre os quais Rohm. Repreendidos, empurrados e vigorasamente acusados de traição, foram levados para a Prisão de Stadelheim, em Munique. (...) Detenções semelhantes foram efectuadas em Berlim e Breslau.
O fim foi rápido e implacável. Cerca de 85 pessoas foram mortas durante a chamada Noite das Facas Longas, quer onde se encontravam quando foram detidas - em suas casas, sentadas às secretárias - quer diante de pelotões de fuzilamento organizados em Munique, Berlim, Breslau e Dachau. As SS usaram o caos para marcar pontos com os importantes críticos do movimento, incluindo o homem que tinha escrito recentemente um discurso hostil proferido pelo vice-chanceler Von Papen.
Por fim, chegou a vez de Rohm. O homem que tinha sido o mentor de Hitler e o seu aliado mais próximo recebeu um revólver carregado com o qual poderia suicidar-se, mas recusou-se a ser conivente com a charada da sua culpa, preferindo desnudar o peito e olhar para os dois oficiais das SS, que entraram prontamente na sua cela e o alvejaram à queima-roupa. "Todas as revoluções comem os seus próprios filhos", terá dito. Foi ordenado que a matança terminaria antes de 2 de julho e as certidões de óbito de todos os que caíram depois dessa data foram devidamente alteradas.
As SA estavam acabadas enquanto força por direito próprio, e durante o resto da sua história nunca escaparam à trela do partido. Continuaram a existir, mas de uma forma extremamente reduzida. A maioria das suas armas foi confiscada e entregue ao exército.(...) Depois da guerra, esta perda de poder de decisão salvou-a de ser declarada uma organização criminosa pelas autoridades aliadas. Bruno não foi o único soldado de assalto que teve de aceitar o facto de a liderança das SA ter apostado mal e perdido.
(...) No dia 2 de Agosto, o idoso presidente Hindenburg faleceu finalmente. Hitler apropriou-se sem demora do cargo dele, que por fim lhe conferiu poder em todo o país, não apenas no Reichstag. Duas semanas mais tarde, obteve uma ratificação retrospetiva para o seu passo num plebiscito que decorreu no dia 19 de agosto. Oitenta e nove por cento das pessoas que puderam votar apoiaram a medida; quatro milhões e meio de alemães, mesmo nesta fase tardia, tiveram a coragem de dizer que não, mas não adiantou nada. Foi uma vitória esmagadora.

  Martin Davidon in " O Perfeito Nazi ", Texto Editores, Alfragide, 2011, pp 168 - 170.
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26/12/11

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Todavia, a verdadeira medida da aptidão de Bruno para pertencer às SS prendia-se com o que podia oferecer-lhes. Ele teve pouca dificuldade em convencê-los de que era um candidato mais forte do que a média. As suas opiniões políticas são louvadas vezes sem conta por serem uberzeugt - convincentes, um nazi convicto. No entanto, a palavra que surge inesperadamente não é ideologia, nem sequer política. É a muito maior Weltanschauung, ou visão do mundo, algo mais lato e profundo que um simples manifesto político específico. Isto vai muito para além de uma mera preocupação, ou até de um conjunto de opiniões; o nacional-socialismo era uma ideologia que procurava abarcar todos os aspectos da vida alemã, desde as suas opiniões sobre a Humanidade até à justificação do seu futuro império. Os seus avaliadores nazis não estavam apenas a investigá-lo à procura de provas de fiabilidade política; estavam a testá-lo para saber até que ponto ele contribuiria para o principal objetivo do SD, que era pegar nessa visão do mundo e usá-la como um modelo a partir do qual se construiria uma nova Alemanha.
(...) A geração seguinte, a da minha mãe e das suas irmãs, desempenhou o seu papel neste processo de dissimulação e negação. Sabiam que não deviam fazer perguntas impertinentes e foi-lhes incutido que nunca conseguiriam compreender o que tinha estado em causa. De uma maneira geral, aceitaram isso. Acima de tudo, por vergonha. Não apenas pelo que ele pode ou não ter feito. Foi mais profundo do que isso. Foi uma reação contra o facto mais óbvio sobre o passado de Bruno, repulsa pelo facto de ele e milhares como ele terem aparentemente adorado ser nazis e terem parecido apreciar cada parte da ideologia, incluindo o antissemitismo que a alimentou. Uma vez, perguntei à minha mãe:
- Sentiu que estava a viver numa família importante?
- Oh, sim - respondeu ela. - O papá era um homem importante.
O nacional-socialismo foi uma política destinada a gratificar aspirações e frustrações íntimas, e tinha formado, aperfeiçoado e justificado claramente todas as opiniões mais importantes de Bruno. A sua integração no nazismo tinha sido um processo longo e complicado, começando como uma reação à catástrofe da Primeira Guerra Mundial e continuando a evoluir até 1945. Lutar por ele tinha sido o maior privilégio da sua carreira. Foi isso que a família tanto quis evitar que fosse lembrado. Tinham razão. Tinham passado anos a desmantelar, e a ignorar, a vida ativa de Bruno enquanto nazi. Agora eu ia nazificá-lo de novo, e não seria uma experiência fácil.
A única coisa que eu tinha para continuar era uma maço de papéis, datas e formulários que juntos, constituíam a espinha dorsal de uma carreira nazi. (...) Ele tinha sido um soldado de assalto, um lutador de rua, um ideólogo, um político intelectual, um guerreiro biológico, um acólito, um soldado, um delator, um fantasma, um burocrata, um árbitro de política social - em suma, o perfeito nazi.
(...) Comecei a perceber que descobrir mais acerca do meu avô significaria descobrir mais acerca do Terceiro Reich.

  Martin Davidson in " O Perfeito Nazi ", Texto Editores, Alfragide, 2011, pp 61 - 64.
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25/12/11

A prenda de Natal.

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Há feriados que deixam a cidade deserta. Nem vivalma nas ruas. Claro que, em termos ecológicos, até talvez seja uma vantagem, o problema é se queremos tomar uma bica - nem um café aberto, com o enorme serão que foi feito, noite adentro, na prática dos sentimentozinhos mais positivos. Mesmo assim costumo sempre ousar: meto-me no carro e acabo encontrando qualquer coisa, nem que seja uma gasolineira... Desta vez também consegui: um pequeno café numa das zonas luxuosas da cidade. Bebi a costumeira bica e, lembrando-me de algo, perguntei ao rapaz:
- Por acaso não têm uma embalagem onde possa levar duas bicas?
- Levar duas bicas?!
- Sim, é que tenho gente lá em casa e assim escusávamos de cá voltar. Às vezes há aqueles copos de plástico...
- Não, não temos!- Depois de olhar todas as prateleiras, rematou: - Só se levar nas duas chávenas!
- Nas duas chávenas?! - Exclamei eu com o ar de um imbecil que é apanhado de surpresa. Mas espere, espere... E já ele enchia as chávenas:
- Pode levar estas duas. Estavam para aqui... nós já nem as usamos.
Eh, ca ganda baile qu'este me está a dar - despertei eu - e atirei-lhe a farpa:
- Ah, já percebi, se hão de ir pró lixo, assim levo-as eu. - O rapaz fez-se desentendido. Pela surpresa dos dois empregados, e conversa entre todos, percebi que ele era o filho do dono. Depois das bicas tiradas, enroscou uma chávena na outra, colocou um guardanapo por cima e sorriu com ar de sacana:
- Como vê é fácil! Leva assim as duas bicas.
- Mas espere lá... e se eu comprar uma garrafa pequena de água e deitarmos lá o café.
- Não, não vale a pena! Olhe, entenda isto como a minha prenda de Natal! - E voltou a sorrir.
Eh, ca granda cabrão - pensei eu, imaginando-me já a fazer equilibrismo, rua afora, com as duas chávenas na mão: - eu não estou a levar um baile, isto é mas é um sarau com orquestra sinfónica e tudo, mas não perdes pela demora... e pus o meu ar de querubim recém purificado:
- Ah, se é a sua prenda de Natal, já é outra coisa... então, sendo assim, levo as chávenas.
E lá vim, rua afora mesmo, até ao carro, qual acrobata de circo... Depois atravessei a cidade, " a vinte à hora", com as duas chávenas "sentadas" no tablier.
Enfim... amanhã, ou depois, será o segundo acto, pois as chávenas já ali estão embrulhadinhas, só me resta encontrar uma loja aberta onde possa comprar um laçarote ostensivamente garrido, já que uma prenda de Natal - dada ou retribuida - tem de ter sempre um significado preciso.
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23/12/11

Acabou de sair...

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Acabou de ser colocada em linha a "REVISTA TRIPLOV - DE ARTES, RELIGIÕES E CIÊNCIAS"
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Nova Série, 2011, Número 19 - 20.
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Ver artigo " Imagens da sexualidade na obra de Ferzan Ozpetek
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aqui:  www.triplov.com/novaserie.revista/numero_19
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11/12/11

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Nunca tomes decisões, ó Cirno, fiado num homem mau,
quando quiseres executar uma acção de valor.
Aconselha-te, sim, com um bom, depois de muito te esforçares
e por teu pé teres percorrido, ó Cirno, um longo caminho.
Não confies a todos os amigos os teus actos por inteiro:
pois raros são aqueles que têm ânimo fiel.
Intenta grandes obras, fiado em poucos homens;
se não, terás aborrecimentos intoleráveis.
O homem fiel e digno na dura incerteza, estima-o,
ó Cirno, como o ouro e a prata.
Poucos amigos encontrarás que sejam fiéis
nas dificuldades, ó Polipaides,
amigos que ousem, de ânimo concorde,
partilhar igualmente ventura e desgraça.
Desses não encontrarias, nem que procurasses
por todo o mundo, tantos que uma nau sozinha não os levasse;
desses, dotados de vergonha na língua e nos olhos,
que a riqueza não induz ao mal.
Não me estimes só em palavras, se outro é o pensar da tua mente,
se és meu amigo e tens um ânimo fiel.
Estima-me de coração puro, ou despede-me
e odeia-me abertamente, suscitando uma contenda.
Quem tem um coração separado da língua, é companhia
temível; melhor é que seja inimigo do que amigo.

  Teógnis ( I, 69-92) in " Helade, Antologia da Cultura Grega "  Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, Coimbra, 1971, pp, 137 - 138 ( Organização e Tradução de
Maria Helena da Rocha Pereira ).
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10/12/11

" dedico más espacio al corazón ajeno/ que a la suerte. "

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  " Chance "

Llevo toda la vida mirando las estrellas
y ahora que puedo disponer de tiempo
dedico más espacio al corazón ajeno
que a la suerte.

Y nunca amo por fe, puede entender-se:
la pasión es una verdad tan grande
como una estrella.

Toda una vida para conocerme
y ya ves:
estoy aquí,
cansado del destino
y de la muerte.

  Javier Sánchez Menéndez in " Faltan palabras en el diccionario, Poemas Escogidos 1983 - 2011 ",
Libros del Aire, Madrid, 2011, p 111.
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" por roubar-te um semblante,/ uma paixão ou um pouco do teu tempo. "

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Daría cualquier cosa del mundo
por estar contigo algunos ratos,
por llenarme de mar o de alegria,
por robarte un semblante,
una pasión, un poco de tu tiempo.
Nos morimos llamándonos
y nos llamamos tarde,
siempre dispuestos nunca consumiendo
ese poco de ansia que nos dejó el destino.
Y esta sonrisa que recorre mis labios
no es más que una lágrima
tan grande como un beso;
y esta nostalgia al aire,
y este vivir que encela,
y este calor ambiguo, adolescente,
y esta distancia.

Daría ahora lo que poseo, que es nada,
triste aproximación.

  Javier Sánchez Menéndez in " Faltan palabras en el diccionario, Poemas Escogidos 1983 - 2011 ",
Libros del Aire, Madrid, 2011, p 33.
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08/12/11

" aquele que conversando pôde apenas/ aprender uma forma de ver... "

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  " Alexandria "

  I

onde se perderam aqueles cadernos a que
teimosamente tornavas para escrever
de novo e de novo as mesmas frases
descalços pés apoiados na arcada da varanda
o sol dando-te no rosto cadernos onde
teimosamente ensaiaste alguns
gestos um verão inteiro atrasando-te
onde estão esses cadernos que não
chegaste a rasgar e a costurar de novo
onde com ténues fios brancos e estreitas
agulhas apenas alinhavaste frases
esses comprados em estações
de autocarro furtivamente guardados
em gavetas de armários com chave

 II

rapariga pintando caixilhos de janelas mãos de
tinta manchadas rápida ela emerge à flor
da voz com o vagar do gato mas numa
prudência tão ensaiada que em nada poderia
persuadir outra palavra dita mergulharia
entre as imagens cujas cores rápido se esquece

 III

aquele que conversando pôde apenas
aprender uma forma de ver esse nunca
falou contigo inteligente e cínico calculou
a projecção do próprio eco a conversa
entrou em areia pela noite alastrou
às lanternas ténues fios brancos e estreitas
femininas mãos por engano a luz feriu-te
um pouco acertando-te no rosto tu reclamado
em cor de sépia se a memória fosse um resgate
uma coisa sem fala e sem pena uma memória
calorosamente guardada e esquecida
coisas que podemos suportar perder
porque nos foram totalmente concedidas

 IV

as pequenas nostalgias como fios se prendem
em encaixes de mãos e ombros aquele
que falou contigo junto às vinhas podadas
nesse dia deixou-te para uma conversa mutilada na mesa
de outono o cheiro de uvas nas mãos
como terias tu provado desse vinho
com que timidez reclamar o que sempre
foi nosso um regresso por hábito à exígua e pobre
divisão da casa às paredes nuas solenidade
de mesa em sala vazia tecla de piano onde
se esconde uma nota em que nunca se acerta

  V

tu na mesa de outono te sentaste o rigor
do corpo direito as mãos nos joelhos
pousadas fazes lembrar aqueles soldados
que muito tempo longe regressam
quando já ninguém os esperava
com altivez olham o que é deles
e já só podem sentir desdém
assim percorres de novo e de novo
a estreiteza das mesmas ruas

  VI

continuarás a voltar a estes quartos junto
aos portos de alexandria como fez kavafis
nos seus poemas o encontro e diálogo com
as coisas será por fim uma pequena variação
de cor na luz do dia será esta forma de
silêncio o ajeitar da última flor no vaso
em que a aprisionaste

  Tatiana Faia in " Lugano ", Artefacto, Lisboa, 2011, pp 47 - 49.
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07/12/11

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  " Seu a seu dono "

 
A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entrabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar ( pensa ela )
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

  Rosa Alice Branco in " Gado do Senhor ", &etc., Lisboa, 2011, p 38.
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06/12/11

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  " Prova de existência da alma "


Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto devia consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.

  Rosa Alice Branco in " Gado do Senhor ", &etc, Lisboa, 2011, p 33.
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05/12/11

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  " Antínoo & Adriano "

 
Esta é a zona batida pelos afogados
Esta é a velocidade máxima de quem submerge
aqui as romãs romanas não crescerão mais
& duas águias de névoa orvalhando sandálias
adolescentes na grama de primavera escrevem
a palavra remember
o doce Antínoo com seu arco carregando
corações maduros na aljava na fenda-essência
da história
os semáforos do tempo acendem seu sinal
verde por cima de sua
longa cabeleira
este doce garoto
partiu o coração do imperador
o Império adorando um deus adolescente afogado no Nilo
sem esperar a Manhã egípcia chegar
Adriano chorou o resto de sua
vida na villa ao sul de Roma
as paredes rachavam pelas tardes
deixando entrar as lembranças
houve um tempo nas montanhas da
Bitínia quando as caçadas se prolongavam
até a hora do amor
o vinho Falerno aderindo aos estômagos
vazios enquanto os olhares se
cruzavam sobre o javali assado rodeado
de frutas
este amor construiu seu império na
memória & as escamas de
meu cérebro caem ao contato de
seus dedos
os poetas latinos ouviram provaram
entenderam este tesouro afundado
nas tripas do tempo
resta o vento de verão nos caminhos
onde eles andaram

  Roberto Piva  in " obras reunidas, volume 2 - Mala na mão & asas pretas ", Editora Globo,
São Paulo, 2006, pp 84 - 85.
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  " A Coréia é na esquina  "


Assim não dá meu tesão
eu começo a sonhar com você todas as tardes
& você lá em Santos
comendo amendoim
vendo anjos nas cebolas do mercado
navios entram & saem do porto polidos
eu corto as veias & rego meu queijo-minas
você me ama eu sei & me envaideço
amoras jorram a beleza anarquista de suas
coxas molhadas
o peixe-espada pode lhe declarar amor
eu penso nestas ilhas perfumadas
mas o caminho de volta eu só conto
a este urubu em carne viva
que grasna na sacada.

  Roberto Piva in " obras reunidas, volume 2 - Mala na mão & asas pretas ", Editora Globo,
São Paulo, 2006, p 133.
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04/12/11

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Pólen costumava organizar sua vida às quintas-feiras mas
estávamos numa quarta & sua loucura era da pesada sem
distinção de raça credo ou cor & uivava pelas ruas com
duas panteras pintadas em seu peito falando com os amigos
sobre as poesias de Maquiavel, César Bórgia, Castruccio
Castracani o herói das galáxias medievais no início da era
burguesa dos chinelos & pincenê agora devidamente
catalogada na Ruína Absoluta sem permeios kennedianos
na mexerica & suas pompas fúnebres.
O trombadinha quis saber se Pólen acreditava no lúmpen.
O trombadinha tinha sido descabaçado por um esquimó
bolsista da PUC. Polén declamou doze poemas escritos
contra a CIA. O trombadinha queria dar.
Pólen o comeu ali mesmo, depois de roubar sua camisa.
O trombadinha queria mais.
Pólen então chamou seu amigo economista sádico &
classicista & fez ele comer o trombadinha que suspirava
dizia palavrões inflamados pedia para ser cintado & chamado de
Arlete & toda a imaginação delirante de Eros irrompeu no
cérebro do economista que queria ver a vertigem de perto
antes de se converter para sempre ao ateísmo militante
soltando suas farpas contra a figura de Nonô o Curandeiro
padroeiro do trombadinha.

  Roberto Piva in " obras reunidas, volume 2 - Mala na mão & asas pretas ", Editora Globo,
São Paulo, 2006, p 59.
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02/12/11

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 " Provisão Poética para Dias Difíceis "

 
Simplicidade é artifício recolhido, dobrado, alisado a
ferro. Leveza aérea daquilo que foi corrigido e passa-
do a limpo. Estratégia embrulhada para fins libidino-
sos. É também a fome que ensaliva perto do prato,
movimento de um corpo que acompanha o ritmo.
Simplicidade é aquilo que se quer. É a górgona do
sentido. Desejo de dados já jogados, de versos esten-
didos com as faces para cima. Eu queria a maçã de
Bandeira, mas não seu quarto de hotel. Eu queria a
sesta de Montale, e depois pisar nos espinhos do seu
horto. Eu queria o mar de Kavafis, mas não para nau-
fragar num canto de terra. Eu queria as lentes de
cummings, sem os limites da tipografia. Queria as asas
de Eliot, mas não sua velhice. Eu queria, é simples,
mas bem aqui, longe de Starnbergersee.

 Marcos Siscar in " O roubo do silêncio ", 7Letras, Rio de Janeiro, 2006, p 66.
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01/12/11

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           " Pietá "


Eu sou a sua pietà, meu amor, agora, nesta ponta de
rua onde os ventos quebram. Eu entendo bem seu
espanto mudo de que a vida comece no sacrifício, o
abraço na morte, o amor na despedida. Eu o seguro
sobre os joelhos na luz azul desta noite, compreendo
a sua angústia. A força só além do hábito. Para a víti-
ma, é sempre o inimigo que escolhe as armas. Enten-
do o que quer dizer, e só tenho minhas mãos para um
longo afago. Quantas vezes não saiu do cinema co-
brindo o rosto, quantas vezes a cólera não foi maior
que a ofensa. E nada disso o poupou. Eu o entendo.
Como pode seu espanto só ter sentido aqui, sobre
esses joelhos dobrados, premidos pelo peso de seu lon-
go corpo, todo ele, transido de destino. Só posso di-
zer que entendo e você deve acreditar. Em quem mais
acreditaria? É por mim que aqui se deitou e eu assim
o recebi. Por aqui também passam rostos ressentidos.
Mas veja como o mal evaporou-se ao primeiro vapor
do dia. E as chagas expostas ao céu claro ganharam
cores de simplicidade, tapumes previsíveis, tornaram-
se gestos de defesa. Embora seja tarde, acredite em
mim. Eu continuarei a seu lado. Só não prometo a
escultura.

 Marcos Siscar in " o roubo do silêncio ", 7Letras, Rio de Janeiro, 2006, p 41.
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Acerca dos Prémios...

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O que já vi, relativamente à questão dos Prémios Literários, acabou por me conduzir - na área da poesia - a duas posições bastante primárias: primeira, todos os Prémios (não as obras que os vencem!) que estimulem quem escreve poesia merecem ser dignificados, venham eles de Câmaras, de Empresas ou de Organismos Oficiais; segunda, o que conta verdadeiramente, nesse mecanismo, não é o rótulo mas a integridade e a verticalidade do júri. No que me diz respeito, confesso que não me foi fácil ler dezenas de originais e pensar sobre eles, mas foi agradável trabalhar com outros elementos de um júri que decidiu atribuir, por unanimidade, o 1º lugar de um Prémio Literário ao livro: "Desarrumação do Frio" de Luís Aguiar.
E relativamente (ainda) à integridade: não sei - nem quero saber - quem eram os outros concorrentes e só ontem, quando recebi o livro já impresso, dado que nem ao Google tinha ido, é que fiquei a conhecer o currículo literário do Luís Aguiar, que, afinal, já tinha vencido o Prémio Irene Lisboa, o Prémio Afonso Lopes Vieira, o Prémio Castello di Duino (Trieste), etc.
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30/11/11

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(...)
Em frente,
a igreja parecia de uma brancura nova,
imaculada.
Os ciprestes eram como longos braços erguidos.
Numa única lápide, li um epitáfio com duas rosas.
Um cão ladrou e, como uma dor que se reabrisse,
lembrei-me de ti,
e deixei que voltassem a correr as lágrimas.
Estava só,
estaria sempre só.
O peso do mundo era irremediável.
Por mais que quisesse não podia esquecer-te,
não podia esquecer nada.
Matei o dragão, disseram-me, e ao matá-lo, matei as
minhas tardes de pólen.
Arrefeci tremendamente.
Uma corrente gélida varreu as serras.
As uvas eram amargas.
Não foi isto o que pedi, ao desembocar no túnel,
à entrada da aldeia.
Pedi,
com desmesurada fé,
que nunca partissem aqueles que em mim me
habitavam,
antes de o bolor revestir as paredes,
caíadas por fora.
Pedi que estivesses aqui,
sabendo que nunca mais te sentarias comigo,
junto ao limoeiro,
a ladrar aos frutos que caíam,
depois da geada.
...  ...  ...  ...  ...  ...

 José Agostinho Baptista in " Caminharei pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 110 - 112.
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28/11/11

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(...)
Escurece,
neste pequeno porto de onde não partirei,
para que a minha vida seja a tua âncora,
quando me procuras.
Quando me procuras, é como acender os candelabros
de prata,
é como dizer-te, sem receio,
embora vacilante,
eu farei o teu abrigo dos abrigos que não tive,
eu serei a árvore,
de cujos ramos, tão saudosos, partem as aves
migratórias.
E se emudecer,
serei como ela,
a que me embalava docemente,
numa paisagem inerte,
apta ao vislumbre das corolas decepadas por uma faca,
oculta nas rendas.
Se te vejo,
vénus estremece no seu terraço com lilases de seda,
convoca-te o oráculo,
enleia-te a serpente, prende-te o amor que renova a seiva
no entardecer da espiga.
Seara fui,
e fui grão e leveza e espessura.
Quem sou hoje, pergunto às estações sucessivas.
Contenho-me.
Conténs-me e guardas-me nos teus lábios semicerrados,
calados, receosos da palavra poderosa,
do poder das sombras que atravessam o vale e têm
pressa de chegar à cruz de onde descerei um dia,
sim,
porque eu sou a carruagem lunar das tuas idas e vindas.
...  ...  ...  ...  ...  ...

  José Agostinho Baptista in " Caminharei Pelo Vale da Sombra ", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2011, pp 46 - 48.
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27/11/11

"(...) e louvando retenho o entardecer na lonjura exausta das marés... "

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 " Poema I do Ciclo A Condição do Olhar "

Do que disse um dia me perco agora em redes
de espuma lisa, espera branda de sinal azul de
embaciadas finas recordações de maior dádiva,
esse uso directo. Recortas o aparato redondo da
noite inflexionada em puro reverter, branca aurora
marinha. E a senha. A notação da dor no imponde-
rável acontecer do risco, o traço carregado da pre-
sença, tutela abandonada. Ficada assim na textura
de uma longa toalha branca, suspenso palpitar da
insidiosa hesitação correcta, ó fontes do recurso
deplorável. Em aras deponho pois amável o dis-
curso em tom de fina aceitação e louvando retenho
o entardecer na lonjura exausta das marés, vibra-
ção quente. Se repartes o medo por essa incerteza
do limite, repousado rodeio do movimento, é teu o
verso na mágoa incandescente da manhã, eixo con-
taminado da planície à origem dos meios, ervas
doidas, no solto incandescer do tempo recuado.
Assim os metais se empolgam e impelem o lento
recorrer dos idos na lava dos caminhos. E só os
olhos, latentes, reconhecem.

  Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 83.
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26/11/11

"(...) Renascem os cabelos/ que o mar noutras paragens destruiu. "

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 " Poema VI - Nave do Ciclo A Catedral "

É cedo ainda. Renascem os cabelos
que o mar noutras paragens destruiu.
Desconheces o poder dos ventos do sul,
as lagoas brandas da meia-luz trémula, ó pescadores.
A ciência que temos é aliás prefixa.
Que sabes da tenra usura que desenvolve o tempo?
Rosa trémula
Os laços marginais, os escolhos pendentes,
a quebra interminável, doentes de minha mágoa.
Há um abismo no prolongamento das manhãs
que percorremos juntos. A falha é ainda
a simulação do berço,
lajes soltas.

 Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 68.
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25/11/11

" Do irremediável aprendi a tranquilidade. E que a pertença é rigorosamente a grande forma de separação. "

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 " Despedidas de Verão "

Vou sem pensar na bruma fria, toque ansioso
dos momentos comuns, e de seus prolongamentos,
os sulcos mais fortes da imaginada cálida força.
Relembro as datas, essas longas noites de vigília
que bani. Os vestidos negros ou roxos, o lindo
rosto de voz tranquila. Sem tradução de palavra
gasta me aparece, solidão imposta da quieta
noite do outro. Não espero, porque estudei todas
as ficções e vejo em todo o processo narrativo
o momento poético do mais forte ódio ou daquele
encontro que sempre vem, beneplácito acontecer.
Assim te digo que nada é possível a não ser a
forte presença do olhar, que se foge me esqueço.
Do irremediável aprendi a tranquilidade. E que a
pertença é rigorosamente a grande forma de
separação. Aprendo então os signos da desgraça,
essa malévola intendência do bem-querer afixado.
E contemplo da janela os idos sem complacência
nem pena imerecida. Disto te dou conta para te
mostrar a forte eternidade de cada um.

 Maria Alzira Seixo in " Letra da Terra ", Modo de Ler Editores, Porto, 1983, p 36.
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24/11/11

Inseguranças, vulnerabilidades e comportamentos obsessivos.

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" As técnicas do controlo do corte dos pensamentos (negativos) e do confronto com a realidade "

Começámos a analisar os seus pensamentos. Sandra era uma máquina de fabricar pensamentos negativos e, como temíamos, há anos que o fazia: considerava-se a pior das filhas, a pessoa menos preparada no trabalho, a rapariga mais gorda e feia do seu meio, a menos simpática... e, claro, nada de isto era objectivo.
Quando parecia que avançávamos um pouco, voltava na semana seguinte com novas dúvidas e novos pensamentos negativos. Tivemos de fazer uma paragem no caminho, assinar uma "trégua" e chegar à conclusão de que, nesses momentos, era incapaz de racionalizar dez minutos sem começar a censurar-se por algo; nessas circuntâncias deixámos de trabalhar o "confronto" dos seus diálogos internos e pusemos toda a energia em "parar" e "cortar" os seus pensamentos negativos, que eram a maioria.
É um trabalho pesado e pouco gratificante ao princípio, mas Sandra começou a sentir-se livre quando viu que, ao menos, podia "cortar" com bastante rapidez esses pensamentos que tanto a angustiavam, e além disso, podia fazê-lo tantas vezes quantas eles lhe surgiam. Aprendeu a deixar de ter medo dos próprios pensamentos. Posteriormente, quando já era capaz de cortar esses diálogos internos que tanto a martirizavam, voltámos a tentar que começasse a "racionalizar" os seus pensamentos. Então tivemos mais êxito, ainda que Sandra continuasse a encontrar com muita facilidade argumentos contra ela. Era difícil sentir-se bem se estava sempre a dizer: "Não valho nada" (...) "Toda a minha vida tem sido um desastre", "Sou gorda e feia"... Sandra repetia frases deste estilo desde pequena; nunca gostara de si fisicamente, intelectualmente via-se inapta e lenta (...) Teve de trabalhar muito para poder ultrapassar estes pensamentos irracionais.
Passámos semanas a confrontar, uma a uma, cada frase que proferia interiormente (...).
Não é fácil que alguém tão vulnerável aprenda a deixar de sofrer inutilmente, mas pode-se conseguir, embora o seu cérebro resista, e é lógico que o faça, pois, passou anos a armazenar esses pensamentos contra si. A verdade é que Sandra será sempre um pouco "mais sensível" do que a maioria, mas agora é capaz de desfrutar das coisas positivas que lhe acontecem e, o mais importante, "corta" bastante bem os seus pensamentos irracionais e tem um conceito sobre si própria muito mais adaptado à realidade (...) Por fim, é capaz  de ver-se com objectividade, embora seja demasiado "mole" nas suas apreciações sobre os outros, mas já aprendeu a não justificar o injustificável e, ainda que lhe custe, já exige responsabilidades e pede explicações (...).
A psicologia demonstra-nos que tudo o que se aprende se pode desaprender; tal como nos treinámos para nos sentir mal, podemos treinar-nos para sermos mais realistas e perspectivarmos a vida de forma objectiva.

  María Jesús Álava Reyes in "A inutilidade do sofrimento", A Esfera dos Livros, Lisboa,
2006, pp 120 - 122.
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             " Caçada "


A minha primeira caçada aos gambuzinos aconteceu pelos
tempos em que eu andava ainda na escola. Convidaram-me
e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente e
necessário.
Excitado, preparei-me em casa. Treinei devidamente, em-
boscado atrás da porta, a tentar caçar experimentalmente o
meu pai, que subia a escada. Pareceu-me que não gostou.
Os pais, não é... ?
Na noite da caçada, lá fomos. Eu entusiasmado, com a
lanterna e o saco apropriado. E também a moca que estava
atrás da porta, que há noite há ladrões, foi a justificação que
me veio à cabeça no momento. Todos concordaram.
Mas não me venham dizer que não há gambuzinos. Apa-
nhei três. Um deles parece-me que se chamava António André
e ficou coxo. Ainda está, creio. Uma fractura excelente, mesmo
pela rótula.
Tudo me leva a crer que a caça aos gambuzinos é realmente
importante. Temos que apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá
como for.

   Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 75.
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23/11/11

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 " Rifão Quotidiano "


Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

  Mário-Henrique Leiria in " Novos Contos do Gin ", Editorial Estampa, Lisboa, 1973, p 27.
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 " Nascerá de um Mestre "

 
para o peixe pouco importa o simbolismo das flautas

peixe negro dentro de um mestre

a árvore compreende o nome dentro da sombra o homem dentro

disse

não há caminho no meio do nome posso aventurar-me a perguntar as
flautas da terra as flautas do céu o que nada significa disso o grande
labrego explode no ar e seu nome é vento ainda não emergido da minha
fonte onde as oliveiras choram amanhã nos espinhos oram e não sabem
meus pés descalços os lírios sem a tristeza dos campos onde ninguém
compreenderá os cantos escritos nas quedas da paisagem desse corpo
dilacerado que estremece o silêncio contínuo

  Felipe Stefani in " verso para outro sentido ", Escrituras Editora, São Paulo, 2010, p 54.
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22/11/11

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             " Dança Primordial "


Quantas vezes vi a loucura me percorrer cegamente as entranhas?
Lavrando do fundo de um corpo sua flor brutal,
libertando
a dança desregrada que atravessa a voz,
recompondo
na noite o ouro intenso onde a luz faz ressaca.

Estou completo em minhas paisagens.

De uma vida inteira absorvo a marcha,
canto as estações abertamente,
tocando com o esquecimento as margens,
que se distanciam
e evocam
toda a pureza de uma arte.

Quantas vezes essa loucura corrompeu o último enlace
do medo que se abre ao fim de cada feixe de encanto
no alimento obscuro,
colhido do apuro
das visões imensas?

Toda a obra é terrível e sangra
na memória a sua imagem.

No auge insondável desse estrondo,
canto
em volta de uma dor,
o dorso se contorce,
no centro,
multiplicando o gesto,
um eco indefinido devora em travessia
centenas de mundos construídos
e sonhados.

Pois a música se apossa da ébria lentidão do meu engano.

  Felipe Stefani in " verso para outro sentido ", Escrituras Editora, São Paulo, 2010, p 34.
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21/11/11

" tornou-se minúsculo./ sentou-se lá no fundo "

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à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava para terminar.

 Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 58.
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20/11/11

"mas fica sabendo: os meus defeitos/ estão a ver televisão no sofá do escritório."

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peço que as desculpas
me perdoem. mastigo o meu
pão. mastigo o meu pão
para somar gestos. sabes bem
que os gestos me servem
de escudo, que a pose
se tornou uma amiga
fiel. não é com ela
que queres falar? compreendo.
sabes bem que desde que partiste
recomecei a contar tudo
desde o zero, colecionei
monólogos como o mais
excêntrico magnata. sabes bem
que tenho ficado até de madrugada
preso ao não sei quê das
palavras... beijaste-me
e é claro que podes entrar,
mas fica sabendo: os meus defeitos
estão a ver televisão no sofá do escritório.
sentamo-nos a seu lado?

  Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 44.
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19/11/11

" e não havia nada nas sombras/ que se conseguisse tocar. "

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virei o aceno do avesso:
não existia o mais ténue
vestígio de esperança.
o adeus era somente adeus
e não havia nada nas sombras
que se conseguisse tocar.
resta o pequeno prazer da escrita
ao lado do café pousado
sobre a eternidade.

 Rui Tinoco in " O Segundo Aceno ", Edições Sempre-Em-Pé, Águas Santas, 2011, p 19.
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17/11/11

Acerca de...(VIII)

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Reseñas de libros: " Voces actuales de la poesía portuguesa... "

En varias ocasiones, he comprobado que el mejor indicio de la repercusión que una literatura determinada tiene en la sociedad es la variedad de títulos que podemos encontrar en los estantes de una librería. Así de cotidiano y de fiable. En el caso de la poesía portuguesa, tan cercana geográficamente a nosotros, casi gemela, esta ecuación puede aplicarse y llegaremos a un resultado nada sorprendente: una presencia tímida y segura en sus títulos. La poesía portuguesa se encuentra en España amparada casi siempre por la perpetuidad exitosa de los clásicos: Camões, las obras completas de Pessoa, algunos hermosos vestigios de Eugénio de Andrade, mínimos latidos del saudosista Teixeira de Pascoaes y de la delicadeza herida de Florbela Espanca. Muy poco de Manuel Alegre, al igual que muy poco de Sophia de Mello y Jorge de Sena. Siempre existe alguma sorpresa, pero ese sentimiento siempre será una excepción.
Tan lejos y tan cerca, a la vez. Y esa lejanía entristece, porque Portugal posee voces que embellecen la poesía, su existencia. Más allá del magnífico y enigmático Fernando Pessoa, más allá de su fantasma múltiple y perfecto, hay poetas que siguen dignificando la poesía en portugués.
En mis numerosas viajes a Lisboa he tenido la oportunidad de acercarme al latido tranquilo y rítmico de la poesía portuguesa contemporánea. Durante mis paseos por librerías lisboetas como la hermosa y culturalmente activa "Fabula Urbis" de la rua Augusto Rosa - regentada por un hombre sabio y agradable como es João Pimentel -, la lebrería "Portugal" del Chiado o las más comerciales - pero no peores - como "Bulhosa" de Campo Grande, he podido encontrar poetas de peso, de verso redondo, poéticamente habitables: la silenciosa voz de Cristovam Pavia, la cristalina presencia de Albano Martins, el sobrecogedor abandono trascendente y melancólico de Ruy Belo o el ritmo hilado de Manuel Gusmão, entre otros. Esta lista podría alargar-se infinitamente. Por ello, me centraré en dos libros que vieron la luz en Portugal en la editorial Labirinto en 2010 y 2011: Regresso (2010), de Victor Oliveira Mateus y A incidência da luz, de Graça Pires.
El libro de Oliveira Mateus ya dice mucho en su título. En él acontece un regresso, un regresso a sí mismo. Pero no debemos quedarnos ahí. Late en él ese regreso de Novalis hacia el alma como quien regresa al origen: " Volver atrás/ para encontrar el principio: y a mí través de él." dice en su poema "Alucinación". Este poemario tiene la belleza de los viajes, pero los verdaderos viajes son los parten de la soledad, desde la otredad de quien contempla el mundo como si la memoria ungiera con sus aguas la pureza de la primera existencia. Es un libro puro en cuanto desposesión asume la voz poética: "Cuando partí estaban/ todos atareados viajando, pero de otro modo". La pérdida llega desde esa diferencia del que se contempla en la distancia para regresar, para fundirse con su origen, como místicamente lo hizo Plotino.
Oliveira Mateus se reconstruye a través de la poesía, se encuentra en ella como en diversas fotografias de sí mismo. Creo que no hay maior nostalgia que aquella que surge de contemplar a quien se fue en una fotografia. Mirar-se a los ojos, a través del velo del tiempo, es recortar una ausencia. Oliveira Mateus se recorta en imágenes de Turin o del río Po desembocando en Venecia, aunque quién sabe si también recuerda a Virgilio su desembocadura en el Hades.
Todo en este libro es una presencia dashabitada enmarcada en una ciudad. En esa misma cuidad donde se dan encuentros que pudieron ser y no fueron. Nadie como la memoria tiene la habilidad de llevar al acontecimiento aquello que nunca fue. Quizá por eso el recuerdo salve. Quizá por eso hiera también: "Grito dentro del paisage. Grito y la convulsión/ del verde arrasa las colinas enfrente (...)". La voz poética sabe que de ninguna reconstrucción se sale indemne. Siempre asusta ese pequeño desplazamiento del color, esa variante tímida de la tonalidad que hace que no reconozcamos el lugar. Quién o qué ha provocado ese cambio? Tal vez el triste vacío que siempre queda al regresar, el envejecimiento que emana de las cosas perdidas: "Y está también tu rostro, casi sin contornos:/ sombra disolviéndose en la sombra". La sombra, ese camino que nos hace regresar, siempre hace el recuerdo más inhóspito, a veces fingido: "Donde ese Parque de memoria y fingimiento?". Lo que se enmascara siempre produce inquietud, pero también busca proteger una verdad, el recuerdo puro, perdido, de sí mismo.

   Marta López Vilar in "Ojos de Papel", Madrid, Julio 2011.
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13/11/11

Acerca de...(VII)

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" Pelo deserto as minhas mãos: a poesia de Victor Oliveira Mateus"

Na literatura do Ocidente, tornou-se um verdadeiro leitmotiv a figura emblemática do estrangeiro. André Gide revelará, em seu "O Imoralista", uma personagem em constante errância, em permanente busca por um lugar indefinido, sempre distante. Em "A montanha mágica", Hans Castorp encontrará nos Alpes um recanto onde aprofundará suas reflexões sobre o existir humano. Aliás, Thomas Mann será o exímio autor das personagens exiladas. Também em "Morte em Veneza", a sua personagem central, Gustav Von Aschenbach, torna-se, na famosa cidade italiana, o estrangeiro por excelência. Outros autores, como Paul Bowles, farão do deserto o refúgio dos outsiders, dos excluídos. Esse leitmotiv se tornará, para os escritores, símbolo de uma resistência ao mundo reificado, consumista, universo no qual o objecto toma o espaço do ser.
Indo ao encontro dessa tendência, o poeta português Victor Oliveira Mateus, em seu "Pelo deserto as minhas mãos", plasma todo um cenário estranho, distante do mundo das metrópoles. No deserto de Mateus, o assombro aflora, com intensidade, perante os encontros e despedidas amorosos, marcando, dessa forma, o destino de um eu lírico em errância, em peregrinação não pelos espaços físicos, mas pelos desvãos dos seus sentimentos.
Em sua escrita, o deserto torna-se região das especulações filosóficas, dos encontros e desencontros com o outro. Aliás, o deserto de Victor possui uma ambiguidade importante. É nesse espaço que o eu lírico vivenciará tanto a solidão quanto a total entrega ao outro-amado. Para Victor, somente o mergulho no exílio do mundo e do outro, poderia gestar o arrebatamento dos encontros fecundos. Nessa ascese, é preciso, antes, ouvir a verdade da própria existência, para, a partir daí tramar, com harmonia, os amores.Anti-baudelairiano, o poeta de "Pelo deserto as minhas mãos" rejeita os paraísos artificiais, a fim de buscar, na aridez desértica, uma forma de existência mais plena. Essa recusa ao mundo capitalizado pode ser encontrada, por exemplo, no seguinte texto:

Nas cidades de onde venho
secam as árvores ao som das sirenes
e os pássaros, alucinados, buscam direções
nas pupilas das crianças.
Nessas cidades tudo é pressa e desassossego,
enquanto os homens, improvidentes, desaprendem
a sublime auscultação da terra;
nem sequer o coração dos outros podem ler
ou o rumor inconsolável das águas
- para eles aquilo que apenas vêem!
E com um nó no peito desatado
pintam de harmonia um novo Caos.

Ao auscultar essa terra árida, o seu silêncio, o homem torna-se capaz de ler o coração do outro. Ou seja, é preciso isolar-se, de forma serena, para ter a sabedoria de oferendar-se, em plenitude, ao amor. A solidão, nesse caso, é salutar, ela representa a busca de uma sabedoria, de uma compreensão do existir. Perambular pelas rotas do deserto é palmilhar o próprio âmago, o íntimo da subjectividade. Há qualquer coisa de sacrifício espiritual nessa poesia, de aprendizado da alma, capazes de levar o eu lírico à agudeza da vida e das relações amorosas. Assim, a voz do deserto é, na verdade, o clamor de um outro perdido, quase esquecido:

Que voz chora por mim
no outro lado das grandes pedras? Que lamento? Que murmúrio
por entre a sombra rala dos arbustos? Talvez seja o vento: o zurzir
de um estranho vento oceânico no meu rosto enquanto durmo. Ou
talvez seja o sol, que esgarçando as longas nuvens, cai depois
a pique sobre o meu corpo. Ou ainda - quem sabe? - talvez nenhuma
dessas coisas seja, mas apenas o esquivo sibilar de um réptil no
seu ardil para me tentar

Mas não, nada disso poderá por mim chorar no outro lado
das grandes pedras. Nada, a não ser o eco dos teus olhos; o azul
desmaiado desses olhos, onde o meu sonho era um barco impossível
e as palavras soçobravam na raíz do meu desejo

Todo o deserto, toda a infinita secura das planícies de areia, são transmutadas, nesse poema, no corpo amado, nesses olhos em estado de alumbramento. A entrega acontece como uma descoberta mágica, encantada, da pulsação e da vida do outro. Tal amor precisa ser palmilhado, como se palmilha as areias do deserto. É preciso descer às profundezas do corpo amado, para alcançar a ascese final, a revelação absoluta do gozo:

Descer-te o corpo palmo a palmo
Descer-to como quem sobe ao cume do mais alto monte, como
quem encontra a firmeza de um espaço, para o qual nenhuma língua tem nome
Descê-lo ou moldá-lo, nem eu sei bem: o rosto jovem, o sedoso
peito, as coxas; descê-lo e construir o murmúrio sibilante do vento,
ou de uma boca entreaberta no rumor ofegante da tarde

Descer-te o corpo palmo a palmo
Não o corpo fardo, prisão, informe desejo que a si se basta
numa infindável corrosão de tudo, mas um corpo luz, amigo,
que, sorrindo, aquilo que o excede a mim entrega

Nesse poema, o autor consegue transformar o corpo em um terreno acidentado, no qual o eu lírico terá de descer, percorrer, caminhar, a fim de ascender às matrizes do seu próprio espírito. Dar-se ao outro é entregar-se à serenidade de si. O poeta, nesse texto, de forma sublime, traça, com uma fome de escultor, cada traço físico desse ser mágico, talhando-o com leveza e ardor: "rosto jovem", "peito sedoso", "coxas"... Uma metonímia fecha esse poema com esmerada beleza: todo o riso é o corpo amado; toda a pele, todos os poros, são um rir calmo, repleto de alumbramento. O mistério desse outro é um adentrar na noite, na falta de compreensão do mundo e do milagre de amar:

À noite as tuas palavras
não são as tuas palavras, aquelas que de dia usas, quando nem
nos conhecemos e o disfarce é um regato de água fétida por entre
os refugiados
À noite as tuas palavras são tão diferentes:
trazem-me o silêncio das coisas raras
ensinam-me a sedução dos horizontes ávidos de luz
desvelam-me o teu corpo, tão esplendorosamente branco,
no cadenciado ritmo das antigas deserções
O mesmo com os teus olhos também à noite tão diferentes:
ardem como ilhas num vasto oceano de ondas paradas,
nossa imensidão que nem nostraga nem nos salva
Enfim, à noite nada de ti coincide contigo
mas isso ninguém sabe, nem sequer tu... apenas eu que aqui
o escrevo, enquanto espero um outro anoitecer

O texto, como um pêndulo, risca o dia, delimita as luzes e as trevas e revela, no ser amado, a existência de dois seres distintos. Durante o dia, o outro amante é previsível, sereno. Somente a tormenta das trevas é capaz de acender nesse outro o mistério, a sedução fatalizante, a sina dos naufrágios e perigos. Estamos no domínio da paixão, daquele sentir terrível capaz de arrebatar nossa vida por completo, de nos levar ao estado de possessão febril, de loucura delirante, de gozo supremo. As metáforas e as comparações, tão bem talhadas, revelam a hábil artesania do poeta. Aliás, essa é uma grande virtude de Victor, a de tramar metáforas e comparações de forte poder encantatório. Dessa forma, os olhos são como ilhas de imenso oceano, águas profundas a tragar por completo o eu lírico. Os horizontes são tomados pela fome de arrebatamento, eles têm sede de luz. Essas imagens, assim como muitas outras (todo o livro é um pontilhado de metáforas vivas, repletas de uma imagética de pura inventividade), tornam o livro uma raridade preciosa.
Os poemas, conduzidos por um ritmo muito semelhante ao do poema em prosa, possui versos longos, extensos. Tal ritmo imprime lentidão ao discurso. Esse efeito é de suma importância, pois ele funciona como uma espécie de câmara lenta, com a qual o leitor vai captando as minúcias desse mundo repleto de areias, de beduínos, de cavaleiros, de pedras preciosas. O ritmo casa-se perfeitamente com o forte apelo pictórico do livro:

Às vezes também os homens
espreitam na margem do oásis, vageiam com desespero no tosco
emaranhado das dunas. Às vezes também eles, por entre os cedros,
em mim desenham um estranho mistério: falam alto, gesticulam...
São suas vozes uma ave inusitada no azulado entardecer do deserto.
Mas eu finjo nem perceber

É no longe o que procuro
bem no centro dessa paisagem, no macio regaço dos povos nómadas,
onde as caravanas se balanceiam sem nunca se deterem
O meu lugar é um minúsculo e límpido poço, todo rodeado
de seixos, para lá do ocre de tantos palácios antigos - é o lugar onde
não sou, um estilhaçado vitral que ninguém vê, mas que liberta

O não ser, no livro de Victor, tangencia a totalidade das paixões. É preciso, portanto, ao modo de Pessoa, perder-se para encontrar-se, fugir para cair no próprio ser. Roteiro pontilhado de oásis, repleto de paixões e mistérios, "Pelo deserto as minhas mãos" é uma aventura pelos escaninhos da própria palavra, pela poesia, enfim, feita de magnitude e sublime encontro com o outro, esse ser a fervilhar nossos desejos.

    Alexandre Bonafim in " O Silêncio de Orfeu ", Biblioteca 24 Horas, São Paulo, 2011, pp 94 - 99.
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11/11/11

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"Máximas de Francisco VI, Duque de La Rochefoucauld"
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(...)
68. Il est difficile de définir l'amour. Ce qu'on  en peu dire est que dans l'âme c'est une passion de régner, dans les esprits c'est une sympathie, et dans le corps ce n'est qu'une envie cachée et délicate de posséder ce que l'on aime après beaucoup de mystères.

69. S'il y a un amour pur et exempt du mélange de nos autres passions, c'est celui qui est caché au fond du coeur, et que nous ignorons nous-mêmes.

70. Il n'y a point de déguisement qui puisse longtemps cacher l'amour où il est, ni le feindre où il n'est pas.

71. Il n'y a guère de gens qui ne soient honteux de s'être aimés quand ils ne s'aiment plus.

72. Si on juge de l'amour par la plupart de ses effets, il ressemble plus à la haine qu'à l'amitié.
(...)
74. Il n'y a que d'une sorte d'amour, mais il y a mille différentes copies.

75. L'amour aussi bien que le feu ne peut subsister sans un mouvement continuel; et il cesse de vivre dès qu'il cesse d'espérer ou de caindre.

76. Il est du véritable amour comme de l'apparition des esprits: tout le monde en parle, mais peu de gens en ont vu.

 La Rochefoucauld in "Maximes, Réflexions, Lettres, précédées de L'Homme Mis en Scène par
Tzvetan Todorov", Hachette, Paris, 1999, pp 96 - 97.
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09/11/11


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        " Em ti "


Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales
e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.

Em ti a inclinação dos ramos. A tranlucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.

Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.

Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.

Em ti, amada, celebro a memória de todas as coisas vivas.

 Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, Lisboa, 2011, pp 97 - 100.
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08/11/11

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 " Fulgidez "


Como aves extraviadas
sob o torpor de tanta luz
nossas bocas
unem-se ansiosas,
ardem juntas
num delírio rubro,
ébrias de gemidos,
nuas, alucinadas,
seduzem-se,
perturbam-se,
embriagam-se,
entregam-se ferventes
e enfeitiçadas,
em êxtase bebem
o fragor do lume,
sorvem o ardor
e a cupidez do vinho,
mordem-se
como polpas tenras, sumarentas,
inebriadas,
queimam-se,
ferem-se,
húmidas de tantos beijos,
de fogo tão sequiosas,
chamas convulsas
bruxuleando claras.
E quase morrem calcinadas,
exaustas, loucas, desvairadas,
num frémito de labaredas,
em fogueiras acesas, altas,
transfiguradas -
Serão centelhas vivas, alvoroçadas?
Fúlgidas quimeras abrasadas?

  Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, 2011, p 15.
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