31/12/10

ENTÃO ATÉ PRÓ ANO... COM MUITO SOLZINHO NAS IDEIAS!!!

HÁ QUEM NÃO GOSTE DELE, HÁ QUEM SE ASSANHE SÓ PORQUE OUTROS GOSTAM E
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HÁ OS QUE SE ESTÃO NAS TINTAS PRÁ "POLÉMICA".. POIS EU CÁ GOSTO DELE, SIM
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SENHORI!!! VIVÓ DITO CUJO... PÔR-DO-SOL!!! E, PARA QUEM PASSAR POR ESTA RUA,
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UM BOM 2011!
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29/12/10

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   (não esqueça)
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não esqueço
mesmo que a palavra seca inverta
a duração lépida sílaba, adorno
para mãos ásperas desveladas
via estreita vida imóvel
livre de ondulações celeradas, palmas
não esqueço
um olhar sobre outro olhar, olhados e desfiados,
covardia aberta e sem pai, alguém morrendo mudo
se desfibra, um pai
que hesita, mas vem
despido de raízes, as mãos cortadas
mas vem, negligente e destraído
.
quem
iria se lembrar?
quem poderia guardar
o vento nos cabelos?
.
Não esqueço
e esse meu sonho
é quem me governa
morte e desterro
duração e desvio.
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José Rodrigo Rodriguez in "Meus Seios", Nankin Editorial, São Paulo, 2005, p 178.
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28/12/10

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  "Cidade"
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É meio dia
noite,
só vejo a falta
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azul inverno
recobre a cidade, conto
as paredes que se enovelam
desvio
o corpo da mesa
que me ataca.
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sol
aqui estão meus olhos
prontos para voltar
.
a boca aberta
a copa de frutas ácidas
dentes cerrados, pés
que só querem explodir...
.
pois nunca houve país algum
as cidades previstas
não se completaram
- cartas devolvidas -
o espaço entre
os caninos
corta o imenso rosário
de promessas encadeadas.
.
Quero minhas palavras de volta!
.
Se houvesse mesmo uma cidade,
seria este o momento
para vê-la:
estou quieto e atento
qualquer gesto lançado
fora
qualquer aceno
faria soar
esta dor que me dissimula
este instante que quero louvar
.
seria este o momento certo:
visto a paisagem que me desata
como uma camisa de notas cercas
familiares, avulsas, sons
automóveis, aviões,
palavra nome, palavra chão
não tenho mais dentes para gastar.
.
Tudo está quieto, mas
como um espelho límpido
que devolvesse as palavras
sem tocá-las
que espalhasse as memórias
sem revê-las
rotina de impulsos
sem mácula
.
um centro único rarefeito
raios de Lua
sobre as idades
pulsar
carne turva
que me devolve
a sua metade tíbia
.
olho para cima
e sonho inverso
numa cidade cerrada
- a ante-sala da vida -
osso de galinha
engasgado
na garganta.
.
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José Rodrigo Rodriguez in " Meus Seios", Nankin Editorial, São Paulo, 2005, pp 113 - 115.
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27/12/10


"Nada do que é humano me é estranho"
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Não é uma sensação agradável
ser habitado por mortos que não conheci
ser habitado por todos os mortos
nada do que é humano me é estranho.
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Onde faz Sol? Em que planeta?
O fio da palavra se estende
comprido
tecendo as nuvens,
árvores, alamedas
.
tecendo as nuvens,
árvores e alamedas...
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Meus olhos
conforme o desejo,
riscam na pele
um beijo
ou um corte
navalha nos ares
decepando a luz
tronco, membros, claridade.
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Alguém passa, um canto,
há uma flor sobre a mureta,
um cachorro morre e crianças,
currupio de bicicletas. Amigos
que chegam, amigos que sofrem,
pastéis, sopa de letras e nachos
cada minuto, cada segundo,
nada do que é humano
me é estranho
.
nada do que é humano
me é estranho
.
nada do que é humano
me é estranho
.
nada
.
nada
.
nada
.
... uma pedra pesa
e sem recompensas
.
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José Rodrigo Rodriguez in "Meus Seios", Nankin Editorial, São Paulo, 2005, pp 38 - 39.
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26/12/10

Sergio Rocca lê a Invocação de Safo a Afrodite.

(Ver a minha tradução do mesmo poema aqui neste blogue).

25/12/10

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   "Homem-bomba"


O poeta é um terrorista.
Age tão obliquamente
que, para não dar na vista,
se declara indiferente

à economia e à política.
O leitor desavisado
recebe e espalha, sem crítica,
o texto contaminado.

E assim, atacando à sombra,
como um hacker sem pudor,
nos sabota esse homem-bomba
que chamamos de escritor.

Marco Catalão in "O Cânone Acidental", É Realizações Editora, São Paulo, 2009, p 40.
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   "Balada de Ismália"


Quando Ismália alucinou,
pôs-se na sacada a olhar...
Viu os aviões em vôo,
do alto do décimo andar.

Na bad trip em que embarcou,
quis, ela também, voar.
Tirou a roupa, gritou,
sentiu-se livre afinal...

Olhando a lua, sonhou
com outra vida, outro lar,
e no vazio se atirou,
cantando "Lucy in the sky"...

Como um anjo, ou um elfo, ou
uma fada sublunar,
por um momento pairou,
livre de amarras, no ar...

Sua alma, alada, zarpou
num vôo interestelar...
Seu corpo se estatelou,
grave e prosaico demais.

Marco Catalão in "O Cânone Acidental", É Realizações Editora, São Paulo, 2009, p 39.
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23/12/10

Acerca desta época, do consumismo e da noção de propriedade.


Vivre l'Évangile? Bien d'autres l'ont fait avant nous, mais notre voie est toute simple. Nous serons des soeurs pauvres, comme Jésus et sa mère. Nous avons décidé de tout mettre en commun: d'abord ce que nous sommes, et cela est à construire tous les jours; mais aussi ce que nous pourrions avoir. Nous ne voulons rien posséder, ni chacune pour soi, ni ensemble, rien de ce que l'on peut appeler à juste titre "propriété". Une seule exception: le terrain nécessaire à notre manière de vivre. Ce dont chacune aura besoin, ele le demandera à la communauté: nourriture, vêtements, soins, objects nécessaires au travail. Et tout será partagé avec le commun consentement des soeurs, par l'intermédiaire d'une abbesse et de son conseil, élus par toutes. Pour vivre, nous traveillerons; le travail est un don merveilleux de Dieu. Ce travait doit non seulement assurer notre subsistance, mais aussi convenir à notre vie avec Dieu. Si le travaille ne suffit pas? Nous irons mendier selon les possibilités des lieux et des temps. Notre amitié fraternelle, ainsi, s'elargira et un partage pourra s'établir avec ceux que nous rencontrerons. Nous veillerons à ce que le travail n'entrave pas notre relation à Dieu, mais plutôt la soutienne: prier constamment avec un coeur limpide et avoir l'Esprit du Seigneur, voilà, d'après François, ce que Jésus demande dans l'Évangile. Cela peut se vivre en toute situation. Portant, comme les frères, nous aurons des temps forts de prière, ceux que l'Église a prévus: écoute de la Parole de Dieu, chant des psaumes, hymnes, intercessions, libres louanges... Cette prière nous fera pénétrer dans la prière du Christ, et c'est pouquoi celles qui ne savent pas lire diront, au même moment, le Notre Père qui est l'essentiel de la prière de Jésus...
Soeurs pauvres, nous vivrons ensemble le plus possible, dans les lieux communautaires: l'église, le réfectoire, le dortoir, le parloir, et ailleurs encore. Toute notre vie tendra à promouvoir l'unité de l'amour mutuel et la paix. Ainsi, les démarches importantes seront accomplies avec le consentement des soeurs: l'élection de celle qui recevra la charge d'abbesse, servante et mère, l'accueil de celles qui viennent et demmendent à vivre avec nous, la décision de contracter une dette... De même, les soeurs décideront ensemble des services à répartir entre elles, et le travail sera assigné en présence de toutes. Elles se réuniront une fois par semaine en "chapitre", afin de réfléchir ensemble à ce qu'il convient de faire, compte tenu des besoins, des possibilités, des appels de l'Esprit. Les dons reçus des gens, des familles, seront distribués en vue du bien de toutes et de chacune(...)
Les vêtements seront les mêmes pour toutes: trois tuniques et un manteau. Pour la commodité du service et du travail, elles pourront aussi avoir une tenue simple, en fonction des tempéraments, des lieux, des temps, et des climats. Toutes les décisions à prendre seront mûries dans la prière et l'échange, pour l'utilité commune. La qualité du discernement sera spécialement nécessaire à l'abbesse...
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Claire-Pascale Jeannet in "Sainte Claire d'Assise", Fayard, Paris, 1989, pp 198 - 200.
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Nota - Nos primeiros anos da década de 90 resolvi fazer uma investigação cuidadosa em torno da religiosidade na Itália do século XIII. Por cuidadosa entendo: desapaixonada, crítica, antidogmática e recusando todas as veemências de cariz neo-fascizante. "Fiz-me à estrada" e que fosse o que tinha de ser! O primeiro contacto foi o romance da Claire Jeannet acima referido: apesar do grande rigor da obra, convém frisar que estamos perante uma vida ficcionada. Na sequência de tudo isto, vi-me depois atirado para outros livros: o excelente trabalho de Marco Bartoli, editado também pela Fayard: "Claire D'Assise", o clássico de Jacques Le Goff sobre Francisco de Assis, etc.,etc. Conclusão: sai conforme tinha entrado! Lembro-me que na altura comecei logo a trabalhar na História dos pequenos estados da Europa, comecei por "uma coisa" da Que-sais je? sobre o Luxemburgo. Nunca mais pensei no século XIII italiano, mas suspeito que ele voltou, pois no meu último livro há, pelo menos, duas referências a ele...
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22/12/10

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                    "Por linhas tortas"



Nunca conheci quem tivesse escrito uma merda.
Todos os meus conhecidos têm sido brilhantes em tudo o que escrevem.
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E eu, tantas vezes cego, tantas vezes burro, tantas vezes tímido,
eu tantas vezes irrespondivelmente plagiário,
indesculpavelmente preguiçoso,
eu que tantas vezes não tenho tido paciência pra consultar o dicionário,
eu que tantas vezes tenho sido ridículo, vaidoso,
que tenho cortejado os elogios fúteis e desprezado as críticas honestas,
que tenho escrito poemas grotescos, tacanhos, redundantes e pretensiosos,
que tenho deletado mais de metade do que escrevo,
que quando não deleto, tenho me arrependido de cada poema publicado;
eu, que tenho submetido meus poemas ao julgamento de gente que eu desprezo
e tenho me sentido humilhado pelo desprezo dessa mesma gente;
eu, que não como ninguém com meus versos românticos;
eu, que não choco ninguém com meus versos satânicos;
eu, que tenho passado noites em claro pensando num advérbio ou num adjectivo;
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
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Toda a gente que eu conheço e que troca e-mails comigo
nunca errou uma concordância, nunca se enredou numa falácia,
nunca foi senão genial - todos eles gênios - na vida e na literatura...
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Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse, não um bloqueio criativo, mas uma ingenuidade;
que contasse, não que seu livro não vendeu, mas que não valia o preço de capa!
Não, são todos mestres de Homero e instrutores de Shakespeare,
se os ouço e se falam comigo.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez escreveu uma frase feita?
Ó gênios, meus irmãos,
caralho, estou de saco cheio de Rimbauds e Mallarmés!
Onde é que há gente no mundo?
Então só eu que sou burro e pouco original nesta terra?
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Poderão ter sido achincalhados pela crítica,
podem ter sido ignorados por Deus e o mundo,
mas terem escrito uma frase ridícula, nunca!
E eu, que tenho escrito frases ridículas cotidianamente,
cercado por tantos gênios, como posso querer ser lido com atenção?
Eu, que tenho sido estúpido, literária e literalmente estúpido,
estúpido no sentido simplório e bruto da estupidez.
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Marco Catalão in "O Cânone Acidental", É Realizações Editora, São Paulo, 2009, pp 104 - 106.
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21/12/10

"(...) Y mi vida/ es ese pájaro pegado al cable/ de alta tensión, "

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"Intermedio"

Entre una imagen tuya
y otra imagen de ti
el mundo queda detenido.
En suspenso. Y mi vida
es ese pájaro pegado al cable
de lata tensión,
después de la descarga.

Chantal Maillard in "Hainuwele y otros poemas", Tusquets Editores,
Barcelona, 2009, p 189.
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20/12/10

"... qu'il voulait, pour eux deux, une relation de contiguité, d'appartenance, non de propriété."


Jour après jour, envers et contre le malaise de l'éloignement, leur relation s'ajustait et, paradoxalement, atteignait à de nouveaux équilibres. Vint alors sous sa plume, dans une de ses lettres, la fameuse petite phrase, bien moins qu'une phrase en réalité, trois petits mots dont pourtant la signification apparut à Leo aussi déliée et suffisante qu'un concept bien élaboré: " chambre à part". Et il expliqua à Thomas qu'il voulait, pour eux deux, une relation de contiguité, d'appartenance, non de propriété. Il voulait vivre seul, tout en pensant à lui comme à l'amant de prédilection, au bien-aimé des éternelles fiançailles. Qu'ils n'avaient rien à redouter de leur solitude, qu'elle était à vivre au contraire comme le fruit le plus achevé de leur amour, parce qu'au fond, jusque dans la séparation, ils s'appartenaient et ne cessaient de s'aimer. Que, chaque année, ils passeraient le printemps et l'été ensemble à voyager tandis que l'hiver, chacun travaillerait à ses propres projects. Que c'était un choix difficile, et surtout singulier, mais qu'en son coeur Leo ne s'en sentait pas de faire autrement. Qu'enfin, s'ils faisaient "chambre à part", il lui resterait fidèle jusqu'à la mort.
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Pier Vittorio Tondelli in "Chambres séparées", Éditions du Seuil, Paris, 1992,
pp 194 - 195 (Tradução do italiano para o francês: Nicole Sels).
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19/12/10

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Poema 1 de "Canto e Lamentação na Cidade Ocupada"
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Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
.
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boites e monumentos
.
Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote
.
Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone
.
Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
.
Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor
.
Daniel Filipe in "A invenção do amor e outros poemas", Editorial Presença,
Lisboa, 1972, pp 49 - 51.
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13/12/10

" Soy un animal enloquecido/ que salta sobre el fuego. "

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Puedo decir que en tus ojos descansan
las lechuzas,
que acaricias el sol con tus rodillas
cuando desciende cárdeno sobre tu vientre,
que un tigre juguetea en tu regazo,
que tus ojos florecen como la madreselva,
puedo decir que el bosque se calla cuando duermes y lo cubre
la sombra de tus párparos.
Pero no diré nada.
No conozco tu cuerpo si es que tienes alguno.
Las lechuzas, el sol, las colinas, los tigres
son lechuzas y sol y colinas y tigres, y las flores son flores
y el bosque es sólo bosque.
Si me invento tu cuerpo cada día
es para verte un poco más distante,
pues sentirte tan cerca y tan presente sin morir
es difícil.

Arden las plantas de mis pies.
Soy un animal enloquecido
que salta sobre el fuego.
.
Chantal Maillard in "Hainuwele y otros poemas", Tusquets Editores,
Barcelona, Barcelona, 2009, p 97.
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11/12/10

" mas sólo un hombre ciego/ puede hallar el camino que a él conduce. "

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"Y dónde está escondido tu tesoro, Hainuwele?",
me pregunta, burlona,
la más anciana del poblado.
Se refiere, lo sé, a lo que siempre buscan
los hombres cuando vuelven del combate.
Mi tesoro, contesto, es suave como el musgo, dulce
como leche de almendras,
tiene el frescor de los helechos
y sangra sin dolor hasta teñir de púrpura el crepúsculo
o para alimentar los cachorros de um tigre.

Mi tesoro no está escondido:
resplandece en el bosque como ele oro,
mas sólo un hombre ciego
puede hallar el camino que a él conduce.

Chantal Maillard in "Hainuwele y otros poemas", Tusquets Editores,
Barcelona, 2009, p 23.
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10/12/10

Agradecimento...

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aos autores que tiveram a bondade de publicitar o meu último livro.
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Ver aqui:
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http://www.logrosconsentidos.blogspot.com/ (INÊS LOURENÇO)
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http://www.maquinaroyal.blogspot.com/ (POMPEU MIGUEL MARTINS)
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http://www.sylviabeirute.blogspot.com/ (SYLVIA BEIRUTE). Postagem de 6/11/2010
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http://www.carlosvaz.blogspot.com/ (CARLOS VAZ). Postagem de 25/11/2010
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http://www.ortografiadoolhar.blogspot.com/ (GRAÇA PIRES)
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http://www.universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/ (HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO)
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http://www.diversos-afins.blogspot.com/ (LEILA ANDRADE e FABRÍCIO BRANDÃO)
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http://www.texto-al.blogspot.com (TIAGO NENÉ)
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(Lista em aberto, pois vou encontrando Postes em Blogues que desconhecia, como por exemplo:
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http://www.artesteves.blogspot.com/ - Blogue "Artemisia está viva!" da Profª Fátima Pereira que, num Poste de 28/11, diz ter estado presente no lançamento do livro. Posteriormente vim a conhecer esta professora de Filosofia)
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09/12/10

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Cheguei a Fátima ao meio-dia, o santuário em obras, compressores e betoneiras cessavam o seu ruído sacrílego, os operários estiravam-se entre pilhas de pranchas de madeira e montículos de areia e cimento, sorviam da lancheira feijão seco com uma colher; olhar embrutecido pelo vinho, um corredor especial esperava-me, desimpedido, o crucifixo na mão, as contas enroladas no antebraço, o terço de prata oferecido por Pio XII, em quem pouco confiei, um Papa titubeante, severamente indeciso, esquecido dos princípios éticos cristãos, mais italiano do que supremo representante de Deus na terra, percebia-se a vaidade nas sedas imaculadas dos paramentos, nas sotainas engomadas e superiormente vincadas, nos sapatos vermelhos da tradição, na barba dupla ou triplamente escanhoada, diferente da do seu antecessor, Pio XI, a casula amarrotada, a mitra tombada na cabeça, Pio XII fora núncio na República de Weimar, conhecera Hitler pessoalmente, assistira à crescente subida eleitoral do Partido Nacional-Socialista, às manifestações medievais do ódio germânico contra os judeus, os ciganos e os homossexuais, não levantou o dedo em nome dos desprotegidos, dos que sofriam, dos humildes, carregados em camiões para abrirem estradas a picareta, passavam sob a varanda da nunciatura, roncando o seu poder maligno, nada fazia, nada fez, devia tê-lo feito, em nome dos antigos erros da Igreja, da ética universal, devia ter estado ao lado do Bem, mestre em palavras dúbias, como Pôncio Pilatos, orientava sem orientar, devia ter comandado o povo católico contra a Besta, Hitler, não o fez, assemelhava-se àqueles que em Portugal me tinham dito que entre a foice e o martelo e a cruz gamada, esta ainda continha a cruz, Hiltler seria recuperável com o tempo, os judeus não, os comunistas menos, foi de um seu confidente a famosa frase "o comunismo, um inimigo a exterminar", título de inúmeros jornais e livros católicos, o medo dos vermelhos abriu a porta a Mussolini e a Hitler, Pio XII considerava o socialismo, o comunismo e o anarco-sindicalismo consequências degeneradas do liberalismo e do ateísmo europeus, forçoso liquidar este, o capitalismo, para que por asfixia natural morressem socialistas e comunistas, Hitler, a Besta, na mente maquiavélica da Igreja, constituía o instrumento de liquidação do capitalismo, ficariam enfim frente a frente a Besta e a Cruz, o fim dos tempos, o Armagedão, todo o fervor da Igreja deveria assentar na morte do capitalismo, condenara os padres da Acção Católica que evangelizavam os operários, a Igreja devia retirar-se do mundo e deixar o mundo autoliquidar-se, no final emergiria triunfante, recolhendo os restos, preparando uma nova evangelização, um novo mundo, sob os cadáveres de milhões de europeus. As minhas relações com a Igreja foram sempre heterodoxas, em Portugal tinha dificuldade em relacionar-me com os bispos de ventre inchado como uma panela de gorgulho, especialistas em temperar refogados e apreciar o ponto de açúcar no caramelo, meu pai e avô recordavam como a Igreja se ratraíra no tempo do exílio, reduzida a uma relação formal de apoio,(...) aconteceu o mesmo na instauração da república portuguesa, bem podíamos, eu e o Manuel, ficar à espera do apoio da Igreja, foi preciso o negreiro Afonso Costa ter expulsado dois bispos para a Santa Sé cortar relações diplomáticas com Portugal, defendiam-se, como instituição, não defendiam a Monarquia, é assim que vejo a instituição Igreja, digo instituição, distinguindo fortemente a mensagem de Jesus da cúpula reitora da Igreja, defensora em exclusivo dos seus interesses, vim a este descampado de Fátima em busca do sagrado, o sentimento de protecção espiritual que experimentara na infância, no tempo de Leão XIII, o único Papa de quem me senti próxima, adaptou a Igreja aos tempos modernos, a encíclica Rerum Novarum, Das Coisas Novas, jogou a Igreja para os bairros dos trabalhadores, as fábricas, defendendo um capitalismo social de aproximação aos pobres, de comiseração para com estes (...) tanta esperança tivera eu de que o Luís Filipe, se tivesse chegado a governar, se a monarquia se tivesse prolongado mais dez anos, tornasse Portugal um país exemplar, como as monarquias escandinavas e inglesa, que libertaram os seus povos da fome e da ignorância...
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Miguel Real in "As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia", Publicações Dom Quixote,
Alfragide, 2010, pp 246 - 249.
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07/12/10

"Padeço todos os dias/ De minhas exóticas melancolias/(Mas rio-me delas...)."

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" Poema"
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Sou o parvo extravagante e solitário,
E sou o beco sem saída.
Tenho enredos e dramas na minha Vida
De céu vário.
Padeço todos os dias
De minhas exóticas melancolias
(Mas rio-me delas...).
Chamam-me: o pescador de Estrelas,
O dos vícios inéditos e singulares...
Mas eu sei que sou
Um almirante sem caravelas e sem mares;
Tenho a certeza que é isto que sou!
A minha Fantasia desregrada
É o alcoólico delírio
E o constante martírio
Que faz com que eu seja tudo, não sendo nada!
Enlodo-me
E remordo-me
Quando sinto em mim a luz de talvez Deus
(Uma luz que me atira fora de mim
Para espasmos, e apertões, e cambalhotas.)
Nesses momentos encho os Céus
C'o a minh'alma dilatada pela febre sem fim!,
-E nas ruas fecham-se-me as portas,
E eu 'screvo poemas sem ritmo nem rima!...
Depois, a pouco e pouco adormece-me a Vida
Sobre um enxergão imundo;
Minh'alma comprime-se, entra dentro de mim, novamente,
E dorme um sono profundo,
Tranquilamente...
.
- Por isso a minha vida
É um beco sem saída!
.
Ninguém compreenderá o que escrevo neste poema sincero,
Talvez por ele ser demasiado sincero!
Vão-me achar, com certeza, muito temerário
No que toca a metro e a versificação.
Deixai!: eu sou o Incompreendido, o Solitário,
O Triste, o Erva, o Bobo, o Alto, o Louco,
Que sonha muito e bem, e canta mal e pouco,
E tem ternuras de andorinha e fúrias de leão!
.
- Por isso a minha vida
É um beco sem saída!
.
Cristovam Pavia in "Poesia", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp 123 - 124.
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06/12/10

"que no pase inadvertido aquello que/ tú amaste y todo cuanto/ pudieron odiarte..."

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Prevalece pues poeta lo que creaste.
El precio será tu muerte
física o civil. Mas no dejará de ser
un buen negocio por tratar
que no pase inadvertido aquello que
tú amaste y todo cuanto
pudieron odiarte por desvelar
lo que debe estar oculto pero suena
entre los silbos del bosque.
Jirones de bruma de lo que no puede
ser dicho en lenguaje alguno
y cantan tus lenguas desde el ramaje.
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Miguel Veyrat (pré-publicação).
.
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Permanece poeta o que criaste.
E a tua morte física ou civil
será o preço. Contudo não deixará de ser
um bom negócio a incrementar
que não passe despercebido aquilo que
tu amaste e tudo quanto
puderam em ti odiar apenas por desvelar
o que deve manter-se oculto mas soa
por entre os ruídos do bosque.
Girões de bruma do que não pode
ser dito em linguagem alguma mas cantam
partindo da folhagem em tuas palavras.

Miguel Veyrat traduzido por Victor Oliveira Mateus
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04/12/10

"Ouvre-moi tes bras/ pour que je t'offre/ le souvenir de ce long voyage!"

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"De la joie"

Te souviens-tu qu'un jour
tu m'as demandé en souriant:
- Qu'apportes-tu de ce long voyage?
- Regarde mon visage qui te répond:
une larme de joie dormante
dans les yeux du désir.

Qu'apportai-je de ce long voyage,
ô âme de ma vie? Un coeur brûlé
dans le regret d'un amour impossible,
un regard perdu dans le voile d'un rêve lointain,
un corps enfiévré de l'ardent désir de l'union.

Qu'apportai-je de ce long voyage,
ô âme de ma vie?
Des yeux émus d'une joie profonde,
des lèvres sur lesquelles s'est posé
un baiser d'espoir et de désir,
plus ardent que celui du soleil du Sud.

Je cherchai en vain un souvenir digne de toi
dans les ruelles de la ville,
finalement je me dis que je t'offrirai
un corps où s'enflamme une joie essentielle.

Lorsque je me regardai dans le miroir,
je vis hélas que la séparation
avait atténué mon éclat!
Je sollicitai donc le soleil pour qu'il me donne
soif, lumière, chaleur et brillance.

Maintenant, me voici cette flamme
qui incendie les âmes,
ô espoir de mon coeur fou et chagriné!
Ouvre-moi tes bras
pour que je t'offre
le souvenir de ce long voyage!

Forough Farrokhzad in "La conquête du jardin, Poèmes 1951 - 1965", Lettres Persanes,
Paris, 2008, pp 101 - 102 (Traduzido do persa para o francês por Jalal Alavinia com a
colaboração de Thérèse Marini).
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Nota - " Forough Farrokhzad rompe com a dialéctica da experiência e da linguagem. A sua poesia é absolutamente moderna já que não faz da experiência amorosa um facto da linguagem poética, nem sequer da prosódia do espaço onde se desvela a verdade dessa mesma experiência. A arte permite-lhe, pelo contrário, significar o inapagável excesso da dor, do exílio, da perda e da separação como se o poema visasse, em cada um dos seus versos desiguais, um dado real, que Farrokhzad enuncia como um segredo seu e completamente rebelde a toda a domesticação poética." Christian Jambet em tradução minha.
Outro pormenor: nunca antes de Farrokhzad nenhuma poetisa persa tinha ousado falar do corpo na sua inevitável articulação com os mecanismos do desejo. E a autora vai mesmo mais longe: recusa-se a ser uma presença estática para ser cantada, toma ela o papel activo e fala do acto amoroso, e do corpo do outro, como antes apenas os homens tinham feito.
.
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03/12/10

e ainda...


. O Livro "Os Acasos Persistentes" de Cláudio Neves, que tive o grato prazer de prefaciar,
.
. ficou entre os três finalistas do Prémio Aphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional
.
. do Brasil. O primeiro lugar foi alcançado pelo novo livro de Adélia Prado.
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A divulgação dos Clássicos.


(Clicar em cima da notícia)
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Nova entrevista de Ana Paula Dias, desta vez ao "Hoje Macau".
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02/12/10

Homenagem.

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SAIU A 51ª LEVA DA REVISTA ONLINE.... "DIVERSOS AFINS"
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. É UMA BELÍSSIMA HOMENAGEM QUE OS SEUS DIRECTORES (LEILA ANDRADE E
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FABRÍCIO BRANDÃO) DECIDIRAM PRESTAR AO POETA ILDÁSIO TAVARES.
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. VER AQUI: http://www.diversos-afins.blogspot.com/
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COLABORAM NESTA PUBLICAÇÃO OS AUTORES PORTUGUESES ( CASIMIRO DE BRITO,
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INÊS LOURENÇO e Victor Oliveira Mateus) e os SEGUINTES AUTORES BRASILEIROS:
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MARIA CONCEIÇÃO PARANHOS, MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA, HENRIQUE WAGNER,
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SILVÉRIO DUQUE e GIL VICENTE TAVARES, FILHO DO HOMENAGEADO.
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HÁ AINDA TEXTOS DOS DIRECTORES DA REVISTA (ACIMA REFERIDOS), BEM COMO
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DO PRÓPRIO ILDÁSIO TAVARES.
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01/12/10

"Humilde fragmento do mundo/ sou perene dentro do círculo. "

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"Círculo"

Fatias do ontem e do amanhã:
a eternidade me contém.
Adivinho esta vida apenas
curto instante de glória
dentro de outra obscura e maior
pois desde o barro pré-histórico
estive de algum modo presente
na promessa de carne dos avós
milenares e habito igualmente
tácita a matéria dos filhos.
Humilde fragmento do mundo
sou perene dentro do círculo.

Astrid Cabral in "50 Poemas Escolhidos pelo Autor", Edições Galo Branco,
Rio de Janeiro, 2008, p 10.
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Notícia bastante atrasada.



Lara de Lemos












(Num mail de ontem a poeta Astrid Cabral confirmou-me a morte de Lara de Lemos. Faleceu a 12 de Outubro deste ano. Uma sugestão: ler a sua poesia... documentar-se acerca das suas posições frente à então Ditadura Brasileira).
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30/11/10

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... a Filomena consolou-a, não sei, disse, o seu pai apaixonou-se e viveu um grande amor, uma maravilha, trocou de país em nome do seu amor, outra maravilha, aprendeu uma nova língua, uma nova cultura, o que poucos homens têm o privilégio de fazer, nova maravilha, depois viveu feliz vinte anos, acreditando no comunismo, presumindo-se na vanguarda do mundo, vinte anos de existência maravilhosa, em seguida deu-se a queda, a felicidade tornou-se infelicidade, com a mesma força, a mesma intensidade, o gosto em desgosto, a alegria em tristeza, em suma, a ilusão em desilusão - acho que o João Carreira da Mota foi um homem cheio de sorte na vida, a maioria de nós vive mediocremente, repetindo a eterna rotinazinha do trabalho, ao almoço uma dose de bacalhau à lagareiro, depois o trabalho, ao jantar uma posta de salmão, à noite muita televisão, o círculo repete-se no dia seguinte, e no dia seguinte, o seu pai, disse a Filomena, foi um homem de vida cheia, a Yanna não tem por que chorar, o seu pai era um nada em Sintra, um canteirozito, igual a qualquer outro, tornou-se tudo em Sófia, dono da vida e do futuro, e voltou a ser nada em Plovdiv, atravessou o ciclo da existência: nada, tudo, nada, nem sofreu o nada decadente da velhice, a maioria de nós percorre a existência sobrevivendo no nada: nada, nada e nada. Yanna sorriu, agradeceu à Filomena, retirou da maleta de estudante um embrulho irregular, de papel verde amarrotado, usado, abriu-o, o tinteiro de prata, velho, carcomido, mostrou-nos, devia devolvê-lo ao Estado português, não é meu, eu reembrulhei o tinteiro, de valor insignificante, percebia-se que não era de prata, as avarezas de Salazar, ferro disfarçado de prata, uma peliculazinha de prata, meti-o na maleta de Yanna, guarde-o, disse, conte aos seus filhos a história do avô, mostrando-lhes o tinteiro que viera de Portugal, eles vão gostar de saber a história de João Carreira da Mota, o soldado revolucionário que por amor veio para a Bulgária.
Levantámo-nos, Yanna passou-me o envelope com as memórias da rainha D. Amélia, Miguel, disse, entregue na Torre do Tombo, no espólio de Oliveira Salazar, donde nunca devia ter saído, passou-me um envelope para a mão, abri, a declaração da descoberta do manuscrito após a morte do pai, assumo a responsabilidade; muito bem, disse eu, aproximámo-nos da porta envidraçada, a empregada abriu-a, curvada até aos joelhos, cheia de salamaleques bizantinos, espreitando gorjeta, que dei, farfalhuda, enfatizando a superioridade do Ocidente, depedimo-nos, a Filomena ofereceu a casa em Sintra a Yanna, sempre que viesse a Lisboa, ela não podia fazer o mesmo, a casa da avó era um cubículo de uma assoalhada, ela dormia na sala, num sofá, beijámo-nos, Yanna olhou-me fixamente, a sua compostura gélida tremeu, emocionada, uma lâmina de água sulcava os seus olhos, agarrou-me o braço, comovida, Miguel, disse, tenho de ser sincera, os meus pais não morreram num acidente de viação, suicidaram-se, jogando o carro por uma ravina de 100 metros, abraçaram-me muito fortemente no dia da partida para Plovdiv, beijaram-me demoradamente, disseram-me que este tempo não era já o seu, aconselharam-me a não ficar presa a cadáveres, eu não tinha percebido, o meu pai depôs as mãos nos meus ombros e disse, solenemente, faz a tua vida sem te preocupares com a política, calhou-nos um tempo em que só os medíocres e os oportunistas vivem para a política, Yanna, disse-me o meu pai, muito sério, foram estas as últimas palavras que lhe ouvi, não fiques presa a cadáveres.
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Miguel Real in "As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia", Publicações Dom Quixote,
Alfragide, 2010, pp 54 - 55.
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29/11/10

"Mil vezes noutros tempos/ e noutras circunstâncias, "

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"Observação de Baleias"

Volumosa, enormíssima,
a cabeça do cetáceo mergulha no azul das águas,
e súbito se levanta a cauda enérgica,
formando um T,
T de Telmo,
visível um instante;
e o velho baleeiro reconhece
o veloz, impressivo monograma,
em negro forte,
que sempre julga ser a sua marca,
a sua identidade,
espargindo no ar uma chuva subtil e luminosa.

Mil vezes noutros tempos
e noutras circunstâncias,
contemplou com assombro a maravilha.
Remador bem poucos anos,
ainda jovem o fizeram
trancador de arpão certeiro,
admirado por isso, e festejado,
não só no Pico, mas nas ilhas próximas.

Tempos de glória, a que seguiram anos
de tristezas tamanhas!
Já Mestre Telmo lamentava a falta
de firmes vocações apaixonadas
em tão nobre domínio,
depois a morte de um filho muito amado
(herdeiro das funções de risco extremo)
num trágico acidente baleeiro.
Em todo o caso, agora - e não por isso,
naturalmente, mas porque diz quem sabe:
que as baleias escasseiam já um tanto -
foi a caça interdita,
num desespero de salvar-lhe a espécie.

De quando em quando,
sempre que o neto o convida
para um passeio no barco que possui
(moderno e muito bem apetrechado),
vai Mestre Telmo,
com seus binóculos de longo alcance,
sentado entre turistas poliglotas,
multicores.
Vai ver,
acompanhar de longe os belíssimos gigantes,
resfolgando,
felizes porventura,
nas ondas do Atlântico.

Chamam a isto, agora,
"observação de baleias",
vulgo Whale watching.

Norberto Ávila in "Percurso de Poeta", Edição do Autor, Lisboa, 2000, pp 60 - 62.
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26/11/10

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99

Lembro-me ainda de outra lição do meu pai.
Vigiai os crápulas - dizia - e vigiai os homens
que falam manso; há no excesso de fragilidade
exibida a preparação de uma maldade, pelo menos isso entendi.
Percebe os homens, caro Bloom, dizia-me o meu pai,
alguém se inclinará sobre a tua campa
para recolher rosas para a sua jarra.

100

Ninguém mata de tão longe como um homem,
e poderás dizer que esse facto prova
apenas a sua melhor pontaria ou tecnologia,
mas prova também a estratégia de uma espécie.
Não se ama a essa distância, por exemplo.

101

A condição humana é de uma mesquinhez absurda.
Os animais - um cavalo, por exemplo - falham quando escorregam
(a lógica das suas patas velozes é a rapidez
que não cai), para os homens em guerra, pelo contrário,
falhar é falhar na pontaria ao alvejar o inimigo
(e o massacre visto de longe parece apenas
uma obra-prima do xadrez).

(...)

108

Forte economia e fraca espada.
E eis o que é evidente: há mais inimigos
em tempo de paz do que em tempo de guerra.
Em tempo de paz cada exército
tem uma dimensão familiar, por exemplo,
sete elementos ( no caso de um casal
com cinco filhos) e o resto são inimigos.
São as minhas contas;
que posso fazer? - há muito perdi a ingenuidade.

109

A boa imagem do coração deve-se, em grande parte,
ao seu eficaz esconderijo. Sabe melhor isso
do que eu, Jean M. Os outros
são apenas alguém que nos olha.
Vigiar ou seduzir. Tudo o resto é cegueira.

Gonçalo M. Tavares in "Uma Viagem à Índia", Editorial Caminho,
Alfragide, 2010, pp 151 - 154.
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25/11/10

" E depois desabou de súbito no asfalto "

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"Desvario (He kissed me all over)"

(No passamento de Anna Nicole Smith,
deusa do amor.)

O sorriso de um escarlate cintilante
desfeito
A voz ébria e rouca da mulher a arrastar-se
He kissed me all over, all over
O olhar vesgo
A boca túrgida afrontosamente esborratada
O andar manco
O salto do sapato estropiado
O corpo devassado e devastado
A avançar aos tropeções pela calçada
Eis a deusa do amor
He kissed me all over
Repetiu num suspiro
E depois desabou de súbito no asfalto
Louca de felicidade
He kissed me all over

Maria Lucília Meleiro in "O prisma das muitas cores, Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez),
Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 134.
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24/11/10

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"A vida é um milagre"

( após rever Kusturica)


Todas as viagens são permutáveis. Assim as falsas
alegrias, as clausuras, a ternura até - tudo matéria
de troca, de empréstimo, de aluguer a módico preço
desde que nos faça esquecer a solidão, praticar a fuga
para a frente, justificar a verborreia em que se não crê
mas exercita: estridente ruído que se propaga, embala
e atordoa. Enfim, tudo tão igual entre si e eu tão igual
aos outros. Tudo tão monotonamente igual! Basta
o mesmo solo, os dissolutos meios, a firme fragilidade
que toda a segurança traz - o mesmo para a noite!

Todas as noites são igualmente permutáveis. E cada um
perdido a seu modo, apesar do ódio que despertamos
a quem não vê - nocturnas malhas com que sempre teço
as minhas madrugadas, as mesmas com que insisto,
com que aceno e depois comigo adormecem como luz
que não perdoa. Tudo isto penso agora (ou sinto?)
a léguas de casa. Mas... gosto da minha noite, confesso.
Lá fora uma chuva miudinha bate-me à janela. Chuva
fora de tempo - tal qual eu, felizmente! Minha irmã chuva,
diria o de Assis, que sempre espreita através dos meus versos.

Lá fora, o latir de um cão ao longe. O roçagar dos pneus
no pavimento molhado. O barulho de uma persiana que se
soltou. O ramalhar dos jacarandás que, em sintonia, acompanham
as gotas a baterem-me nos vidros, nos pensamentos - os meus,
estes que se emaranham corpo adentro com um não sei quê
de erótico, de inexplicavelmente torturante e apaziguador
ao mesmo tempo. E há também o teu rosto, quase sem contornos:
sombra a dissolver-se na sombra. Há os passos arrastados
de vizinha de cima. Os acordes de Fantástica de Berlioz
que acendi na penumbra. Na realidade todas as noites
são permutáveis, mas eu... só a custo deixaria a minha.

Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, pp 38 - 39.
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11/11/10

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"Uma Canção"


Por detrás dos meus olhos há águas
Tenho de as chorar todas.

Tenho sempre um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Respirar cores com os ventos
Nos grandes ares.

Oh, como estou triste...
O rosto da lua bem o sabe.

Por isso, à minha volta há muita devoção aveludada
E madrugada a aproximar-se.

Quando as minhas asas se quebraram
Contra o teu coração de pedra,

Caíram os melros, como rosas de luto,
Dos altos arbustos azuis.

Todo o chilreio reprimido
Quer jubilar de novo

E eu tenho um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Else Lasker-Schuler in " A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2001, p 249 (Selecção e Tradução de João Barrento).
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A poesia de Chico Buarque...

Por Eugénia Melo e Castro e Adriana Calcanhoto.

10/11/10

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- Estúpido de merda - disse eu. Tinha-me levantado, sem tencionar fazê-lo. - O Bobby não tem feito outra coisa nesta vida se não adorar-te. E tu não tens feito outra coisa se não abandoná-lo. Não tens o direito de falar assim com ele.
- Oh, e tu também me saíste uma bela prenda - disse ele. - Deixas que eu me apaixone por ti e depois começas a dormir com o meu melhor amigo. És mesmo a pessoa indicada para me dizeres aquilo que tenho o direito de fazer.
- Espera lá. Eu deixei que te apaixonasses por mim? Quem é que disse que estavas apaixonado por mim?
- Disse eu. Digo-o agora. Apaixonado por vocês os dois. E agora só quero que me deixem em paz.
- Jon - chamou Bobby. - Oh, Jon...
- Tenho de sair daqui - disse Jonathan. - Sinto que vou enlouquecer aqui dentro. Até logo.
- A tua mãe levou o carro.
- Então vou a pé.
Levantou-se do cadeirão e saiu pela porta da frente. A porta fechou-se atrás dele com um suspiro patético - o som da madeira barata encaixando numa moldura de alumínio.
- Vou atrás dele . disse Bobby.
- Não. Deixa-o ir, deixa-o refrescar as ideias. Ele volta.
- Não. Tenho de falar com ele. Tenho estado aqui sentado sem abrir a boca.
- O pai dele acabou de morrer - lembrei-lhe. - Ele não está no seu perfeito juízo. Precisa de estar sozinho.
- Não, tem estado sozinho há demasiado tempo - disse Bobby. - Precisa que eu vá atrás dele.
Bobby libertou-se das minhas mãos e correu para a porta. Não teria conseguido detê-lo mesmo que tentasse (...). Saí atrás deles. Não para intervir, mas simplesmente porque não queria ficar à espera deles, sozinha, naquela casa imaculada.
Pela altura em que saí de casa, Jonathan já estava a um quarteirão de distância. Era uma figurinha ridícula a caminhar apressadamente, de cabeça baixa, sob a luz de um candeeiro. Cheguei ao passeio a tempo de ouvir Bobby chamar por ele. Ao ouvir o seu nome, Jonathan começou a correr sem olhar para trás. Bobby desatou a correr atrás dele. E eu, nervosa por me deixarem sozinha naquela casa assombrada, corri atrás de Bobby.
Bobby era o mais rápido dos três. Eu nunca fazia exercício, estava grávida, e tinha uns sapatos de salto alto que me obrigavam a correr como a heroína de um thriller(...)
Dois quarteirões à minha frente, Bobby alcançou Jonathan(...) Vi Jonathan espernear (...) e atingir Bobby com um soco.(...) Caíram juntos, golpeando-se um ao outro com os punhos.
- Parem com isso - gritei. - Seus parvalhões. Parem, ouviram? - Quando cheguei ao pé deles estavam a rebolar pelo chão (...). Ao fim de uns momentos consegui agarrá-los aos dois pelo cabelo e arrepelei-os com toda a força. - Parem - disse eu. - Parem. Imediatamente.
Pararam. Não lhes larguei o cabelo até estarem separados e sentados frente a frente no alcatrão macio da rua. O golpe na cara de Jonathan sangrava. (...) - Idiotas - gritei. - Vocês são mesmo doidos, não são? Vocês os dois.
- Somos - respondeu Bobby. E, no mesmo instante, desataram ambos a rir.
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Michael Cunningham in "Uma casa no fim do mundo", Gradiva, Lisboa, 2003,
pp 245 - 247 ( Tradução: Rui Pires Cabral).
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09/11/10

"Mas a violência não consiste tanto em ferir e em aniquilar como em interromper a continuidade das pessoas... "

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Facilmente se concordará que importa muitíssimo saber se não nos iludiremos com a moral.
A lucidez - abertura de espírito ao verdadeiro - não consiste em entrever a possibilidade permanente da guerra? O estado de guerra suspende a moral; despoja as instituições e as obrigações eternas da sua eternidade e, por conseguinte, anula, no provisório, os imperativos incondicionais. Projecta antecipadamente a sua sombra sobre os actos dos homens. A guerra não se classifica apenas - como a maior entre as provas de que vive a moral. Torna-a irrisória. A arte de prever e de ganhar por todos os meios a guerra - a política - impõe-se, então, como o próprio exercício da razão. A política opõe-se à moral, como a filosofia à ingenuidade.
Não há necessidade de provar por meio de obscuros fragmentos de Heráclito que o ser se revela como a guerra ao pensamento filosófico; que a guerra não o afecta apenas como o facto mais patente, mas como a própria patência - ou a verdade - do real. Nela, a realidade rasga as palavras e as imagens que a dissimulam para se impor na sua nudez e na sua dureza. Dura realidade (eis um verdadeiro pleonasmo!), dura lição das coisas, a guerra produz-se como a experiência pura do ser puro, no próprio instante da sua fulgurância em que ardem as roupagens da ilusão. O acontecimento ontológico que se desenha nesta negra claridade é uma movimentação dos seres, até aí fixos na sua identidade, uma mobilização dos absolutos, por uma ordem objectiva a que não podemos subtrair-nos. A prova de força é a prova do real. Mas a violência não consiste tanto em ferir e em aniquilar como em interromper a continuidade das pessoas, em fazê-las desempenhar papéis em que já se não encontram, em fazê-las trair, não apenas compromissos, mas a sua própria substância, em levá-las a cometer actos que vão destruir toda a possibilidade de acto. Tal como a guerra moderna, toda e qualquer guerra se serve já de armas que se voltam contra o que as detém. Instaura uma ordem em relação à qual ninguém se pode distanciar. Nada, pois, é exterior. A guerra não manifesta a exterioridade e o outro como outro; destrói a identidade do Mesmo.
A face do ser que se mostra na guerra fixa-se no conceito de totalidade que domina a filosofia ocidental. Os indivíduos reduzem-se aí a portadores de formas que os comandam sem eles saberem. Os indivíduos vão buscar a essa totalidade o seu sentido (invisível fora dela). A unicidade de cada presente sacrifica-se incessantemente a um futuro chamado a desvendar o seu sentido objectivo. Porque só o sentido último é que conta, só o último acto transforma os seres neles próprios. Eles serão o que aparecerem nas formas, já plásticas, da epopeia.
A consciência moral só pode suportar o olhar trocista do político se a certeza da paz dominar a evidência da guerra. Uma tal certeza não se obtém por simples jogo de antíteses. A paz dos impérios saídos da guerra assenta na guerra e não devolve aos seres alienados a sua identidade perdida. É necessária uma relação originária e original com o ser.
Historicamente, a moral opor-se-á à política e terá ultrapassado as funções da prudência ou os cânones do belo, para se pretender incondicional e universal quando a escatologia da paz messiânica vier sobrepor-se à ontologia da guerra. Os filósofos desconfiam dela. Sem dúvida, tiram dela partido para anunciarem também a paz; deduzem uma paz final da razão que faz o seu jogo no meio das guerras antigas e actuais: fundam a moral na política. Mas, adivinhação subjectiva e arbitrária do futuro, fruto de uma revelação sem evidências, tributária da fé, a escatologia depende, para eles, muito naturalmente da Opinião.
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Emmanuel Levinas in "Totalidade e Infinito", Edições 70, Lisboa, 2000, pp 9 - 10
(Tradução: José Pinto Ribeiro - Revista por Artur Mourão).
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08/11/10

" Representei/ E cansei-me; e desatei a gritar tudo... "

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"Poema Vesperal"

Dizem que não tenho idade para estar cansado.
Digo que não tenho idade para estar cansado.
Mas eu estou irremediavelmente cansado...
Não sei se conheço ou não a Vida,
(Toda a gente diz que não, que é impossível...)
Contudo, estou cansado.

Representei
E cansei-me; e desatei a gritar tudo... toda a Verdade.
Febrilmente gritei, rasguei máscaras, cuspi máscaras...
Agora até disso estou cansado
E nem leio o meu Baudelaire... o Príncipe de Todos.

Experimentei "tomar alegria",
Ouvir danças bárbaras,
Ver danças bárbaras,
Grandes contorções modernas,
- Sabiam falso...

Mais tarde descobri morto aquele-menino-que-fui.
Chorei... tive saudades... ai!, puro menino saudável...

Cansei saudades e lágrimas também...

- Ainda procurei vibrar...
Vibrar!, vibrar!

Vibrou apenas minha carne
E até ficar axausta, também...

Estou muito cansado.

Só interessa ir para a cama
E dormir...

Dormir bem...

Cristovam Pavia in "Poesia", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2010, pp 67 - 68.
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07/11/10

" Estou grave e calmo./ E não preciso de ninguém "

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"Requiem"

(ao menino morto, eu próprio)

A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos:
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas...)

Oh, não há solidão nas neblinas de inverno
Pela erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...
Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo.
Já me confundo contigo.

Cristovam Pavia in "Poesia", Publicações D. Quixote, Lisboa, 2010, p 31.
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06/11/10

" Une nuit,/ si tu appelles mon nom,/ je t'inviterai au pays des rêves."

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"Une nuit..."
.
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Une nuit,
de l'au-delà des ténèbres
comme une étoile
je viendrai vers toi.
Sur les ailes du vent coureur du monde,
je viendrai te chercher avec joie.
.
Comblée de tendresse et d'ivresse,
comme un beau jour d'été,
je t'offrirai une jupe pleine
de tulipes sauvages de la montagne.
.
Une nuit,
je frapperai à ta porte,
ton coeur tremblera dans ta poitrine.
La porte s'ouvrira et mon corps impatient
glissera dans tes bras chauds.
.
Dans ces instants d'ivresse,
tu ne verras plus dans mes yeux
la moindre trace d'évasion.
Tu ne verras plus dans mes yeux
le regard éteint d'une enfant
en bataille avec la honte.
.
Une nuit,
si tu appelles mon nom,
je t'inviterai au pays des rêves.
Je danserai comme les sirènes
sur les vagues de ton souvenir.
.
Une nuit,
mes lèvre assoiffées
se brûleront avec joie
dans le feu de tes lèvres.
Mes yeux fixeront leur espoir
sur la destination de ton regard.
.
Une nuit,
de Vénus, la déesse charmeuse,
j'apprendrai les jeux de l'amour.
Comme une lumière
née du ventre des ténèbres,
j'allumerai un feu auprès de toi.
.
Ô toi,
les yeux rivés sur le chemin!
C'est moi qui viendrai vers toi.
Sur les ailes du vent coureur du monde,
je viendrai te chercher avec joie.
.
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Forough Farrokhzad in "La Conquête du Jardin (Poèmes 1951 - 1965)",
Lettres Persanes, Paris, 2008, pp 57 - 58
(Traduzido do persa para o francês por Jalal Alavinia
com a colaboração de Thérèse Marini).
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05/11/10

"Liberta-te da pedra! Rebenta/ a caverna que te escraviza! Lança-te "

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"Cariátide"

Liberta-te da pedra! Rebenta
a caverna que te escraviza! Lança-te
extasiada pela campina! Escarnece das cornijas -
olha: pela barba do sileno ébrio,
do seu sangue eternamente fervilhante
sonoro único perpassado de ecos,
goteja vinho no seu sexo!

Cospe na colunomania: mãos senis
e tocadas da morte as ergueram tremendo
para céus sombrios. Desmorona
os templos ante a nostalgia do teu joelho
a apetecer a dança!

Estende-te, desabrocha, oh, cobre do sangue
de grandes feridas o teu canteiro macio:
olha, Vénus com as suas pombas engrinalda
de rosas as ancas, como porta do amor -
olha o último sopro azul deste verão
que sobre marés de sécias é levado
às longes margens castanhas de folhagem;
olha o dealbar desta última hora, voluptuosamente enganadora,
da nossa meridionalidade
abobadada.

Gottfried Benn in " A Alma e o Caos, 100 poemas expressionistas", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, Lisboa, 2001, p 267 (Selecção e Tradução de João Barrento).
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Lançamento de livro.


. Dia 27 de Novembro, pelas 16h00 - lançamento do livro "Regresso"
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Com:
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Introdução de ............ .......... Érico Nogueira
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Posfácio de ........................... Paulo Franchetti
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Texto da contracapa de ....... Marta López Vilar
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Quadro da capa de ............... Eduarda Costa Ferraz
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EM BREVE MAIS PORMENORES SOBRE A APRESENTAÇÃO DESTE LIVRO.
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04/11/10

" diz-me como farei para esquecer-te. "

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" Presumível Mensagem de Dido a Eneias"

Do coração me brotam as palavras
espontâneas,
resplandecentemente verdadeiras.

Se digo que te amo é que te amo.

Tu, que subitamente me esqueceste,
diz-me como farei para esquecer-te.

Norberto Ávila in "Percurso de Poeta", Ed. Autor, Lisboa, 2000, p 36.
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"Querida Bruna./ agora que (talvez) um ataque cardíaco te fez parar/ a batida ao teu coração/ puro e inocente "

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Querida Bruna:
depois de muito
contar recontar repisar
a minha impotência
para lutar contra a surda avareza
dos que nos obrigam a afastarmo-nos
.
depois de - passados 2 anos-
te recordar revisitar brincar
e mimar
saudosa
à distância
na impotente distância
.
depois de
- passados estes
dois
anos-
te reconhecer em cada cão que parava a cheirar-me
botas sapatos casacos
cada cão que
meloso
me pedia uma festa
um mimo
uma atenção
.
depois de todos estes
dois
anos
de sublime
acção
eis que me começaste a aparecer
nos sonhos.
.
não estranhei
convicta de que a razão
quadrada
me explicava, assim,
a emergência
dos recônditos e la
tentes sentimentos
saudosos
- de saudosa impotência.
Erro meu, impotente razão.
.
Foi à chegada ao centro comercial
- e só aí -
que percebi.
.
Eu explico melhor:
entrei
e dei de caras com as duas queridas amigas
que te ajudaram a melhorar de vida.
.
cumprimentámo-nos
- nada de novo
nem de estranho-
até que eu disse que era bem curioso encontrá-las
quando andava a pensar ir visitar-te:
"gostava de ir ver a Bruna", disse.
.
parca razão
mente impotente
distraída do essencial.
.
"a Bruna? deixe lá! há-de vir a ter outra cadelinha!"
ao que respondi, repetindo:
" a sério: queria mesmo, estou decidida
a ir vê-la."
.
.
silêncio.
sábio.
(que eu não escutei)
.
.
"a Bruna?... maasss... a Bruna morreu!"
.
e continuámos a conversa, amigavelmente
- eu, grata, gratíssima às almas que te acolheram.
.
Querida Bruna.
agora que (talvez) um ataque cardíaco te fez parar
a batida ao teu coração
puro e inocente
cumpre-me
dizer:
.
Obrigado, Mãe Natureza,
por cuidares, agora, da Bruna.
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Obrigada, Bruna,
por me teres ensinado tanto
da tua
Mãe
Natureza.
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Maria Toscano (Inédito) - Coimbra, Parque Verde, 1 Novembro/ 2010.
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03/11/10

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               "Grodek"

Ao entardecer, as florestas outonais
ecoam de armas mortíferas, e as planícies douradas
e os lagos azuis, por sobre os quais rola
um sol sombrio; a noite abraça
guerreiros moribundos, o lamento selvagem
das suas bocas destroçadas.
Mas, em silêncio, num fundo de salgueiros,
juntam-se nuvens rubras, onde um Deus irado habita;
e o sangue derramado, e frescura lunar;
todos os caminhos desembocam em negra podridão.
Sob dourada ramagem da noite e sob estrelas
a sombra da irmã vacila pelo bosque de silêncio,
para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças ensanguentadas;
e levemente, nos canaviais, soam as flautas sombrias do outono.
Oh, dor orgulhosa! Vós, brônzeos altares,
Uma dor portentosa alimenta hoje a chama escaldante do espírito,
Os filhos que ainda hão-de nascer.

Georg Trakl in " A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2001, p 241 (Selecção e Tradução de João Barrento).
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02/11/10

" enquanto o tempo passa e não me traz/ aquele por quem sou rainha e serva."

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No tempo bordarei a minha dor
no tempo (esse tapete) bordarei
o tempo que não passa e que passei
fiando e desfiando por amor.

No tempo estas perguntas: onde e quando?
No tempo que se vai e não me leva
àquele por quem sou rainha e serva
fiando por amor e desfiando.

No tempo que se vai e se repete
no tempo bordarei o meu tapete
num fazer-desfazer que me desfaz.

Enquanto o tempo vai e não me leva
enquanto o tempo passa e não me traz
aquele por quem sou rainha e serva.

Manuel Alegre in " 30 Anos de Poesia", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1997, pp 283 - 284.
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Nota - Este soneto é parte das falas de Penélope no livro de Manuel Alegre "Um barco para Ítaca" (1971), livro esse depois incluído nesta Antologia. Uma curiosidade: a Ditadura estava de tal modo podre, que a primeira vez que li "Um barco para Ítaca" cumpria eu o serviço militar e a obra circulava por aquelas bandas, em fotocópias.
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01/11/10

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      "Soneto Dominical"


Já não me aflige mais a pasmaceira
do domingo. Meus filhos mundo afora
e eu em casa pensando. A vida inteira
ensina-me a ser só. Não é agora

que eu hei-de reclamar. Segunda-feira
há-de chegar. Há-de chegar a hora
em que se apague a chama derradeira;
em que a vida me diga: vá-se embora.

Tudo tão natural. A árvore morta
já não abriga pássaros nos ramos
que, pouco a pouco, vão caindo ao chão.

Amei mal as mulheres. Mais amamos
nós mesmos, nosso ofício. Pouco importa
a vida; este domingo; a solidão.

Ildásio Tavares in "As Flores do Caos", Editora Labirinto, Fafe, 2009, p 31.
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Ildásio Tavares (25/1/1940 - 31/10/21010)

Da esquerda para a direita: Maria do Sameiro Barroso, Victor Oliveira Mateus, Luís Graça, António José Queirós e Ildásio Tavares, na Livraria "Pó dos Livros", em 2009, durante o lançamento do livro As Flores do Caos.

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Faleceu no passado dia 31 de Outubro, vítima de doença súbita, o Poeta brasileiro Ildásio Tavares. Pertencente à geração da Revista da Bahia, Ildásio Tavares era formado em Direito e em Letras, fez depois o mestrado na Southern Illinois University, o doutorado na Universidade Federal do Rio e o pós-doutorado na Universidade de Lisboa. Tendo leccionado Literatura Portuguesa na Universidade da Bahia, a sua obra estendeu-se por vários géneros: poesia, romance, teatro, ensaio, jornalismo. O seu primeiro livro de poesia, Somente um Canto, data de 1968 e em 2009 esteve em Lisboa para assistir ao lançamento do seu livro As Flores do Caos, publicado pela Editora Labirinto.
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E pronto daqui para a frente é quase
fui de um lado ao outro de imagens
lembrei beijinhos e as fotografias
percebi que tudo acabou depois de mudar
e fui ganhando os dias sempre tarde
à margem e na mesma maneira
tão quieta que agora espanta
e o durar é o segredo mas
hoje é o primeiro dia sem ti mesmo
e pronto de noite a família soube
começava a morrer a arranjar espaço
onde caísse devagar a terra e fofa
centenas e verdes montanhas em frente e
ao meio meu corpo enterrando o teu
são centenas e milhares de montes verdes
são trezentos e tal dias a passar a toda a gente
lindas as estrelas a ver e as nossas canções
perfeitas as canções a caminho de casa
e pronto olha deixo-te aqui muita coisa
eu acho que te deixo aqui mesmo tudo
vi também ao lado terras devastadas
árvores e casas tombadas o fim do mundo
uma palma vulnerável como numa caixinha
e dobrando lá dentro minha mão vazia
hoje é portanto esse dia
acho que uma coisa muito grande é isto
acabar o Natal comove um sorriso selvagem
e as vozes este dia em mais miúdos
mas eu acho que é mesmo tudo isto
olho longe o mar torto e encapelado
e fico a arrumar as tuas coisinhas

Hugo Milhanas Machado in " As Junções", Ed. Artefacto, Lisboa, 2010, pp 77 - 78.
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31/10/10

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"As Sereias"


Atraídas e traídas
atraímos e traímos

Nossa tarefa: fecundar
atraindo
nossa tarefa: ultrapassar
traindo
o acontecer puro
que nos vive.

Nosso crime: a palavra.
Nossa função: seduzir mundos.

Deixando a água original
cantamos
sufocando o espelho
do silêncio.

Orides Fontela in "Poesia Reunida (1969 - 1996) ", Cosac Naify/ 7 Letras,
São Paulo/ Rio de Janeiro, 2006, p 96.
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"Questões"


a)
O
fruto
arquitetado:
como o sermos?

b)
Difícil o real.
O real fruto.
Como, através
da forma
distingui-lo?

c)
Aguda
a
luz
sem forma
do que somos.
Como, sem vacilações
vivê-la?

Orides Fontela in "Poesia Reunida (1969 - 1996)", Cosac Naify/ 7 Letras,
São Paulo/ Rio de Janeiro, 2006, p 59.
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30/10/10

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"Col du Tourmalet"


Desta vez é que é muito embora
não se saiba muito bem porquê
ele vai feroz no alto do Tourmalet
faz lembrar o dia em que te imaginei
e acreditei não querendo a verdade porém

Faz lembrar o dia em que te imaginei
quando digo desta vez é que é
e agora na verdade já nem sei
que piso que vejo e grito é quem
este homem no alto do Tourmalet?

Hugo Milhanas Machado in "As Junções", Ed. Artefacto, Lisboa, 2010, p 15.
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29/10/10

"(...) o destino// não é a rosa dos ventos é um desvio para obras"

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"Ithaca, NY"

a saudade não são flores secas no teu leito
é o velho 2cv atirado para o ferro-velho a insónia

não é o manto de negridão que cobre as vielas
é um despertador que indica as 3:09 o medo

não é o brilho dos punhais ao luar mas homens
disfarçados de elvis atrás das esquinas o destino

não é a rosa dos ventos é um desvio para obras
ítaca não é ítaca é san francisco

Pablo García Casado in "Trípticos Espanhóis - 3º", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 153 (Seleção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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" nada mais posso oferecer-te apenas tenho o que sou "

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"Código de Bar"

sós ou em companhia todos os príncipes se foram
ficamos os de sempre ou de outras vezes os que já
nos conhecemos vou ser breve proponho-te

um lugar afastado olhar as últimas estrelas
tomar juntos o primeiro café com leite do domingo
nada mais posso oferecer-te apenas tenho o que sou

além de um erre cinco com assentos abatíveis

Pablo García Casado in "Trípticos Espanhóis - 3º", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 127 (Selecção e Tradução: Joaquim Manuel Magalhães).
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28/10/10

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(Que fez o Autor a um capitão de
infantaria que o acharam fornicando
com uma negra)

"Décimas"


Ontem, senhor Capitão,
vos vi deitar a prancha,
e embarcar-vos numa lancha
de gentil navegação;
a lancha era um galeão,
que joga trinta por banda,
grande popa, alta varanda,
tão grande popa, que dar
podia o cu a beijar
à maior urca de Holanda.

Era tão azevichada,
tão luzente, e tão flamante,
que eu cri, que naquele instante
saiu do porto breada:
estava tão estancada,
que se escusava outra frágua,
e assim tive grande mágoa
da lancha, por ver que quando
a estáveis calafetando,
então fazia mais água.

Vós logo destes à bomba,
com tal pressa, e tal afinco,
que a pusestes como um brinco,
mais lisa, que uma pitomba.
Como a lancha era mazomba,
jogava tanto de quilha,
que tive por maravilha
não comê-la o mar salgado,
mas vós tínheis o cuidado
de lhe ir metendo a cavilha.

Desde então toda esta terra
vos fez por aclamação
capitão de guarnição
não só, mas de mar e guerra.
Eu sei, que o povo não erra,
nem nisso vos faz mercê,
porque sois soldado que
podeis capitanear
as charruas de além-mar,
se são urcas de Guiné.

Gregório de Matos in "Melhores Poemas" (Seleção e fixação de texto: Darcy Damasceno),
Global Editora, São Paulo, 2000, pp 141 - 142.
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27/10/10

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(Ao mesmo padre, por querer saber
todas as ciências)


"Soneto"


Este padre Frisão, este sandeu,
tudo o demo lhe deu e lhe outorgou,
não sabe Musa, musae que estudou,
mas sabe as ciências que não aprendeu.

Entre catervas de asnos se meteu,
entre corjas de bestas se aclamou:
aquela Salamanca o doutorou,
e nesta Salacega floreceu.

Que é um grande alquimista, isso não nego,
que alquimistas de esterco tiram ouro,
se cremos seus apócrifos conselhos,

e o Frisão as irmãs pondo ao pespego (1),
era força tirar grande tésouro,
pois soube em ouro converter pentelhos.

Gregório de Matos in "Melhores Poemas" (Seleção e fixação de texto: Darcy Damasceno),
Global Editora, São Paulo, 2000, p 20.

- (1) Pondo ao pespego - prostituindo.
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26/10/10

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             "Erinias"


Los deseos tenaces como un perro
que se obstina en negar el abandono.
Cuántos impulsos fieles
gimen si abro la puerta. Sus hocicos humean
con aliento nublado en el pasillo.
A los pies de la cama laten, desencarnadas,
sus vísceras calientes, tumorales.
Metástasis inmensas
desfiguran el cuerpo de la noche.
Mis erinias - criaturas malcriadas,
panteras en la alfombra -
piden, muerden despojos.

Las furias, oh, las furias,
sus aullidos carnales...

Aurora Luque in "Carpe Amorem - Antologia ", Editorial Renacimiento, Sevilla,
2007, p 155.
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"Tínhamos bebido e o álcool/ não se tinha estancado, girava docemente/ como única chave que muitas portas abre."

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"Homossexualidade"
(Segunda versão)

Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.

Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.

Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
- um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso -,
e em amar só aquilo que for com o possível.

Luis Muñoz in "Trípticos Espanhóis - 3º", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 115 (Selecção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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25/10/10

" Ficaram apenas entre os dois/ as armas do desejo e as da falta. "

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"Armas"

Demoraram até falar-se.
A escuridão actuava como um eco,
espelhos de um oceano,
e no tumulto do recinto,
primeiro um sorriso, onde foste,
pôde quebrar a lâmina de gelo.

Há quase um mês e cada um
pensou vinte maneiras de o outro voltar.
Mas sempre se impôs um temor vago,
de asfixia e voltas de espiral.
A não saber dizê-lo,
a que falhar já fosse para sempre.

Por isso ao primeiro gesto se fundiram
as armas que esboçou a resistência deles.

Ficaram apenas entre os dois
as armas do desejo e as da falta.

Luis Muñoz in "Trípticos Espanhóis", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 79 (Selecção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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" grande pedra de saudade/ de olhos hirtos. "

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No dia em que te foste embora,
longos navios de silêncio
encheram a casa,
tão grande, tão vasta!
Todos os gatos da vizinhança
comiam cogumelos
e varriam as cascatas dos cemitérios
com agudas lâminas de tédio.
No cais das horas
fiquei a esperar-te:
grande pedra de saudade
de olhos hirtos.
Paira sobre mim a presença
de uma mão pálida
e sempre uma ave parte:
nunca sei para onde.

Manuela Margarido, Poema XXI de "Alto como o silêncio" in "Polifonias
Insulares - Cultura e Literatura de São Tomé e Príncipe" de Inocência Mata,
Edições Colibri, Lisboa, 2010, p 180.
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24/10/10

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            "Pentesilea"


Las crines empapadas como algas
blanquecinas se alejan: el hermoso caballo,
desnuda ya la muerte por los campos,
huye despavorido entre despojos.
En el alba, la curva delicada
de un pecho frente a un turbio destino de guerrero.

- Qué dulcemente amargo el sabor insensible
de la noche contigo, oh Amazona.
La fruta de tu aliento, tibia y dulce,
no pude ya morder: un dios cambió los dados, y la muerte
anticipó su turno en la escalera
de la vida perfecta de los héroes.
El prólogo, los himnos, los presagios,
la gloria de la red, la humedad de los ojos,
la carnación, el iris, el fulgor, el asombro
con que la diosa engaña sin piedad a los seres
me fueron evitados; sólo al darte la muerte
me devolvió tu cuerpo su perfume de sombra
y sólo he alcanzado, del amor, la belleza
altiva de su cumbre en brazos de la nada.

Aurora Luque in "Carpe Amorem - Antologia", Editorial Renacimiento,
Sevilla, 2007, p 75.
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23/10/10

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              "Terraza"

-
 De acuerdo: ya no existen visionarios,
el excesso de amor no está de moda
- tampoco el adjectivo de color -
y es ridículo hablar de las sirenas.
El poeta se ausenta del poema; entretanto,
toma café o el sol con los amigos,
baja un taxi hasta el mar y la metáfora
se desnuda delgada entre las olas.
- Prefieres la piscina? El poema no sufre
descarnado de ti. Toma un vaso y ginebra,
sumerge tu inocencia, paladea
la tarde sin noticia,
sin mito, sin pasado, en la indolente
hamaca del silencio. De regresso,
tu poema te aguarda suicidado.

Aurora Luque in "Carpe Amorem - Antologia", Editorial Renacimiento,
Sevilla, 2007, p 47.
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22/10/10

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"Que fazes aqui?"


Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.

Amalia Bautista in "Trípticos Espanhóis - 3º ", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 53 (Selecção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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21/10/10

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" A Vida Responsável"


Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para só fazer coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.

Amalia Bautista in "Trípticos Espanhóis - 3º", Relógio D' Água Editores, Lisboa,
2004, p 31 (Selecção e Tradução: Joaquim Manuel Magalhães).
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17/10/10

" Queremos lembrar./ E o que lembramos/ é mar. "

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"Ela vive em mim"

Veja este braço que em volta do corpo dela.
Mal pode avançar nas conchas do banco.
Se outro homem esteve aqui,
arrancou areia,
seixos e o lodo colorido que
pomos rente às pedras
pra divertir os videntes.
O último
foi um forasteiro que prometeu mundos e fundos
e fugiu com outro na noite de Ano Bom.

Agora queremos aprender.
Ela me disse primeiro pelas mãos.
Então fiquei ali dentro da palma esperando
a hora de me mover sem luta.
( Pare um pouco de pensar
para não se perder com o que é banal.)

A gente sempre pensa
não é preciso mais nada,
pode parar tudo.
Mas é assim que é,
não pára de acontecer,
e mal podemos acompanhar a boca, as coxas,
avançando sempre sem fé.
Pensávamos que era aquele lábio, aquele dente,
ou ainda os rios descompostos
que elegêramos para o pálido janeiro.
Depois fomos descobrindo -
não era isso, não era eu, nem ela, nem nenhuma
parte dos beijos, por mais que voltemos.
Antes do mundo já sonhávamos.
Era um mundo estranho que queríamos.
Estivemos lá. Mas esquecemos o que ele era.
Queremos lembrar.
E o que lembramos
é mar.

Sérgio Nazar in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira"
(Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto,
Fafe, 2010, pp 179 - 180.
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16/10/10

"La poésie comme la vie/ n'admet pas de réponse "

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Il y aura toujours cette question
à quoi ça sert

Non comme un chant de sirènes
mais une pensée sincère

Le poème meurt devant l'enfant qui meurt

La poésie comme la vie
n'admet pas de réponse

La quête est objet de la quête
qui s'arrête quelquefois

devant un visage

Azadée Nichapour in "Parfois la Beauté", Seghers, Paris, 2008, p 90.
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15/10/10

"Mais la mélancolie de mes yeux/(...) dans la pierre "

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Je regarde le silence
où ses doigts infinis
osculptent mon visage

Mais la mélancolie de mes yeux
comment va-t-il faire
pour l'écrire dans la pierre

Azadée Nichapour in "Parfois la Beauté", Seghers, Paris, 2008, p 58.
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14/10/10

" À présent je marche en moi-même"

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On se croit arrivé depuis longtemps
mais la route continue

À présente je marche en moi-même
épuisée du chemin qui me sépare de moi

Azadée Nichapour in "Parfois la Beauté", Seghers, Paris, 2008, p 14.

(Nota - esta poeta iraniana, vivendo hoje em Paris, escreve directamente em francês, daí a inexistência de tradutor na referência bibliográfica.)
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13/10/10

"(...) os dois estamos/ cheios de buracos - e nem é grave/ se soubermos flutuar. "

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"Chat"

Em Mercúrio, Sexta-feira, a sonda
detectou duas crateras de auréolas
sombrias. Apresentam ambas bordos
quase intactos e muros de socalcos

segundo especifica o endereço
http://messenger.jhuapl.edu/
( anoto e espero que o poema
seja eterno e o link não). Cliquei

para ampliar a imagem, e dentro
vi pequeninas covas circulares
como as que na areia faz a chuva
ou nas fontes as moedas dos desejos.

Também por via Messenger te encontro
e troco novidades, mais veloz
do que a luz, mais ágil o gracejo
do que o próprio pensamento, faísca

o espaço - onde chegamos, sem risco
já de nos tocarmos; os dois estamos
cheios de buracos - e nem é grave
se soubermos flutuar. Em tudo isto

ainda há algo como um halo fundo
e um radar que é como água gotejando
por degraus, que inquieta mas seduz
e nos deixa sombrios intactos sós.

Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 60.
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11/10/10

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"Emotional Turn"


O nosso embalo vem à direita da letra
e já vem tempo que parece ser fatal
o que no fim do dia arrepende
Temos uma toada emocional, embora fria
Disputamo-la nas pequenas imagens
truques traves e toques
de potentes linguagens que algum dia
até são nossas, e logo se nos espraiam
mas mesmo, reparo Praia e praia
Eu aqui só digo praia
Temos uma toada emocional, tão fria
como o favorito do Pessoa, e isso sim
o amor todo dobrado
também uma grande galeria
de coisas que ainda fazem chorar
como na escola as festas de fim de ano
com grupos de língua inglesa e
tremendamente enamorados
já ninguém diz

Hugo Milhanas Machado in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 79.
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"O amor aos sessenta"


Isto que é o amor ( como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

Alberto da Costa e Silva in " O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Organização: Victor Olivieira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez),
Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 22.
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Instantâneos do lançamento do dia 9/10 (apenas as imagens sem quaisquer nomes!).






10/10/10

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           "Soneto"


Se alguém batesse à minha porta um dia
E me chamasse à vida que há na rua,
Eu - que não quero ouvir - nada ouviria
Que apenas ouço aquela voz que é tua.

Se alguém de noite abrisse a gelosia
Para que eu pudesse olhar a luz da lua,
Eu - que não posso ver - nada veria
Que a condição de cega continua.

Nem punhal feito em aço de Toledo
Me atinge o coração porque ele somente
No aço dos teus olhos se desfaz.

Pois contra mim lançou este bruxedo
O Amor: de meus sentidos nenhum sente
Senão o sentimento que lhes dás.

Hélia Correia in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira"
(Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto,
Fafe, 2010, p 74.
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06/10/10

"Então sobre o poema, o artifício,/ a borra baça, a mim a extrema luz."

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"Declaração de Intenções"

Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 9.
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05/10/10

"o caramanchão onde em muitas tardes/ me sentava com um livro na mão/ morrendo de desvairada alegria; "

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" A Criação do Mundo"

Uma coisa insone, talvez coisa nenhuma,
se agita intranquila
num círculo que invento
como poça no terreiro.
Coloco dentro uma rua
e nela uma casa
com vidraças na varanda.
Trago um endereço na mão
e paro defronte à porta,
mas não posso abri-la.
Não decifro a chave
que é um deserto de família.
Fico olhando o pensamento
para ver se ao menos uma janela
se rompe para a entrada do nada.
Gestos de dor se fecham
e tudo desaparece
em murmúrios e momentos do tempo.
Só me lembro do que é dormido.
Com movimentos de dança
o rio lambe sua cauda de linfa
e incandesce os poetas,
os que cantaram sua ponte
- essa enorme boca -
e os que acarinharam suas costas
de metal polido.
Não há ninguém sentado na margem
em que habitava desarmada
da convulsão de meus deuses.
Como num impossível sonho e lúcido sentido
reconstruo as pedras do jardim,
altas, gordas e redondas,
que abriam um buraco nas begônias;
as lesmas que lambiam
a terra com sua baba;
a crista vermelha
pulsando no andar do galo;
o corpo de seda da lagartixa
em sua imobilidade de gesso;
o caramanchão onde em muitas tardes
me sentava com um livro na mão
morrendo de desvairada alegria;
os ecos de vozes, lágrimas, vultos na escada.
.
Desenterro as raízes do medo,
tortas e doendo de fome.
Nada mais germina nesta horta,
este chão transfigurado
em fragmentos de musgo e acalanto.
O pranto é um lenço de linho
cobrindo o rosto como uma capa.
Espero que me dêem um delírio,
uma queimadura, um coração estrelado,
tudo muito colado ao meu rosto,
para que acordem o meu sonho
e retornem, com nomes na memória,
a essa loucura em que, mutilada, me apoio.
.
Quem me vê andando entre os muros
e se aproxima abrindo
a parede de chumbo da infância?
Que beijo ganho por ser tão menina?
Ando devagar, afundando as sombras
nos meus passos. Desço a rua do Pomba.
Abro os olhos da filha
e vejo a criação do mundo.
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Lina Tâmega Peixoto in "50 Poemas Escolhidos pelo Autor", Edições Galo Branco,
Rio de Janeiro, 2008, pp 61 - 63.
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