30/12/12



       "  Egeo I  "

Hay para Ulises un sonido que contiene
todo lo ya visto y lo por venir;
hay un desgarramiento que puede ser
el primer gemido placentero
de todas las vírgenes del mundo,
un alcohol que es el mismo zumo
que bebiste en algún sitio
en algún sueño

la sirena contempla tu confusión
y no puede ayudarte

no hay casa
ni chimenea
ni ancianos
que te reconozcan por la voz
(como en el tango)

mientras Penélope goza con amigos y enemigos,
oh! estúpido Ulises,
babeas literatura por estas aguas fastuosas
para el prestigio de la muerte
y el olvido.

   Futoransky, Luisa. Partir, digo. Madrid: Libros del Aire, 2010, p 25.
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29/12/12



         " Ulysses "


E ele e os outros me vêem.
Quem escolheu este rosto para mim?

Empate outra vez. Ele teme o pontiagudo
estilete da minha arte tanto quanto
eu temo o dele.

Segredos cansados de sua tirania
tiranos que desejam ser destronados

Segredos, silenciosos, de pedra,
sentados nos palácios escuros
de nossos dois corações:
segredos cansados de sua tirania:
tiranos que desejam ser destronados.

o mesmo quarto e a mesma hora

toca um tango
uma formiga na pele
da barriga,
rápida e ruiva,

Uma sentinela: ilha de terrível sede.
Conchas humanas.

Estas areias pesadas são linguagem.

Qual a palavra que
todos os homens sabem?

   César, Ana Cristina. Um Beijo que Tivesse um Blue: Antologia Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p 85.
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28/12/12


Opto pelo olhar estetizante, com epígrafe de mulher moderna
desconhecida. (" Não estou conseguindo explicar minha ternura,
minha ternura, entende?") Não sou rato de biblioteca, não
entendo quase aquele museu da praça, não tenho embalo de
produção, não nasci para cigana, e também tenho o chamado
olho com pecados. Nem aqui? Recito WW pra você:
"Amor, isto não é um livro, sou eu, sou eu que você segura e
sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?),
caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem,
teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia, e
chega -
Chega de saudade, segredo, impromptu, chega de presente
deslizando, chega de passado em videoteipe impossivelmente
veloz, repeat, repeat. Toma este beijo só para você e não me
esquece mais. Trabalhei o dia inteiro e agora me retiro, agora
repouso minhas cartas e traduções de muitas origens, me
espera uma esfera mais real que a sonhada, mais direta, dardos
e raios à minha volta, Adeus!
Lembra minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo,
e parto, eu incorpóreo, triunfante, morto".


  César, Ana Cristina. Um Beijo que Tivesse um Blue: Antologia Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p 77.
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25/12/12

...


                                 “ Nem sempre a cidade é triste “

 

 Nem sempre a cidade nos surge na sua multiplicidade de formas. Dias há em que parece apostada em oferecer-nos a sua face mais feia, a sua face mais horrivelmente cruel. Olhem, nem vos sei explicar! A única coisa que consigo é dizer-vos que, naquela manhã, não havia ponta a que me pudesse agarrar. Desci a rua de roldão e, mal cheguei ao Largo do Chiado, apenas queria uma mesa vaga na esplanada. O regateio com o alfarrabista deixara-me esgotada. Raio do homem! Anda uma pessoa dez anos à procura de um livro raro e depois de o encontrar ainda tem de travar uma batalha campal… Desculpa, interrompeu-me o Gonçalo, o homem teve razão, ele até te ofereceu o livro! Ah, se visses a cara de sonso dele, no final: ó professora, nós temos estado a discutir o preço da obra, não a venda, à senhora não o vendo, ofereço-o! Gonçalo ria. Agarrou-me pelos ombros: tenho uma mãe que detesta perder torneios. Larga-me! Tomás olhava-nos com aquele seu olhar liquefeito, olhar de cão abandonado, de quem traz em si todos os rasgões do mundo…

( Hum, já me esquecia de falar no Tomás! Veio aqui para casa quando o Gonçalo andou com a irmã, depois tem se deixado ficar: paga as despesas como um hóspede e partilha das vidas como um íntimo…)

Depois, ainda afogueada, sentei-me a ver a cidade a desdobrar o seu espaço, as suas personagens. Ironia cínica, rosnou Gonçalo. Não sei o que era, mas dava-me prazer. Primeiro foi um casal jovem: mochilas enodoadas, alpercatas cambadas, cabelos desgrenhados, enfim, uma tentativa de imitação das classes baixas, mas logo traída pelo olhar altaneiro, pelos queixos levantados. Bem, a minha senhora mãe hoje está cheia de azedume, disse o Gonçalo, vou-me deitar.

(Tomás não parava de me olhar. Não que o assunto parecesse interessar-lhe, todavia, esfíngico, tentava captar todos os modos do dizer.)

   Espera. Falta ainda o episódio do bardo. Do bardo?! Sim, é que no murete do metro havia um friso de tal modo diversificado… fixei-me num rapaz que durante mais de meia hora dedilhava uma viola e mirava um caderno sebento, pois ali esteve ele, aquele tempo todo, numa infindável lengalenga e sem virar a página. Era um poema curto mas profundo, voltou Gonçalo a sentar-se. Olhem, o que é um facto é que o rapaz sabia um ror de línguas e veio depois percorrer a esplanada, de mão estendida. A mim pediu-me em inglês, não lhe respondi, depois insistiu em italiano, como eu continuasse a não lhe responder, resolveu ficar especado na minha frente, a medir forças com o olhar, então achei por bem dizer-lhe em latim que não o entendia. Gonçalo engasgou-se com a cerveja: não é possível, tiveste coragem de te pores a falar em latim com ele?! O rosto de Tomás iluminou-se, os seus olhos eram agora dois sóis a brilhar por detrás das lentes arredondadas, a sua boca parecia querer esboçar dois traços, que, a medo, avançavam a tactear esse silêncio que tão bem o caracterizava. Não sejas precipitado, recomecei eu, ele até acabou por se sentar à minha mesa e… Gonçalo voltou a levantar-se: eis o clímax; a minha mãe e o cavaleiro andante!, agora é que me vou mesmo deitar. És um parvo, admoestei-o eu, para vocês homens estas coisas acabam sempre da mesma maneira, são mesmo primários, ainda pensei que fosses um bocado diferente, mas afinal: gabarolices e ruminações do não feito é o vosso lema, além disso, o rapaz tinha metade da minha idade.

( Hoje sei – porque ele me viria a dizer – que foi esta a passagem que fez Tomás decidir-se pela sua partida no dia seguinte.)

   E depois?! Depois nada, estás a imaginar-me ao lado de alguém com metade da minha idade? Vocês analisam sempre tudo do lado do homem, dando uma imagem repulsiva da mulher mais velha: a flacidez, a menor resistência ao esforço, etc., mas alguma vez nos perguntaram algo sobre o assunto? Se nos interessava tocar uma pele cheirando a talco e cueiros? És horrível!, resmungou Gonçalo. Horrível não, estas coisas têm sempre duas versões: se vocês achincalham as estrias por que não haveremos nós de fugir do acne? Abandonaram os dois a sala, precipitadamente. Estava eu ajeitando as latas vazias da cerveja, os cinzeiros sujos, quando Gonçalo regressou: foste de uma enorme crueldade. Eu?! Sim tu! Sempre tão centrada nos livros e afinal não vês o que está debaixo do teu nariz, por que pensas que o Tomás anda aqui às voltas em casa? Agarrei-me a uma das estantes, siderada. O quê, não te achas uma mulher interessante que possa atrair alguém também especial como o Tomás?! Eu não sabia o que pensar. Tudo se abatera sobre mim de um jacto. Acho bem que te reabilites, rematou Gonçalo, furioso, ele está a arranjar as coisas para se ir embora amanhã. Tantas teorias e afinal… Por favor, peço-te, deixa-me sozinha!

   Uma hora depois bati-lhe à porta do quarto. A luz estava ainda acesa, passava das duas da manhã: mas… está a arrumar as malas?, avancei eu, falsamente ingénua, aconteceu alguma coisa? Tomás, hirto, com um pólo na mão: acho que devo ir, respondeu com voz sumida, quase um sussurro. Mas não pode ir agora, Tomás! Não posso?! Não… eu vinha precisamente convidá-lo para vir uma semana para a casa de Aveiro; o Gonçalo vai começar com as frequências e nós íamos para lá. Silêncio. Tomás a compreender o que ambos já tínhamos compreendido. Acha que devo ir?, perguntou triste, titubeante. Tem de vir! E agarrei-lhe o braço. Diga que sim, insisti. E os seus olhos foram de novo dois sóis por detrás das lentes, as suas palavras – sempre tão comedidas – foram ainda mais serenas: partimos a que horas? E sorrimos, cúmplices.
 
 Mateus, Victor Oliveira. Nem sempre a cidade é triste In "Letras com vida: Literatura, Cultura e Arte" Nº 4, 2º semestre 2011, Centro de Litªs. e Cultªs. Lusófonas e Europeias da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa, pp 141 - 142.
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24/12/12

...

                                          
                                  



                      "  O  Joelho  de  Colbert  "


     Não devia ter combinado aqui. Neste espaço, onde as dimensões do tempo se misturam e a beleza irrompe como corola abruptamente fendida pelos socalcos de uma cidade que desce até ao rio. Não, não devia ter combinado aqui, neste local tão firmado nos mais ousados afetos, sempre à mistura com uma memória inapagável, voraz, e que em tortura me corrói os dias. Talvez pudesse ter optado por um outro lugar. Quem sabe, por uma das esplanadas lá de baixo, sempre repletas de veraneantes, onde o cheiro do peixe se nos entranha no corpo, ou por uma das vielas dos bairros antigos de pescadores, muitos vivendo ainda nas mais precárias condições.
     Mas aqui, neste Forte de S. Filipe, consigo uma lucidez bem difícil de encontrar no turbilhão da cidade. A proximidade dos objetos, a falta de perspetiva, turva-nos sempre o olhar e a correta avaliação do que nos cerca. Hoje, deste terraço, a foz do Sado aparece-me com o encanto que teve naquele primeiro dia. Até os golfinhos, fingindo cumprir um qualquer aprazado ritual, saltam divididos entre o azul das águas e a luminescência dos reflexos por elas devolvidos. Dois overcrafts fazem a ponte com a península de Tróia, em frente. Por baixo do sítio onde me encontro, alguns caiaques entregam-se ao fascínio de juvenis acrobacias. Duas traineiras entram na barra acompanhadas pelo grasnar ávido das gaivotas. Ouve-se uma sirene.
     Acabo sempre por regressar a este local. Trago um livro, uma revista, ou o portátil, e por aqui me deixo ficar, trabalhando, reflectindo, ou, tão-só como hoje, deixando-me aconchegar por tudo o que me envolve, exactamente como no primeiro dia, quando observava a enseada da outra margem, vendo uns minúsculos pontos negros à beira da água - talvez trabalhadores na apanha de bivalves ou turistas dirigindo-se para as antigas ruínas romanas. Neste abandono de mim, sou surpreendido por uma voz infantil que me pergunta o que estou a fazer. Olhei para o lado e vi um miúdo com cerca de três anos, bermudas verdes às ramagens, boné com pala virada para trás. O que estou aqui a fazer? Boa pergunta. Não há como as crianças para, na sua simplicidade, nos alertarem para a nossa condição de viventes tantas vezes à deriva! O meu silêncio forçou-o a insistir. A voz de um homem repreeendeu-o, perguntando-me, depois, se ele me estava a incomodar. Não lhe respondi. Levantei  a mão, encostando-a ao rosto do miúdo, que, acalmado, semicerrou os olhos. O homem, surpreendido, disse não ser habitual o filho serenar com tanta facilidade. Uma música roufenha vinha do interior da pousada. Ouviu-se de novo o som da sirene. Uma das traineiras começou obliquando na direção do porto, onde outrora laboraram as fábricas de conserva. O homem sentou-se à minha mesa e apresentou-se:
- Fernando Colbert. - Estendeu-me a mão. Sorri.
- Como o Ministro das Finanças do Rei-Sol? - Perguntei. Ao que ele respondeu não ser nem rei, nem sol, nem nada. E começou confiadamente a desfiar as suas recentes vicissitudes: o divórcio, o poder paternal partilhado, a solidão...
     O empregado trouxe o café e, num gesto inesperado, o miúdo tocou-lhe no braço fazendo derramar o líquido pela mesa. Todas as minhas folhas A4 completamente perdidas e uma gota a cair exactamente no joelho de Colbert, que, levantando-se de um jacto, conseguiu evitar desastre maior.
     A este primeiro dia outros se seguiram: a troca de experiências, a visão do mundo, os projetos, ora expostos com fulgor, ora desvelados com alguma suspeita.
     A aproximação entre os seres surge umas vezes de aspetos convergentes, mas outras por tácitas cumplicidades, que no quotidiano se vão inscrevendo aos poucos e sem planos preestabelecidos.
     Disso dá testemunho este novo encontro:
- Lembra-se da nódoa no joelho? - Perguntei com ironia. Colbert olhou-me significativamente e sorriu.
- Em mim não há lugar para a nódoa. - Respondeu.
     A comunhão selou-se.
     Vendo bem, fez sentido ter combinado aqui. Local do primeiro dia. E o rio cintilou, dotado de alma, como se nessa transfiguração quisesse revelar tudo aquilo que os homens insistiam em ocultar.
 
  Mateus, Victor Oliveira. O Joelho de Colbert In " Um Rio de Contos: Antologia Luso-Brasileira ". Dafundo: Editorial Tágide, 2009, pp 236 - 237 ( Organização de Celina Veiga de Oliveira e de Victor Oliveira Mateus).
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13/12/12



  " Arte-manhas de um gasto gato "


Não sei desenhar gato.
Não sei escrever o gato.
Não sei gatografia
      nem a linguagem felina das suas artimanhas
Nem as artimanhas felinas da sua não linguagem
Nem o que o dito gato pensa do hipopótamo ( não o de Eliot)
Eliot e os gatos de Eliot (" Practical Cats" )
Os que não sei
e nunca escreverei na tua cama.
O hipopótamo e suas hipopotas ameaçam gato (que não é hipogato)
Antes hiponímico.
Coisa com peso e forma do peso
e o nome do gato?
J. Alfred Prufrock? J. Pinto Fernandes?
o nome do gato é nome de estação de trem
o inverno dentro dos bares
a necessidade quente de tê-lo
onde vamos diariamente fingindo nomear
eu - o gato - e a grafia de minhas garras:
toma: lê o que escrevo em teu rosto
lê o que rasgo - e tomo - de teu rosto
a parte que em ti é minha - é gato
leio onde te tenho gato
e a gatografia que nunca sei
aprendi na marca no meu rosto
aprendi nas garras que tomei
e me tornei parte e tua - gata - a
saltar sobre montanhas como um gato
e deixar arco-irisado esse meu salto
saltar nem ao menos sabendo que desenho
e escrita esperam gato
saltar felinamente sobre o nome de gato
ameaçado
ameaçado o nome de G A T O
ameaçado o nome de G A S T O
ameaçado de morrer na gastura de meu nome
repito e me auto-ameaço:
não sei desenhar gato
não sei escrever gato
não sei gatografia
                    nem...

  César, Ana Cristina. Um Beijo que Tivesse um Blue: Antologia Poética. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp 35 - 36.
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12/12/12

Acerca do último livro de Nuno Dempster.


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  O livro de contos recém-publicado da autoria de Nuno Dempster apresenta-se-nos como um conjunto de narrativas todas elas integradas no cânone literário do realismo e aqui surge-nos uma característica deste livro que me parece interessante referir: o autor, sem recorrer a técnica alguma de encaixe, e sem se afastar desse cunho do concreto que pretende para os seus contos, acena-nos, por vezes, com características e técnicas daquilo, que, para alguns teóricos, não chega a formar géneros literários específicos, assim, encontramos tonalidades da escrita gótica em “A chaise longue”; da ficção policial – sobretudo o mistério, a estranheza e a actuação do protagonista tão avessa à razão natural - em “Jack”; da narrativa histórica em “Vénus”. Contudo, esta deriva do autor, aparentemente aleatória, não é utilizada para dar foros de cidadania a quaisquer dos movimentos referidos, mas apenas para enfatizar uma realidade que se pretende actual e concreta. Mas Nuno Dempster não se limita a circundar as suas opções estilísticas com acenos de uma ou outra escola, de um outro movimento, ele considera o realismo, em algumas das suas várias facetas, em cada um dos seus contos, no entanto, convenhamos, essa mesma consideração não é exclusiva mas tão-só predominante, pois na trama narrativa todas se encontram interligadas. Por conseguinte, podemos encontrar um realismo de cariz sociocultural em “O papel de prata”, de tipo subjectivo em “Meia dúzia de sardinhas” e até mesmo sociopolítico em “ A bilha de água”.

  O facto de Nuno Dempster recorrer, nos seus contos, a um narrador não-participante (com excepção de “Uma aula de inglês”), a personagens redondas e a uma quase constante coincidência do tempo cronológico com o tempo do discurso, não só dota a sequencialidade narrativa de uma extrema limpidez, mas também funciona de forma eficaz como estratégia de captação do leitor para a estória de que ele passará também a fazer parte. Ainda relativamente às personagens parece-me importante ressalvar a sua bem conseguida caracterização psicológica, social e cultural, aliás, nem sempre feita de modo directo, e urge ainda acentuar o modo criterioso como todas elas são colocadas, pelo narrador, no conjunto dos acontecimentos – tomemos como exemplo o primeiro conto, “O papel de prata”: a estória decorre em torno do protagonista (Horácio), cuja caracterização – complexa – psicológica e social nos vai sendo dada no decorrer da acção, todavia, apesar do desenrolar desta ser linear (com excepção de “O reflexo” as analepses e as prolepses são banidas da narrativa dempsteriana!) e do espaço ser quase sempre fechado e privado, a acção desenvolve-se pela sedução de um ritmo ao qual o leitor não consegue ficar indiferente, e contribuindo também para esse prendimento o exímio manejar de outras categorias da narrativa, neste caso concreto as personagens secundárias ( Marta, a tia e Hermínio ) e os figurantes (os pais de Horácio). Tal minúcia narrativa pode ser detectada em qualquer um dos outros contos desta colectânea, veja-se, por exemplo, “Swing” em que bastaria a supressão de um mero figurante (neste caso Márcia Medeiros, a professora de matemática) para que todo o conto se esboroasse ou adquirisse um trajecto completamente distinto.

  O livro “O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio” da autoria de Nuno Dempster e recentemente publicado pela “Companhia das Ilhas” foi, portanto, e pelos motivos apontados, uma obra que li com muito interesse e agrado.

 

 

                                                                                           VICTOR  OLIVEIRA  MATEUS

11/12/12

Galina Vishnevskaya ( 25/10/1926 - 11/12/2012 )


.
.

 
40
 
 
O meu coração
freme no meu peito e no peito
da magnólia
 
 
41
 
 
Pesa-me nos ombros
o pó dos caminhos
que não percorri
 
 
42
 
Frente ao mar
o meu coração adolescente
pede-me que salte
 
 
43
 
Silêncio. Ouçam
a vida - água correndo
cada vez mais triste
 
 
44
 
Um grão de carne
fenecendo - irmão das rãs
e dos planetas
 
 
      Brito, Casimiro de. A Boca na Fonte. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 16.
.
 
 
 


10/12/12

 
 
3
 
 
Olhas a montanha.
Em paz. O grande combate
parece imóvel
 
 
4
 
 
Em tudo há velhice
e nascimento - um pé repousa,
outro caminha
 
 
 
5
 
 
Vejo o que já vi
antes - um corpo ondulante
que vem de longe
 
 
 
6
 
 
Na prosa do dia
a rosa alumia. Que prosa
se tudo é rosa?
 
 
 
          Brito, Casimiro de. A Boca na Fonte. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 8.
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08/12/12



Sobre os écrans, o poeta há-de verter poemas.
De tudo sabe um pouco,
havendo, ainda, tudo o que adivinha
em seus fulgores de génio e de duende

à deriva no mundo. As mãos levanta
acima da cabeça, com os pés soterrados
pela greda, enredado em escórias,
que, aonde quer que vá, sempre o sitiam.

Com tinta permanente e com ácidos
não pode mais fazer que exorcismar
o que em si há de mais pungente

na rota dos algares e das serpentes.
De pé, espera, a atravessar a noite
que perscruta.

  Baptista, Amadeu. Atlas das Circunstâncias. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 30.
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07/12/12



É anfíbia, a adolescência do poeta.
Distinguem-se-lhe no tórax barbatanas
dorsais e pulsam-lhe, na garganta, pequenas
brânquias, que permitem que toque o fundo

do mar, das coisas e da terra.
O poeta é portador de uma beleza
oculta onde tudo se encontra, uma banca
de trabalho, um alguidar, uma reverberação

líquida, cor de fogo, a sitiá-lo dentro
da sua própria vida, a sua descendência,
a chuva que não cessa de cair

sobre as cabeças, diluviana, escaldante,
escura, como uma pedra
didáctica.


   Baptista, Amadeu. Atlas das Circunstâncias. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2012, p 18.
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24/11/12



Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi

Na criança que fui, tão confundida.

À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.

O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras doiradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.

Eu era uma criança delirante.

Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.

O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo

Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil

Querer deixar um testamento lírico

E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Em dentre vós, resguardará (por certo)

A criança que foi. Tão confundida.

     Hilst, Hilda. Exercícios. São Paulo: Editora Globo, 2001, pp 169 - 170.
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22/11/12


       " Poema 7 do Ciclo Memória "



Vê, Ricardo, se falo tanto do ser feito de terra
É porque o resto é paisagem.
Olhei minha própria carne certa noite. E essa dor
Secular que a recobria. Tu passeavas teus olhos
Revivescendo a ilha, e meus braços castigados
Do gesto de alcançar, buscavam esse tempo de colher.
Mas eu não fui pastora. Há na terra que sou largas artérias
Mas um vento de assomos, um deslumbramento me tomava
E o gesto de plantar cristalizava-se no meu mais puro olhar.


Olhava: A figueira, a pedra umedecida da cisterna
O sol sobre o rosto das mulheres, um rosto semelhante
Àquele barro esquecido de rios. E ubíqua, viajava

Não que ali não deixasse afetos, pássaros da tarde
Cães (viajores de um dia) e presenças quando a noite
De augúrios começava. Uma parte de mim, essa de carne
E ausência, talvez não emigrasse. Os ritos, os de sempre.
Mas o olhar não era o mesmo: Pousava sobre as coisas
Mas nas coisas que via não estava.

Fui vista caminhando nos pastos. Nas vides. Muitos disseram
Que o meu corpo estendeu-se sobre a terra e de tal forma
Ficamos confundidas, que as aves descansaram de seu vôo
Na minha fronte de pedra. Adormeci nas paragens de sal
Cantei minha canção no pátio dos mosteiros, atravessei as pontes
Lavei-me nas águas de infinitas nascentes. Mas a boca,
A minha boca fechou-se procurando uma única fonte.

  Hilst, Hilda. Exercícios. São Paulo: Editora Globo, 2001, p 79.
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21/11/12


 " Poema 2 do Ciclo Memória "


Há certos rios que é preciso rever.
Por isso volto, Ricardo, àquelas margens
Onde na sombra um verde descansava
E um canteiro de limo sob os nossos pés
Adiante desaguava. Volto, seguindo a viagem
De mim mesma e aos poucos convergindo
Oculta, vária,
Até fechar um círculo e entender
Essa asa de fogo sobre as coisas.
Talvez neste canto eu te direi
Das estreitas passagens, do lodo
Convulsivo dos ancoradouros, dos funerais
Que vi, para chegar à luz da primeira paisagem.
Meus olhos deram volta à ilha.
Sigo pelos caminhos, transfiguro-me
Sei que um igual destino eu já cumpri
E ao mesmo tempo em tudo me descubro
Casta e incorpórea. Sou tantas,
Tantos vivem em mim e pródiga descerro-me
Pródiga me faço larva e asa.

    Hilst, Hilda. Exercícios. São Paulo: Editora Globo, 2001, p 74.
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20/11/12

" e penso: não somos a soma do que julgamos saber e sim o indício de uma voz oculta. "

                                   ft. Teresa Bonito


 
 
subtraio-me ao desperdício das falas como quem transgride um guião absurdo. remeto-me ao cerne da língua. à firmeza das margens que armam a lucidez e estancam a solidão. por cada quarto escuro acendo uma luz de presença. escuto o álibi do vento na lâmina instável das vozes e surpreendo esgares dissimulados. sigo a tactear as linhas e os pontos. os vincos e as frestas. é sempre por fora das palavras que ouso o trajecto espinhoso do silêncio. a busca da fala que é retorno da transparência. fronteira onde a pele descarna e se perfila a face triste dos anjos. e penso: não somos a soma do que julgamos saber e sim o indício de uma voz oculta. não existe linguagem convergente. apenas um movimento constante de exílio. o que nos falta transborda do silêncio das mãos.
 
 
                                                                      Maria José Quintela ( Inédito )
 
 
Nota - os meus agradecimentos à Teresa Bonito e à Maria José Quintela por me terem autorizado a publicação destes trabalhos inéditos.
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19/11/12

   "  - de novo, as trevas   "     
     
 
há restos incompletos     ossos que
fazem pressupor os labirintos da fome
consagrados nos textos de um templo
que perdeu no tempo qualquer semelhança
com o tolerado     sim     porque nada se tem
por igual e
o modo como o peixe se vende ao desbarato
da crença faz.nos antever idênticos simulacros
com diferentes trajes
.cansados em tons de calmaria tremem os
castos como se a incúria os tivesse transposto a um
cântico maior ou excelso
. circunscritos ao nada     com nada se comprazem
.antes assim     porque da intolerância
dos senhores do nada rezam (apenas)
os vermes que se incorporam sob a epiderme e
na derme deixam sulcos de má memória
 
 
martins, gabriela rocha. as luvas de um aprendiz (in)conformista. S/c.: Corpos Editora, 2012, p 58.
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18/11/12

" te lo he dicho con el miedo,/ te lo he dicho con la alegría, "



  "  Te quiero  "



Te quiero.

Te lo he dicho con el viento,
jugueteando como animalillo en la arena
o iracundo como órgano tempestuoso;

Te lo he dicho con el sol,
que dora desnudos cuerpos juveniles
y sonríe en todas las cosas inocentes;

Te lo he dicho con las nubes,
frentes melancólicas que sostienen el cielo,
tristezas fugitivas;

Te lo he dicho con las plantas,
leves criaturas transparentes
que se cubren de rubor repentino;

Te lo he dicho con el agua,
vida luminosa que vela un fondo de sombra;
te lo he dicho con el miedo,
te lo he dicho con la alegría,
con el hastío, con las terribles palabras.

Paro así no me basta:
más allá de la vida,
quiero decírtelo con la muerte;
más allí del amor,
quiero decírtelo con el olvido.

  Cernuda, Luis. Antología Poética. Madrid: Alianza Editorial, 1975, p 48.
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16/11/12

( Eras, instante, tan claro )



Eras, instante, tan claro.
Perdidamente te alejas,
dejando erguido al deseo
con sus vagas ansias tercas.

Siento huir bajo el otoño
pálidas aguas sin fuerza,
mientras se olvidan los árboles
de las hojas que desertan.

La llama tuerce su hastío,
sola su viva presencia,
y la lámpara ya duerme
sobre mis ojos en vela.

Cuán lejano todo. Muertas
las rosas que ayer abrieran,
aunque aliente su secreto
por las verdes alamedas.

Bajo tormentas la playa
será soledad de arena
donde el amor yazca en sueños.
La tierra y el mar lo esperan.

   Cernuda, Luis. Antología Poética. Madrid: Alianza Editorial, 1975, pp 22 - 23.
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15/11/12

"A corrupção dos governos começa sempre (...) pela dos seus princípios,"


.A corrupção dos governos começa sempre, hoje como no tempo de Montesquieu, pela dos seus princípios, mas a corrupção dos princípios deve ser transmitida pelas elites para encontrar uma forma de legitimidade. Para tal, nada como a mentira histórica. Foi um dos grandes pilares do maquiavelismo de massas, no século passado. George Orwell, um dos raros espíritos que compreenderam a essência do militarismo, viu nela uma das mais horrendas violências: "Se o chefe declara que este ou aquele acontecimento não ocorreu - pois bem, não ocorreu. Se diz que dois mais dois são cinco - pois bem, dois mais dois são cinco. Esta perspectiva assusta-me mais do que as bombas." A ideia de que a mentira é uma das piores formas de destruição da humanidade não é corrente. A razão é simples: o número de colaboradores é demasiado grande e todos têm algo a censurar-se. No sistema totalitário, a mentira do carrasco era necessária porque ele procurava não a verdade mas a inculpação, e a da vítima, inevitável porque os interrogatórios provocavam a desintegração da personalidade. Mas perguntamo-nos o que poderia justificar realmente a mentira daqueles que, não arriscando absolutamente nada, contribuíam portanto para o assassínio - de longe.
Um exemplo permitirá ilustrar esta afirmação. O nosso grande poeta nacional, Louis Aragon, a quem não eram conhecidos quaisquer talentos agronómicos, escreveu, em defesa de Lyssenko, um texto que seria cómico se a batalha travada em nome desse estouvado não tivesse provocado tantos crimes na URSS. O obscuro técnico agrícola que pusera mão sobre uma parte considerável da ciência soviética esteve na origem de trinta anos de impasse agronómico. O artigo de Aragon foi publicado na revista Europe em 1948, sobre um tema em que a sua incompetência poderia ter-lhe aconselhado a discrição. Eis, no entanto, o que escreve no momento em que o "lissenkismo" está no auge em Moscovo e em que se morre por se opor à sua doutrina (...).
As teses genéticas eram consideradas "hitlero-trotskistas" e os partidários de Mendel encontravam-se na categoria condenada dos "inimigos do povo soviético". A genética não podia ser verdadeira, porque era incompatível com o materialismo dialéctico! Assim. podiam justificar-se milhões de mortos na Ucrânia, o celeiro de trigo da URSS, e no resto da União Soviética. Nas aldeias que apenas contavam cadáveres, haviam sido deixadas, ao lado dos corpos, mensagens lancinantes dirigidas aos visitantes futuros (...). As aberrações de Lyssenko permitiram a condenação à morte de inúmeros geneticistas - em especial do grande sábio Nikolai Vavilov, que morreu no campo de Saratov, em 1943 -, mas serviram sobretudo para encontrar bodes expiatórios para o falhanço da reforma agrária de Estaline na década de 1930, fracasso que conduziu a que pais comessem os filhos.
Na era de Gorbachov, foram abertos os arquivos sobre este período. Os documentos foram expostos em 1992, na Biblioteca do Congresso em Washington, mostrando que a horrenda fome causada entre os camponeses não era ignorada pelas autoridades (...).
É preciso ter estas cenas em mente quando se pega na pena para justificar os regimes injustificáveis. No texto de Aragon, não é apenas a perversão intelectual, manifesta nesse tecido de asneiras, que nos choca hoje em dia. É a participação - involuntária, é certo, mas real - num crime em grande escala. Nesses casos, perdera-se muitas vezes todo o sentido da ética intelectual. É a justo título que essa perda assusta Orwell mais do que as bombas. Os exemplos continuam a ser em grande quantidade, vinte anos mais tarde, com as apologias do maoísmo nas capitais ocidentais.
 
   Delpech, Thérèse. O Regresso da Barbárie. Lisboa: Quidnovi, 2007, pp 73 - 77.
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10/11/12

"(...) o nosso tempo é um desses períodos, como o foram os anos 30 do século passado..."



  O imprevisto já não é um conceito exótico, como era ainda há cem anos. Tornou-se o nosso elemento, o sinal distintivo das relações estratégicas da nossa época, com a rapidez dos nossos vectores, a potência de fogo das nossas armas, as novidades das nossas tecnologias, a instantaneidade da informação e as novas formas de terrorismo. A história recente, que é balizada por terríveis explosões, catástrofes naturais e grandes massacres, mostrou até que ponto as surpresas podem ser devastadoras. Esta mistura de violência e instantaneidade, de instabilidade e desordem, afecta tanto as nossas almas como os nossos espíritos. O desfasamento crescente entre o homem e a história comporta, por este motivo, um risco de tipo ontológico: põe em perigo a relação que liga a consciência humana ao tempo. A forte ligação ao passado, a transmissão dos valores, a continuidade das gerações, aquilo que liga os homens entre si, tudo isso está ameaçado pelo imediatismo em que vivemos e pelo caos que nos rodeia. Tanto a impaciência do presente como a desvitalização do passado transformam o tempo num vector de agitação e angústia, tanto mais que as metamorfoses introduzidas pelas revoluções tecnológicas têm um ritmo demasiado rápido para que o espírito humano possa seguir o seu curso. Logo, este é muitas vezes reduzido a um papel de espectador, que não espera nada mais da história - a não ser que perdure.
  Mas quando apenas pedimos à história que perdure, não devemos queixar-nos se ela, por vezes nos der respostas brutais. Teremos de procurar também o erro do lado do actor. (...) A surdez da história é também a do homem que só formidáveis explosões conseguem fazer estremecer. O que nos causa horror no ciclo de crueldade gratuita que os ecrãs de televisão apresentam, com a encenação de reféns degolados como animais ou a profanação dos mortos nos cemitérios, é o modo como o terror e a barbárie penetram em todos os lares por meio da imagem, mas é também, que esses rituais exprimem uma espécie de "norma" visualizada da extrema violência que reina no mundo, e perguntamo-nos aonde poderá conduzir. O que acontece sobretudo é que, presentemente, só os grandes crimes conseguem emocionar-nos. O regresso do crime-espectáculo desperta um mal-estar maior precisamente porque não se produz nas praças públicas, como no tempo de Voltaire, mas no conforto dos salões. O desfasamento é insuportável, do mesmo modo que a banalização da violência. Tucídides, que continua a ser a referência mais preciosa de todos quanto reflectem sobre a história, afirma que determinados períodos exprimem uma forma de exacerbação das paixões humanas. Se for o caso, o nosso tempo é um desses períodos, como o foram os anos 30 do século passado, em que a condenação do humanismo e do intelectualismo foi feita, em nome de tudo o que refreava as paixões humanas impondo-lhes normas.
 
 
   Delpech, Thérèse. O Regresso da Barbárie. Lisboa: Quidnovi, 2007, pp 13 - 15.
 
 
Nota - este blogue, nos seus postes, só utiliza fotos que já circulam na net, e foi durante a seleção desta foto que descobri que Thérèse Delpech havia partido em janeiro deste ano, por conseguinte este poste é também uma homenagem à lucidez, rigor e espírito crítico desta pensadora.
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09/11/12

"(...) ele se tornaria um lugar em que viver seria um inferno..."

 
 
Pergunta - O senhor foi um pacifista durante a Primeira Guerra Mundial. Não acha que foi incoerente em não ser um pacifista durante a Segunda?
 
Lord Russell - Não penso isso. Nunca foi meu ponto de vista que todas as guerras fossem justas ou injustas. Nunca. Estava convencido de que só algumas se justificavam e pensei que a Segunda Grande Guerra, ao contrário da Primeira, estava nesse caso.
 
Pergunta - Porque é que pensa que a Segunda Guerra Mundial tinha justificação?
 
Lord Russell - Porque achava que Hitler era absolutamente intolerável. Todo o contexto nazi era absolutamente pavoroso, e eu entendia que, se os nazis conquistassem o mundo, o que era evidente ser o seu propósito, ele se tornaria um lugar em que viver seria um inferno, o que é preciso evitar. Temos obrigação disso.
 
 
    Russell, Bertrand. A Minha Concepção do Mundo. Porto: Brasilia Editora, 1970, pp 40 - 41.
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08/11/12

" (...) devuélveme/ mi soledad. "



             IX

  Saben tus manos
 algo de mí que yo
   no sabré nunca.


            X

       El ruiseñor
no conoce su nombre:
    tan sólo canta.


            XI

         Para gozar
del todo tu hermosura,
     cierro los ojos.


   Cereijo, José. La Amistad Silenciosa de la Luna. Valencia: Pre-Textos, 2003, pp 15 - 17.
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              XL


       Ya que te has ido,
por lo menos devuélveme
         mi soledad.


 Cereijo, José. La Amistad Silenciosa de la Luna. Valencia: Pre-Textos, 2003, p 46.
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07/11/12



( Poema 37 do Ciclo " 42 canções entre 2 portas" )


Ó mundo vivo lavra-me o viver,
ilumina-me a boca, carrega as minhas mãos
para atravessar as ondas,
traduz-me o mar nos palcos taciturnos.
Se me deres um só fogo eu saberei usá-lo com maior
sapiência,
encaminhá-lo-ei pela água derrubada
até ao lugar certo, ao cais
entreaberto, suspenso por duras palafitas,
sobre o medo.

   Carvalho, Armando Silva. De Amore. Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, p 70.
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06/11/12



  " Dois em Fúria "


Um deles colhia a tristeza dos dias gordurosos,
do primeiro tabaco,
do vinho oculto,
do robusto bacalhau nas brasas, dos olhos que caíam
como bátegas
na luz demasiado pura dessa carne
fresca dos sentidos.

O outro, mais maduro,
tinha os joelhos duros no seu peito,
tapava-lhe a boca como um dorso, inteiro,
de pedra.
Soturno, abria uma cratera
no curso indeciso dos dez dedos
facínoras.

Não cabiam palavras naquele
anoitecer.
Dois corpos, dois cegos, dois eus ambiciosos.
Tudo neles era um mundo mudo
suspenso do terror da dor
e do prazer.

  Carvalho, Armando Silva. De Amore. Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, p 12.
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03/11/12

"Mas este poeta desistiu de tudo e quis a moribunda, quando ele chega a casa ela está lá, ao lume, a escrever um livro"


O poeta acredita que, em breve, alguém deixará o seu patrão para o vir acompanhar. A revolução. Parar imediatamente com isso de dar de comer à raposa e às uvas. Perseguir o segredo de irritar jurados e lhes ensinar poesia, é da linhagem das histórias mais animalescas a vontade de aprender a nomear surdinas e bobos, pratos e palmas. O poeta vai meter um espeto nesta eleição. O seu livro de estreia mista harmónio de fusões com limpeza de armazéns. É o camisola amarela que faltava à morte e a todo o grupo do estilo mortássico para sempre, fundo da erva-ursa transposto às motrizes de letra, corroendo poema e relógio, memória e vontade.
 
Virá salvar-nos, não pelo amor, mas porque nos ensinará a medir espasmos entre palavras. Na verdade, beijar-nos-á. Depois de esperma tremoços. Seremos salvos, não por prémios nem por sacrifício de sapos no terreiro, mas porque o poeta provar-nos-á que as nossas lâmpadas não são redondas e  assim nada prevêem. Andaremos salvos pela arte do susto e reembolso, " vamos chegar aí por bombardeamento", esperaremos a Musa do futuro sem nada para trocar.
 
O cão do pastor despenteia-a todas as tardes. Ela tenta convencer o Mestre a recolher os marcos de um país, um a um e sem cabras. A Musa desejava assim internacionalizar-se na arte performativa da terra. Adora testar novos veículos.
 
O poeta silenciou o nadador salvador para, a meio do estreito, seguir no motor da bolina do Sereia de Lagos passando para um perfil de santo na esquiva de proa. Filho de uma louca sem dentes, um povo se encostará à sua cabeça. Mas este poeta desistiu de tudo e quis a moribunda, quando ele chega a casa ela está lá, ao lume, a escrever um livro. Ela diz agulha quando olha para o indicador, tem os olhos riscados por um pavão que brinca com binóculos de voyeur para ver o seu próprio suicídio. (...) Nunca mais exigiu uma introdução, era uma suspeita que usava roupas coloridas. Com a força do pensamento trocava poemas em bibliotecas.
 
  Moura, Nuno. Prémio Nacional de Poesia. S/c: MiaSoave, 2012, pp 18 - 19.
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02/11/12


...             ...           ...

havia futebolistas
entre as estrelas
dispostos a fazer peladinhas
com os fãs por 5 euros cada um
além disso
muitas das estrelas
vendiam por 10 euros
t-shirts que diziam
"Jesus na tua presença
eu danço de alegria"
e por 15 euros
partilhavam com os fãs
segredos e angústias
e por 20
deixavam-se fotografar com eles
e davam autógrafos por 30
e havia ainda um grande evento
um casamento
e o almoço com todos like
era a 100 cada participante
e um beijo a 200 meu
e a 300 sendo gay
e outras cenas preço a combinar

este amor este clamor
deixou um travo amargo
em todos os stewards
e demais agentes da desordem
um insólito braço-de-ferro
entre os fãs e a polícia
a qual mais não pôde fazer
senão desmobilizar
e ir para casa
agastada por não poder tirar
nem fotos nem mais nada

e isto afinal
graças ao fenomenal afã dos fãs
pelas suas eternas e queridas
e nada sinistras estrelas
as mesmas que a comissão ministerial
recomendara ou "convocara"
como dizem os doutores do pensamento
e isso tudo ainda
por causa daquela luz
do primeiro exame
que não era senão a luz
que vinha do quarto da lua
...           ...          ...        ...

  Pimenta, Alberto. al Face - book. Porto: 7Nós, 2012, pp 68 - 69.
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01/11/12


...        ...    ...

a prova dessa vez incluía
três versos dum poema
atribuído a Álvaro de Campos
"... no alto céu ainda claramente azul/
Já crescente nítido, ou círculo branco,
ou mera luz nova que vem,/
A lua começa a ser real."
e perguntava
a que momento do dia
e a que luas
se referia o texto

Álvaro de Campos
o nome soava a qualquer coisa
e deu bastante que falar nos escritórios
e nas salas de jantar
o namorado duma aluna
um daqueles rapazes
a quem se vislumbra futuro
e até já tinha colaborado
numa revista
afirmou que se tratava dum poeta
que não era dos mais falados
que estava ainda noutra onda
que não tinha nada que ver
com as mais recentes linhas poéticas
que se passavam todas
nas imediações da casa
bar rua transportes engates
actos quotidianos
que não se davam a fitas
de olhar para a lua
pois sabendo procurar
poesia há em todo o lado
até ou mais ainda no caixote do lixo
problema é a falta de vocações
e riu-se
depois explicou ao amigo
que foi numa jogada dessas
que conheceu a namorada

      Pimenta, Alberto. al Face - book. Porto: 7Nós, 2012, pp 9 - 10.
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31/10/12

Outras publicações...


Outras publicações recentes com textos do autor deste blogue:


-"Nova Águia", Revista de Cultura para o Século XXI, Nº 10 - 2º Semestre 2012, pág. 251.


- "Letras Com Vida", Revista de Literatura, Cultura e Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Nº 4 - 2º Semestre 2012.
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30/10/12

Publicação...


                    " AMADO  AMATO,  antologia de poesia "
 
                    co-coordenação: MARIA DE LURDES GOUVEIA DA COSTA BARATA
 
                    organização      : PEDRO  MIGUEL  SALVADO
 
                    edição               : CÂMARA  MUNICIPAL DE CASTELO BRANCO  (2012)
 
 
 
 
Para comemorar os 500 anos do nascimento de AMATO LUSITANO a Câmara Municipal de Castelo Branco acaba de publicar uma antologia de poesia organizada por Pedro Miguel Salvado e Maria de Lurdes Gouveia da Costa Barata. A referida obra conta com a colaboração dos seguintes escritores de vários países: Albano Martins, alice macedo campos, Alice Spíndola, Alfredo Pérez Alencart, Álvaro Diz, Américo Rrodrigues, Ana Luísa Amaral, António Ramos Rosa, António Salvado, Araceli Saguillo, Astrid Cabral, Aurelino Costa, Carlos Nejar, Carlos Vaz, Conceição Riachos, Daniel Abrunheiro, Eddy Chambino, Eduardo Aroso, E. M. de Melo e Castro, Fernando Aguiar, Fernando Diaz San Miguel, Fernando Grade, gabriela rocha martins, Gisela Ramos Rosa, Graça Pires, Hendrick Van Noort, Isabel Leonor Salvado, Ivan Junqueira, Jesus Fonseca Escartín, Jesús Losada, João Camilo, joão-maria nabais, João Rasteiro, João de Sousa Teixeira, Joaquim Simões, Jorge Fragoso, Jorge Velhote, José Antunes Ribeiro, José do Carmo Francisco, José Emílio-Nelson, José Maria Muñoz Quiros, José Miguel Santolaya Silva, Leocádia Regalo, Luís-Cláudio Ribeiro, Luís Frayle Delgado, manuel a. domingos, Manuel António Pina, Manuel Silva-Terra, Margalit Matitiahu, Maria Estela Guedes, Maria José Leal, Maria de Lourdes Hortas, Maria de Lurdes Gouveia Barata, Maria do Sameiro Barroso, Maria Toscano, Mário Hélio, Miguel de Carvalho, Nicolau Saião, Orlando Jorge Figeiredo, Óscar Rodrigues, Paulo Jorge Brito e Abreu, Pedro Outono, Pompeu Miguel Martins, Porfírio Al Brandão, Raúl Vacas, Rui Almeida, Ruy Ventura, Sandra Guerreiro, Sara Canelhas, Stefaania di Leo, Stella Leonardos, Sylvia Beirute, Tiago Nené, Tiago Veiga, Verónica Amar e Victor Oliveira Mateus.
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29/10/12

" Hága-se hoy en mí tu transparencia,/ sea yo en tu claridad. "


 ( Poema II do ciclo " Versos Amebeos " )


He aquí que, tras la noche,
llegas, día.
Golpea hoy con tu gran aldaba de luz mi pecho,
entra con todo tu espacio azul en mi corazón ensombrecido.
Que levanten el vuelo los pájaros dormidos en mi alma,
que llenen con su alegre griterío la mañana del mundo,
de mi mundo cerrado
los domingos y fiestas de guardar
secretos indecibles.

Hágase hoy en mí tu transparencia,
sea yo en tu claridad.
Y todo vuelva a ser igual que entonces,
cuando tu llegada
no era el final del sueño,
sino su deslumbrante epifanía.

   González, Ángel. Otoños y Otras Luces. Barcelona: Tusquets Editores, 2001, p 73.
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27/10/12

" Qué lejos siempre entonces ya de todo,/ incluso de mí mismo; "


   " Aquí o Allí "

Quién es el que está aquí, y dónde:
dentro o fuera?

Soy yo el que siente y el que da sentido
al mundo?
O es el secreto corazón del mundo
- remoto, inaccesible -
el que me da sentido a mí?

Qué lejos siempre entonces ya de todo,
incluso de mí mismo;
qué solo y qué perdido yo,
aquí o allí.


   González, Ángel. Otoños y Otras Luces. Barcelona: Tusquets Editores, 2001, p 23.
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26/10/12

"o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas."


                                                     " Os Nomes do Mar "
 
o mar cria seus próprios cavalos e torna-se pedra quando muito gelado. ele não conhece flor nem fogo e mesmo assim pode queimaduras e adornos. tem enguias e mães d'água, corais e algas. o seu chão constela-se de esponjas e anêmonas. o mar é pródigo em estrelas e proventos. mas não tem galhos para os pássaros nem cabelos para os afogados. o mar é um cofre de naufrágios. no seu fundo caminham escafandristas. entre moreias e meros seus sapatos levitam. o mar é duro e delicado como a carapaça de um crustáceo. em suas angras ele brinca de aquário. ele é aéreo nas nuvens e seu humor sujeita-se à lua. o mar arrasta ou empurra. e seus abismos devoram muitas âncoras. são os brincos que Iemanjá reclama. na praia a onda lambe a areia mas nunca há ânsia. o plâncton escoa na garganta e o píer é um palito que por ela avança. e se um farol a ilumina, ei-la sem amídalas. o mar é inteiro boca e saliva. e nunca cospe, apenas engole. quem pensa em ressaca o enxerga de fora. ou acredita em mentiras. o mar exige sorte além de perícia. o mar salga e salva. seu imenso é um cemitério de almas. o mar não se cala quando quer, por isso é bem maior que o céu. ele dá a volta ao mundo sem andar em círculos e move as nadadeiras do pensamento perdido. o mar pode ser lindo e sinistro. solares e umbrívagos são seus caminhos. e eles recolhem muita espuma pelas bordas. o mar é imêmore e guarda todas as horas. e só chega à costa para que alguém possa vê-lo. o homem que o vê é um peixe seco. de ar e sangue, e sem guelras. o homem é igual ao mar, concebe e faz guerras. deus separou a porção seca do mar e pôs o homem a viver nela. a terra separa as águas como a vontade faz com os homens. há nela duas árvores: a do conhecimento e a da vida. a lei é que certas frutas vermelhas são interditas. para ir de um lado a outro o homem tem pés. para atravessar o mar, navios e Moisés. em terra o homem é o lobo do homem. já o lobo marinho é bem mais tranquilo. é mimoso feito um ouriço recém-nascido e quando cresce não promete espinhos. frente ao mar o homem tem arroubos divinos: caminhar  sobre as águas, multiplicar os peixes. mas sua vida terrestre é de carne e leite. o homem brinca de deus quando teima. ele se consome de porquês e se fabrica problemas. o homem brinca de deus mas vive no tempo. e no mar ele nomeia seus medos: mar morto, mar negro, mar vermelho. o homem é água e enredo.
 
  Gonçalves, Marcus Fabiano. Arame Falado. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012, pp 54 - 55.
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24/10/12

Tertúlia...

           António José Borges, Victor Oliveira Mateus, Maria Teresa Horta e Miguel Real.


O Blogue da "Alagamares" acabou de publicar uma reportagem fotográfica com a sessão do passado dia 20, em Sintra, dedicada à obra de Maria Teresa Horta. Nessa notícia são referidos os temas abordados pelos quatro autores. Agradecemos o destaque dado ao referido acontecimento.
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" aquela era a pedra do meio do caminho/ a opalescente reluzência da coisa mítica "



 "  A Perda no Meio do Caminho "

tinha uma pedra no meio do caminho
e lhes digo que nada tinha de empecilho

digo mais: parecia inclusive preciosa
nada do tijolo carcomido da memória
ou da mão fragosa na brita rude da caliça

aquela era a pedra do meio do caminho
a opalescente reluzência da coisa mítica

paralisado entre a pedra e meu caminho
eu a apanhei no escuro do beco, luzindo

e pichada no muro, uma queixa de amor:
o anel que tu me deste era vidro e se quebrou.

 Gonçalves, Marcus Fabiano. Arame Falado. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012, p 17.
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22/10/12

"(...) que leva Valéry a deslizar subtilmente para uma valorização das relações entre as sílabas..."


(...) recordando também um ensaio de Paul Valéry, no qual o escritor reproduz e comenta, com evidente anuência, a resposta dada por Mallarmé a Degas quando o pintor lhe confidenciou as dificuldades que experimentava ao enveredar pela expressão poética. De acordo com Valéry, Degas, que também se sentia atraído pela poesia e gostava de escrever versos, teria dado conta ao amigo das limitações com que se debatia nesse outro domínio da criação, classificando a poesia de "ofício infernal". E acrescentara: "Eu não consigo fazer o que quero e, no entanto, estou cheio de ideias". Ao que Mallarmé terá respondido: "Os versos, meu caro Degas, de modo algum se fazem com ideias. Fazem-se com palavras".
Pelo contexto em que é recordado este pequeno diálogo que o relato de Valéry iria imortalizar, é fácil compreender que ele serve como argumento para legitimar a concepção valeriana de linguagem poética e muito particularmente para reforçar a convicção, cara ao poeticista, de que esta constrói uma relação de indissolubilidade entre som e sentido. No entanto, Valéry também reconhece que essa relação não é perceptível num plano estritamente lexical e, entendendo que "a função do poeta é a de nos dar a sensação da íntima união entre a palavra e o espírito", irá relacionar este facto, alguns parágrafos adiante, com o modo como, no verso, as palavras agem sobre o leitor à maneira de "um acorde musical".
Tudo isto é bastante conhecido, tanto mais que as teses de Valéry viriam a ter fortes repercussões no desenvolvimento das poéticas e dos estudos de poética no século XX. Mas há, nesse ensaio, um aspecto que importa muito para o que pretendo dizer. É que o poeticista parece não poder explicar o que entende por esta aproximação entre o funcionamento do verso e o de um "acorde musical" sem transitar da palavra, valorizada por Mallarmé na frase que antes citara, para a sílaba. Se bem que Valéry comece por transcrever dois versos de Baudelaire (...) para dizer que "estas palavras" agem sobre o leitor sem lhe transmitirem muito em termos puramente informativos, a sua exposição evolui de tal maneira que o conceito de palavra é subitamente abandonado, sem qualquer justificação, e substituído pelo de sílaba - ainda na mesma frase -, concluindo o poeticista que "(a) impressão (provocada pelos versos de Baudelaire) depende em grande parte da ressonância, do ritmo, do número desta sílabas", e acrescentando que "resulta também da simples aproximação das significações".
Como devemos entender este deslize semântico que Valéry não só não explica como parece não querer sequer notar, já que a expressão "estas sílabas" surge como equivalente absoluto de um antecedente que era "estas palavras"? Creio que a relação de equivalência assim criada constitui uma explicitação interpretativa da afirmação de Mallarmé anteriormente citada, porquanto o que o poeta contrapunha às "ideias" de Degas era, na verdade, o que Valéry viria a chamar a indissolubilidade entre som e sentido. E é também a profunda consciência deste facto que leva Valéry a deslizar subtilmente para uma valorização das relações entre as sílabas, pois só elas criam entre si nexos - "ligações (racords) - relações (rapports)", como diria Mallarmé - que são aproximáveis de um acorde musical. Acorde que, neste caso, é essencialmente um acordo, uma consonância que pode autonomizar-se das palavras (embora sem deixar de implicá-las nesse movimento) para se situar no plano da organização integral do discurso, isto é, para se distribuir por todos os níveis de significância em que este se organiza - e daí também a referência de Valéry à "simples aproximação das significações".

    Martelo, Rosa Maria. A Forma Informe: leituras de poesia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 23-25-
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19/10/12

Tertúlia em torno da obra de Maria Teresa Horta.


Dia 20, pelas 20h00, no "Legendary Café" em Sintra.

Intervenções de Maria Teresa Horta, Miguel Real, Victor Oliveira Mateus e António José Borges.

Entrada Livre.
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18/10/12

"(...) deixar umas pegadas em vias de se apagarem numa vereda inúmeras vezes percorrida por outros..."


O poeta não tem para a poesia mais do que as palavras dos outros ou as palavras de outrem. Até porque não há outras. Há quem viva mal com isso, mas de facto nenhum de nós inventa a língua em que fala/ escreve. A língua que é matéria de que somos feitos, mediação e instrumentação do corpo-&-alma em que possuímos ou perdemos a verdade é a língua de outros que falam tumultuosamente dentro de nós e esperam que lhes falemos deles. (...) Imaginemos o que pode ser uma outra forma para este problema: imaginemos, com Francis Ponge, que "tudo se passa connosco (com os poetas), como com pintores que não tivessem à sua disposição para mergulharem os seus pincéis senão um mesmo e imenso balde onde desde a noite dos tempos todos tivessem tido que lavar as suas cores..." (...)
Para alguns de nós a poesia tem muitas moradas, ou nenhuma que lhe seja própria, pois seria nómada; ou o problema seria ainda outro - haveria poetas e poemas mas não haveria, como um sol imóvel, a poesia. Para outros ainda - e reconheça-se de uma vez que são diferentes as famílias e que as próprias semelhanças de família supõem uma diferença - a poesia só parece possível depois de uma experiência da sua impossibilidade, de uma ameaça de afasia, ou de pensarmos que a tínhamos perdido. Ou quando uma grande ilusão ou uma pequena mania obstinadamente nos conduzem e vencem, na iminência do início ou do recomeço, essa hesitação entre o peso do que já foi escrito e a hipótese arriscada de um outro possível, entre o que há de exigência na compulsão e o que há de cegueira na premeditação. E, então, quando na contingência e na obstinação, ela (a poesia) retorna ou insiste, o poema pode acender-se no brilho cego de uma absoluta necessidade, ou no estremecer de uma certeza sem garantias.
- Insistamos nesse limite: nenhum de nós inventa a língua em que escreve o poema; podemos apenas reconfigurá-la, desfigurá-la um pouco, estranhá-la ou fazer com que os outros a estranhem ou simplesmente que reparem num ritmo, num pequeno sistema de ecos, numa imagem que emenda uma recordação ou surge inventada e evidente.
- Quando conseguimos, há algo, uma coisa do mundo, que muda de forma. Ou de figura.
Podemos abrir um caminho no corpo amoroso e rebelde dessa língua, deixar umas pegadas em vias de se apagarem numa vereda inúmeras vezes percorrida por outros, escrever uns graffitti com tinta invisível nas paredes que uma cidade nos recusa, suscitar um ou outro encontro, por vezes, entre gente que nem sequer conhecemos. É certo que quando alguns conseguem o que a poesia promete a impressão que temos é a de que a linguagem está "em estado de nascimento" e nós, com ela, é como se recomeçássemos, ou como se de novo nos viesse alucinar a reclamação do direito a viver várias vidas numa só vida mortal, que foi um dos desejos de Rimbaud.
(...) Ora, de certa maneira, esse perpétuo nascimento da linguagem está inscrito no haver linguagem. O que a poesia faz não é mais do que inventar, a partir da comum faculdade de linguagem, ou da língua comum que supõe uma comunidade multiplamente clivada. Quando o poeta escreve (e são sempre pelo menos dois a escrever o que ele escreve), o que acontece ou pode acontecer é isso mesmo: a linguagem a repetir a sua origem, ou seja a funcionar. A experiência que fazemos da poesia é, assim, e de uma origem perpétua, ou seja, a de uma origem que se repete, segundo a diferença da história.
Essa experiência da linguagem, esse pensamento por figuras, a que chamamos poesia, pode abrir-se sobre a experiência do mundo ou ser ela mesma uma forma dessa experiência. Incomensurável embora, também o mundo é imaginável como uma tal origem.

    Gusmão, Manuel. Tatuagem & Palimpsesto: da poesia em alguns poetas e poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, pp 13 - 15.
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16/10/12



  " Coração Partido  "


Dizer da paixão mais do que o sangue
mais do que o fogo
trazido ao coração

Mais do que o golpe furtivo já ardendo
revolvendo na sede
a ponta de um arpão

Dizer da febre sem fé
do animal feroz
dos líquenes abertos e dos lírios

Dizer desassossego
sem razão
da raiva silvando no delírio

Dizer do prazer o meu gemido
no quanto é ambígua esta prisão
a deixar-me livre no que sinto
e logo envenenada à tua mão

  Horta, Maria Teresa. As Palavras do Corpo. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2012, p 269.
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14/10/12


    " Joelho "


Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fossem
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

   Horta, Maria Teresa. As Palavras do Corpo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012, pp 196 - 197.
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12/10/12

Convite.



A "Coleção Meia Lua" é uma iniciativa da Editora Lua de Marfim que visa publicar duas dezenas

de livros de outros tantos autores. Encontram-se já à venda as obras de Agripina Costa Marques,

Amadeu Baptista e Maria Teresa Dias Furtado. O lançamento de amanhã, referido no convite acima,

insere-se nesta dinâmica da Lua de Marfim.


( Nota - estou grato a esta Editora pela sua decisão de me incluir na lista de autores a publicar na "Coleção Meia Lua"! )
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11/10/12

O Prémio Nobel da Literatura de 2012...


... foi atribuido ao escritor chinês Mo Yan. Nascido em 1955 na província de Shandong, Mo Yan viveu uma juventude marcada pela privação e teve uma escolaridade complicada interrompida subitamente pela Revolução Cultural. Este autor é por vezes acusado de não apoiar a dissidência, não se demarcando o suficiente do governo, contudo é sua a afirmação de "que um escritor deve expressar críticas e a sua indignação com o lado obscruro da sociedade e da feiúra da natureza humana".
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09/10/12

Acerca de uma conversa...



 De três apontamentos a lápis que Oliveira Martins inseriu neste lugar acerca da suposta tentativa de envenenamento de D. João II em Évora, no ano de 1490, parece inferir-se que o seu espírito se inclinava a reconhecer-lhe a existência, o que aliás ele indica também, e de modo mais explícito, comentando o material coligido para o capítulo XII, em que teria de referir a morte do Rei em Alvor. Menciona o passeio à herdade da Fonte Coberta, situada a meia légua de Évora. Indica "a vingança, o natural desejo de libertação do jugo, como móbil do crime". O rei visitara a sua fonte predilecta e aí bebera um púcaro de água. Regressando a Évora logo sentira vómitos, enfartamento e laxidão intestinal. Medicaram-no e melhorou.
Passados dias sofrera novo insulto de que chegou a recobrar-se, mas saúde nunca mais tivera.
"Três fidalgos que haviam bebido da mesma água todos morreram de iguais ânsias e disenteria." (Nota a lápis de Oliveira Martins).
Oliveira Martins recorda também o que escrevera D. Agostinho Manuel afirmando: "(...) que D. Manuel duque de Beja, irmão da Rainha e do duque de Viseu, nas festas de Évora fora desconsiderado pelo rei seu cunhado, que o não extremou dos demais fidalgos, quando ele era o segundo herdeiro presuntivo do trono; e que estava a pé, como criado, atrás da princesa noiva, e que tudo sofreu com paciência e medo, lembrando-se do trágico fim de seu irmão."
Lembra igualmente a opinião de Camilo, que nos seus Narcóticos sugere a ideia "de que o envenenamento tivesse sido praticado por ordem ou indicação de quem humanamente mais tinha a lucrar com ele", e por fim parece querer lançar suspeita sobre o médico de D. João II. João da Paz, acerca do qual "os cronistas do Rei não falam, mas que vivia na intimidade dos irmãos do assassinado Duque de Viseu". (Nota a lápis de Oliveira Martins).

  Martins, Oliveira. O Príncipe Perfeito. Lisboa: Guimarães Editores, 1984, pp CXX - CXXI.

(...) D. Álvaro de Portugal e D. Francisco de Almeida, intrigavam em Portugal a favor de D. Manuel e alimentavam o espírito de vingança e de rebeldia da nobreza contra D. João II. Ressentido este, recorreu mais uma vez ao antigo expediente de redobrar de atenções e pôr em evidência a Excelente Senhora, dirigindo-se de Torres Vedras a Santarém com o fim de visitá-la, e procedendo nessa viagem com precipitação tal, que dera azo aos mais variados juízos e aventurosas suposições.
Aproximava-se no entanto, e a passos rápidos, o desfecho. A rainha D. Leonor não se demovia (...) Prosseguia a doença do Rei sem alternativas. Permitiu-lhe uma destas dar à esposa uma demonstração de afecto, seguindo em uma só noite de Alcochete, onde estava, para Setúbal, apenas tivera notícia de que a soberana enfermara gravemente naquela vila. Ali foi encontrar a infanta D. Beatriz, mãe da Rainha, e o Duque de Beja, e com ambos partilhou os desvelos e cuidados pela enferma.
Em fins de 1494 era já tamanho o enfraquecimento do Rei que lhe não consentia assinar o despacho, e as suspeitas de envenenamento tornaram por isso a acentuar-se mais e mais (...) A hipótese do envenenamento seria aqui discutida largamente, e, como já tivemos ocasião de o expor, pode afirmar-se que para ela propendia o ânimo de Oliveira Martins. As razões políticas que imperavam na mente da família e dos partidários de D. Manuel, as práticas do tempo, os próprios sintomas das sucessivas enfermidades do Rei, tudo o dispunha a crer que, por duas vezes pelo menos, a arma traiçoeira do veneno fora vibrada para resolver tão intrincada situação política, afastando de vez um obstáculo aliás invencível, e vingando na pessoa do Rei as mortes de tantos Príncipes e de fidalgos tão ilustres.
Coligindo diligentemente quanto em Resende , em Rui de Pina, em Damião de Góis e em Vasconcellos, se encontra disperso sobre os sintomas que acompanharam a enfermidade e morte de D. João II, Oliveira Martins consultou acerca de assunto tão espinhoso, mas tão palpitante de interesse, o dr. Manuel Bento de Sousa. Por mais de um motivo julgamos dever consignar aqui a opinião exarada pelo doutíssimo clínico (...) São duas cartas do dr. Manuel Bento de Sousa dirigidas a Oliveira Martins sobre o assunto (...):
(...) D. João II adoece de repente com sintomas de envenenamento, ânsias, vómitos e outros fluxos. Adoecem na mesma ocasião três familiares seus, com os mesmos sintomas, e morrem soltos. Levanta-se então a suspeita da peçonha, e o mesmo rei a tem. Este salva-se, mas dentro de quatro anos repetem-se os sintomas várias vezes - isto é: novas doses de veneno, a que por fim sucumbe.
O cadáver, tornado um armazém de arsénico, ou qualquer metal de semelhante acção, conserva-se incorrupto por este embalsamamento, e desenterrado em tempo de D. Sebastião, e, se não me engano, ainda outra vez mais tarde, aparece sempre inteiro.
Proclama o povo que o rei foi santo, e por duas razões o foi - por estar inteiro e por fazer milagres. Curiosa evidência! Os milagres consistiam em se curarem maleitas com a terra da sua sepultura, sendo hoje de todos sabida a poderosa virtude do arsénico contra sezões
Esta demonstração muito boa à l'usage des gens du monde, tem só um defeito: desfaz-se toda em um médico lhe tocando.
Os sintomas da doença são comuns a outras moléstias, e podem muito bem ser os de uma simples indigestão, e muitas indigestões devia haver naqueles banquetes das festas do casamento do Príncipe onde foi tal a comezaina(...) Depois, o arsénico, se alguma vez tem determinado a conservação post mortem dos corpos envenenados, tem sido por excepção. Não só, na grande maioria, apodrecem os mortos por veneno, mas há fora do envenenamento outras condições, que mais e muito facilitam a conservação.
O milagre da cura das maleitas também ao arsénio não pode ser atribuído. Por muito tóxico, que no corpo do rei houvesse, não podia ele existir na terra da sepultura, visto que na terra se não desfizera o cadáver.
Aquela demonstração não tem portanto valor dentro da medicina, mas tem-na fora dela, uma vez que haja o cuidado de peneirar as provas, para ficar com as boas, deitando fora as que não prestam.
Assim, pois, digo eu D. João II foi envenenado, fundando-me nos seguintes argumentos:
1º Considerando os factos, as pessoas e a época, deve ter-se dado o envenenamento (...) Os ódios abrasavam os parentes, as ambições separavam os mais chegados, e no mesmo paço rei e rainha, defendendo interesses opostos do seu sangue, a tal ponto se aborreceram que a rainha ainda foi mais dura do que o rei. Quando a rainha esteve às portas da morte em Setúbal, o marido correu para junto dela, mas quando o rei caiu para sempre em Alvor, a esposa não apareceu à sua cabeceira
(...)Numa luta assim, o veneno não podia ser para eles uma torpeza. Era um meio como outros, superior ao punhal por ser mais secreto...
2º Os sintomas e outras circunstâncias do primeiro ataque da última doença, levam a acreditar no envenenamento. Os sintomas, disse eu, podiam  até ser de uma indigestão. É certo, mas certo é também, que sendo quatro os casos, e havendo três mortos, são mortos de mais para indigestões. Do mesmo modo, quatro casos de ânsias, vómitos e outros fluxos, dando três mortes, e não sendo seguidos de outros casos e outras mortes no séquito real, são de menos para uma epidemia, são de mais para doença esporádica, e são bastantes para envenenamento.3º (...) A descrição dos últimos sofrimentos, embora lacónica, é suficiente para se ver que o rei sucumbiu a uma anasarca com perturbações cardíacas. A acção do arsénico, e análogos, em doses lentas ou repetidas, causa a degeneração gorda do coração e outras vísceras, sobrevindo-lhe a anasarca.
4º Sucessos posteriores à morte de D. João II reforçam a hipótese de envenenamento.
Falecido D. João II, D. Manuel, com desprezo de uma das cláusulas testamentárias de seu cunhado, chamou ao reino os desterrados, engrandeceu-os, e fez mercês a diversos, entre os quais aparece nobilitado um judeu suspeito, de cuja família Camilo Castelo Branco se ocupa largamente, dando em comprovação do envenenamento um argumento, que de entre todos fixei por importante.
(...) Ora este mestre João, mestre de D.João II, que foi o seu padrinho de baptismo e na pia lhe deu o seu nome, não figura entre os assistentes de D. João II, está ao serviço da rainha e vê-se mais tarde, que tem correspondências melindrosas com altos personagens, mas vive sempre obscuro, até que de repente o sucessor de D. João II o nobilita, mal sobe ao trono, institui-lhe morgado, dá-lhe o apelido de Paz (...) Nota Camilo, e com razão, que D. Manuel, apesar de encher o mestre João da Paz de tantos favores e proteger-lhe os filhos todos, não o quisesse contudo para o seu serviço, sendo também muito notável, acrescento eu, que pelo contrário para o seu serviço quisesse a outros servidores do seu antecessor e primeiro que todos a Antão Faria, o mais querido confidente de D. João II (...) Quer-me parecer que D. Manuel distinguia assim entre o médico devasso e judeu desleal que se prestara a ser o técnico do envenenamento, ao qual devia o trono, e o servidor honrado (...) Eis as razões, que me levam a acreditar no envenenamento e a suspeitar de mestre João da Paz. Estas razões, está bem de ver tiram o maior valor do seu conjunto. De V.Exa. M. Bento de Sousa.
 A atitude de D. Manuel, se por um lado encontra explicação no receio e na prudência, por outro não deixa de tornar-se suspeitosa. Analisá-la-ia Oliveira Martins traçando aqui um perfil do Rei Venturoso  (...) sem que provavelmente, a memória desse soberano houvesse muito a ganhar ao ser reavivada pelo seu novo biógrafo.

   Martins, Oliveira. O Príncipe Perfeito. Lisboa: Guimarães Editores, 1984, pp CLIX - CLXV.

Nota -
a) este poste vem na sequência de uma conversa havida no Face e onde eu cometi uma imprecisão: quando João II está agonizando é este que chama a mulher e o cunhado (e primo) ao Alvor. Não é a rainha que chama João II! O meu erro deve-se ao facto de ter lido as Crónicas de Garcia de Resende e de Rui de Pina há muito muito tempo e, como é óbvio, haver muita coisa de que já não me recordo.
b) esta obra de Oliveira Martins é, como se sabe, um conjunto desarticulado de notas, cartas e excertos posteriormente organizados, pois o escritor nunca chegou a concluir o livro.
c) neste texto existem também algumas passagens que me levam a suspeitar que o príncipe herdeiro (o infante D. Afonso) foi também assassinado, mas são exactamente os mesmos excertos que eu já lera em Garcia de Resende e que continuo a achar muito estranhos: a troca da mula pelo ginete, o facto deste se ter espantado com o que lhe apareceu subitamente à frente e, sobretudo, o interesse que os partidários do futuro D. Manuel teriam na morte do herdeiro do trono, mas isto são apenas intuições de quem desconfia de rancores antigos, de sede de vinganças e dos interesses que estavam ali em jogo.
d) Nestas páginas há também uma segunda carta de Bento de Sousa para Oliveira Martins onde se fala da figura de João da Paz, distinguindo-o de outras personagens com nomes semelhantes que existiram nesse momento histórico e refere-se a uma eventual confusão feita por Camilo Castelo Branco acerca deste tópico, mas não me parece importante, para o assunto, falar disso aqui no poste.
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08/10/12

De um texto anónimo do século XIX.



(...) mas quando, e onde se terá visto, que por evitar um perigo duvidoso, ou imaginário, se recorra a uma ruína certa e real? Pode-se assegurar, que Portugal, por evitar a sua perda, se perdeu miseràvelmente, pois os Ingleses, com pretexto de proteger aquele reino, o privaram, e privam do seu comércio, e da sua indústria, tiraram-lhe, e tiram as suas riquezas, destruiram-lhe, e destroem-lhe os seus exércitos, e aniquilaram-lhe, e aniquilam a sua marinha. Que maiores males lhes poderia fazer o inimigo? Ainda que Portugal tivesse tornado a entrar em poder da Espanha, teria perdido tanto o seu estado-político?
Quando um governo se apodera das riquezas de outro, tendo-o na mais absoluta dependência das coisas fisicamente necessárias, não sòmente perde quanto se tem insinuado, mas também a liberdade civil, que só existe no nome; e assim pois teria sido melhor para Portugal tê-lo qualquer potência conquistado com as armas, porque neste caso só teria pensado nos meios de romper, e libertar-se das cadeias, em vez que no outro não faz mais que arrastá-las, e suportar o seu peso com paciência.
Está cheia a história de nações que sacudiram o jugo dos que a conquistaram à força das armas; mas quase nunca se viu sair uma nação daquela espécie de escravidão em que a pôs outra destruindo as suas artes e o seu comércio, porque tendo-lhe tirado as suas riquezas lhe cortou o nervo do seu poder civil, e político.

  Castro, Armando. A Dominação Inglesa em Portugal com 3 textos do séc. XIX em antologia. Porto: Edições Afrontamento, 1974, pp 69 - 70.

Nota - foi mantida a grafia da edição.
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