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01/09/11


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 " Galo preto "

Convém ignorar o canto
de quem se julga
o senhor do sol e da lua.
Ele empina o corpo rijo
para anunciar fatos
que são puro veneno.
Melhor um despertador
para informar as horas.

Olhe para o pescoço,
a vibração da língua,
as faíscas das esporas.
Todas as veias pulsam
com desejo de morte.
Quer as cristas dilaceradas,
o inimigo com má sorte
e a rinha tinta de sangue.

Crédulos o imolam
para que seja o arauto
da entrada da alma
em um mundo de luz.
Porém, antes da degola,
o último canto conduz
mais um condenado
às portas do purgatório.

  Donizete Galvão in " O homem inacabado ", Portal Editora, São Paulo, 2010, p 44.
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(Nota - a palavra "fatos", do 5º verso da primeira estrofe, engloba-se na categoria das palavras de dupla grafia...).
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31/08/11

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          " A cidade "


Por mais que insistas em recusar,
esta é, sim, a tua cidade concreta
onde tantos te ofereceram amizade
e o amigo partiu pela porta secreta.

Andaste cabisbaixo pelas calçadas
remoendo as humilhações do trabalho.
Marcaste este chão com teus passos,
dores recolhidas como um restolho.

Aqui nasceram os filhos, a epifania
das infâncias que sumiram passageiras.
Abriste envelopes com muito medo,
receoso daquelas notícias derradeiras.

Tu que amas a simetria permanente
viste a barriga da cidade arregaçada.
Como nas telas de Anselm Kiefer,
tens nela tuas perplexidades retratadas.

  Donizete Galvão in " O homem inacabado ", Portal Editora, São Paulo, 2010, p 59.
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12/05/08




      "Visita"


Que ela chegue
sem clarins ou trombetas,
entre como facho de luz
pelas gretas da janela
e atravesse o quarto
na sua claridade.

Que ela chegue
inesperada,
como a chuva
na tarde calorenta
e faça subir o odor
de poeira molhada.

Que ela chegue
e se deite ao meu lado,
sem que a perceba.
Que me lave
com água da fonte
e me cubra
com o bálsamo branco
do silêncio.


Donizete Galvão, In "Mundo Mudo"