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04/01/11

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" Personagem "


Deixava que o olhar seguisse
meio perdido meio assente
em pormenores do terreno sem que os visse

era frio: e no entanto aquilo por que ia sempre fora

matéria ardente,
miragem de uma atenção alucinada

ainda não sei hoje que nome dar àquilo
o amor não é tão duro

Maria Andresen in "Lugares, 3", Relógio D' Água Editores, Lisboa, 2010, p 55.
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03/01/11

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" JUST PUT A LOT OF LOVE IN IT
(Johnny Guitar, Nicholas Ray)"


Nada neste lugar é simples; nada para além do fogo que
num ápice devora
o meu saloon de espera: (Johnny tu eras
a minha questão com a vida) onde param vultos
negros como corvos e a sua destreza pequena

mas ela, Vienna, usa o branco, o vermelho, o piano
ela sabe curta a sorte e curta a rédea que a segura
e que toda a morte é súbita nos saloons
por isso te espera Vienna nesse lugar limite
(e são lugares limite todos os lugares da vida) ao som
da roleta a girar como uma esperança - just put
a lot of love in it

Maria Andresen in "Lugares, 3", Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2010, p 18.
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02/01/11

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         " MEDITERRÂNEO
(Méditerranée de Jean-Daniel Pollet) "
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Há ecos secos de estridência e ignorância
rodeamos devagar a casa emudecida e grande
e olhamos
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como de roda atroam os insectos
como no rosto jacente o tempo é luminoso
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e se obstina, paralelo ao sol, à corrosão do sal
- esta é a condição que nos espanta, sob o cerco
atroante dos insectos
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olhamos isto devagar e nada vemos
e disso é que falamos: da obstinação do sol
sobre as ruínas
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a rapariga de vermelho, que aos torsos se mistura,
a rapariga em branco, sob um sono branco
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e a rapariga que abotoa a blusa azul enquanto passa
um vento de doçura e quente, um vento que consente:
rosa aberta ao canto rouco obstinado
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porque são rápidos cegos e ligeiros os gestos
nessa dança
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todo o rosto é solo arável, todo o rosto dado
à incubação do sol, à luz propícia, este é o zumbido
das abelhas - robustas, em círculo apoderadas
da procura
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Maria Andresen in " Lugares, 3", Relógio D' Água Editores, Lisboa, 2010, p 15.
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01/12/09

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"Piano solo"


Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias ocres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas

(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)


Maria Andresen de Sousa In "Lugares", Relógio D'Água Editores,
Lisboa, 2001, p 32.
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