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15/06/12

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A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

  Correia, Hélia. A Terceira Miséria. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2012, p 29.
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Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

  Correia, Hélia. A Terceira Miséria. Lisboa:  Relógio D' Água Editores, 2012, p 13.
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10/10/10

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           "Soneto"


Se alguém batesse à minha porta um dia
E me chamasse à vida que há na rua,
Eu - que não quero ouvir - nada ouviria
Que apenas ouço aquela voz que é tua.

Se alguém de noite abrisse a gelosia
Para que eu pudesse olhar a luz da lua,
Eu - que não posso ver - nada veria
Que a condição de cega continua.

Nem punhal feito em aço de Toledo
Me atinge o coração porque ele somente
No aço dos teus olhos se desfaz.

Pois contra mim lançou este bruxedo
O Amor: de meus sentidos nenhum sente
Senão o sentimento que lhes dás.

Hélia Correia in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira"
(Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto,
Fafe, 2010, p 74.
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