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26/04/11

" Os caminhos, hoje, estão libertos de heroísmos/ de opereta (...)"

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"Mapa de desencontros"

Vez por outra, intentava uma máscara menos íntima,
invadia a rua como quem entra num cenário de guerra
e tu eras o espelho indiscreto que mostrava o meu rosto
semeado de marcas cinzeladas por um vendaval
qualquer. Mais tarde, haveria de me dar conta
desse mapa de naufrágios, desse roteiro de gestos
sem causa. E eram tristes os relatórios dessas incursões
no caos. Memórias para esquecer.

Os caminhos, hoje, estão libertos de heroísmos
de opereta, os meus passos vestem-se de nuvens
baixas e até os homens mais antigos
circulam em redor das próprias sombras.

Fecham-se as portas, as manhãs ondulam sozinhas
e estas palavras são a última possibilidade
que o silêncio me concede.

 Fernando de Castro Branco in "Estrelas Mínimas", Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 61.
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25/04/11

" Talvez a cidade ainda me arraste para dentro/ de si, com sua vegetação de cinza, "

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"Lembranças, ou o tacto da memória"

Entregue às palavras, como se a um pó mais denso,
trabalho lembranças com o cuidado que se tem
com as coisas frágeis. Tacteando ausências, acendendo
velas no escuro da casa. O frio sobe neste Outono,
o corpo diminui de queda em queda, sucedem-se
as primeiras quebras no ritmo cardíaco, os primeiros
picos nas cordilheiras do electrocardiograma.

Retomo a lama com as mãos, modelo no barro
um artesanato de vertigens, certo que depois do amor
pouco mais haverá que mereça outro desassossego. Assisto
desta varanda a paisagens demolidas, às tardes
sem luz, a uma utopia recolhida atrás das janelas.

Talvez a cidade ainda me arraste para dentro
de si, com sua vegetação de cinza,
talvez observe os transeuntes
às luzes ocres do desencanto,
com a alma hesitante
entre o abrigo da Lua
e a nudez da casa.

 Fernando de Castro Branco in "Estrelas Mínimas", Editora Labirinto, Fafe, 2008, p 41.
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