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30/03/13
VIAGEM: -
Sigo os teus passos, caminheiro perdido em cidades som-
brias. Não sei manejar as estacas com que te inclinas no
abrigo dos alpendres. Mas todos os caminhos me desafiam
para o desvario de um lugar, de uma palavra, de um rosto.
Como se a linha da vida me cartografasse o olhar.
Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 30.
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PAI: -
Hoje pensei na solidão dos pássaros quando as searas se
incendeiam. E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo como
se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras. O que
sei eu das uvas entre os teus dentes no tempo das vindimas?
Que pássaro de cinza, diz, te sobrevoou o verde do olhar?
Se prolongasse o poema dir-te-ia como os meus olhos
te lembram. Mas não posso. Vou devolver ao mar as conchas
negras da minha colecção.
Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 22.
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DECISÃO: -
Não traço planos. Amanhã cada minuto será transitório.
Todos os pormenores que me são próprios terão a precisão
das cordas do alaúde em dedos sensíveis. Serei nómada e
levarei comigo a máscara do veneno junto à boca.
Pires, Graça. Caderno de Significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim Editora, 2013, p 11.
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22/09/12
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Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.
Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 94.
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Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.
Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 94.
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" Marginalidade "
Subversivamente
o instinto me descomanda.
E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.
Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.
Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.
Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida num momento.
A solidão é como o vento.
É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo.
Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 8.
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" Marginalidade "
Subversivamente
o instinto me descomanda.
E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.
Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.
Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.
Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida num momento.
A solidão é como o vento.
É nos olhos dos mendigos
que a noite se prolonga por mais tempo.
Pires, Graça. Poemas Escolhidos 1990 - 2011. Lisboa: Ed. Autora, 2012, p 8.
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13/05/12
Aguardamos uma luz de seiva
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.
Pires, Graça. Uma Vara de Medir o Sol. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 81.
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Vou pela irregularidade das pedras
de uma aldeia envelhecida.
Há casas vazias com manchas e verdete
no trinco das portas e muros caídos
que são o fim e o começo de múltiplas evasões.
Os líquenes cobrem aleatoriamente
os degraus de granito e é lodoso o fio de água
vertido pela fonte de outras sedes.
Pires, Graça. Uma Vara de Medir o Sol. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 55.
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12/05/12
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Vamos com passos de lodo
pelo declive das dunas.
Já são tardios os atalhos que pisamos.
À boca das vagas acende-se a morte
e a ceguez das gaivotas que vagarosamente
se entregam ao turvo movimento das algas,
exaustas também da corrente estonteante
dos peixes à procura do sal e da luz.
Pires, Graça. Uma Vara de Medir o Sol. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 29.
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Vamos com passos de lodo
pelo declive das dunas.
Já são tardios os atalhos que pisamos.
À boca das vagas acende-se a morte
e a ceguez das gaivotas que vagarosamente
se entregam ao turvo movimento das algas,
exaustas também da corrente estonteante
dos peixes à procura do sal e da luz.
Pires, Graça. Uma Vara de Medir o Sol. São Paulo: Editora Intermeios, 2012, p 29.
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19/03/11
.Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.
Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.
Graça Pires in "A incidência da luz", Editora Labirinto, Fafe, 2011, p 13.
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Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.
Graça Pires in " A incidência da luz, Editora Labirinto, Fafe, 2011, p 33.
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Presa às marés, outras margens me circundam.
Procuro os teus braços.
Esgota-se em cada dia, lentamente,
a viagem do tempo que expõe a rigorosa
proa no vértice dos dias.
A densidade do sal partiu-me os remos
e entranhou-se-me nas veias como um tormento.
Tenho um barco parado a obstruir-me os lábios
colados à rugosidade dos mastros.
Procuro o teu rosto.
Graça Pires in " A incidência da luz, Editora Labirinto, Fafe, 2011, p 33.
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09/02/10
.
Sei o som dos passos
com que regressas a casa.
No quarto virado a norte,
a prevenir-nos de todos os invernos,
aguardo que prolongues em mim
a tua sombra intacta.
De frutos doces me enfeito.
Uma luz quase clandestina
inunda minhas margens
e deixa-me um rio no vinco da cintura.
O teu desejo terrivelmente puro!
Graça Pires in " O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 28.
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Sei o som dos passos
com que regressas a casa.
No quarto virado a norte,
a prevenir-nos de todos os invernos,
aguardo que prolongues em mim
a tua sombra intacta.
De frutos doces me enfeito.
Uma luz quase clandestina
inunda minhas margens
e deixa-me um rio no vinco da cintura.
O teu desejo terrivelmente puro!
Graça Pires in " O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 28.
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06/02/10
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Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.
Graça Pires In "O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 11.
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Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.
Graça Pires In "O silêncio: lugar habitado", Editora Labirinto,
Fafe, 2009, p 11.
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24/07/08
que a noite podia incendiar-se nos meus olhos" de autoria de Graça Pires (Livraria Buchholz,
Maio, 2007).
Maio, 2007).
"Foram os olhos. Foram os olhos dele, quando pousaram, devagar,
sobre os meus olhos, que me trouxeram esta sede até esse momento
apenas pressentida. Foram os olhos dele, tão acesos nos meus, que
encheram os meus olhos de estrelas e de sonhos e de lágrimas e de
pássaros errantes. E juro que pensei: não me importava de ficar cega
de tanto o olhar, porque a imprevisível cor de todas as madrugadas
ficará, para sempre, intacta, no meu peito. Desde então, os meus
olhos atraem a nitidez da noite e as aves nocturnas deslizam no meu
corpo, para lamber a lua escondida nos meus lábios. Cerro as pálpebras
à inquietação da manhã. Não procuro razões para a súbita armadilha
que foi o seu olhar. A sua respiração perto da minha era uma espécie
de afago. Tantas vezes me apeteceu dizer-lhe: aceita o vazio das mãos
que te estendi e guarda dentro delas teus desejos. Tantas vezes quis
falar-lhe do meu amor, como de barcos que chegam e partem de algum
lugar onde eu gostaria de ter nascido. Tantas vezes escrevi o nome
dele em todas as paredes imaginadas. E se ele me dissesse onde era
o lugar da sua sede, eu estaria lá para saciar com ele a minha sede"
Carta 1, In "não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos"
de Graça Pires.
07/04/08
Foto de Tana KaleyaDe tão longe me tocaste.
Ou foi a tua sombra
que dançou
na minha sombra?
Podia ser de júbilo
a linha do teu rosto
quando soletraste
a rebeldia dos sonhos
e te fizeste errante.
Agora o sonho
é também o meu exílio.
E muito mais me perturba
o luto do olhar
do que a boca
ferida de silêncio.
Graça Pires, In "Uma Extensa Mancha de Sonhos"
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