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16/05/12


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   " Ruínas "


Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

  Pina, Manuel António. Como se desenha uma casa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p 31.
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15/05/12


  " O quarto "


Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste

para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.

A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.

Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.

Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.

   Pina, Manuel António. Como se desenha uma casa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, pp 18 - 19.
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14/05/11

 
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  "A Porta"


Alguma coisa fora de mim
está escondida em mim
como um coração exterior

Às vezes canta mesmo a meu lado
com a minha voz
como se tivesse eu cantado

Talvez estas lágrimas
não me pertençam nem este momento
nem este sentimento de este sentimento

Que rosto real
me olha e se vê?
Que porta física
tenho que passar?

  Manuel António Pina in "Poesia Reunida", Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, p 112.
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