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05/02/11


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"Descoberta de Osíris"
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Osíris Osíris - do alto a Mãe gritava
(No horizonte o Sol desaparecia)
Osíris - Menino brincando da calçada
e Osíris se chamava. Amei o nome
o modo diverso com que se detinha
ou andava. Chutava a bola?
Tinha um perfil transposto
de cor tão bela, entre ouro e areia.
Do quarto andar - do alto - ela o chamava
como um pássaro feroz: falcão, talvez abutre.
O que em mim bulia a esse novo som
àquela beleza de semente
aos finos cabelos, plantas aneladas
de beira rio? O que em mim sabia
o novo e tão distante?
Ele olhava o quarto andar, o grito,
eu o olhava. Mas Osíris se evolara.
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Dora Ferreira da Silva in "Cartografia do Imaginário", T.A. Queiroz Editor,
São Paulo, 2003, p 42.
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31/01/11

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"À Tálida"


Levantas os claros olhos vagos,
reflexo do Jônio Mar. E alva suplicas ao
Zéfiro: "Apartem-se os delfins das águas
do meu corpo!" Toda de luz
se esvai a carne de teus flancos,
teus seios são ariscos aos ávidos amantes.

Tálida, por que te afastas
nas amplas salas do Mar? Por que te esquivas a Hipérion,
um a um descendo os degraus da escada flamejante?

Enovelas-te em concha róseo-dourada,
os ouvidos cerrados ao lamento amoroso.
Por que a recusa em véus dissimulados?
E essa lágrima, ó tristonha,
por que suspensa nos cílios de seda iluminada?
Tua beleza é cofre oculto em profundezas,
aonde mão não chega de amado algum, nem sonho.
A taça de teus lábios é oferenda
que em nada se assemelha ao vinho destes ares,
a outro Deus vertido, Tálida, casto e invisível.

Dora Ferreira da Silva in " Hídrias", Odysseus Editora, São Paulo, 2004, p 47.
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23/01/11

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" Fora e Dentro"


Longe de Plutão, o Verde,
a janela do céu.
Subi tantos degraus no sonho?
As paredes me apertam.
Lembro-me de Ícaro
nessas paragens sem nenhum caminho.
Mas é a única janela aberta, incerta,
por onde começar.

Não te escolhi, altura, impuseste-me o começo: grande,
me escolheste pequena,
os olhos fechados num sonho que sonhaste.

Paro e contemplo.
Dispo-me do medo, esse casulo usado.
Espero o que quiseres.
Sabes que te amo, sem chão,
com cicatrizes de nuvens.
Nem avanço ou recuo,
mas tento decifrar-te:
subitamente infinita
na espiral recurva.

Dora Ferreira da Silva in "Poesia Reunida", Topbooks Editora, Rio de Janeiro, 1999, p 96.
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17/01/11


" Órfica "
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Não me destruas, Poema,
enquanto ergo
a estrutura do teu corpo
e as lápides do mundo morto.
Não me lapidem, pedras,
se entro na tumba do passado
ou na palavra-larva.
Não caias sobre mim, que te ergo,
ferindo cordas duras,
pedindo o não-perdido
do que se foi. E tento conformar-te
à forma do buscado.
Não me tentes, Palavra,
além do que serás
num horizonte de Vésperas.
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Dora Ferreira da Silva in "Poesia Reunida", Topbooks Editora, Rio de Janeiro, 1999, p 89.
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21/07/10

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"Encontro"


Este lugar é outro.
Balançam bambus ao vento
as tranças desiguais.
Ninguém responde às minhas palmas.
Onde o cão habitual
farejando o imprevisto?
Atenho-me às plantas, ao fundo do quintal
com suas raízes.
Têm sede, não chamam.
Com o cansaço da tarde, vou olhando:
cancelas arruinadas,
um carrinho tombado, vertendo terra mais escura;
um jarro de esmalte branco, antigo,
entre outras coisas
muito abandonadas.

Há marcas na terra seca e solta,
marcas de brinquedo:
tampinhas de garrafa e um aro em meia-lua
de metal prateado.
Vejo o que há de irregular e errático
na menor alegria.

Sento-me num banco debaixo da ameixoeira.
É um banco pequeno, incômodo,
um banco de criança.
O que fazer?
Já bati palmas, feri o silêncio
deste recanto calmo.

Balançam bambus ao vento
as tranças desiguais.
Este lugar é outro.

Dora Ferreira de Silva in "Poesia Reunida", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 1999, pp 67 - 68.
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20/07/10

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"Metafísica"


Vai tempo onda marinha afogando teus mortos
rola na orla estreita búzios e medusas
põe no ouvido ávido dos vivos
a breve canção do invisível mar
canção de um longe que ressoa
vai tempo fantástica maré
anêmona vibrante
colhe em teu cerco o sorriso do homem
e o pólen dos séculos

Voa pássaro marinho
semente viva entre rochedos
foge para as ilhas
à beira das águas taciturnas

Tempo
mar e marinheiro
barco e viagem
arrasta teus cansados velames e o vento que os impele
vai velho marujo
rumo aos horizontes incompletos

Dora Ferreira da Silva in "Poesia Reunida", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 1999, p 40.
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05/05/08

 


Nas dunas mais douradas próximas do mar
descobri tua morada. Mas te ausentaras.
Olhei barcos de pesca marinheiros ao sol
não estavas lá. Entre os que puxavam redes
e escolhiam peixes por qualidade e tamanho
também não estavas. Indaguei ninguém sabia teu nome
riam do embaraço com que eu buscava descrever-te.
Ninguém vira alguém assim. Esperei junto à duna
as horas passavam descuidadas e nada sabiam
de ti. No céu as primeiras estrelas assomaram
e riam do meu rosto desfeito de cansaço.
Vasculhei desesperada o antro em que te abrigas
vi sinais tão vagos: marcas de pés descalços
um vasilhame intacto e vestes brancas.
Nada parecia usado pela vida. Tua coleção
de conchas nacaradas teu chapéu de algas
te denunciavam.
Existes ó ausente ou és somente quem buscamos
numa realidade arisca e improvável?


Dora Ferreira da Silva, In "Poemas da Estrangeira"