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27/12/09

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Não haverá oficina para as minhas noites.
Vejo-as deitar fumo
como o alcatrão ainda quente
dos meus olhos fundamentalmente
sem trânsito,
ouço-as trémulas ao embaterem
nos ombros da sentinela de gesso
que me guarda o sono.
Não haverá mecânica para estes metais
soldados a frio, armados
sobre a estação
sinistra
onde os anjos fazem transbordo
e seguem, sentados, para o forno
da vida eterna.

Mas eu tenho uma têmpora ferida
pela pata marcial de um leopardo
e sangro o meu instinto
na concepção de uma biologia
mais vulnerável
e perigosa,
e uso a noite para este fim
e para este apenas
- e é de lava e sombra
a substância profana
em que tão avariadamente
trabalho.

Não haverá uma oficina
e os seus elevadores, não haverá
um martelo - não me corrijam,
esta vida vai em sobre-aquecimento
dos seus interiores,
perplexa, marginal,
honesta.

E se a virem parar no meio de uma estrada,
inflamada e contorcida,
é porque aí
encontrou
o mais justo câmbio
de vento
para as suas noites.

Não a reboquem, ponham-lhe flores,
e sigam, sentados, para o forno
da vida que vos coube.

Vasco Gato In "Omertà", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
2007, pp 65 - 66.
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22/12/09

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Entrei em barcos que eram fotografias.
Corrigi palavras que eram bocas na
sua latitude de espera e fome. Intrujei
a morte com o meu sorriso de animal
assustado. E de propósito, sim, as em-
balagens rasgadas de onde saíram os
gritos fundamentais - arredar cadei-
ras para ver entrar os próprios olhos
- de propósito, tão de propósito que
poucos entenderam que é essa a natu-
reza final dos poemas,

proclamar-se pobre,

escorrer apenas lava da boca sensível,
ligeiramente desmaiado pelo balanço
da noite, existir na rebentação como
estrela de cinco pontas, como a cidade
inadiável, como o verde de uma mão.

Vasco Gato In " Omertà", Quasi Edições,
Vila Nova de Famalicão, 2007, p 61.
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