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19/01/12

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        " Alguém "

 
Sou as palavras e os segredos que guardei
e um estrito reservar-me nunca soube porquê
se tão completa me entrego as vezes que me entreguei.
Sou a lembrança que se vai diluindo
em olhos que julguei perenes e consanguíneos.
Sou canções poemas e tantas
malbaratadas luas. E a música e os livros
e a varanda que um arquitecto desenhou
sem saber que era p'ra mim. E que perdi.
Sou o teu sono,minha gata, redondo ainda
e já inclinado ao fim. Sou árvores, o rio que amei,
as aves, as giestas, uma pouca de terra.

 Soledade Santos in " Sob os teus pés a terra ", Ed. Artefacto, Lisboa, 2010, p 74.
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           " As palavras "


As palavras são navios e a respiração lhes dá corpo.
Florescem nas amarras dos dias tranquilos
e laceram pequenas certezas.
As palavras, à tarde: morno rebanho branco
cintilando na sombra da encosta da serra
- e os olhos passam e desfalecem no velo dócil.

Arde baixo a voz, o dia dividiu-se em antes e depois.

  Soledade Santos in " Sob os teus pés a terra ", Ed. Artefacto, Lisboa, 2010, p 40.
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18/01/12

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 " Não precisamos de muita coisa "


Não precisamos de muita coisa,
um pouco de sol e as Berlengas no horizonte,
a tarde escorrendo na cafetaria,
os nossos olhos lentos e as vidraças
subitamente acesas no esplendor das bátegas.
Patos selvagens erguendo-se da lagoa
quando sairmos e ao vento frio oferecermos
a transparência dos lábios cercados
pela melancolia da tarde que nos finda.

E à noite talvez as mãos
ardidas de saudade e em surdina
uma canção de Ella e Louis Armstrong.

  Soledade Santos in " Sob os teus pés a terra ", Ed. Artefacto, Lisboa, 2010, p 27.
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