Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pires Cabral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Pires Cabral. Mostrar todas as mensagens

18/02/12

" é preciso continuar a meter o coração/ pelos atalhos. "

.
  " Esplanada "

Já sabemos quantas vezes a realidade
se torna imprestável para ti
e vice-versa.

O sol aquece até ao futuro,
é preciso continuar a meter o coração
pelos atalhos.

  Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 38.
.

" (...) Por tua causa eu andava contente/ nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido. "

.  " No Terreno "

Foi por altura das ervas altas e dos arraiais.
Eu via-te outra vez ao fim da tarde e tudo se apagava
à tua volta, os acidentes terrenos, as montanhas do passado
e do futuro. Por tua causa eu andava contente
nas ruínas, fazia as pazes com o tempo perdido.

Na estrada à meia-noite o asfalto era morno, os grilos
estavam todos a cantar dentro do céu. Já não sei dizer
o muito que esperei de ti, os serões eram pródigos
e tinham os braços imprevistos de um fractal.

Fumavas dos meus cigarros, falavas da vida que tinhas
a milhares de quilómetros dali. Na minha própria
e exclusiva escuridão, eu já só existia para ti.

  Rui Pires Cabral in " A Super-Realidade ", Língua Morta, s/c., 2011, p 17.
.

24/06/10

" hei-de traçar por extenso/ a curva do descaminho. "

.
"O Verão estava a acabar."

Mensageiro da promessa
extraviada, os olhos
do mais indeciso azul
que conheci. Alguma vez
hei-de traçar por extenso
a curva do descaminho.

Foi talvez aquele beijo
a meia praça ou o acaso
de fumares tabaco negro.
Por dentro das ruas
quietas, o eco de uma voz
que mal se ouvia:

estamos todos tão sós
em toda a parte

e é quase dia.


Rui Pires Cabral in "Oráculos de Cabeceira", Averno, s/c, 2009, p 22.
.

22/06/10

" Se acordava, logo vinha ter com ele/ a mesma dor, como um animal "

.
"I was entirely insular."

Horas a fio cercado de angústia
por todas as partes. A noite era vária
e trazia pela mão os bebedores,
seus prometidos. Nos sonhos via,
recorrente, um sino que oscilava
sem ruído e a aldeia estranhamente

abandonada, quatro ruelas entregues
ao espanto de um meio-dia infinito.
Se acordava, logo vinha ter com ele
a mesma dor, como um animal
sedento de atenção e companhia.
Era um estado de renúncia

e nenhum verso o aproximava já
de si, mas de alguém desconhecido
entre corpos que passavam,
desconhecidos também, todos eles,
desde o primeiro. Não tinha
com quem falar, nem saberia dizer

como pudera perder-se
de tudo quanto amara e conhecera.
E ao começo do verão quase se deixou
vencer, sentado no seu exílio
a olhar para os telhados, lá em cima
onde o silêncio o sequestrava.

Rui Pires Cabral in " Oráculos de Cabeceira ", Averno, s/c, 2009, p 18.
.