Mostrar mensagens com a etiqueta Rodrigo Petronio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rodrigo Petronio. Mostrar todas as mensagens

24/10/09

Acaricio grão a grão a página solar da pele.

Foto de Elian Bachini da série "Toiles sensibles" (2006).

"Da Paixão"

Eis-me aqui: a mesa, a ordem das coisas.
Nunca a falta de amor foi mais clara.
Vem, chacal. Repasto de feras, meu coração aguarda, meu corpo se abre de leste a oeste para o teu solstício.
Aqui estou: altar negro esculpido pela delicadeza das ervas.
Um dilúvio se incumbe de varrer meus restos.

Mas tu ainda brilhas, sempre.
Copo de lírio, vermelho vivo aceso na cama, gesto a gesto:
Meu peito, tua face, o ouro, o verbo.
Acaricio grão a grão a página solar da pele.
A casa se abre, a luz, uma fresta.
E vejo-te aqui, à minha frente, ao alcance da fala: pausada, hesitante, eterna.

Nâo contemplarei as pegadas, resíduos, fotos tardias.
Sofro pela miséria não compartilhada.
Por perfeição perdi o que em mim falta e em ti sobeja:
Amor, finitude, instantes trançados em musgo, pedras desenhando pedras.

Eu: triturado pela engrenagem dos dias.
Tu: clareira nascida no momento mais triste da minha vida.
Animal ferido, maculei tua face com minha queda.
Peço perdão, o perdão das feras, culpadas e cegas.
Enquanto o flamingo atinge a glória da lua em sua extinção,

Sei das palavras, a linguagem dita no escuro.
Murmúrios tramados em nossa caverna:
A transpiração de tua flor em cada uma das minhas células.
Sei que isso ainda vive, se conserva em um quadrante do tempo.
Vazante, amor: a despedida é infinita, nunca se completa.

Ouço teus passos, a respiração, teus olhos firmes e entregues.
Não há reparação, tu sabes.
Mas mesmo assim vens pela noite, navegas meu sangue, meu sêmen, ressurreta.

Sim: abaixo de toda a baixeza, estou sujo. Pregado.
Entre bandidos, o Senhor me abandonou - ainda vivo.
Clamo ao sol: aprofunda esta ferida, esta lepra, escave-a.
Cuspa em minha face e pise minhas vértebras.
E eu possa cumprir a minha consumação, a tua felicidade.
Mãos de cinzas, a cabeça aberta.
Peço-te o perdão da estátua, pobre em sua geometria, agônica.
Morigerante e certa demais para as formas vivas da luz.

A redenção do mal reconhece o mal, um beijo em tua boca - amada, antiga, redescoberta.
Uma vez e tudo já foi dito.
Uma vez e tudo já foi foi feito.
Plenitude, amor.
Acredite: apenas isso é o que meus passos errantes sempre quiseram.
Louco, tranlúcido, nu e sem nome, abjeto - rezo.

Peço-te um dia a mais sobre a Terra.
Tua mão, teu corpo, o deserto.

Rodrigo Petronio In "Venho de um país selvagem", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 2009, pp 63 - 65.
.
.
.

23/10/09

"Caminharei sem sombra pelos poços da noite "

Rodrigo Petronio e um casal amigo no dia do lançamento do livro aqui referido.

"Enterrem minha alma em algum lugar sem luz"

Enterrem minha alma em algum lugar sem luz.
Caminharei sem sombra pelos poços da noite entre galhos retorcidos e o ar escasso.
Pergaminho vivo, serei feliz sem nome, rosa túmida avessa ao ser,
Pela própria aniquilação embriagada.
Respirarei o espaço e as estrelas apagadas que unificam minha carne.
Não quero testemunhas. Livrem-se do meu cadáver.
O rebentar de uma só flor já me basta de homenagem.
Que todos os olhos se ceguem e todas as mãos sejam ceifadas.
E eu mastigado pela água em seu ranger de líquidos estalos.
O relógio das casas e sua oração de sinos quebrados.
Meu dorso não suporta o chicote de seus salmos.
À hora grave o sol engole todas essas planícies sem memória.
E somos tocados pela brisa delicada dos mortos.

Não há guerra nem renovação neste mundo limpo.
Não há nada mais sujo do que uma pessoa honrada.
Todos estão do lado da beleza. Todos estão salvos.
Vítimas se multiplicam e não há algozes entre estes ratos.
Senhor, dá-me teu doce flagelo.
Concede-me a honra de ser dentre os assassinos o mais baixo.
Para que a ferida expila o seu fruto sobre a relva.
E nos desperte do sono miserável de nossas obras e nossos quartos.

Só tu, terra devastada que espelha o céu.
Só tu, oásis, beleza sepultada de Deus, onde brotam rosas violentas.
Só tu podes redimir nossa pobreza.
Na decomposição de minhas células serei salvo finalmente.
Aquieta-te, deusa primeira.
E bebe este vaso de sangue em teus poros.
Dá-me o halo de tua glória, celeste, miserável.

Rodrigo Petronio In "Venho de um país selvagem", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 2009, pp 43 - 44.


Notas:
- esta obra ganhou o Prémio Nacional "Academia de Letras da Bahia/ Braskem 2007".
- optei, como ilustração, por uma foto do próprio lançamento, mas guardando aquelas em que o autor está com Maiara Gouveia para quando postar textos desta última. As fotografias que encontrei na net pareceram-me bem mais antigas.
.
.
.

26/04/08

Poetas

"Cold", Foto de Carla Nunes

Notas:
1- voltamos a editar este trabalho de Carla Nunes,
por considerarmos que a anterior publicação da
mesma foto, por questões informáticas, não revelou
toda a qualidade da mesma. O acordo foi estabelecido
com a fotógrafa;
2- O poema que se segue (Migrar II) de Rodrigo Petronio
deve ser lido a seguir ao poema de Maiara Gouveia
(Migrar I). O acordo foi também estabelecido com
os dois poetas brasileiros.

"Migrar II"

Migro para ti, além-palavra.
As vozes e murmúrios que te acuam, não, não dizem nada.
São a fala de um dia ao sol a pino, alguns volteios de luz,
leque opaco, marcas.
Velas não desfraldam mais nem cinzas dessas pátrias.
Pois a luz maior ainda prepara seu sopro de beleza,
solfejo, harpa.

Sabes que o tempo enterra, mas não dança.
Não sabe da tragédia entre duas asas.
Ardem as formas claras do esquecimento, a poeira original,
miragem: farsa.
Que temos com isso? Quem mais vem ao encontro dos arquivos?
O incêndio lunar das casas? Nossos corpos sejam benditos,
membros, orifícios.
Já somos deuses, Amada.

Retenho esse momento entre meus dedos.
A fagulha doura o céu, enquanto pontilhas o horizonte:
O corpo de magma e a espada te atravessam, meio a meio.
Gozo e ressurreição: nossa hóstia, nossa vinha e
novos zelos.
Eis minha resposta à tua indagação:
Sermos o veio, a foz, partitura e aragem: sermos.

Amo-te com estes lábios, os de sempre, intocados.
Descubro em cada curva em que volteio, um país, toda
a linguagem.
Abro-me à tua nova flora, cadela, hino entoado entre
ruínas,
Virgem Negra de meus sonhos mais plenos, de minha
miséria mais clara.

Farejo-te nas estações, contorno o círculo de águas.
Nossas cicatrizes, mapas: viagens ainda a desvendar
depois da pele.
Tudo isso é parte do poema, a tatuagem transborda.
Fora da vida, dentro do mundo: és minha alma,
quando falo.

Marco-zero, nem pedra sobre pedra do passado.
Aqui, agora, sempre, construo este poema: o teu corpo.
Sou a seiva enraizada em pergaminhos, folhas de relva,
cabras.
Espaço virgem, Musa Negra, minha amada sem começo.
Nossa vida indestrutível rumo ao albedo.

Presentes na eterna duração.
O futuro redivivo: chama nossos corpos.
Nunca um amor maior viveram estes meus poros.
Em tua boca, nuca, sêmen, dorso, fronte: retorno ao nada.
Eis a minha ascese, sem templo ou gênese: clarão.
Decifra-me e habita o meu país, ventre e delicadeza
de tuas espáduas.
Deserto de minha sede sem retorno.
Plenitude de um deus que anima as tuas mãos.

Rodrigo Petronio (Inédito)