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23/02/10

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       "Amazigh"


Caminhas quase sem te moveres
os campos estendem um corpo
colado ao teu
em íntima escuridão
Quando avanças ponte fora
um dos teus ombros brilha como marfim

Nós não os ouvimos
mas os desertos, os oceanos, os cimos remotos
ensinam-te finalmente o que não entendes

Descobres uma casa
noutras direcções
a igual distância
da vida que deixamos para trás

José Tolentino Mendonça in "O Viajante Sem Sono", Assírio & Alvim,
Lisboa, 2009, pp 35 - 36.
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23/12/08


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    "Murmúrios do Mar"


"Paga-me um café e conto-te
a minha vida"

O inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteir
disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudade desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

"pago-te um café se me contares
o teu amor"

José Tolentino Mendonça In "A que distância deixaste o coração",
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998, pp 27-28.
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