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"Chat"
Em Mercúrio, Sexta-feira, a sonda
detectou duas crateras de auréolas
sombrias. Apresentam ambas bordos
quase intactos e muros de socalcos
segundo especifica o endereço
http://messenger.jhuapl.edu/
( anoto e espero que o poema
seja eterno e o link não). Cliquei
para ampliar a imagem, e dentro
vi pequeninas covas circulares
como as que na areia faz a chuva
ou nas fontes as moedas dos desejos.
Também por via Messenger te encontro
e troco novidades, mais veloz
do que a luz, mais ágil o gracejo
do que o próprio pensamento, faísca
o espaço - onde chegamos, sem risco
já de nos tocarmos; os dois estamos
cheios de buracos - e nem é grave
se soubermos flutuar. Em tudo isto
ainda há algo como um halo fundo
e um radar que é como água gotejando
por degraus, que inquieta mas seduz
e nos deixa sombrios intactos sós.
Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 60.
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06/10/10
"Então sobre o poema, o artifício,/ a borra baça, a mim a extrema luz."
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"Declaração de Intenções"
Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.
À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.
Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita
um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.
Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 9.
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"Declaração de Intenções"
Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.
À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.
Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita
um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.
Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 9.
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