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27/09/13


 
 
 
                   "  Poema 7. "
 
 
 
Com tuas mãos falantes é que me anunciavas
o piar das andorinhas e dizias o desenho
do relógio de sol. Como se eu entendesse
as tuas viagens nos passos em redor da sala.
Foi preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a sombra da haste no declínio do dia.
Nessa hora os teus passos fecharam a viagem.
As tuas mãos perfeitas se fizeram arco
e eu pude divisar a rua que viveste
com cuidados maternos a afagar as ervas.
Para lá do arco, disseram os teus olhos,
eu havia de ter a minha luz e as pedras
brilhariam a iluminar esquinas e veredas
e a amplidão dos mares e a solidão dos versos
e sempre e sempre as andorinhas haviam de voltar
porque é nas tuas mãos que começam as aves.
 
 
   Quitério, Licínia. Os Sítios. S/c.: Ed. Autor, 2012, p 14.
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26/09/13



           "  Poema 22. "


Tudo é possível no balcão dos sonhos.
Podes vir de mansinho, com outro rosto,
e eu, sem nada me pesar, dizer - Há muito
espero por ti, Dirk - e a bandeja na mão,
a bandeja do Rick que passou a ser tua,
e o piano vermelho a flutuar naquela rua
de Veneza. Não, não era um canal, era
uma rua, ou talvez não fosse Veneza
e o teu sorriso dorido de café e gin
igualzinho ao do Dirk porque, eu sei,
também o teu estava a sofrer. Há um
tempo assim de tudo doer, e digo mesmo
tudo, a bandeja, o piano, a rua, a cidade
inteira. É uma dor informe. Talvez a vida
seja isso, um tempo de doer e fugir para
o balcão dos sonhos a preto e branco.
Há quem diga que são a cores os sonhos
das pessoas tristes. Há quem fale de uma luz
que faz vermelhos os pianos que flutuam.
Quanto a mim, fico à tua espera, Dirk.
Podes estar em Lisboa ou em Casablanca,
podes até não vir. Sei o sonho de cor.


   Quitério, Licínia. Os Sítios. S/c. : Ed. Autor, 2012, pp 33 - 34.
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