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11/08/11

" A salvação é uma ruína temerária, uma praia sem pegadas (...) "


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  "Há uma lâmina reduzindo o mundo"

Neste lugar, para me salvar, basta olhar o céu.
O sono solitário da água queima-me as mãos, adormeço rodeado de árvores e pássaros.
Agora engano melhor o silêncio dos dias, as suas casas frágeis, alcanço o náufrago
iluminado, as velas da piedade amarram-me à escuridão da infância,
às sedas nocturnas do medo, à mortalha mais límpida dos relâmpagos
da névoa cortada pelos rápidos remos dos remadores.

A salvação é uma ruína temerária, uma praia sem pegadas, um furtivo
sorriso à escassez das pétalas esmagadas do quintal.
Há uma pureza no sol encantado que desenhavas com os seus raios muito firmes
e quentes, há uma lâmina reduzindo o mundo, manchando os cães com sangue,
expulsando as estrelas, a dardejante beleza das mulheres,
a formosa pele que à transparência da luz se expunha.

Agora, neste lugar, se eu pudesse, para me salvar, bastava olhar o céu.

  Jorge Velhote in "Saudade - Revista de Poesia " Nº 1,
 Dezembro, 2001, Direção de António José Queirós.
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10/08/11

" Dessa espécie de som, dessa perdida água, "

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 "Calculada melancolia "

De um e do outro tudo sabíamos. O mar,
o rio, se cruzando pelas nossas largas calças,
os brinquedos de lata golpeando a curiosidade,
o primeiro sabor do sangue.
Alguns antecedentes, limalhas de sol, silenciosas ferrugens
que, entre mesas e chávenas de café,
se permutam.

Dessa espécie de som, dessa perdida água,
viviamos os dias, lendo livros, olhando montras,
as belíssimas mulheres que nos cotejavam o olhar, manobrando
ancas, os metálicos lábios como relógios,
detalhes.

Sem um única palavra, calculada melancolia,
comovidos, os corações cambiávamos,
triunfantes.

  Jorge Velhote in "HÍFEN - Cadernos Semestrais de Poesia", Nº 2,
Abril/Setembro, 1988, Direcção: Inês Lourenço.
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" Que poderei comprar para o vazio/ deste anoitecer? um pouco do meu sol? "

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 "Piazza S. Marco"

A sabedoria é para os barcos
sob as pontes da noite,
a alma, o oiro.
Aqui dormiria, à distância singular
de um beijo, um lençol de água,
um travesseiro de cuidada pedra.
Outras coisas da infância, mas devagar, outros corpos a penumbra
percorrendo,
a poeira da luz espiando os sapatos, a navalha chamuscada.

Também eu herdei a perigosa ilusão
da bicicleta, um silêncio
danado por mulheres, pelo ardor cristalino do álccol,
no limbo mais rasgado do mundo;
o segredo tão natural da pintura
na profecia azul dos mosaicos,
no carvão amargo da noite;
certos vestígios pelo tráfico outrora florescente:
sedas, frutos, tabaco, pequenos tesouros,
caixinhas de laque, sandálias
gastando, dia após dia, a mágoa.

Que posso fazer pelas pedras desta praça senão
cobri-las de aves, trapos, moedas
e pela poalha do crepúsculo seduzir os vitrais,
os óleos santos, o sândalo, o bolor intenso das paredes?
Cambiar a chuva pelos claustros do vento, o vidro
de oficiante fogo, como
em Murano a família Barelli?

Que poderei comprar para o vazio
deste anoitecer? um pouco do meu sol?
daquele mar, um punhado de areia?

  Jorge Velhote in "Colóquio Letras" Nº 90, Março 1986.
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