Mostrar mensagens com a etiqueta José Mário Silva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Mário Silva. Mostrar todas as mensagens

03/08/09

"A noite, se existiu, foi para nós um erro"

"Telhados de Lisboa", quadro de Maluda.


"manhã"


É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.

Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz - rasa, rosa, crua - já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.

José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 48
.
.
.

"Agora vejo a poeira suspensa na luz"


"ich habe genug (bwv 82) "
.
.
Não é uma questão de lógica.
O milagre está muito além
da pauta, a lenta melodia do oboé
desenhando uma arquitectura aérea.
Agora vejo a poeira suspensa na luz,
o apogeu do outono numa cidade
que se recusou a ser minha, as
armas serenas da tristeza. A voz
de Hans Hotter - tão escura, tão
funda, tão resignada - traz-me
ainda uma capitulação feliz.
.
.
José Mário Silva In "Luz Indecisa", Oceanos/LeYa, Alfragide, 2009, p 42.
.
.
.