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29/04/12

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  " Não passarão "


Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

   Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 732.
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27/04/12

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 " Plateia "


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

   Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações D. Quixote, 2000, p 626.
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26/04/12

" Biografia "


Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.

Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira,
Numa agressiva fúria se liberta.

  Torga, Miguel. Poesia Completa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p 561.

12/09/11

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  " Depoimento "


Não há céu que me queira depois disto,
Nem deus capaz de ouvir-me.
Um homem firme
É firme até no céu,
E até diante
Do Criador!
É o que eu diria se, ressuscitado,
Fosse chamado
A depor!

  Miguel Torga in " Poesia Completa ", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 501.
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21/06/11

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 "Oração"


Anjo da guarda, corta as tuas asas,
Esses galões de pano,
Se queres, humano,
Ajudar-me.
Minha mãe a gerar-me
Nu,
E o céu a mandar-me
Um cisne falso como tu!

Nesta terrena dor,
Desesperado,
Pedi um braço quente e pecador.
Não quero cá ninguém santificado!

Limpa o verniz da cara, tira o lenço
E enxuga-me estas lágrimas de lama.
Deus é imenso,
Mas nem eu lhe pertenço,
Nem é por ele que a minha angústia chama.

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, p 309.
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07/06/11

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 "Provérbio"


O que vier com alma nova, fique.
Deite a sua raiz,
Cresça, floresça, frutifique,
E morra se outra seiva o contradiz.

Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações D. Quixote, Lisboa, 2000, p 212.
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06/06/11

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Ave maluca que pousou sozinha
Na praia triste, e debicava a espuma
Que uma onda deixou,
O bando olhou-a lá do céu que tinha,
Viu-a perder as horas uma a uma,
E voou.

Era um trigal inteiro que acenava
À prática avidez do seu destino!
Ficasse quem comia solidão.
Ficasse singular quem desejava,
Peregrino,
Na flor das vagas encontrar o pão.

 Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote", Lisboa, 2000, p 175.
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04/06/11

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" O Lázaro"


O Lázaro sou eu, não foi o Outro,
o das migalhas e das chagas podres.
O Lázaro sou eu, aqui sentado
à mesa do Vice-Rei
a mastigar com nojo estes faisões!...
Sou eu, vestido de holanda,
a pregar a nudez que sempre usei
nas grandes ocasiões!...

Sou eu, nado e criado para amar,
e que não sei amar!
Sou eu, que disse não e me perdi!
Que vi Deus e nunca acreditei!
Que vi a estrada impedida
e passei!...

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no Inferno,
porque no Céu há paz, e no Inferno há guerra,
e a minha Paz é outra, e a minha Guerra é outra...
Sou eu, tão Grande e Pequeno
que nem sirvo para grão
da parábola da mostarda!
Sou eu, que há vinte e sete anos
vivo sem Anjo da Guarda!

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte,
e acerto sempre na Morte!
Que espeto sempre o punhal
onde não quero ferir!...
Que sou assim, às cegas e às golfadas,
como as dores abençoadas
de parir!

Sou eu, que me disse adeus
e fiquei à minha espera!...
E que naquela manhã de ano bissexto
- que podia ter sol e teve chuva -
recebi nestes meus braços
o esqueleto verdadeiro
da saudade amargurada
de quem não tem ausentes nem distâncias!

Sou eu, o louco sem asas
que se lança dos abismos a cantar
a Canção do Inocente...
E que do fundo desse sonho novo
atira a praga
que o traga
àquela redentora incompreensão
do seu povo!...

Sou eu, o Alfa e o Ómega
e os sentidos singulares
que o Anjo-Satanás me prometeu!...
Sou este Nobre-Vilão descalço e de gravata,
sou este jornal sem data
que traz a infausta notícia
que ninguém leu!...

Sou eu - e mostro-me todo!
Quem puder, arranque os olhos
e venha cheio de Fé
ver o Lázaro real
que não vem nos Evangelhos
mas é!...

  Miguel Torga in "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp 69 - 70.
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