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27/05/13
" Ao Shopping Center "
Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.
Do elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.
Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus
nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.
Paes, José Paulo. Prosas seguidas de Odes Mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p 73.
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25/05/13
" Mundo Novo "
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que
a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de
espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora
vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel
a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
Paes, José Paulo. Prosas seguidas de Odes Mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p 47.
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" Balada do Belas-Artes "
Sobre o mármore das mesas
do Café Belas-Artes
os problemas se resolviam
como em passe de mágica.
Não que as leis do real
se abolissem de todo
mas ali dentro Curitiba
era quase Paris:
O verso vinha fácil
o conto tinha graça
a música se compunha
o quadro se pintava.
Doía muito menos
a dor-de-cotovelo,
nem chegava a incomodar
a falta de dinheiro.
Para o sedento havia
um copo de água fresca,
média pão e manteiga
consolavam o faminto.
Não se desfazia nunca
a roda de amigos;
o tempo congelara-se
no seu melhor minuto.
Um dia foi fechado
o Café Belas-Artes
e os amigos não acharam
outro lugar de encontro.
Talvez porque já não tivessem
(adeus Paris adeus)
mais razões de encontrar-se
mais nada a se dizer.
Paes, José Paulo. Prosas seguidas de Odes Mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, pp 45 - 46.
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