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28/02/13
" Poema "
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te perco
em todas as ruas te encontro
Andrade, Eugénio de. Variações Sobre um Corpo. Porto: Editorial Inova, 1973, p 39.
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11/08/08
" SONETO "
Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto, que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
donde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade, In "Antologia (1940-1961)",
Ed. Delfos, pgs. 95/6.
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