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21/02/10

"neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo"

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Estou na página. neste falso regaço materno
neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo
da maneira mais estranha

as crianças vêm aconchegar-se aqui
quase sempre tristes,

esmagam a luz nos olhos
de tanto sonho e escuridão

só quero sentir esta luz. esta luz que amei
e perdi

Maria Azenha in "de amor ardem os bosques", ed./autor, 2010, p 60.
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20/02/10

"durante anos treinei o lúmen do coração"

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Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio
há uma ave onde este texto se apoia.
fecho os olhos, e o poema traz para este lugar
o búzio dos cofres

escrevo em filigranas de ar
secretas harpas de sombra
onde as primeiras letras ousam pousar.
durante anos treinei o lúmen do coração
em cântaros de sol subindo os primeiros degraus

depois habituei-me à confidência das aves
pousada na inteligência dos bosques
movidos a vento e água,
acácias entre mãos

por último a ciência da respiração
no sumo das auroras

Maria Azenha in "de amor ardem os bosques", ed./aut., 2010, p 30.

Nota - este livro, a não perder, pode ser adquirido através do endereço colocado no blogue da autora.
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11/01/09



"para voltar ao princípio do mundo"


sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar

disse: tece-me

e o mar inclinou-se por dentro
para tecer

o poema


Maria Azenha In "A Chuva Nos Espelhos", Alma Azul,
Coimbra, 2008, p 9.
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