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09/11/11


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        " Em ti "


Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales
e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.

Em ti a inclinação dos ramos. A tranlucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.

Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.

Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.

Em ti, amada, celebro a memória de todas as coisas vivas.

 Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, Lisboa, 2011, pp 97 - 100.
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08/11/11

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 " Fulgidez "


Como aves extraviadas
sob o torpor de tanta luz
nossas bocas
unem-se ansiosas,
ardem juntas
num delírio rubro,
ébrias de gemidos,
nuas, alucinadas,
seduzem-se,
perturbam-se,
embriagam-se,
entregam-se ferventes
e enfeitiçadas,
em êxtase bebem
o fragor do lume,
sorvem o ardor
e a cupidez do vinho,
mordem-se
como polpas tenras, sumarentas,
inebriadas,
queimam-se,
ferem-se,
húmidas de tantos beijos,
de fogo tão sequiosas,
chamas convulsas
bruxuleando claras.
E quase morrem calcinadas,
exaustas, loucas, desvairadas,
num frémito de labaredas,
em fogueiras acesas, altas,
transfiguradas -
Serão centelhas vivas, alvoroçadas?
Fúlgidas quimeras abrasadas?

  Gonçalo Salvado in " Ardentia ", Editorial Tágide, 2011, p 15.
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25/09/10

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O vinho, o leite, o mel
entre tuas pernas:

o gosto do fogo
que louco saboreio.


Gonçalo Salvado in " Corpo Todo ", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 99.
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Mirei-me no lago
mas o que vi foi teu rosto.

Gonçalo Salvado in "Corpo Todo", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 51.
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28/04/08



Nenhum raio de sol
é suficientemente longo
para conter um pouco
da tua claridade.

Gonçalo Salvado, In "Iridiscências"

O mundo cabe inteiro num só verso
Mas o meu amor por ti
como contê-lo num poema só?

Gonçalo Salvado, In "Iridiscências"

Que lira compulsiva
queima de silêncio
o coração?

Gonçalo Salvado, In "Iridiscências"