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26/10/10

"Tínhamos bebido e o álcool/ não se tinha estancado, girava docemente/ como única chave que muitas portas abre."

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"Homossexualidade"
(Segunda versão)

Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.

Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.

Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
- um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso -,
e em amar só aquilo que for com o possível.

Luis Muñoz in "Trípticos Espanhóis - 3º", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 115 (Selecção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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25/10/10

" Ficaram apenas entre os dois/ as armas do desejo e as da falta. "

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"Armas"

Demoraram até falar-se.
A escuridão actuava como um eco,
espelhos de um oceano,
e no tumulto do recinto,
primeiro um sorriso, onde foste,
pôde quebrar a lâmina de gelo.

Há quase um mês e cada um
pensou vinte maneiras de o outro voltar.
Mas sempre se impôs um temor vago,
de asfixia e voltas de espiral.
A não saber dizê-lo,
a que falhar já fosse para sempre.

Por isso ao primeiro gesto se fundiram
as armas que esboçou a resistência deles.

Ficaram apenas entre os dois
as armas do desejo e as da falta.

Luis Muñoz in "Trípticos Espanhóis", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 79 (Selecção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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