Mostrar mensagens com a etiqueta Maiara Gouveia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maiara Gouveia. Mostrar todas as mensagens

29/07/09

"Agora, há ruído/ além do vento."


Nota - Enquanto aguardamos o lançamento do livro da Maiara Gouveia, que, julgo, está para breve, segue um inédito seu de um outro projecto. Gostei muito deste poema e ela autorizou-me a publicá-lo, portanto ...
.
.
"Da origem "
.
1.
.
Aquém da intriga, a face, ainda oculta
por água turva, em plena queda,
mistura-se ao vácuo, abertura
de uma era. E a treva, armadilha, rodeia
este nada recém descoberto.
.
Do oco, um lume revela
o barulho da pedra, esse sopro
a rolar sobre a esfera,
agora líquida, translúcida, repleta
de infinito.
.
O firmamento divide o tempo
em duas águas. O árido
insurge, é a forma do corpo,
ainda inerte. No entanto,
um vapor cobre tudo, e brota o fruto
e a erva. Da noite, a lua e as guelras
têm poder. E da manhã, a matéria
forma o astro, o fervilhar, de onde,
num vôo ou mergulho, os seres
retiram potência e à vida
chegam.
.
Do ovo, a serpente quebra
a superfície, e a pele fria
toca o solo, à espreita
do mistério. O homem,
da lama se desprende, e sem medo
existe até que o desejo
penetre em seus poros.
Agora, há ruído
além do vento.
.
Do sono, a costela
expele a fêmea, de onde vem
a dor que tudo alimenta.
A história sela o destino
de ser. Esse deus
corpóreo, o cancro da fera,
com a presa na boca
e porque a fome o deseja. E desaba
um cortejo
de vozes, o cheiro
de banha e sangue
pisado. No centro, a raiz
expande a morte.
.
Sabemos?
.
.
.
Maiara Gouveia (Inédito)
.
.
.

22/04/08

Poetas

" Cold" (2008), Foto de Carla Nunes


"Migrar"

Matrimónio de vogais: agora nada.
Fica a distância entre o corpo e a palavra.
Sequer a marca do sol ou da sarça.
Faróis azuis na memória, e mais nada.

Além do mar, o tempo não traga.

Gaivotas mergulham sem regressar ao quadro.
Nenhum nome persiste além do enigma: migrar sempre.
E esta noite é tudo o que temos.

Toda palavra é precária: flor, pauta de aves, rosa clara.
Nada persiste além da chaga.
Seus instantes de amor, suor e toque, a enseada.
A solidão não une. Tudo nos separa.

Além do mar.

Negro, meu espírito recorda o exílio prolongado.
O golpe solar não muda esta noite, minha pele.
Todo nome é grave e transfigura.
Só posso oferecer esta noite, e mais nada.

A morte eclode em cada verso. Nudez necessária.
E só posso oferecer isto: o sonho primitivo dos corpos em busca.
A mágoa.
Renuncio ao amor, pois sou precária.

Outros amantes espalham gemidos pela casa.
São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.
Uma vez foi dito: é para sempre. Ao meio-dia, uma vez e basta.
O espelho sempre nos mostra o que nos falta.

Mesmo esta paisagem sucumbe em seus vocábulos.
É belo naufragar entre os meus lábios.
Renuncio a ti, amor, pois sou precária.
Além do mar, um país sem nome me aguarda.


Maiara Gouveia