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15/07/13



Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de

repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.


   Pedreira, Maria do Rosário. Poesia Reunida. Lisboa: Quetzal Editores, 2012, p 172.
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14/03/13


   A irmã mais nova de Lázaro, no mesmo dia em que conheceu a luz que banhava a Terra inteira, conheceu também uma escuridão maior do que aquela em que sempre vivera mergulhada.
(...) Veio um homem do meio da noite perguntar-lhe o que tinha com uma voz clara e mansa, e a irmã mais nova de Lázaro respondeu-lhe que tinha fome, e frio, e ninguém que a abraçasse; que precisava de ir para Betânia, na Judeia, onde talvez lhe sobrassem um irmão e uma irmã, mas não sabia o caminho; e que procurava um homem que também não conhecia para lhe entregar o seu amor, que era grande e puro, pois a mais ninguém o entregara antes dele. E esse homem que viera do meio da noite, ajoelhando-se junto dela, prometeu que lhe daria abrigo, e ceia, e um abraço diferente de todos os que até ali havia experimentado (...). E, olhando depois o seu rosto suave e inocente, acrescentou que esse homem que ela procurava, esse homem a quem ela queria entregar o seu amor, não era senão ele. E a irmã mais nova de Lázaro (...) ouvindo a sua voz deliciosa, acreditou.
   Veio um homem do meio da noite todas as noites que a essa se seguiram, mas nenhum deles era o homem que a filha de Aura, deitada no chão da sua casa de Migdal, ouvira uma tarde pregar à sua porta e lhe enchera o peito de tumulto. Todos lhe dirigiam a palavra numa voz clara e mansa e todos lhe prometiam tudo o que ela dizia que faltava, pelo que, ao ouvi-los às escuras nas suas longas túnicas que lhes cobriam os pés, ela acreditava sempre cegamente no que diziam.(...) porque todos esses homens que dividiam com ela a cama e a ceia e lhe davam um abraço que ela preferia nunca ter experimentado queriam poder voltar a dar-lho noutra noite (...)
   Entre os seios da irmã mais nova de Lázaro, depois de uma noite que, entre todas, foi a mais dura e longa de toda a sua vida - pois foi nela que voltaram todos os homens que antes a haviam tido uma só noite -, o coração apertou-se, pela primeira vez na sua vida, num novelo de dúvidas e maus pressentimentos quando, na enxerga em que adormecera de exaustão, a acordaram aos gritos as vozes ácidas de um grupo de mulheres que traziam as mãos e os regaços cheios de pedras. Foi só quando a primeira palavra a atingiu no peito, e quando a primeira pedra a atingiu no peito com o som dessa palavra, que a filha mais nova de Aura conseguiu encontrar a resposta à pergunta que a mãe lhe pedira que nunca formulasse. E, levantando-se com as poucas forças que lhe restavam para se salvar do seu destino (---) correu para fora da cabana com as lágrimas (...) por ter descoberto que o corpo que tinha para oferecer a esse homem que amava já não era o corpo que ele, na sua infinita bondade, merecia.
(...) E, por entre as vozes iradas de todos aqueles que só pensavam em castigar a irmã mais nova de Lázaro pelo pecado da carne, (...) Jesus perguntou o nome à mulher que, ajoelhada aos seus pés, os enxugava agora com os longos e sedosos cabelos das lágrimas que sobre eles derramara. E ela, sem o olhar ainda por vergonha, respondeu-lhe que se chamava Maria e era de Migdal, mas para Betânia, na Judeia, era o seu caminho, pois aí talvez lhe sobrassem um irmão que se chamava Lázaro e uma irmã que se chamava Marta, os únicos que poderiam ainda recebê-la sem pedras na mão. E Jesus, erguendo o olhar para uma nuvem que pairava sobre a sua cabeça (...), disse-lhe na sua voz clara e mansa:
- Vês alguma pedra nas minhas mãos? Pois então vem comigo, ia justamente para Betânia salvar um homem do seu destino, e uma viagem faz-se sempre melhor em boa companhia.
 
  Pedreira, Maria do Rosário. Aos Seus Pés in "Putas: novo conto português e brasileiro". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, pp  89 - 93.
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09/01/13

 
 
Sete anos me aguardam de incertezas. O gato gordo,
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu
 
sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos
 
para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu    eu fico.
 
 
  Pedreira, Maria do Rosário. poesia reunida. Lisboa: Quetzal, 2012, 59.
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07/01/13


Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.

  Pedreira, Maria do Rosário. poesia reunida. Lisboa: Quetzal Editores, 2012, p 37.
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16/03/10

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Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira in "O Canto do Vento nos Ciprestes",
Gótica, Lisboa, 2001, p 59.
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15/03/10

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Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram -
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique -
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira in " O Canto do Vento nos Ciprestes",
Gótica, Lisboa, 2001, pp 35 - 36.
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