07/09/10

                         (A) DIFERENÇA FAZ-SE


Dizer: "Não percebo o que isto significa" é, pelo menos, reconhecer que "isto" significa. O problema é que o sentido não é uma totalidade de igualdade e previsibilidade. Dentro de cada palavra, cada frase, o sentido tem escorregado um bocado para fora da linha de visão e tudo o que nos resta são traços, sombras, cinzas ainda quentes. O sentido acessível através da língua vai além do caso específico desta palavra, daquela palavra. Um texto é um lugar onde um labirinto de sentidos continuamente reveladores estão acessíveis, um lugar que oferece mais possibilidade do que podemos ter a certeza de saber, algumas vezes mais do que queremos saber. Não é um recipiente, estático e aparente. É, pelo contrário, ruidoso, muitas vezes ilegível. Ler na direcção do sentido começa com uma vista de olhos inquiridora, um dobrão aparentemente óbvio num mastro. A multiplicidade pode ser lida, devia ser lida, até mesmo representada. Mas por outro lado, talvez o sentido seja intransitivo e legível, só destinado a ser feito. Assim que o nomeamos, dissipa-se. É certo que nos foge. Desperta-nos para tentar compreender, para interpretar. Mas isto é normalmente insatisfatório porque seja qual for a direcção da nossa aproximação só nos leva a suspeitar que não existe uma só direcção. Não há um único sentido correcto porque não há "correctos" que fiquem quietos o tempo suficiente para serem apanhados. Mas porque não sabemos não significa que estamos perdidos. Alguma coisa estranhamente familiar, não exactamente o que esperamos, mas familiar, está presente. Aquele bloquear pequeno e rápido num devaneio, um suspiro súbito de reconhecimento, um pequeno soluço de bébé. Escrever na direcção do sentido começa na página branca, intenção apenas. Esta clareza ofuscante inicial tem que ser desfeita antes de sermos levados a aceitar um paradigma encenado e diluído do "real", a boa velha familiar lucidez da frase, herdada, perceptível, inconfundível que se sente protegida e segura, uma frase simples, uma frase tal-como-a-última-vez. (A) diferença faz-se. O sentido gera-se e amplifica-se, para além de si próprio, mas nunca se esquece: fragmentos da sua memória e da sua potência excedem-se com sentido cheio de desejo que só pode ser encontrado escondido entre as palavras e as linhas e numa margem suficientemente grande para mais pensamento, a música no âmago do pensamento, força.
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Fred Wah in "Poesia Contemporânea do Canadá", Antígona, Lisboa, 2010, p 277.
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06/09/10

"A olhar para cima para o veio do contraplacado daquelas paredes, "


"Estruturas Imensas"

O poema é sem dúvida uma estrutura imensa. Partes
que ainda não viste podem fazer-te estremecer.

Uma luz pendurada debaixo do capô aberto do carro, todas
aquelas coisas oleosas lá dentro, alguém a trabalhar no motor
talvez o teu pai.

A luz a ressaltar da parede da garagem, a imensa
sombra, linhas de luz
todas torcidas contra as ferramentas.

A olhar para cima para o veio do contraplacado daquelas paredes,
inacabadas, o pladur nunca lhes foi acrescentado.
Uma viagem de luz até às estrelas com astronautas.

Quem "podia" ou "não podia" ser astronauta (argumento).
Engenheiro, a construir pontes cívicas
sobre o Rio Bow.

Faz todo o sentido, disseram-lhe, és uma menina, não
podes ser astronauta. Ouve o Sr. Krupa, querida,
nem podes ser engenheiro.

Erín Moure in "Poesia Contemporânea do Canadá", Antígona, Lisboa, 2010, p 207.
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05/09/10


" Mar de oeste"
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Eis que do seu dorso despontaram garras!
No vértice onde se embalavam peixes
nasceram asas,
num anseio de pombas
mortas implumes...
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Eis que o líquido e o denso se casaram
formando um monstro: rochedo e cavalo,
serpente e águia,
grilheta e asa!
E num barco de papel navego eu!
.
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Madalena Férin in "Poemas", 1957.
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04/09/10

Poema VIII de "Dez Chamamentos ao Amigo"
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De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

Hilda Hilst in "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão", Editora Globo,
São Paulo, 2003, p 25.
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03/09/10

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Poema I de "Dez chamamentos ao amigo"
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Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
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Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
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Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
.
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
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Hilda Hilst in "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão", Editora Globo,
São Paulo, 2003, p 17.
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01/09/10

Eugénia Bettencourt diz poesia de Inez Andrade Paes.

"Poema"
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Sabes quando choras
e o silêncio está dentro sem lágrimas?
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Sabes quando morrem as árvores
e não podes fazer nada
e não tens posse de vida porque ela não te foi dada?
A não ser que as sabias ali e as vias de mãos sempre dadas
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Sou agora assim como mutilada
de uma assombração inúmera desagregada à volta do pescoço
com duas mãos apertadas
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Sabes quando choras
entre um pecado
uma fúria de raiva que não era precisa porque o tempo
que estava
não o vias
passava sem o teres de perto
.
Sou agora assim
presa com os nós dos dedos
ao chão
onde tuas astes e braços tombaram
.
Sabes?
Leva-me agora
não olho para o céu
fico calada
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Inez Andrade Paes (Pré-publicação)
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31/08/10

" porque ya no hay caminos/ o perdi su recuerdo."

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"Ulises"
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Besarte todavía, mientras en los cristales
una luz indecisa
anuncia la llegada de un día no previsto
en el que vivir juntos, pero esta vez a solas.
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Prometerte en voz baja que ya nunca
me volveré a marchar, y que esta vez sea cierto,
porque ya no hay caminos
o perdí su recuerdo.
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Saber, hermosamente,
que ya todo es mentira, y que no importa,
porque, después de la verdad, hay vida,
o, más allá de una verdad, hay otra.
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Y aprender el amor que cabe en tanta ausencia.
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José Cereijo in "Las trampas del tiempo", Ediciones Hiperión, Madrid, 1999.
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29/08/10

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há em cada pastor a influência do deslumbre do pasto. como se o
encanto fosse a flor e o rio um afluente a correr ao contrário da sede
que é sempre mais seda que o fio que nos estala.

somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me.
escolhe-me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata
que é o meu sangue.

Isabel Mendes Ferreira in "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar,
Arcádia, Lisboa, 2010, p 30.
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28/08/10

( O original deste poema que traduzi aqui, da autoria de Marta López Vilar, encontra-se na lista de autores deste blogue, no nome da autora.)
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Já nada tento alcançar, nada se apresenta ante a minha porta.
Nenhuma juventude senti a não ser a tua,
nenhuma cidade, nenhum outono derramou
nas minhas mãos os filamentos da luz,
os mistérios do ar.
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Contigo repousa agora aquele sangue em sonhos
derramado, a noite sem refúgio
com redes de ouro, o coalhado
perfume das papoilas nos teus lábios
enquanto eu contemplo a pátria destruída do teu corpo,
recém abandonado.
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Contemplo o deus que me arrastou para a vida
jazendo agora na imensa sombra
do que jamais terei...
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A morte abateu-se sobre o mundo, deus meu,
e nada pode já afastar este meu frio.
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Nota 1 - ver o original na respectiva lista de autores.
Nota 2 - por várias razões, às quais não é alheia a Yourcenar, levei meses tentando ganhar coragem para traduzir este belíssimo poema.
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27/08/10

" su forma vencedora/ renovada surgiendo a cada embate "

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"Roca en el mar"

Mírala allí, plantada hermosamente
en mitad de las olas
que constantes la cercan; ladradora jauría
incapaz de otra cosa
más que afirmar, brillantes, sus aristas,
su forma vencedora
renovada surgiendo a cada embate
- en símbolo perfecto
de la callada fuerza de la vida,
que cada golpe afirma y enaltece.

Igual que tú y que yo, parece perdurable;
igual que a ti y a mí,
el mar, que es como el tiempo, devora lentamente
esa fragilidad secreta en que consiste.

José Cereijo in "Las trampas del tiempo", Ediciones Hiperión, Madrid, 1999, p 22.
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26/08/10

"Uma vontade de ser chama numa casa abandonada,"

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"Uma vontade"

Uma vontade de viver os seus cabelos,
de respirar os seus olhos,
de perseguir a direcção dos seus movimentos...

Uma vontade de ser chama numa casa abandonada,
de ser água,
gota de água,
ao instante da sua lágrima,
ao instante da sua sede...

Uma vontade de ser o Mundo em poucas palavras...

Uma vontade de ser a vontade,
todas as vontades,
toda a força,
toda a garra de uma mulher reprimida,
de todas as mulheres reprimidas,
de todo o choro que finge riso...

Uma vontade de ser poesia na folha que desmaia Outono...

Uma vontade de ver no desejo uma acção,
de ver num sonho uma vida,
de ver numa noite toda a luz
que existe além da nossa realidade...

Fecho os olhos.
Pôr-do-sol.
Acorda o arco-íris,
todas as cores na sombra da sua mão,
na sombra da sua mão,
na sombra da sua mão...

Mafalda Chambel (Inédito)
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24/08/10

"A nossa/ vida esvai-se na transformação. E o que é exterior, cada vez mais diminuto,/ desaparece.(...)"


" A Sétima Elegia"
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Ó voz imensa, que a natureza do teu grito não mais seja
a procura da amada, não mais a procura; gritarias decerto com a pureza do pássaro,
quando o ergue essa ascendente estação do ano, quase esquecida
de que ele é um bicho cediço e não apenas um coração isolado,
que ele lança no azul sereno, nos céus interiores. Como a dele, seria
a tua procura da amada, não menos intensa -, para que, ainda invisível,
a amiga de ti se apercebesse, silenciosa, aquela em quem, lentamente, uma resposta
acorda e com o ouvir se aquece -,
aquela que inflamada sente o teu ousado sentimento.
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Oh! e a Primavera compreenderia -, não há recanto
a que não chegue o som da anunciação. Primeiro aquele
breve articular interrogativo, que no crescente silêncio,
um puro dia de afirmação vastamente envolve a sua mudez.
Depois subir degraus, os degraus do apelo, até ao sonhado
templo do futuro -; depois o gorjeio, fonte
que antecipa a queda do jacto em ascensão
num jogo de promessas... E, já próximo, o Verão.
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Não só as manhãs todas do Verão -, não só
o modo como se transformam no dia e brilham de início.
Não só os dias, tão ternos para com as flores, e lá no alto
para com as árvores, já formadas, fortes e possantes.
Não só a celebração destas forças desencadeadas,
não só os caminhos, não só os prados à noitinha,
não só, depois da tardia trovoada, um clarear que respira,
não só o sono que se aproxima e um pressentimento ao anoitecer...
mas as noites! Mas as altas noites
do Verão, mas as estrelas, as estrelas da terra.
Oh! estar outrora morto e sabê-las infinitamente,
todas essas estrelas: pois como, como, como as esquecer!
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Olha, eu chamaria então a amante. Mas que viesse
não só ela... Que viessem de frágeis sepulturas
jovens mulheres e que estivessem... Pois, como poderia eu delimitar
esse chamar chamado? As que estão afundadas
continuam a procurar terra.- Ó vós, crianças, uma só coisa
de aqui, uma vez possuída, valeria por muitas.
Não julgueis que o destino seja maior do que o devaneio da infância;
quantas vezes não ultrapassastes o Amado, ofegantes,
ofegantes após esse correr feliz, sem rumo algum, para o espaço livre.
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Estar aqui é magnífico. Também vós, ó jovens mulheres, o sabíeis,
vós que aparentemente renunciastes, vos afundastes-, vós, nas piores
vielas das cidades, ulcerantes e expostas
a todo o abandono. Pois a cada um cabia uma hora, talvez
menos de uma hora, um momento quase impossível de medir,
entre dois instantes, com medidas de tempo, em que ela teve
uma existência. Tudo. As veias cheias de existência.
Nós, porém, tão facilmente esquecemos aquilo que o sorridente vizinho,
nos censura ou nos inveja. Nós queremos
ostentá-lo visivelmente, mesmo quando a felicidade mais visível
se nos dá apenas a conhecer, quando intimamente a transformamos.
Em nenhum outro lugar, ó Amada, haverá mundo senão em nosso íntimo. A nossa
vida esvai-se na transformação. E o que é exterior, cada vez mais diminuto,
desaparece. Para onde havia outrora uma permanente casa,
propõe-se agora uma construção concebida, a toda a extensão,
da ordem do pensável, como se estivesse toda ainda no cérebro.
Amplos acumuladores de energia cria o espírito do tempo, informemente,
tal como o ímpeto tenso que de todas as coisas obtém.
Templos, já não os conhece. A estes, desbarato do coração,
nós mais secretamente os resguardamos. Sim. onde quer que subsista
uma coisa, uma coisa outrora feita de oração, de serviço, de genuflexão -
aflora já, tal como está, o invisível.
Muitos dela não se apercebem já, nem têm a vantagem
de a construírem agora no seu íntimo, com pilares e estátuas, maior!
.
Cada insensível rotação do mundo tem destes deserdados
a quem não pertence nem o que foi, nem o que há-de seguir-se.
Pois o que há-se seguir-se é longínquo para os homens. A nós isto
não nos deve perturbar; antes nos dê a força de guardar
a forma mais reconhecível. Isto que outrora estava entre os homens,
no seio do destino, desses destruidor, estava
no não-saber-para-onde-ir, como ser sendo, e vergava para si
as estrelas de céus firmes. Ó Anjo,
a ti o mostro ainda, ali! no teu olhar,
fique por fim a salvo, finalmente erguido, agora.
Colunas, pilones, a Esfinge, esse erguer-se em anelo,
na soturna cor de cidades em estertor ou de estranhas cidades, da catedral.
.
Não foi isto milagre? Ó Anjo, enche-te de admiração, pois somos nós,
nós, ó grande, que disso fomos capazes, narra-o porque o meu sopro
não basta para o exaltar. Assim, não deixámos
passar em vão os espaços, estes
nossos condescendentes espaços. (Como devem ser terrivelmente grandes,
pois milénios do nosso sentir os não fazem transbordar).
Mas era grande, uma torre, não é assim? Ó Anjo, era, essa torre, grande-,
grande, mesmo comparando contigo? Chartres era grande-, e a Música
subia ainda mais alto e ultrapassava-nos. E mesmo uma só
Amante-, oh! sozinha, à janela da noite...
não te chegava até aos joelhos-?
Não creias que eu te pretenda.
Ó Anjo, e mesmo que eu te pretendesse! Tu não vens..
Pois o meu
chamamento está cheio de oposição; contra semelhante
torrente é impossível caminhares. O meu grito
é como um braço que se estende. E a mão
que ao alto se abre para alcançar fica diante de ti
aberta, como defesa e advertência,
ó inalcançável, toda aberta.
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Rainer Maria Rilke in "As Elegias de Duíno", Assírio & Alvim, Lisboa, 2002,
pp 83 - 89 (Tradução: Maria Teresa Dias Furtado).
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22/08/10

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"Os Livros"


Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêncios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes amigos tão antigos e
tão novos.

Inês Lourenço in "Coisas que nunca", & etc., Lisboa, 2010, pp 34 - 35.
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21/08/10

"I learned to read this from a/ woman whose hand trembled at the past, then even/ being born to her was temporary... "


No language is neutral. I used to haunt the beach at
Guaya, two rivers sentinel the country sand, not
backra white but nigger brown sand, one river dead
and teeming from waste and alligators, the other
rumbling to the ocean in a tumult, the swift undertow
blocking the crossing of little girls except on the tied
up dress hips of big women, then, the taste of leaving
was already on my tongue and cut deep into my
skinny pigeon toed way, language here was strict
description and teeth edging truth. Here was beauty
and here was nowhere. The smell of hurrying passed
my nostrils with the smell of sea water and fresh fish
wind, there was history which had taught my eyes to
look for escape even beneath the almond leaves fat
as women, the conch shell tiny as sand, the rock
stone old like water. I learned to read this from a
woman whose hand trambled at the past, then even
being born to her was temporary, wet and thrown half
dressed among the dozens of brown legs itching to
run. It was as if a signal burning like a fer de lance's
sting turned my eyes against the water even as love
for this nigger beach became resolute.
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Dionne Brand in "Poesia Contemporânea do Canadá", Antígona, Lisboa, 2010, p 48.
.

20/08/10

"only the shadow knows/ these footstep years, surprising thought "


only the shadow knows
these footstep years, surprising thought
and loves so deep I keep them close
each day to wander their companionships
of wonder... oh! fly, come fly with me
in an exaltation of larks, and, yes, in a murder
of crows, in the parliament of owls, with
the eloquence of frogs - this poetry
one can't do without - murmuring clouds,
embrace of montains - sunshining streets,
the wariness of skyscrapers - the longing
of steeples - out of this disarray of imagination
are dimmed sparkles where sorrow burns
in its ashes - hot as heaven.
.
Robin Blaser in "Poesia Contemporânea do Canadá", Antígona, Lisboa, 2010, p 20.
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(Nota - Depois da poesia do Canadá de língua francesa, Hélène Dorion, seguem-se dois/três poetas do Canadá de língua inglesa).
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19/08/10


A limpeza das feridas de Stephen tinha-se desenvolvido de uma tarefa temida para um ritual solene. Monica transferiu a tarefa para Jordan diversos dias depois da tempestade. Stephen estava deitado na cama. Ouviram o barulho no exterior, o rumorejar de travões de camião. Stephen riu-se quando Jordan lhe tocou com o trapo na parte de trás da coxa.
- O que foi?
- Fazes sempre isso - murmurou Stephen.
E depois Jordan compreendeu. Quando limpava as feridas, Jordan seguia instintivamente a senda do fio, desde a fissura superior no lado direito do rabo de Stephen até à parte de trás da coxa esquerda do rapaz.
- A água foi-se? - perguntou Stephen.
- Sim...
Jordan pensou nos pais e parou com o tratamento.
(...) - Presumo que não venhas connosco? - perguntou Roger.
- Preciso de ficar com Stephen neste momento.
Roger olhou furioso para Jordan, um olhar que este presumiu ser de ódio. Roger ergueu-se, virou-se e desapareceu pela porta de entrada, a abanar a cabeça.
(...) Outubro trouxe o tempo frio, apagando o calor prolongado do Verão. No mês que passara desde a aproximação do furacão Brandy tinham conseguido juntar setenta mil dólares para reconstruir a torre do sino de Bishop Polk (...). Stephen acabara de pintar novamente o gabinete do pai quando chegou o postal de Meredith. Mostrava uma praia anónima e uma concha. Na parte de trás ela imprimira: "Escrevo... Com amor, Meredith." Ele prendeu-o no quadro de avisos do gabinete.
Mónica foi à procura de Stephen no gabinete. Tinha desaparecido (...).
Ao fundo do corredor, Stephen saiu do duche, a toalha que tinha em redor da cintura a não conseguir esconder as cicatrizes vermelhas que lhe raiavam a pele como um mapa de estrada... só que sem início nem fim. Jordan virou o postal de Meredith e examinou o selo enquanto Stephen deslizou para a cama junto dele.
- México? - perguntou Jordan, voltando a pôr o postal na mesa-de-cabeceira.
- Não estão a desaparecer - disse Stephen.
- É provável que não desapareçam. Já não doem, pois não?
- Às vezes. Apesar de ser em alturas esquisitas. No meio da noite acordo e elas não doem, mas consigo senti-las..
Jordan desligou a luz.
- É provável que isso nunca deixe de acontecer - murmurou ele. - É provável que as sintas sempre.
Por baixo do edredão, Jordan seguia o trilho das cicatrizes no peito de Stephen (...). Monica rezou para que o sono viesse. A fotografia de casamento ficaria na mesa-de-cabeceira como penitência por cada dia em que não informara Stephen e Jordan de que o pai deles era o mesmo.
Stephen agora sonhava com música, um clamor de vozes rememoradas, uma complexidade de almas em que nenhum indivíduo falava a verdade, mas na qual as camadas acumuladas de mentiras e perdas abriam caminho a uma verdade rara, imensa e capaz de apartar as feridas de uma parte do mundo.
Nos sonhos de Stephen, Meredith estava sentada sob um céu pleno de estrelas e livre de nuvens, as pernas contra o peito, a olhar para o oceano ilimitado, mas com a queda retumbante de uma chuva recordada nos ouvidos.
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Christopher Rice in "Jogos Cruéis", Editorial Notícias, Cruz Quebrada, 2004, pp 280 - 286.
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18/08/10


" Berceuse"
.
Canção de embalar é talvez
demasiado melódico e além disso
um desuso. Já ninguém canta a adormecer
os filhos. Coisa imprópria para o crescimento
de criaturas autónomas
e hiper-activas que devem fugir
ao sedentarismo e à obesidade.
O Canal Panda faz isso muito melhor
ou qualquer brinquedo mecânico e perfeito.
.
Também já ninguém canta
nos lavadouros públicos ou nos campos. Os
únicos campos onde se cantam as brumas
da memória são os estádios. Os
pedreiros deixaram de cantar à pedra:
.
Hou! pedra, hou!
Hou! linda pedra, hou!
.

e as canções de trabalho (uma espécie
de berceuses da fadiga) passaram
a matéria etnográfica. Por isso os
estudantes de português já não entendem
.
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura ou
Sete anos de pastor Jacob servira.
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Mesmo o Schone Mullerin do Schubert que
se ouve ainda nos concertos clássicos
com vaga subserviência patega
(porque em alemão, não se percebe nada),
só os amantes do lied reconhecem.
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E se percebessem?
A moleira já não seria schon
e não teria 80 anos, bem bonito rol
como a de Junqueiro,
pela estrada fora toc, toc, toc, mas agora reclusa
numa casa geriátrica, em contagem crescente
da inacção.
.
Muito pouco,
tão pouco, para um mundo
embalado na pesquisa espacial
de água em Marte.
.
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Inês Lourenço in "Coisas que nunca ", & etc, Lisboa, 2010, pp 23 - 24.
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17/08/10

" e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde, "


"Polishop"
.
click,
dormem em simultâneo sobre as escarpas
e sobre a sua beleza suja,
interior ao sono, interior à chuva,
colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesse
parte de uma incompletude que os completasse,
consolidam a solidão inacessível,
sentem o vento processar o seu rigor irregular
nos pulsos rasgados,
ouvem música petrificada, julgam que o ritmo
e o movimento da cabeça os podem apartar,
e por isso se intitulam apenas
de ouvintes de música,
click,
nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativos
da presente sessão, os lugares íngremes
das suas infâncias
que se consolam e flagelam entre si.
sobre eles disparo como se atirasse a matar
sobre as suas ideias transumantes
em direcção à trovoada oca
dos meus olhos brancos.
click
o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas,
todas as fugas, todas as horas que a bem ou a mal
singram e quebram.
quem me dera poder embriagar-lhes a sombra,
desatar-lhes os nós da vida,
poder vê-los andar de novo,
e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde,
compensando a minha completa falta de rosto
com a tripulação dos meus dedos
fingindo sobre a máquina fotográfica.
.
Tiago Nené in "Polishop ", Ayuntamiento de Punta Umbría, 2010, p 16
(edição bilingue: tradução para castelhano de Santiago Aguaded Landero).
.

16/08/10

"tu rêves, mais l'aube tarde encore/ à soufler sur les ruines, "


Tu rêves de villes que le temps
n'aura pas érodées, de forêts
qui dessinent des chemins vastes,
.
tu rêves, et sur la mer
les mâts des navires
rongent les pierres blanches,
la houle grignote le rivage,
.
tu rêves, mais l'aube tarde encore
à souffler sur les ruines,
les ombres se fracassent
contre la chair des maisons,
ébranlent la charpente fragile
des fenêtres par lesquelles tu vois
un peu d'espoir, crois-tu,
.
et comme lentement s'édifie un poème,
à l'intérieur de toi,
tu recueilles un à un ces lieux,
ces visages, tu touches à l'amour,
à tout ce qui peut encore être vrai
et beau, comme une promesse.
.
La Terre, à peine visible
- l'aurions-nous oubliée -
par le hublot des heures
sait-elle encore te rappeler
que tu n'es jamais
au-dessus de ce monde
qui avance maintenant
avec ses cassures
irréparables, - jamais tu ne seras
au-delà des vagues qui effacent
les pas humains, la beauté simple
des choses, et tu voudrais,
en cet instant où la Terre se retourne,
entendre souffler un vent oblique,
toucher du bout de ton âme
la peau fragile du temps, voir,
voir enfin s'ouvrir les ombres que l'on porte,
et comme un coeur, et comme un visage,
le monde reposer dans la paume de l'aube.
.
Hélène Dorion in "Le Hublot des Heures", Éditions de la Différence, Paris, 2008, pp 76 - 77.
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15/08/10

" o sol devora meu peito/ com seu olho vasculhando "


" O Deslocamento de Ar "
.
olhos vermelhos irisados
ela usa o tédio como enfeite
a juventude, fingido pesadelo
.
: a insónia é o contrário
da fome, sorri
.
o sol devora meu peito
com seu olho vasculhando
as janelas do quarto
.
como uma flor ela surge da cama
espírito de carne e osso.
.
você não tá me ouvindo!
.
as plantas nos canteiros da avenida
se movem com os carros em alta velocidade
o deslocamento de ar
.
ela se move como uma gata
sobre os lençóis
.
você não tá me ouvindo, seu idiota!
.
ela pega o travesseiro
pra começar uma batalha e faz um ruído
.
agora eu imitei
uma gaivota direitinho.
.
assim brilha a beleza
num mundo mal-amanhecido.
.
Dirceu Villa in "Icterofagia", Editora Hedra, São Paulo, 2008, p 44.
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14/08/10

" e a licitação mais baixa/ sempre vence. "


"Licitação"

não sei o que esconde
o silêncio
nunca o entendi
talvez sirva
para leiloar sentimentos

sim, deve ser
exactamente isso
que acontece -
e a licitação mais baixa
sempre vence.

Tiago Nené in "Polishop", Ayuntamiento de Punta Umbría, 2010, p 40,
(Edição bilingue: tradução para castelhano de Santiago Aguaded Landero).
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13/08/10

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A França, as viagens marítimas, o perfume das amoreiras em Lavilledieu, os comboios a vapor, a voz de Hélène. Hervé Joncour continuou a contar a sua vida, como nunca, na sua vida, tinha feito. Aquela rapariguinha continuava a fitá-lo, com uma violência que tirava a cada sua palavra a obrigação de soar memorável. A sala parecia agora ter deslizado para uma imobilidade sem retorno quando de repente, e de uma forma absolutamente silenciosa, ela esticou uma mão para fora do vestido, fazendo-a deslizar na esteira, diante de si. Hervé Joncour viu chegar aquela mancha pálida às margens do seu campo visual, viu-a tocar ao de leve na chávena de chá de Hara Kei e depois, absurdamente, continuar a deslizar até apertar sem hesitação a outra chávena, que era inexoravelmente a chávena onde ele bebera, levantá-la ligeiramente e levá-la consigo. Hara Kei não parara um instante de fitar sem expressão os lábios de Hervé Joncour.
A rapariguinha levantou ligeiramente a cabeça.
Pela primeira vez tirou os olhos de Hervé Joncour e pousou-os sobre a chávena.
Lentamente, fê-la rodar até ter nos lábios o ponto exacto onde ele tinha bebido.
Semifechando os olhos, bebeu um gole de chá.
Afastou a chávena dos lábios.
Fê-la deslizar de novo para onde a tinha alcançado.
Fez desaparecer a mão no vestido.
Voltou a apoiar a cabeça no regaço de Hara Kei.
Os olhos abertos, fixos nos olhos de Hervé Joncour.
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Alessandro Baricco in "Seda", Difel, Miraflores, 1998, pp 30 - 31.
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12/08/10

"Revista de Poesia Saudade" Nº 12.


Já está à venda o Nº 12 da "Revista de Poesia Saudade". Com este número encerra-se assim a
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referida publicação. Parabéns à equipa que coordenou (e executou) este projecto! Seguem-se
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os nomes dos autores que colaboram na presente revista: Alfredo Ferreiro (Galiza), Amadeu
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Baptista, Ana Luísa Amaral, Ana Luísa Queiroz, António Cândido Franco, António José Queirós
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António Salvado, Armando Silva Carvalho, Daniel Jonas, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Fátima
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Valverde, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Grade, Fernando Guimarães
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Gisela Ramos Rosa, Graça Pires, Henrique Monteiro, Iacyr Anderson Freitas (Brasil), Ildásio
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Tavares (Brasil), Isabel Cristina Pires, João Rui de Sousa, Joaquim Feio, Jorge Reis-Sá, Jorge
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Velhote, Luís Adriano Carlos, Luís Filipe Pereira, Luís Graça, Luís Quintais, Maria João
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Reynaud, Maria do Sameiro Barroso, Maria Teresa Horta, Nuno Dempster, Nuno Júdice,
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Pedro Sena-Lino, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Sérgio Pereira, Tiago Patrício, Vasco Graça
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Moura, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos (Moçambique), Xosé Lois García (Galiza)
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e Yvette K. Centeno.
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10/08/10


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    " Litania para um dia depois "

Ninguém sabe como foi. Como (súbito) desabaram
imensidões que por desígnio tanto quis. Jamais
me explicarão o derruir de tão altos cumes,
depois apenas pó - vazio, vazio tão vazio que para
o dizer nenhuma palavra serve. Contudo, tentá-lo-ei

agora: ia eu pela rua fora quando me apercebi - já
lá não estavas. Um aluimento inesperado, gume
que deveria doer, mas nem sequer. Como foi?
Com que meios? E quando, sim, quando, pois se
ainda há dias eras coisa tão presente?! Viajei eu tanto

(dentro e fora de mim) para agora uma rajada de ar
me aparecer com ar de libertadora; para uma inesperada
(e desinteressante) morte me encher assim a vida -
inútil viuvez de mim, lembranças já ossificadas
que deveriam doer, mas não. E, no quebranto

da memória, a falha é hoje uma evidência que liberta;
água, que, de tão límpida, corre em gorgolões
pelo verdete da cidade. Diz-me, que vieste tu aqui
buscar? Que vieste liquidar tantos anos depois?
Angústia para alimentar escritos? Pois bem, eis-me

finalmente livre! Gume de falha que deveria doer,
mas não. Como foi? E quando? Ninguém me saberá
explicar. Contudo, tentá-lo-ei eu agora: ia pela rua
fora, despreocupadamente, quando me lembrei
de olhar para dentro de mim - já lá não estavas.

Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 42.
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09/08/10

O livro-da-sabedoria não está escrito em qualquer uma das línguas vivas do mundo. Quando o abres é só silêncio que ouves - silêncio infinito. Por vezes parece-te ouvir o rumor do vento dos grandes desertos, mas é só a tua respiração fatigada. Por vezes parece-te ouvir uma voz ressoando numa gruta, mas é apenas uma aranha que tece a sua teia infinita. O livro-da-sabedoria é um livro vazio, perpetuamente fechado na sua dureza aérea, brilhante - rutilante. Para o leres terás de desaprender a linguagem de que és feito. Quando o abres, és atingido por um golpe de luz. Ofuscante - faiscante. Terás não apenas os olhos cegos para o mundo, mas também as mãos dormentes por terem tocado a substância do vazio. Regressarás em luz, transparente até aos ossos. Irradiante pela noite e negro pelo dia. O livro que abriste encerrou-se como a gruta secreta da morada do ser. Aceita perder-te. Aceita a significância do nada. Vive com a ferida lancinante permanentemente aberta. Ouve o sangue despenhando-se do alto - alfabeto dos alfabetos de todos os livros.
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Manuel Silva-Terra in "Lira", Editora Licorne, s/c., 2009, pp 38 - 39.
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30/07/10

Publicação...

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Acabou de sair a "NAVEGAÇÕES - Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa",
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no seu Vol. 3 No 1 (2010). A referida publicação pertence à PUCRS (PONTIFÍCIA UNIVERSI-
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DADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL) e está organizada em quatro capítulos: Editorial,
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Ensaios, Entrevistas/Documentos, Recensões. Dada a grande quantidade de temas e autores,
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assinalarei apenas, por motivos óbvios, o terceiro desses capítulos:
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Entrevistas/ Documentos:
- Prometeu - Piróforo
Milton Torres
- Aqui me costumava eu sentar
Victor Oliveira Mateus
- Entrevista a Urbano Tavares Rodrigues
João Marques Lopes
- O germinar do ser: os cantos e os campos de Maria Carpi
Marcela Wanglon Richter
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27/07/10

" car c'est avec des nuages que la main écrit: "

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Elles jettent des racines
dans les yeux des fugitifs,
les choses abandonnées,
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et la porte restée ouverte se tait,
corde vocale perdue, au seuil
de la chambre, gorge déserte.
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Soupière, île
sans la vorace marée des bouches,
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table de travail sans la science des étoiles.
Météores au fond de la nuit tombale,
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des lettres que personne n'a lues;
mais leur presse-papiers en cristal de roche
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brille au soleil d'une fenêtre -
car c'est avec des nuages que la main écrit:
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Rose
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déjà sur un ciel nouveau,
et la réponse fut réduite en cendres.
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Aile d'abeille dans le cercueil de verre,
l'exode parmi les tombes est un rayon d'or,
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il fondra au feu du miel
avec la nostalgie en lambeaux,
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quand enfin la nuit s'abat sur le bûcher.
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Nelly Sachs in " Exode et métamorphose", Éditions Verdier, s/c., 2002,
p 14 (Tradução do alemão para o francês de Mireille Gansel).
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O livro-errante bate às portas do ser. Abandonado num quarto de hotel, esquecido no banco do comboio, perdido no aeroporto. Desperta e rejubila com o bafo dos passageiros. Abandonado esquecido perdido. Achado e reencontrado. Tornado imóvel, comprimido numa pilha com outros seres semelhantes. Resgatado ao pó da biblioteca. No outono perdido no bosque e na primavera seguinte recuperado do gelo das folhas e do estrume. Todo ele estremece com a passagem das estações sobre a erva. Todo ele vibra com a passagem do tempo sobre a Terra. Sebento e sujo. Mendigo nos caminhos dos homens. Jazente, renova-se ao contacto com outro ser, também ele errante e fragmentado. Ambos se recolhem um no outro, de si desapossados. Inquietos como dois amantes inexperientes. Deste encontro fazem revelação. O livro-errante é o livro-leitor-feliz. Ambos conhecem a lentidão amorosa, o suspiro na queda e a perda. Ambos caem com volúpia.
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Manuel Silva-Terra in " Lira ", Editora Licorne, s/c., s/d., p 11.
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25/07/10

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                            "Lobisomem"
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Não preciso de luas cheias para que os uivos se soltem da garganta e sigam disparados contra as estrelas. Basta-me o quarto minguante das iniquidades, a lua gibosa dos hipócritas, a mediocridade dos cretinos aleitados pela sagrada vaca da pesporrência.
Na verdade, não careço de dia treze para que o azar me bata à porta e entre sem sequer eu ter oportunidade de perguntar quem bate. Queixar-me não posso, mas dói quando o pêlo irrompe dos poros, as unhas saltam afiadas para fora dos dedos, os dentes procuram a carne que satisfaça o apetite.
Quem pensar que não dói, desengane-se. Pago a raiva com uma incomensurável solidão. Mais ainda quando dizem estar comigo todos os crápulas de latido dissimulado. Debaixo do meu uivo, mal podem imaginar sua ínfima condição de cachorros domésticos.
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Henrique Manuel Bento Fialho in "Estranhas Criaturas", Deriva Editores, Porto, 2010, p 24.
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" Em nada existe, em nada além da idéia "

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"A fonte "

(sobre "O Balanço", de Fragonard )
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Mera e moral, a um canto da tela,
a fonte em que o Amor ou outro deus,
em gesto, se de cúmplice censura,
nada acrescenta à cena ou tira dela.

Em nada existe, em nada além de idéia
tão decadente de que o olho espera
um recesso de água e de penumbra
se, quando nume, um corpo de mulher flutua;

se o desejo (ou o clichê dele) nos inunda
à visão de um balanço e uma mulher
cujo vestido voa, e o gesto pondera;

se uma mulher tão ruiva e de coxas tão brancas,
muda e veloz, chuta o sapato longe,
faz que recusa, e já nos abre as pernas.

Cláudio Neves (Inédito)
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24/07/10

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I
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Pouco a pouco aprendi
o perigo das renúncias demasiado rápidas.
Pouco a pouco fui antecipando a mácula que se contém
no outro lado de uma jura
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I (A)
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Na vitrina de um antiquário
distingui imitações sob a força da emoção.
Entrei, pedi a máscara
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II
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O ler no branco glacial e liso é feito de recomeços,
progressos e muita paciência.
Digamos que é uma cura lenta, mas não precária.
Dolorosa, sim.
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Tento espaçar as crises
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II (A)
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Sem o confessar, durante esses períodos de disciplina
os sentires surgem-me apenas como sintomas
que se vão comunicando à alma
até que de um novo ponto de partida
surjam em grau de tentação
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II (B)
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Só por essa razão as sombras perdem o seu embaciado
porque atrás de uma ideia vem outra
e a alma desembaraça-se do corpo como de um vício
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II (C)
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Renovam-se as inocências sem o peso dos remorsos
que se prolongaram no tempo excessivos
face a extraordinárias insignificâncias

Teresa Vieira in "Escritos Sobre a Pele", Dinalivro, Lisboa, 2005, pp 77 - 78.
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23/07/10

" Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda, / eu passei a vida a perdoar, "

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"Diante do Mar"

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.
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Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".
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Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.
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Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.
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Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.
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Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.
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Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todo;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.
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Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.
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E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a e engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!
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Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.
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Alfonsina Storni in "O mar na poesia da América Latina", Assírio & Alvim,
Lisboa, 1999, pp 131 - 133 (selecção e ensaio de Isabel Aguiar Barcelos, tradução
de José Agostinho Baptista)
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21/07/10

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"Encontro"


Este lugar é outro.
Balançam bambus ao vento
as tranças desiguais.
Ninguém responde às minhas palmas.
Onde o cão habitual
farejando o imprevisto?
Atenho-me às plantas, ao fundo do quintal
com suas raízes.
Têm sede, não chamam.
Com o cansaço da tarde, vou olhando:
cancelas arruinadas,
um carrinho tombado, vertendo terra mais escura;
um jarro de esmalte branco, antigo,
entre outras coisas
muito abandonadas.

Há marcas na terra seca e solta,
marcas de brinquedo:
tampinhas de garrafa e um aro em meia-lua
de metal prateado.
Vejo o que há de irregular e errático
na menor alegria.

Sento-me num banco debaixo da ameixoeira.
É um banco pequeno, incômodo,
um banco de criança.
O que fazer?
Já bati palmas, feri o silêncio
deste recanto calmo.

Balançam bambus ao vento
as tranças desiguais.
Este lugar é outro.

Dora Ferreira de Silva in "Poesia Reunida", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 1999, pp 67 - 68.
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20/07/10

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"Metafísica"


Vai tempo onda marinha afogando teus mortos
rola na orla estreita búzios e medusas
põe no ouvido ávido dos vivos
a breve canção do invisível mar
canção de um longe que ressoa
vai tempo fantástica maré
anêmona vibrante
colhe em teu cerco o sorriso do homem
e o pólen dos séculos

Voa pássaro marinho
semente viva entre rochedos
foge para as ilhas
à beira das águas taciturnas

Tempo
mar e marinheiro
barco e viagem
arrasta teus cansados velames e o vento que os impele
vai velho marujo
rumo aos horizontes incompletos

Dora Ferreira da Silva in "Poesia Reunida", Topbooks Editora,
Rio de Janeiro, 1999, p 40.
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19/07/10

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Because that you are going
And never coming back
And I, however absolute,
My overlook your Track -

Because that Death is final,
However first it be,
This instant be suspended
Above Mortality -

Significance that each has lived
The other to detect
Discovery not God himself
Could now annihilate

Eternity, Presumption
The instant I perceive
That you, who were Existence
Yourself forgot to live -

The "Life that is" will then have been
A thing I never knew -
As Paradise fictitious
Until the Realm of you -

The "Life that is to be," to me,
A Residence too plain
Unless in my Redeemer's Face
I recognize your own -
Of Immortality who doubts

He may exchange with me
Curtailed by your obscuring Face
Of everything but He -

Of Heaven and Hell I also yield
The Right to reprehend
To whose would commute this Face
For his less priceless Friend.

If "God is Love" as he admits
We think that he must be
Because he is a "jealous God"
He tells us certainly

If "All is possible with" him
As he besides concedes
He will refund us finally
Our confiscated Gods -

Emily Dickinson in "Poemas e Cartas", Edições Cotovia, Lisboa,
2000, pp 112 - 114 (Organização: Nuno Vieira de Almeida).
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17/07/10


Wild Nights - Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!
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Futile - the Winds -
To a Heart in port -
Done with the Compass -
Done with the Chart!
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Rowing in Eden -
Ah, the Sea!
Might I but moor - Tonight -
In Thee!
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Emily Dickinson in "Poemas e Cartas", Edições Cotovia, Lisboa,
2000, p 32 ( Organização: Nuno Vieira de Almeida).
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16/07/10

"(...) car la crédulité jamais/ ne cesse d' être à la mode."

Kiki Dimoula publica o seu "Le Peu du monde" - em Atenas, claro! - em 1971. O livro "Je te salue Jamais" aparece em 1988 (em 1981 tinha feito sair uma outra obra), mas o que importa aqui é que em 1988 fazia três anos que o seu marido - e companheiro - morrera. Atentemos até ao título da própria recolha poética. Kiki vivera assim 32 anos com o poeta Àthos Dimoulas, de quem teve dois filhos. Mais tarde, numa biografia, escreverá mesmo que os seus "verdadeiros estudos superiores" foram os anos que passara ao lado de Àthos. Em "je te salue Jamais" é constante a referência à serenidade, acentua-se também o "diálogo com as fotografias" e é recorrente uma ironia, por vezes amarga, por vezes cínica. Em 1994 Kiki Dimoula ainda publicará um outro título significativo: "A adolescência do esquecimento"... Estamos, pois, frente a uma poesia marcada pelo movimento ininterrupto daquilo que É para o Não-Ser e vice-versa, muitas vezes mediatizado pela memória e pelo diálogo com as fotos, estas também dinânimas e a precisar de serem cuidadas. Kiki Dimoula virá a ingressar na Academia Grega das Letras em 2002.
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" Défense Aérienne"
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Le calme absolu en moi
met toujours ses pantoufles à tout hasard.
Des désirs logent à l'étage en dessous.
Bien sûr ils déclarent être sourds.
Les illusions déclarent être aveugles
mais elles te flairent te voient
derrière leurs lunettes noires
elles te mettent
à nu pour les avoir crues.
Tu ne les as crues. Elles t'émeuvent aveuglément
jouant leur musique assises
à l'un de tes fructueux passages ombragés
elles t'émeuvent aveuglément grattant
leurs vieux succès car la crédulité jamais
ne cesse d'être à la mode.
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Eh bien qu'ils gardent à tout hasard
leurs boules dans les oreilles
mes gestes prompts à s'émouvoir.
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En tous cas préférez les morts.
Préférez les morts
s'il vous faut prendre une erreur en pitié.
Eux du moins ne sont pas de passage.
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Kiki Dimoula in "Le Peu du Monde suivi de Je te salue Jamais", Éditions Gallimard,
Paris, 2010, p 143 (traduzido do grego para o francês por Michel Volkovitch).
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15/07/10

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- Oh, oh, não sei - disse Nick. - Eu, de política, não percebo nada.
Havia alguma crispação no rosto de Bertrand. - Bem sei, você é o raio do esteta.
(...)- Oh, eles estão todos apaixonados por ela. Ela tem olhos azuis e hipnotiza-os- - Os seus olhos escuros procuraram estremecidamente o marido e, logo a seguir, o filho.
- É só uma espécie de amor cortês, não é verdade - disse Nick.
- Pois... - disse Wani, com um aceno de cabeça e um breve sorriso
(...)- Claro que ela é uma grande figura da nossa era. Mas também é uma mulher muito atenciosa(...) Vou fazer um importante donativo para os fundos do Partido, e... quem sabe o que virá depois (...) Os meus princípios são estes, meu amigo, quando alguém nos ajuda, nós temos a obrigação de retribuir essa ajuda, de compensar essa pessoa (...)
- Ah, com certeza - disse Nick (...)- Sentia que, inadvertidamente, se tornara o foco de uma intensa animosidade por parte de Bertrand.
- Nesta casa, não ouvirá uma única queixa acerca dessa grande senhora!
- Bom, e na minha também não, posso garantir-lhe!
Nick lançou um olhar rápido aos rostos submissos dos outros.
.....
Nick não resistiu. Snifou a sua linha e afastou-se. Depois, Wani voltou a enrolar a nota e, no preciso momento em que baixava a cabeça para atacar o pó, ouviram um vago ruído de passos, muito perto, já na volta das escadas (...) Wani snifou a sua linha, só por uma narina, meteu a nota ao bolso, a nota e o pacote, e virou o livro, tudo num segundo ou dois.(...) Nick nunca o vira tão ansioso; e, de algum modo, enquanto o olhava nos olhos, Nick sabia que Wani acabaria por puni-lo pelo simples facto de ele ter presenciado aquele momento de pânico. O problema era menos a droga do que a sugestão de uma intimidade culpada.
(...) Para Wani, o primeiro impacto da coca traduzia-se sempre por uma urgência erótica e para Nick também. O primeiro beijo viera com a primeira linha de coca que tinham snifado juntos, a boca de Wani azeda de vinho, a língua disparando sôfrega, os olhos timidamente fechados (...) Tudo parecia possível - o mundo era não só praticável, conquistável, mas também susceptível de ser amado: o mundo mostrava as suas fraquezas e uma pessoa sabia que ele acabaria por se submeter à sua vontade, uma pessoa via o seu próprio encanto reflectido nos olhos do mundo (...) Nick, com o fato de risca fina - finíssima, de facto - que Wani lhe comprara, parecia mesmo um daqueles jovens, exemplares típicos da época, que se entregavam intensamente, agressivamente, a uma profissão liberal ou a uma carreira nos negócios, o banqueiro, o traficante, ou mesmo o agente imobiliário (...) Enquanto afagava o pénis de Wani através da braguilha aberta e lhe beijava o pescoço, fazendo com que a pele dele se crispasse de arrepios, Nick ria-se, mas, ao mesmo tempo, sentia-se embaraçado, quase chocado, por estar a ouvi-los naquilo (...) ficou a pensar se Catherine estaria a gostar, se Jaspers não estaria a portar-se que nem uma besta (...)quando ela precisava que a tratassem com extremo cuidado e carinho.
(...) Vistos da varanda, naquele entardecer de fins de Julho, os jardins ganhavam uma profundidade extrema, como se houvesse sempre outro verde para lá do último verde(...)
Nick fez um esforço para não parecer surpreendido, enquanto tentava descobrir por que razão estaria Polly a gozar com ele- Disse: - Não me surpreenderia, actualmente, há uma espécie de gravidade social invertida, não é. As pessoas caem, afundam-se, para cima.
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Alan Hollinghurst in "A Linha da Beleza", Edições Asa, Porto, 2005, pp 252 - 297.
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A poesia de Chico Buarque...

para hoje, mal cheguei a Lisboa.

14/07/10

" E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo, "


" Cinismos "
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Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
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Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.
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Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.
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Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,
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Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!
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E eu hei-de, então, soltar uma risada.
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Cesário Verde in " O Livro de Cesário Verde", Editorial Minerva, Lisboa,
13ª Edição, pp 166 - 167.
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13/07/10

" pero regresso al bosque/ donde perdí mi rastro. "


"Tejados de Rashomon"

Una mentira
puede reconocerse en esta lluvia
constante y rectilínea
como la huella exacta
del temblor en tu mano.

No entiendo nada,
ya no se mira igual desde el recuerdo
de tu cuerpo tendido
sobre el viento que vuelve
a trazar mi paisaje.

Como madera,
todos mis pasos crujen en las sombras
de esta vida forzada
sobre el silencio opaco
de mis dudas secretas.

Mírame ahora,
en la derrota de mis viejos párpados
es el amor difícil,
pero regresso al bosque
donde perdí mi rastro.

José Ángel García Caballero in " Llaves Olvidadas", Editorial Renacimiento,
Sevilla, 2010, pp 53 - 54.
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12/07/10

"Auto-retrato"


Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é quem lhe invade,
com a voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a eclosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender inteiro o poeta
é bem malsinada sina:
quando o supomos em cena,
já vai sumindo na esquina,
entrando na contramão
do que a palavra lhe ensina.
Por sob a zona da sombra,
navega em meio à neblina,
mesmo que seja pequena
a poesia que o ilumina.

Antonio Carlos Secchin in "Revista Poesia Sempre", Nº 26 - Ano 14/ 2007, p. 147,
Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
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10/07/10

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"Tempo desdobrado"


Há um respirar alheio ao tempo.
Na geometria dos triângulos,
tudo se abre, nada se fecha.

O contrário não exclui o seu contrário,
e por isso quem respira alheio ao tempo
não deixa de estar no tempo desdobrado.

As tílias espalham em redor o seu perfume
de consonâncias perfeitas,
como no Lindenbaum de Schubert.

Cheira a Verão na Avenida Central
e debaixo das tílias falamos
sobre o curso das estrelas,

cuja história é também a nossa,
desdobrada no tempo
no desdobramento do nosso tempo.

Frederico Lourenço in "Santo Asinha e outros poemas", Editorial Caminho,
Alfragide, 2010, pp 38 - 39.
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09/07/10

" L' amour,/ (...) genre désarmé. "

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" Le Pluriel"

L'amour,
substantif,
très substantiel,
nom singulier,
genre ni féminin ni masculin,
genre désarmé.
Au pluriel
les amours désarmé(e)s.

La peur,
substantif,
singulier au début
puis pluriel:
les peurs.
Les peurs
devant tout désormais.

La mémoire,
nom propre des tristesses,
singulier,
singulier rien d'autre
et invariable.
Mémoire, mémoire, mémoire.

La nuit,
substantif,
genre féminin,
singulier.
Pluriel
les nuits.
Les nuits désormais.

Kiki Dimoula in " Le Peu du monde suivi de Je te salue Jamais", Éditions Gallimard,
Paris, 2010, pp 24 - 25 (Tradução do grego para o francês de Michel Volkovitch).
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08/07/10

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Restituir-me por inteiro é dar-me até ao fim.
No jardim barroco, tanques e repuxos gelaram
durante a noite, mas os limoeiros estão intactos
contra os muros caiados de branco.
O gelo no chão não tocou as flores da laranjeira:
este Dezembro, as fontes geladas e as flores
partilham a manhã em conciliada coexistência;
ao meio-dia o termómetro continua abaixo de zero,
mas as árvores meridionais frutificam.
Assim dar-me por inteiro não me isenta de mim,
do mesmo modo que na manhã de Dezembro
a fonte gelada não impede a laranjeira de florir.

Frederico Lourenço in "Santo Asinha e outros poemas", Editorial Caminho,
Alfragide, 2010, p 13.
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07/07/10

" Religando tudo/ Quase tudo "

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"Poeta"

Crivado de mortes
Pessoais e outras
Prossegue
Fantástica-
Mente
Religando tudo
Quase tudo

Alberto de Lacerda in " Átrio ", Imprensa Nacional - Casa da Moeda,
Lisboa, 1997, p 126
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06/07/10

" Eu não ia/ ainda/ partir "

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Não te disse
Vou partir
Eu não ia
ainda
partir
Ia reunir
meus destroços
desencalhar
Meus barcos abandonados
Ia esgueirar-me
erecto
para que as ruínas
Nos não ferissem mais
nunca mais
Sobretudo a ti
ou a mim
Não sei

Aceitar o escuro
sim
Também ele é nosso
Também o escuro
É natureza
natural
Mas de uma vez para sempre
Impedir que os abutres
Nos confundam com a carne
Que os campos de batalha
Rasgaram

Alberto de Lacerda in " Átrio ", Imprensa Nacional - Casa da Moeda,
Lisboa, 1997, p 16.
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Matilde Rosa Araújo (1921 - 6/7/2010)


05/07/10

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      " Partida "
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Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
- minúscula que fosse - para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam


todos atarefados a viajar, mas de outro modo -
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transaccionável quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes


(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta,
para o sorriso alvar de muitos. Quando parti
a buganvília da moradia em frente estava esplendorosa
e havia um gato a furar a rede. Quando parti
uma mulher no prédio ao lado sacudia um minúsculo


tapete. Acenou-me. Sorriu. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas de uns para
os outros, as conversas. Quando parti ninguém
apareceu para se despedir. Havia apenas: eu,
um obectivo incerto, o teu rosto a reflectir-se
ao longe e o sol a dar de chapa nas vidraças.

Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 12.
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