22/10/10

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"Que fazes aqui?"


Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.

Amalia Bautista in "Trípticos Espanhóis - 3º ", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
2004, p 53 (Selecção e Tradução de Joaquim Manuel Magalhães).
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21/10/10

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" A Vida Responsável"


Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.
Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.
Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.
Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para só fazer coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.
Por exemplo, amar-te com loucura.

Amalia Bautista in "Trípticos Espanhóis - 3º", Relógio D' Água Editores, Lisboa,
2004, p 31 (Selecção e Tradução: Joaquim Manuel Magalhães).
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17/10/10

" Queremos lembrar./ E o que lembramos/ é mar. "

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"Ela vive em mim"

Veja este braço que em volta do corpo dela.
Mal pode avançar nas conchas do banco.
Se outro homem esteve aqui,
arrancou areia,
seixos e o lodo colorido que
pomos rente às pedras
pra divertir os videntes.
O último
foi um forasteiro que prometeu mundos e fundos
e fugiu com outro na noite de Ano Bom.

Agora queremos aprender.
Ela me disse primeiro pelas mãos.
Então fiquei ali dentro da palma esperando
a hora de me mover sem luta.
( Pare um pouco de pensar
para não se perder com o que é banal.)

A gente sempre pensa
não é preciso mais nada,
pode parar tudo.
Mas é assim que é,
não pára de acontecer,
e mal podemos acompanhar a boca, as coxas,
avançando sempre sem fé.
Pensávamos que era aquele lábio, aquele dente,
ou ainda os rios descompostos
que elegêramos para o pálido janeiro.
Depois fomos descobrindo -
não era isso, não era eu, nem ela, nem nenhuma
parte dos beijos, por mais que voltemos.
Antes do mundo já sonhávamos.
Era um mundo estranho que queríamos.
Estivemos lá. Mas esquecemos o que ele era.
Queremos lembrar.
E o que lembramos
é mar.

Sérgio Nazar in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira"
(Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto,
Fafe, 2010, pp 179 - 180.
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16/10/10

"La poésie comme la vie/ n'admet pas de réponse "

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Il y aura toujours cette question
à quoi ça sert

Non comme un chant de sirènes
mais une pensée sincère

Le poème meurt devant l'enfant qui meurt

La poésie comme la vie
n'admet pas de réponse

La quête est objet de la quête
qui s'arrête quelquefois

devant un visage

Azadée Nichapour in "Parfois la Beauté", Seghers, Paris, 2008, p 90.
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15/10/10

"Mais la mélancolie de mes yeux/(...) dans la pierre "

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Je regarde le silence
où ses doigts infinis
osculptent mon visage

Mais la mélancolie de mes yeux
comment va-t-il faire
pour l'écrire dans la pierre

Azadée Nichapour in "Parfois la Beauté", Seghers, Paris, 2008, p 58.
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14/10/10

" À présent je marche en moi-même"

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On se croit arrivé depuis longtemps
mais la route continue

À présente je marche en moi-même
épuisée du chemin qui me sépare de moi

Azadée Nichapour in "Parfois la Beauté", Seghers, Paris, 2008, p 14.

(Nota - esta poeta iraniana, vivendo hoje em Paris, escreve directamente em francês, daí a inexistência de tradutor na referência bibliográfica.)
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13/10/10

"(...) os dois estamos/ cheios de buracos - e nem é grave/ se soubermos flutuar. "

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"Chat"

Em Mercúrio, Sexta-feira, a sonda
detectou duas crateras de auréolas
sombrias. Apresentam ambas bordos
quase intactos e muros de socalcos

segundo especifica o endereço
http://messenger.jhuapl.edu/
( anoto e espero que o poema
seja eterno e o link não). Cliquei

para ampliar a imagem, e dentro
vi pequeninas covas circulares
como as que na areia faz a chuva
ou nas fontes as moedas dos desejos.

Também por via Messenger te encontro
e troco novidades, mais veloz
do que a luz, mais ágil o gracejo
do que o próprio pensamento, faísca

o espaço - onde chegamos, sem risco
já de nos tocarmos; os dois estamos
cheios de buracos - e nem é grave
se soubermos flutuar. Em tudo isto

ainda há algo como um halo fundo
e um radar que é como água gotejando
por degraus, que inquieta mas seduz
e nos deixa sombrios intactos sós.

Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 60.
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11/10/10

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"Emotional Turn"


O nosso embalo vem à direita da letra
e já vem tempo que parece ser fatal
o que no fim do dia arrepende
Temos uma toada emocional, embora fria
Disputamo-la nas pequenas imagens
truques traves e toques
de potentes linguagens que algum dia
até são nossas, e logo se nos espraiam
mas mesmo, reparo Praia e praia
Eu aqui só digo praia
Temos uma toada emocional, tão fria
como o favorito do Pessoa, e isso sim
o amor todo dobrado
também uma grande galeria
de coisas que ainda fazem chorar
como na escola as festas de fim de ano
com grupos de língua inglesa e
tremendamente enamorados
já ninguém diz

Hugo Milhanas Machado in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 79.
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"O amor aos sessenta"


Isto que é o amor ( como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo, não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto de jovem.

Alberto da Costa e Silva in " O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira" (Organização: Victor Olivieira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez),
Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 22.
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Instantâneos do lançamento do dia 9/10 (apenas as imagens sem quaisquer nomes!).






10/10/10

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           "Soneto"


Se alguém batesse à minha porta um dia
E me chamasse à vida que há na rua,
Eu - que não quero ouvir - nada ouviria
Que apenas ouço aquela voz que é tua.

Se alguém de noite abrisse a gelosia
Para que eu pudesse olhar a luz da lua,
Eu - que não posso ver - nada veria
Que a condição de cega continua.

Nem punhal feito em aço de Toledo
Me atinge o coração porque ele somente
No aço dos teus olhos se desfaz.

Pois contra mim lançou este bruxedo
O Amor: de meus sentidos nenhum sente
Senão o sentimento que lhes dás.

Hélia Correia in "O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira"
(Organização: Victor Oliveira Mateus, Prefácio: António Carlos Cortez), Editora Labirinto,
Fafe, 2010, p 74.
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06/10/10

"Então sobre o poema, o artifício,/ a borra baça, a mim a extrema luz."

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"Declaração de Intenções"

Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

Margarida Vale de Gato in "Mulher ao Mar", Mariposa Azual, Lisboa, 2010, p 9.
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05/10/10

"o caramanchão onde em muitas tardes/ me sentava com um livro na mão/ morrendo de desvairada alegria; "

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" A Criação do Mundo"

Uma coisa insone, talvez coisa nenhuma,
se agita intranquila
num círculo que invento
como poça no terreiro.
Coloco dentro uma rua
e nela uma casa
com vidraças na varanda.
Trago um endereço na mão
e paro defronte à porta,
mas não posso abri-la.
Não decifro a chave
que é um deserto de família.
Fico olhando o pensamento
para ver se ao menos uma janela
se rompe para a entrada do nada.
Gestos de dor se fecham
e tudo desaparece
em murmúrios e momentos do tempo.
Só me lembro do que é dormido.
Com movimentos de dança
o rio lambe sua cauda de linfa
e incandesce os poetas,
os que cantaram sua ponte
- essa enorme boca -
e os que acarinharam suas costas
de metal polido.
Não há ninguém sentado na margem
em que habitava desarmada
da convulsão de meus deuses.
Como num impossível sonho e lúcido sentido
reconstruo as pedras do jardim,
altas, gordas e redondas,
que abriam um buraco nas begônias;
as lesmas que lambiam
a terra com sua baba;
a crista vermelha
pulsando no andar do galo;
o corpo de seda da lagartixa
em sua imobilidade de gesso;
o caramanchão onde em muitas tardes
me sentava com um livro na mão
morrendo de desvairada alegria;
os ecos de vozes, lágrimas, vultos na escada.
.
Desenterro as raízes do medo,
tortas e doendo de fome.
Nada mais germina nesta horta,
este chão transfigurado
em fragmentos de musgo e acalanto.
O pranto é um lenço de linho
cobrindo o rosto como uma capa.
Espero que me dêem um delírio,
uma queimadura, um coração estrelado,
tudo muito colado ao meu rosto,
para que acordem o meu sonho
e retornem, com nomes na memória,
a essa loucura em que, mutilada, me apoio.
.
Quem me vê andando entre os muros
e se aproxima abrindo
a parede de chumbo da infância?
Que beijo ganho por ser tão menina?
Ando devagar, afundando as sombras
nos meus passos. Desço a rua do Pomba.
Abro os olhos da filha
e vejo a criação do mundo.
.
Lina Tâmega Peixoto in "50 Poemas Escolhidos pelo Autor", Edições Galo Branco,
Rio de Janeiro, 2008, pp 61 - 63.
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03/10/10

" Em ti também eu me procuro./ Neste engano que ninguém percebe "

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" Aula de Desenho"

Longo caminho o espaço em que te sinto.
Procuro rugas, imagens, teu silêncio,
uma cor que envolva tua quietude.
Em ti também eu me procuro.
Neste engano que ninguém percebe
minha mão se cansa e morre na forma da tua.

Antes fosse cinza onde traço teu rosto
apenas uma fina roda de luar.

Lina Tâmega Peixoto in "50 Poemas Escolhidos pelo Autor",
Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, p 20.
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02/10/10

" Luzes de montras. Gente negra, espectral,/ No brilho amarelado que ensopa a rua inteira. "

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" Fim... "

Vítreo, de olhar parado, passos vão-me arrastando
Para espaços mais distantes num compasso sem fim.
Fumega a massa pedregosa de Berlim,
Correm pela noite fora carros tilintando.

Luzes de montras. Gente negra, espectral,
No brilho amarelado que ensopa a rua inteira.
E tudo vai passando, um velho ritual...
Mascando, pensativa, chega gente de feira,

Raparigas com gestos de quem sempre aqui
Esteve, e o eléctrico tocando sem parar...
Toda esta dor, que quer ela de mim?
Não fiz mal a ninguém neste lugar.

Lâmpadas de arco de brilho azul e branco.
Febres frias cortantes. Vastidões congeladas.
Em semicírculo imóvel, o gigantesco banco
das lésbicas de sempre, grandes, marmorizadas.

Ernst Blass in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas ",
Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2001, p 51 (tradução de João Barrento ).
.

1/10 Inauguração da Exposição de Eduarda Costa Ferraz no "Hotel Inglaterra", Estoril. Trabalhos a não perder...





28/09/10

Dia 9 de outubro (sábado), às 16h00, na Livraria Bulhosa de Entrecampos em Lisboa...


. Apresentação da ANTOLOGIA
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- "O PRISMA DAS MUITAS CORES - POESIA DE AMOR PORTUGUESA E BRASILEIRA"
.
- Organização: VICTOR OLIVEIRA MATEUS
.
- Prefácio: ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
.
- Colaboram os POETAS:
.
- ADALBERTO ALVES, AGRIPINA COSTA MARQUES, ALBANO MARTINS, ALBERTO DA
.
- COSTA E SILVA, ALBERTO SOARES, ALEXANDRE BONAFIM, ALEXEI BUENO, ALICE
.
- FERGO, ALICE VIEIRA, ÁLVARO CARDOSO GOMES, AMÉLIA VIEIRA,
.
- ANA HATHERLY, ANA LUÍSA AMARAL, ANA MIRANDA,
.
- ANTÓNIO DE ALMEIDA MATOS, ANTONIO BRASILEIRO,
.
- ANTÓNIO CARDOSO PINTO, ANTÓNIO CARLOS CORTEZ,
.
- ANTONIO CARLOS SECCHIN, ANTONIO CÍCERO, ANTÓNIO JOSÉ QUEIROZ,
.
- ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA, ANTONIO MIRANDA, ANTÓNIO RAMOS ROSA,
.
- ANTÓNIO SALVADO, ARTUR F. COIMBRA, CARLOS FERREIRA AFONSO,
.
- CARLOS NEJAR, CARLOS VAZ, CASIMIRO DE BRITO, CLÁUDIO LIMA, CLÁUDIO NEVES,
.
- CLERI APARECIDA BIOTTO BUCCIOLLI, daniel gonçalves, DIRCEU VILLA, DONIZETE
.
- GALVÃO. E. M. DE MELO E CASTRO, ERNESTO RODRIGUES, EUNICE ARRUDA,
.
- FERNANDO ESTEVES PINTO, FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, FLORIANO MARTINS,
.
- FLORISVALDO MATTOS, GILBERTO MENDONÇA TELES, GISELA RAMOS ROSA,
.
- GLÓRIA DE SANT'ANNA, GONÇALO SALVADO, GRAÇA PIRES, HÉLIA CORREIA,
.
- HENRIQUE LEVY, HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO, HUGO MILHANAS MACHADO,
.
- IACYR ANDERSON DE FREITAS, ILDÁSIO TAVARES, INÊS LOURENÇO, ISABEL
.
- WOLMAR, IVAN JUNQUEIRA, JAIME ROCHA, JOÃO DE MANCELOS, JOÃO NEGREIROS,
.
- JOÃO RICARDO LOPES, JOÃO RUI DE SOUSA, JOAQUIM CARDOSO DIAS,
.
- JOEL HENRIQUES, JORGE REIS-SÁ, JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA, JOSÉ DO CARMO
.
- FRANCISCO, JOSÉ EMÍLIO-NELSON, JOSÉ FÉLIX DUQUE, JOSÉ JORGE LETRIA,
.
- JOSÉ MANUEL CAPÊLO, JOSÉ MANUEL MENDES, JULIANA MIRANDA, LARA DE LEMOS,
.
- LÊDO IVO, LUÍS ADRIANO CARLOS, LUÍS FILIPE CRISTÓVÃO, MAIARA GOUVEIA,
.
- manuel a. domingos, MANUEL MADEIRA, MANUEL NETO DOS SANTOS, MARCO
.
- LUCCHESI, MARGARIDA VALE DE GATO, MARIA ALBERTA MENÉRES, MARIA
.
- ANDRESEN, MARIA AUGUSTA SILVA, MARIA AZENHA, MARIA DO CARMO CAMPOS,
.
- MARIA CARPI, MARIA ESTELA GUEDES, MARIA JOÃO FERNANDES, MARIA LUCÍLIA
.
- MELEIRO, MARIA QUINTANS, MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, MARIA DO SAMEIRO
.
- BARROSO, MARIA TERESA DIAS FURTADO, MARIA TERESA HORTA, MARIA TOSCANO,
.
- MARIANA IANELLI, MÁRIO CLÁUDIO, MATILDE ROSA ARAÚJO, MIGUEL-MANSO,
.
- MILTON TORRES, MYRIAM FRAGA, NEIDE ARCHANJO, NUNO DEMPSTER,
.
- NUNO JÚDICE, OLGA SAVARY, PAULO FRANCHETTI, PAULO MOREIRAS, PAULO
.
- TAVARES, PEDRO LYRA, PEDRO SENA-LINO, POMPEU MIGUEL MARTINS, RENATA
.
- PALLOTTINI, RICARDO DOMENECK, RODRIGO PETRONIO, ROSA ALICE BRANCO,
.
- RUI ALMEIDA, RUI COIAS, RUI COSTA, RUI LAGE, RUY ESPINHEIRA FILHO, RUY
.
- VENTURA, SEOMARA DA VEIGA FERREIRA, SÉRGIO NAZAR, TERESA RITA LOPES,
.
- TERESA VIEIRA, TIAGO NENÉ, URBANO TAVARES RODRIGUES, valter hugo mãe,
.
- VERA LÚCIA DE OLIVEIRA, VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA, VICTOR OLIVEIRA MATEUS e
.
- VÍTOR OLIVEIRA JORGE.
.
- A apresentação estará a cargo do poeta e crítico literário que prefaciou a obra.
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27/09/10

" Dormiam e acordavam no teu sangue/ o único jardim a que chamavam casa. "

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Os homens vinham soprar nos teus lábios a música das folhas
e acreditavam ter nos braços a árvore onde cresceram em silêncio
durante três estações. Eram esses lábios a tuba que anunciava
a primeira morte. As pernas confundindo-se com as raízes:
nenhum escutaria de novo o chilrear das crianças
a língua dos prados tão livres de declinações.
Dormiam e acordavam no teu sangue
o único jardim a que chamavam casa.

Catarina Nunes de Almeida in "A Metamorfose das Plantas dos Pés", Deriva Editores,
Porto, 2008, p 24.
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"Um corpo sem pegadas/ é o lugar perfeito/ para o abandono. "

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Assisto à montanha
e não me apetece mais nada,
nem que o palco se ilumine
nem que me traduzam o texto.
Um corpo sem pegadas
é o lugar perfeito
para o abandono.

Catarina Nunes de Almeida in "A Metamorfose das Plantas dos Pés", Deriva Editores,
Porto, 2008, p 41.
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26/09/10

" Son aguas subterráneas/ están enfermas/ vertidas unas sobre otras, "

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"Bodegón sin voz"

Hemos llegado al origen
de estas aguas creadas por el viento
solas
de las que no brota ninguna voz.
En su interior viven plantas acuáticas
cuyos nombres desconozco,
viven impulsivas e indestructibles
junto a los peces y las caracolas.

Otra noche más
sintiendo cerca sus lenguas vegetales
la arrítmica entrada de luz.

Una rama luminosa
una figura quebrada
de transparencia infinita
permanece petrificada
flotando,
nada más se mueve.

Son aguas subterráneas
están enfermas
vertidas unas sobre otras,
las plantas no deberían estar ahí
ningún ser vivo
no hay oxígeno
no hay palabras que broten de este agua.

Julia Barella in "Aguas Profundas", Huerga y Fierro Editores, Madrid, 2008, p 32.
.

25/09/10

.
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O vinho, o leite, o mel
entre tuas pernas:

o gosto do fogo
que louco saboreio.


Gonçalo Salvado in " Corpo Todo ", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 99.
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.
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Mirei-me no lago
mas o que vi foi teu rosto.

Gonçalo Salvado in "Corpo Todo", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 51.
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24/09/10

" quiero que esta memoria silenciosa/ me devuelva a la vida. "

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"Teatro de Dunas"

En este teatro de dunas,
la silueta de CCJ centra el escenario
vestida de verdes y blancos velos
baila entre la luz y las sombras
hasta desaparecer.

Horas buscando este desierto
la pureza de sus líneas
la complejidad de sus formas
su arabesco por fin desvelado.
Si hubiera vegetación me distraería,
quiero que esta memoria silenciosa
me devuelva a la vida.

Julia Barella in "Aguas Profundas", Huerga y Fierro Editores, Madrid, 2008, p 15.
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23/09/10

" caem corpos e lugares,/ gente e coisas mais, como estilhaços e pontes."

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"Sítios, caindo"

O que abisma
é ser capaz de chorar cem vezes,
afastando os braços do corpo
porque, sem ele,
os joelhos caem no chão
e à terra tornam, tornados terra.
Ou ainda encostar os olhos às nuvens,
como estrelas que passassem pelos sentidos despertos.
Caem corpos, pelo medo,
caem mansos fogos no deserto,
caem tributos já perdidos,
caem corpos e lugares,
gente e coisas mais, como estilhaços e pontes.
Caem limos, também ondas,
a maré foi que desce e sobe pela escada
da nossa testa em sonhos.
Caem risos, mesmo gestos,
a noite invade os olhos como esconsos gatos os vãos,
escapando-se em redor, surpreendida,
caem paixões e outros tempos,
mil coisas sobre a terra escura,
as romãs e outras coisas de viver,
o homem em cuja pele adormecemos,
a luz apagada quando é tarde,
a voz quando cansada,
os dedos quando em sangue,
caem mil coisas, em pedaços,
do corpo que fazemos ambulante.
O que abisma é,
tendo fugazes os olhos,
ter olhos fugazes a relembrar as palavras,
sem pô-las de lado como coisas impolutas.
Entender o sol sobre a curva dos ombros,
afagando o que na estrada se cumpre e é imenso:
um grito, uma ruína,
uma unida janela.

Helena Carvalhão Buescu in "De onde nascem os rios", Editorial Presença,
Lisboa, 1998, pp 69 - 70.
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22/09/10

" O que abisma é ter olhos fugazes/ correndo sobre a terra "

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"Falando Pela Voz"

O que abisma é ter olhos fugazes
correndo sobre a terra
sem resgatar todos os passos,
sem pô-los de lado como coisas impolutas.
O que abisma
é esse abismo não ser de coisas que dizemos,
o silêncio não gastar o horizonte
e ser tal que a deusa oculta e expõe.

Se vozes possuímos,
porque não falar a gosto do que em viagem escrevemos?
Se olhos, recatados, foi que vimos,
porque não traçar a recta luz com que escutamos?
Se por gestos já imaginámos,
porque não falar de onde os rios bem partimos?

Sempre soubemos, no fundo, e guardámos o que
nem ao tempo fora dado conhecer:
voltar a casa nem sempre,
nem sempre é possível, como estrela.

Helena Carvalhão Buescu in " De onde nascem os rios", Editorial Presença,
Lisboa, 1998, p 25.
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21/09/10

.
ESTÁS PARA ALÉM
de ti,
.
para além de ti
está o teu destino,
.
de olhos brancos, fugido a
um cântico, algo se aproxima dele,
que ajuda
a arrancar a língua,
também ao meio-dia, lá fora.
.
.
PROJECTADO
na via de esmeralda,
.
buraco de larva, buraco de estrela, com todas
as quilhas
procuro-te,
Sem-fundo.
.
.
TODAS AS FORMAS DO SONO, cristalinas,
que assumiste
na sombra da linguagem,
.
a elas
conduzo eu o meu sangue,
.
os versos de imagens, a esses
vou albergá-los
nas veias cortadas
do meu conhecimento -
.
o meu luto, bem vejo,
corre para ti.
.
.
A MIM que me afogo
atiras-me com ouro:
talvez um peixe
se deixe subornar.
.
.
PEQUENA NOITE: quando me
levares, levares
lá para cima,
três palmos de sofrimento sobre
o solo:
.
todos os casacos mortuários de areia,
todos os inúteis,
tudo o que por lá ainda
ri
com a língua -
(...)
.
Paul Celan in "Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética", Edições Cotovia, Lisboa,
1996, pp 175 - 177 ( Tradução de Yvette K. Centeno e João Barrento).
.
Nota: o texto acima transcrito é um excerto de um dos últimos livros de Paul Celan: "A Cerca do Tempo".
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20/09/10

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"Salmo"


Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção
a ti.

Um Nada
fomos, somos, continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.

Paul Celan in "Sete Rosas Mais Tarde", Edições Cotovia, Lisboa, 1996,
pp 103 - 105 (Tradução de Yvette K. Centeno e João Barrento).
.

17/09/10

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"Elogio da Distância"


Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

Paul Celan in "Sete Rosas Mais Tarde", Edições Cotovia, Lisboa, 1996,
p 13 (Tradução de Yvette K. Centeno e João Barrento).
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16/09/10

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"Francesca da Rimini"


tudo é consumpto
e febril

a terra calcinada ascende em fuso
e à noite cai
manchando minha face e de cinza
e de rubro. rubro a que alembre
o calor do teu zelo, cinza meu luto

a corrente destes ventos o espaço desassenta
e, desfeita a minha coma e na lembrança tua
emaranhada, arrasta-me por entre os friíssimos astros

Milton Torres in "Andaimes", Ateliê Editorial, São Paulo, 2006, p 78.
.
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"Madrigal a uma negra"



a branca é chocha e não tem o teu bodum
oh Chica!
a tua bunda as sete saias enfuna
qual duas morangas inchadas da chuva.
esconde a noite a tua pele
mas acho-te pelo cheiro oh Chica
ou pl'os dentes quando ris
que mais faíscam que as faíscas mais todas
do rio

Milton Torres in "No Fim das Terras", Ateliê Editorial, São Paulo, 2005, p 146.
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15/09/10

"Espantosamente ricos e, por isso,/ espantosamente pobres."

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"Cidadãos"
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Venho de um tempo mais frio. Antes da alba,
caminhos gelados levavam sombras caladas
aos janelões sujos das fábricas.
Hoje aquelas sombras do passado
que ensurdeceram o mundo com os seus cantos
olham de dentro de mim. Nada percebem.
Contemplam, opulenta, uma miséria
que nem sabe que é miséria.
É o final de um sonho. É o momento
de democratizar a arte. Nenhuma árvore alta.
Espantosamente ricos e, por isso,
espantosamente pobres.
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Joan Margarit in "Casa da Misericórdia", Ovni, Entroncamento, 2009, p 39.
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" É a minha debilidade que te vence, "

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"Etimologias"

É a minha debilidade que te vence,
a essência mais pura do martírio.
Ao conhecermo-nos éramos tão jovens,
mas já te abri esta ferida:
uma porta por onde tu cada vez
vais mais longe e, então, voltas mais tarde.
Amor vem de um impulso,
de forçar e torturar. De cavalgar.

Joan Margarit in "Casa da Misericórdia", Ovni, Entroncamento, 2009, p 21.
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14/09/10


algures por aí deve existir um deus disfarçado de deslumbre. uma força a tremer por entre ravinas e vales objectos e neves. como se imóvel na contemplação dos raios e das tempestades fosse mais que um invisível olhar sobre a luz e a sombra. algo ou alguém que nos respira e cativa como música ou água debaixo deste céu onde somos batentes de uma janela devassada.
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algures no fim dos dias alguém nos segura. seja fio de prumo ou acerto com o sol. um corpo a comandar fulgurâncias e desvelos. espelhos vagabundos a serem mais diversos que os gestos.
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e se no intervalo o eterno é raso arraso-me. faço-me um pouco mais ao dia. que alguém não me quer ainda de cinzas. como se as palavras por dizer ainda estivessem anoitecidas. ainda.
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. que assim entenda a errante subversão de uma alegria. que assim seja o corpo dilacerado de luz e espanto na curva do fogo mais puro. que assim nos falem sem feridas nem dissipação. que assim e ainda nos acrescentem
a inesquecível incandescência do luminoso. ainda existe o original momento de ser outra vez a vez do fulgor. ainda.
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Isabel Mendes Ferreira in "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar", Arcádia,
Lisboa, 2010, p 153.
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13/09/10

"car on ne doit pas réveiller la moindre chose/ quand le soleil est en errance "


Minute sainte
emplie des adieux
du plus aimé,
minute
dans laquelle l'univers
enfonce ses racines illisibles
unie
à la géométrie des oiseaux en vol aveugle,
pentacle des vers
qui rongent et creusent la nuit
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unie au bélier
qui pâture dans son image en écho
et à la résurrection des poissons
après le mitan de l'hiver.
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De son oeil unique,
et brûlant le coeur,
le soleil cligne
et de sa patte de lion dans le fuseau
resserre et resserre le filet
toujours plus
autour des souffrants
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car on ne doit pas réveiller la moindre chose
quand le soleil est en errance
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et parti au large
de trop de nostalgie
le corps sinon meurt
abandonné
dans le visage égaré des vents.
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Nelly Sachs in "Exode et métamorphose", Éditions Verdier, s/c., 2002, p 108
(tradução do alemão para o francês de Mireille Gansel).
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12/09/10

"porque elas vagueiam como uma luz rara/ e apresentam-se com uma intensa serenidade "


As pessoas felizes são aquelas que não ignoram o mundo
porque elas vagueiam como uma luz rara
e apresentam-se com um intensa serenidade
tão hábeis e tão perfeitas.
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É limpo o coração dessas pessoas
absorvem os nossos dias loucos
e acendem inúmeras velas emocionais diante da nossa vida.
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O amor é o fósforo dos actos das pessoas felizes
e elas transportam a chama e queimam
os erros dos corações nocturnos
deixam vestígios de brilho nos sentimentos vazios
em cada passo de luz sobre um rosto desconhecido.
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Fernando Esteves Pinto in "Área Afectada", Temas Originais, Coimbra, 2010, p45.
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" Linguagem devorante em fuga/ sobre um invisível caminho. "

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Também este silêncio está como que ausente
quando recomeço a leitura dos teus lábios.
Aqui, no limiar da pele, sou a única palavra
que arde em ti uma língua cheia de cantos e silêncios.
O poema és sempre tu:
corpo de luz frutífera
árvore acolhedora no peito das palavras.

Linguagem devorante em fuga
sobre um invisível caminho.

Fernando Esteves Pinto in "Área Afectada", Temas Originais, Coimbra, 2010, p 31.
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11/09/10



Sinto-a presa a mim.
Que posso fazer?
Afasto-a rudemente,
mas ela volta.
Toca-me o braço,
mas eu insulto-a.
Roça-me devagarinho o cabelo
- qual mestra de todas as seduções -
e eu praguejo.
Canta, zumbe, volteia...
Feiticeira extenuada
olha-me languidamente
através do espelho.
Sim, não me restam quaisquer dúvidas:
está presa a mim!
- Ó pobre mosca sofredora
a janela é do outro lado!

Victor Oliveira Mateus

10/09/10

" Sabré de mí mientras mantenga vivo/ ese lúcido espacio de claridades/ que comparto con el desconocido "


"Noche Alta"
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De este silencio sin angustia me sé
deudor, y no me duele ni espero respuesta.
Tampoco me atrevería a preguntar.
Todo lo que me da la noche alta es cálido
y me entusiasma, porque el presente recula
y se diluye como una sombra de la sombra.
Aquello que sólo puedo decir en voz baja
resuena en el tiempo, a pleno misterio.
Con los dedos llenos de noche repaso
todos los rostros posibles, hasta que un gesto
toma forma en mí, coloreado
por la añoranza y el deseo. Perdidos reinos.
Sabré de mí mientras mantenga vivo
ese lúcido espacio de claridades
que comparto con el desconocido
generoso y fiel que me acompaña.
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Miquel Martí i Pol in "Después de Todo", DVD ediciones, Barcelona, 2002, p 57 (edição
bilingue, tradução do catalão para o castelhano de Carles Duarte e Emili Suriñach).
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" Mirar a la vida cara a cara es un/ recomendable y prudente ejercicio/ de humildad..."

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"A Modo de Exordio"

Cualquiera de nosotros, perdedores
irreverentes y lúcidos, y también
cualquiera de ellos, los otros, instalados
en castas de poder y privilegio,
una mañana cualquiera, desde la triste
permuta del espejo, podemos sentirnos
exiliados sin salir de casa.
Y qué haremos, entonces? Invocaremos
leyes y preceptos? Pediremos cuentas
a los descreídos? Renegaremos de los dioses?
Así se expresa el tiempo, sin ningún tipo
de impiedad, y bueno es saberlo y decirlo
para probar de vivir con los sentidos
y los sentimientos en perpetua vigilia.
Mirar a la vida cara a cara es un
recomendable y prudente ejercicio
de humildad, una activa y discreta
conspiración que nos acerca a aquel núcleo
tan olvidado de nosotros mismos
en el que a veces es duro descubrirse.
Crecer es también saber que la tristeza
e incluso la afrenta no son, por suerte,
exclusiva de los viles, sino un grotesco
patrimonio de todos, y que por los ojos
de los marginados, de los pobres, de los vencidos,
se nos va a todos el gozo de vivir
armoniosamente y con alegría.

Miquel Martí i Pol in "Después de Todo", DVD ediciones, Barcelona, 2002, pp 41 - 43
(Edição bilingue, tradução do Catalão para o Castelhano de Carles Duarte e Emili Suriñach).
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09/09/10


"Madrigal"
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Foi milagre? Ideia louca.
Mas que mais posso dizer
Desta profunda alegria
De ver a alma aparecer
No riso da tua boca?
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Ainda se fosse a tua,
Entendia,
Mas a minha que faz lá?
Parece um caso da lua
(Tais coisas não são de cá)
Andar-me a alma contigo:
Foi milagre. Bem o digo.
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José Saramago in "Provavelmente Alegria", Editorial Caminho, Lisboa, 1985, p 93.
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          " Noite Branca "


Sírio brilha no alto. Sobre o rio
O silêncio do fundo se difunde.
As colunas doiradas que sustentam
A terra luminosa, como estátuas sagradas,
São labaredas de água.
Duas sombras perdidas na fogueira,
Dois murmúrios de mágoa.
Esta hora é nocturna e verdadeira:
Sírio julga do alto, enquanto as sombras,
Confundidas de espanto e de miséria,
Se calam para ouvir nas águas calmas
A palavra e o canto.

José Saramago in "Provavelmente Alegria", Editorial Caminho, Lisboa, 1985, p 82.
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         " Como um vidro estalado "


Como um vidro estalado. A quem me ler
Não direi, já agora, se esta imagem
Vem serena dos ramos que perderam
As folhas contra o céu, ou se mastigo
Qualquer raiva escondida.
Como doendo, ou sendo, ou mastigando,
Sejam rendas aéreas, alma ferida,
Fecho, brusco, o poema onde não digo.

José Saramago in "Provavelmente Alegria", Editorial Caminho, Lisboa, 1985, p 62.
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08/09/10


É lícito me dizeres, que Manan, tua mulher
Virá à minha Casa, para aprender comigo
Minha extensa e difícil dialética lírica?
Canção e liberdade não se aprendem
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Mas posso, encantada, se quiseres
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Deitar-me com o amigo que escolheres
E ensinar à mulher e a ti, Dionísio,
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A eloquência da boca nos prazeres
E plantar no teu peito, prodigiosa
Um ciúme venenoso e derradeiro.
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Hilda Hilst in "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão", Editora Globo,
São Paulo, 2003, p 65.
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