07/07/10

" Religando tudo/ Quase tudo "

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"Poeta"

Crivado de mortes
Pessoais e outras
Prossegue
Fantástica-
Mente
Religando tudo
Quase tudo

Alberto de Lacerda in " Átrio ", Imprensa Nacional - Casa da Moeda,
Lisboa, 1997, p 126
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06/07/10

" Eu não ia/ ainda/ partir "

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Não te disse
Vou partir
Eu não ia
ainda
partir
Ia reunir
meus destroços
desencalhar
Meus barcos abandonados
Ia esgueirar-me
erecto
para que as ruínas
Nos não ferissem mais
nunca mais
Sobretudo a ti
ou a mim
Não sei

Aceitar o escuro
sim
Também ele é nosso
Também o escuro
É natureza
natural
Mas de uma vez para sempre
Impedir que os abutres
Nos confundam com a carne
Que os campos de batalha
Rasgaram

Alberto de Lacerda in " Átrio ", Imprensa Nacional - Casa da Moeda,
Lisboa, 1997, p 16.
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Matilde Rosa Araújo (1921 - 6/7/2010)


05/07/10

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      " Partida "
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Quando parti ninguém apareceu à beira da pista.
Quando parti as viagens eram coisa simples e banal,
e não este desejo de procurar um sentido para
a mágoa, uma clareira para a ausência, uma fonte
- minúscula que fosse - para saciar aquilo que
se mantém ininterrupta sede. Quando parti estavam


todos atarefados a viajar, mas de outro modo -
voracidade de prestamistas, esbugalhados olhos
onde o tempo é tão transaccionável quanto um futuro
hipotecado ou uma mera jante enferrujada. Quando
parti tiveram logo o cuidado de me avisar que a poesia
nunca salvara ninguém, que a procura das raízes


(bem como o entendimento de um passado não
acontecido) era coisa tão ridícula quanto obsoleta,
para o sorriso alvar de muitos. Quando parti
a buganvília da moradia em frente estava esplendorosa
e havia um gato a furar a rede. Quando parti
uma mulher no prédio ao lado sacudia um minúsculo


tapete. Acenou-me. Sorriu. Quando parti imaginei
o escárnio deles, os telefonemas de uns para
os outros, as conversas. Quando parti ninguém
apareceu para se despedir. Havia apenas: eu,
um obectivo incerto, o teu rosto a reflectir-se
ao longe e o sol a dar de chapa nas vidraças.

Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 12.
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30/06/10

" Ó fulgida visão, linda mentira! "

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Singra o navio. Sob a agua clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impeccavel figura peregrina,
A distancia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr de rosa,
Na fria transparencia luminosa
Repousam, fundos, sob a agua plana.

E a vista sonda, reconstrue, compara.
Tantos naufragios, perdições, destroços!
Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivem desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

Camilo Pessanha in "Clepsydra", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
1995, p 111 ( Estabelecimento de texto, introdução crítica, notas e
comentários por Paulo Franchetti).
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29/06/10

" Como a onda na crista d'um rochedo. "

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"Estatua"

Cancei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem côr, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d'um rochedo.

Segredo d'essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu labio oscular, n'um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu osculo ardente, hallucinado,
Esfriou sobre o marmore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...

D'esse labio de marmore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Sereno como um pelago quieto.

Camilo Pessanha in "Clepsydra", Relógio D'Água Editores, Lisboa,
1995, p 85 ( Estabelecimento de texto, introdução crítica, notas e
comentários por Paulo Franchetti).
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28/06/10

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Amor, juventude, ledas palavras,
o que é que sobre vós resplandece e vos seca?
Fica um cheiro a merda seca,
ao longo das sebes pesadas de sol.

Sandro Penna in "No Brando Rumor da Vida", Assírio & Alvim, Lisboa,
Lisboa, 2003, p 131 (Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo).
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27/06/10

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Il mio amore è furtivo
como quello di un povero.
Ognuno può rubarlo.
Ed io dovrà lasciarlo.

Per ciò, fiume silente,
per ciò, mio dolce colle,
io non posso chiamarlo
amor semplicemente.

Ma tu, colle dorato,
e tu, mio fiume molle,
sapete che il mio amore
davvero è un grande amore.

Il pericolo odiato
per adesso non c'è?
Ma voi sapete, amici,
che nel mio cuore è.

Piangere mi vedrete,
o voi sempre felici,
non come piango già,
non di felicità.

Sandro Penna in "No Brando Rumor da Vida", Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 40.
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25/06/10

"Pertenezco también a esa región, lo sabes,/ que humedece las horas/ cuando busco tu mano."

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"Todavía el Invierno"

Ahora no recuerdo muy bien en qué momento
este calor abrió, de pronto, los armarios
y transformó el invierno
en un lugar antiguo.

Se habla del frío como de un pasado incómodo
que acumula desusos:
todo eso que no cabe en los cajones
y queda a la intemperie
como cualquier presencia repentina
entre las calles. Hablo de nostalgia,

de como, de repente, mientras tomo café
y repaso las notas
de la proxima clase,
un golpe de aire brusco me devuelve
a la ropa de abrigo,
al cuarto que oscurece a las seis de la tarde
bajo una intimidad de luz incandescente
y radiador en marcha.

Vengo de allí. La ropa ligera, las sandalias
descubren esas manchas que diciembre
deja sobre la piel
cuando se hace recuerdo su paisaje.

Regreso,
porque el tiempo no suele cerrar bien las heridas
que mitiga la noche
en su trampa de ruidos y penumbras,
no recuerdo la fecha,
o esconde la cadencia del día que demora su final.

Pertenezco también a esa región, lo sabes,
que humedece las horas
cuando busco tu mano.
Por eso vuelvo, porque tengo miedo
de olvidar lo que soy
cuando tú hayas partido.

José Ángel García Caballero in "Llaves Olvidadas", Editorial Renacimiento,
s/c, 2010, pp 19 - 20.
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24/06/10

" hei-de traçar por extenso/ a curva do descaminho. "

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"O Verão estava a acabar."

Mensageiro da promessa
extraviada, os olhos
do mais indeciso azul
que conheci. Alguma vez
hei-de traçar por extenso
a curva do descaminho.

Foi talvez aquele beijo
a meia praça ou o acaso
de fumares tabaco negro.
Por dentro das ruas
quietas, o eco de uma voz
que mal se ouvia:

estamos todos tão sós
em toda a parte

e é quase dia.


Rui Pires Cabral in "Oráculos de Cabeceira", Averno, s/c, 2009, p 22.
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22/06/10

" Se acordava, logo vinha ter com ele/ a mesma dor, como um animal "

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"I was entirely insular."

Horas a fio cercado de angústia
por todas as partes. A noite era vária
e trazia pela mão os bebedores,
seus prometidos. Nos sonhos via,
recorrente, um sino que oscilava
sem ruído e a aldeia estranhamente

abandonada, quatro ruelas entregues
ao espanto de um meio-dia infinito.
Se acordava, logo vinha ter com ele
a mesma dor, como um animal
sedento de atenção e companhia.
Era um estado de renúncia

e nenhum verso o aproximava já
de si, mas de alguém desconhecido
entre corpos que passavam,
desconhecidos também, todos eles,
desde o primeiro. Não tinha
com quem falar, nem saberia dizer

como pudera perder-se
de tudo quanto amara e conhecera.
E ao começo do verão quase se deixou
vencer, sentado no seu exílio
a olhar para os telhados, lá em cima
onde o silêncio o sequestrava.

Rui Pires Cabral in " Oráculos de Cabeceira ", Averno, s/c, 2009, p 18.
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21/06/10

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"Separação de Abraão e Lot (Gn 13)"


Se fores pela direita
Olharei em redor
Se fores pela esquerda e descansares
Olharei em redor

O meu olhar há-de acompanhar-te
Como a poeira à volta dos teus pés

Se desceres à planície
E fizeres a tenda com o véu da mulher
Não desviarei o olhar
Não dividirei a túnica

Se fores pelo centro de ti mesmo
Tactearei
Abrirei a mão e estarás próximo
Basta respirares
E olharei em redor

Daniel Faria in "Poesia", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2003, 153.
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20/06/10

" a grande muralha ofegante das corolas somos nós. "

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para sete homenagens
esmago um saco de botões
most queens têm sempre uma bicicleta como último lance pensado
não me lembro que morra precipitadamente entre as veias
they were designed and impressed
but unpleasant to the eye
las fronteras de países imaginarios
verde sobre
os teoremas inquinados
os dias varados e escarlates de língua
yo hambre, yo no casa.
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ars can be successful
sempre que a pintura seja um pouco sôfrega-corpo-todo
uma nêspera estrita e mínima.
talvez se o cabelo nu em qualquer mão seja vidrado
e as fibras do avesso.
seja um moroso sistema com frases
os movimentos das costas da tartaruga enquanto morte
- maybe it's
movable types
shortened labour
and cashmere
uma primeira palavra
e nenhum écran
o truque rítmico
das ameixas profundas
: quero dizer
voltear o holograma
que assoprado
que.
os focinhos somados ao corpo.
e é hemisférico
a grande muralha ofegante das corolas somos nós.
&
to the eye
cannot be successful.
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cristina néry (14/04/2010)
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19/06/10

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Por isso, não me pergunto tanto por que razão me entrego ao abandono, mas sim por que razão escrevo sequer. Porque não é fácil escrever, exige um esforço terrível e provavelmente inútil. Obriga-nos a recordar, e ainda que nunca possa livrar-me nem por um momento das recordações, nem eu nem aqueles que partilham o meu destino, gostaríamos ao menos de ser poupados a esse conhecimento. Afinal, estamos já acostumados à condição singular deste país: nunca somos livres, não somos "nós próprios", o desconhecido torna-se mais forte do que nós e leva-nos a estranhar o nosso próprio coração.
A esta condição começamos por chamar "viver experiências fortes". Somos expostos à paisagem desmedida, às suas cores esplêndidas e formas puras, à sua singularidade imperial. Observamos modos de vida estranhos, com curiosidade primeiro, depois com aversão. Mas como esta aversão se esbate, isso já não sabemos.
Com uma risada, os mais fortes enxotam para longe estas tentações, que se insinuam como doenças. Os mais inteligentes voltam para casa a tempo. Mas muitos de nós somos fracos, e eu estou "entre os mais fracos".
Escrevi muito acerca desta terra, de modo objectivo e sem nunca me aproximar demasiado. Donde vem então este impulso amargo para a confissão? Não poderei simplesmente confiar nos meus amigos? Não sabem eles também como é viver aqui, não poderão eles ajudar?
Contudo, por estranho que pareça, evitamos chamar estas coisas pelos nomes. Falamos muitas vezes da Pérsia, e sem dúvida que vale a pena conversar sobre os seus muitos tesouros e curiosidades. Mas quando alguém tem saudades de casa, não fala delas - e este é apenas o primeiro estádio do sofrimento.
(...) Os anjos são demasiado fortes e caminham com pés invulneráveis, mas os homens não querem pedir nada a ninguém, não sabemos ao certo qual é o ponto vulnerável dos outros, talvez seja o nosso? E assim se espalha o silêncio. A esta propagação do silêncio chamamos "endurecer"...
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Annemarie Schwarzenbach in " Morte na Pérsia", Edições Tinta-da-China, Lisboa,
2008, pp 86 - 87.
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18/06/10

José Saramago ( 16/11/1922 - 18/06/2010)

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Deu naquelas palavras clara mostra o arcebispo de Braga de saber que Deus e Alá é tudo o mesmo, e que remontando ao tempo em que nada e ninguém tinham nome, então não se encontrariam diferenças entre mouros e cristãos senão as que se podem encontrar entre homem e homem, cor, corpulência, fisionomia, mas o que provavelmente não terá pensado o prelado, nem tanto lho poderíamos exigir, tendo em conta o atraso intelectual e o analfabetismo generalizado daquelas épocas, é que os problemas começam quando entram em cena os intermediários de Deus, chamem-se eles Jesus ou Maomé, para não falar de profetas e anunciadores menores. Jé é muito de agradecer-lhe que vá tão fundo na via da especulação teológica um arcebispo de Braga armado e equipado para a guerra, com a sua cota de malha, o seu montante suspenso do arção da mula, o seu elmo de nasal, quiçá não lhe permitam as mesmas armas que leva chegar a conclusões de humanitária lógica, pois já então podia ver-se até que ponto os artefactos de guerra podem levar um homem a pensar diferentemente, sabemo-lo hoje muito melhor, embora ainda não o suficiente para que retiremos as armas a quem, no geral, delas se serve como único cérebro. Porém, longe de nós a intenção de ofender estes homens ainda pouco portugueses que andam a combater para criar uma pátria que lhes sirva, em campo aberto quando for necessário, pela traição quando convenha, que as pátrias foi assim que nasceram e frutificaram, sem excepção, por isso é que, tendo caído em todas, pode a nódoa passar por adorno e sinal de mútua absolvição.
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José Saramago in "História do Cerco de Lisboa", Editorial Caminho, 1989, pp 202 - 2o3.
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17/06/10

"não é por se negar o fumo que se apaga o fogo." (p.138)


É minha firme opinião, que a Isabel Mendes Ferreira, para além de uma excelente artista plástica - representada em várias colecções particulares, na Europa e nas américas, é a nossa melhor Poeta contemporânea. Já o disse, redisse, escrevi e rescrevi, que "ler Isabel Mendes Ferreira é como assistir ao descerrar de auroras, cantando e reinventando palavras de diferentes paladares por detrás dos fiapos da memória e da respiração das manhãs", e continuarei a dizer e a escrever o mesmo, enquanto não aparecer no actual panorama literário português, alguém que altere esta convicção, formada desde o dia em que a descobri e de que não esqueço a forte impressão que senti ao lê-la: uma pedrada na "modorra" instalada.
Ninguém actualmente escreve como a Isabel Mendes Ferreira: nem com a profundidade nem com o estilo, nem com a qualidade que lhe advém do domínio absoluto da escrita e de um jogo de palavras soberbo.
Como se pode ler no posfácio, "O sentido ambíguo da sua escrita, converte-se no que o excede e onde ser o mesmo é ser outro de si (é outrar-se, como diz Fernando Pessoa), o que apela à desconstrução do discurso tradicional".
Para mim, é pois, extremamente gratificante falar do novo livro de uma escritora e poeta, despojada de falsas crenças da unidade da consciência identitativa, de uma escritora que transporta os verbos que ainda não estão corroídos, prevertidos, subvertidos, gastos, e que com ela voltam fantásticos, imortais, castos e vestidos de denso sentir.
Este, o seu décimo terceiro, é um livro que me fascina, aprecio-lhe o cheiro das areias do deserto e a cor do cair da noite quantas vezes ruborizada de pudor e aureolada de luminosidade divina, um livro para ler e reler, uma instância de retemperação. Um livro com chancela da Arcádia, onde voltaremos amiúde e que está a partir de hoje à venda em todas as livrarias Babel.
"As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar", integra uma novíssima colecção de poesia, iniciada por David Mourão-Ferreira e onde é o terceiro título.
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José Pires F
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16/06/10

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"Plenitude Solar"


Quando eu era só
um quarto escuro e tu vieste, abrindo
de imediato as persianas, nenhum indício
me prevenira para a súbita abundância de luz.
Eu era só um quarto escuro, uma divisão esconsa
onde nem as crianças entravam à descoberta
dos espaços ocultos.

Quando tu vieste,
envolta numa luminosidade
de horizontes dispersos, fazia ainda frio
e tudo era inerte ou temeroso.

Como poedria eu, logo então,
partilhar contigo a plenitude solar?

Paulo Tavares in "Minimal Existencial", Artefacto, Lisboa, 2010, p 48.
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15/06/10


Apresentação do livro "Minimal Existencial", Lx 8/6/2010.

Foto da direita: uma panorâmica do espaço da Guilherme Cossoul onde ocorreu o lançamento.
Foto da esquerda: António Carlos Cortez, Paulo Tavares e Luís Lucas.
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"Depois da Noite"
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Depois da noite,
ou apenas do seu indício,
surge a voz rouca dos bosques e das marés,
comprimida pela agonia do abandono.
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Em desespero,
procuramos por entre a vegetação
onde plantámos
pequenas sementes de quasares
um momento elástico que brote da terra,
se prolongue pelas eras
e nos sutenha para sempre
no útero inviolável das promessas.
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Perseguimos a bonança
onde hoje restam espaços inabitados
e matizes repetidos: árvores nuas
na penumbra da solidão,
caminhos áridos desembocando
em novas encruzilhadas.
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Paulo Tavares in "Minimal Existencial", Artefacto, Lisboa, 2010, p 42.
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14/06/10

" ensaio a descoberta/ de uma nova clareira "

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Porque a maturação dos frutos
permanece e só importam
as coisas certas porque simples

como o dourado da luz
na medula dos teus olhos

ensaio a descoberta
de uma nova clareira
onde a vida não seja só
uma após outra morte.

Rute Mota in "Nenhuma palavra nos salva", Livrododia Editores,
Torres Vedras, 2007, p 44.
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13/06/10

" para que não me esqueça "

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Hei-de marcar-te, tatuar-te,
se necessário magoar-te
- desde que te marque -
para que não me esqueça
e sempre te reconheça
como aquele que desconheço.

Rute Mota in "Nenhuma palavra nos salva", Livrododia Editores,
Torres Vedras, 2007, p 9.
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10/06/10

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No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...
Este pequeno universo provinciano entre os astros.
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) in "Poesias", Edições Ática, Lisboa, 1980, p 88
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09/06/10

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"Poema 10 do ciclo Café de Subúrbio"


Usa um brinco na orelha,
Pulseiras e colares de cor,
Cabeleira em cocar de pele-vermelha
E o uniforme punk de rigor.

Transpira droga, violação, violência,
As sangrentas sevícias contra quem o provoque,
Uma moto feroz numa veloz demência,
Roubo, assalto, assassínio... e o ritmo rock.

Tem aos pés uma caixa negra, inquietante.
(Instrumento musical? Arma de fogo?)
Fixa-me num olhar vago, distante...
Em que pensa (se pensa)? Anda-lhe um golpe em jogo?

Para mais, o café está quase vazio.
Quando o empregado se aproxima dele,
Sinto o temor de um arrepio
Na pele.

Numa voz de contralto (que surpresa!)
Pede um "caracol" e um leite quente.
Depois, começa a ler, cotovelos na mesa,
Uns comics do Disney. E ri perdidamente!

António Manuel Couto Viana in "60 Anos de Poesia" - Vol. II, Imprensa Nacional -
Casa da Moeda, Lisboa, 2004, p 119.
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António Manuel Couto Viana (24/1/1923 - 8/6/2010)

. Na última visita, eu não quis subir para não o fatigar. Desceu ele, acompanhado pela Alice Fergo que o ajudava. Fiquei embaraçado com a delicadeza, coisa a que nos vamos desabituando já. Ficámos os três à conversa. Ainda me ri com uma estória que ele contou sobre o Junqueiro. Recitou de cor alguns poemas... e não apenas seus. Disse-lhe, quase a medo, que chegáramos a participar numa mesma Antologia. Ele lembrava-se. Ao fim da tarde eu e a Alice saímos prometendo voltar, coisa que andávamos a pensar fazer. O que já não vai ser possível. Mas ainda me recordo das palavras dela quando entrávamos no carro: -" eu não te digo que ele é extremamente culto... e um gentleman?".
Hoje, no lançamento do livro do Paulo Tavares, fiquei grato ao António Carlos Cortez, por ter dedicado a sua apresentação, não só ao Paulo, mas também ao Couto Viana. Outro gesto bonito - também!
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08/06/10

Quando o xá, algumas semanas antes, proibiu o kula pahlavi - baptizado com o seu nome - e recomendou em seu lugar o uso de chapéus europeus, autorizando ao mesmo tempo que as mulheres deixassem o chador e saíssem para a rua sem véu, houve aqui e ali notícia de agitações, sobretudo nas cidades sagradas. O kula era um boné de pala bastante desengraçado, feio mesmo, que dava aos homens um ar de escroques e vagabundos, mas que ainda assim permitia virar a pala para a nuca e seguir o preceito de tocar no chão com a testa durante as orações, sem descobrir a cabeça, Isso era impossível com chapéus europeus - um chapéu de feltro, um chapéu de cco, um panamá -, e por isso os mulás, acreditando que chegava a hora, faziam as suas prédicas em reuniões secretas ou em público, no adro das mesquitas.
Os jornais falavam do júbilo com que o povo recebia esta novidade da civilização, e os ministros e governadores das províncias ofereciam jantares onde as esposas convidadas teriam de se apresentar sem chador. A multidão apertava-se à entrada para ver o espectáculo dos fiacres que chegavam e donde desciam as senhoras, confusas e profundamente envergonhadas. Durante a refeição, os criados faziam desaparecer no guarda-roupa os kulas dos convidados que, quando deixavam os seus anfitriões e para não terem de regressar a casa com a cabeça descoberta, compravam um dos chapéus faranghi, os chapéus estrangeiros, que tinham à sua disposição. Uma organização exemplar, ocidental mesmo! Pedro, o Grande, não fizera melhor para privar os boiardos das suas barbas asiáticas! Estas barbas perduraram por mais tempo na Pérsia. Por outro lado, os diplomatas iranianos estão agora autorizados a apresentar-se de bicorne, que por sua vez foi introduzido no Ocidente progressista no tempo da Revolução Francesa(...). Na Hungria, para terem assento no Parlamento e darem provas do seu patriotismo, os magiares têm de deixar crescer longos bigodes e de passar as pontas por brilhantina, de maneira que elas se mantenham ousadamente reviradas. Mas onde irá o xá encontrar um modelo para a introdução dos bons velhos direitos do homem?
(...) Foram os dias mais quentes do Verão persa. Os jardins em Shemiran, cercados por muros demasiado altos, cheios de vegetação demasiado densa, eram quentes e abafados como estufas. Os mosquitos enxameavam os lagos de águas chocas. Tive malária pela segunda vez. À noite, o ar lá fora arrefecia um pouco, mas a febre subia. Quando pude sair novamente do jardim de casa, as cercanias de Teerão estavam calcinadas. Os jardins de Shemiran eram duas ilhas escuras no amarelo monótono e leproso. À minha frente, na estrada, seguia um jovem oficial, os sapatos e as polainas brancas do pó. Trazia uma pasta e uma caixa com o capacete. Encostei o carro e deixei-o subir. Ele sorriu, o suor corria-lhe pelo rosto queimado.(...) A grande praça de Tedrzriz estava vazia, tirando uns poucos fiacres com os seus cavalos brancos e famintos que pareciam anestesiados à torreira do sol.(...) Sombras e escuridão caem sobre mim como ondas. O cheiro a fresco, da terra, das folhas, uma álea e as raízes das árvores que rompem o caminho e forçam o carro a derrapar quando se tenta fazer a curva em grande velocidade. Subo sempre em terceira até diante da casa! Deixo o carro à sombra, saio, corro pelo alpendre branco, passo as portas duplas feitas de um mosquiteiro fino. Da sala chega o som de um piano. Zadikka ainda está a praticar, penso eu, aqui continua tudo igual - e respiro fundo, depois do medo inominável durante a viagem ao longo da terra aberta, exausta e transfigurada pelo sol.
(...) A irmã mais velha de Zadikka está ao pé de mim, deitada à sombra de uma grande árvore. Trouxeram-nos almofadas e água tão gelada que os copos ficam embaciados.
- Vou-me embora - disse eu.
- Vais ter com os teus amigos ingleses?
- Sim. Vou para o acampamento deles, no vale de Lar.
- Quando?
- Amanhã.
Ficámos em silêncio por um momento. Ouvíamos os gritos que chegavam do campo de ténis, a batida seca das bolas.
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Annemarie Schwarzenbach in " Morte na Pérsia", Tinta da China Edições, Lisboa,
2008, pp 18 - 22.
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07/06/10

" El viaje no termina en estas playas "

"Acantilado"

Mas recuerda triste alma
cansada que aún puedes trocar - como
pidió Montale - en himno
la elegía. Sentir un loco urgir
de voces entre perfumes
y vientos: Renacer
en el sol que te inviste - Oh
acantilados abruptos
que roen las mareas, agonía
que jadea en cada ser:
Una urgente floración de cardo
y trébol rojo - árida luz bajo el delírio
de la tierra, que aún te llama.
O el salvaje espliego
entre retamas olorosas a esperma renovada
que te acosa. Tiende
la mano hasta ellas - sumergida
vida, sólo tuya por ahora:
El viaje no termina en estas playas
mientras alguno
a quien amaste aguarde cara al viento - roto
de esperanza,
sobre otro acantilado.

Miguel Veyrat in "Razón del Mirlo", Editorial Renacimiento, s/c, 2009, pp 54 - 55.
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06/06/10

" (...) O teu nome/ é um marco - mas, insistentes,/ apagam-no o vento e as marés. "

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"Ítaca"

Nunca hubo jardín. Tu nombre
es laberinto y la patria
perdida el hilo roto de tu hija
Adriana que el viento trae
y aleja, uncido ao ritmo
entrecortado de lo vivo: Barre
las hojas de la especie
en tanto que tu pierna
herida de Rimbaud enhebra
de nuevo el camino
de regreso. Nunca hubo jardín
ni patria conocida. Tu nombre
es estela - y lo borran
constantes el viento y las mareas.

Miguel Veyrat in "Razón del Mirlo", Editorial Renacimiento, s/c, 2009, p 16.
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05/06/10

" Tudo teve um sentido porque tu/ ditaste as regras da História."

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Francisco José Martínez Morán traduzido por Victor Oliveira Mateus: o poema Omnia Tibi de
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"Tras la puerta tapiada", Ediciones Hiperión, Madrid, 2009, p 59 :
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Por ti levantar-se-ão as cidades,
alargar-se-ão as pontes, desenhar-se-ão
os caminhos, as estradas, os jardins.
Em tua honra, estes olhos conhecerão
a ordem e a ruina dos anos
e o passo indiferente das chamas.

Tudo teve um sentido porque tu
ditaste as regras da História.

O mundo é um reflexo do teu corpo,
uma cópia - em esboço - do teu rosto.
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04/06/10

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As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria in "Poesia", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2003, p 122.
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03/06/10

João Aguiar (1943 - 2010)


Faleceu João Aguiar. Da sua vasta produção literária, e de tudo o que dele li, sublinharei
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apenas os títulos que mais me marcaram: "O homem sem nome", "O trono do Altíssimo",
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"O navegador solitário", "A hora de Sertório" e "A voz dos deuses".
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02/06/10

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Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

Daniel Faria In " Poesia ", Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2003, p 39.
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30/05/10


                 "Sobre navios e navegantes"


Onde quer que se imagine, em Banguecoque, Dublin, Valparaíso, é sempre tempo de navegar. Parte-se apenas com a roupa do corpo por noites a fio em direção ao mar. Cada aventura tem seu preço. Você paga pela viagem com o seu desespero e segue para o norte, emigrante. Eu pago com a minha fé e vou para o sul, quase náufrago. Você chegará muito cedo e eu talvez tarde de mais. Podemos também estar juntos, debruçados sobre o mesmo convés e, no entanto, eu não vejo o que você vê, o meu destino não é igual ao seu. Há quem navegue só para chegar, oh Senhor, perdoai-os, eles não sabem o que fazem. Uns que vão toda manhã ao porto para ouvir o apito da partida, sem coragem de embarcar. Existem ainda os passageiros clandestinos, que viajam em surdina para jamais serem notados. E os que se deixam socorrer à deriva, abraçados à costela de um bote, e que agora, a bordo de um transatlântico, redescobrem o mapa das águas. E os marujos, como esquecê-los? Esses vivem permanentemente entre dois continentes, guiando-se pelas estrelas, medindo a longitude no vento, surpreendendo em toda nova jornada sua primeira jornada. Algumas distâncias são curtas, mas leva-se uma eternidade para atravessá-las. Outras não exigem mais do que um espírito de ilha, descentrado, selvagem e solitário que as torna memoráveis. As condições de viagem não devem ser ignoradas: mudanças de rota, variações de clima, quão viçosa ou antiga a embarcação se mostra, tudo isso influi no prazer do itinerário. Cruzar o horizonte debaixo de um temporal não será o mesmo que velejar sob o sol. Pode o trajeto ser retilíneo, sem grandes acontecimentos nem sobressaltos, e o navio ser ele mesmo este grande acontecimento, este sobressalto. E pode o navio pretender visitar lugares extraordinários com uma velocidade de 30 nós, abrigando em todo o seu comprimento mais de mil tripulantes, e a meio do caminho o casco se abrir e tudo afundar de um só golpe. Em qualquer canto do mundo eles esperam. Na crista do armário, no estaleiro da gaveta trancada à chave, na vasta esplanada de uma estante, lá estão eles, a postos. Como os anos são breves e como o dia é longo! - até que algum rio venha movê-los, tirá-los da margem. Alguém que, num simples gesto de mãos, será capaz de lhes devolver o oceano.
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Mariana Ianelli in " um rio de contos - Antologia Luso-Brasileira" (Org. Celina Veiga de Oliveira e Victor Oliveira Mateus), Editorial Tágide, Dafundo, 2009, p 178.
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29/05/10

"a indisponibilidade dos bichos colhidos (...) e guardados... "


Os navios são títulos podres nos dentes a mar
gos
e a vigência dos dentes são incorporações e
s
cotilhas pelas small daily things c ya
.
a indisponibilidade dos bichos colhidos no
final das petulâncias e guardados em
pérgulas pela cabotagem dos pomares
oblíquos
deixa as maçãs polpudas
a improvisar brancas de neve insufláveis
em alto teor de vermelho
.
Rita Grácio in "Livro de Cabeceira", IV Bienal de Poesia de Silves, 2010.
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27/05/10


" - o contra senso "
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dizem que os poetas
descem as escadas argênteas e sabem.se a par e
passo
com os astros que gravitam
na placidez do afago de uma mão
dizem que
se movem em passos uniformes ditados pela lei da
gravidade
como as estrelas cujas constelações se igualam no
brilho e
se atraem na dança cúmplice do verbo
quais formigas que estabelecem comunicações
utilizando as antenas para conspirar
são pequenas partículas de um campo minado
onde as deusas e os demiurgos gostam de copular
ninguém se divide por zero -
afirmam os matemáticos
- quem sou eu para os desmentir?
um argopoeta que entra na dança para contradizer
os deuses
um contra senso
um arrepio exponencial que
tange a harpa de Thales
.
em silentes acordes
concebidos a um ritmo incerto e numa só dimensão
.
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Gabriela Rocha Martins in "Livro de Cabeceira", IV Bienal de Poesia de Silves, 2010.
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Nota - As minhas desculpas à Gabriela, mas não me foi possível
colocar à direita o 1º e o 6º versos, tal como ela tem no original.
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25/05/10

"Cantaste?! Pois agora dança!"

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"A cigarra e a formiga"

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

"Amiga" - diz a cigarra -
"Prometo, à fé de animal.
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta
Nunca dá, por isso junta:
"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: " eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
"Oh! Bravo! - torna a formiga -
"Cantavas? Pois dança agora!"

Jean de La Fontaine (Tradução de Bocage), Editora Brasil América,
Rio de Janeiro, 1985.
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24/05/10

"Y, sin embargo, qué perseverancia "


"Oficio de ebanista"
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El furor de escribir tarde tras tarde,
esa tarea vana
que nadie te encomienda,
y que nadie le importa demasiado.
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Y, sin embargo, qué perseverancia
sostiene el andamiaje de tus letras,
cuántas veces te has dicho entre los labios
los versos que querrías componer.
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Francisco José Martínez Morán in "Tras la puerta tapiada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2009, p 21.
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21/05/10

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"Emaranhado"


Muitas vezes
Já se sabe
Que se joga na inanidade do Jogo
O que não nos abriga de todas as aflições.
Por vezes,
Procuram-se as forças iniciais
Julgando-as como não aprisionadas
E o consciente segreda-nos (prudentemente)
A não gritar
Alto
O desamparo.

Teresa Vieira in "De Nada Novo", Dinalivro, Lisboa, 1996, p 40.
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20/05/10

" quem fui quando passei/ aqui tão longe (...)? "

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"Quem"

quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?

quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?

quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?

Helena Parente Cunha in "Além de estar", Imago Edª Lda,
Rio de Janeiro, 2000, p 169.
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19/05/10

"De que, nos gostos seus, que são de vento, "


" Do desejo "

Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que pera descansar parte me seja?

Já sei como s'engana quem deseja,
Em vão amor firme contentamento,
De que, nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est'alma sosigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.

Diogo Bernardes (1520 ou 1530? - 1605)
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18/05/10

"Quiero volver a tierras niñas;/ Llévenme a un blando país de águas."

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"Agua"

Hay países que yo recuerdo
como recuerdo mis infancias.
Son países de mar o río,
de pastales, de vegas y aguas.
Aldea mía sobre el Ródano,
rendida en río y en cigarras;
Antilla en palmas verdi-negras
que a medio mar está y me llama;
roca lígure de Portofino,
mar italiana, mar italiana!

Me han traído a país sin río,
tierras-Agar, tierras sin agua;
Saras blancas y Saras rojas,
donde pecaron otras razas,
de pecado rojo de atridas
que cuentan gredas tajeadas;
que no nacieron como un niño
con unas carnazones grasas,
cuando las oigo, sin un silbo,
cuando las cruzo, sin mirada.

Quiero volver a tierras niñas;
llévenme a un blando país de aguas.
En grandes pastos envejezca
y haga al río fábula y fábula.
Tenga una fuente por mi madre
y en la siesta salga a buscarla,
y en jarras baje de una peña
un agua dulce, aguda y áspera.

Me venza y pare los alientos
el agua acérrima y helada.
Rompa mi vaso y al beberla
me vuelva niñas las entrañas!

Gabriela Mistral in "Antología Poética" (org. Hugo Montes Brunet),
Editorial Castalia, 1997, p 101.
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16/05/10

"La tierra a la que vine no tienne primavera:/ tienne su noche larga que cual madre me esconde."

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"Desolación"

La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola de salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tienne su noche larga que cual madre me esconde.

El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanurra blanca, de horizonte infinito,
miro morir inmensos ocasos dolorosos.

A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!

Los barcos cuyas velan blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que no son míos;
sus hombres de ojos claros que no conocen mis ríos
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos.

Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi podre madre canta.

Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no cuento los instantes,
porque la noche larga ahora tan sólo empieza.

Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que viene para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales:
siempre será sul albura bajando de los cielos!

Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiada.

Gabriela Mistral in "Antología Poética" (Org. Hugo Montes Brunet),
Editorial Castalia S. A., Madrid, 1997, pp 55 - 56.
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14/05/10

"Era mais fácil se o que resta fosse/ inesgotável e não um resto"

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"Depois de Tudo"

Mas era provavelmente
errado desde início o fim

esperado Amor inteiramente
consagrado à dor de querer

explicar o inexplicável sentido
do que não faz sentido

palavras ou actos tanto faz
Era provavelmente absurdo

pensar as razões e não razões
com que digamos sobra sempre

uma razão visível ou perdurável
para a dor da memória ainda quente

Era mais fácil se o que resta fosse
inesgotável e não um resto

para provarmos a única verdade
saber que tudo acaba quando se começa

depois de tudo ser já depois do mundo
Sobra a manifesta verdade

da ternura que quer intermitente
mentir e obedecer à memória cansada

rebentando na escrita
No poema um eco surdo
traz a permanente certeza

o fim da estrada, a certeza errada

António Carlos Cortez in "Depois de Dezembro", Editora Licorne, s/c, 2010, pp 49 - 50.
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13/05/10

Ainda o lançamento do Nº 2 da "Revista Inútil"...

Acabei de encontrar, na net, uma crítica do José do Carmo Francisco, bem como os rostos de alguns amigos. Infelizmente não me foi possível estar presente neste lançamento, mas o ver agora o meu nome no artigo do "Zé", faz-me postar todo este material. Na foto, e da esquerda para a direita: Ana Lacerda, Maria Quintans, Filomena Cautela e João Concha. Já agora aproveito para duas inconfidências: a Maria Quintans participa numa Antologia de Poesia que organizei e que sairá nas próximas duas/três semanas e o João aceitou o meu pedido para fazer a capa do meu próximo livro. Duas "dádivas" de peso!!!
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"Críticas & Opiniões
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O título desta Revista nasce na frase de Oscar Wilde: "Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração.
São três os directores (Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha) e este número de Abril de 2010 foi lançado na "nova" Buchholz na Duque de Palmela.
Está tudo diferente menos o piano.
Não é uma revista só de jovens poetas; há um equilíbrio entre novíssimos e veteranos. Por exemplo lemos aqui poemas de Amadeu Baptista, Victor Oliveira Mateus, Nuno Júdice, Joaquim Cardoso Dias, Casimiro de Brito e José Luís Peixoto.
Dois excertos dos novos como convite à leitura do todo da Revista.
De Catarina Nunes de Almeida: "Passei toda a manhã debruçada sobre a moldura/ agora tem um pequeno terreiro e cresce por lá de toda a fruta/ até aves e o teu cabelo está mais tenro mansinho/ dentro da luxúria do vidro./ O sol mastigou-te como as estátuas."
De Rui Almeida: "Os dedos, as coisas/ As ruas e tudo o que nelas passa/ As paredes dos quartos/ Os animais, as árvores/ São quase tempo./ Os segredos e os minutos de espera/ Ocupam espaço./ Vou dormir em vez de falar do tempo/ Dizer dos barcos o contorno no/Breve oceano onde se movem. Vou/ Respeitar os mortos enquanto me doer.
Além do interesse dos poemas há um evidente bom gosto gráfico nesta nova Revista."
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José do Carmo Francisco in "Blogue Aspirina B".
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12/05/10

"Confundo-me quando percorro/ do esquecimento o mar// em que mergulhei um dia "

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"Maré Vazia"

É mais o que esqueço quando lembro
Ninguém dá nome a este tempo
imerso em dúvidas
Às perdas sobrevém

(de tanto me esquecer) a tenebrosa
sensação de que invento
a verdade inflamável a odiosa
matéria da mentira em movimento

de palavras até tudo s'esgotar
Confundo-me quando percorro
do esquecimento o mar

em que mergulhei um dia
(o fingimento é a água cujo corpo
sorvo resgatando-me à maré vazia)

António Carlos Cortez in "Depois de Dezembro", Editora Licorne,
s/c., 2010, p 26.
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11/05/10

Herbert Haag, padre dominicano suiço, teólogo católico com um excepcional conhecimento da Bíblia, Professor Emérito da Universidade de Tubinga, nasceu em 1915. Na década de 60 o seu livro "Despedida do Diabo" defende não haver fundamento bíblico para a crença no diabo. Haag foi também um grande defensor do diálogo ecuménico e inter-religioso. As suas posições progressistas levaram a que a Conferência Episcopal Suiça lhe retirasse a confiança, o que não impediu Haag de deixar escrito que morria como católico. Morreu com 86 anos em Lucerna e uma cerimónia de homenagem foi-lhe prestada então, tendo sido presidida pelo próprio Hans Kung.
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"No mundo, não existe nenhuma pessoa investida com semelhantes poderes. Contra uma decisão do Papa não existe qualquer espécie de recurso.
A seguir ao Papa, o segundo órgão constitutivo da Constituição da Igreja "é o bispo que, em comunhão com o presbitério, tem a tarefa de pastorear o rebanho de Deus". Também desta formulação do Concílio Vaticano II é deduzido que "os bispos não podem ser encarados como meros delegados do Papa nas suas dioceses, por estarem investidos num poder directo". Por mais correcta que seja esta interpretação do concílio, no entanto, o que acontece é precisamente o contrário. Hoje, os bispos são cada vez mais funcionários públicos do Vaticano. Não é, por isso, por acaso que o Concílio Vaticano II repete inúmeras vezes serem os bispos sucessores dos apóstolos."
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Herbert Haag in "A Igreja Católica ainda tem futuro?", Notícias Editorial, Lisboa,
2001, p 83.
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"A resposta dá-se rapidamente: a Igreja Católica tem futuro se tiver a coragem e a força de promulgar uma nova Constituição. Ora a nova Constituição, tendo presente o fracasso das anteriores, deverá corresponder a estes três critérios: 1- O princípio de "respeitar a Igreja universal" não poderá ser critério determinante. Os bispos não poderão, assim, ir sempre adiando as reformas urgentes. Cada conferência episcopal é que deve livremente determinar quais são as necessidades prementes da sua região. (...)2- Não deverá existir mais uma Igreja de duas classes sociais: essa estrutura foi criada pela Igreja e, por mais que ela em tempos antigos tivesse razão de ser, actualmente não se justifica a título nenhum. A Igreja já não poderá continuar a ser uma Igreja do clero, terá de se transformar numa comunidade de discípulas e discípulos de Jesus com igualdade de direitos para todos. Não haverá privilégios para homens "consagrados", enquanto os restantes não tiverem os mesmos direitos. Deverá, também, reconhecer igualdade de direitos para homens e mulheres. 3 - A igreja não poderá continuar a ser uma monarquia absoluta, em que uma só pessoa governa a totalidade do mundo católico. Deverá existir um colégio composto de bispos, de homens e de mulheres, representativos de todos os continentes.(...) Estes três critérios levam-nos a concluir pela necessidade inadiável de criar um novo Diireito Canónico orientado pelo Evangelho."
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Herbert Haag, in op. cit., pp 103 - 104.
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10/05/10

Acerca da síndrome da morte súbita.

O livro acima indicado foi traduzido para português em 2002. São mais de 500 páginas de jornalismo de investigação. Ele remete-nos igualmente para obras a não perder, como por exemplo o "Em nome de Deus" de David Yallop (reeditado recentemente em Portugal), onde se aborda a estranha morte de João Paulo I, e ainda para outros livros como "Wojtyla, el ultimo cruzado - Un papado medieval en el fin del milenio" (não sei se existe em português, pois só o consegui encontrar em castelhano).
Robert Hutchison, nasceu no Canadá, estudou na Universidade de McGill em Montreal. Foi correspondente do Sunday e do Daily Telegraph e escreveu vários livros de investigação em torno de diversas áreas. Os seus trabalhos mereceram-lhe alguns prémios. Retirou-se para a Suiça onde vive há trinta anos.
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"Escrivá de Balaguer, acerca de quem os acessores nas Causas dos Santos afirmariam "ter sobressaído na história da espiritualidade ao nível dos tradicionalmente notáveis", propôs munir Pio XII com um corpo de Guerreiros Frios capazes de exercer uma influência católica discreta nos sectores económicos chave e ministérios por todo o mundo livre. Isto representava uma nova fase no desenvolvimento do Opus Dei, exigindo uma mudança no tipo de pessoas recrutadas para a Obra. A perspectiva original transferia-se assim do letrado universitário para o banqueiro, director de companhia e administrador público(...). O Opus Dei, portanto, não estava interessado em varredores de rua e sugerir o contrário seria hipocrisia(...) a única forma de estabelecer um marco na sociedade, estado ou instituição é dominando o seu cume, conselho que Escrivá de Balaguer seguiu assiduamente. Mas Escrivá de Balaguer foi mais longe do que Herrera, subordinando a sua agenda política a um culto de discrição(...).
Para melhor desempenhar o seu apostolado, a procura de influência pelo Opus Dei tinha de ser discreta para que os seus "inimigos" - e já tinha um considerável número - fossem mantidos na escuridão quanto às suas reais intenções. Para proteger a Igreja o Opus Dei tinha de controlar o poder eclesiástico. Com esta finalidade, Escrivá de balaguer antecipou a sua promoção a bispo. Mas para o consumo público, o seu culto de discrição exigia uma atitude contrária de humildade."
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Robert Hutchison in "O Mundo Secreto do Opus Dei", Prefácio- Edição, Lda., Lisboa,
2002, pp 137 - 138.
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" Depois de adoptar o nome de João Paulo I, Luciani anunciou que preferia ser Pastor em vez de Pontífice, e que aquela pompa não era para ele. Disse à gente de Roma que tencionava empenhar o seu Pontificado na aplicação dos ensinamentos do Segundo Concílio Vaticano. Isso por si mesmo, obervou mais tarde Calvi, era uma coisa perigosa para se dizer. Havia uma comunidade dentro da Igreja, fundamentalista até ao âmago, que estava a tentar rever - entenda-se corrigir -as conclusões do Vaticano II.(...) Embora Luciani não o soubesse, os quatro prelados que ele pretendia remover da Cúria eram essenciais para (...) Durante essa noite, após trinta e nove dias no lugar, João Paulo I morreu."
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Robert Hutchison, op. cit., pp 305 - 311.
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"Na sexta-feira 22 de Outubro de 1982, o oponente mais implacável do (...) o arcebispo Benelli de Florença, sofreu um violento ataque cardíaco - infarto miocardico acuto, dizia o boletim médico. Mas Benelli, de sessenta e dois anos de idade - um toscano cordial e "bon vivant" - tinha desfrutado de uma saúde de ferro, afirmava o seu secretário pessoal. Trabalhava durante longas horas e raramente dormia mais de quatro horas por noite. Os primeiros sinais de problemas de coração começaram apenas dois dias antes e morreu a 26 de Outubro de 1982. (...) Benelli tinha vindo a preparar-se para se opor a que o Opus Dei se transformasse numa Prelatura Pessoal na reunião dos cardeais."
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Robert Hutchison, op. cit., pp 370 - 371.
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09/05/10

A Igreja Latina, o conservadorismo, a vida concreta dos homens, aqueles que há muito vão ousando e ...

As classes dominantes em sua estratégia hegemónica procurarão incorporar a Igreja a serviço da ampliação, consolidação e legitimação de sua dominação, especialmente para conseguir a aceitação da hegemonia por todos os indivíduos e grupos sociais. O campo religioso-eclesiástico é fortemente pressionado a se organizar de tal forma que se ajuste aos interesses das classes hegemónicas mediante vários tipos de estratégias econômicas, jurídico-políticas, culturais e até repressivas. A Igreja desempenha então a função conservadora e legitimadora do bloco histórico imperante.
Entretanto não é fatal que a Igreja se componha com o bloco histórico hegemónico. As classes subalternas solicitam, por sua vez, a Igreja em sua estratégia por mais poder e autonomia em face das dominações que sofrem. A Igreja pode secundar e justificar a ruptura do bloco histórico e prestar-se a um serviço revolucionário. Os fiéis estão presentes tanto de um lado quanto do outro; a Igreja á atravessada, inevitavelmente, pelos conflitos de classe e pode assumir uma eventual função revolucionária quanto uma função fortalecedora do bloco hegemônico. Estas duas possibilidades não são objecto de golpes de vontade ou opções que alguém pode ad libitum tomar. Depende do tipo de articulação que no processo histórico-social o campo religioso-eclesiástico estabeleceu com as várias classes. Pode ocorrer que no processo referido a Igreja lentamente reproduziu em seu corpo a estrutura do bloco hegemônico. O campo religioso-eclesiástico se estrutura também de forma dissimétrica, espelhando destarte o campo social hegemônico. Evidentemente não se trata de uma reprodução mecânica, porque fica sempre preservada a autonomia relativa do campo religioso-eclesiástico. Dizendo que é relativamente autônomo, afirmamos que não é totalmente determinado pelo campo social mas nem totalmente independente ; ele, a partir de sua especificidade irredutível (a experiência cristã, sua expressão objectiva em discursos e práticas, seu carácter institucional pelo qual se reproduz, conserva, difunde, particularmente, mediante um corpo de peritos e hierarcas), imediatamente e retrabalha as influências sociais.
Vejamos, rapidamente, como a Igreja se articulou ora com o bloco hegemónico ora com as classes subalternas. Um modo de produção dissimétrico que foi lentamente tomando conta de uma formação social, impondo-se um processo de expropriação dos meios de produção material e simbólica, acabou predominando também dentro da Igreja: criou-se (...) um processo de expropriação dos meios de produção religiosa por parte do clero contra o povo cristão. Primitivamente o povo cristão participava do poder da Igreja, nas decisões, na eleição dos seus ministros; depois começou a ser apenas consultado e por fim, em termos de poder, totalmente marginalizado e expropriado de uma capacidade que detinha (...) Criou-se um corpo de funcionários e peritos encarregados de atender o interesse religioso de todos mediante a produção exclusiva por eles de bens simbólicos a serem consumidos pelo povo agora expropriado.
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Leonardo Boff in "Igreja: Carisma e Poder", Editora Ática, São Paulo, 1994, pp 190 - 191.
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08/05/10

"O que sempre doeu/ ainda dói. "

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"De repente a certeza..."

De repente a certeza
da extrema solidão.
Três amores (são quatro)
a vida e seus compassos
um canário e um cão.

Nada é meu, nunca foi.
O que sempre doeu
ainda dói.

Renata Pallottini in "Obra Poética", Editora Hucitec, São Paulo, 1995, 284.
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"(...) numa imprecisa/ tensa evocação. "

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A carne solta-se
dos ossos. tudo se dirime
por um abalo

sob as nascentes inguinais
do fogo. elas

vêm por dentro
do tear e do homem

como cutelos numa imprecisa
tensa evocação.

Pedro Gil-Pedro in "Para que ninguém sobreviva ao perdão",
Cosmorama Edições, Maia, 2008, p 35.
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07/05/10

"(...) a crise/ de programada que foi"

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"Veredas de Lúcifer"

Virulenta é a crise
de programada que foi
e orquestrada
para um tempo de expurgo e razia,
uma limpeza nos locais de trabalho.
É como o sexo dos anjos,
a que convém não atribuir sexo,
míngua do espaço nos orfanatos.
Somente carecia-se de bodes
expiatórios, de comadrio no empreendimento
e de novo centro atractor de toda
a riqueza.

Que fazer? com uma entidade angélica
pervertida na sua natural neutralidade,
afinal. Que fazer quando o desejo
colectivo é seguir igual, fingir
que não se chegou à orla do vulcão?...
quando impera a absoluta separação
entre as condições objectivas e as subjectivas,
quando o real se pauta pelos tablóides,
quando o tranbolhão está aí
amortecido. Ver, sentir tudo isto,
ser-se anjo, ser-se um anjo
excedentário, caído.

Paulo da Costa Domingos in " a escrita", &etc., Lisboa, 2010, p 42.
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05/05/10

"... saboreava a felicidade subtil de falar dela sem perigo. "

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Pela primeira vez havia seis meses, os seus pés pisavam o caminho familiar. Desabotoou o sobretudo.
"Caminhei depressa de mais", disse consigo. Recomeçou a andar, parou novamente e, desta vez, o seu olhar visou um ponto preciso: a cinquenta metros, de cabeça descoberta, e de camurça na mão, o porteiro Ernest, o porteiro de Léa, polia os cobres da grade, na frente da moradia de Léa. Chéri pôs-se a trautear enquanto caminhava, mas apercebeu-se, ao ouvir o som da própria voz, de que nunca trauteava, e calou-se.
- Então, Ernest, sempre a trabalhar?
O porteiro regozijou-se com certa reserva.
- O Sr. Peloux! Estou encantado por vê-lo, não está nada mudado.
- O mesmo se passa consigo, Ernest. A senhora está bem?
Falava de perfil, atento às persianas fechadas do primeiro andar.
- Julgo que sim, mas nós só recebemos alguns bilhetes-postais.
- Donde? de Biarritz, não?
- Creio que não.
- Onde está a senhora?
- Não sou capaz de dizer(...)
Chéri tirou a carteira, ao mesmo tempo que olhava Ernest com um ar acariciador.
- Oh, Sr. Peloux, dinheiro entre nós? Decerto não pensa em tal. Mil francos não fariam falar um homem que nada sabe.(...)
Chéri subiu até à praça Victor-Hugo, fazendo rodopiar a bengala. Tropeçou duas vezes e esteve quase a cair(...) Chegado à balaustrada do metropolitano, debruçou-se, inclinado para a sombra negra e rósea do subterrâneo, e sentiu-se esmagado de fadiga.(...)
- E Léa? - perguntou de repente Desmond.
Chéri não tremeu: estava justamente pensando em Léa.
- Léa? Está no Sul. (...) Mas Chéri, ao mesmo tempo circunspecto e aturdido, não parou de falar de Léa. Disse coisas sensatas, impregnadas de um bom senso conjugal. Gabou o casamento, ao mesmo tempo que prestava justiça às virtudes de Léa. Cantou o carácter submisso da jovem esposa, para ter ocasião de criticar o carácter resoluto de Léa (...) E enquanto assim falava, abrigado por trás das palavras imbecis que uma desconfiança de amante perseguido lhe segredava, saboreava a felicidade subtil de falar dela sem perigo.
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Colette in "Chéri", Editorial Presença, Barcarena, 2009, pp 70 - 74 (Tradução de José Saramago).
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