30/05/10


                 "Sobre navios e navegantes"


Onde quer que se imagine, em Banguecoque, Dublin, Valparaíso, é sempre tempo de navegar. Parte-se apenas com a roupa do corpo por noites a fio em direção ao mar. Cada aventura tem seu preço. Você paga pela viagem com o seu desespero e segue para o norte, emigrante. Eu pago com a minha fé e vou para o sul, quase náufrago. Você chegará muito cedo e eu talvez tarde de mais. Podemos também estar juntos, debruçados sobre o mesmo convés e, no entanto, eu não vejo o que você vê, o meu destino não é igual ao seu. Há quem navegue só para chegar, oh Senhor, perdoai-os, eles não sabem o que fazem. Uns que vão toda manhã ao porto para ouvir o apito da partida, sem coragem de embarcar. Existem ainda os passageiros clandestinos, que viajam em surdina para jamais serem notados. E os que se deixam socorrer à deriva, abraçados à costela de um bote, e que agora, a bordo de um transatlântico, redescobrem o mapa das águas. E os marujos, como esquecê-los? Esses vivem permanentemente entre dois continentes, guiando-se pelas estrelas, medindo a longitude no vento, surpreendendo em toda nova jornada sua primeira jornada. Algumas distâncias são curtas, mas leva-se uma eternidade para atravessá-las. Outras não exigem mais do que um espírito de ilha, descentrado, selvagem e solitário que as torna memoráveis. As condições de viagem não devem ser ignoradas: mudanças de rota, variações de clima, quão viçosa ou antiga a embarcação se mostra, tudo isso influi no prazer do itinerário. Cruzar o horizonte debaixo de um temporal não será o mesmo que velejar sob o sol. Pode o trajeto ser retilíneo, sem grandes acontecimentos nem sobressaltos, e o navio ser ele mesmo este grande acontecimento, este sobressalto. E pode o navio pretender visitar lugares extraordinários com uma velocidade de 30 nós, abrigando em todo o seu comprimento mais de mil tripulantes, e a meio do caminho o casco se abrir e tudo afundar de um só golpe. Em qualquer canto do mundo eles esperam. Na crista do armário, no estaleiro da gaveta trancada à chave, na vasta esplanada de uma estante, lá estão eles, a postos. Como os anos são breves e como o dia é longo! - até que algum rio venha movê-los, tirá-los da margem. Alguém que, num simples gesto de mãos, será capaz de lhes devolver o oceano.
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Mariana Ianelli in " um rio de contos - Antologia Luso-Brasileira" (Org. Celina Veiga de Oliveira e Victor Oliveira Mateus), Editorial Tágide, Dafundo, 2009, p 178.
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29/05/10

"a indisponibilidade dos bichos colhidos (...) e guardados... "


Os navios são títulos podres nos dentes a mar
gos
e a vigência dos dentes são incorporações e
s
cotilhas pelas small daily things c ya
.
a indisponibilidade dos bichos colhidos no
final das petulâncias e guardados em
pérgulas pela cabotagem dos pomares
oblíquos
deixa as maçãs polpudas
a improvisar brancas de neve insufláveis
em alto teor de vermelho
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Rita Grácio in "Livro de Cabeceira", IV Bienal de Poesia de Silves, 2010.
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27/05/10


" - o contra senso "
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dizem que os poetas
descem as escadas argênteas e sabem.se a par e
passo
com os astros que gravitam
na placidez do afago de uma mão
dizem que
se movem em passos uniformes ditados pela lei da
gravidade
como as estrelas cujas constelações se igualam no
brilho e
se atraem na dança cúmplice do verbo
quais formigas que estabelecem comunicações
utilizando as antenas para conspirar
são pequenas partículas de um campo minado
onde as deusas e os demiurgos gostam de copular
ninguém se divide por zero -
afirmam os matemáticos
- quem sou eu para os desmentir?
um argopoeta que entra na dança para contradizer
os deuses
um contra senso
um arrepio exponencial que
tange a harpa de Thales
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em silentes acordes
concebidos a um ritmo incerto e numa só dimensão
.
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Gabriela Rocha Martins in "Livro de Cabeceira", IV Bienal de Poesia de Silves, 2010.
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Nota - As minhas desculpas à Gabriela, mas não me foi possível
colocar à direita o 1º e o 6º versos, tal como ela tem no original.
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25/05/10

"Cantaste?! Pois agora dança!"

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"A cigarra e a formiga"

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

"Amiga" - diz a cigarra -
"Prometo, à fé de animal.
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta
Nunca dá, por isso junta:
"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: " eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
"Oh! Bravo! - torna a formiga -
"Cantavas? Pois dança agora!"

Jean de La Fontaine (Tradução de Bocage), Editora Brasil América,
Rio de Janeiro, 1985.
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24/05/10

"Y, sin embargo, qué perseverancia "


"Oficio de ebanista"
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El furor de escribir tarde tras tarde,
esa tarea vana
que nadie te encomienda,
y que nadie le importa demasiado.
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Y, sin embargo, qué perseverancia
sostiene el andamiaje de tus letras,
cuántas veces te has dicho entre los labios
los versos que querrías componer.
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Francisco José Martínez Morán in "Tras la puerta tapiada", Ediciones Hiperión,
Madrid, 2009, p 21.
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21/05/10

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"Emaranhado"


Muitas vezes
Já se sabe
Que se joga na inanidade do Jogo
O que não nos abriga de todas as aflições.
Por vezes,
Procuram-se as forças iniciais
Julgando-as como não aprisionadas
E o consciente segreda-nos (prudentemente)
A não gritar
Alto
O desamparo.

Teresa Vieira in "De Nada Novo", Dinalivro, Lisboa, 1996, p 40.
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20/05/10

" quem fui quando passei/ aqui tão longe (...)? "

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"Quem"

quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?

quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?

quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?

Helena Parente Cunha in "Além de estar", Imago Edª Lda,
Rio de Janeiro, 2000, p 169.
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19/05/10

"De que, nos gostos seus, que são de vento, "


" Do desejo "

Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que pera descansar parte me seja?

Já sei como s'engana quem deseja,
Em vão amor firme contentamento,
De que, nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est'alma sosigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.

Diogo Bernardes (1520 ou 1530? - 1605)
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18/05/10

"Quiero volver a tierras niñas;/ Llévenme a un blando país de águas."

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"Agua"

Hay países que yo recuerdo
como recuerdo mis infancias.
Son países de mar o río,
de pastales, de vegas y aguas.
Aldea mía sobre el Ródano,
rendida en río y en cigarras;
Antilla en palmas verdi-negras
que a medio mar está y me llama;
roca lígure de Portofino,
mar italiana, mar italiana!

Me han traído a país sin río,
tierras-Agar, tierras sin agua;
Saras blancas y Saras rojas,
donde pecaron otras razas,
de pecado rojo de atridas
que cuentan gredas tajeadas;
que no nacieron como un niño
con unas carnazones grasas,
cuando las oigo, sin un silbo,
cuando las cruzo, sin mirada.

Quiero volver a tierras niñas;
llévenme a un blando país de aguas.
En grandes pastos envejezca
y haga al río fábula y fábula.
Tenga una fuente por mi madre
y en la siesta salga a buscarla,
y en jarras baje de una peña
un agua dulce, aguda y áspera.

Me venza y pare los alientos
el agua acérrima y helada.
Rompa mi vaso y al beberla
me vuelva niñas las entrañas!

Gabriela Mistral in "Antología Poética" (org. Hugo Montes Brunet),
Editorial Castalia, 1997, p 101.
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16/05/10

"La tierra a la que vine no tienne primavera:/ tienne su noche larga que cual madre me esconde."

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"Desolación"

La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola de salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tienne su noche larga que cual madre me esconde.

El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanurra blanca, de horizonte infinito,
miro morir inmensos ocasos dolorosos.

A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!

Los barcos cuyas velan blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que no son míos;
sus hombres de ojos claros que no conocen mis ríos
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos.

Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi podre madre canta.

Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no cuento los instantes,
porque la noche larga ahora tan sólo empieza.

Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que viene para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales:
siempre será sul albura bajando de los cielos!

Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiada.

Gabriela Mistral in "Antología Poética" (Org. Hugo Montes Brunet),
Editorial Castalia S. A., Madrid, 1997, pp 55 - 56.
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14/05/10

"Era mais fácil se o que resta fosse/ inesgotável e não um resto"

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"Depois de Tudo"

Mas era provavelmente
errado desde início o fim

esperado Amor inteiramente
consagrado à dor de querer

explicar o inexplicável sentido
do que não faz sentido

palavras ou actos tanto faz
Era provavelmente absurdo

pensar as razões e não razões
com que digamos sobra sempre

uma razão visível ou perdurável
para a dor da memória ainda quente

Era mais fácil se o que resta fosse
inesgotável e não um resto

para provarmos a única verdade
saber que tudo acaba quando se começa

depois de tudo ser já depois do mundo
Sobra a manifesta verdade

da ternura que quer intermitente
mentir e obedecer à memória cansada

rebentando na escrita
No poema um eco surdo
traz a permanente certeza

o fim da estrada, a certeza errada

António Carlos Cortez in "Depois de Dezembro", Editora Licorne, s/c, 2010, pp 49 - 50.
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13/05/10

Ainda o lançamento do Nº 2 da "Revista Inútil"...

Acabei de encontrar, na net, uma crítica do José do Carmo Francisco, bem como os rostos de alguns amigos. Infelizmente não me foi possível estar presente neste lançamento, mas o ver agora o meu nome no artigo do "Zé", faz-me postar todo este material. Na foto, e da esquerda para a direita: Ana Lacerda, Maria Quintans, Filomena Cautela e João Concha. Já agora aproveito para duas inconfidências: a Maria Quintans participa numa Antologia de Poesia que organizei e que sairá nas próximas duas/três semanas e o João aceitou o meu pedido para fazer a capa do meu próximo livro. Duas "dádivas" de peso!!!
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"Críticas & Opiniões
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O título desta Revista nasce na frase de Oscar Wilde: "Podemos perdoar um homem que faça uma coisa útil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração.
São três os directores (Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha) e este número de Abril de 2010 foi lançado na "nova" Buchholz na Duque de Palmela.
Está tudo diferente menos o piano.
Não é uma revista só de jovens poetas; há um equilíbrio entre novíssimos e veteranos. Por exemplo lemos aqui poemas de Amadeu Baptista, Victor Oliveira Mateus, Nuno Júdice, Joaquim Cardoso Dias, Casimiro de Brito e José Luís Peixoto.
Dois excertos dos novos como convite à leitura do todo da Revista.
De Catarina Nunes de Almeida: "Passei toda a manhã debruçada sobre a moldura/ agora tem um pequeno terreiro e cresce por lá de toda a fruta/ até aves e o teu cabelo está mais tenro mansinho/ dentro da luxúria do vidro./ O sol mastigou-te como as estátuas."
De Rui Almeida: "Os dedos, as coisas/ As ruas e tudo o que nelas passa/ As paredes dos quartos/ Os animais, as árvores/ São quase tempo./ Os segredos e os minutos de espera/ Ocupam espaço./ Vou dormir em vez de falar do tempo/ Dizer dos barcos o contorno no/Breve oceano onde se movem. Vou/ Respeitar os mortos enquanto me doer.
Além do interesse dos poemas há um evidente bom gosto gráfico nesta nova Revista."
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José do Carmo Francisco in "Blogue Aspirina B".
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12/05/10

"Confundo-me quando percorro/ do esquecimento o mar// em que mergulhei um dia "

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"Maré Vazia"

É mais o que esqueço quando lembro
Ninguém dá nome a este tempo
imerso em dúvidas
Às perdas sobrevém

(de tanto me esquecer) a tenebrosa
sensação de que invento
a verdade inflamável a odiosa
matéria da mentira em movimento

de palavras até tudo s'esgotar
Confundo-me quando percorro
do esquecimento o mar

em que mergulhei um dia
(o fingimento é a água cujo corpo
sorvo resgatando-me à maré vazia)

António Carlos Cortez in "Depois de Dezembro", Editora Licorne,
s/c., 2010, p 26.
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11/05/10

Herbert Haag, padre dominicano suiço, teólogo católico com um excepcional conhecimento da Bíblia, Professor Emérito da Universidade de Tubinga, nasceu em 1915. Na década de 60 o seu livro "Despedida do Diabo" defende não haver fundamento bíblico para a crença no diabo. Haag foi também um grande defensor do diálogo ecuménico e inter-religioso. As suas posições progressistas levaram a que a Conferência Episcopal Suiça lhe retirasse a confiança, o que não impediu Haag de deixar escrito que morria como católico. Morreu com 86 anos em Lucerna e uma cerimónia de homenagem foi-lhe prestada então, tendo sido presidida pelo próprio Hans Kung.
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"No mundo, não existe nenhuma pessoa investida com semelhantes poderes. Contra uma decisão do Papa não existe qualquer espécie de recurso.
A seguir ao Papa, o segundo órgão constitutivo da Constituição da Igreja "é o bispo que, em comunhão com o presbitério, tem a tarefa de pastorear o rebanho de Deus". Também desta formulação do Concílio Vaticano II é deduzido que "os bispos não podem ser encarados como meros delegados do Papa nas suas dioceses, por estarem investidos num poder directo". Por mais correcta que seja esta interpretação do concílio, no entanto, o que acontece é precisamente o contrário. Hoje, os bispos são cada vez mais funcionários públicos do Vaticano. Não é, por isso, por acaso que o Concílio Vaticano II repete inúmeras vezes serem os bispos sucessores dos apóstolos."
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Herbert Haag in "A Igreja Católica ainda tem futuro?", Notícias Editorial, Lisboa,
2001, p 83.
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"A resposta dá-se rapidamente: a Igreja Católica tem futuro se tiver a coragem e a força de promulgar uma nova Constituição. Ora a nova Constituição, tendo presente o fracasso das anteriores, deverá corresponder a estes três critérios: 1- O princípio de "respeitar a Igreja universal" não poderá ser critério determinante. Os bispos não poderão, assim, ir sempre adiando as reformas urgentes. Cada conferência episcopal é que deve livremente determinar quais são as necessidades prementes da sua região. (...)2- Não deverá existir mais uma Igreja de duas classes sociais: essa estrutura foi criada pela Igreja e, por mais que ela em tempos antigos tivesse razão de ser, actualmente não se justifica a título nenhum. A Igreja já não poderá continuar a ser uma Igreja do clero, terá de se transformar numa comunidade de discípulas e discípulos de Jesus com igualdade de direitos para todos. Não haverá privilégios para homens "consagrados", enquanto os restantes não tiverem os mesmos direitos. Deverá, também, reconhecer igualdade de direitos para homens e mulheres. 3 - A igreja não poderá continuar a ser uma monarquia absoluta, em que uma só pessoa governa a totalidade do mundo católico. Deverá existir um colégio composto de bispos, de homens e de mulheres, representativos de todos os continentes.(...) Estes três critérios levam-nos a concluir pela necessidade inadiável de criar um novo Diireito Canónico orientado pelo Evangelho."
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Herbert Haag, in op. cit., pp 103 - 104.
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10/05/10

Acerca da síndrome da morte súbita.

O livro acima indicado foi traduzido para português em 2002. São mais de 500 páginas de jornalismo de investigação. Ele remete-nos igualmente para obras a não perder, como por exemplo o "Em nome de Deus" de David Yallop (reeditado recentemente em Portugal), onde se aborda a estranha morte de João Paulo I, e ainda para outros livros como "Wojtyla, el ultimo cruzado - Un papado medieval en el fin del milenio" (não sei se existe em português, pois só o consegui encontrar em castelhano).
Robert Hutchison, nasceu no Canadá, estudou na Universidade de McGill em Montreal. Foi correspondente do Sunday e do Daily Telegraph e escreveu vários livros de investigação em torno de diversas áreas. Os seus trabalhos mereceram-lhe alguns prémios. Retirou-se para a Suiça onde vive há trinta anos.
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"Escrivá de Balaguer, acerca de quem os acessores nas Causas dos Santos afirmariam "ter sobressaído na história da espiritualidade ao nível dos tradicionalmente notáveis", propôs munir Pio XII com um corpo de Guerreiros Frios capazes de exercer uma influência católica discreta nos sectores económicos chave e ministérios por todo o mundo livre. Isto representava uma nova fase no desenvolvimento do Opus Dei, exigindo uma mudança no tipo de pessoas recrutadas para a Obra. A perspectiva original transferia-se assim do letrado universitário para o banqueiro, director de companhia e administrador público(...). O Opus Dei, portanto, não estava interessado em varredores de rua e sugerir o contrário seria hipocrisia(...) a única forma de estabelecer um marco na sociedade, estado ou instituição é dominando o seu cume, conselho que Escrivá de Balaguer seguiu assiduamente. Mas Escrivá de Balaguer foi mais longe do que Herrera, subordinando a sua agenda política a um culto de discrição(...).
Para melhor desempenhar o seu apostolado, a procura de influência pelo Opus Dei tinha de ser discreta para que os seus "inimigos" - e já tinha um considerável número - fossem mantidos na escuridão quanto às suas reais intenções. Para proteger a Igreja o Opus Dei tinha de controlar o poder eclesiástico. Com esta finalidade, Escrivá de balaguer antecipou a sua promoção a bispo. Mas para o consumo público, o seu culto de discrição exigia uma atitude contrária de humildade."
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Robert Hutchison in "O Mundo Secreto do Opus Dei", Prefácio- Edição, Lda., Lisboa,
2002, pp 137 - 138.
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" Depois de adoptar o nome de João Paulo I, Luciani anunciou que preferia ser Pastor em vez de Pontífice, e que aquela pompa não era para ele. Disse à gente de Roma que tencionava empenhar o seu Pontificado na aplicação dos ensinamentos do Segundo Concílio Vaticano. Isso por si mesmo, obervou mais tarde Calvi, era uma coisa perigosa para se dizer. Havia uma comunidade dentro da Igreja, fundamentalista até ao âmago, que estava a tentar rever - entenda-se corrigir -as conclusões do Vaticano II.(...) Embora Luciani não o soubesse, os quatro prelados que ele pretendia remover da Cúria eram essenciais para (...) Durante essa noite, após trinta e nove dias no lugar, João Paulo I morreu."
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Robert Hutchison, op. cit., pp 305 - 311.
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"Na sexta-feira 22 de Outubro de 1982, o oponente mais implacável do (...) o arcebispo Benelli de Florença, sofreu um violento ataque cardíaco - infarto miocardico acuto, dizia o boletim médico. Mas Benelli, de sessenta e dois anos de idade - um toscano cordial e "bon vivant" - tinha desfrutado de uma saúde de ferro, afirmava o seu secretário pessoal. Trabalhava durante longas horas e raramente dormia mais de quatro horas por noite. Os primeiros sinais de problemas de coração começaram apenas dois dias antes e morreu a 26 de Outubro de 1982. (...) Benelli tinha vindo a preparar-se para se opor a que o Opus Dei se transformasse numa Prelatura Pessoal na reunião dos cardeais."
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Robert Hutchison, op. cit., pp 370 - 371.
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09/05/10

A Igreja Latina, o conservadorismo, a vida concreta dos homens, aqueles que há muito vão ousando e ...

As classes dominantes em sua estratégia hegemónica procurarão incorporar a Igreja a serviço da ampliação, consolidação e legitimação de sua dominação, especialmente para conseguir a aceitação da hegemonia por todos os indivíduos e grupos sociais. O campo religioso-eclesiástico é fortemente pressionado a se organizar de tal forma que se ajuste aos interesses das classes hegemónicas mediante vários tipos de estratégias econômicas, jurídico-políticas, culturais e até repressivas. A Igreja desempenha então a função conservadora e legitimadora do bloco histórico imperante.
Entretanto não é fatal que a Igreja se componha com o bloco histórico hegemónico. As classes subalternas solicitam, por sua vez, a Igreja em sua estratégia por mais poder e autonomia em face das dominações que sofrem. A Igreja pode secundar e justificar a ruptura do bloco histórico e prestar-se a um serviço revolucionário. Os fiéis estão presentes tanto de um lado quanto do outro; a Igreja á atravessada, inevitavelmente, pelos conflitos de classe e pode assumir uma eventual função revolucionária quanto uma função fortalecedora do bloco hegemônico. Estas duas possibilidades não são objecto de golpes de vontade ou opções que alguém pode ad libitum tomar. Depende do tipo de articulação que no processo histórico-social o campo religioso-eclesiástico estabeleceu com as várias classes. Pode ocorrer que no processo referido a Igreja lentamente reproduziu em seu corpo a estrutura do bloco hegemônico. O campo religioso-eclesiástico se estrutura também de forma dissimétrica, espelhando destarte o campo social hegemônico. Evidentemente não se trata de uma reprodução mecânica, porque fica sempre preservada a autonomia relativa do campo religioso-eclesiástico. Dizendo que é relativamente autônomo, afirmamos que não é totalmente determinado pelo campo social mas nem totalmente independente ; ele, a partir de sua especificidade irredutível (a experiência cristã, sua expressão objectiva em discursos e práticas, seu carácter institucional pelo qual se reproduz, conserva, difunde, particularmente, mediante um corpo de peritos e hierarcas), imediatamente e retrabalha as influências sociais.
Vejamos, rapidamente, como a Igreja se articulou ora com o bloco hegemónico ora com as classes subalternas. Um modo de produção dissimétrico que foi lentamente tomando conta de uma formação social, impondo-se um processo de expropriação dos meios de produção material e simbólica, acabou predominando também dentro da Igreja: criou-se (...) um processo de expropriação dos meios de produção religiosa por parte do clero contra o povo cristão. Primitivamente o povo cristão participava do poder da Igreja, nas decisões, na eleição dos seus ministros; depois começou a ser apenas consultado e por fim, em termos de poder, totalmente marginalizado e expropriado de uma capacidade que detinha (...) Criou-se um corpo de funcionários e peritos encarregados de atender o interesse religioso de todos mediante a produção exclusiva por eles de bens simbólicos a serem consumidos pelo povo agora expropriado.
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Leonardo Boff in "Igreja: Carisma e Poder", Editora Ática, São Paulo, 1994, pp 190 - 191.
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08/05/10

"O que sempre doeu/ ainda dói. "

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"De repente a certeza..."

De repente a certeza
da extrema solidão.
Três amores (são quatro)
a vida e seus compassos
um canário e um cão.

Nada é meu, nunca foi.
O que sempre doeu
ainda dói.

Renata Pallottini in "Obra Poética", Editora Hucitec, São Paulo, 1995, 284.
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"(...) numa imprecisa/ tensa evocação. "

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A carne solta-se
dos ossos. tudo se dirime
por um abalo

sob as nascentes inguinais
do fogo. elas

vêm por dentro
do tear e do homem

como cutelos numa imprecisa
tensa evocação.

Pedro Gil-Pedro in "Para que ninguém sobreviva ao perdão",
Cosmorama Edições, Maia, 2008, p 35.
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07/05/10

"(...) a crise/ de programada que foi"

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"Veredas de Lúcifer"

Virulenta é a crise
de programada que foi
e orquestrada
para um tempo de expurgo e razia,
uma limpeza nos locais de trabalho.
É como o sexo dos anjos,
a que convém não atribuir sexo,
míngua do espaço nos orfanatos.
Somente carecia-se de bodes
expiatórios, de comadrio no empreendimento
e de novo centro atractor de toda
a riqueza.

Que fazer? com uma entidade angélica
pervertida na sua natural neutralidade,
afinal. Que fazer quando o desejo
colectivo é seguir igual, fingir
que não se chegou à orla do vulcão?...
quando impera a absoluta separação
entre as condições objectivas e as subjectivas,
quando o real se pauta pelos tablóides,
quando o tranbolhão está aí
amortecido. Ver, sentir tudo isto,
ser-se anjo, ser-se um anjo
excedentário, caído.

Paulo da Costa Domingos in " a escrita", &etc., Lisboa, 2010, p 42.
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05/05/10

"... saboreava a felicidade subtil de falar dela sem perigo. "

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Pela primeira vez havia seis meses, os seus pés pisavam o caminho familiar. Desabotoou o sobretudo.
"Caminhei depressa de mais", disse consigo. Recomeçou a andar, parou novamente e, desta vez, o seu olhar visou um ponto preciso: a cinquenta metros, de cabeça descoberta, e de camurça na mão, o porteiro Ernest, o porteiro de Léa, polia os cobres da grade, na frente da moradia de Léa. Chéri pôs-se a trautear enquanto caminhava, mas apercebeu-se, ao ouvir o som da própria voz, de que nunca trauteava, e calou-se.
- Então, Ernest, sempre a trabalhar?
O porteiro regozijou-se com certa reserva.
- O Sr. Peloux! Estou encantado por vê-lo, não está nada mudado.
- O mesmo se passa consigo, Ernest. A senhora está bem?
Falava de perfil, atento às persianas fechadas do primeiro andar.
- Julgo que sim, mas nós só recebemos alguns bilhetes-postais.
- Donde? de Biarritz, não?
- Creio que não.
- Onde está a senhora?
- Não sou capaz de dizer(...)
Chéri tirou a carteira, ao mesmo tempo que olhava Ernest com um ar acariciador.
- Oh, Sr. Peloux, dinheiro entre nós? Decerto não pensa em tal. Mil francos não fariam falar um homem que nada sabe.(...)
Chéri subiu até à praça Victor-Hugo, fazendo rodopiar a bengala. Tropeçou duas vezes e esteve quase a cair(...) Chegado à balaustrada do metropolitano, debruçou-se, inclinado para a sombra negra e rósea do subterrâneo, e sentiu-se esmagado de fadiga.(...)
- E Léa? - perguntou de repente Desmond.
Chéri não tremeu: estava justamente pensando em Léa.
- Léa? Está no Sul. (...) Mas Chéri, ao mesmo tempo circunspecto e aturdido, não parou de falar de Léa. Disse coisas sensatas, impregnadas de um bom senso conjugal. Gabou o casamento, ao mesmo tempo que prestava justiça às virtudes de Léa. Cantou o carácter submisso da jovem esposa, para ter ocasião de criticar o carácter resoluto de Léa (...) E enquanto assim falava, abrigado por trás das palavras imbecis que uma desconfiança de amante perseguido lhe segredava, saboreava a felicidade subtil de falar dela sem perigo.
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Colette in "Chéri", Editorial Presença, Barcarena, 2009, pp 70 - 74 (Tradução de José Saramago).
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29/04/10

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em meio à perda
restam os totens
da memória
amnésia amnésia
sussurra cada centímetro
de cicatriz
esclerose esclerose
grita cada miligrama
de epiderme
o processo
cessa-se por vontade
do sujeito ao
acaso à minguante
atenção todo fim
é arbitrário e estas
instâncias estão feitas
como foram feitas

Ricardo Domeneck in "a cadela sem Logos", Ed. 7Letras e Cosacnaify,
Rio de Janeiro e São Paulo, 2007, p 88.
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28/04/10

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E de novo a sensação do mole e indefinido
Vago rumor que envolve as coisas e a solidão nocturna
Ecos longínquos trazem-me a distância
Algo agita o vento e levanta a areia
O deserto é mais vasto e o mar
É proa erguida do navio austero
Em que navega há séculos a sombra - e a miragem

Amélia Pais

(Nota: poema postado por gentileza da autora.)


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27/04/10

O sol se
põe
.
Girassóis olham o chão
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Eunice Arruda in "Mudança de lua", Scortecci Editora, São Paulo, 1986.
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Ver aqui:
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( Nota:
poema postado por gentileza da autora.)
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26/04/10

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     " Desabitada presença "
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Na foto ela está sorridente. Ar inocente,
conseguido. Ele também, triunfante e
pose a condizer, embora presa de presa,
mas sem o saber. Outros iguais nas mesas
vizinhas - esperam a hora para descer

aos bares. Pelo tamanho e pela feiura
reconheço o local - a Piazza Vittorio. Sempre
a detestei! Reconheço até a esplanada,
que constantemente evitava quando ia para aqueles
lados. Na foto lá estão os toldos branco-

-sujo a cobrir as mesas, as cervejas, os sorrisos.
A um traseunte foi-lhe roubado o espanto,
fixado naquele pedaço de papel sem brilho.
Debruço-me para dentro da foto, mas não
me vejo. Contudo, tenho a certeza que estou

ali - certeza inquestionável, sem dissimulação
nem álibi. Talvez esteja no interior de um carro,
à porta do café, na inquietação de um qualquer
pensamento. Mas não, não me vejo! No entanto
- e repito - tenho a certeza que estou naquela
foto, que reproduz um encontro a que não fui.
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 15.

25/04/10

Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, e eu éramos os mais jovens teólogos no Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965. Agora somos os mais velhos, e os únicos que continuam em plena actividade. Sempre entendi o meu trabalho teológico como sendo um serviço à Igreja Católica Romana. Por esta razão, por ocasião do quinto aniversário da eleição do Papa Bento XVI, faço-lhe este apelo (...)motivado pela minha profunda preocupação acerca da nossa Igreja, que se encontra na pior crise de credibilidade desde a Reforma.(...) a esperança de que o meu antigo colega da Universidade de Tubingen poderia encontrar o seu caminho e promover uma contínua renovação da Igreja e uma aproximação ecuménica dentro do espírito do ConcílioVaticano II.
Infelizmente, as minhas esperanças(...)não foram cumpridas(...) quando se trata de enfrentar os grandes desafios do nosso tempo, o seu pontificado desperdiçou mais oportunidades do que as aproveitou: - Perdeu oportunidade de aproximação às Igrejas protestantes. Em vez disso, tem-lhes negado o estatuto de Igrejas no verdadeiro sentido da palavras (...)- Perdeu a oportunidade de uma reconciliação duradoura com os judeus. Em vez disso, o Papa reintroduziu na liturgia uma oração pré-conciliar pela iluminação dos judeus, recebeu de novo em comunhão com a Igreja bispos notoriamente anti-semitas e cismáticos, e está activamente a promover a beatificação do Papa Pio XII, que tem sido acusado de não ter oferecido suficiente protecção aos judeus na Alemanha nazi.(...)- Perdeu a oportunidade de dialogar com os muçulmanos numa atmosfera de respeito mútuo.(...)- Perdeu a oportunidade de reconciliação com os povos indígenas colonizados da América Latina(...)- Perdeu a oportunidade de ajudar o povo africano, não permitindo o controlo da natalidade para combater o excesso de população, nem os perservativos para combater a propagação da sida.- Perdeu a oportunidade de fazer as pazes com a ciência moderna, não reconhecendo claramente a teoria da evolução, nem aceitando as investigações de células estaminais. Perdeu a oportunidade de fazer do espírito do Concílio Vaticano II a bússola para toda a Igreja Católica.
Este último ponto, respeitáveis bispos, é o mais importante de todos. Vezes sem conta, este Papa acrescentou qualificações aos textos conciliares e interpretou-os de forma contrária ao espírito dos pais da assembleia. Vezes sem conta, tomou expressamente posições contra o Concílio Ecuménico, que, de acordo com a lei canónica, representa a mais alta autoridade na Igreja Católica: - Recebeu de regresso à Igreja, sem quaisquer condições, os bispos da tradicionalista Sociedade PioX (---)- Promove por todos os meios a medieval massa tridentina e ocasionalmente celebra a eucaristia em latim de costas para a congregação.- Recusa colocar em prática a aproximação à Igreja Anglicana.(...)- Tem activamente reforçado as correntes anticonciliares na Igreja, nomeando elementos reaccionários para lugares-chave na Cúria (...) e nomeando bispos reaccionários em todo o mundo.
O papa Bento XVI parece estar cada vez mais afastado da grande maioria da Igreja(...) Na sua política anticonciliar, o papa recebe o apoio total da Cúria Romana. A Cúria faz todos os esforços para rebater as críticas ao episcopado e à Igreja como um todo e para desacreditar os críticos (...) as forças reaccionárias em Roma têm tentado mostrar-se perante nós como uma Igreja forte chefiada por um "vigário de Cristo" absolutista que junta apenas nas suas mãos os poderes legislativo, executivo e judicial da Igreja. Mas a política de Bento XVI falhou.(...) Isto é especialmente verdade no tocante a matérias de moral sexual. Até os encontros papais com a juventude, aos quais vão especialmente os grupos conservadores carismáticos, não têm conseguido parar a contínua perda daqueles que abandonam a Igreja(...)E agora, para além de todas estas crises, chega um escândalo de bradar aos céus - a revelação do abuso por parte de clérigos de milhares de crianças e adolescentes, primeiro nos Estados Unidos, depois na Irlanda, e agora na Alemanha e noutros países. E para piorar a situação, a maneira como estes casos têm sido tratados têm levado a uma crise de liderança sem precedentes e a um colapso na confiança na liderança da Igreja.
Não se pode negar o facto de que o esquema a nível mundial de cobertura de casos de crimes sexuais cometidos por clérigos foi idealizado pela Congregação para a Doutrina da Fé sob a direcção do cardeal Ratzinger (1981-2005). Durante o reinado do Papa João Paulo II, essa congregação já tinha tomado conta de todos esses casos, debaixo de juramento do mais estrito silêncio.(...)quero somente deixar à vossa consideração seis propostas(...) Não vos mantenhais silenciosos.(...)Defini reformas.(...)Aji de forma colegial(...) Mesmo em questões litúrgicas, o papa reina como um autocrata acima de e contra os bispos. Não se importa de os ter à sua volta, desde que não sejam mais do que figurantes(...) Obediência incondicional é devida apenas a Deus (...)Trabalhai em prol de soluções regionais (...)Pedi um concílio. É perfeitamente claro que a Cúria Romana, temendo limitações ao seu poder, fará tudo o que estiver ao seu alcance para eviar que um concílio se reúna nas presentes condições.(...)Com a Igreja em profunda crise, este é o meu apelo a vós, veneráveis bispos. Ponde a funcionar a autoridade episcopal que foi reafirmada pelo Concílio Vaticano II.
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Hans Kung in "Carta Aberta aos bispos de todo o mundo" in Jornal Público de 24 de Abril de 2010, p 4.
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Nota - Muitos dos livros de Hans Kung não se encontram traduzidos para português (variante de Portugal), no entanto para quem goste de investigar estes assuntos numa perspectiva de seriedade intelectual, e apenas para esses ( pois trabalhar em torno do Ateísmo não me torna ateu, nem documentar-me acerca de correntes religiosas me tranforma em crente...), talvez possa entrar na obra deste autor por: "Projecto para uma Ética Mundial", Hans Kung, Instituto Piaget, Lisboa, 1996. Em castelhano será também de ler: "El Cristianismo - Esencia e Historia", Hans Kung, Editorial Trotta, Madrid, 1997.
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24/04/10

AVISO - o texto que se segue é um poema e apenas como tal deve ser lido e ouvido. Contudo,
para aqueles que não gostam, em arte, de palavras vulgarmente designadas por "palavrões", poderão sempre evitar tal audição ou leitura.
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Nota- O poema que se segue foi o primeiro que encontrei do João Negreiros. Quando cheguei a casa e o mostrei à C. ficámos ambos fascinados com o texto. Mais tarde, na primeira conversa que tive - via telemóvel - com o João disse-lhe exactamente isso e ele chamou-me a atenção para o facto da sua escrita englobar outros registos. Confirmei . O interessante disto tudo
é que, dias depois, um casal de grandes escritores desta terra oferecia-me o "luto lento": eles sabiam que eu iria gostar! Eles sabem que eu não "gosto apenas"dos poemas que se integram na lírica amorosa. Outro pormenor: o estatuto do palavrão nesta escrita! Apesar deste blogue não ser um espaço de retórica nem dos meus malabarismos conceptuais, talvez não seja errado um dia voltar a falar desse assunto, embora não saiba a quem possa interessar o que eu penso acerca da relação arte (literatura, cinema, etc.)/palavrão...
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" ode ao filho da puta"

e querem estes filhos da puta que a gente lhes dê ouvidos quando nem temos o que comer
porque os filhos da puta se alambazaram antes de nós e deixaram-nos no toalha uma côdea
porque disseram que não era bom que tivéssemos miolos

e querem estes filhos da puta que confiemos neles e na merda dos fatinhos de pronto a vestir que lhes escolheu a amante ou a mulher enquanto ele a encornava
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e querem estes filhos da puta que a gente goste deles quando eles não gostam de nós
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os cabrões dizem bem de tudo e mal de todos e vão aos urinóis olhar para a cobra cega uns dos outros
só para ver qual é o que tem mais peçonha
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o Senhor Ministro leva aí um belo instrumento
ó Sousa isto não é nada mas já agora sacuda-ma para não me pingar para o fato
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e depois fazem um número nas entrevistas do canal cultural em que mostram as fotografias que tiraram na praia numa ilha qualquer miserável do Pacífico
e querem que a gente acredite que eles são humanos só porque andam de fato de banho
grandes filhos da puta
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eu queria era que um ciclone desse lá um saltinho e os levasse a todos para o inferno
se bem que o diabo não tem culpa nenhuma porque só está a fazer trabalho dele e não merece ter que levar com os vossos discursos
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ai os discursos
os filhos da puta dos discursos
os discursos dos filhos da puta a dizer que é importante que os grunhos que não sabem ler venham da terrinha para a guerrinha combater lá uns gajos que nem falam português
que um gajo para os matar tem que aprender a ler
e depois ainda tem que aprender a falar estrangeiro
e não é que os filhos da puta mandam a malta para lá sem qualquer curso de línguas
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e depois ainda vão ao enterro abraçar os orfãozinhos e comer-lhes os croquetes
e quando a viúva chega a casa e liga a televisão é só paz por uns tempos mas depois
quando o coveiro começa a ganhar fôlego
trata de comprar mais uma carrada de F17 que se vendem à grosa
mas para os países de terceiro mundo até pode ser avulso
e lá vão mais uns provincianos da terra p'rá guerra
e morrem sem saber ler nem escrever
e matam sem saber ler nem escrever
e depois quem fica cá sente aquilo tudo pelos noticiários como se fosse connosco
e quem não tem TV sente pelos GNR com a metralhadora à porta das embaixadas
que para nós é um brasileiro a dar toques
mas para os outros é um consolo ou um consulado
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e os filhos da puta nem sequer apanham trânsito
nem cheiram o sovaco do autocarro porque têm batedores que lhes fazem as claras em castelo p'ra que cheguem depressa ao palácio e se alambazem com as natas
e depois são os nossos representantes
esses filhos da puta
que falam como quem se peida
que gritam como quem caga mandam nesta merda toda
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e a liberdade e o genocídio são irmãos gémeos que vestem de igual e que lambem o mesmo chupa-chupa que é uma terra miserável a nadar em ouro negro
e a gente olha para eles e diz
aquele animal não pode ser o nosso presidente mas é o filho da puta é
aquele animal não pode ser o nosso ministro mas é o filho da puta é
.
e é vê-los todos a rir que quase lhes saem os dentes fora quando o espectáculo acaba
a gozar com o povinho que anda com eles às costas
e cada vez nos dói mais mas às vezes parece que não
que quando dizemos que nos dói muito os que ainda carregam mais que nós dizem que nem é tanto assim que agora andamos menos corcundas mas só me sinto de gatas
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e os meus irmãos dizem ser psicológico que antigamente é que era
que isto agora não é nada
dantes é que eles eram mesmo filhos da puta
agora disfarçam bem
e é tudo tão claro
estamos todos tão bem informados que já não há lugar para um bufo como eu
um bufo que denuncia os amigos que não prestam
um bufo que aponta o dedo a quem se deixa matar
um bufo que puxa a língua a quem acha que é melhor estar calado
e eu quero sê-lo para que esses filhos da puta não levem sempre a melhor
assim vão levar quase sempre a melhor
e vão beijar menos órfãos e violar menos viúvas
e na tristeza deles encontro a minha razão de viver
é no espaço que vai da relativa felicidade até à felicidade absoluta de um filho da puta que eu me encontro
.
e vou ficar lá para sempre a fazer barulho como o sino que lembra ao operário que a hora de almoço chegou
e que pode comer
mesmo que não tenha fome
mesmo que não saiba mastigar
mesmo que a marmita que trouxe de casa há séculos atrás lhe pareça uma miragem
mesmo que já não se recorde de quem é
de onde vem
e quanto sofreram seus pais na tortura
na prisão
na pobreza
mesmo que já não tenha ideia dos tempos que já passaram
das pessoas que já não estão
e das almas sem corpo que nos pedem todos os dias baixinho para resistir
resistir mesmo sem forças
sem futuro
e sem lembrar o passado
.
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João Negreiros in "luto lento", Papiro Editora, Porto, Editora, 2008, pp 71 - 75.
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23/04/10

... não só se antecipou no dia/ como não veio de vermelho...

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Hoje a cor é o roxo
de mosto
sobre tudo passando repassando em piedosa impiedosa velatura

Das grades dos portões feitas de chuva e vento
goteja mudo um sarro de desgosto
anónimo ulcerante
e ecoante em sobressaltos glaucos de roer
as unhas e tudo o que acontece e não devia talvez acontecer
uma palavra um gesto um compromisso

um sarro
que não deixa esquecer ou então recomeçar retroceder
a uma paz anterior que nunca houve mas ao menos se imagina
e só imaginá-la um minuto muda o roxo em rosa neutro inofensivo

um sarro
que não deixa apagar lavar raspar este hoje-roxo que tudo mancha e contamina

um sarro-chaga de raiva e sofrimento
de
que
pinga
um esverdeado pus que a vida toda mina de obsessivo
remorso que supura

e não é bem isso

Mário Dionísio in "poesia incompleta", Publicações Europa-América,
Mem Martins, 2ª edição, pp 343 - 344.
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21/04/10

"Voltei para curar feridas antigas e levar outras."

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A noite tombou e desta vez morcegos reais voam de palmeira para palmeira, vultos grandes, pesados têm mais sorte que as crianças da praia. De noite há sempre o que comer.
É de madrugada, fui ver e sentir o Mar. Mais vazio mas não tanto como quando era criança e podia andar até ao fundo onde não me era permitido quando o Mar enchia. Senti o macio e o escorregar do limo preso às rochas com todos os tons de verde até um que chega ao dourado, uma beleza de tapete natural que num movimento contínuo percorre as pequenas poças de água onde os peixes pequenos esperam a volta do Mar. Continuei na praia e quase ao chegar à curva da baía, vejo a casa onde brinquei...
- de lá corria para mergulhar-
... na mesma curva um amigo vinha com seu andar sem pressa. A mesma pressa que nos fez reencontrar num aperto de mão firme e largo.
- A senhora voltou, disse.
Voltei para curar feridas antigas e levar outras.
Voltei para vos ver e convosco ajudar o meu estar...
Um olhar terno mas já a sair da adolescência veio do rosto dele e percorreu o meu dedo indicando-lhe a casa onde brinquei em pequena (...).
Fizemos o resto da praia juntos até chegar a grupos grandes de homens que puxavam redes. Não me lembro nunca de ter ouvido ou visto esta forma de pescar no Wimbe. Os meus pés começaram a ser magoados por milhares de conchas partidas em pequenos pedaços.
Perguntei:
Há muito pescam assim?
Há algum tempo, senhora. É preciso trazer peixe.
O silêncio entre nós dois mergulhou no cascalho, sabendo que esta maneira de pescar não pertence ali.
Quem seria o viajante que a trouxe e sem pensar varre o fundo de um mar que não conhece?
(...)- tenho por hábito nunca apanhar conchas de nenhum Mar, se as apanho volto a deixar, para as ter basta cerrá-las na palma da mão, fechar os olhos, sorrir e voltar a pousar -
(...) Mal abro a porta, palavras em grito Macua vêm da praia apontando para mim e mostrando a outros homens que partiam para a pesca, de quem eu era. Mais uma vez a terra e a gente me mostrou que ali pertenço e malgrado os anos passados, nem nada nem ninguém me pode tirar esta identidade.
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Inez Andrade Paes in " O Mar Que Toca Em Ti", ed. autor, s/c, 2006, pp 9 - 17.
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20/04/10

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   "L'Eau"


Par la grâce de l'eau
Nous sommes nés à la terre

De sources en ruisseaux
De rivières en fleuves
De cascades en océans
Surpeuplant tous les sols
Au risque de naufrages

Issus de l'eau remuante
Nous subissons mêmes vagues
Mêmes houles mêmes remous
Mêmes écumes mêmes déluges
Jusqu'à mortelle sécheresse
En désertant le temps

Bâtis d'eau d'étoiles
Et d'une étrange chimie
Voués aux mutations
Fluides ou marécageuses
Voguant entre des berges
Ou bien à la dérive

Nous sommes les éphémères
Nous sommes les permanents.

Andrée Chedid in " Rythmes", Éditions Gallimard,
Paris, 2003, pp 110 - 111.
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14/04/10

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(Nota- Maria Eglantina, mulher de Fortunato Godinho da Silveira, era também chamada por outros nomes pela população das ilhas: Nha Chumpa, Nha Triste, Nha Santa...)
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Ao mesmo tempo que falava, Floriana estendia-se ao comprido sobre a cama, ficando deitada ao lado de Nha Chumpa. Ao recostar-se, as saias subiram permitindo que as pernas de Floriana tocassem ao de leve as da senhora. O coração da dona da casa iniciou uma batucada que Floriana podia ouvir e ver no decote da blusa rendada, onde o peito de Maria Eglantina se movia agitado. O momento há tanto tempo desejado por ambas aproximava-se do início. Floriana tomou e beijou docemente as mãos da sua Nha Chumpa, depois, inclinando-se sobre a face afogueada de Maria Eglantina, beijou com ternura as pálpebras cerradas. A senhora, de olhos fechados e com a alma a transbordar de ternura, procurou a boca de Floriana, beijando suavemente os lábios macios e carnudos.(...) Uma vacilante vertigem ganhara espessura e flutuava no espaço, conferindo mais brilho ao olhar das duas que transbordava de amor. Floriana amou no corpo de Nha Chumpa o que ele emanava e não a aparência física. Maria Eglantina, nas estranhas visões inspiradas pela paixão amorosa, vira em Floriana um anjo que lhe lia o rosto, as pontas dos seios e as imagens que a sua mente produzia.(...) Quando o coração acalmou e a razão se substitui à ternura e ao desejo, Nha Chumpa, atordoada, incrédula pelo local para onde fora transportada por momentos pelos beijos e mãos de Floriana, pediu para ficar sozinha.
- Afasta-te, quero ficar só!- implorou com voz firme. Floriana vestiu-se, dirigiu-se para a porta. Antes de a fechar atrás de si, olhou Nha Chumpa nos olhos e com suavidade, arrastando a voz, sussurrou.
- N' creu tcheu!
Nha Chumpa levantou-se da cama, vestiu sobre o corpo nu um roupão de algodão. Aproximou-se da janela (...). Já sozinha no quarto, culpabilizada por se ter entregue nos braços de uma mulher, proclamou, bendito e louvado seja o Senhor! Depois, mais recomposta e apaziguada, sentou-se num cadeirão (...). Uma enorme nostalgia apoderou-se do coração, levando-a a murmurar consigo propria.
- Nem o meu tão amado tenente me transportou com tanto carinho ao lugar onde reside o prazer. Será certamente arriscado transformar uma criada numa amiga, mas mais grave e perigoso é tranformá-la em amante - concluiu.
(...) Nessa mesma noite, Floriana não cumpriu a habitual tarefa de servir o jantar. Fortunato não reparou que foi a empertigada Joaquina a levantar os pratos, pôr e tirar da mesa terrina e travessas, despejar vinho e água nos copos dos patrões. A hora do jantar era sempre triste e silenciosa. Fortunato raramente falava com a mulher. Maria Eglantina respeitava o silêncio do marido, que só era interrompido pelo tilintar de copos e talheres.
No momento em que Maria Eglantina se preparava para deitar, o marido irrompeu pelo quarto. Sem bater à porta, gritou.
- Tens de me servir, o rapaz qualquer dia já rói ossos, precisa de um irmão! Maria Eglantina foi atirada para cima da cama, despida e possuída (...). Quando o tormento terminou, Nha Chumpa, enojada, levantou-se da cama (...) antes de entrar na casa de banho, ouvira Fortunato gritar.
- Não te laves! Porra! Quero outro filho!
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Henrique Levy in "Praia Lisboa", Livros de Seda, Lisboa, 2010, pp 142 - 148.
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12/04/10

"Poema IV"


Que veut la Poésie
Qui dit
Sans vraiment dire
Qui dévoie la parole
Et multiplie l'horizon

Que cherche-t-elle
Devant les grilles
De l'indicible
Dont nous sommes
Fleur et racine
Mais jamais ne posséderons?

"Poema V"

Ainsi chemine
Le langage
De terre en terre
De voix en voix

Ainsi nous devance
Le poème
Plus tenace que la soif
Plus affranchi que le vent!

Andrée Chedid in "Rythmes", Éditions Gallimard,
Paris, 2003, pp 32 - 33.
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11/04/10

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então ele quer
vender
realismo com ilusões
eis-me
o mercado qual
a vossa função
expectadores onde os
reflexos as polinizações
recíprocas
narrativa dos desastres
são acasos
mal interpretados
figuras
deslocadas à procura
de realização a história
surpreendida em sua
solidão "are you for
real" sempre ele
e suas perguntas
produzir imagens
para esconder
presenças será este o
conceito de cindy
sherman ele
diz personalidade eu
digo relação entre más-
cara e cara
que pessoa que
nada

Ricardo Domeneck in " a cadela sem Logos", 7Letras e Cosac-Naify,
Rio de Janeiro e São Paulo, 2007, p 39.
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10/04/10

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            "Medo"


Furo-te os olhos com os dedos magoados
como-te
torpor de medo as luas verdes
mordem-me a boca
do teu peito sobe o halo nacarado
a essência fútil das flores mortas
e novamente o medo
de nunca mais voltar a ser perfeito

Rui Costa in "As Limitações do Amor São Infinitas",
Sombra do Amor Edições, s/c, 2009, p 44.
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09/04/10

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Voler bene a una persona
è un lungo viaggio - -

rupi, cadute d'acqua e bui
improvvisi, dilatati
il chiuso di foreste,
lampi a volte
sul silenzio così vasto del mare

e strade sopraelevate, grida

viali immersi all'improvviso
in una luce sconosciuta.

Voler bene a uno, a mille, a tutti
è como tener la mappa nel vento.
Non ci si riesce ma il cuore
me l'hanno messo al centro del petto
per questo alto, meraviglioso fallimento.

Sugli altipiani di ogni notte
eccomi con le ripetizioni e le mani rovesciate della poesia:
non farli stare male, sono tuoi, non farli andare via.

Davide Rondoni in "Un bonheur dur", Cheyne Editeur,
Le Chambon-sur-Lignon, 2oo5, p 78.
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07/04/10

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          "Bar do Acaso"


Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro

e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.

Rui Costa in "As limitações do amor são infinitas",
Sombra do Amor Edições, s/c, 2009, p 26.
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05/04/10

"para os verter na palavra. em mil sentidos."

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"Poema 2 "

vários trilhos pelos passos construídos
fazem os lobos.

rasteiros
rente a desertos, à terra
domam o tacto à proximidade do solo.
a passagem é ligeira no horizonte:
matilha, mais que altiva, comprimida.

sisudos
solitários da montanha
são os olhos das pedras e do tempo
inesperados vultos dorsos ocultos
por raízes sarças e arbustos

guerreiros
os senhores da floresta
e do arco dos seus saltos em flecha
guardam clareiras e matas sombrias claras
entre garras dentes e o faro estridente.

vadios
são ladrões de quintais
e casas ciosas dos temperos.
lambem-se enquanto esperam para desfrutar
e desfrutam quando são os menos esperados.

urbanos
os visitadores de lixos
aprumam-se na arte do escutar
antes de se aproximarem com sacos
antes de abençoar o esbanjamento.

poetas, há,
lobos e lobas
os também mestres da natureza viva:
de olhar doce toque cativante
escutam, cheiram e lambem os sabores todos
para os verter na palavra. em mil sentidos.

Maria Toscano in "os lobos", Grácio Editor, Coimbra, 2010, pp 10 - 11.
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03/04/10

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"Una felicità dura, di più generazioni"


Aveva dentro racconti di cose mai
viste, sfollamenti, ritorni
mancati e altri, misteriosi,
dai geli della Russia.
E anni senza marito, due figlie
appese al collo sulle navi
tra Genova e l'Etiopia.

Aveva dentro uno spartito
con mille note che io
non ho mai sentito, una gran
copia di emozioni che chi di noi
ha mai vissuto...

Aveva negli occhi il ridere
d'aver conosciuto il suo uomo
davanti alla gabbia dei conigli
in un mattino aspro e gentile
quando lui salutò con due battute
volgarotte e celestiali.
Il suo uomo grande
partito prima di lei, servito
come un re
e come un bimbo poi
accompagnato fino all'ombra.

In lei,
gran madre,
era ospitale
anche il vago cenno
erano vere le apprensioni
persino l'ira che pungeva
a volte in fondo agli occhi.

Por il mondo?
Sì, per quello.

Ad ospitare ogni cosa
si soffre, molto.
Ocorre
una felicità dura, di più generazioni.

Davide Rondoni in "Un bonheur dur", Cheyne Editeur,
Le Chambon-sur-Lignon, 2005, pp 20 - 22.
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(Nota - este é o primeiro de um ciclo de poemas
que Rondoni dedica à avó materna.)
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02/04/10

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"Poema XXXVII"

Nunca sabemos o nome dessa constelação
que nos cega. Como sonâmbulos, tateamos
o rumo dos meteoros, o luzir dessa sílaba
a amadurecer nossa humanidade. Jamais
conhecemos o segredo desse horizonte
que nos fecunda. Sem roteiros, sem mapas,
erramos por entre noites de profundo silêncio.
Nessa caminhada, sem paradeiro, sem itinerário,
as surpresas tatuam em nossos ombros
a fulguração das galáxias mais altas. É nossa
eterna sina talhar nos sonhos a rutilância
dos astros esquecidos. Nunca ouvimos
o acorde dessa estrela que nos esculpe.
Somente os milagres nos guiam, sempre,
rumo às nascentes de todas as palavras.

Alexandre Bonafim in "Sagração das despedidas", Biblioteca 24x7,
São Paulo, 2009, p 50.
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01/04/10

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            " Deambulação e fuga "
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Agora não. Agora esta impávida frieza a descer
as ruas. Este esmorecer da tarde nas aprazíveis
fachadas barrocas. O alinhamento das mesas,
sob as arcadas, ostensivamente esperando o nocturno
tumulto de nada. Agora as lojas, as rasgadas
montras, o néon. Agora o meu intento difuso -
tantos anos depois - a enviesar a rota para um encontro

de mim. Inevitável encontro (sem modas nem
circunstâncias) à revelia de tanta e tanta coisa,
sobretudo da memória; pegajosa fuligem a enegrecer
um desejo já morto, fantasias que também tive,
tão ridículas quanto inúteis. Agora eu - apenas;
esta alegria recuperada sem abastardamento
ou traiçoeira amarra sibilinamente a infiltrar-se,

como outrora. Eu a prosseguir, a saborear a Via
Roma no escondimento de passagens outras,
longínquas... Na Piazza San Carlo, Emanuel Filiberto,
de cima do pedestal, parece reconhecer-me. Ou talvez
enfadar-se. Nem eu sei bem! Santa Cristina, desta vez
sem as coisas dos restauros, oferece-me as portas
abertas com parcimónia. Mas eu fico - cruzamento

de cultos e sentires ao arremedo de mim. Fico
e a cidade acolhe-me como um imenso regaço,
um aconchego de vozes a incitar voos. Agora não.
Agora é tarde. Demasiado tarde. É tempo de te arrancar
à volátil orgânica da fala. De te excluir. De te
dissolver no ar como barca de vento à deriva.
E depois, após tão justo feito, regressar a casa
como se nunca nada tivesse acontecido.
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Victor Oliveira Mateus in "Regresso", Editora Labirinto, Fafe, 2010, p 16.
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31/03/10

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"Protecção"


Quem mantém o lugar intocado
regressa sempre,
ainda que a estrada seja árdua
e a distância assustadora.

Não lhe faltam as colinas fulvas,
a sombra das árvores.
Multiplicam-se as searas.

Quem nasce do que vê
alimenta-se do seu próprio caminho.
Adquire alento na cinza
de cada um dos seus passos.

Nada espera das ideias que repetem a vida,
do seu passado e do seu futuro.
Só tem a protecção do desconhecido.

Joel Henriques in "A Claridade", Editora Casa do Sul,
s/c, 2008, p 58.
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30/03/10

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"Ignorância"


Ninguém sabe o nome das ruas
que conduzem à ventura.
Ninguém recorda o endereço
da sua felicidade.

Muitos percorrem as avenidas,
sempre vazios,
satisfeitos com os nomes
que as justificam.

Onde descobririam
a sua incandescência de estuário?
Onde, o seu desígnio?

Ao fundo destas ruas, não fica o eterno,
apenas o teu rosto e verbos transitivos.

Joel Henriques in "A Claridade", Editora Casa do Sul,
s/c., 2008, p 56.
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29/03/10

" (...) e entrego um exemplo/ aos que assistem e sonham ao contrário,"

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"Trampolim de 20 Metros"

Todos aplaudem os movimentos
que executo ao voar da prancha
para a água. E creio que são merecidos.
Procurei a perfeição em longas horas
de frio e solidão. Treinei
vezes sem conta o triplo mortal,
os mortais à rectaguarda, os empranchados.
Decido como quero o meu caminho
até à água e entrego um exemplo
aos que assistem e sonham ao contrário,
lamentando o tempo perdido e a obesidade.
Rasgo o pano líquido - navalha
afiada, inteiriça, mas com medo do sangue.
Depois subo à superfície
para receber os aplausos e ouvir os elogios,
embora me mantenha atrás duma cortina.
Ninguém sabe o que se passa dentro
de água, como simulo
aí reter-me, tocar no fundo, permanecer
no fundo o máximo de tempo possível.

José Ricardo Nunes in "Versos Olímpicos", Deriva Editores,
Porto, 2009, p 25.
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28/03/10

"Não me alarmo com o rosto/ que a vertigem puxa para dentro,"

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"Controlo Anti-Doping"

Tomam comprimidos, injectam
drogas e químicos poderosos
com o desejo de superar os limites
impostos à condição humana.
A qualquer preço adquirem força,
velocidade, um corpo transformado.

Há muito que o doping alastrou
do ciclismo às demais modalidades,
corrompendo a prática desportiva
e minando o espírito olímpico.
Combatê-lo é proteger o negócio.
Vence a verdade desportiva,
uma prosa sem honra nem brilho.

Comigo nunca foi assim.
Sento-me à secretária e escrevo.
Não me alarmo com o rosto
que a vertigem puxa para dentro,
desconexo, quase irreconhecível,
adulterado pelos efeitos secundários.

José Ricardo Nunes in "Versos Olímpicos", Deriva Editores,
Porto, 2009, p 19.
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26/03/10

"Sou um homem fiel a lugares,/ como sou fiel (demais) a mim mesmo, "

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...
Eis Leicester Square, não preciso de sonhar mais.

Sou um homem fiel a lugares,
como sou fiel (demais) a mim mesmo,
como sou fiel (demais) a sentimentos,
como sou fiel (demais) a ideias e princípios,
mas os bares, como a Roundhouse, nasceram
exactamente para nos esquecermos de tudo isso
e principalmente de nós mesmos,

do lixo que trazemos
e das ideais e princípios e sentimentos que nos amarram.

Sinto-me bem e leve no meio de tanta gente,
de tantas raparigas,

aqui a vida conflui
de agora e do passado, é só uma e sem hiatos,
daí que veja Ana Bolena misturada connosco,
a beber e a vozear como os outros,

só um discurso de Churchill na rádio nos silenciaria,
hipótese que se admite possa acontecer,
na Roundhouse nada há que não suceda.

Mais do que um confessou ter visto Eliot
no passeio oposto, enquanto uma celta afirmou
ter surpreendido Robin Wood a assaltar o
Barclay's Bank com a namorada. Jurou-mo
entre gargalhadas cristalinas de desejo.

Ó tentação,

o pint de cerveja era uma ponte ideal para ambos,

ou o restaurante tailandês onde irei jantar
por recomendação de amigos, o Srim Siam,

os amigos são óptimos para dar estas indicações.

Telefonei da manhã do hotel, que continuava
o naufrágio lamentável, telefonei a reservar mesa,

e a celta tem uns dentes tão brancos que me dói
olhá-los na boca húmida, aberta em gargalhadas,

ó fauno da ibéria romana,
ó bode selvagem do Gerês,
que misturada e primitiva humanidade é a nossa?

Sob o meu fato e o vestido negro dela
ocultam-se dois ímans duros que esperam.
(...)
Não, não quero complicações sentimentais,
não é isso que Londres me exige, nem a gente que passa.

Os estados de graça requerem abstinência, senão fenecem.

Não se pode tocar no sonho, as visões oníricas do fascínio
não permitem mais do que uma participação entusiasta,
o seu entendimento, a solidariedade que embebeda.

E esse é outro amor,
tudo se sabe que irá ser possuído, e sabê-lo
é já um orgasmo que eleva.

Não quero pensar no avião que partirá.

Nuno Dempster in "Londres", &etc, Lisboa, 2010, pp 42 - 44.

(Nota - o presente texto é um poema com algumas dezenas de páginas,
portanto outras opções poderiam ter sido feitas. Assim, poder-se-á ver
igualmente algumas das principais linhas de força desta poesia (pp.
13-16), a questão da beleza numa vida que é essencialmente contradição
(pp 26 - 27), a noção de efemeridade ligada ao poder e ao amor (pp. 36-37),
a irónica relação do teatro com o metropolitano (pp 39 - 41), etc. Optei por
este excerto, mas outras escolhas eram igualmente legítimas e justificáveis...)
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25/03/10

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      "Mayeútica"


El mundo sugiere.
No espero la visita de la musa,
voy por ella, la traigo de la mano.
Los que me conocen
dicen que la mía es una vida triste.
Pretender pasar las horas con una desconocida
discutiendo, discutiendo.
No pueden imaginar cuánto prefiero
su hiriente compañia,
el argumento casi siempre contrario,
la sarcástica sonrisa triunfadora,
al complaciente parloteo de todos ellos,
mis simpáticos amigos.
Dicen también que mi figura da pena
cuando a cualquier hora y de cualquier manera
salgo a buscar la escurridiza musa,
y vuelvo sola y se me oye inventar monólogos
que imitan sin gracia al diálogo.
Pero después de cada fracaso pienso:
Mañana volveré a buscarla,
si tiengo suerte
ella traerá su arpa y entre discurso y discurso,
tocará para mí una música espléndida.

Lauren Mendinueta in "La vocación suspendida", Editorial Point de lunettes,
Sevilla, 2008, p 54.
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24/03/10



      "Luz y Raíz"


Luz encendida la de esta hora
en la que el día suelta su cuerda y
cae la oreja sangrienta del ocaso.
Detrás de las piedras amontonadas
en algún lugar de la playa, cerca,
un rostro desierto de belleza
cuenta aquello visible sobre el agua.
Hombres que regresan al puerto
solos, cansados y sin infancia,
acompañarán el grito de las gaviotas,
como han ignorado vida tras vida
la luz de bronce, pesada y ciega,
de cada tarde. Adónde escapar?
Cielo del que no tenemos memoria,
luz encendida la de esta hora,
rostro desierto de su belleza,
aliento perdido, raíz del mundo,
puerto Colombia que te niegas al consuelo,
encendida lámpara de la miseria.

Lauren Mendinueta in "La Vocación Suspendida", Editorial Point de lunettes,
Sevilla, 2008, p 35.
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23/03/10

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"Visitador secreto"


Chegaste de Atenas,
Viril dos ginásios.
Celebram avenas
Os teus olhos gázeos.

E que novas há
Do sábio Platão?
No Banquete, já
Lhe estendeste a mão?

Já despiste a túnica
Diante de Zeus?
És a b'leza única
Que merece um deus?

Serviste-lhe a copa?
Vergaste o joelho?
Preferiu-te a boca
Ao vinho vermelho?

Narciso e jacinto
Exalam, liberto,
O aroma que sinto
Ao chegares mais perto.

O mar do Estio
Vai vestir de azul
E espuma do cio
O teu corpo nu.

No Outono, as chuvas
Alagam-te o rosto
Com sangue das uvas
E álcool do mosto.

Ignorando o amor,
O teu sexo espera
Desfolhar-se em flor
Pela Primavera.

António Manuel Couto Viana in "Ainda Não", Averno, Lisboa,
2010, pp 37 - 38.
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21/03/10

"Ah, esses velhos/ poetas chineses... "

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Les poètes chinois,
ces vieux poètes chinois,
s'enivrent et lèvent les yeux,
vers les oies sauvages qui tirent
à leur suite la tristesse de l'automne.
Ou encore, contemplant
la surface de l'eau,
leur propre image mirée,
ils peignent des vers qui
parlent d'un rameau de prunier en fleurs.

Ah, ces vieux
poètes chinois qui
quintessencient l'ivresse en poésie de la vieillesse.

Zbynèk Hejda in "Valse mélancolique", Cheyne Éditeur,
Chambon-sur-Lignon, 2008, p 61 (Tradução do checo para
o francês de Erika Abrams).
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19/03/10

"Maria Toscano: a serena construção da persistência"

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Longa tem sido a marca de toda uma imagética de cariz lupino na cultura do ocidente. Na Antiguidade tanto a podemos encontrar na mitologia - como é o caso do mito da formação de Roma -, como nos textos literários, alguns deles com vincada função normativa, como por exemplo a célebre fábula "O lobo e o cordeiro" de Esopo, que mais tarde La Fontaine viria a retomar. Maria Toscano, com este seu novo livro, insere-se assim num continuum literário, onde grandes nomes se inscrevem, mas cuja simbologia ela subverte em função de intentos que se distinguem dos tradicionais. Esta sua obra apresenta-nos de imediato um heterodoxa tecedura que, obedecendo a uma lógica triádica, parece querer provocar o leitor naquilo que nele é capacidade de apreender e dar sentido a uma obra de poesia: estamos frente a um extenso poema subdividido em sete partes? Deparam-se-nos sete longos poemas articulados entre si? Apresenta-se-nos um conjunto de pequenas unidades poemáticas que, apesar de ordenadas segundo um percurso, é aleatoriamente que remetem umas para as outras? Nenhuma opção toma a poeta, e não a toma porque, numa obra onde o discurso aponta para o que é livre, também no campo formal caberá ao leitor a decisão de como quer ler, até - quem sabe? - segundo uma alternativa nem sequer ainda pensada.
Maria Toscano, neste seu texto, parte de duas noções fundamentais: a "cruel chaga" e os "lobos vivos" ("cruel chaga/ aliementa os lobos vivos" p. 3; "somos várias gerações de descendentes/ fazemos os trilhos a passo à mão a pulso./ habitamos a tenaz identidade/... da livre matilha dos lobos vivos" (p. 43). Numa constante relação dialógica com elas, um novo par de conceitos irrompe: a "impermanência" e os "trilhos" (" os lobos fazem muitos trilhos/ circunscritos à fronteira da impermanência" p. 12, cf. também pp. 1o, 18...), se os trilhos são tomados, pela poeta, na sua visão corrente, já a ideia de impermanência assume, nesta poesia, um conjunto de sentidos que tanto pode significar o devir heracliteano, como um hegeliano dizer-se na História, ou ainda a mobilidade fenoménica tal como a entende a filosofia budista. Maria Toscano, como fizera com os aspectos formais da obra, irá também construir, com exigência e mestria, toda uma filigrana poética marcada por um jogo de progressão e remissões, que nos conduz, através de um solo com um cunho igualmente antropológico, a um território onde a liberdade seja de modo indelével e absoluto: "têm matilhas de onde partem e onde voltam/ onde, um dia voltarão inteiros, vivos/ seguindo os sinais da cruel ferida aberta/ chaga mantimento mapa// a ferida ilesa que os encaminha." (p. 16); "os lobos trabalhadores (...)/ Ao trabalhar seus caminhos acenam para o longe" (p. 21).
Esta "errância" (cf. p. 36) dos vários grupos sociais como se de lobos se tratasse remete-nos imediatamente para uma obra emblemática do nosso século XX: "Sei que Vosselências ignoram-no, mas eu posso garantir-lhes: o serrano, que os senhores se propõem imolar nas aras dum pretendido progresso, é um misto de desespero, orgulho, mansidão, meio lobo, meio carneiro (...) A serra é por assim dizer a extensão universitária destas aldeias rupestres e broncas, autênticas terras do Demo" (1). Os lobos de Maria Toscano, tal como os de Aquilino (Teotónio Louvadeus, o advogado Rigoberto, etc.), pugnam pelo que é livre e autêntico, ou seja, por essas serras (ou cidades?) onde possam ressoar as copas das árvores e os uivos dos "lobos vivos", e tal como o romancista também a poeta opera uma cisão no seio do universo lupino, já que em ambos, os lobos não são apenas os que ousam ("domam rostos coloridos de casas/ domam lavas. abrigos/ pedras vizinhas." (p. 20), "dedo-a-dedo nos musgos da irreverência desenham a imprevisível escrita" p. 24, "ateiam a fronteira permanente da serena inquietude radical" p. 28), eles encarnam também instituições, normas e modelos de comportamento propagados numa sociedade onde um ditador "decretava o medo, a honra da pobreza" (p. 41) e " proibia fartura beleza canto e riso" (idem).
Estamos, pois, com Maria Toscano, frente a uma poesia que nada tem a ver com qualquer tipo de niilismo individualista, cujas invectivas acutilantes apenas possam servir ao contexto na imagem de tolerância que de si encena. Na sua poesia é precisamente o contrário que acontece: são inúmeras, e perpassam por toda a obra, as alusões à circunspecção dos seus lobos ("os artífices da espera tecedeira das estações" p. 20, "de olhar ardente/ compasso vagaroso" p. 34... e até as lobas são "tão pacientes como laboriosas" p. 32); aqui é precisamente outro o itinerário: foi pacientemente que o Estudante, o lobinho que a personagem de Aquilino criou, roeu a trela; foi com siso e reflexão que Harry Haller, o lobo das estepes de Hermann Hesse, foi corroendo o contexto em que vivia: "Porque isto era o que eu mais odiava, detestava e maldiizia principalmente no meu foro íntimo: esta auto-satisfação, esta saúde e comodidade, este cuidadoso optimismo burguês, esta bem alimentada e próspera disciplina de todo o medíocre, normal e vulgarmente aceite" (2). O estrepitoso ulular dos encarcerados não convém a estes lobos de Maria Toscano, eles são de outra cepa: há neles, paradoxalmente, algo de felino, pois sabem que a persistência se rege por um sereno, mas nunca desistente, envolvimento com a práxis. Por conseguinte, tal como em Hobbes, se - no seu Estado Natural - o homem é semelhante ao lobo e tenderá a devorar aquele que se lhe apresenta como mais fraco, a matilha terá de, cuidadosamente, instituir formas de poder, que, sem os malabarismos teóricos do filósofo inglês (3), levem a cabo formas de convivência inequivocamente justas e livres. E é citando Jorge de Sena, Camões, Natália Correia e Fernando Pessoa (p. 34), que a poeta articula sabiamente todo este legado e preocupações, não só com o seu próprio projecto poético, mas também com outras escritas que nos parecem querer acenar aqui e acolá, como por exemplo alguns textos de Manuel da Fonseca e de José Rodrigues Miguéis.
Herdeira de movimentos e registos tão diversificados como os aqui referidos, Maria Toscano de todos se demarca na edificação de uma voz que pretende nítida e singular. Específico é também o modo como articula o seu olhar sobre o social com a escorreita e envolvente descrição do mundo dos afectos (não nos podemos esquecer dos vários excertos que falam do relacionamento dos lobos com as lobas e destas com as suas crias), bem como a forma como às páginas lança os seus versos, quais ondas que, em sua cadênciada musicalidade, nos incentivam o cismar em prol de um lugar que queremos próximo e sem escolhos de qualquer tipo.
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(1) Aquilino Ribeiro in "Quando os lobos uivam", Livraria Bertrand, Lisboa, 1974, p. 69.
(2) Hermann Hesse in "El lobo estepario", Editorial Seix barral, Barcelona, 1985, pp. 24 - 25 (Tradução do autor do Prefácio).
(3) Cf. Hobbes, Leviathan, Everyman´s Library, New YorK, 1973 (Chap. XVII - Of Common Wealth-, pp 87 - 90; Chap. XXVI - Of Civill Laws -, pp. 140 - 154).
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Victor Oliveira Mateus in "Os Lobos" de Maria Toscano, Grácio Editor, Coimbra, 2010.
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