23/05/11

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" Oscar Wilde a Lorde Alfred Douglas"


Basta-nos sentir as portas
a baterem contra o vento,
o ferro a rachar o fogo
das soleiras, a sombra erguendo-se
da camilha para trazer o corpo
aos ombros. A fímbria
de um gesto criminoso.

Basta-nos aumentar o volume
até ao silêncio, estoirar os tímpanos
com o bafo sêfrego das bestas,
cumprimentar o desejo
até uma próxima e paradoxal
despedida. Basta-nos sentir

que sentimos o tom profético
da cada aceno, quando pela
secura dos dias um de nós
se chega ao outro e diz: vem-te
para cá, para dentro desta cela,
deixa-me sentir o teu perfume
mais deseducado, condenável.

  Henrique Manuel Bento Fialho in "A Dança das Feridas", Edição do Autor, s/c., 2011, p 87.
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